A FILHA DO ARCEDIAGO

Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesourosimpagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa—ainda bem—d'esse contra-senso.A FILHA DO ARCEDIAGOCAPITULO IEm 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava-lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração,que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.Quem era a victima d'esta paixão impetuosa? Uma menina de quinze annos, que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, póde vêr, no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata malteza no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os póros.Como veio esta menina para a casa do negociante?Da seguinte maneira:Quatro annos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do senhor Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, n'um domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excellente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro annos antes, vinha eu dizendo, fallava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago:—Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!—Deixa-te disso. Não tens tu, em minha mão, um bom patrimonio que lhe dês?! Acho que vinte mil cruzados, afóra o juro de cinco por cento, ha dez annos, capitalisado no proprio, a vencer até que ella faça os vinte e cinco, acho eu que é um dote de lhe tirar o chapéo.—Bom dote é; mas isso não é o que me dá cuidado. O que eu queria para minha filha é um bom marido...—Ó homem, já tratas disso!? Que idade tem a tua filha?—Tem onze annos; d'aqui a três é mulher, e póde talharfuturos por sua conta e risco. É o que eu não quero. A pequena está em mestra-de-dentro; mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas não sabem adivinhar o coração d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...—Diz, padre Leonardo...—Que é filha de tal pae e de tal mãe... Eu tenho sido o que tu sabes...—Isso lá é verdade... tu tens sido levadinho da breca com o gado de contrabando...—E a mãe, se queres que te diga a verdade, tinha uma perfeita embocadura...—Diz-m'o a mim, Leonardo! Era uma namoradeira dos quatro costados... Mas, emfim, está casada, e já não é a mesma.—Caro me custou o casamento...—Isso custou! O que tu déste ao francez p'ra montar a loja de livros, ainda que não rendesse senão a sete por cento, podia hoje montar a reis... deixa vêr... quatro vezes sete vinte e oito, vão dous, com cinco cifras, faz... faz...—Aguas passadas... não fallemos n'isso. Agora o que me importa é a rapariga, já que fiz a asneira de a procurar na roda... Tira-me o somno, Silva! Lembra-me ás vezes que esta pequena ha de ser a disciplina com que hei de ser castigado por muitas asneiras que fiz...—Isso lá é verdade. Diz o dictado: «Onde se fazem, ahi se pagam.» Já vem dos velhos a experiencia... Sabes tu que mais? Casa a rapariga assim que ella pozer as ventas no ar a contar os ventos. Não lhe dês tempo a namoricos. Janella fechada, e marido entre mãos, era o systema de minha mãe, que Deus haja, e minhas irmãs não deram desgosto á sua familia.—Tens razão, Antonio; mas quando o diabo está atraz da porta, não vale nada fechar a janella... Olha lá... Queres tu casar com a minha Rosa?—Homem, essa!... tu serás o espirito ruim que me appareces em corpo d'homem? Não vês que tenho cincoenta feitos, e que nunca me deu na cabeça a asneira de me casar?—Alguma vez ha de ser a primeira...—Isso lá é verdade; mas cada qual mede-se com as suas forças, e eu já não estou homem para tropelias. O que eu quero é comer bem, é beber-lhe melhor. Isto de creanças, casadas com velhos, não provam bem...—Estás enganado com o mau exemplo da tua visinha Anna...—Que pôz na cabeça do marido um chinó, porque elle era calvo... e eu não estou menos calvo que o pobre João Pereira, que deu com o negocio em pantana, por causa da mulher...—Não meças tudo pela mesma rasa, Antonio. A pequena é docil, tem um genio de pomba, vai para onde a levam, e será uma boa esposa. Ponto é pilhal-a nos cueiros... Tu sabes melhor que eu o dote que ella tem...—Não fallemos em dote, Leonardo... Eu, se casar com a tua filha, tanto se me dá que ella tenha um como dous... A cousa não é essa... O peor é o resto.—Que resto?—Eu te darei a resposta ámanhã.Continuaram fallando largamente sobre o assumpto, em que o senhor Silva, tres vezes, citou o chinó do seu visinho João Pereira.No dia seguinte, o arcediago de Barroso encontrou o seu amigo meditativo.—Pensas ainda, Antonio?—Estava pensando no nosso negocio. Isto de mulheres deve a gente suppôl-as sempre mercadoria avariada... Mas, diz-me cá, a tua filha só tem onze annos...—Só, e d'aqui a dous tem treze...—Se a cousa se arranjasse, não podia ser senão d'aqui a dous annos.—De certo.—Pois, então, fallaremos.—Não que é preciso decidir-se a cousa já.—Porquê?—Se disseres que sim, a pequena ha de vir para tua casa já; quero que seja educada por tua irmã, e que se afaça comtigo, para te ganhar amizade, e o amor depois virá.—Qual amor, nem qual carapuça! Ella póde lá ganhar-me amor!... Eu cá de mim, se casar, o que quero é uma herdeira, porque tenho para ahi uns sobrinhos, que se penteam muito, e que não querem estar ao mostrador a medir covados de panno. Ha de me custar se elles vierem metter a mão no que me custou a ganhar com honra e trabalho. Um d'elles metteu-se-lhe na cabeça ir a Coimbra estudar para doutor!... Que tal está o catavento! Meus paes foram lavradores, eu sou negociante, e quem houver de ficar com a minha casa ha de vir para aqui. Quando penso n'isto, Leonardo, parece-meque me fazia conta casar!... E, se eu tivesse um filho!... isso então, digo-te que era ouro sobre azul! Se não fosse o medo, que tenho ás bôcas do mundo, não engeitava aquelle rapagão da Thereza...—É verdade, que fizestes á Thereza?—Puz-lhe um estabelecimento de castanhas assadas na Ribeira. O diabo da moça piscava o ôlho ao caixeiro, e pul-a fóra de casa. Eu cá poucas vergonhas de portas a dentro não as quero.—Tens razão; mas isso do filho é cousa muito natural...—Ah! é verdade; isto do filho acho eu que é cousa muita natural; mas dizias tu que á Rosinha...—Viria para a tua companhia, e aos treze annos, ou mais cedo, com licença do bispo, casas com ella...—Homem... isto é uma carta tirada da baralha... Está dito, se a cousa não dér de si, caso com a tua filha.—Se a cousa não dér de si... dizes tu; que quer isso dizer?—Sim, se não houver entrementes cousa que desarranje a minha saúde ou a d'ella...—Está visto, não é preciso tirar isso como condição.Rosa Guilhermina veio para casa do senhor Antonio José da Silva.O noivo predestinado affeiçoou-se á pequena com toda a effusão paterna. Prodigalisava-lhe carinhos, que a menina recebia com indifferente innocencia, mas com certo aborrecimento intimo, e até nojo da sua grande cara, cujas belfas eram vermelhas como duas folhas de parra de moscatel, no outono.Feitos os treze annos de Rosa, o negociante sentiu abrirem-se-lhe as valvulas do coração para lhe verterem nas veias um sangue mais quente. Não era um fino amor o seu; mas era um amor que lhe afinava a voz melodiosa de meiguices, que a pequena recebia sempre com tregeitos de enfastiada.A affeição não correspondida reagiu.O coração, atufado pelos tecidos cellulares, do obeso amante, esperneou nas cavidades do peito respectivo, e veio á superfície dos acontecimentos com o ideal d'um Antony, com os ciumes d'um Othello, e com a paixão escandecida d'um Mamfredo de cuecas, como tivemos o dissabor de vêl-o no principio d'este capitulo.CAPITULO IINa tão indecente como attribulada situação, em que deixamos o senhor Antonio, veio encontral-o o padre Leonardo Taveira, que voltava de resar vesperas no côro da Cathedral.O cálido negociante resfollegava como um tubarão, e improvisava uma ventoinha de meia fralda da camisa. Cada vez mais indecente! Valha-nos Deus, leitores, que muito amargo é o dizer a verdade inteira! Ha momentos em que o escriptor publico se vê forçado a córar. Se me visseis, n'este instante, julgar-me-ieis d'uma candura infantil.O arcediago, porém, não se mostrou surprendido da attitude tragicamente afflictiva do seu amigo. Cálido tambem, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela, e refocillou os amplos pés vermelhos nos propicios chinelos do escarlate mercador de pannos.—Fostes a minha desgraça!-regougou o senhor Antonio, abanando o ventilador com a mão esquerda, e enxugando com a toalha de mãos os humidos torcicollos do pescoço.—Fui a tua desgraça! Pois que é?-replicou o beneficiado, tapando com o indicador da mão direita uma das ventas, para chilrear na esquerda uma solemne pitada.—Que é? ainda m'o perguntas? É a tua filha que me faz de fel e vinagre! É uma ingrata que se me ri nas barbas, quando eu lhe faço meiguices!—Ora deixa estar, que o remedio não está em Roma. Eu já te disse que sou pae, e tenho direitos sobre minha filha. Queres ou não queres casar com ella, Antonio?—Perguntas-m'o agora que já não sei por onde me anda a cabeça!... Dava trinta mil cruzados, e queria que a tua filha gostasse de mim! Isto parece que foi inguiço, que me fizeram!...—Eu te quebrarei o inguiço...—Não sei como. A pequena, seja lá pelo que fôr, não me póde vêr, ha um anno para cá. Aqui anda dente de coelho... Não sei, mas desconfio que ella namora o filho do João Retrozeiro, que me está sempre a lêr por detraz dos vidros.—Devéras?—Parece-me que sim. A minha Angelica já o desconfiou,e ralhou-lhe. A senhora Rosinha levantou a cabeça, e disse que não dava satisfações a ninguem.—Ah! ella disse isso? Ora deixa-me com ella...—Ouviste, Leonardo? não quero que lhe ralhes. É muito creança, e póde ser que minha irmã se enganasse. Serão escrupulos de Angelica, que me defumou com herva sancta e trevo nove vezes para me quebrar o feitiço em que me tinha a criada Thereza. É uma pateta mulher. Não lhe digas nada por ora a tal respeito. Aconselha-a que case comigo, e que me tenha amor, que eu prometto dar-lhe todo o ouro e vestidos que ella quizer. Hei de até leval-a ás comedias italianas, e não haverá fidalga que lhe bote a barra adiante em aceios.Já vêem, pela energia da expressão, que dôr tão sublime não devia ser a que assim se exprimia por jactos de calorosa eloquencia! O senhor Antonio José da Silva, superior á sua classe, sentia-se arrojadamente grande pela angustia d'uma repulsa. Trinta mil cruzados déra elle pelo amor de Rosa Guilhermina! Promettia leval-a ás comedias! Galardoava o seu amor com vestidos que fizessem morder de inveja as fidalgas do Porto! Eu quizera que Rosa lhe exigisse uma carruagem. Se o senhor Antonio accedesse ao extravagante pedido, então, leitores seria eu o primeiro a pedir uma data gloriosa, um cantinho, na historia da civilisação da rua das Flores, para o senhor Antonio José.A nada, porém, se movera a esquiva donzella.O arcediago, commovido pela exclamação do seu futuro genro, subiu ao segundo andar, e procurou, meio-colerico, a filha rebelde, que ensinava o papagaio a dizer:é o rei que vai á caça.