Chapter 8

Image pg263O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.){264}{265}—Perdoe-me, senhor Adalberto, se ouso ainda dizer-lhetu; é a ultima vez! Não nos veremos mais sobre a terra...E Gella desatou a chorar. A senhora de Valneige respondeu:—Não chores, minha filha, diz-me o coração que nos havemos de tornar a vêr; sê honrada, sê christã e Deus será comtigo. Não sei o que vai ser de ti; mas, visto que a tua enfermidade não te deixa d'aqui por diante seguir uma vida de saltimbanco, quero ajudar-te a trabalhar ou como costureira ou fundando-te um pequeno negocio. Acceita este dinheiro, que pagará a tua viagem e te permittirá começar qualquer coisa e esperar o ganho.Ao mesmo tempo entregou a Gella um bilhete de quinhentos francos. A doente via este bilhete na sua mão e não podia acredital-o.—Senhora, disse ella, confunde-me com tanta bondade!... Mas eu não posso acceitar este dinheiro. É verdade que esta somma me salvaria, que eu ganharia facilmente a minha vida em Lyão, ao pé de minha tia, e que meu pae, vendo-me começar um pequeno commercio, renunciaria, talvez, ao seu modo de vida, que presentemente o cansa; mas que lhe hei de eu dizer, quando elle me perguntar d'onde me vieram estes quinhentos francos? É preciso que elle não desconfie de cousa alguma.—Responde-lhe que uma senhora te viu no hospital, se compadeceu da tua desgraça e{266}que te quer ajudar na tua laboriosa existencia.—Mas se quizer saber o seu nome?—Dize-lhe que me chamo... uma senhora de caridade.—Oh! sim. A caridade em pessoa. Eu não sabia que n'este mundo se podia achar tanta bondade. Desde a minha infancia só conheci o mal. Agora, minha senhora, creio bem na caridade.Gella beijou as mãos da sua protectora, e levantou para ella um olhar de reconhecimento.De repente, por um sentimento profundo de gratidão e de piedade, a senhora de Valneige disse-lhe:—Agradeço-te, Gella, o não teres nunca concorrido para a infelicidade de meu filho, e teres querido entregar-m'o. É preciso que haja entre nós uma ligação; vou dar-t'a, has de guardal-a toda a vida.Cortou então um dos lindos e loiros caracoes de Adalberto, e deu-o áquella infeliz, que respondeu humildemente:—Eu não sou digna d'elle! Oh! obrigada, obrigada, senhora!Depois ficou como desfallecida pela surpreza e pelo enternecimento, e tendo chegado a hora da separação Gella, só com as suas recordações, escutou, com o coração despedaçado, os ultimos passos do pequeno Adalberto....A senhora de Valneige depois de ter cumprido{267}esta piedosa digressão, voltou para acasa branca, e seu marido approvou tudo quanto ella tinha feito e dito.Durante o dia passearam pelos arredores. O verdadeiro motivo d'este passeio foi ver as pessoas, que tinham tomado uma parte tão activa em libertar Adalberto.Acharam na sua pequena casa, e sob os olhos de sua avó, a lindinha Josephina, cuja intrepidez tinha sido directamente a felicidade de todos. Recebeu um beijo da feliz mãe, e depois, como o senhor de Valneige tinha preparado todas as coisas, aconteceu que a avó, que não tinha outra herdeira senão Josephina, se achou proprietaria da sua residencia, que até ali tinha alugado.Isto fez na terra um tão grande effeito, que desde então começaram a comprimental-a com toda a consideração, e o grande Lucas prometeu fazer dansar a pequena n'uma festa que ia haver, apezar d'ella ainda não ter tamanho para isso, e de ninguem olhar para ella como se não fosse já criança.O socegado Baptista, que estas emoções espertaram um pouco, ficou relacionado com os habitantes de Valneige, e combinou-se que faria remessas de queijo e harenques, para o palacio, para a villa e para a quinta. Deram-lhe, além d'isto, um elixir admiravel para calmar as dôres de dentes, a que era sujeito, infelizmente!{268}Quanto á tia Tourtebonne foi preciso desistir de a achar em casa. Chamaram-na ácasa branca, e os felizes paes de Adalberto, assegurando á sua velhice uma pequena quantia, dispensaram-na de rodar mais tempo o seu carrinho.O seu reconhecimento exprimiu-se calorosamente; entremeava estas expressões de vivas e fortes censuras dirigidas a si mesma, porque não podia perdoar o ter impensadamente dito ao conductor: «Partamos! partamos!» quando uma camponeza pallida e tremula tinha gritado: «És tu?»Escusado é dizer que era realmente a senhora de Valneige, procurando mysteriosamente seu filho, e misturando-se na turba, graças ao seu disfarce. A boa da mercadora foi-se embora dizendo:—Fui eu que demorei a sua felicidade, minha senhora, que pena!Um momento depois, pensando na sua fortuna, ficou radiante e disse a Sophia:—Espero que me hei de divertir, e passar o tempo sem trabalhar.Que succedeu? A boa da mulher divertiu-se, é verdade; mas o habito tornara-se para ella uma segunda natureza, e reconheceu que o maior de todos os seus prazeres era o de rodar o seu carrinho. Não suppunha isto, mas comprehendeu-o pelo aborrecimento profundo que se apoderou d'ella, quando interrompeu o seu{269}activo viver. Por isso, como mulher sensata que era, tornou a ser vendedora e tudo se passou o melhor possivel. Evitava sómente a chuva, a neve e as ventanias; e, em vez de dar por esmola maçãs meias podres, dava das boas e das bonitas, o que para ella era um gozo.D'este modo o resgate de Adalberto foi uma felicidade para toda a gente. Não deixaram acasa brancasem terem recompensado largamente os criados. Não sabiam o que haviam de dar a Natchès, que só apreciava o que comia; teve um grande cartuxo de bôlos.A familia de Valneige, depois d'alguns mezes de viagem, passou o inverno no meiodia, e voltou na primavera para esperar os amigos em Valneige, porque tinham promettido que aquellas doces relações se estreitariam todos os annos por algumas semanas que passariam juntos. Que de vezes as duas mães se recordaram uma com a outra da época de miseria e de tristeza, que tinha atravessado a adorada criança! Que de vezes, como a senhora Deschamps tinha previsto, a sua amiga pegou na fita doirada, que guardava como testemunha dos dias de adversidade!Adalberto cresceu na obediencia.Hoje, que é um homem, obedece ainda; obedece ás ordens de Deus, ás leis do seu paiz, aos conselhos e aos desejos de seus paes. Um dia, quando for pae de familia, dirá como lhe diziam:{270}«Obedecei, meus filhos.»Dizemol-o a todos, jovens leitores. É bom, é util, é necessario obedecer. Possam todos aprendel-o no seio da sua familia, e não, como Adalberto, sob os golpes da desgraça!FIM.

