20 de outubroA carta de v. exc.ª, cheia de benevolos conselhos, e prudentes reflexões a respeito do meu conflicto com o senhor Alvaro de Sousa, é uma nova força que v. exc.ª quer dar ás minhas convicções na sua amizade.Felizmente, o primo de v. exc.ª, sentindo por ventura que lhe não era glorioso um desforço com o pintor, já teve a summa discrição e bondade de encontrar-se comigo tres vezes, e deixar-me seguir pacificamente o meu caminho.Sinceramente lhe digo, minha nobre amiga, que o menos interessado, n'esta ridicula lucta com um moço digno d'outro competidor, era de certo eu.Não me levava para este acto de suprema vaidade o coração. O meu mal pensado cavalheirismo era todo da cabeça, que tenho cheia de loucuras, e refractaria a tudo que é submissão a classes, cuja superioridade—desculpe-me v. exc.ª—não reconheço debaixo do céo.D'este orgulho, que eu supponho não existirá d'hoje a cem annos, porque então os homens serão todos iguaes perante a lei, e irmãos perante Deus, d'este orgulho resultou a facilidade com que fui hontem procurar D. Rosa, que me pedia anciosamente uma entrevista.Encontrei-a assustada, confiando de mais na superioridade de Alvaro, e avaliando em menos que o seu valor real a minha frieza de animo para arrostar as furias do seu fidalgo amante.Sorri piedosamente para aquelles receios, aliás naturaes no coração d'uma mulher.Aquietei-lhe quanto pude o seu sobresalto, e acabei por pedir-lhe que fosse grata aos extremos do gentil moço, que, por ella, se arriscava a um encontro, cujas consequencias eram imprevistas para ambos nós. N'este sentido, aconselhei-a com uma generosidade digna d'outros tempos. Encareci o merecimento do senhor Alvaro, advoguei a causa d'elle com o fervor d'amigo, estabeleci comparações entre nós que redundavam em grandes vantagens para elle, e terminei este difficil papel, salvando a minha posição falsa, com lhe offerecer a sincera estima de irmão.Rosa Guilhermina não me quer para irmão. Achei-a de marmore para este sentimento que seria em mim o mais vital de todos, o que eu hoje mais lhe agradeceria, e o primeiro ederradeiro que eu posso offerecer a uma mulher. Ella, não. Fallou-me do seu amor com estranho desembaraço. Explicou-me os effeitos d'uma impressão violenta. Disse-me que só um prompto desprêso poderia salval-a, porque tinha o amor proprio necessario para não succumbir sem gloria, humilhando-se a um homem que a não comprehendia. Empregou, na exposição eloquente da sua sympathia, as melhores palavras da novella, e concluiu o seu não interrompido discurso com lagrimas, que me pareceram mais eloquentes que a fecundidade palavrosa.Eu não sei o que ha de sublime, e mavioso nas lagrimas d'uma mulher. Como se Deus lhe désse a humildade por instrumento de triumpho, eu senti-me enfraquecer, ao mesmo tempo que recobrava toda a minha coragem, pedindo-a á saudade de Helena, como se pede uma alegria ás recordações do passado, que se nos foi com todas ellas.Eu creio já ter dito a v. exc.ª que D. Rosa é uma linda mulher. Quando a retratei, havia alli n'aquella physionomia um colorido de felicidade, um sangue agitado que lhe vinha em estos ardentes do coração, uma viveza robusta, que denunciava um feliz descuido de pezares.Hontem não era assim. Rosa estava livida. Orlavam-lhe os olhos umas manchas azuladas, que marcavam talvez a passagem de muitas lagrimas escondidas, em longas noites de desesperação. Posto que vaidoso, eu não me felicitei, minha cara amiga, por ter sido a causa d'esses padecimentos. Se é por mim que elles existem, não se me dá da gloria inutil que elles possam dar-me. Não tenho nenhuma: não me prestam de balsamo para o coração; não me aquecem esta cabeça de gêlo; não me deixam roubar ao passado um instante para com elle idear futuros de impossivel felicidade.Poderei amar esta mulher repetindo as minhas visitas? Não. A aproximação é o divorcio das grandes paixões, que a distancia esposára. Aos pés do homem cahe partido o prisma, quando o hálito da mulher é tão de perto que lhe empana as côres.E eu, de mais a mais, não desejei aproximar-me, quando a vi de longe. Não senti este toque inesperado, esta surpreza electrica, uma só vez recebida na existencia de cada homem.Poderá o tempo fazer o que não fez um instante?Não.Dizem que existe um amor lentamente creado pelo habito, emanação da amizade contrahida pela semelhança devontades, resultado d'uma demorada elaboração de dous espiritos que se consagram no mutuo sacrificio de propensões e desejos. Não sei o que seja isto. A razão rejeita essas candidas theorias.Eu só creio no amor não esperado, não grangeado por sacrificios, não calculado de dia para dia.Se me dizem que essas paixões improvisadas n'um olhar, e n'um sorriso, e n'um córar, são instantaneas, e ephemeras como o féto arrancado ao embrião, com violencia, antes de tempo, eu direi que sim... que morrem essas paixões na vida, porque ha a pedra do tumulo que desce quando Deus a manda, mas ha a eterna saudade que nem a Providencia póde desvanecel-a no coração, que se envolve n'um pedaço da mortalha, roubada a outro coração, que o deixou viuvo de todas as esperanças, e gélido para todos os confortos.Minha paciente amiga, eu sou fastidioso com as minhas choradeiras. Acolha-m'as com amor, que eu não tenho, sequer, em galardão de tantos soffrimentos, o poder de as lançar ao papel de modo que consternem a compaixão da unica pessoa que póde sentir comigo.Estou pintando. É o meu sonho de ha dias. É Helena, quando me deu uma rosa murcha, e me disse: «Ahi tens o meu amor: a rosa cahirá desfeita em pó; mas a saudade ficará perpetuamente entre os vivos, como o germen d'essa flôr.» Estas palavras repetiu-m'as no sonho. Vi-a tal qual era, n'esse primeiro dia em que os medicos lhe disseram que désse um passeio recreativo á ilha da Madeira. N'esse dia começou ella o seu curto passeio em redor da sepultura!...Adeus, minha estimavel senhora.De v. exc.ªAmigo dedicado,Paulo.VII29 de OutubroTem decorrido sete dias, depois que lhe escrevi, minha boa amiga. V. exc.