—Á caça andava eu de ti...—disse affavelmente o pae, chegando uma cadeira para junto de sua filha tambem risonha, que lhe beijava a mão.—Ah! eu não sabia... Tenho estado aqui toda a tarde a trabalhar, sósinha.—A senhora Angelica não tem estado ao pé de ti?—Não, meu pae. Creio que foi visitar o SS. Sacramento.—Mas ella ainda é tua amiga como sempre foi...—Eu sei cá... parece-me que não.—Algum motivo lhe déste, Rosa...—Eu? nenhum.—Que disseste hoje ao senhor Antonio?—Não me lembro... A que respeito?—A respeito do teu casamento.—Não fallemos n'isso, meu pae... Sou muito nova, não quero casar.—Não quero!isso é cousa que se diga a um pae?—Vmc.enão ha de querer a minha desgraça... Eu não posso ser feliz casando com o senhor Antonio... Antes quero ser criada de servir, ou trabalhar para viver...—Rosa, não sejas creança. Olha que tu, casada com este homem, és muito rica, satisfazes todas as tuas vontades.—Antes quero ser pobre... Tenho repugnancia em chamar meu marido a um homem que eu poderia estimar como avô... Não posso, é impossivel, meu pae. Mais facil me será morrer, que casar com elle.—Visto isso, resistes á vontade de teu pae!—Bem me custa; mas o pae ha de ter pena de mim; não ha de querer que eu seja desgraçada toda a minha vida.—Não quero, não; e por isso mesmo é que te mando casar com o senhor Antonio José da Silva.—Mate-me, se quizer; mas obrigar-me a casar, isso não.—Das duas uma: ou casar, ou entrar já no recolhimento das orphãs em S. Lazaro.—Entrarei no recolhimento, vou para onde o pae quizer que eu vá, até serei carmelita, se fôr da sua vontade.Esta pertinaz resolução espantou o arcediago, e convenceu-o de que sua filha estava innocente das suspeitas de Angelica, beata crendeira em encantamentos, inguiços, e lobishomens. Se a pequena tivesse namoro com o filho do João Retrozeiro, de certo não acceitaria com tanta presença de espirito a condicional do recolhimento. Assim o pensava o licenciado, que tinha muita experiencia do mundo, e essa muito cara, a julgar pelas cifras que accumulou o negociante, orçando as despezas do casamento da mãe de Rosa.Teimoso, e esperançado nas boas maneiras, entrou em negociações amigaveis com a menina. Pintou-lhe o melhor que pôde a vantagem de ser brevemente uma viuva rica, e a liberdade que teria então de escolher um marido mais galhardo. Repetiu a seducção dos vestidos, e dos diamantes; encareceu as delicias do theatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; emfim, por não fechar o discurso sem uma immoralidade, com palavras equivocas, dissertou pouco christãmente ácerca dos deveres da mulher casada.Rosa insistiu na recusa. O padre irou-se outra vez; deixou cahir a caixa, no excesso da indignação; verteu no peito da camisa quatro pingas de rapé; escumou pelos cantos dabôca; pizou uma perna ao papagaio; entalou o rabo da gata, que saltou, bufando, para o peitoril da varanda; e acabou por dizer, em voz cavernosa, que Rosa, no dia seguinte, sem mais delongas, seria fechada no recolhimento de S. Lazaro, para não vêr sol nem lua.O senhor Silva ouvira os ultimos berros, e zangou-se contra o padre. O seu amor não lhe consentia um ultraje a Rosa, apesar de ingrata. Em cuecas, e com a camisa em ventilador subia a escada; mas, a meio caminho, olhou para si, e viu, na sua consciencia, que não estava decente. Tornou atraz a enfiar as pantalonas de linho, quando o arcediago descia com a cara côr de lagosta, e os olhos turgidos e encarniçados como dois medronhos bravos.—Não fazes senão asneiras, Leonardo—disse o negociante, impando com a difficuldade de enfiar a côxa roliça nas pantalonas, que queria vestir ás avessas, no auge da atrapalhação.—Eu não faço asneiras. Sou pae, e quero ser obedecido.—Que vaes tu fazer?—Ámanhã ha de entrar no recolhimento por força.—Deixa-te d'isso; não afflijas a rapariga por minha causa. Eu não consinto...—Não preciso do teu consentimento. O caso agora é comigo, não é comtigo. Veremos quem vence.—Então não ha outro remedio, Leonardo?—Nenhum. Está de pedra e cal. Não quer casar por bem nem por mal. Diz que tem repugnancia em ser tua mulher.—Sim?!-atalhou o senhor Silva atrozmente ferido na sua vaidade—pois, n'esse caso, faz o que quizeres, e tira-m'a quanto antes de casa.—Olha cá, Antonio... Eu parece-me que a pequena, em se vendo fechada no recolhimento, onde não conhece ninguem, nem tem janella para a rua, mudará de vontade, e quererá casar...—Comigo? Isso nunca! Deus me livre!Má mezpara ella! Lembras-te do chinó do meu visinho?—Ora deixa-te d'isso, meu amigo. Nem todos os maridos são calvos... nem todas as mulheres fazem marrafas. Dá tempo ao tempo. Quem lida com mulheres, lida com o diabo. É preciso atural-as. Sabes lá o que eu tenho soffrido com ellas?—Eu é que não estou para brincadeiras... Estava muitosocegado, ha tres annos; para que vieste tu inquietar-me com o negocio, que me propozeste em Campanhã? Guarda a tua filha, que eu morrerei solteiro.O senhor Antonio José da Silva, dizendo isto, melhor avisado, bebia uma limonada, e o arcediago de Barroso calçava os sapatos de fivela.N'este momento entrava a senhora Angelica, de mantilha, e camandulas de pau preto pendentes nas mãos, que trazia sobre o seio em postura beatifica.—D'onde vens, Angelica?-perguntou o irmão.A beata resmungou, e subiu para o segundo andar.Espionemos d'onde vinha a senhora Angelica.CAPITULO IIIQue Rosa Guilhermina estava, mais ou menos, possessa de feitiços, era um evangelho para a senhora Angelica. Que a filha do peccado, como a beata lhe chamava, seduzida pelo demonio, namorasse o filho do retrozeiro, isso é que não era liquido.Para os feitiços deixára Deus na terra pessoas virtuosas, mulheres sabias, que os desmanchavam; e para adivinhar o coração da pequena bem sabia a irmã do senhor Antonio que o remedio não estava longe.A senhora Angelica ouvira a conversação do seu Antonio com Rosa Guilhermina, na manhã do dia em que se passaram as scenas ridiculamente funebres do capitulo anterior. Cousas ouviu ella que a obrigaram a benzer-se tres vezes, e queimar arruda no seu quarto, e no da pequena. Parece que a timida sexagenaria receava que o espirito mau, que vexava Rosa, viesse, por variar, entreter-se com o seu corpo immaculado.Feitas as abluções, e comido o jantar, que benzeu tres vezes, e devorou com as pernas em cruz, receosa d'um ataque subterraneo do demonio, compoz a coca da mantilha, armou-se do rosario abençoado por Gregorio XVI, prendeu duas figas e um chispo de veado na alça do collête, e sahiu.Da rua das Flores a Miragaya dava saltinhos como uma franga com as azas cortadas. Ao pé da antiga casa da Companhia, n'uma porta baixa de casa terrea, bateu a senhoraAngelica. A porta foi aberta por uma velha inqualificavel, indefinivel, mistura de todos os animaes repulsivos desde a santopeia até á cegonha. Era a senhora Escolastica, benzedeira, adivinha, mulher sabia, que praticava com o invisivel por meio da peneira e das cartas.—Venha com Deus, devota de Nosso Senhor. Já sei ao que vem.—Já? Louvado seja Deus!—A Rosinha não quer casar.—Nem á mão de Deus padre... Aqui anda feitiço. Queria que vmc.eme dissesse se o filho do retrozeiro, que se chama José, será o manfarrico que faz doudejar a cabeça da rapariga.—Vamos a isso—disse a senhora Escolastica, carregando duas vezes de simonte a venta esquerda, que parecia um mexilhão aberto, e folheando um surrado baralho de cartas.A senhora Escolastica benzeu-se, e pronunciou a seguinte oração, pondo as cartas em quatro montes, benzidas tambem:«S. Cypriano, bispo e arcebispo fostes, sete annos no mar andastes, na vossa divina graça vos sustentastes, sete sortes pela vossa divina esposa botastes, no fim vos declarastes. Declarai-me aqui se a Rosinha anda de namoro com o José, filho do retrozeiro.»E, depois, voltando-se, com ar sibillyno e tragico, para Angelica:—Rosa é a dama de ouros; o José é o rei de ouros. Aqui sahe Rosa com o sete de espadas, que é uma paixão d'alma. Aqui está o José voltado para ella de corpo e pensamento, que é o valete de ouros. Sahe-lhe aqui outro homem, que é seu irmão; mas ella vira-lhe as costas, e dá-lhe más palavras, que é o cinco de espadas. No meio disto sahe-lhe aqui lagrimas, que é o cinco de copas, e a espadilha o affirma. Seu irmão aqui está com o sete de copas, que quer dizer comidas e bebidas, e ella vira-se para o sete de paus, que é um gosto grande, e o seis de paus pela porta da rua. Aqui está a dama de espadas, que é uma mulher de má língua por causa d'uns dinheiros grandes, que é o dous d'ouros, vê? ella ámanhã sahe por caminhos; aqui está o dous de espadas, e aqui está o az d'ouros, que é a igreja, e o quatro de paus que é a tumba... valha-me Deus!...A senhora Angelica, côr de cidra, benzeu-se. Dito isto, a senhora Escolastica repetiu a miraculosa operação, e descobriu umanovidade. Novidade é uma carreira de cartas semfiguras. A novidade era a confirmação do quatro de paus, e um certo az de copas, cuja significação a benzedeira disse ao ouvido de Angelica, que fez uma carêta, e persignou-se. Carêta aquella, discreta leitora, que eu tambem fiz quando me contaram esta pavorosa historia.Feito isto, as cartas foram substituidas pela peneira.A senhora Escolastica, versada nos dous ramos de sortilegio, pôz de perfil a peneira, e metteu-lhe um Senhor crucificado, umas contas, e tres vintens em prata. Depois cravou em um dos lados os bicos de uma thesoura fechada, e outra thesoura do outro lado. Feito isto, com grandes tregeitos, e grave attenção da senhora Angelica, que murmurava o credo em cruz, disse a benzedeira:«Peneira, tu que peneiras? Pão para toda a christandade. Pelo poder de Deus peço-te que me digas se a Rosinha ha de casar com o senhor Antonio; se tiver de casar, vira-te para a direita, e senão vira-te para a esquerda.»