Image pg263O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.)

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O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.)

{264}{265}

—Perdoe-me, senhor Adalberto, se ouso ainda dizer-lhetu; é a ultima vez! Não nos veremos mais sobre a terra...

E Gella desatou a chorar. A senhora de Valneige respondeu:

—Não chores, minha filha, diz-me o coração que nos havemos de tornar a vêr; sê honrada, sê christã e Deus será comtigo. Não sei o que vai ser de ti; mas, visto que a tua enfermidade não te deixa d'aqui por diante seguir uma vida de saltimbanco, quero ajudar-te a trabalhar ou como costureira ou fundando-te um pequeno negocio. Acceita este dinheiro, que pagará a tua viagem e te permittirá começar qualquer coisa e esperar o ganho.

Ao mesmo tempo entregou a Gella um bilhete de quinhentos francos. A doente via este bilhete na sua mão e não podia acredital-o.

—Senhora, disse ella, confunde-me com tanta bondade!... Mas eu não posso acceitar este dinheiro. É verdade que esta somma me salvaria, que eu ganharia facilmente a minha vida em Lyão, ao pé de minha tia, e que meu pae, vendo-me começar um pequeno commercio, renunciaria, talvez, ao seu modo de vida, que presentemente o cansa; mas que lhe hei de eu dizer, quando elle me perguntar d'onde me vieram estes quinhentos francos? É preciso que elle não desconfie de cousa alguma.

—Responde-lhe que uma senhora te viu no hospital, se compadeceu da tua desgraça e{266}que te quer ajudar na tua laboriosa existencia.

—Mas se quizer saber o seu nome?

—Dize-lhe que me chamo... uma senhora de caridade.

—Oh! sim. A caridade em pessoa. Eu não sabia que n'este mundo se podia achar tanta bondade. Desde a minha infancia só conheci o mal. Agora, minha senhora, creio bem na caridade.

Gella beijou as mãos da sua protectora, e levantou para ella um olhar de reconhecimento.

De repente, por um sentimento profundo de gratidão e de piedade, a senhora de Valneige disse-lhe:

—Agradeço-te, Gella, o não teres nunca concorrido para a infelicidade de meu filho, e teres querido entregar-m'o. É preciso que haja entre nós uma ligação; vou dar-t'a, has de guardal-a toda a vida.