ª não calculava a razão do meu silencio, quando na sua queixosa carta de hontem arguia a minha reserva, ou indolencia.Eu indolente, senhora! Eu que não tenho cinco minutos de repouso desde o dia á noite! Eu, que conto os longos instantes do escurecer ao dia!Não lhe escrevi... por vergonha!... Ha de crêr-me, senhora! não tenho tido animo de ser eu o proprio accusador das minhas fraquezas incomprehensiveis! Tenho esperado o intervallo lucido d'esta demencia de seis dias, e as trevas cerram-se cada vez mais.Que é o que se passa em minha alma? Que transfiguração se operou na minha vida? Que brinquedo cruel é este que vem ludibriar-me no canto esquecido em que me refugiei com as minhas desgraças?A minha organisação está debaixo da terrivel influencia d'uma zombaria providencial! Eu era, ha oito dias, o homem morto para o futuro; as minhas alegrias resuscitava-as do tumulo mudo do passado; a minha vida era uma saudade que devia cegar-me os olhos da razão com o seu brilho sinistro, enlouquecendo-me, ou matando-me. Detestava o presente, porque debaixo dos meus pés estava o ardor do deserto, e nos horisontes da minha esperança... nem uma gôta d'agua que me apagasse este lume que me queima, sem o poder de aniquilar-me. Eu era isto! A solidão era-me cara. O tumulo de Helena povoava-se-me de anjos. A imagem d'ella, esboçada em cada téla que me rodeia, tinha uns olhos que choravam, mas os seus labios articulavam não sei que palavras animadoras, que me mandavam subir com o sorriso da resignação as escadas do meu patibulo.E esta vida acabou para mim. A imagem de Helena fugiu lagrimosa e espavorida da solidão do meu quarto. A sepultura d'ella... é uma pedra êrma de phantasmas para mim. Comecei por descrêr das minhas passadas visões. Raciocinei friamente sobre a vida e a morte; sobre a belleza que foi, e o cadaver que é; sobre o coração arquejante de amor, e o coração minado de vermes.Que é isto, pois? quem rasgou este véo diante de meus olhos? Que homem sou eu hoje, ou que homem fui durante dous annos de amargura incuravel?Entre mim e Helena... está Rosa Guilhermina! Tenho o rubor do pejo na face, quando estas palavras me fogem do coração! Parece que a vejo contrahir uma visagem de indignado pasmo por tal mudança! O meu caracter apresenta-se-lhe uma inconcebivel monstruosidade! Vota-me um legitimo desprêso, desde este momento?Primeiro me despresei eu a mim. Primeiro olhei eu, comasco, para a minha miseria. Antes de v. exc.ª recuar nauseada da baixa condição da minha alma, entrei eu na minha consciencia, e vi-me torpe, ingrato, insensivel, perjuro, e vil!Tenho muito orgulho da minha honra; quero absolver-me d'esta deslealdade á memoria de Helena, e não posso. Vejo que é necessario ser cynico para me desculpar, escarnecendo as culpas que a sociedade me imputa. Não posso, não sei sêl-o, não está na minha mão rasgar o contracto que fiz com Helena, nos seus ultimos instantes.Mas eu amo Rosa. Que sentimento é este? Como hei de convencer-me de que amo esta mulher? Se isto é uma illusão, como é que se dissipam estas chimeras?Não sei! Lembra-me que senti uma commoção inexplicavel quando a vi chorar! Lembra-me que a vi n'um sonho, de que acordei balbuciando o seu nome com ternura. Lembra-me que desdenhei, acordado, a ternura do sonho... Mas a minha alma estava inquieta. O meu quarto parecia-me pequeno: este silencio entristecia-me... Faltava-me não sei que voz, que som dos anjos que me tinha ferido uma corda no coração!... Ri da minha fragilidade. Peguei d'um pincel... Disse á minha alma que lhe inspirasse os traços de Helena... e os olhos amortecidos de Rosa resaltaram-me do panno com duas lagrimas... Era a imagem d'ella, que se levantava de um tumulo a dizer-me: «Aqui tens lagrimas minhas; aqui tens um coração, que renasceu das minhas cinzas; aqui te dou a unica mulher, que póde supprir a que não terá para ti um sorriso sobre a terra... Vê que os vermes corroeram a minha face. Não te illuda uma esperança em outros mundos, porque os limites da vida são a campa... Eterna é só a materia; mas a materia que te feriu os sentidos, dissolveu-a o sôpro da desgraça...»Contive-me durante dous dias de tribulação incessante. O coração dizia-me que Rosa me escreveria. Li a carta que recebera com indifferença, e passei por a minha alma todas aquellas palavras. Achei-as sinceras... Acarinhei-as com soffreguidão... Recordei o que ella me dissera, depois. Accusei-me de ingrato. Tive orgulho do meu rival. Receei ter parecido um ente indigno de tamanho amor! Senti ciumes... Queria vêl-a... Precisava de lhe esconder metade de minha alma, revelando-lhe uma pequena parte dos meus sentimentos...E procurei-a... Não sei o que lhe disse... Recordo-me que lhe apertei a mão com ardor; que lhe pedi lagrimas de piedade, e coragem para não transgredir um juramento...Penso que me não entendeu, porque me respondeu com um sorriso, e fugiu de ao pé de mim com a face abrazada...E, desde esse dia, escrevo-lhe a todas as horas. Não lhe mostro as minhas cartas, porque não posso convencer-me de que o meu coração está n'ellas... É impossivel!... Aqui ha uma fascinação!... Eu não posso ter esquecido Helena!...Preciso hoje da sua companhia, minha querida amiga!... Escrevi o que não ousaria pronunciar...De v. exc.ªGrato amigo,Paulo.VIII25 de outubroA ingratidão é punida. Principio a expiar o perjurio. Helena vai ser vingada por esta mulher, que, traiçoeiramente, me assaltou o coração, quando eu me julgava de ferro para as paixões.Rosa Guilhermina vai recuando diante de meus passos. Aproximar-me foi gelal-a. Da tristeza profunda com que me olhava, antes da vergonhosa quéda que dei do alto do meu orgulho, transformou-se n'um rosto folgasão, n'um conversar futil e acreançado, n'um nem eu sei que de motejo e zombaria que me escandalisa e envergonha.Esta mulher quiz experimentar-se, experimentando a minha soberba. Humilhou-se como a vibora, que se enrosca entre as urzes, para se levantar d'um salto de que eu devia fugir atrozmente ferido no meu amor proprio. Isto tudo é inexplicavel; mas o facto existe com horrorosa evidencia! Essa mulher, que me provocou, ha de amanhã despresar-me... despresa-me já hoje, e ousa dizer-me que me recebe, em attenção á delicadeza com que a tenho tratado!Esta fria linguagem é a mascara impostora dos caracteres, que se não sustentam. Quando a mulher assim falla, é porque o amor, nos labios d'ella, foi uma expressão mentirosa, que passou por lá, como a palavra «Deus» que é seguida, na bôca do impio, pela palavra «demonio!»