—A peneira oscillou alguns segundos, e ficou voltada para a esquerda.A pobre Angelica deixou pender o beiço inferior, que, ha quatro annos, lhe tocava na ponta do nariz! Estava profundamente triste e aterrada! O seu ôlho esquerdo fallou da abundancia do coração. Uma lagrima, côr de agua-pé, rolou-lhe perguiçosa nas verrugas da face.—Sabe o que mais, senhora Angelica?—disse Escolastica, commovida, e atufando a pitada na fossa anfractuosa da venta direita—sabe que mais?... vamosprendera rapariga.—Isso será cousa de escrupulo, e eu tenho medo que Deus me castigue.—Agora castiga... Ha de ensinar ao seu irmão esta oração: «S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam á porta do teu coração, Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade, para que nem na cama, nem na mesa, nem no lar, sem mim, não possas estar, rir e fallar, e já, e já, e já com todo o pacto.»—Esta oração ha de seu irmão dizel-a, e quando dissercom todo o pactoha de dar tres vezes com o pé direito no chão. Passados nove dias, em que eu hei de rezar a novena das almas, e ouvir as vozes, appareça vmc.epor cá, e veremos se é preciso trazer roupa d'ella para a defumarmos nos quatro cantos com o fogareiro de S. Cypriano.A senhora Angelica deu por bem empregados os seus dous patacões, e passou o resto da tarde a rezar os versos de S. Gregorio, e a novena de Sancta Apolinaria, emS. João,onde estava, n'esse dia, que era sexta feira, exposto o Sanctissimo.Ora aqui está d'onde vinha a irmã do senhor Antonio José da Silva.Dobrada a mantilha, e a saia de durante, a senhora Angelica desceu a procurar seu irmão, e, farejando os cantos da sala, viu que ninguem lhe testemunhava a tremenda revelação, que ia fazer-lhe.—Então já sabes o que acontece?-perguntou elle, emborcando o segundo pucaro de limonada.—Que foi, meu Antoninho?—A Rosa vai-se, ámanhã, embora.—Vai! Louvado seja Deus!... bem m'o disse a Escolastica!...—Quem é a Escolastica?!—É cá uma mulher, muito temente a Deus, que vê o que se passa na alma...—Deixa-te de crendices... não creias em maranhões...—Credo! não digas tal, Antonio, que não vá Deus castigar-te, e ella sabel-o... Se tu soubesses o que ella me disse...—Não sei, nem quero saber... Has de sempre ter essa mania! Pergunta ao padre Leonardo por isso, e verás a rizada que elle te dá...—Bem me importa a mim a risada do padre Leonardo!... Não... aquelle não é cá dos meus!... Padres com filhas... não quero ir com elles nem para o céo... Sabes tu que o tal arcediago me parece jacobino!... Deus me valha, se pecco... Cala-te, bôca...A devota mulher, incapaz de infamar, dava uma sonora palmada nos labios, quando apostrophou a bôca falladora, e lhe impôz silencio, que mais eloquente que a bôca, segundo diz o poeta latino, fallou assim:—Tenho cá minhas aquellas com este padre!... Elle não diz missa, nem préga a quaresma, nem vai ás via-sacras, como o padre Aniceto, meu confessor, e o padre Benedicto dos Carmelitas, que reza os exorcismos. Deus me acuda—continuou ella em voz alta—mas não tenho fé com padres que tem filhas, e casam as mães com outros, de mais a mais com um pelitrão da França, que é hereje, e jacobino na alma e no corpo...—Cala-te lá, que estás ahi a dizer parvoíces. O padre Leonardo é um homem honrado, que não vai ás via-sacras, mas tem temor de Deus. Lá, se deu a sua escorregadella, em bom panno cahe uma nodoa. E, se elle não fosse um bompae, não obrigava a filha a entrar, ámanhã, no recolhimento de S. Lazaro.—Que me dizes, Antonio da minha alma? Pois a Rosa vai para o recolhimento?—Vai, podéra não!...—Bem o disse a serva de Deus! Ai! que tudo nos vai sahindo como a benzedeira o disse... O az d'ouros, lá estava o az d'ouros, Antonio! Não tornes a fazer pouco dos adivinhamentos. Tudo m'o disse ella, e muitas cousas mais... Abençoados dois patacões!—Ó mulher, tu pareces-me tôla! A impostora da velha podia lá saber isto! Botou-se a adivinhar!—Ó Antonio, tu não me pareces catholico!... Sancto nome de Jesus! Pois, sem aquella de Deus, sabe lá ninguem futurar o que te ha de acontecer? Não sejas assim, meu bom irmão. Lembra-te dos inguiços que te fez Thereza (Deus lhe perdôe, se já morreu), aquella desavergonhada que tinha levado as tuas cuecas da roupa suja para as benzer uma feiticeira da rua Chã, e se não fosse a devotinha Escolastica ainda hoje terias o demonio á perna, Deus me perdôe!...—Vai-te d'ahi, que a Thereza não tinha demonio nenhum...—Não tinha não... Pois não lhe viste a abstrucção de ventre, que ella trouxe, e só com as rezas da Escolastica é que o berzebum a deixou a ella, e a ti? Valha-te o Senhor!... Diz-me com quem andas, dir-te-hei as manhas, que tens.—Está bom... Vamos tratar de cear, que são nove horas.—Está a Anna a segar o caldo... Antes d'isso quero dizer-te duas palavras.—Diz lá.—Mas não has de fazer modos de incredulo. Tu queres que a Rosinha case comtigo?—Eu não.—Não!... Minha mãe Maria Sanctissima!... Se eu te entendo...—Quero que ella tenha por mim affeição de dentro... Contra vontade, não quero ninguem.—Pois se eu te ensinar o modo de fazeres com que ella te tenha affeição de dentro?—Vai bugiar! Tu cada vez estás mais tonta!—Estou! pois olha que não é de velha.—Isso não; mas já podias saber mais do mundo com sessenta e nove annos... És mais velha que eu quatorze.—Então? achas que estou tonta como a velhinha tia Brizida, que já fez noventa e dous?—Não sei... Sabes que mais? Mette um salpicão no pucaro, e leve berzebum as paixões, e quem com ellas engorda.—Olha cá, Antonio... Não te quero assim... Pareces-me mesmo nos modos com os chichisbeos que vão ao theatro, e á missa das dez a S. Bento, por causa das freiras, que, Deus me perdôe, podem bem com a sanctidade que teem!... Andam sempre alli pelas grades aquellas namoradeiras, que nem me parecem religiosas, e esposas do Cordeiro immaculado, e fallam da vida do proximo!... Valham-me as cinco chagas, e a benta cruz.—Vai pôr a mesa, mulher, e olha lá o que essa rapariga está a fazer, que eu vejo d'aqui o filho do retrozeiro á janella...—Ah! vês? Não que ella faz-lhe amor de cá...—Tu viste?—Disse-m'o a Escolastica.—Que leve a breca a tua Escolastica, que o meu gosto era dar-lhe com o covado no costado...—Sancto nome! Tu que dizes, homem? Aqui cahe raio. Pede perdão á servinha de Deus, senão as palavras não te aproveitam...—Que palavras?—As palavras que hão de fazer com que a Rosa ande atraz de ti como a linha atraz da agulha. O caso é ter fé. Se as disseres, tu verás, Antonio!...—São palavras para lhe dizer a ella?—Não... Assim que a vires, has de dizer no teu coração...—Cala-te ahi...—Não me calo... tenho até escrupulo de me calar... Hei-de dizer-t'as. Ouve lá: «S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam á porta do teu coração, a Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade... e... espera lá... deixa vêr se me lembra... ah! já sei...para que nem na cama, nem no lar, sem mim, não possas estar, rir e fallar, e já, e já, e já com todo o pacto.» Quando disseres isto, deves assim bater com o pé no chão uma, duas e tres vezes...Á terceira, a senhora Angelica pilhou debaixo do pé o rabo desgraçado da gata, que soltou um doloroso grito, e vingou a affronta enterrando a unha no joanete esquerdo de sua ama. Angelica soltou um brado fremente de angustia. A gatarosnava, com o pello hirto, n'um canto da sala, e o senhor Antonio bascolejava com as nedias mandibulas uma gargalhada sincera.CAPITULO IVO salpicão fumegava na mesa, rodeado de ervilhas ensopadas. Ao lado, as tigelas do bem adubado caldo, opulento de gorda ôlha, ressumavam um cheiro appetitoso, que ludibriava o paladar dos rapazes da loja, aos quaes era só permittido o cheiro.Angelica fôra chamar Rosinha para a mesa, emquanto seu irmão espostejava as talhadas pingues do paio de Lamego. A arrufada menina não quiz cear, e, para esquivar-se ás instancias da velha pertinaz, declarou-se incommodada da cabeça, cobrindo-a com o lençol.O negociante engatilhava a cara em ar de despeito, e ensaiava as palpebras roliças n'uma postura sombria, que desse da sua dôr a alta ideia, que os queixos desmentiam, cevando-se na carne de porco, e nas ervilhas aromaticas.Certo de que a ingrata filha do arcediago não vinha á mesa, o senhor Silva inutilisou a cara funebre, deu largas á testa franzida tyrannamente, e mascou, rugindo como os deuses d'Homero, a ceia substanciosa.Angelica, da sua parte, comeu bem, e revesou no caldo, que, segundo ella, podiam comel-o os anjos. Deu graças a Deus, e a todos os sanctos do seu conhecimento, que eram todos, e alguns duvidosos, emquanto seu irmão, a cadapadre-nosso, desafogava um arrôto, que podéra, sem hyperbole, chamar-se um urro.O ultimo, e mais estridulo, soltou-o no seu quarto, onde, emfim, aquella alma atormentada, e o estomago revolto deviam dar-serendez-vousem grato somno de sete horas.A senhora Angelica, reservando para o dia seguinte um novo ataque á incredulidade de seu irmão, entrou, no seu quarto, a rezar a novena das almas, que lhe fôra imposta pela devota Escolastica, e que não acabou conscienciosamente porque adormeceu no meio da reza, enxotando, com palavras de esconjuro, o demonio do somno, seu tentador implacavel. A ultima apostrophe confundiu-se com o resonar profundo deseu irmão. O resonar de ambos, dueto horrivel, acordava os eccos funebres da casa. Dormiam todos, excepto Rosa.Rosa não dormia, porque apurava o ouvido a cada quarto, que badalava o relogio de S. Domingos.Faltava o ultimo para as dez, quando a promettida esposa do negociante enfiou o vestido, saltou fóra da cama, abriu cautelosamente a janella, em que batia o luar, traiçoeiro confidente dos amantes nocturnos, que apenas podem sorrir de dia, e só nas trevas, deixam voar o coração-morcego.Na janella fronteira estava um vulto, e na rua solitaria não se viam os malditos grupos; innovação inutil daguarda municipal, que nos dá a entender que os ladrões augmentaram com a civilisação, posto que os jornaes diariamente nos aturdam com o catalogo dos roubos.Em 1815 podia-se namorar honestamente d'uma janella para a outra, na rua das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para testemunhar a vida intima dos que lhe pagam. Podia cochichar delicias a donzella recatada da trapeira para a rua, sem que o amador extatico ao som maviosissimo d'aquella voz, receasse oretire-se!brutal do janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho d'uma escada de corda no terceiro andar, subir impavidamente, conversar duas horas sobre varios assumptos honestos, e descer, sem o receio de encontrar