XVCubiça e NobrezaO intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual ninguem o excedia em delicadeza.Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com o chapéu na mão. Com o sorriso estereotypado nos labios beijou a mão, que Leonor de pé, séria, e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou.Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas.A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe cadeira, Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho:—Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza deshumana, e os supplicantes não se assentam em presença dos juizes.—Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella em tom ironico. Não mudemos os papeis! A supplicante devo ser eu. O vencedor não veiuaqui dictar-me as condições na idéa de me achar resignada a escutal-as e a submetter-me?!... Não o incommoda ficar de pé?...—Não, minha senhora. Tenho de pedir licença para lhe apresentar outra visita...—Outra visita?!—Meu sobrinho...—Seu sobrinho?!...—Era tempo, não lhe parece?...—Eu!...—Percebo! É-lhe indifferente? Consinta que junte duas palavras. Quer que lhe fale como amigo?...—Se póde!... Receio tanto o intendente geral da policia!...—Não receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a sua firmeza, préso os seus sentimentos de filha extremosa, e sei que se quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir.—Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim? accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo séria. Confesse que tenho motivos fortes para suppor o contrario. Costuma tractar, como nos tractou a nós, as pessoas que lhe merecem bom conceito?!...—Ah, cruel!... volveu o ministro, córando um pouco, porém disfarçando a torvação momentanea com o riso. As setas são agudas, e essa mão mimosa aponta-as com uma certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos dar-lhe remedio... O conselho de guerra ámanhã, ou depois, reune-se para julgar seu pae... A sentença depende das provas, e as provas principaes estão nas minhas mãos. De mais, Lunyt, o secretario de estado dos negocios da guerra, é meu amigo intimo... Já vê! Se eu interceder e ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e solto...—Bem o sei, redarguiu a donzella. Quererá o sr. Lagarde?...—Duvída?! Porque tem tão pouca fé?...—Porque não acredito facilmente em conversões repentinas. Perseguiu-nos sem tregua, não socegou em quanto não teve meu pae em ferros, e hoje... offerece-me ser o seu protector!?... Ha grande mysterio n'isto, não o negue!... Temo que exija tanto da minha gratidão em premio, que eu não deva acceitar!—Nada escapa á sua agudeza! Quer saber tudo? Tem razão. Joguemos liso. Posso interessar-me, e ser ouvido, falando a favor do pae da noiva de Armand, de meu sobrinho; mas percebe muito bem, por maiores que fossem os meus desejos de servir, que o empenho não teria a mesma força, se o mettesse em beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo de sua magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho entre? Espera as suas ordens n'aquella saleta...—Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. É a noiva, ou é o dote, o que mais o tenta n'este negocio?!...—Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!... Não faz mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; porém o thesouro d'essa linda mão!...—Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer?—Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!...—Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha, pois, que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava alindamão... que é já de outro, e que em nenhum caso, aconteça o que acontecer... darei a seu sobrinho?...Leonor falava serena, e sorrindo-se, porém a voz e o tom affirmavam assás, que a propostaera positiva, e que a resolução tomada seria inabalavel. Lagarde franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do nariz, cortejou-a em silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem reflectia.—O dote sem a mão?! disse por fim lentamente, e esbrugando as palavras como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria possivel?...—Depende da minha vontade, e estou prompta.—Não me entendeu! É uma esmola, que nos quer fazer a meu sobrinho e a mim, ou uma peita, com que espera subornar o ministro?...A interrogação parecia aspera; porém o olhar e a voz não podiam ser mais amaveis. Leonor concebeu esperanças.—Nem uma, nem outra cousa! É um testemunho de reconhecimento. Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu.—Esquece-lhe, que o mundo dirá, que me vendi!... Não pode ser! Uma esposa não se nota que seja generosa, porém uma estranha!... Minha senhora, não decida nada sem o conhecer. Armand está aqui. É moço, é gentil, é brioso. Merece-a. Sei que o accusam de ser um pouco estouvado e perdulario. Não o defendo. São defeitos que o matrimonio corrigirá. Veja-o!... Tome tempo!... Não me julgue tão mau como dizem os meus inimigos. Tudo ha de compor-se.—Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo.Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os disfarçar, a malicia e o despreso, com que assistia ao combate da avidez e da cubiça na alma de Lagarde, impaciente de receber o que lhe promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, pelos escrupulos de um resto de decoro e de respeitoda sociedade. Talvez, que não o embaraçasse pouco n'este conflicto a idéa, que formava do caracter do sobrinho, e a apprehensão de que elle recusasse favores, cuja origem o cobriria de opprobrio.—Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado, todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte...—Da minha tudo, menos!...—Não diga isso!... Essemenosé que precisamos que desappareça. Meu sobrinho é um cavalheiro...—Affiança-m'o?... N'esse caso estou socegada. Omenosvirá d'elle!...Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda não lhe occorrêra esta hypothese, e um estremecimento nervoso avisou-o, de que ella podia converter-se em obstaculo insuperavel. Que certeza tinha de que Aubry annuisse ao pacto infame, que procurava extorquir, fazendo da cabeça de Paulo de Azevedo o penhor da docilidade de sua filha?—Não imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu pae, lembre-se, está preso, e em vesperas de ser sentenciado...—Meu pae, tornou a donzella altiva, saberá morrer, que lh'o ensinaram os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender na velhice, é a vender o sangue da sua alma, a ventura e a dignidade de sua filha para salvar a vida.—N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Falámos tanto d'elle que por fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um desejo tão ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? Não acredita?!... Pois é verdade. Dá licença?!...E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabeça, com que Leonor respondeu, Lagarde,precipitando-se direito á porta, cortou com esta saída theatral a conversação no ponto, em que ameaçava tornar-se tempestuosa. Em quanto elle saia, a donzella enxugou á pressa duas lagrimas, reprimidas até então pelo orgulho, e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor para supportar mais. Durou só um momento esta fraqueza. Um minuto depois erguia a face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do papel forçado, que se via constrangida a representar. Um rapido volver de olhos á porta de vidraças, detraz da qual Manuel Coutinho escutava, e um suspiro ancioso foram os ultimos signaes do seu desalento.O intendente entrava com o sobrinho.Vendo-o, Leonor córou, e fez-se logo, pallida.O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que aquella bella e doce imagem se lhe gravára profundamente no coração. A tristeza resignada, que respiravam as feições da donzella, a sua vista magoada, mas serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do porte, acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se instantaneamente da expressão quasi insolente, e inclinando-se, perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo de Azevedo como poderia saudar uma rainha no seu throno.—Aqui vem a seus pés mais este captivo, minha senhora! exclamou o intendente no estylo refinado e galanteador da côrte franceza. Compadeça-se d'elle. Não consinta que suspire em vão!Armand empallideceu. Não era com gracejos vulgares e pueris, que elle agora desejavaexpressar á donzella a admiração. O official, de ordinario tão solto e audacioso, já não achava phrases que pintassem o estado da sua alma. Mas se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o proprio enleio significou uma homenagem á amante de Manuel Coutinho.—Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! Fez como Cesar, viu, e venceu!...—Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o sobrinho uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o despreso e o escarneo, que exprimia, traspassava.—Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma bala.Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse dos apuros do lance, em que se mettêra, amaldiçoando interiormente Aubry, cuja falsa delicadeza começava a assustal-o. A filha de Paulo de Azevedo, em pé, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa, amparava o corpo gentil com a mão no espaldar da cadeira e n'esta posição, cheia de dignidade, aguardava silenciosamente, que um dos dois ousasse dizer-lhe tudo.O mancebo, que a interjeição de Leonor fizera córar até á raiz dos cabellos, e que a vista de tantas graças e enlevos cada vez seduzia mais, esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse o caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir.—Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a cubiça forçavam a insistir, encarrega-me de lhe pedir,que se digne receber os testemunhos de seu respeito e adoração.—Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico.—Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se não veiu mais cedo é que...—Meu pae não estava ainda quasi no oratorio, e o sr. Lagarde temia que a filha fosse menos docil?—Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim foi attrahido por uma doce esperança, que vejo ter sido chimerica... Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu nome? Presinto um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, juro-lhe pela minha honra, que estou innocente... que sou incapaz de acceitar a sua mão, que me faria bem ditoso, agora o sinto, se livremente m'a não désse. Peço-lhe a verdade! Ao menos não me condemne sem me ouvir!...Lagarde não soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de repente sobre a cabeça, não o teria desfigurado tanto. Empregado o ardil classico do famoso quadro do sacrificio de Ephigenia, escondeu metade da cara no lenço de assoar, pedindo a Deus que um alçapão propicio se lhe abrisse debaixo dos pés para o sumir da vista irritada dos personagens, cujas explicações previu, que iam desmascaral-o inteiramente.Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um olhar sympathico. O semblante perdeu a expressão severa, e a voz, meiga e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no peito agitado do official francez.—Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a mão, que elle beijou estremecendo.Não tenho que lhe perdoar... Agora vejo! O sr. Lagarde... como hei de dizer toda a verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu pae, accusou-o, e tem suspensa sobre a sua vida a espada de um conselho de guerra... Tinha-me falado ha mezes n'este casamento... A minha recusa aggravou-o... e hoje, aqui mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu consentisse...—Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os olhos, e vermelho de colera e pejo. Não diga mais, minha senhora. Adivinho a resposta. Regeitou!...—Regeitei! continuou a donzella. A minha mão pertence a outro; o meu amor não se vende.—Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde agradeça ao sangue, que nos corre nas veias, a minha paciencia! Se não fosse! E suffocado em ira apertou os punhos, e levou-os á fronte. Lagrimas de indignação rebentaram de seus olhos seccos. O intendente parecia petrificado.—Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh, perdoe sr. Aubry, não o conhecia ainda. Depois que o ouço... não lhe faria a affronta de suppor...—Vê! accudiu o official, colhendo o ministro do braço, e saccudindo-o com furia. Vê a que me expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os labios dar-lhe este nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar o meu, o nobre appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas torpezas?! Sou pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de Paulo de Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como eu a supportei sempre, não desdoura, engrandece. Hoje não possuo outras riquezas, senão o orgulho da propria indigencia, que nunca ajoelhou,o respeito do nome sem macula que herdei, e esta espada... que póde abrir-me o caminho da gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela idéa, que houvesse no mundo um coração tão vil e corroido, que se atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais amei a injuria de me aviltar ausente a especulações infames!... Socegue, minha senhora! Todos os thesouros da terra, depois d'isto, não me obrigavam a acceitar a sua mão, ainda que m'a offerecesse.—Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa declaração do mancebo restituiu a voz, e redobrou a ira de se ver descoberto e punido.—Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me faria córar eternamente seria um elogio... depois do que acabo de ouvir.—Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a minha amisade. Não sou ingrata. Se meu pae escapar...—Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, travando rijo do braço ao ministro, que se ia desviando para se evadir desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do nosso parentesco estão rotos de hoje em deante. Quer que o mundo ignore os motivos? Ponho uma condição a esse sacrificio da minha parte!...—Condições?!... interrompeu o intendente, ameaçando o sobrinho e Leonor com os olhos e com o gesto.—Condições, sim! atalhou o mancebo friamente. Offereço-lhe o seu perdão, e a minha indifferença...—Offereces-me o teu perdão? É admiravel! Que me importa o teu perdão?...—Em troca de um acto de generosidade... forçada. Bem vê que lhe faço justiça, e que digoforçada, proseguiu Aubry, contendo-o, e dominando-o com a vista.—Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!...—Não! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para elle indignado. Não enlouqueci! Mas ninguem até hoje me affrontou impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de estar absolvido e solto...—Ah! É de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, porém assustado. E se não estiver? póde acontecer que as tuas ordens não sejam cumpridas á risca. Se não estiver pódes dizer-me o que farás? Accommettes a policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os moinhos de vento de Monsanto?!...—Por Deus, senhor Lagarde, não tente a minha paciencia! bradou o official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas scintillantes faiscavam mil ameaças. Se não estiver livre e absolvido... como lhe mando!... ouve? juro-lhe pela santa memoria de minha mãe, á qual deve só n'este momento a vida! que ámanhã o nome mais infame do imperio será o seu!...O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do sobrinho o odio e o despreso.—Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?! Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?...—Os inimigos combatem-se com as armas na mão, não se salteam nos corredores da policia, pedindo-lhes a bolsa, ou a vida!...Fez-me córar de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, era suppor alguem que eu fosse cumplice de mercados tão vilões...—És uma criança! Julgas o mundo pelos romances!...—Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se não obedecer ao que lhe disse, que é o desaggravo da minha honra ultrajada, não se admire do que eu fizer!...—Do que fizeres! Ameaças?! Crês que te receio?... Em eu te desamparando cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o intendente exasperado.—Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! Não preciso de mais. Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor não for solto em tres dias...—Não é. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando os braços.—O general Junot e o conselho do governo saberão como se enriquece o intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. Então veremos.—Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado.—Eu! Seu sobrinho por minha desgraça. Escolha agora.Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornára immovel, e acrescentou:—Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admiração da sua formosura, e a magoa de ter sido causa innocente de suas lagrimas. Sei que me perdoa, e que me fica estimando. Não peço mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o senhor Lagarde ha de servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir a minha palavra. Vamos, ajuntou apontando a saída ao ministro com um gesto imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa... É tempo dedeixarmos que a alegria e a tranquillidade voltem.E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lançou sobre Leonor um olhar de apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e desappareceu.—Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente, depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?...—Tudo, redarguiu elle, que não se demorou em vir lançar-se de novo a seus pés.—Então sabe a divida que hoje contrahi... que ambos contrahimos com Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja tão sagrada...—Como a de um irmão, respondeu Manuel. É uma grande alma.—Alviçaras! Alviçaras! Senhora D. Leonor! Gritou a voz do bispo do lado do jardim. Os inglezes estão a desembarcar. O nosso captiveiro pouco durará se Deus quizer.E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os dois lhe abriam os braços não menos alvoroçados.FIM DO PRIMEIRO VOLUMENOTAS AO PRIMEIRO VOLUMEIO poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe e, com elle expiraram as tradições viris e os commettimentos reformadores...pag. 24.O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D. José I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos dos contemporaneos ácerca da administração severa, intolerante, e absoluta, mas a muitos respeitos fecunda e reorganizadora de Sebastião José de Carvalho e Mello. A obra, que emprehendeu, o rejuvenescimento da unidade monarchica sustentado pelo apoio das classes medias devia encontrar, e de feito encontrou, a opposição dos privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e do fanatismo. No paço a familia real, nos gremios puritanos da nobreza os fidalgos mais poderosos, nas corporações religiosas a companhia de Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro, aos seus actos, e ás suas tendencias. Para a familia real Sebastião José de Carvalho era quasi um inimigo da força e da consciencia do rei. Para a nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um ministro, que não acurvava as vontades, ou as leis ao aceno imperioso dos eleitos de sangue azul era um peão fidalgo, insolente e soberbo, que importava derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os jesuitas, cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento durante o reinado de D. João V, não consentia emulos, e muito menos peias, os planos atrevidos do secretario d'Estado, representando ameaças e perigos perennes para a prosperidade da sociedade, equivaliam a um cartel, que a todo otranse convinha acceitar e concluir pela derrota do orgulhoso sob pena de aplanar aos adversarios os caminhos do triumpho.A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias colligadas. Por que preço, porém? Que o digam os carceres e prisões povoadas de suspeitos, réos apenas muitos d'elles de alguma opinião mais livre. Que respondam os processos, as alçadas, os degredos, e os supplicios, paginas luctuosas de um governo inexoravel e vingativo. Copiando do cardeal de Richelieu até as perfidias cruentas, Pombal assignalou com um rasto patibular as principaes estações da sua administração. Por fim escorregou e caiu no sangue vertido muitas vezes sem necessidade. Os horrores, que afogaram nos tratos e crueldades da praça de Belem a famosa conspiração de 1758, a expulsãodosjesuitas; os castigos atrozes contra os tumultuarios do Porto; a execução de João Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela jerarchia, ou pela sciencia são nodoas indeleveis e accusadoras, que não apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada apreciação de suas reformas uteis e opportunas.O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. Não admira, por isso, que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos monumentos do seu governo era fragil, instavel, e transitorio. A monarchia pura tinha envelhecido muito e depressa para ser exequivel salval-a por meio da transfusão de idéas e principios repugnantes á sua índole, contrarios aos preconceitos e crenças do povo e das classes elevadas, e sem base firme em que assentasse uma construcção duravel. Os tres reinados de D. Affonso VI, D. Pedro II e D. João V adeantaram a tal ponto a caducidade, que os milagres do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam conseguir foi suspender a dissolução espaçando até ao fim do reinado seguinte a revolução eminente. O ministro absoluto serviu-se em muitas occasiões do poder como de uma arma cega e demolidora, e a ferro e fogo imaginou transformar a sociedade decrepita e moribunda em uma sociedade nova, e vigorosa e viril, filha legitima das grandes idéas philosophicasfadadas á conquista do futuro. Suas leis e seus esforços provam a elevação do pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle decretou ficou de pé sómente o corpo logo tornado cadaver. O espirito... não eram aquelles ainda os dias da sua victoria nem os seus meios de persuasão. Por isso com o ultimo suspiro de D. José I baqueou não só o poder, mas subverteram-se em grande parte até as idéas representadas pelo marquez de Pombal.IIUm gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do confessor valido substituiu o mando odiado do marquez...pag. 24.A rainha D. Maria I contava, quando subiu ao throno, quarenta e tres annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que seu pae, segundo se affirma, concebeu a idéa de proclamar a lei salica, cingindo a corôa na fronte juvenil do principe D. José. Acclamada em 13 de maio de 1777 com D. Pedro III, esposo e tio, o primeiro acto do seu governo foi um acto de clemencia. Mandou abrir as prisões e soltar os presos d'Estado. Chamou dos longos desterros, em que jaziam, a muitos varões respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos feliz do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo ás exequias do seu poder e á demolição da sua obra.Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de Angeja, cuja lealdade D. José I attestára espontaneamente recolhendo-se a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira; na dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de Sá; e na repartição da marinha e ultramar Martinho de Mello e Castro.Estes cavalheiros não eram homens obscuros, ou ineptos, mas qualquer d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de Sebastião José de Carvalho, e todos juntosconfundiam e atavam, mais do que desenredavam e esclareciam, as resoluções.A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as insinuações hypocritas dos beatos, que se apoderaram logo de todas as avenidas do paço e começaram a influir na direcção dos negocios, não concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi restauração de tudo quanto o marquez de Pombal intentára destruir, ou modificar.Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a rasão da rainha principiou logo a vacillar, e á prudencia e caracter limpo de allusões do seu confessor o arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S. Caetano, é que ella deveu não se afogar mais cedo nas trevas da demencia.O governo de D. Maria I não foi, comtudo, um governo absolutamente estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das grandes cousas traçadas pelo marquez de Pombal assustava a capacidade menos elevada dos ministros, que lhe succederam, todos elles ao menos manifestaram bons desejos e rectas intenções, seguindo, ainda que muito de longe, o espirito moderno, que alvorecia em França, e cujos clarões ainda se não haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que precederam a revolução de 1789; ou nas tempestades medonhas, que revelaram as subversões de 1792 e 1793.Modesto nas idéas e nos commettimentos, o gabinete da rainha creou a junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da estampa; fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos de primeiras lettras e humanidades nos claustros das corporações regulares; instituiu a casa Pia para asylo das creanças orphãs; dotou as aulas de Fortificação e a Academia de Marinha; e decretou novas estradas e meios de as executar sob a direcção de José Diogo de Mascarenhas Netto.A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios de 1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na administração um elemento activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a arriscar planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o consentiam as circumstancias e as forças debilitadas da monarchia.IIIOs tres sujeitos eram nada menos, do que tres delegados doconselho conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á restauração da independencia, etc.,pag. 88.A existencia d'esta sociedade secreta politica não é uma invenção. Saiu á luz dos prelos da imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8º, com a seguinte denominaçãoCatalogo por copia extrahido do original das sessões e actas feitas pela sociedade de portuguezes, dirigida por um conselho intituladoconselho conservador de lisboa, e installada n'esta mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se unido os installadores em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da restauração da patria.O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que eram: G... Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira, André da Ponte do Quental da Camara; José Maximo da Fonseca foi nomeado secretario. O local das reuniões decidiu-se que fosse alternadamente a casa de cada um dos adeptos. A hora das conferencias ás 8 da noite.A formula do juramento adoptada era esta: «Na nossa presença, oh immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador do Universo, estando em nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida, livres e deliberados jurámos tractar de hoje em deante com todo o possivel disvelo, fervor, prudencia, e firmeza a causa nobilissima da religião da patria e do throno applicando para isso nossas forças, talentos, bens e vida até conseguirmos entregar este a seu dono oprincipe regentee áquelles o esplendor, a liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o fundamento da nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre nós a benção divina e os applausos da nossa posteridade: a violação d'elle, pelo contrario, attrairá sobre nós as maldições do céu e da terra; a vileza para nós e para os nossos descendentes.»Na setima sessão prestaram este juramento um pouco theatral o coronel de cavallaria Alvaro Xavierde Povoas e Fernando Romão da Costa Athaide Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos socios e associados. Na sessão de 25.º constituiu-se oconselho conservadorá pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr. Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o beneficiado Joaquim José da Costa, o marquez de Angeja D. João, o conde de Rio Maior, o visconde da Bahia, o desembargador Sebastião José de Sampaio, o brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos, Lacerda, e Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio Marcelino Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da relação publicada a pag. 87 do opusculo.O conselho desde 5 de fevereiro até ao 1.º de outubro de 1808, em que se dissolveu, celebrou quarenta e duas sessões. O numero dos socios ajuramentados subia a 183. O dos auxiliares abonados por varios d'elles elevava-se a 959, além do concurso de tropa e povo, com que contava para o caso de um rompimento.Os planos de sublevação, as proclamações, os avisos ao almirante inglez sir Charles Cotton, e os projectos da sociedade não corriam tão secretos como elle imaginava.A policia franceza suspeitava, pelo menos, se não conhecia plenamente a organização d'este nucleo; porém não julgou prudente proceder contra elle, temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos conspiradores. É o que se deprehende de um trecho daHistoria da Guerra da Peninsulado general Foy.IVMuitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que nunca podia ser inspirada, bem o sabiam por experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caducopag. 101.Allude-se no texto ao plano de uma constituição similhante á que Napoleão I concedêra ao grão-ducado de Varsovia, plano concebido,segundoaffirma o general Foy, no liv. II da suaHistoire de la Guerre de la Peninsule, por alguns patriotas portuguezes, desejosos de colherem ao menos da intrusão estrangeira os beneficios da liberdade.O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do Collegio dos Nobres, e o conego Simão de Cordes Brandão, lente de direito natural e das gentes na Universidade de Coimbra, e insere nas provas sob a lettraJo projecto de codigo politico, que então se queria pedir a Bonaparte. (Tomo II, edição de Paris pag. 38 e seguintes e pag. 469 e seguintes).José Acurcio das Neves (Historia da Invasão dos Francezes em Portugaltomo II) transcreve egualmente o documento, porém não diz claramente a quem elle deve ser attribuido; mas o auctor daHistoria de El-Rei D. João VI, vertida em portuguez (Lisboa typographia Patriotica 1838 a pag. 189-191), depois de nos dar tambem o projecto, accrescenta, que esta mensagem fôra dirigida pelo doutor Gregorio José de Seixas de accordo com muitas pessoas distinctas por engenho e representação. Entretanto o padre José Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio Francisco da Silva no tomo VII do seuDiccionario Biliographicopag. 276, accusou em mais de um logar de suas obras a Simão de Cordes, lançando-lhe em rosto o haver sido um dos que no fim do seculo passado maior impulso tentáram dar á maçonaria em Portugal, e principalmente em Coimbra, aonde chegára a organizar algumas lojas.O bispo de Vizeu noElogio Historicofórma juizoabsolutamente opposto do procedimento e doutrinas de Simão de Cordes.Sejam, porém, as que aponta o general Foy, ou outros auctores, o projecto de constituição redigiu-se e corre hoje impresso. Restava o mais difficil. Era necessario achar pessoa auctorizada, que se decidisse a apresental-o. Acceitou a missão arriscada o juiz do povo, que era então um tanoeiro chamado José de Abreu Campos, notavel pela firmeza e integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta opinião formada com justiça ácerca do seu caracter.Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros daJunta dos Tres Estadosos representantes denominados dos braços da nação para lhes extorquir em simulacro de côrtes um voto de adhesão, o juiz do povo protestou contra os actos da assembléa, como illegaes e emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da cabeça da sua vara.O juiz do povo correspondeu ás esperanças depositadas n'elle. Intimado para assignar com o clero e a nobreza, em nome do povo, a mensagem de 24 de maio de 1808 (provas del'Histoire de la guerre de la Peninsule, par le general Foy. Paris 1827, tom. II, pags. 467-469) o honrado tanoeiro, protestando contra o acto por nullo e abjecto, e contra os que o practicavam por incompetentes, apresentou o projecto de constituição composto em fórma de petição dirigida ao imperador, e appellou para o voto do paiz representado em côrtes.Esta voz isenta proclamando a emancipação politica offendeu os ouvidos do duque de Abrantes. O juiz do povo, chamado ao quartel general, foi asperamente reprehendido, e varias pessoas, suspeitas de liberaes, mandadas sair de Lisboa.Prevaleceu assim a mensagem servil dictada á simulada junta da nação. José Sebastião de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a Napoleão I. Achando, porém, já interceptadas as communicações da Hespanha com a França, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da cidade Rodrigo.V
O poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe e, com elle expiraram as tradições viris e os commettimentos reformadores...pag. 24.
Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do confessor valido substituiu o mando odiado do marquez...pag. 24.
Os tres sujeitos eram nada menos, do que tres delegados doconselho conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á restauração da independencia, etc.,pag. 88.
Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que nunca podia ser inspirada, bem o sabiam por experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caducopag. 101.