É isso crivel, minha querida amiga?Rosa será aquella mulher, que me escreveu? Não a veriaeu chorar? As lagrimas podem assim prestar-se a uma infamia? Ha mulheres que tiram d'um coração gasto um tal proveito?Hontem procurei-a com a resolução estupida de convidal-a a ser minha mulher! Eu não podia já luctar com ella, nem comigo. Um dia antes, perguntei-lhe a razão da sua frieza; respondeu-me que ella mesmo não sabia explical-a. Disse-me que Alvaro de Sousa não frequentava a sua casa, e accrescentou que desejava saber de mim a razão d'este procedimento.—De mim?!—perguntei eu.—Sim... do senhor... Por minha parte não lhe dei a elle motivo algum de abandonar uma casa, em que entrava como parente... O que fiz foi interpôr as minhas supplicas com o senhor Paulo e com elle para que não tivessem desintelligencias em que soffresse a minha reputação.—A sua reputação é invulneravel...—Não é tanto assim... A vinda frequente do senhor Paulo, e a ausencia completa de Alvaro de Sousa, é motivo de murmuração na visinhança.—Quer com isso dizer que não a sacrifique á murmuração dos visinhos?—Escuso lembrar á sua honra esse dever. O senhor deve ser o primeiro a lembrar-se da susceptibilidade em que estou na presença d'um mundo que não distingue as mais honestas das mais torpes intenções...—Está raciocinando com admiravel prudencia, senhora D. Rosa!... Quer em summa dizer que não devo vir a sua casa...—Não digo tanto; mas devo pedir-lhe que seja menos frequente nas suas visitas...Comprehendi-a...E ergui-me d'um impeto para retirar-me. Parece que o coração se me tinha despegado no peito. Ouvi um zunido estranho, que me fazia latejar a cabeça em dolorosas pontadas. Era tudo escuro diante de meus olhos, e não havia em mim sensação que me não fizesse recear uma demencia.Sahi, e, só muitos passos longe d'aquella casa fatal, me lembrou a retirada boçal que fizera. Como foi possivel que eu não respondesse áquella mulher?! Que indignação, ou que nobreza d'alma foi a minha, que me não inspirou uma palavra que a fizesse córar?! Será isto uma devassidão moral, que supporta impassivel todas as offensas? A longa desgraça petrificou-me? Um amor, todo sancto, todo saudade, o amorde Helena, dous annos puro no sacrario do meu coração, fez-me cynico?Tenho-me hoje feito estas perguntas. É um tormento não poder responder. Não posso. Não sei o que sou, nem o que é aquella mulher!Seria uma desgraça, um cancro incuravel na minha alma a certeza de que ella é tão infame como se me ostenta!Vejamos se posso absolvel-a... Oh! eu queria absolvel-a, sem deshonra para mim, nem para ella!... De que modo?...Ha, por ventura, uma intriga? Qual? Por quem? E com que fim?Não sei, não posso comprehendel-a.Disse-me ella que nunca me confessou amor! Será isto verdade? Fui eu que me illudi? Então, aquella carta, aquella livre explicação d'um affecto repentino... foi tudo um sonho?! Terei eu mentido a v. exc.ª? A cópia da carta que lhe enviei, foi uma ignobil impostura?...Como é especialmente horrivel a minha situação! Como eu, d'um lance d'olhos, vejo todos os casos em que um homem póde suicidar-se na sua honra cuspindo na face d'uma mulher!...Esta situação não póde assim durar... Eu preciso ouvil-a... Ella ha de saber colorir a sua depravação d'outro modo... Eu quero até que ella se defenda, porque vai ahi n'essa defesa a salvação do meu amor proprio... Que dirá?... Que terei eu que responder-lhe?Minha boa amiga, ha uma conspiração sobrenatural contra mim... Eu receio, hoje mais que nunca, uma demencia. Lamente o seu infeliz amigoPaulo.IX2 de novembroTudo está perdido.Rosa Guilhermina vai sahir do Porto. D. Anna do Carmo faz parar, ha quatro dias, a carruagem á porta de sua filha. Alvaro de Sousa reconciliou-as. Leia v. exc.ª essa carta, que recebo n'este momento:«Confidente de minha amiga Rosa Guilhermina, devo dizer a v... que as suas visitas a esta casa, emquanto ella fôr minha hospeda, são bastante prejudiciaes á futura felicidade d'esta senhora. Sua mãe, informada das relações queo chamam a minha casa, obriga Rosa a sahir do Porto. Suspeito que a sua direcção não pare aqui em Portugal.«Da parte de v..., tanto eu como ella esperamos a cavalheira prudencia, que o seu bom caracter nos afiança. Se a ama, como devo acreditar das cartas que lhe escreve, desvele-se em não prejudical-a. Até aqui a sua união com a filha sem mãe, seria possivel. Hoje que D. Anna do Carmo reconhece sua filha para eleval-a até onde o dinheiro a collocou, declaro-lhe, com pesar meu, que serão, além de inuteis, nocivos todos os seus esforços.«Com sincera estima«De V...«Veneradora affectuosa,«Maria Elisa.»Ora aqui tem, minha boa amiga, o artista em lucta com a sociedade. Ella ahi vem pôr-me um pé, segunda vez, no pescoço! Cá sinto já a dôr vilipendiosa, e nem sequer sei já sorrir-me, quando a soberba me estende na face uma bofetada! É preciso ser homem, antes de tudo. Quero tirar nobreza da minha vilania! Esta dôr moral é mais forte que a outra. Sinto desvanecer-se o amor, e só tenho alma para compulsar as agonias d'uma paixão incomparavelmente maior. Cerra-se uma ferida; mas creio que me abriram outra incuravel, rasgando-me a antiga cicatriz.Hoje preciso da vida, porque é impossivel que eu não tenha a minha hora de vingança...Vou sahir de Portugal... não porque me reconheça tão pusillanime que receie aqui uma consumpção moral... Não é isto... é que debaixo d'este céo não ha para mim um anjo bom que me auxilie n'esta peleja desigual com o meu inseparavel demonio.Tenho dinheiro, que me é inutil aqui. Preciso desperdiçal-o... Quero tocar a extrema da miseria, para que a necessidade me faça artista, e o trabalho me salve d'estes ocios despedaçadores. Não sei onde irei... nem mesmo quero sabel-o... De qualquer parte, minha querida amiga, virá uma minha carta pedir-lhe uma lagrima. Quando a não receber... quando o silencio lhe afigurar que a sua amizade fez um ingrato, poderá v. exc.ª dizer: «Aquelle desgraçado, de quem fui tão amiga, e que tanto deveu ás minhas consolações, morreu!»E v. exc.