Cortou então um dos lindos e loiros caracoes de Adalberto, e deu-o áquella infeliz, que respondeu humildemente:

—Eu não sou digna d'elle! Oh! obrigada, obrigada, senhora!

Depois ficou como desfallecida pela surpreza e pelo enternecimento, e tendo chegado a hora da separação Gella, só com as suas recordações, escutou, com o coração despedaçado, os ultimos passos do pequeno Adalberto....

A senhora de Valneige depois de ter cumprido{267}esta piedosa digressão, voltou para acasa branca, e seu marido approvou tudo quanto ella tinha feito e dito.

Durante o dia passearam pelos arredores. O verdadeiro motivo d'este passeio foi ver as pessoas, que tinham tomado uma parte tão activa em libertar Adalberto.

Acharam na sua pequena casa, e sob os olhos de sua avó, a lindinha Josephina, cuja intrepidez tinha sido directamente a felicidade de todos. Recebeu um beijo da feliz mãe, e depois, como o senhor de Valneige tinha preparado todas as coisas, aconteceu que a avó, que não tinha outra herdeira senão Josephina, se achou proprietaria da sua residencia, que até ali tinha alugado.

Isto fez na terra um tão grande effeito, que desde então começaram a comprimental-a com toda a consideração, e o grande Lucas prometeu fazer dansar a pequena n'uma festa que ia haver, apezar d'ella ainda não ter tamanho para isso, e de ninguem olhar para ella como se não fosse já criança.

O socegado Baptista, que estas emoções espertaram um pouco, ficou relacionado com os habitantes de Valneige, e combinou-se que faria remessas de queijo e harenques, para o palacio, para a villa e para a quinta. Deram-lhe, além d'isto, um elixir admiravel para calmar as dôres de dentes, a que era sujeito, infelizmente!{268}

Quanto á tia Tourtebonne foi preciso desistir de a achar em casa. Chamaram-na ácasa branca, e os felizes paes de Adalberto, assegurando á sua velhice uma pequena quantia, dispensaram-na de rodar mais tempo o seu carrinho.

O seu reconhecimento exprimiu-se calorosamente; entremeava estas expressões de vivas e fortes censuras dirigidas a si mesma, porque não podia perdoar o ter impensadamente dito ao conductor: «Partamos! partamos!» quando uma camponeza pallida e tremula tinha gritado: «És tu?»

Escusado é dizer que era realmente a senhora de Valneige, procurando mysteriosamente seu filho, e misturando-se na turba, graças ao seu disfarce. A boa da mercadora foi-se embora dizendo:

—Fui eu que demorei a sua felicidade, minha senhora, que pena!

Um momento depois, pensando na sua fortuna, ficou radiante e disse a Sophia:

—Espero que me hei de divertir, e passar o tempo sem trabalhar.

Que succedeu? A boa da mulher divertiu-se, é verdade; mas o habito tornara-se para ella uma segunda natureza, e reconheceu que o maior de todos os seus prazeres era o de rodar o seu carrinho. Não suppunha isto, mas comprehendeu-o pelo aborrecimento profundo que se apoderou d'ella, quando interrompeu o seu{269}activo viver. Por isso, como mulher sensata que era, tornou a ser vendedora e tudo se passou o melhor possivel. Evitava sómente a chuva, a neve e as ventanias; e, em vez de dar por esmola maçãs meias podres, dava das boas e das bonitas, o que para ella era um gozo.

D'este modo o resgate de Adalberto foi uma felicidade para toda a gente. Não deixaram acasa brancasem terem recompensado largamente os criados. Não sabiam o que haviam de dar a Natchès, que só apreciava o que comia; teve um grande cartuxo de bôlos.

A familia de Valneige, depois d'alguns mezes de viagem, passou o inverno no meiodia, e voltou na primavera para esperar os amigos em Valneige, porque tinham promettido que aquellas doces relações se estreitariam todos os annos por algumas semanas que passariam juntos. Que de vezes as duas mães se recordaram uma com a outra da época de miseria e de tristeza, que tinha atravessado a adorada criança! Que de vezes, como a senhora Deschamps tinha previsto, a sua amiga pegou na fita doirada, que guardava como testemunha dos dias de adversidade!

Adalberto cresceu na obediencia.

Hoje, que é um homem, obedece ainda; obedece ás ordens de Deus, ás leis do seu paiz, aos conselhos e aos desejos de seus paes. Um dia, quando for pae de familia, dirá como lhe diziam:{270}

«Obedecei, meus filhos.»

Dizemol-o a todos, jovens leitores. É bom, é util, é necessario obedecer. Possam todos aprendel-o no seio da sua familia, e não, como Adalberto, sob os golpes da desgraça!

FIM.


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