LIII

LIIICompletemos estas explicações melancolicas.Aquelles em quem o amor entrou só, ou principalmente, pelos olhos, acham custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma accender este fogo maravilhoso. A sua mesma ventura é que os torna assim pouco philosophos.Examinemos.Reuniu Deus para compôr a mulher—remate, corôa, e epilogo da Creação—a quinta essencia de tudo quanto derramára de melhor no paraizo, onde a collocou, e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva ficariam avivando recordações. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o espirito brilhante e suave de um raio de oiro do sol, e de um raio prateado da lua. Deu-lhe a pureza da cecem, a alvura do lyrio, o pudor e a graça da rosa, a modestia da violeta; accendeu-lhe no olhar brilho de estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e perolas no sorrir; para fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no frémito das virações, no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves; modelou-lhe a estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos; arredondou-lhe as fórmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos; diffundiu-lhe os cabellos como as ramas pendentes e movediças do salgueiro aquatico; impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala; revestiu-os de brilhantismo; tão esmerado e prodigo os dotou, que o oiro e as perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores, ambicionando realçal-os, recebessem d'elles novo preço.Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que volteia por entre nós como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo por fala um canto, a sujeição e a humildade por imperio; em que a fraqueza é graça, e a graça omnipotencia; cujo encargo é mais que eternisar a especie,—é entretecel-a, domesticál-a, refinar-lhe o gosto, os instinctos do bello, os arrojos para o bom e para o sublime; a mulher em summa, fadada de alguma sorte a ser mãe e mestra, guia, arrimo, lampada, conselheira, prophetisa, esforçadora, modelo e premio, não só de seus{144}filhos, mas de seus irmãos tambem, de seu consorte, de seu proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem receber directas ou reflexas as influições; a mulher, a mulher—da qual, depois de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal de seis mil annos, ainda se não exhauriram louvores, nem jámais se hão de exhaurir—não seria a vice-providencia, que devia ser, e que é, no meio da sociedade, se não possuisse este complexo ineffavel de seducções para toda a especie de indoles, de espiritos, de gostos; um laço infallivel para cada sentido; um milagre para cada incredulidade; para cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu ramalhete; sua estrella para cada noite; mão inesperada e macia para cada desamparo; para cada fronte que se despedaçaria ao cahir, a almofada subita de um braço todo extremos, de um seio todo suspiros, de um coração todo divindade.Parece que está aqui o animo a nadar á sombra de uma sagrada Paphos n'um pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes genios das ficções; e não está senão folheando, ebrio de gratidão, o Génesis ineffavel da creatura em quem mais evidentes se revelam as perfeições do Creador. O que pareceria um hymno, é, para quem o souber meditar, uma succinta e desenfeitada pagina de historia natural.Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as flores, não pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e escute: lá está ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos, como Ulysses ás sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os beijos, lhe revelarão completos os seus encantos. Não ouse ou não possa tocál-a; um halito, uma fragrancia subtil, que não é de flores, mas de vida,—que é mais que de vida, pois é do amor,—lhe dirá: aqui está o fruto para a tua avidez e para a tua sêde.É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e toda para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons, como n'um cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada póro; não ha porta na alma que se lhe não franqueie. É a chamma electrica, para a qual não{145}ha resistencia nem muralhas. Fugi-lhe; esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis d'ella; vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de que blasphemaveis.Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui chãmente o que eu sei, e que não é muito.Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais esquiva, mais recatada, mais avára para com elle, para com elle seu fervoroso adorador. Não se lhe furtou de todo; não apagou entre si e elle o sol, como já fizera com o seu Homero; mas annuveou-lh'o como para a solemnidade de um mysterio magico; e, mesclando trevas com luz, benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a adivinhál-a, a completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a estudar a um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a, ou a creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas, hypothetica nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu, imperfeito, mas reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas inspirativo, mas sufficiente e sobejo para idolatrias.Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal lhe assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o archétypo das perfeições: a mulher.LIVMancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do seu interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura te seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção exclusivamente que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em auroras de mil cores, em espumas de rendas, em cascatas de oiro, de aljofares, de diamantes, cahos{146}esplendido que sonega um mundo de gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante; do semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha cerração de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com tão seductora franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os lustres e sob o sol? ¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o averiguasse, talvez recuarias de espanto! a tez mimosa e córada, a tez que ambicionavas beijar tão lisa e tão perfeita, reconhecêral-a vasto mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal cobertas, de espessuras, homizio e pastagens de viventes, para quem mais que para ti foram fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse mundo de lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo, desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te inculcava; o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o perdia sem remedio. Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a formosura, que só á providencial, á calculada imperfeição dos teus orgãos tinha devido a existencia.¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem eu proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos convivas o quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a, individua-a muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á phantasia o completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores? ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a mulher idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade, mulher exterior mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo que lhe mora dentro, que o bando de máscaras femininas, mais ou menos imperfeitas, que enxameiam por esse mundo á procura sempre de homenagens convictas e duradoiras.{147}Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em que outros, distrahidos com o olhar não attentariam, e que me desceu do ouvido ao seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo ella continha de imaginação ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de bondade, de innocencia, de sentimento. O perfume que d'ali se exhala, já annuncia a deusa. Entrevejo-a; branquejou-me o rosto, d'onde sahira tanta melodia e tanta alma. Doto-o, fado-o, opulento-o como podéra fazer o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais amante. O phantasma, já meio filho da minha adopção, passa por diante e perto de mim; reconheço-lhe, ou attribuo-lhe, como Virgilio á divina mãe de Enêas, a estatura, o movimento, o andar, que para ser adorada se lhe não dispensa:Et vera incessu patuit dea.........e não accrescento, porque o não penso:...............tu quoque falsisLudis imaginibus...............Beldade assim composta não é só perfeita,—é inaccessivel aos estragos do tempo, é rosa que poderá morrer, mas não murcha, não desmaia, não se desfolha; quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos fluctuantes, frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.A par d'esta vantagem, que sem duvida o é para a poesia namorada, um terrivel desconto se apresenta logo:Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o effeito que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham; possuem uma linguagem innata e universal, instantanea e completa, electrica, divina, intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta ineffavel faculdade, gozando-se embora da luz para disfructar e amar a vida, é vagar surdo-mudo pelo crepusculo n'uma região verde e florida, sem tratar com os moradores.{148}¡Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a Providencia. Assim como outorgára á phantasia uma intuição especial, concedeu á linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um accrescimo de viveza, uma força de convicção, de sentimento, de lealdade, que podesse aspirar, a persuadir.Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino oiro, ou em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala, embora poetica, mais pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do coração a real e real, em cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de liga e falso cunho; moedas de baixo preço, que mil vezes se lhe recusam; mas afinal tambem salda a sua conta.Não me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuição do primeiro sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na faculdade de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que alguma coisa com isso parecida se deu em realidade; com o que, já pode ser que o peculio poetico se augmentaria; nova e suprema prova do que assentáramos como fundamento no principio d'este escripto, a saber:—Que a Natureza e a fortuna andaram concertadas em preparar por todos os meios, com os favores e com as sevicias, um cantor, embora inutil para tudo mais.LVSobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei tudo como o tinha na lembrança; forcejei pelo explicar sem vaidade nem modestia.É um pobre escripto, que as almas de bem hão-de tomar á boa parte.Presumpções litterarias, não as tem.Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e até por facillima não muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e vida, que perpetraria uma feia acção. Deixem aos chacaes o revolverem sepulturas, e cevarem-se em ossos.Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam já o fito em dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes misericordia.{149}Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura d'este, que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra. No intervallo, que não poderá já ser muito longo, aggridam, vulnerem, destruam muito embora qualquer outro dos seus escriptos, e todos; não lhes exceptua nem um só, a não ser o livrinho do ensino primario pelo amor, porque esse não é d'elle; é propriedade inauferivel da puericia, da Patria e da posteridade.LVIA collecção de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario aChave do Enigma, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres volumes que poderiam interessar, se não como historia, como romance intimo certamente; ardeu até ao minimo fragmento, ali, debaixo das arvores do meu jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto se não extinguiu, enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das Necessidades as quatro da tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o que n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma poetisa lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura de visitar com este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:AQUI JAZEM AS CINZASDA CORRESPONDENCIADED. M. I. DE BAÊNACOIMBRA PORTUGALEA. F. DE CASTILHOQUEIMADA N'ESTE MESMO LOGARAOS 25 DE AGOSTODE 1862{150}LVIIMais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as Religiosas choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais amavel companheira de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o alvoroço do seu interior, exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos de lagrimas; eu padecia e gozava como homem que ia fugir com um thesoiro furtado. A boa D. Anna Lucinda não podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a desejára em quanto só a vira no futuro! e agora... desamparavam-n-a as forças para a encarar; jazia doente na sua cella deserta. Maria tomou-o por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima; sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão ambiciosos.Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi sempre Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha leitura; a mão para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos; a conselheira nas minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas pequenas ambições; a socia, a luz, a explicação dos meus passeios; o calor, a fragrancia e a musica da minha poisada; um enxerto da arvore da vida no meu teixo; o ecco do meu coração; o meu estro fóra de mim a mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder hora nem minuto de dia nem de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; eu, d'ella encantado como de uma felicidade.Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a mulher. Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era impossivel. ¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para o Céo uma saudade unica.{151}Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como clarão de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a pouco e pouco a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para ella e para todos; para mim não, que por instincto de vida, repulso constantemente, e até ultima, o crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a possibilidade.LVIIIN'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de vinte e cinco annos não eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava amortalhada em neve profundamente (as memorias meteorologicas poderão dizer a quantos foi; eu esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os velhos se lembravam de ter jámais visto por aqui espectaculo assim alpestre; nem de então para cá se renovou. Era um dia pallido e lugubre, que gelava o coração e as esperanças,—um d'aquelles dias, não sei se amigos se adversos, não sei se verdadeiros se mentirosos, mas bons para se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo, esperanças que ella mesma para si já não queria, tinha a janella fechada ás tristezas de fóra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos pés da Imagem em vulto daSenhora Mãe dos Homens,—madrinha de Maria, e objecto da sua devoção de toda a vida,—attrahia, como um reflexo precursor da luz perpetua, a vista perturbada da paciente, indo e vindo da Imagem, que parecia chamal-a, para o amante, que, recostada a fronte sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mão, lhe supplicava mudamente o não deixasse.Reconcentrou emfim, por um supremo exfôrço feminil os remanescentes do seu vigor exhausto; e mandando chamar meu irmão, que na proxima sala chorava por ambos nós, nos disse: que sentia já a sua existencia na vasante, e era tempo de apparelhar a alma para as bodas eternas; em quanto lhe restava entendimento e fala, queria dirigir a cada um de nós um rogo que de proposito reservára para aquelle momento em que nada se recusa.{152}Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.—«Tenho pena de ti, ¡meu pobre poeta!—proseguiu ella apoz alguns momentos de concentração.—Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se Anna Lucinda não fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi tanto como eu, podia continuar como tua esposa a obra da tua felicitação, que eu deixo incompleta. Se jámais a ventura te deparar outra mulher de alma, e capaz de comprehender a tua, instruida, amante, superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te servir e consolar, offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu mesma abençoarei lá de cima a vossa união.»Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da promessa.Então, voltando-se para o nosso querido irmão, e depois de lhe agradecer todas as melindrosas manifestações de affecto, que tantos annos havia nos liberalisára, sem cançaço nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa como um anjo, cujas azas de prata já começavam a despontar, lhe outorgasse emfim a casinha candida com que tantas vezes lhe fizera sonhar; agora, para a erigir bastava uma só pedra; que lhe puzesse uma inscripção, na qual ao nome d'ella se ajuntasse o dos seus tres poetas: o meu, e o dos seus gloriosos parentes—Ferreira e Tolentino.A bella alma partiu.{153}LIXNo cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N.º 48, convisinho á ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:MONUMENTODE PERPETUA SAUDADE,CONSAGRADO PORANTONIO FELICIANO DE CASTILHOASUA MULHERD. MARIA IZABEL DE BAÊNACOIMBRA PORTUGAL,DIGNA SOBRINHA DENICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA,EDESCENDENTE DO ANTIGOPOETA ANTONIO FERREIRA.NASCÊO NO PORTO A 2 DE JULHODE1796E FALLECÊO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRODE1837{154}NOTASPag. 17, lin. 10—Primeiros desastres de CastilhoTendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braços da ama, por uma escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito. Ficou tão abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a vida. Aos 4 annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca. O estado em que ficou, obrigou sua mãe a leval-o para o campo. Isto tudo (note-se) foi antes do ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.Pag. 10, lin. 5—Quinta dos AzulejosSobre aquinta dos Azulejos(tambem outr'ora chamada doPrincipe), no largo do Poço, no logarejo do Paço do Lumiar, junto a Lisboa, veja-se o que vem nasMemorias de Castilho, por Julio de Castilho, tomo I. O poço que se via no meio do tal resumido largo já não existe. Engana-se Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a honra de ter communicado ao logarejo o seu nome de Paço. Essa gloria, segundo o erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez á quinta dos Duques de Palmella.É ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as murtas, etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas regradas opulencias vegetaes{156}por outras invenções pertencentes ao chamado jardim inglez. Estas serão muito bellas, mas desdizem dos azulejos primitivos, que lá campeiam ainda, e são dos mais vistosos, dos mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado antigo da parte rustica do predio se conservava intacto. É lastima que o alterassem.Pag. 19, lin. 13—Antigos donos da quinta dos AzulejosNão se conhece (se é que existiu) parentesco da familia do Poeta com os donos daquinta dos Azulejos(ou doPrincipe). Pelo lado Castilho não seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor José Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Lourenço, e Bairrada. Sem haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias, que parece eram bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio por gracejo, depois por costume. Não sabemos dizer quem hoje representa a familia de Amalia.Pag. 21, lin. 33—Thomaz dos passarinhosThomaz dos passarinhosé o personagem de um dos contos do fallecido e talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livroContos do tio Joaquim, livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas poucas de vezes.Pag. 25, lin. 3—O Paço do Lumiar a uma legua de Lisboa«Estou dictando a uma legua de distancia»—dizia Castilho e bem.A Chave do Enigmafoi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova de S. Francisco de Paula, n.os25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe hoje menos de metade.Pag. 27, lin. 11—José Peixoto do ValleEra o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas. Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma vez em varios livros.{157}Pag. 30, lin. 8—Cemiterio de honraCastilho propoz e advogou a creação de um cemiterio de honra para mortos celebres e benemeritos da Patria. Não os queria encerrados n'um Pantheon; queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e vozes de passaros, á sombra da Cruz. Nas notas do seuCamõestratou largamente o assumpto. Não foi ouvido.Pag. 30, lin. 9—Bustos de homens notaveisCastilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem bustos de Portuguezes notaveis.Pag. 30, lin. 14—CamõesEm 1836 propoz Castilho, na assemblêa geral da Sociedade dos Amigos das Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Camões, e se lhes prestasse homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que apresentou. Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commissão especial nomeada expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commissão de 1854 discordou da argumentação de Castilho, e deu outros ossos como sendo os do Epico. Entretanto Castilho conservou sempre a convicção de que o seu raciocinio na busca era o verdadeiro.Castilho tinha a maior ufania e satisfação em escutar á sua consciencia dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de Sant'Anna os restos mortaes de Camões. Sobre todo esse complicado assumpto pode ler-se o que se trata detidamente nasMemorias de Castilho, Livro III, noInstituto de Coimbra. Não fizeram caso dos argumentos, e levaram para os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se o consciencioso livro do illustrado sr. Padre Sebastião de Almeida ViegasA verdade acerca dos ossos de Luiz de Camões.Pag. 36, lin. 7—Palacio do Arco de AlmedinaA casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje é denominadados Castilhospela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo foi reproduzida no volume antecedente a este.{158}Pag. 36, lin. 22—Maria TellesJulgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso do assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casarão velho, ou Torre, junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que não foi ahi.Pag. 37, lin. 14—A educandaO nome adoptado pela educanda,Maria da Expectação Silva e Carvalho, não era o que usava, mas tinha forma symbolica.Mariaera com effeito o seu nome proprio. AExpectaçãoallude á expectativa, em que ella se achava, de ser, ou não, correspondida pelo Poeta.SilvaeCarvalhoeram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa Real, casado na freguezia das Mercês a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na freguezia dos Anjos. O nome exacto daincognitaera D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.Pag. 50, lin. 28—D. TourísEsse D. Tourís, ou Turís Sarna, é, segundo os nossos antigos linhagistas, progenitor da nobre familia dos Barbudos, á qual pertenceu o senhorio da villa de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico de Regalados (hoje freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D. Leonor de Barbudo, natural de Odemira, filha unica e herdeira de Ruy Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello Falcão, casou com D. Francisco de Baêna, vereador da camara de Odemira, e filho de D. Hernando de Baêna, o primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e teve em 30 de Outubro de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.Foram primeiros avós do Desembargador do Paço João Sanches de Baêna, que na sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5.º avô da educanda de Vairão. ¿Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de habitar uma sua descendente?Pag. 50, lin. 38—Os Sanches de BaênaVivia essa senhora recolhida em Vairão, com sua irman D. Maria do Carmo (mãe do actual Visconde{159}de Sanches de Baêna). Tinham um irmão Luiz da Silva Coimbra de Carvalho, cadete, fallecido novo em resultado de feridas recebidas na guerra peninsular.Pag. 53, lin. 24—PygmaliãoParece haver entre os antiquarios mythologos certa confusão entre dois Pygmaliões, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como alguns outros) fez dos dois um só.Pag. 131, lin. 34—O Imperador de FrançaReferencia a S. M. Napoleão III, que em 1861 reinava, sem que ninguem podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.Pag. 149, lin. 28—Cinzas da correspondencia do PoetaO sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula, depois da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio novo para sua habitação. A metade septentrional da casa velha foi arrazada, e n'esse sitio e em parte do jardim se levanta hoje umchalet. O sr. Loureiro, cujo fino espirito e cujo affectuoso coração se compraz no culto do passado, quiz respeitar a lapide posta pelo Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com cuidado, com carinho, com amor, e pôl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do mesmo jardim, juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho. Tudo isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha intercalado no logar respectivo dasMemorias. O que praticou o sr. Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.