ª poderá então louvar a Deus, que encravou a roda do meu infortunio. Poderá agradecer-lhe, como unica pessoa que deixarei no mundo com o meu nome no coração, a graça da morte concedida ao talvez primeiro homem, que não teve cinco minutos de felicidade na demorada existencia de vinte e seis annos.N'este momento ha em mim alguma cousa sobrenatural. Não amo Rosa Guilhermina; mas tambem a não detesto! O que eu muito queria era o segredo d'aquella indole, porque eu não seria acreditado se contasse a transição do amor ao desprêso, a infame mentira que me arrancou aos braços d'um cadaver para me lançar nos da desesperação.Deixal-a! Quero até pedir a Deus...a Deus!a desgraça, que é a mãe da piedade! Sinto-me religioso, porque, acima d'estas torpezas, ha de necessariamente existir um Creador, que deixou aqui a dilacerarem-se o mal e o bem. Este Creador deve ser juiz, e eu começo a temêl-o desde este momento... Quero, pois, pedir a Deus que proteja o futuro de Rosa Guilhermina. Os anjos vão com ella. Esta expressão do povo é a mais expansiva e tocante que a minha alma pode dar-lhe. A derradeira consolação do infeliz é perdoar. Eu perdôo... Offereço o meu coração para todos os punhaes; curvo a minha cabeça a todas as desgraças; dobro o meu joelho a todas as violencias, e prometto de nunca mais chamar infames os instrumentos, que obedecem á vontade superior do grande motor da vida, e da morte, da honra, e da deshonra.Não tenho coragem de abraçal-a, minha cara irmã. Adeus.De v. exc.ªAmigo de toda a vida,Paulo.X5Roma, 4 d'abril de 1825Minha prezada amigaEu tinha esperanças na minha convalescença moral. O coração, aturdido por padecimentos tumultuosos, cansado eendurecido por cicatrizes de golpes sobre golpes, adormecera extenuado... Eu principiava agora uma nova estação na minha vida. A insensibilidade promettia-me uma tranquilla vegetação. Adormeceria sem lagrimas; acordaria sem sobresaltos; veria tudo descórado em redor de mim; abriria para tudo, que me cerca, estes olhos de estatua, sem culto para o bello, nem asco para o repugnante.Este ultimo baluarte sinto-o esboroar-se debaixo dos pés. Á convalescença da alma segue-se a desorganisação da materia.Estou doente d'uma enfermidade que eu sentia, ha annos, fermentar-se-me no coração. Muitas vezes sentia umas palpitações extraordinarias, e depois dores agudissimas, um suor copioso, um mal-estar physico e moral, um mixto de aborrecimento e desesperação, que eu attribuia sempre á inconsolavel viuvez da minha alma.Este padecimento, nos primeiros mezes da minha viagem, diminuiu até se extinguir. N'outro tempo, não se me dava sentir aggravar-se o mal; mas, agora, queria vêr-me livre, queria viver muito n'este marasmo de todos os sentidos.Não o quiz a Providencia. Ha quinze dias que soffro muito. Dizem-me que tenho uma aneurisma. Não sei o que é... É a morte, que me fugiu quando eu a chamava, e me chama quando eu lhe fujo. Não posso dizer-lhe que bem vinda seja!Mandam-me a ares patrios... Eu não sahirei, já agora, d'aqui... Este conselho da medicina é um futil subterfugio.A minha doença estudo-a nos livros onde aprendem a cural-a os medicos. É inevitavel a morte... Póde-se assim viver longos annos; mas eu, assim, não desejo viver...É lamuria de mais por uma cousa tão transitoria como a vida!... Eu devo ser superior a esta pouca materia que se dissolve no dia seguinte áquelle em que o espírito planisa mil prosperidades. Não me deve ser penoso morrer, porque eu não tinha previsto felicidade nenhuma. O meu futuro seria uma atonia glacial, uma sensibilidade de morte no coração, evida na apparencia... Viver assim, entre os homens, ou entre cadaveres, que importa?... Morrerei resignado.Agora posso fallar-lhe de tudo, porque tudo me é indifferente. Levanto, hoje, a suspensão que impuz á sua bondade, minha amiga. Póde fallar-me de Rosa. Que é feito d'essa mulher?Incommoda-me muito o escrever. Prohibem-m'o; mas a prohibição não seria obedecida, se a cabeça me deixasse... Sinto um desprazer semelhante á nausea. É um esvahimento de cabeça, e uma lassidão em todo o corpo, que só posso attenuar com o uso do opio, que me entorpece completamente. Adeus.De v. exc.ªAmigo do coração,Paulo.RESPOSTAPorto, 6 de maio de 1825Meu bom amigoEu peço a Deus que lhe sosegue a imaginação. V... suppõe-se mais doente do que realmente está. O seu ardente espirito engana-o. Não se entregue ao terror da morte: viva, porque esse medo é signal de que a vida ainda lhe é cara.Espero ainda vêl-o em Portugal, esquecido dos seus passados dissabores, e vivendo para a felicidade de pessoas suas amigas.Quando v... perder um falso preconceito em que tem a sociedade, verá que o seu elevado merecimento lhe grangeia estimas, e o seu bom coração encontrará, por ventura, outro digno d'elle.Não quero que se lembre da morte!Dava-me tantas esperanças de o vêr feliz, na sua penultima carta, e agora parece que capricha em fazer-se desditoso, communicando á sua extremosa amiga as suas tristes previsões!Bem sabe com que amizade lhe fallo. Affiz-me a tratal-o como irmão, e não saberia amar com mais ternura um filho. Quando perdi um esposo, na flôr dos annos, e uma filha queelle me deixou nos braços, tambem eu, senhor Paulo, me julguei morta para tudo. Sentei-me no leito d'onde vira sahir o cadaver de meu marido, e esperei ahi a morte. Abracei-me ao berço vasio de minha filha, e pedi ao Senhor a esmola de uma mesma sepultura para tres entes que deviam ajuntar-se.Encontrei-o ao meu lado, chorando comigo a perda de Helena, senhor Paulo, e os seus nobres padecimentos vieram minorar os meus. V... fallou-me do céo, da eternidade, da perpetua união das almas no seio de Deus, e eu acreditei-o. Como as suas palavras me vinham sanctificar a minha dôr no coração, gravei-as ahi, e a sua imagem entrou lá com ellas para sempre.Não sei se o amei; mas, se o amor não era aquella extremosa amizade, que lhe consagrei, e consagro, então não sei o que é o amor.Não era isso o que accende o ciume, porque esse não o senti eu nunca. O seu triste episodio com Rosa contristou-me, porque desde o principio prophetisei desventuras. Realisaram-se muito além do meu agouro.Nunca lhe fallei assim, porque... deixe-me tambem ceder a não sei que triste e mysteriosa inspiração... parece-me que o não verei mais... isto é uma loucura, uma allucinação, mas o coração sente-a tão forte, que eu não posso suspender as lagrimas... Nunca lhe fallei assim, porque v... tem hoje vinte e sete annos, e eu trinta e sete... As desgraças não me poderam ainda envelhecer de todo, e eu recearia enganal-o, fazendo-o nutrir, a respeito da minha amizade, alguma falsa supposição, que me poderia fazer muito desgraçada, ou muito feliz.Esses receios passaram. Agora conheço que não ha commum entre nós senão uma amizade illimitada até á honesta confiança. Nunca podia-lhe ser outra cousa...Fallei já muito de mim. Quer que lhe falle de Rosa?Depois da sua partida, a filha de Anna do Carmo foi viver na companhia de sua mãe, levando comsigo a viuva do negociante da rua das Flôres. Encontrei-as em casa do D. Antonio de ***, e achei-as ambas bellas.Maria Elisa trazia douda a cabeça de S*** C***, Rosa Guilhermina, um pouco triste, recebia com indifferença o cortejo teimoso de Alvaro de Sousa. Por causa de Maria Elisa houve pequenas miserias de salão, ciumes senis, com que os nossos velhos se inculcam rapazes. Felizmente, não lhes falta zêlo para não deixarem transpirar as fidalgas impudencias, que sabem occultar nos seus solares.Agora receba uma novidade, que não deve já ferir a sua vaidade, nem mesmo alvoroçar o seu coração.Rosa Guilhermina vai casar-se.Quer saber com que neto de trinta avós?