cortada a rectaguarda por um selvagem armado á nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a digerir a substancia da deliciosa entrevista.Bemaventurados, pois, os que namoraram em 1815.Mas não tenham a impiedade, leitoras honestas, de suppôr que a mencionada escada de corda engatou o gancho na reputação de Rosa. Não, senhoras. A filha do beneficiado ignorava esse invento da intelligencia humana, essa corrente electrica, que aproxima dous corações, a escada de corda, emfim, que nunca ninguem imaginou tivesse electricidade, mas que eu, amante da minha patria e das glorias d'esta terra, declaro á academia real das sciencias, que a tem, e lhe offereço a descoberta como digna das suas ponderosas lucubrações.Mais ponderosos ainda eram os motivos porque a virtuosa Rosinha déra signal ao José Bento, filho do retrozeiro, para fallar-lhe áquella hora, acto que, publicado, faria jejuar a senhora Angelica dous annos, a pão e agua, e faria crescer a agua, sem o pão, na bôca de muitos caixeiros das lojas visinhas, que a essas horas resonavam como conegos em matinas.Era a segunda vez que a predestinada mulher do senhorSilva se abalançava ao crime infando de tagarellar da janella, a horas mortas, para a janella fronteira.José Bento era um moço de quinze annos, muito envergonhado, e tão inutil, na opinião publica, que sua familia resolveu fazel-o frade loio. Tinha dezeseis annos, e estudava latim, com grande pasmo do mestre, que durante quatro annos, não podéra conseguir ensinar-lhe os rudimentos da arte, sem que elle discipulo lhe désse quatro asneiras em troca de cada regra. No seu genero era um prodigio! Não obstante, para loio o que lhe faltava era a idade, que sciencia tinha elle de sobejo para repartir na communidade.O que elle tinha, além da sciencia, era uma melancolia sympathica, contemplativa, e romanesca. José Bento, se fosse dos nossos amigos de botequim, passaria hoje por um espirito atormentado, um mancebo devorado por illusões, um sceptico de coração crivado de angustias, e conseguiria, não fallando, pertencer á seita dos Szafis da feira da ladra.Não lhe faltava a testa espaçosa da tarifa. Um todo-nada de navalha nas raizes capilares da fronte seria bastante para nos dar uma testa artistica, em que os sectarios de Spurzen, veriam o genio, e o respeitavel publico a toleima.Ora aqui está quem era o namoro da senhora Rosa Guilhermina, que vai fallar com a voz commovida, vibrante, e melodiosa.—Senhor José...—Aqui estou, senhora Rosinha... Não me vê?—Vejo... agora vejo...—Como passou?—Bem; e vmc.epassou bem?—Tenho estado hoje muito doente.—Sim? de quê, senhor José?—Tem-me doído muito a barriga.—Será do calor...—Acho que sim; veio cá o cirurgião, e mandou-me tomar banhossemicuplos...—Deus queira que lhe façam bem. Então já sabe que me vou embora d'esta casa?—Vai? para onde vai, senhora Rosinha?—Para o recolhimento de S. Lazaro.—Pr'amor de quê?—Porque meu pae teima em querer casar-me com o senhor Antonio, e eu...—Valha-o a maleita! Pois elle quer casal-a á força com um velho assim?—Ora ahi está; e eu não quero...—Faz vmc.emuito bem. Eu tambem, ainda que a filha d'um rei quizesse casar comigo, emquanto vmc.eme lembrasse, mais facil seria atirar-me d'esta janella para baixo á rua, que casar com ella.—Forte teima de homem! Ainda hoje lhe disse que era capaz de metter o fuso da senhora Angelica por um ouvido, se me quizessem obrigar a tal casamento...—Então vmc.edecerto vai para o recolhimento?—Antes quero isso, antes quero ser freira.—Então, sempre lhe digo, que vou para os Loios, se a menina se mette freira...—Eu não sei o que acontecerá... Póde ser que meu pae, em vendo que eu não mudo de vontade, me tire do recolhimento.—Isso é verdade, e, se assim fôr, n'esse caso não quero ser frade, nem que meu pae me desherde.—O peor é que nos não tornamos a vêr...—Não? E é verdade que não. Lá nas orphãs diz que não ha janellas.—Não ha, não; mas, se podéssemos escrever-nos...—Isso sim; se podéssemos escrever-nos era bem bom; mas vmc.e, em se pilhando lá a brincar com as outras raparigas, esquece-se de mim.—Não esqueço, não. Estou affeita a vêl-o ha mais d'um anno, e tarde me esquecerá...—Se vmc.esoubesse o amor que lhe tenho!... Ha quatro noites a fio, que sonho comsigo, e nem posso estudar a lição, nem tenho vontade de comer. Já minha mãe hoje disse: este rapaz teve alguma olhadella má. Mal diria eu que vmc.esahia d'essa casa!... Pois olhe... a senhora Rosinha a sahir, e eu tambem.—Para onde vai?—Vou para o Passos estudar latim. Meu pae quer que eu esteja dentro do collegio para aprender mais depressa, e eu até aqui dizia que não, porque tinha saudades de si, mas agora não se me importa de deixar esta casa.—E onde mora o mestre?—Na viella da Cancella Velha.—Pois se eu arranjar por quem lhe escreva, lá mando.—Então não se esqueça.—Adeusinho.—Adeusinho, estimarei que tenha saude.As janellas fecharam-se, e a lua no céo velou o rosto de negro, como contristada da agonia lacerante d'estes dous infelizes! Essas phrases plangentes traziam o quilate d'uma lucta atormentada que lá ia dentro nos dous corações! A leitora sensivel, com as lagrimas nos olhos, e a palpitação accelerada, espera, anciosa, o desfecho d'este lance, que ficará aqui insculpido para modelo eterno das paixões impetuosas.José Bento prostrou-se no leito do soffrimento, gemendo... com dôres de barriga, e variam as opiniões ácerca de uma lagrima que lhe tremia n'um ôlho, emquanto o outro conjugava o verboLaudo,as,are, que lhe custára, no dia anterior, um elastico puxão d'orelhas.A minha opinião é que a lagrima era de pura saudade. Sériamente fallando, não sejamos injustos, expondo á irrisão a phrase singela do pobre rapaz. O que elle sentia então, se eu podésse sentil-o agora, escreveria tres volumes em quarto, que o leitor me compraria, e a minha reputação de piegas amoroso estava feita.O filho do senhor João Retrozeiro, que Deus haja, era grosso de casca, mas tinha dentro de si bellas cousas, exceptuando a dôr de barriga, que o incommodou a ponto de levantar-se, e pedir á mãe que lhe mandasse dar osemicuplo, receitado pelo cirurgião.A extremosa mãe saltou em fralda do leito conjugal, rezando o responso de Sancto Antonio, applicado aos banhos, accendeu o lume, aqueceu a agua, e agasalhou seu filho na bacia, que, á parte, a posição que não era bonita, lamentou ahi de cócoras profundamente a sua sorte.E Rosa?Rosa, coitadinha, perguntava á sua consciencia se o amor era aquillo que José Bento lhe dissera. Parecida com a mãe, segundo o pae dizia, o instincto segredava-lhe cousas novas, que o visinho não sabia decifrar-lhe. A seu pesar, porém, a pequena chorava com saudades do rapaz.Felizmente adormeceu, pedindo a Sancta Barbara, sua advogada, que a livrasse do velho, assim como, pela sua muita virtude, se podéra livrar do impio Diocleciano (reminiscencias do ultimo sermão, que prégara fr. Miguel dos Antoninhos, na Misericordia, dias antes).Em virtude do que, dormiu pacificamente, viu em sonhos o José Bento, queixando-se da barriga, e acordou de madrugada, quando a magra mão de Angelica a chamava para o oratorio, em que se rezava tudo que havia escripto sobre a materia.Ao almoço, o senhor Antonio José da Silva aproveitava a edição de cara que não pôde dar á luz na ceia, por falta de concorrencia da parte interessada no espectaculo hediondo. Estava, portanto, mais feio que nunca o senhor Antonio. Durante o almoço de café com leite, e biscoutos de Avintes, nem uma palavra trovejou das belfas tumidas o desditoso amante. Rosa comia sem vontade, e Angelica sopeteava deliciosamente as suas sôpas, aboboradas em leite quente, porque os seus quatro dentes não eram para graças.Findo o almoço, appareceu o arcediago Leonardo Taveira, que comeu tres biscoutos, indispensavel lastro para um copo de vinho, e pequena refeição para quem vinha de rezar quatro psalmos, em lingua barbara, no côro da Sé.Reanimado de eloquencia propria do pae e do levita, o arcediago chamou sua filha á parte, e recapitulou, á ultima hora, as admoestações do dia anterior. Recalcitrou a desobediente rapariga. Fumegaram as pandas ventas do sacerdote. Volitaram-lhe das ditas caroços de rapé, como as frechas dos thracios contra Jupiter, e sacudiu da profana lingua um feixe de raios de maldição:Vibrata jaculatur fulmine lingua, como depois dizia o guardião dos gracianos, fr. Antonio do Menino Deus, a quem elle contava o accesso.O seu discurso, que não vale a pena de especial menção, terminou por intimar a Rosa a immediata sahida d'aquella casa. Entretanto, o padre Leonardo foi buscar a ordem de entrada no recolhimento. Quando veio, Angelica pendurou-se-lhe ao pescoço, em risco de lhe enterrar o fio cortante da barba no queixo d'elle. Supplicava-lhe a piedosa mulher que lhe deixasse a filha mais nove dias, e, ao cabo d'elles, promettia dar-lh'a alliviada.—Alliviada!—exclamou o pae, arfando as azas do nariz—minha filha alliviada!...—Pois então...? quer que lhe diga uma cousa ao ouvido?... venha cá...O padre media Rosa da cabeça aos pés, mas o ponto fixo d'esse olhar não era de certo nos pés nem na cabeça... Angelica acenava-lhe, e elle não podia attendel-a, porque parece que a cara da filha denunciava um crime inaudito... Era precisa coragem. O arcediago deu o ouvido direito á velha:—O senhor reverendo arcediago não sabe o que aconteceu a sua filha?—Não!... diga, depressa, que arrebento...—Tenha paciencia... Todo o mal que Deus permitte é para desconto de nossos peccados...—Diga, senhora Angelica, que me faz doudo...—Não se afflija, senhor arcediago... o mal é do demonio, e o bem de Deus...—Oh mulher, por quem é não me demore n'esta horrivel suspeita...—Pois ainda não adivinhou?—Não, com mil pragas...—Credo! vossa reverendissima está atrigado!...—Sancto nome de Deus, que mulher!... Que tem minha filha?... responda, senão vou arrebental-a...—Arrebental-a! Deus nos acuda... Sua filha não tem culpa... a culpa é d'aquelle seductor do inferno, Deus me perdôe...—Seductor!... um seductor!... quem foi o infame?... que é o que me diz, senhora Angelica?!—Que é o que lhe digo? É que sua filha tem oespritoruim no corpo! O seductor é o demonio.Padre Leonardo Taveira, com quanto pacifico, sentiu vontade de partir d'um murro o craneo, quasi nú, da senhora Angelica. Depois, soltou um frouxo de riso que borrifou a face da velha. A gargalhada foi tão longa e estridorosa, que Angelica julgou o arcediago possesso d'outro demonio.

Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.

E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesourosimpagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.

Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.

No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.

O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa—ainda bem—d'esse contra-senso.

Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.

O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava-lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.

O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.

Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração,que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.

Quem era a victima d'esta paixão impetuosa? Uma menina de quinze annos, que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, póde vêr, no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata malteza no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.

É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)

Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os póros.

Como veio esta menina para a casa do negociante?

Da seguinte maneira:

Quatro annos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do senhor Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, n'um domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excellente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro annos antes, vinha eu dizendo, fallava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago:

—Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!

—Deixa-te disso. Não tens tu, em minha mão, um bom patrimonio que lhe dês?! Acho que vinte mil cruzados, afóra o juro de cinco por cento, ha dez annos, capitalisado no proprio, a vencer até que ella faça os vinte e cinco, acho eu que é um dote de lhe tirar o chapéo.

—Bom dote é; mas isso não é o que me dá cuidado. O que eu queria para minha filha é um bom marido...

—Ó homem, já tratas disso!? Que idade tem a tua filha?

—Tem onze annos; d'aqui a três é mulher, e póde talharfuturos por sua conta e risco. É o que eu não quero. A pequena está em mestra-de-dentro; mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas não sabem adivinhar o coração d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...

—Diz, padre Leonardo...

—Que é filha de tal pae e de tal mãe... Eu tenho sido o que tu sabes...

—Isso lá é verdade... tu tens sido levadinho da breca com o gado de contrabando...

—E a mãe, se queres que te diga a verdade, tinha uma perfeita embocadura...

—Diz-m'o a mim, Leonardo! Era uma namoradeira dos quatro costados... Mas, emfim, está casada, e já não é a mesma.

—Caro me custou o casamento...

—Isso custou! O que tu déste ao francez p'ra montar a loja de livros, ainda que não rendesse senão a sete por cento, podia hoje montar a reis... deixa vêr... quatro vezes sete vinte e oito, vão dous, com cinco cifras, faz... faz...

—Aguas passadas... não fallemos n'isso. Agora o que me importa é a rapariga, já que fiz a asneira de a procurar na roda... Tira-me o somno, Silva! Lembra-me ás vezes que esta pequena ha de ser a disciplina com que hei de ser castigado por muitas asneiras que fiz...

—Isso lá é verdade. Diz o dictado: «Onde se fazem, ahi se pagam.» Já vem dos velhos a experiencia... Sabes tu que mais? Casa a rapariga assim que ella pozer as ventas no ar a contar os ventos. Não lhe dês tempo a namoricos. Janella fechada, e marido entre mãos, era o systema de minha mãe, que Deus haja, e minhas irmãs não deram desgosto á sua familia.

—Tens razão, Antonio; mas quando o diabo está atraz da porta, não vale nada fechar a janella... Olha lá... Queres tu casar com a minha Rosa?

—Homem, essa!... tu serás o espirito ruim que me appareces em corpo d'homem? Não vês que tenho cincoenta feitos, e que nunca me deu na cabeça a asneira de me casar?

—Alguma vez ha de ser a primeira...

—Isso lá é verdade; mas cada qual mede-se com as suas forças, e eu já não estou homem para tropelias. O que eu quero é comer bem, é beber-lhe melhor. Isto de creanças, casadas com velhos, não provam bem...

—Estás enganado com o mau exemplo da tua visinha Anna...

—Que pôz na cabeça do marido um chinó, porque elle era calvo... e eu não estou menos calvo que o pobre João Pereira, que deu com o negocio em pantana, por causa da mulher...

—Não meças tudo pela mesma rasa, Antonio. A pequena é docil, tem um genio de pomba, vai para onde a levam, e será uma boa esposa. Ponto é pilhal-a nos cueiros... Tu sabes melhor que eu o dote que ella tem...

—Não fallemos em dote, Leonardo... Eu, se casar com a tua filha, tanto se me dá que ella tenha um como dous... A cousa não é essa... O peor é o resto.

—Que resto?

—Eu te darei a resposta ámanhã.

Continuaram fallando largamente sobre o assumpto, em que o senhor Silva, tres vezes, citou o chinó do seu visinho João Pereira.

No dia seguinte, o arcediago de Barroso encontrou o seu amigo meditativo.

—Pensas ainda, Antonio?

—Estava pensando no nosso negocio. Isto de mulheres deve a gente suppôl-as sempre mercadoria avariada... Mas, diz-me cá, a tua filha só tem onze annos...

—Só, e d'aqui a dous tem treze...

—Se a cousa se arranjasse, não podia ser senão d'aqui a dous annos.

—De certo.

—Pois, então, fallaremos.

—Não que é preciso decidir-se a cousa já.

—Porquê?

—Se disseres que sim, a pequena ha de vir para tua casa já; quero que seja educada por tua irmã, e que se afaça comtigo, para te ganhar amizade, e o amor depois virá.

—Qual amor, nem qual carapuça! Ella póde lá ganhar-me amor!... Eu cá de mim, se casar, o que quero é uma herdeira, porque tenho para ahi uns sobrinhos, que se penteam muito, e que não querem estar ao mostrador a medir covados de panno. Ha de me custar se elles vierem metter a mão no que me custou a ganhar com honra e trabalho. Um d'elles metteu-se-lhe na cabeça ir a Coimbra estudar para doutor!... Que tal está o catavento! Meus paes foram lavradores, eu sou negociante, e quem houver de ficar com a minha casa ha de vir para aqui. Quando penso n'isto, Leonardo, parece-meque me fazia conta casar!... E, se eu tivesse um filho!... isso então, digo-te que era ouro sobre azul! Se não fosse o medo, que tenho ás bôcas do mundo, não engeitava aquelle rapagão da Thereza...

—É verdade, que fizestes á Thereza?

—Puz-lhe um estabelecimento de castanhas assadas na Ribeira. O diabo da moça piscava o ôlho ao caixeiro, e pul-a fóra de casa. Eu cá poucas vergonhas de portas a dentro não as quero.

—Tens razão; mas isso do filho é cousa muito natural...

—Ah! é verdade; isto do filho acho eu que é cousa muita natural; mas dizias tu que á Rosinha...

—Viria para a tua companhia, e aos treze annos, ou mais cedo, com licença do bispo, casas com ella...

—Homem... isto é uma carta tirada da baralha... Está dito, se a cousa não dér de si, caso com a tua filha.

—Se a cousa não dér de si... dizes tu; que quer isso dizer?

—Sim, se não houver entrementes cousa que desarranje a minha saúde ou a d'ella...

—Está visto, não é preciso tirar isso como condição.

Rosa Guilhermina veio para casa do senhor Antonio José da Silva.

O noivo predestinado affeiçoou-se á pequena com toda a effusão paterna. Prodigalisava-lhe carinhos, que a menina recebia com indifferente innocencia, mas com certo aborrecimento intimo, e até nojo da sua grande cara, cujas belfas eram vermelhas como duas folhas de parra de moscatel, no outono.

Feitos os treze annos de Rosa, o negociante sentiu abrirem-se-lhe as valvulas do coração para lhe verterem nas veias um sangue mais quente. Não era um fino amor o seu; mas era um amor que lhe afinava a voz melodiosa de meiguices, que a pequena recebia sempre com tregeitos de enfastiada.

A affeição não correspondida reagiu.

O coração, atufado pelos tecidos cellulares, do obeso amante, esperneou nas cavidades do peito respectivo, e veio á superfície dos acontecimentos com o ideal d'um Antony, com os ciumes d'um Othello, e com a paixão escandecida d'um Mamfredo de cuecas, como tivemos o dissabor de vêl-o no principio d'este capitulo.

Na tão indecente como attribulada situação, em que deixamos o senhor Antonio, veio encontral-o o padre Leonardo Taveira, que voltava de resar vesperas no côro da Cathedral.

O cálido negociante resfollegava como um tubarão, e improvisava uma ventoinha de meia fralda da camisa. Cada vez mais indecente! Valha-nos Deus, leitores, que muito amargo é o dizer a verdade inteira! Ha momentos em que o escriptor publico se vê forçado a córar. Se me visseis, n'este instante, julgar-me-ieis d'uma candura infantil.

O arcediago, porém, não se mostrou surprendido da attitude tragicamente afflictiva do seu amigo. Cálido tambem, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela, e refocillou os amplos pés vermelhos nos propicios chinelos do escarlate mercador de pannos.

—Fostes a minha desgraça!-regougou o senhor Antonio, abanando o ventilador com a mão esquerda, e enxugando com a toalha de mãos os humidos torcicollos do pescoço.

—Fui a tua desgraça! Pois que é?-replicou o beneficiado, tapando com o indicador da mão direita uma das ventas, para chilrear na esquerda uma solemne pitada.

—Que é? ainda m'o perguntas? É a tua filha que me faz de fel e vinagre! É uma ingrata que se me ri nas barbas, quando eu lhe faço meiguices!

—Ora deixa estar, que o remedio não está em Roma. Eu já te disse que sou pae, e tenho direitos sobre minha filha. Queres ou não queres casar com ella, Antonio?

—Perguntas-m'o agora que já não sei por onde me anda a cabeça!... Dava trinta mil cruzados, e queria que a tua filha gostasse de mim! Isto parece que foi inguiço, que me fizeram!...

—Eu te quebrarei o inguiço...

—Não sei como. A pequena, seja lá pelo que fôr, não me póde vêr, ha um anno para cá. Aqui anda dente de coelho... Não sei, mas desconfio que ella namora o filho do João Retrozeiro, que me está sempre a lêr por detraz dos vidros.

—Devéras?

—Parece-me que sim. A minha Angelica já o desconfiou,e ralhou-lhe. A senhora Rosinha levantou a cabeça, e disse que não dava satisfações a ninguem.

—Ah! ella disse isso? Ora deixa-me com ella...

—Ouviste, Leonardo? não quero que lhe ralhes. É muito creança, e póde ser que minha irmã se enganasse. Serão escrupulos de Angelica, que me defumou com herva sancta e trevo nove vezes para me quebrar o feitiço em que me tinha a criada Thereza. É uma pateta mulher. Não lhe digas nada por ora a tal respeito. Aconselha-a que case comigo, e que me tenha amor, que eu prometto dar-lhe todo o ouro e vestidos que ella quizer. Hei de até leval-a ás comedias italianas, e não haverá fidalga que lhe bote a barra adiante em aceios.

Já vêem, pela energia da expressão, que dôr tão sublime não devia ser a que assim se exprimia por jactos de calorosa eloquencia! O senhor Antonio José da Silva, superior á sua classe, sentia-se arrojadamente grande pela angustia d'uma repulsa. Trinta mil cruzados déra elle pelo amor de Rosa Guilhermina! Promettia leval-a ás comedias! Galardoava o seu amor com vestidos que fizessem morder de inveja as fidalgas do Porto! Eu quizera que Rosa lhe exigisse uma carruagem. Se o senhor Antonio accedesse ao extravagante pedido, então, leitores seria eu o primeiro a pedir uma data gloriosa, um cantinho, na historia da civilisação da rua das Flores, para o senhor Antonio José.

A nada, porém, se movera a esquiva donzella.

O arcediago, commovido pela exclamação do seu futuro genro, subiu ao segundo andar, e procurou, meio-colerico, a filha rebelde, que ensinava o papagaio a dizer:é o rei que vai á caça.

—Á caça andava eu de ti...—disse affavelmente o pae, chegando uma cadeira para junto de sua filha tambem risonha, que lhe beijava a mão.

—Ah! eu não sabia... Tenho estado aqui toda a tarde a trabalhar, sósinha.