Completemos estas explicações melancolicas.

Aquelles em quem o amor entrou só, ou principalmente, pelos olhos, acham custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma accender este fogo maravilhoso. A sua mesma ventura é que os torna assim pouco philosophos.

Examinemos.

Reuniu Deus para compôr a mulher—remate, corôa, e epilogo da Creação—a quinta essencia de tudo quanto derramára de melhor no paraizo, onde a collocou, e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva ficariam avivando recordações. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o espirito brilhante e suave de um raio de oiro do sol, e de um raio prateado da lua. Deu-lhe a pureza da cecem, a alvura do lyrio, o pudor e a graça da rosa, a modestia da violeta; accendeu-lhe no olhar brilho de estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e perolas no sorrir; para fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no frémito das virações, no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves; modelou-lhe a estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos; arredondou-lhe as fórmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos; diffundiu-lhe os cabellos como as ramas pendentes e movediças do salgueiro aquatico; impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala; revestiu-os de brilhantismo; tão esmerado e prodigo os dotou, que o oiro e as perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores, ambicionando realçal-os, recebessem d'elles novo preço.

Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que volteia por entre nós como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo por fala um canto, a sujeição e a humildade por imperio; em que a fraqueza é graça, e a graça omnipotencia; cujo encargo é mais que eternisar a especie,—é entretecel-a, domesticál-a, refinar-lhe o gosto, os instinctos do bello, os arrojos para o bom e para o sublime; a mulher em summa, fadada de alguma sorte a ser mãe e mestra, guia, arrimo, lampada, conselheira, prophetisa, esforçadora, modelo e premio, não só de seus{144}filhos, mas de seus irmãos tambem, de seu consorte, de seu proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem receber directas ou reflexas as influições; a mulher, a mulher—da qual, depois de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal de seis mil annos, ainda se não exhauriram louvores, nem jámais se hão de exhaurir—não seria a vice-providencia, que devia ser, e que é, no meio da sociedade, se não possuisse este complexo ineffavel de seducções para toda a especie de indoles, de espiritos, de gostos; um laço infallivel para cada sentido; um milagre para cada incredulidade; para cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu ramalhete; sua estrella para cada noite; mão inesperada e macia para cada desamparo; para cada fronte que se despedaçaria ao cahir, a almofada subita de um braço todo extremos, de um seio todo suspiros, de um coração todo divindade.

Parece que está aqui o animo a nadar á sombra de uma sagrada Paphos n'um pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes genios das ficções; e não está senão folheando, ebrio de gratidão, o Génesis ineffavel da creatura em quem mais evidentes se revelam as perfeições do Creador. O que pareceria um hymno, é, para quem o souber meditar, uma succinta e desenfeitada pagina de historia natural.

Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as flores, não pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e escute: lá está ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos, como Ulysses ás sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os beijos, lhe revelarão completos os seus encantos. Não ouse ou não possa tocál-a; um halito, uma fragrancia subtil, que não é de flores, mas de vida,—que é mais que de vida, pois é do amor,—lhe dirá: aqui está o fruto para a tua avidez e para a tua sêde.

É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e toda para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons, como n'um cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada póro; não ha porta na alma que se lhe não franqueie. É a chamma electrica, para a qual não{145}ha resistencia nem muralhas. Fugi-lhe; esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis d'ella; vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de que blasphemaveis.

Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui chãmente o que eu sei, e que não é muito.

Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais esquiva, mais recatada, mais avára para com elle, para com elle seu fervoroso adorador. Não se lhe furtou de todo; não apagou entre si e elle o sol, como já fizera com o seu Homero; mas annuveou-lh'o como para a solemnidade de um mysterio magico; e, mesclando trevas com luz, benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a adivinhál-a, a completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a estudar a um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a, ou a creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas, hypothetica nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu, imperfeito, mas reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas inspirativo, mas sufficiente e sobejo para idolatrias.

Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal lhe assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o archétypo das perfeições: a mulher.

Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do seu interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura te seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção exclusivamente que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em auroras de mil cores, em espumas de rendas, em cascatas de oiro, de aljofares, de diamantes, cahos{146}esplendido que sonega um mundo de gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante; do semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha cerração de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com tão seductora franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os lustres e sob o sol? ¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o averiguasse, talvez recuarias de espanto! a tez mimosa e córada, a tez que ambicionavas beijar tão lisa e tão perfeita, reconhecêral-a vasto mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal cobertas, de espessuras, homizio e pastagens de viventes, para quem mais que para ti foram fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse mundo de lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo, desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te inculcava; o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o perdia sem remedio. Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a formosura, que só á providencial, á calculada imperfeição dos teus orgãos tinha devido a existencia.

¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem eu proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos convivas o quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.

Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a, individua-a muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á phantasia o completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.

¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores? ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a mulher idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade, mulher exterior mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo que lhe mora dentro, que o bando de máscaras femininas, mais ou menos imperfeitas, que enxameiam por esse mundo á procura sempre de homenagens convictas e duradoiras.{147}

Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em que outros, distrahidos com o olhar não attentariam, e que me desceu do ouvido ao seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo ella continha de imaginação ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de bondade, de innocencia, de sentimento. O perfume que d'ali se exhala, já annuncia a deusa. Entrevejo-a; branquejou-me o rosto, d'onde sahira tanta melodia e tanta alma. Doto-o, fado-o, opulento-o como podéra fazer o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais amante. O phantasma, já meio filho da minha adopção, passa por diante e perto de mim; reconheço-lhe, ou attribuo-lhe, como Virgilio á divina mãe de Enêas, a estatura, o movimento, o andar, que para ser adorada se lhe não dispensa:

Et vera incessu patuit dea.........

e não accrescento, porque o não penso:

...............tu quoque falsisLudis imaginibus...............

Beldade assim composta não é só perfeita,—é inaccessivel aos estragos do tempo, é rosa que poderá morrer, mas não murcha, não desmaia, não se desfolha; quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.

O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos fluctuantes, frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.

A par d'esta vantagem, que sem duvida o é para a poesia namorada, um terrivel desconto se apresenta logo:

Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o effeito que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham; possuem uma linguagem innata e universal, instantanea e completa, electrica, divina, intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta ineffavel faculdade, gozando-se embora da luz para disfructar e amar a vida, é vagar surdo-mudo pelo crepusculo n'uma região verde e florida, sem tratar com os moradores.{148}

¡Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a Providencia. Assim como outorgára á phantasia uma intuição especial, concedeu á linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um accrescimo de viveza, uma força de convicção, de sentimento, de lealdade, que podesse aspirar, a persuadir.

Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino oiro, ou em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala, embora poetica, mais pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do coração a real e real, em cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de liga e falso cunho; moedas de baixo preço, que mil vezes se lhe recusam; mas afinal tambem salda a sua conta.

Não me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuição do primeiro sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na faculdade de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que alguma coisa com isso parecida se deu em realidade; com o que, já pode ser que o peculio poetico se augmentaria; nova e suprema prova do que assentáramos como fundamento no principio d'este escripto, a saber:—Que a Natureza e a fortuna andaram concertadas em preparar por todos os meios, com os favores e com as sevicias, um cantor, embora inutil para tudo mais.

Sobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei tudo como o tinha na lembrança; forcejei pelo explicar sem vaidade nem modestia.

É um pobre escripto, que as almas de bem hão-de tomar á boa parte.

Presumpções litterarias, não as tem.

Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e até por facillima não muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e vida, que perpetraria uma feia acção. Deixem aos chacaes o revolverem sepulturas, e cevarem-se em ossos.

Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam já o fito em dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes misericordia.{149}

Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura d'este, que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra. No intervallo, que não poderá já ser muito longo, aggridam, vulnerem, destruam muito embora qualquer outro dos seus escriptos, e todos; não lhes exceptua nem um só, a não ser o livrinho do ensino primario pelo amor, porque esse não é d'elle; é propriedade inauferivel da puericia, da Patria e da posteridade.

A collecção de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario aChave do Enigma, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres volumes que poderiam interessar, se não como historia, como romance intimo certamente; ardeu até ao minimo fragmento, ali, debaixo das arvores do meu jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto se não extinguiu, enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das Necessidades as quatro da tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.

As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o que n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.

A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma poetisa lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura de visitar com este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:

AQUI JAZEM AS CINZASDA CORRESPONDENCIADED. M. I. DE BAÊNACOIMBRA PORTUGALEA. F. DE CASTILHOQUEIMADA N'ESTE MESMO LOGARAOS 25 DE AGOSTODE 1862{150}

AQUI JAZEM AS CINZASDA CORRESPONDENCIADED. M. I. DE BAÊNACOIMBRA PORTUGALEA. F. DE CASTILHOQUEIMADA N'ESTE MESMO LOGARAOS 25 DE AGOSTODE 1862{150}

Mais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.

A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as Religiosas choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais amavel companheira de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o alvoroço do seu interior, exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos de lagrimas; eu padecia e gozava como homem que ia fugir com um thesoiro furtado. A boa D. Anna Lucinda não podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a desejára em quanto só a vira no futuro! e agora... desamparavam-n-a as forças para a encarar; jazia doente na sua cella deserta. Maria tomou-o por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!

Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima; sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão ambiciosos.

Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi sempre Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha leitura; a mão para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos; a conselheira nas minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas pequenas ambições; a socia, a luz, a explicação dos meus passeios; o calor, a fragrancia e a musica da minha poisada; um enxerto da arvore da vida no meu teixo; o ecco do meu coração; o meu estro fóra de mim a mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder hora nem minuto de dia nem de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; eu, d'ella encantado como de uma felicidade.

Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a mulher. Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era impossivel. ¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para o Céo uma saudade unica.{151}

Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como clarão de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a pouco e pouco a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para ella e para todos; para mim não, que por instincto de vida, repulso constantemente, e até ultima, o crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a possibilidade.

N'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de vinte e cinco annos não eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava amortalhada em neve profundamente (as memorias meteorologicas poderão dizer a quantos foi; eu esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os velhos se lembravam de ter jámais visto por aqui espectaculo assim alpestre; nem de então para cá se renovou. Era um dia pallido e lugubre, que gelava o coração e as esperanças,—um d'aquelles dias, não sei se amigos se adversos, não sei se verdadeiros se mentirosos, mas bons para se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.

O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo, esperanças que ella mesma para si já não queria, tinha a janella fechada ás tristezas de fóra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos pés da Imagem em vulto daSenhora Mãe dos Homens,—madrinha de Maria, e objecto da sua devoção de toda a vida,—attrahia, como um reflexo precursor da luz perpetua, a vista perturbada da paciente, indo e vindo da Imagem, que parecia chamal-a, para o amante, que, recostada a fronte sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mão, lhe supplicava mudamente o não deixasse.

Reconcentrou emfim, por um supremo exfôrço feminil os remanescentes do seu vigor exhausto; e mandando chamar meu irmão, que na proxima sala chorava por ambos nós, nos disse: que sentia já a sua existencia na vasante, e era tempo de apparelhar a alma para as bodas eternas; em quanto lhe restava entendimento e fala, queria dirigir a cada um de nós um rogo que de proposito reservára para aquelle momento em que nada se recusa.{152}

Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.

—«Tenho pena de ti, ¡meu pobre poeta!—proseguiu ella apoz alguns momentos de concentração.—Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se Anna Lucinda não fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi tanto como eu, podia continuar como tua esposa a obra da tua felicitação, que eu deixo incompleta. Se jámais a ventura te deparar outra mulher de alma, e capaz de comprehender a tua, instruida, amante, superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te servir e consolar, offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu mesma abençoarei lá de cima a vossa união.»

Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da promessa.

Então, voltando-se para o nosso querido irmão, e depois de lhe agradecer todas as melindrosas manifestações de affecto, que tantos annos havia nos liberalisára, sem cançaço nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa como um anjo, cujas azas de prata já começavam a despontar, lhe outorgasse emfim a casinha candida com que tantas vezes lhe fizera sonhar; agora, para a erigir bastava uma só pedra; que lhe puzesse uma inscripção, na qual ao nome d'ella se ajuntasse o dos seus tres poetas: o meu, e o dos seus gloriosos parentes—Ferreira e Tolentino.

A bella alma partiu.{153}

No cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N.º 48, convisinho á ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:

MONUMENTODE PERPETUA SAUDADE,CONSAGRADO PORANTONIO FELICIANO DE CASTILHOASUA MULHERD. MARIA IZABEL DE BAÊNACOIMBRA PORTUGAL,DIGNA SOBRINHA DENICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA,EDESCENDENTE DO ANTIGOPOETA ANTONIO FERREIRA.NASCÊO NO PORTO A 2 DE JULHODE1796E FALLECÊO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRODE1837{154}

Pag. 17, lin. 10—Primeiros desastres de Castilho

Tendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braços da ama, por uma escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito. Ficou tão abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a vida. Aos 4 annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca. O estado em que ficou, obrigou sua mãe a leval-o para o campo. Isto tudo (note-se) foi antes do ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.

Pag. 10, lin. 5—Quinta dos Azulejos

Sobre aquinta dos Azulejos(tambem outr'ora chamada doPrincipe), no largo do Poço, no logarejo do Paço do Lumiar, junto a Lisboa, veja-se o que vem nasMemorias de Castilho, por Julio de Castilho, tomo I. O poço que se via no meio do tal resumido largo já não existe. Engana-se Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a honra de ter communicado ao logarejo o seu nome de Paço. Essa gloria, segundo o erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez á quinta dos Duques de Palmella.

É ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as murtas, etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas regradas opulencias vegetaes{156}por outras invenções pertencentes ao chamado jardim inglez. Estas serão muito bellas, mas desdizem dos azulejos primitivos, que lá campeiam ainda, e são dos mais vistosos, dos mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.

Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado antigo da parte rustica do predio se conservava intacto. É lastima que o alterassem.

Pag. 19, lin. 13—Antigos donos da quinta dos Azulejos

Não se conhece (se é que existiu) parentesco da familia do Poeta com os donos daquinta dos Azulejos(ou doPrincipe). Pelo lado Castilho não seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor José Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Lourenço, e Bairrada. Sem haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias, que parece eram bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio por gracejo, depois por costume. Não sabemos dizer quem hoje representa a familia de Amalia.