É um neto sem avô conhecido.Não sei se ha seis ou mais annos que Rosa Guilhermina viveu algum tempo em casa do negociante Silva, da rua das Flôres, com quem seu pae, o arcediago de Barroso, a quiz casar.Rosa namorou-se ahi d'um tal José Bento, filho d'um retrozeiro. Este lôrpa (diz Maria Elisa que o era de grande marca, e eu creio que continúa a sêl-o) estudava latim em casa do Passos, cujo quintal partia com o do arcediago, na travessa do Laranjal ou Bomjardim. Por causa d'ella, e á sua vista, o rapaz foi castigado com uma palmatoria. No dia seguinte, o mestre que o castigou, appareceu morto, e José Bento desappareceu.Foi para o Brazil, onde se demorou alguns annos, vendendo carnes sêccas. Por fim, morre o patrão, e deixa-o senhor d'uma riqueza que parece extraordinaria, pelo fausto com que se apresentou no Porto.Ninguem se lembrava já do filho do retrozeiro, que tinha morrido. José Bento de Magalhães e Castro, como elle se assigna, occultou algum tempo o seu nascimento; mas, um dia, apresenta-se em casa de Anna do Carmo, pedindo licença para vêr Rosa Guilhermina.A viuva apparece; mas não se recordava já das feições do seu primeiro namoro. José Bento declara-se, e offerece-se como marido de Rosa.Não sei o que se seguiu a isto. O boato do proximo casamento correu logo. O senhor Magalhães e Castro é recebido nas primeiras casas. Alcançou fôro de fidalgo, e trata de edificar no Reimão um palacete com as armas dos Castros e Magalhães. Dizem-me, que, dentro de oito dias, Rosa será senhora de grandes bens de fortuna, e as suas carruagens serão as melhores.Eu quizera que v... se risse com a fina ironia de talento, e da experiencia, como eu realmente me rio d'estas grutescas evoluções do mundo.Vai extensa a carta, e parte para Cadiz o hiate que deve leval-a.Adeus, meu querido amigo. Escreva-me, dizendo que se desvaneceram os seus terrores. Viva para a sua dedicada irmã.***XIRoma, 28 d'abril de 1825Graças, minha querida amiga! A sua carta é um modelo de que deviam servir-se os raros anjos, que receberam de Deus a divina missão de consolar infelizes.O meu coração sentira uma estranha alegria, duas horas antes de eu abrir a carta de v. exc.ª Era o presentimento.Tive uma hora de luz. Respirei o aroma de todas as flôres da vida. Dilatava-se-me o coração. As palpitações eram impetuosas como as do sangue, surprendido pela imagem de uma mulher, que se julga morta, e para sempre perdida.Era esta justamente a hora em que v. exc.ª devia assim fallar-me. Mezes antes, esta linguagem faria a sua desgraça, que a minha está fadada desde o seio de minha mãe.Foi minha amiga, quanto podia sêl-o. Fui eu quem lhe esposou o seu coração viuvo d'um esposo e d'uma filha. Eis aqui uma vaidade sancta, que não deshonra um quasi moribundo. As suas revelações, senhora, acolhe-as meu coração como um deposito sagrado que brevemente confiarei ao tumulo.A minha morte proxima não é uma chimera de imaginação ardente. Já lhe disse que quero viver e não posso... Desfalleço, porque todos os meus esforços são impotentes. Cravo as unhas na aresta do abysmo; mas o corpo resvala, e a queda é infallivel.Morro aos vinte e sete annos. Vou, envelhecido por toda a sorte de tribulações. Resta-me saber o que é a indigencia: vai muito adiantada a noite da vida para que a conheça. O meu dia eterno vai nascer, e a luz matutina d'esse dia irradiou-se em volta de mim, quando as suas palavras vieram povoar de bellas visões a solidão do meu quarto.Foi o amor que me matou! Posso dizel-o com toda a ufania d'uma nobre amargura: foi o amor que me matou! Esta grande alma não era para esta sociedade. Offereci-lh'a, despresou-m'a... Lancei-lh'a aos pés... calcaram-m'a... Fez-se-me uma villania, porque eu era muito nobre... conheço que o era, porque tenho perdoado a todos aquelles que me cortaram as carnes até me chegarem ao coração... Não me conheceram, e eu não os conheci a tempo. Foi muito tarde que o mundo se me ostentou, qual é. Eu tinha direitos a ser feliz, embora recebesse a felicidade pela porta da deshonra.Não quiz. A minha pureza custou-me a vida, porque fugi do mundo para a solidão a digerir o fel que me deram, e protestei morrer antes de cuspil-o na face da sociedade.Aconselho a infamia a todos os desgraçados, senão quizerem o martyrio. Se forem insultados, indemnisem-se. Renunciem educação, honra, pundonor, e dignidade, todas as vezes que a vingança depender da villania, da deshonra, da impudencia, e do descaramento.Desculpe-me v. exc.ª... Esqueci-me que estava escrevendo a uma senhora, que não resolveu ainda os asquerosos problemas da infamia. A minha cabeça é um vulcão. Não é ainda a demencia que me desvaira, mas póde sêl-o a febre.Ha tres dias que me não levanto. Estou quasi só. Tenho um medico alguns minutos no dia, um frade portuguez que por aqui anda atraz da salvação eterna, e um criado, que me serve um caldo, e não entende o que lhe digo.Eis-aqui a minha familia na vespera d'uma viagem infinita... Falta-me aqui uma mulher, que me fosse esposa, mãe, ou irmã. Em Portugal, quando estes ataques me annunciavam a morte, lembrei-me, muitas vezes, que o meu derradeiro olhar encontraria os olhos de v. exc.ªAqui, será a sua imagem, o seu retrato, que me sorri, aquelle retrato que v. exc.ª me concedeu a pedido da nossa pobre Helena...Não posso...Ah!... esquecia-me dizer-lhe que a historia de Rosa Guilhermina é uma bonita farça... Fez-me sorrir; mas, no coração, lamento-a!... É uma mulher bem trivial!...Adeus, minha querida irmã... Será o ultimo?...Paulo.«—Eis-aqui a ultima carta, que eu recebi de Paulo—disse a senhora, que me confiou a leitura, e as cópias de todas.«—Que sentia v. exc.ª depois que a leu?