—A senhora Angelica não tem estado ao pé de ti?

—Não, meu pae. Creio que foi visitar o SS. Sacramento.

—Mas ella ainda é tua amiga como sempre foi...

—Eu sei cá... parece-me que não.

—Algum motivo lhe déste, Rosa...

—Eu? nenhum.

—Que disseste hoje ao senhor Antonio?

—Não me lembro... A que respeito?

—A respeito do teu casamento.

—Não fallemos n'isso, meu pae... Sou muito nova, não quero casar.

—Não quero!isso é cousa que se diga a um pae?

—Vmc.enão ha de querer a minha desgraça... Eu não posso ser feliz casando com o senhor Antonio... Antes quero ser criada de servir, ou trabalhar para viver...

—Rosa, não sejas creança. Olha que tu, casada com este homem, és muito rica, satisfazes todas as tuas vontades.

—Antes quero ser pobre... Tenho repugnancia em chamar meu marido a um homem que eu poderia estimar como avô... Não posso, é impossivel, meu pae. Mais facil me será morrer, que casar com elle.

—Visto isso, resistes á vontade de teu pae!

—Bem me custa; mas o pae ha de ter pena de mim; não ha de querer que eu seja desgraçada toda a minha vida.

—Não quero, não; e por isso mesmo é que te mando casar com o senhor Antonio José da Silva.

—Mate-me, se quizer; mas obrigar-me a casar, isso não.

—Das duas uma: ou casar, ou entrar já no recolhimento das orphãs em S. Lazaro.

—Entrarei no recolhimento, vou para onde o pae quizer que eu vá, até serei carmelita, se fôr da sua vontade.

Esta pertinaz resolução espantou o arcediago, e convenceu-o de que sua filha estava innocente das suspeitas de Angelica, beata crendeira em encantamentos, inguiços, e lobishomens. Se a pequena tivesse namoro com o filho do João Retrozeiro, de certo não acceitaria com tanta presença de espirito a condicional do recolhimento. Assim o pensava o licenciado, que tinha muita experiencia do mundo, e essa muito cara, a julgar pelas cifras que accumulou o negociante, orçando as despezas do casamento da mãe de Rosa.

Teimoso, e esperançado nas boas maneiras, entrou em negociações amigaveis com a menina. Pintou-lhe o melhor que pôde a vantagem de ser brevemente uma viuva rica, e a liberdade que teria então de escolher um marido mais galhardo. Repetiu a seducção dos vestidos, e dos diamantes; encareceu as delicias do theatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; emfim, por não fechar o discurso sem uma immoralidade, com palavras equivocas, dissertou pouco christãmente ácerca dos deveres da mulher casada.

Rosa insistiu na recusa. O padre irou-se outra vez; deixou cahir a caixa, no excesso da indignação; verteu no peito da camisa quatro pingas de rapé; escumou pelos cantos dabôca; pizou uma perna ao papagaio; entalou o rabo da gata, que saltou, bufando, para o peitoril da varanda; e acabou por dizer, em voz cavernosa, que Rosa, no dia seguinte, sem mais delongas, seria fechada no recolhimento de S. Lazaro, para não vêr sol nem lua.

O senhor Silva ouvira os ultimos berros, e zangou-se contra o padre. O seu amor não lhe consentia um ultraje a Rosa, apesar de ingrata. Em cuecas, e com a camisa em ventilador subia a escada; mas, a meio caminho, olhou para si, e viu, na sua consciencia, que não estava decente. Tornou atraz a enfiar as pantalonas de linho, quando o arcediago descia com a cara côr de lagosta, e os olhos turgidos e encarniçados como dois medronhos bravos.

—Não fazes senão asneiras, Leonardo—disse o negociante, impando com a difficuldade de enfiar a côxa roliça nas pantalonas, que queria vestir ás avessas, no auge da atrapalhação.

—Eu não faço asneiras. Sou pae, e quero ser obedecido.

—Que vaes tu fazer?

—Ámanhã ha de entrar no recolhimento por força.

—Deixa-te d'isso; não afflijas a rapariga por minha causa. Eu não consinto...

—Não preciso do teu consentimento. O caso agora é comigo, não é comtigo. Veremos quem vence.

—Então não ha outro remedio, Leonardo?

—Nenhum. Está de pedra e cal. Não quer casar por bem nem por mal. Diz que tem repugnancia em ser tua mulher.

—Sim?!-atalhou o senhor Silva atrozmente ferido na sua vaidade—pois, n'esse caso, faz o que quizeres, e tira-m'a quanto antes de casa.

—Olha cá, Antonio... Eu parece-me que a pequena, em se vendo fechada no recolhimento, onde não conhece ninguem, nem tem janella para a rua, mudará de vontade, e quererá casar...

—Comigo? Isso nunca! Deus me livre!Má mezpara ella! Lembras-te do chinó do meu visinho?

—Ora deixa-te d'isso, meu amigo. Nem todos os maridos são calvos... nem todas as mulheres fazem marrafas. Dá tempo ao tempo. Quem lida com mulheres, lida com o diabo. É preciso atural-as. Sabes lá o que eu tenho soffrido com ellas?

—Eu é que não estou para brincadeiras... Estava muitosocegado, ha tres annos; para que vieste tu inquietar-me com o negocio, que me propozeste em Campanhã? Guarda a tua filha, que eu morrerei solteiro.

O senhor Antonio José da Silva, dizendo isto, melhor avisado, bebia uma limonada, e o arcediago de Barroso calçava os sapatos de fivela.

N'este momento entrava a senhora Angelica, de mantilha, e camandulas de pau preto pendentes nas mãos, que trazia sobre o seio em postura beatifica.

—D'onde vens, Angelica?-perguntou o irmão.

A beata resmungou, e subiu para o segundo andar.

Espionemos d'onde vinha a senhora Angelica.

Que Rosa Guilhermina estava, mais ou menos, possessa de feitiços, era um evangelho para a senhora Angelica. Que a filha do peccado, como a beata lhe chamava, seduzida pelo demonio, namorasse o filho do retrozeiro, isso é que não era liquido.

Para os feitiços deixára Deus na terra pessoas virtuosas, mulheres sabias, que os desmanchavam; e para adivinhar o coração da pequena bem sabia a irmã do senhor Antonio que o remedio não estava longe.

A senhora Angelica ouvira a conversação do seu Antonio com Rosa Guilhermina, na manhã do dia em que se passaram as scenas ridiculamente funebres do capitulo anterior. Cousas ouviu ella que a obrigaram a benzer-se tres vezes, e queimar arruda no seu quarto, e no da pequena. Parece que a timida sexagenaria receava que o espirito mau, que vexava Rosa, viesse, por variar, entreter-se com o seu corpo immaculado.

Feitas as abluções, e comido o jantar, que benzeu tres vezes, e devorou com as pernas em cruz, receosa d'um ataque subterraneo do demonio, compoz a coca da mantilha, armou-se do rosario abençoado por Gregorio XVI, prendeu duas figas e um chispo de veado na alça do collête, e sahiu.

Da rua das Flores a Miragaya dava saltinhos como uma franga com as azas cortadas. Ao pé da antiga casa da Companhia, n'uma porta baixa de casa terrea, bateu a senhoraAngelica. A porta foi aberta por uma velha inqualificavel, indefinivel, mistura de todos os animaes repulsivos desde a santopeia até á cegonha. Era a senhora Escolastica, benzedeira, adivinha, mulher sabia, que praticava com o invisivel por meio da peneira e das cartas.

—Venha com Deus, devota de Nosso Senhor. Já sei ao que vem.

—Já? Louvado seja Deus!

—A Rosinha não quer casar.

—Nem á mão de Deus padre... Aqui anda feitiço. Queria que vmc.eme dissesse se o filho do retrozeiro, que se chama José, será o manfarrico que faz doudejar a cabeça da rapariga.

—Vamos a isso—disse a senhora Escolastica, carregando duas vezes de simonte a venta esquerda, que parecia um mexilhão aberto, e folheando um surrado baralho de cartas.

A senhora Escolastica benzeu-se, e pronunciou a seguinte oração, pondo as cartas em quatro montes, benzidas tambem:

«S. Cypriano, bispo e arcebispo fostes, sete annos no mar andastes, na vossa divina graça vos sustentastes, sete sortes pela vossa divina esposa botastes, no fim vos declarastes. Declarai-me aqui se a Rosinha anda de namoro com o José, filho do retrozeiro.»

E, depois, voltando-se, com ar sibillyno e tragico, para Angelica:

—Rosa é a dama de ouros; o José é o rei de ouros. Aqui sahe Rosa com o sete de espadas, que é uma paixão d'alma. Aqui está o José voltado para ella de corpo e pensamento, que é o valete de ouros. Sahe-lhe aqui outro homem, que é seu irmão; mas ella vira-lhe as costas, e dá-lhe más palavras, que é o cinco de espadas. No meio disto sahe-lhe aqui lagrimas, que é o cinco de copas, e a espadilha o affirma. Seu irmão aqui está com o sete de copas, que quer dizer comidas e bebidas, e ella vira-se para o sete de paus, que é um gosto grande, e o seis de paus pela porta da rua. Aqui está a dama de espadas, que é uma mulher de má língua por causa d'uns dinheiros grandes, que é o dous d'ouros, vê? ella ámanhã sahe por caminhos; aqui está o dous de espadas, e aqui está o az d'ouros, que é a igreja, e o quatro de paus que é a tumba... valha-me Deus!...

A senhora Angelica, côr de cidra, benzeu-se. Dito isto, a senhora Escolastica repetiu a miraculosa operação, e descobriu umanovidade. Novidade é uma carreira de cartas semfiguras. A novidade era a confirmação do quatro de paus, e um certo az de copas, cuja significação a benzedeira disse ao ouvido de Angelica, que fez uma carêta, e persignou-se. Carêta aquella, discreta leitora, que eu tambem fiz quando me contaram esta pavorosa historia.

Feito isto, as cartas foram substituidas pela peneira.

A senhora Escolastica, versada nos dous ramos de sortilegio, pôz de perfil a peneira, e metteu-lhe um Senhor crucificado, umas contas, e tres vintens em prata. Depois cravou em um dos lados os bicos de uma thesoura fechada, e outra thesoura do outro lado. Feito isto, com grandes tregeitos, e grave attenção da senhora Angelica, que murmurava o credo em cruz, disse a benzedeira:

«Peneira, tu que peneiras? Pão para toda a christandade. Pelo poder de Deus peço-te que me digas se a Rosinha ha de casar com o senhor Antonio; se tiver de casar, vira-te para a direita, e senão vira-te para a esquerda.»—A peneira oscillou alguns segundos, e ficou voltada para a esquerda.

A pobre Angelica deixou pender o beiço inferior, que, ha quatro annos, lhe tocava na ponta do nariz! Estava profundamente triste e aterrada! O seu ôlho esquerdo fallou da abundancia do coração. Uma lagrima, côr de agua-pé, rolou-lhe perguiçosa nas verrugas da face.

—Sabe o que mais, senhora Angelica?—disse Escolastica, commovida, e atufando a pitada na fossa anfractuosa da venta direita—sabe que mais?... vamosprendera rapariga.

—Isso será cousa de escrupulo, e eu tenho medo que Deus me castigue.