Pag. 21, lin. 33—Thomaz dos passarinhos

Thomaz dos passarinhosé o personagem de um dos contos do fallecido e talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livroContos do tio Joaquim, livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas poucas de vezes.

Pag. 25, lin. 3—O Paço do Lumiar a uma legua de Lisboa

«Estou dictando a uma legua de distancia»—dizia Castilho e bem.A Chave do Enigmafoi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova de S. Francisco de Paula, n.os25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe hoje menos de metade.

Pag. 27, lin. 11—José Peixoto do Valle

Era o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas. Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma vez em varios livros.{157}

Pag. 30, lin. 8—Cemiterio de honra

Castilho propoz e advogou a creação de um cemiterio de honra para mortos celebres e benemeritos da Patria. Não os queria encerrados n'um Pantheon; queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e vozes de passaros, á sombra da Cruz. Nas notas do seuCamõestratou largamente o assumpto. Não foi ouvido.

Pag. 30, lin. 9—Bustos de homens notaveis

Castilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem bustos de Portuguezes notaveis.

Pag. 30, lin. 14—Camões

Em 1836 propoz Castilho, na assemblêa geral da Sociedade dos Amigos das Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Camões, e se lhes prestasse homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que apresentou. Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commissão especial nomeada expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commissão de 1854 discordou da argumentação de Castilho, e deu outros ossos como sendo os do Epico. Entretanto Castilho conservou sempre a convicção de que o seu raciocinio na busca era o verdadeiro.

Castilho tinha a maior ufania e satisfação em escutar á sua consciencia dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de Sant'Anna os restos mortaes de Camões. Sobre todo esse complicado assumpto pode ler-se o que se trata detidamente nasMemorias de Castilho, Livro III, noInstituto de Coimbra. Não fizeram caso dos argumentos, e levaram para os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se o consciencioso livro do illustrado sr. Padre Sebastião de Almeida ViegasA verdade acerca dos ossos de Luiz de Camões.

Pag. 36, lin. 7—Palacio do Arco de Almedina

A casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje é denominadados Castilhospela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo foi reproduzida no volume antecedente a este.{158}

Pag. 36, lin. 22—Maria Telles

Julgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso do assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casarão velho, ou Torre, junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que não foi ahi.

Pag. 37, lin. 14—A educanda

O nome adoptado pela educanda,Maria da Expectação Silva e Carvalho, não era o que usava, mas tinha forma symbolica.Mariaera com effeito o seu nome proprio. AExpectaçãoallude á expectativa, em que ella se achava, de ser, ou não, correspondida pelo Poeta.SilvaeCarvalhoeram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa Real, casado na freguezia das Mercês a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na freguezia dos Anjos. O nome exacto daincognitaera D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.

Pag. 50, lin. 28—D. Tourís

Esse D. Tourís, ou Turís Sarna, é, segundo os nossos antigos linhagistas, progenitor da nobre familia dos Barbudos, á qual pertenceu o senhorio da villa de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico de Regalados (hoje freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D. Leonor de Barbudo, natural de Odemira, filha unica e herdeira de Ruy Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello Falcão, casou com D. Francisco de Baêna, vereador da camara de Odemira, e filho de D. Hernando de Baêna, o primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e teve em 30 de Outubro de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.

Foram primeiros avós do Desembargador do Paço João Sanches de Baêna, que na sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5.º avô da educanda de Vairão. ¿Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de habitar uma sua descendente?

Pag. 50, lin. 38—Os Sanches de Baêna

Vivia essa senhora recolhida em Vairão, com sua irman D. Maria do Carmo (mãe do actual Visconde{159}de Sanches de Baêna). Tinham um irmão Luiz da Silva Coimbra de Carvalho, cadete, fallecido novo em resultado de feridas recebidas na guerra peninsular.

Pag. 53, lin. 24—Pygmalião

Parece haver entre os antiquarios mythologos certa confusão entre dois Pygmaliões, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como alguns outros) fez dos dois um só.

Pag. 131, lin. 34—O Imperador de França

Referencia a S. M. Napoleão III, que em 1861 reinava, sem que ninguem podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.

Pag. 149, lin. 28—Cinzas da correspondencia do Poeta

O sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula, depois da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio novo para sua habitação. A metade septentrional da casa velha foi arrazada, e n'esse sitio e em parte do jardim se levanta hoje umchalet. O sr. Loureiro, cujo fino espirito e cujo affectuoso coração se compraz no culto do passado, quiz respeitar a lapide posta pelo Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com cuidado, com carinho, com amor, e pôl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do mesmo jardim, juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho. Tudo isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha intercalado no logar respectivo dasMemorias. O que praticou o sr. Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.


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