«—O que eu senti?... Nem já me recordo... Isto passou-se ha trinta annos; e a memoria do coração, aos sessenta e seis, está embotada; mas, se quer um facto que lhe exprima melhor que todas as palavras o que eu senti, bastará dizer-lhe que, dous dias depois, parti para Roma...«—Para Roma!...«—Admira-se!?«—Então v. exc.ª amava Paulo...«—Se o amava!... Não se fazem essas perguntas a uma velha. O senhor ri de mim, se eu deixar fallar o coração, como elle, ainda ha trinta annos, lhe responderia.«—Eu não posso rir do que a vida tem mais grave e triste...«—O amor!... diz bem... É bem triste recordal-o; mas o ridiculo manda suffocar as expansões d'um coração, que não envelheceu ainda. Dizem que os cabellos brancos são veneraveis. Se o são, e só nos patriarchas, nos prophetas, e nos apostolos... Quer que lhe diga que amei Paulo? Pois sim... Amei-o muito... Conheci-o, já casada; mas eu fui uma esposa com todas as virtudes, e com a resignação para todos os sacrificios.A filha do general *** amava Paulo.A minha casa era o unico local onde se reuniam. Impuz-me esta violencia, e prestei-me ao doloroso serviço de os approximar, porque precisava matar um veneno com outro veneno.Helena morreu, e Paulo refugiou-se a chorar comigo. Eu e o tumulo d'ella eramos o unico passatempo da sua atormentada existencia.Enviuvei. Encontrei-o sempre a meu lado. Sondei com muita delicadeza a sua alma, e achei-a fria. Reconheci que era meu amigo, porque eu lhe fallava muito de Helena. Um homem assim não podia amar-me...«—Porque não lhe revelou a sua alma?«—Uma mulher, se não está gasta pela libertinagem, ou não é prodigiosamente estupida, nunca faz semelhantes revelações. Se elle me perguntasse se eu o amava, responder-lhe-ia que não, e córaria pela vergonha da mentira, ou pelo remorso da offensa... Dizem-me que as mulheres de hoje são faceis n'essas delações da sua alma. Se não é a moda que as absolve, o pudor de certo não é... Emfim, eu nunca lhe disse que o amava, nem elle me proporcionou occasiões de dizer-lh'o.Um anno antes de conhecer essa mulher fatal...«—Quem? Rosa Guilhermina?«—Sim... Um anno antes de conhecel-a, raras vezes vinha a minha casa. Vivia muito só: dizia-me nas suas frequentes cartas, que vivia namorado da arte, que tinha muitos retratos de Helena, e que roubava á pintura o tempo apenas necessario para visitar-lhe, em S. Francisco, a sepultura.Relacionado com Rosa, Paulo, sem o pensar, ultrajou-mequanto era possivel!... O ciume devorou-me alguns dias, e eu tive momentos de detestar o infame caracter do infeliz moço... Habituada, porém, a dominar-me, afivelei outra vez a mascara, e recebi-o com a mesma graça em minha casa para ouvir-lhe as expansivas apologias de Rosa Guilhermina.Tenho remorsos de ter sentido uma cruel alegria, quando essa mulher o despresou...«—Naturalmente... alguma intriga...«—Urdida por mim?...«—O amor, muitas vezes, obriga...«—A praticar villezas? O amor nobre, não... Eu não urdi intrigas... Rosa despresou-o; porque o seu caracter era o caracter de sua mãe... Anna do Carmo nascera nas palhas, fôra amante d'um padre, fôra adultera mulher d'um livreiro, fôra repellida de casa de sua filha, e recebera-a por fim, nos seus salões, sem vergonha do seu passado, nem resentimento da sua dignidade. Filha de tal mãe, não podia apreciar o amor de Paulo, que amára uma mulher, que morrera por elle.Ia-me esquecendo o conto... Fui a Roma; cheguei lá vinte dias depois que recebi a carta.«—Encontrou-o?«—Sepultado... Morrera seis dias antes... Ao lado da sua cabeceira estava o meu retrato... É aquelle que alli se vê.»Reparei... Ninguem diria que esta senhora podia ter sido tão bella!Cahiam-lhe duas a duas as lagrimas... Eu quiz divertil-a d'esta dolorosa situação, perguntando-lhe:«—Demorou-se em Roma?«—Tres dias... Voltei a Portugal, depois... Deixe-me chorar, porque ha muitos annos que não fallei a ninguem n'este homem... Quer saber o resto d'esta historia, que faz o seu romance?... Essa senhora de que faz menção no seu prologo, póde contar-lh'a.«—Com menos graça que v. exc.ª...«—Pois eu lhe digo: Rosa Guilhermina morreu, ha seis annos em Lisboa, com o titulo de viscondessa de ***. Seu marido ainda vive... É um dos mais ricos proprietarios do paiz...«—E Maria Elisa?«—Essa mulher perdeu-se... Foi amante de S*** C***, que deu escandalo no Porto, e perturbou a tranquillidade da sua casa, e da casa das suas amantes, que eram quasi todascasadas. Depois, como elle morresse, Maria Elisa, que vivera na companhia de Rosa, reagiu contra os conselhos de José Bento, e abandonou a amiga para entregar-se a uma vida dissipada sem ao menos a colorir com as variadas tinturas da hypocrisia. Tocou o extremo grau de miseria; mas d'esta miseria prosaica e villã, e que não póde ser historiada n'um romance. Não era fome nem nudez. Era a negação para todos os sentimentos d'honra. Quando desceu tão abaixo recebeu uma boa mesada de Rosa; mas dissipou-a com amantes. Por fim envelheceu. Rosa tinha morrido, e o visconde de ***, que a soccorrera estimulado por sua mulher, abandonou-a inteiramente.«—E ainda vive?«—Morreu já depois que o senhor principiou o seu romance. Foi justamente no dia em que sahiu o quinto folhetim naConcordia.«—Morreu miseravelmente?«—Não, senhor. Quem lhe prestou os ultimos soccorros fui eu. Não lhe faltou uma cama, um medico, uma enfermeira, e um padre até ao seu ultimo momento.«—Devia ser terrivel, nos ultimos dias, o olhar d'essa mulher para o passado!...«—Creio que não... A desgraça desmemoria... Por não sei que favor da Providencia, a mulher que se degrada não tem já o senso intimo da sua dignidade perdida. Cahiu, do leito á sepultura, impassivel como a pedra que tomba insensivelmente do alto da serra ao fundo do abysmo...«—Esqueceu-me perguntar-lhe como viveu Rosa com José Bento...«—Honradamente, e parece que feliz.«—Deixou filhos?«—Do segundo marido nenhum.«—E aquella Assucena, que tão linda me pintaram? Deve hoje ter trinta annos...«—Morreu ha dous... Quer saber a vida d'essa mulher?«—Desejava...«—Mas tem de fazer outro volume.«—Pois a vida de Assucena dá para tanto?«—É um triste romance... Ha de escrevel-o, e intitulal-o:A NETA DO ARCEDIAGO.FIM
20 de outubro
A carta de v. exc.ª, cheia de benevolos conselhos, e prudentes reflexões a respeito do meu conflicto com o senhor Alvaro de Sousa, é uma nova força que v. exc.ª quer dar ás minhas convicções na sua amizade.