—Agora castiga... Ha de ensinar ao seu irmão esta oração: «S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam á porta do teu coração, Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade, para que nem na cama, nem na mesa, nem no lar, sem mim, não possas estar, rir e fallar, e já, e já, e já com todo o pacto.»—Esta oração ha de seu irmão dizel-a, e quando dissercom todo o pactoha de dar tres vezes com o pé direito no chão. Passados nove dias, em que eu hei de rezar a novena das almas, e ouvir as vozes, appareça vmc.epor cá, e veremos se é preciso trazer roupa d'ella para a defumarmos nos quatro cantos com o fogareiro de S. Cypriano.

A senhora Angelica deu por bem empregados os seus dous patacões, e passou o resto da tarde a rezar os versos de S. Gregorio, e a novena de Sancta Apolinaria, emS. João,onde estava, n'esse dia, que era sexta feira, exposto o Sanctissimo.

Ora aqui está d'onde vinha a irmã do senhor Antonio José da Silva.

Dobrada a mantilha, e a saia de durante, a senhora Angelica desceu a procurar seu irmão, e, farejando os cantos da sala, viu que ninguem lhe testemunhava a tremenda revelação, que ia fazer-lhe.

—Então já sabes o que acontece?-perguntou elle, emborcando o segundo pucaro de limonada.

—Que foi, meu Antoninho?

—A Rosa vai-se, ámanhã, embora.

—Vai! Louvado seja Deus!... bem m'o disse a Escolastica!...

—Quem é a Escolastica?!

—É cá uma mulher, muito temente a Deus, que vê o que se passa na alma...

—Deixa-te de crendices... não creias em maranhões...

—Credo! não digas tal, Antonio, que não vá Deus castigar-te, e ella sabel-o... Se tu soubesses o que ella me disse...

—Não sei, nem quero saber... Has de sempre ter essa mania! Pergunta ao padre Leonardo por isso, e verás a rizada que elle te dá...

—Bem me importa a mim a risada do padre Leonardo!... Não... aquelle não é cá dos meus!... Padres com filhas... não quero ir com elles nem para o céo... Sabes tu que o tal arcediago me parece jacobino!... Deus me valha, se pecco... Cala-te, bôca...

A devota mulher, incapaz de infamar, dava uma sonora palmada nos labios, quando apostrophou a bôca falladora, e lhe impôz silencio, que mais eloquente que a bôca, segundo diz o poeta latino, fallou assim:

—Tenho cá minhas aquellas com este padre!... Elle não diz missa, nem préga a quaresma, nem vai ás via-sacras, como o padre Aniceto, meu confessor, e o padre Benedicto dos Carmelitas, que reza os exorcismos. Deus me acuda—continuou ella em voz alta—mas não tenho fé com padres que tem filhas, e casam as mães com outros, de mais a mais com um pelitrão da França, que é hereje, e jacobino na alma e no corpo...

—Cala-te lá, que estás ahi a dizer parvoíces. O padre Leonardo é um homem honrado, que não vai ás via-sacras, mas tem temor de Deus. Lá, se deu a sua escorregadella, em bom panno cahe uma nodoa. E, se elle não fosse um bompae, não obrigava a filha a entrar, ámanhã, no recolhimento de S. Lazaro.

—Que me dizes, Antonio da minha alma? Pois a Rosa vai para o recolhimento?

—Vai, podéra não!...

—Bem o disse a serva de Deus! Ai! que tudo nos vai sahindo como a benzedeira o disse... O az d'ouros, lá estava o az d'ouros, Antonio! Não tornes a fazer pouco dos adivinhamentos. Tudo m'o disse ella, e muitas cousas mais... Abençoados dois patacões!

—Ó mulher, tu pareces-me tôla! A impostora da velha podia lá saber isto! Botou-se a adivinhar!

—Ó Antonio, tu não me pareces catholico!... Sancto nome de Jesus! Pois, sem aquella de Deus, sabe lá ninguem futurar o que te ha de acontecer? Não sejas assim, meu bom irmão. Lembra-te dos inguiços que te fez Thereza (Deus lhe perdôe, se já morreu), aquella desavergonhada que tinha levado as tuas cuecas da roupa suja para as benzer uma feiticeira da rua Chã, e se não fosse a devotinha Escolastica ainda hoje terias o demonio á perna, Deus me perdôe!...

—Vai-te d'ahi, que a Thereza não tinha demonio nenhum...

—Não tinha não... Pois não lhe viste a abstrucção de ventre, que ella trouxe, e só com as rezas da Escolastica é que o berzebum a deixou a ella, e a ti? Valha-te o Senhor!... Diz-me com quem andas, dir-te-hei as manhas, que tens.

—Está bom... Vamos tratar de cear, que são nove horas.

—Está a Anna a segar o caldo... Antes d'isso quero dizer-te duas palavras.

—Diz lá.

—Mas não has de fazer modos de incredulo. Tu queres que a Rosinha case comtigo?

—Eu não.

—Não!... Minha mãe Maria Sanctissima!... Se eu te entendo...

—Quero que ella tenha por mim affeição de dentro... Contra vontade, não quero ninguem.

—Pois se eu te ensinar o modo de fazeres com que ella te tenha affeição de dentro?

—Vai bugiar! Tu cada vez estás mais tonta!

—Estou! pois olha que não é de velha.

—Isso não; mas já podias saber mais do mundo com sessenta e nove annos... És mais velha que eu quatorze.

—Então? achas que estou tonta como a velhinha tia Brizida, que já fez noventa e dous?

—Não sei... Sabes que mais? Mette um salpicão no pucaro, e leve berzebum as paixões, e quem com ellas engorda.

—Olha cá, Antonio... Não te quero assim... Pareces-me mesmo nos modos com os chichisbeos que vão ao theatro, e á missa das dez a S. Bento, por causa das freiras, que, Deus me perdôe, podem bem com a sanctidade que teem!... Andam sempre alli pelas grades aquellas namoradeiras, que nem me parecem religiosas, e esposas do Cordeiro immaculado, e fallam da vida do proximo!... Valham-me as cinco chagas, e a benta cruz.

—Vai pôr a mesa, mulher, e olha lá o que essa rapariga está a fazer, que eu vejo d'aqui o filho do retrozeiro á janella...

—Ah! vês? Não que ella faz-lhe amor de cá...

—Tu viste?

—Disse-m'o a Escolastica.

—Que leve a breca a tua Escolastica, que o meu gosto era dar-lhe com o covado no costado...

—Sancto nome! Tu que dizes, homem? Aqui cahe raio. Pede perdão á servinha de Deus, senão as palavras não te aproveitam...

—Que palavras?

—As palavras que hão de fazer com que a Rosa ande atraz de ti como a linha atraz da agulha. O caso é ter fé. Se as disseres, tu verás, Antonio!...

—São palavras para lhe dizer a ella?

—Não... Assim que a vires, has de dizer no teu coração...

—Cala-te ahi...

—Não me calo... tenho até escrupulo de me calar... Hei-de dizer-t'as. Ouve lá: «S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam á porta do teu coração, a Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade... e... espera lá... deixa vêr se me lembra... ah! já sei...para que nem na cama, nem no lar, sem mim, não possas estar, rir e fallar, e já, e já, e já com todo o pacto.» Quando disseres isto, deves assim bater com o pé no chão uma, duas e tres vezes...

Á terceira, a senhora Angelica pilhou debaixo do pé o rabo desgraçado da gata, que soltou um doloroso grito, e vingou a affronta enterrando a unha no joanete esquerdo de sua ama. Angelica soltou um brado fremente de angustia. A gatarosnava, com o pello hirto, n'um canto da sala, e o senhor Antonio bascolejava com as nedias mandibulas uma gargalhada sincera.

O salpicão fumegava na mesa, rodeado de ervilhas ensopadas. Ao lado, as tigelas do bem adubado caldo, opulento de gorda ôlha, ressumavam um cheiro appetitoso, que ludibriava o paladar dos rapazes da loja, aos quaes era só permittido o cheiro.

Angelica fôra chamar Rosinha para a mesa, emquanto seu irmão espostejava as talhadas pingues do paio de Lamego. A arrufada menina não quiz cear, e, para esquivar-se ás instancias da velha pertinaz, declarou-se incommodada da cabeça, cobrindo-a com o lençol.

O negociante engatilhava a cara em ar de despeito, e ensaiava as palpebras roliças n'uma postura sombria, que desse da sua dôr a alta ideia, que os queixos desmentiam, cevando-se na carne de porco, e nas ervilhas aromaticas.

Certo de que a ingrata filha do arcediago não vinha á mesa, o senhor Silva inutilisou a cara funebre, deu largas á testa franzida tyrannamente, e mascou, rugindo como os deuses d'Homero, a ceia substanciosa.

Angelica, da sua parte, comeu bem, e revesou no caldo, que, segundo ella, podiam comel-o os anjos. Deu graças a Deus, e a todos os sanctos do seu conhecimento, que eram todos, e alguns duvidosos, emquanto seu irmão, a cadapadre-nosso, desafogava um arrôto, que podéra, sem hyperbole, chamar-se um urro.

O ultimo, e mais estridulo, soltou-o no seu quarto, onde, emfim, aquella alma atormentada, e o estomago revolto deviam dar-serendez-vousem grato somno de sete horas.

A senhora Angelica, reservando para o dia seguinte um novo ataque á incredulidade de seu irmão, entrou, no seu quarto, a rezar a novena das almas, que lhe fôra imposta pela devota Escolastica, e que não acabou conscienciosamente porque adormeceu no meio da reza, enxotando, com palavras de esconjuro, o demonio do somno, seu tentador implacavel. A ultima apostrophe confundiu-se com o resonar profundo deseu irmão. O resonar de ambos, dueto horrivel, acordava os eccos funebres da casa. Dormiam todos, excepto Rosa.

Rosa não dormia, porque apurava o ouvido a cada quarto, que badalava o relogio de S. Domingos.

Faltava o ultimo para as dez, quando a promettida esposa do negociante enfiou o vestido, saltou fóra da cama, abriu cautelosamente a janella, em que batia o luar, traiçoeiro confidente dos amantes nocturnos, que apenas podem sorrir de dia, e só nas trevas, deixam voar o coração-morcego.

Na janella fronteira estava um vulto, e na rua solitaria não se viam os malditos grupos; innovação inutil daguarda municipal, que nos dá a entender que os ladrões augmentaram com a civilisação, posto que os jornaes diariamente nos aturdam com o catalogo dos roubos.

Em 1815 podia-se namorar honestamente d'uma janella para a outra, na rua das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para testemunhar a vida intima dos que lhe pagam. Podia cochichar delicias a donzella recatada da trapeira para a rua, sem que o amador extatico ao som maviosissimo d'aquella voz, receasse oretire-se!brutal do janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho d'uma escada de corda no terceiro andar, subir impavidamente, conversar duas horas sobre varios assumptos honestos, e descer, sem o receio de encontrar cortada a rectaguarda por um selvagem armado á nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a digerir a substancia da deliciosa entrevista.

Bemaventurados, pois, os que namoraram em 1815.

Mas não tenham a impiedade, leitoras honestas, de suppôr que a mencionada escada de corda engatou o gancho na reputação de Rosa. Não, senhoras. A filha do beneficiado ignorava esse invento da intelligencia humana, essa corrente electrica, que aproxima dous corações, a escada de corda, emfim, que nunca ninguem imaginou tivesse electricidade, mas que eu, amante da minha patria e das glorias d'esta terra, declaro á academia real das sciencias, que a tem, e lhe offereço a descoberta como digna das suas ponderosas lucubrações.

Mais ponderosos ainda eram os motivos porque a virtuosa Rosinha déra signal ao José Bento, filho do retrozeiro, para fallar-lhe áquella hora, acto que, publicado, faria jejuar a senhora Angelica dous annos, a pão e agua, e faria crescer a agua, sem o pão, na bôca de muitos caixeiros das lojas visinhas, que a essas horas resonavam como conegos em matinas.

Era a segunda vez que a predestinada mulher do senhorSilva se abalançava ao crime infando de tagarellar da janella, a horas mortas, para a janella fronteira.

José Bento era um moço de quinze annos, muito envergonhado, e tão inutil, na opinião publica, que sua familia resolveu fazel-o frade loio. Tinha dezeseis annos, e estudava latim, com grande pasmo do mestre, que durante quatro annos, não podéra conseguir ensinar-lhe os rudimentos da arte, sem que elle discipulo lhe désse quatro asneiras em troca de cada regra. No seu genero era um prodigio! Não obstante, para loio o que lhe faltava era a idade, que sciencia tinha elle de sobejo para repartir na communidade.

O que elle tinha, além da sciencia, era uma melancolia sympathica, contemplativa, e romanesca. José Bento, se fosse dos nossos amigos de botequim, passaria hoje por um espirito atormentado, um mancebo devorado por illusões, um sceptico de coração crivado de angustias, e conseguiria, não fallando, pertencer á seita dos Szafis da feira da ladra.

Não lhe faltava a testa espaçosa da tarifa. Um todo-nada de navalha nas raizes capilares da fronte seria bastante para nos dar uma testa artistica, em que os sectarios de Spurzen, veriam o genio, e o respeitavel publico a toleima.

Ora aqui está quem era o namoro da senhora Rosa Guilhermina, que vai fallar com a voz commovida, vibrante, e melodiosa.

—Senhor José...

—Aqui estou, senhora Rosinha... Não me vê?

—Vejo... agora vejo...

—Como passou?

—Bem; e vmc.epassou bem?

—Tenho estado hoje muito doente.

—Sim? de quê, senhor José?

—Tem-me doído muito a barriga.

—Será do calor...

—Acho que sim; veio cá o cirurgião, e mandou-me tomar banhossemicuplos...

—Deus queira que lhe façam bem. Então já sabe que me vou embora d'esta casa?

—Vai? para onde vai, senhora Rosinha?

—Para o recolhimento de S. Lazaro.

—Pr'amor de quê?

—Porque meu pae teima em querer casar-me com o senhor Antonio, e eu...

—Valha-o a maleita! Pois elle quer casal-a á força com um velho assim?

—Ora ahi está; e eu não quero...

—Faz vmc.emuito bem. Eu tambem, ainda que a filha d'um rei quizesse casar comigo, emquanto vmc.eme lembrasse, mais facil seria atirar-me d'esta janella para baixo á rua, que casar com ella.

—Forte teima de homem! Ainda hoje lhe disse que era capaz de metter o fuso da senhora Angelica por um ouvido, se me quizessem obrigar a tal casamento...

—Então vmc.edecerto vai para o recolhimento?

—Antes quero isso, antes quero ser freira.

—Então, sempre lhe digo, que vou para os Loios, se a menina se mette freira...

—Eu não sei o que acontecerá... Póde ser que meu pae, em vendo que eu não mudo de vontade, me tire do recolhimento.

—Isso é verdade, e, se assim fôr, n'esse caso não quero ser frade, nem que meu pae me desherde.

—O peor é que nos não tornamos a vêr...

—Não? E é verdade que não. Lá nas orphãs diz que não ha janellas.

—Não ha, não; mas, se podéssemos escrever-nos...

—Isso sim; se podéssemos escrever-nos era bem bom; mas vmc.e, em se pilhando lá a brincar com as outras raparigas, esquece-se de mim.

—Não esqueço, não. Estou affeita a vêl-o ha mais d'um anno, e tarde me esquecerá...

—Se vmc.esoubesse o amor que lhe tenho!... Ha quatro noites a fio, que sonho comsigo, e nem posso estudar a lição, nem tenho vontade de comer. Já minha mãe hoje disse: este rapaz teve alguma olhadella má. Mal diria eu que vmc.esahia d'essa casa!... Pois olhe... a senhora Rosinha a sahir, e eu tambem.

—Para onde vai?

—Vou para o Passos estudar latim. Meu pae quer que eu esteja dentro do collegio para aprender mais depressa, e eu até aqui dizia que não, porque tinha saudades de si, mas agora não se me importa de deixar esta casa.

—E onde mora o mestre?

—Na viella da Cancella Velha.

—Pois se eu arranjar por quem lhe escreva, lá mando.

—Então não se esqueça.

—Adeusinho.

—Adeusinho, estimarei que tenha saude.

As janellas fecharam-se, e a lua no céo velou o rosto de negro, como contristada da agonia lacerante d'estes dous infelizes! Essas phrases plangentes traziam o quilate d'uma lucta atormentada que lá ia dentro nos dous corações! A leitora sensivel, com as lagrimas nos olhos, e a palpitação accelerada, espera, anciosa, o desfecho d'este lance, que ficará aqui insculpido para modelo eterno das paixões impetuosas.

José Bento prostrou-se no leito do soffrimento, gemendo... com dôres de barriga, e variam as opiniões ácerca de uma lagrima que lhe tremia n'um ôlho, emquanto o outro conjugava o verboLaudo,as,are, que lhe custára, no dia anterior, um elastico puxão d'orelhas.

A minha opinião é que a lagrima era de pura saudade. Sériamente fallando, não sejamos injustos, expondo á irrisão a phrase singela do pobre rapaz. O que elle sentia então, se eu podésse sentil-o agora, escreveria tres volumes em quarto, que o leitor me compraria, e a minha reputação de piegas amoroso estava feita.

O filho do senhor João Retrozeiro, que Deus haja, era grosso de casca, mas tinha dentro de si bellas cousas, exceptuando a dôr de barriga, que o incommodou a ponto de levantar-se, e pedir á mãe que lhe mandasse dar osemicuplo, receitado pelo cirurgião.

A extremosa mãe saltou em fralda do leito conjugal, rezando o responso de Sancto Antonio, applicado aos banhos, accendeu o lume, aqueceu a agua, e agasalhou seu filho na bacia, que, á parte, a posição que não era bonita, lamentou ahi de cócoras profundamente a sua sorte.

E Rosa?

Rosa, coitadinha, perguntava á sua consciencia se o amor era aquillo que José Bento lhe dissera. Parecida com a mãe, segundo o pae dizia, o instincto segredava-lhe cousas novas, que o visinho não sabia decifrar-lhe. A seu pesar, porém, a pequena chorava com saudades do rapaz.

Felizmente adormeceu, pedindo a Sancta Barbara, sua advogada, que a livrasse do velho, assim como, pela sua muita virtude, se podéra livrar do impio Diocleciano (reminiscencias do ultimo sermão, que prégara fr. Miguel dos Antoninhos, na Misericordia, dias antes).

Em virtude do que, dormiu pacificamente, viu em sonhos o José Bento, queixando-se da barriga, e acordou de madrugada, quando a magra mão de Angelica a chamava para o oratorio, em que se rezava tudo que havia escripto sobre a materia.

Ao almoço, o senhor Antonio José da Silva aproveitava a edição de cara que não pôde dar á luz na ceia, por falta de concorrencia da parte interessada no espectaculo hediondo. Estava, portanto, mais feio que nunca o senhor Antonio. Durante o almoço de café com leite, e biscoutos de Avintes, nem uma palavra trovejou das belfas tumidas o desditoso amante. Rosa comia sem vontade, e Angelica sopeteava deliciosamente as suas sôpas, aboboradas em leite quente, porque os seus quatro dentes não eram para graças.

Findo o almoço, appareceu o arcediago Leonardo Taveira, que comeu tres biscoutos, indispensavel lastro para um copo de vinho, e pequena refeição para quem vinha de rezar quatro psalmos, em lingua barbara, no côro da Sé.

Reanimado de eloquencia propria do pae e do levita, o arcediago chamou sua filha á parte, e recapitulou, á ultima hora, as admoestações do dia anterior. Recalcitrou a desobediente rapariga. Fumegaram as pandas ventas do sacerdote. Volitaram-lhe das ditas caroços de rapé, como as frechas dos thracios contra Jupiter, e sacudiu da profana lingua um feixe de raios de maldição:Vibrata jaculatur fulmine lingua, como depois dizia o guardião dos gracianos, fr. Antonio do Menino Deus, a quem elle contava o accesso.

O seu discurso, que não vale a pena de especial menção, terminou por intimar a Rosa a immediata sahida d'aquella casa. Entretanto, o padre Leonardo foi buscar a ordem de entrada no recolhimento. Quando veio, Angelica pendurou-se-lhe ao pescoço, em risco de lhe enterrar o fio cortante da barba no queixo d'elle. Supplicava-lhe a piedosa mulher que lhe deixasse a filha mais nove dias, e, ao cabo d'elles, promettia dar-lh'a alliviada.

—Alliviada!—exclamou o pae, arfando as azas do nariz—minha filha alliviada!...

—Pois então...? quer que lhe diga uma cousa ao ouvido?... venha cá...

O padre media Rosa da cabeça aos pés, mas o ponto fixo d'esse olhar não era de certo nos pés nem na cabeça... Angelica acenava-lhe, e elle não podia attendel-a, porque parece que a cara da filha denunciava um crime inaudito... Era precisa coragem. O arcediago deu o ouvido direito á velha:

—O senhor reverendo arcediago não sabe o que aconteceu a sua filha?

—Não!... diga, depressa, que arrebento...

—Tenha paciencia... Todo o mal que Deus permitte é para desconto de nossos peccados...

—Diga, senhora Angelica, que me faz doudo...

—Não se afflija, senhor arcediago... o mal é do demonio, e o bem de Deus...

—Oh mulher, por quem é não me demore n'esta horrivel suspeita...

—Pois ainda não adivinhou?

—Não, com mil pragas...

—Credo! vossa reverendissima está atrigado!...

—Sancto nome de Deus, que mulher!... Que tem minha filha?... responda, senão vou arrebental-a...

—Arrebental-a! Deus nos acuda... Sua filha não tem culpa... a culpa é d'aquelle seductor do inferno, Deus me perdôe...

—Seductor!... um seductor!... quem foi o infame?... que é o que me diz, senhora Angelica?!

—Que é o que lhe digo? É que sua filha tem oespritoruim no corpo! O seductor é o demonio.

Padre Leonardo Taveira, com quanto pacifico, sentiu vontade de partir d'um murro o craneo, quasi nú, da senhora Angelica. Depois, soltou um frouxo de riso que borrifou a face da velha. A gargalhada foi tão longa e estridorosa, que Angelica julgou o arcediago possesso d'outro demonio.


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