Felizmente, o primo de v. exc.ª, sentindo por ventura que lhe não era glorioso um desforço com o pintor, já teve a summa discrição e bondade de encontrar-se comigo tres vezes, e deixar-me seguir pacificamente o meu caminho.
Sinceramente lhe digo, minha nobre amiga, que o menos interessado, n'esta ridicula lucta com um moço digno d'outro competidor, era de certo eu.
Não me levava para este acto de suprema vaidade o coração. O meu mal pensado cavalheirismo era todo da cabeça, que tenho cheia de loucuras, e refractaria a tudo que é submissão a classes, cuja superioridade—desculpe-me v. exc.ª—não reconheço debaixo do céo.
D'este orgulho, que eu supponho não existirá d'hoje a cem annos, porque então os homens serão todos iguaes perante a lei, e irmãos perante Deus, d'este orgulho resultou a facilidade com que fui hontem procurar D. Rosa, que me pedia anciosamente uma entrevista.
Encontrei-a assustada, confiando de mais na superioridade de Alvaro, e avaliando em menos que o seu valor real a minha frieza de animo para arrostar as furias do seu fidalgo amante.
Sorri piedosamente para aquelles receios, aliás naturaes no coração d'uma mulher.
Aquietei-lhe quanto pude o seu sobresalto, e acabei por pedir-lhe que fosse grata aos extremos do gentil moço, que, por ella, se arriscava a um encontro, cujas consequencias eram imprevistas para ambos nós. N'este sentido, aconselhei-a com uma generosidade digna d'outros tempos. Encareci o merecimento do senhor Alvaro, advoguei a causa d'elle com o fervor d'amigo, estabeleci comparações entre nós que redundavam em grandes vantagens para elle, e terminei este difficil papel, salvando a minha posição falsa, com lhe offerecer a sincera estima de irmão.
Rosa Guilhermina não me quer para irmão. Achei-a de marmore para este sentimento que seria em mim o mais vital de todos, o que eu hoje mais lhe agradeceria, e o primeiro ederradeiro que eu posso offerecer a uma mulher. Ella, não. Fallou-me do seu amor com estranho desembaraço. Explicou-me os effeitos d'uma impressão violenta. Disse-me que só um prompto desprêso poderia salval-a, porque tinha o amor proprio necessario para não succumbir sem gloria, humilhando-se a um homem que a não comprehendia. Empregou, na exposição eloquente da sua sympathia, as melhores palavras da novella, e concluiu o seu não interrompido discurso com lagrimas, que me pareceram mais eloquentes que a fecundidade palavrosa.
Eu não sei o que ha de sublime, e mavioso nas lagrimas d'uma mulher. Como se Deus lhe désse a humildade por instrumento de triumpho, eu senti-me enfraquecer, ao mesmo tempo que recobrava toda a minha coragem, pedindo-a á saudade de Helena, como se pede uma alegria ás recordações do passado, que se nos foi com todas ellas.
Eu creio já ter dito a v. exc.ª que D. Rosa é uma linda mulher. Quando a retratei, havia alli n'aquella physionomia um colorido de felicidade, um sangue agitado que lhe vinha em estos ardentes do coração, uma viveza robusta, que denunciava um feliz descuido de pezares.
Hontem não era assim. Rosa estava livida. Orlavam-lhe os olhos umas manchas azuladas, que marcavam talvez a passagem de muitas lagrimas escondidas, em longas noites de desesperação. Posto que vaidoso, eu não me felicitei, minha cara amiga, por ter sido a causa d'esses padecimentos. Se é por mim que elles existem, não se me dá da gloria inutil que elles possam dar-me. Não tenho nenhuma: não me prestam de balsamo para o coração; não me aquecem esta cabeça de gêlo; não me deixam roubar ao passado um instante para com elle idear futuros de impossivel felicidade.
Poderei amar esta mulher repetindo as minhas visitas? Não. A aproximação é o divorcio das grandes paixões, que a distancia esposára. Aos pés do homem cahe partido o prisma, quando o hálito da mulher é tão de perto que lhe empana as côres.
E eu, de mais a mais, não desejei aproximar-me, quando a vi de longe. Não senti este toque inesperado, esta surpreza electrica, uma só vez recebida na existencia de cada homem.
Poderá o tempo fazer o que não fez um instante?
Não.
Dizem que existe um amor lentamente creado pelo habito, emanação da amizade contrahida pela semelhança devontades, resultado d'uma demorada elaboração de dous espiritos que se consagram no mutuo sacrificio de propensões e desejos. Não sei o que seja isto. A razão rejeita essas candidas theorias.
Eu só creio no amor não esperado, não grangeado por sacrificios, não calculado de dia para dia.
Se me dizem que essas paixões improvisadas n'um olhar, e n'um sorriso, e n'um córar, são instantaneas, e ephemeras como o féto arrancado ao embrião, com violencia, antes de tempo, eu direi que sim... que morrem essas paixões na vida, porque ha a pedra do tumulo que desce quando Deus a manda, mas ha a eterna saudade que nem a Providencia póde desvanecel-a no coração, que se envolve n'um pedaço da mortalha, roubada a outro coração, que o deixou viuvo de todas as esperanças, e gélido para todos os confortos.
Minha paciente amiga, eu sou fastidioso com as minhas choradeiras. Acolha-m'as com amor, que eu não tenho, sequer, em galardão de tantos soffrimentos, o poder de as lançar ao papel de modo que consternem a compaixão da unica pessoa que póde sentir comigo.
Estou pintando. É o meu sonho de ha dias. É Helena, quando me deu uma rosa murcha, e me disse: «Ahi tens o meu amor: a rosa cahirá desfeita em pó; mas a saudade ficará perpetuamente entre os vivos, como o germen d'essa flôr.» Estas palavras repetiu-m'as no sonho. Vi-a tal qual era, n'esse primeiro dia em que os medicos lhe disseram que désse um passeio recreativo á ilha da Madeira. N'esse dia começou ella o seu curto passeio em redor da sepultura!...
Adeus, minha estimavel senhora.
De v. exc.ª
Amigo dedicado,
Paulo.
VII
29 de Outubro
Tem decorrido sete dias, depois que lhe escrevi, minha boa amiga. V. exc.ª não calculava a razão do meu silencio, quando na sua queixosa carta de hontem arguia a minha reserva, ou indolencia.
Eu indolente, senhora! Eu que não tenho cinco minutos de repouso desde o dia á noite! Eu, que conto os longos instantes do escurecer ao dia!
Não lhe escrevi... por vergonha!... Ha de crêr-me, senhora! não tenho tido animo de ser eu o proprio accusador das minhas fraquezas incomprehensiveis! Tenho esperado o intervallo lucido d'esta demencia de seis dias, e as trevas cerram-se cada vez mais.
Que é o que se passa em minha alma? Que transfiguração se operou na minha vida? Que brinquedo cruel é este que vem ludibriar-me no canto esquecido em que me refugiei com as minhas desgraças?
A minha organisação está debaixo da terrivel influencia d'uma zombaria providencial! Eu era, ha oito dias, o homem morto para o futuro; as minhas alegrias resuscitava-as do tumulo mudo do passado; a minha vida era uma saudade que devia cegar-me os olhos da razão com o seu brilho sinistro, enlouquecendo-me, ou matando-me. Detestava o presente, porque debaixo dos meus pés estava o ardor do deserto, e nos horisontes da minha esperança... nem uma gôta d'agua que me apagasse este lume que me queima, sem o poder de aniquilar-me. Eu era isto! A solidão era-me cara. O tumulo de Helena povoava-se-me de anjos. A imagem d'ella, esboçada em cada téla que me rodeia, tinha uns olhos que choravam, mas os seus labios articulavam não sei que palavras animadoras, que me mandavam subir com o sorriso da resignação as escadas do meu patibulo.
E esta vida acabou para mim. A imagem de Helena fugiu lagrimosa e espavorida da solidão do meu quarto. A sepultura d'ella... é uma pedra êrma de phantasmas para mim. Comecei por descrêr das minhas passadas visões. Raciocinei friamente sobre a vida e a morte; sobre a belleza que foi, e o cadaver que é; sobre o coração arquejante de amor, e o coração minado de vermes.
Que é isto, pois? quem rasgou este véo diante de meus olhos? Que homem sou eu hoje, ou que homem fui durante dous annos de amargura incuravel?
Entre mim e Helena... está Rosa Guilhermina! Tenho o rubor do pejo na face, quando estas palavras me fogem do coração! Parece que a vejo contrahir uma visagem de indignado pasmo por tal mudança! O meu caracter apresenta-se-lhe uma inconcebivel monstruosidade! Vota-me um legitimo desprêso, desde este momento?
Primeiro me despresei eu a mim. Primeiro olhei eu, comasco, para a minha miseria. Antes de v. exc.ª recuar nauseada da baixa condição da minha alma, entrei eu na minha consciencia, e vi-me torpe, ingrato, insensivel, perjuro, e vil!
Tenho muito orgulho da minha honra; quero absolver-me d'esta deslealdade á memoria de Helena, e não posso. Vejo que é necessario ser cynico para me desculpar, escarnecendo as culpas que a sociedade me imputa. Não posso, não sei sêl-o, não está na minha mão rasgar o contracto que fiz com Helena, nos seus ultimos instantes.
Mas eu amo Rosa. Que sentimento é este? Como hei de convencer-me de que amo esta mulher? Se isto é uma illusão, como é que se dissipam estas chimeras?
Não sei! Lembra-me que senti uma commoção inexplicavel quando a vi chorar! Lembra-me que a vi n'um sonho, de que acordei balbuciando o seu nome com ternura. Lembra-me que desdenhei, acordado, a ternura do sonho... Mas a minha alma estava inquieta. O meu quarto parecia-me pequeno: este silencio entristecia-me... Faltava-me não sei que voz, que som dos anjos que me tinha ferido uma corda no coração!... Ri da minha fragilidade. Peguei d'um pincel... Disse á minha alma que lhe inspirasse os traços de Helena... e os olhos amortecidos de Rosa resaltaram-me do panno com duas lagrimas... Era a imagem d'ella, que se levantava de um tumulo a dizer-me: «Aqui tens lagrimas minhas; aqui tens um coração, que renasceu das minhas cinzas; aqui te dou a unica mulher, que póde supprir a que não terá para ti um sorriso sobre a terra... Vê que os vermes corroeram a minha face. Não te illuda uma esperança em outros mundos, porque os limites da vida são a campa... Eterna é só a materia; mas a materia que te feriu os sentidos, dissolveu-a o sôpro da desgraça...»
Contive-me durante dous dias de tribulação incessante. O coração dizia-me que Rosa me escreveria. Li a carta que recebera com indifferença, e passei por a minha alma todas aquellas palavras. Achei-as sinceras... Acarinhei-as com soffreguidão... Recordei o que ella me dissera, depois. Accusei-me de ingrato. Tive orgulho do meu rival. Receei ter parecido um ente indigno de tamanho amor! Senti ciumes... Queria vêl-a... Precisava de lhe esconder metade de minha alma, revelando-lhe uma pequena parte dos meus sentimentos...
E procurei-a... Não sei o que lhe disse... Recordo-me que lhe apertei a mão com ardor; que lhe pedi lagrimas de piedade, e coragem para não transgredir um juramento...Penso que me não entendeu, porque me respondeu com um sorriso, e fugiu de ao pé de mim com a face abrazada...
E, desde esse dia, escrevo-lhe a todas as horas. Não lhe mostro as minhas cartas, porque não posso convencer-me de que o meu coração está n'ellas... É impossivel!... Aqui ha uma fascinação!... Eu não posso ter esquecido Helena!...
Preciso hoje da sua companhia, minha querida amiga!... Escrevi o que não ousaria pronunciar...
De v. exc.ª
Grato amigo,
Paulo.
VIII
25 de outubro
A ingratidão é punida. Principio a expiar o perjurio. Helena vai ser vingada por esta mulher, que, traiçoeiramente, me assaltou o coração, quando eu me julgava de ferro para as paixões.
Rosa Guilhermina vai recuando diante de meus passos. Aproximar-me foi gelal-a. Da tristeza profunda com que me olhava, antes da vergonhosa quéda que dei do alto do meu orgulho, transformou-se n'um rosto folgasão, n'um conversar futil e acreançado, n'um nem eu sei que de motejo e zombaria que me escandalisa e envergonha.
Esta mulher quiz experimentar-se, experimentando a minha soberba. Humilhou-se como a vibora, que se enrosca entre as urzes, para se levantar d'um salto de que eu devia fugir atrozmente ferido no meu amor proprio. Isto tudo é inexplicavel; mas o facto existe com horrorosa evidencia! Essa mulher, que me provocou, ha de amanhã despresar-me... despresa-me já hoje, e ousa dizer-me que me recebe, em attenção á delicadeza com que a tenho tratado!
Esta fria linguagem é a mascara impostora dos caracteres, que se não sustentam. Quando a mulher assim falla, é porque o amor, nos labios d'ella, foi uma expressão mentirosa, que passou por lá, como a palavra «Deus» que é seguida, na bôca do impio, pela palavra «demonio!»
É isso crivel, minha querida amiga?
Rosa será aquella mulher, que me escreveu? Não a veriaeu chorar? As lagrimas podem assim prestar-se a uma infamia? Ha mulheres que tiram d'um coração gasto um tal proveito?
Hontem procurei-a com a resolução estupida de convidal-a a ser minha mulher! Eu não podia já luctar com ella, nem comigo. Um dia antes, perguntei-lhe a razão da sua frieza; respondeu-me que ella mesmo não sabia explical-a. Disse-me que Alvaro de Sousa não frequentava a sua casa, e accrescentou que desejava saber de mim a razão d'este procedimento.
—De mim?!—perguntei eu.
—Sim... do senhor... Por minha parte não lhe dei a elle motivo algum de abandonar uma casa, em que entrava como parente... O que fiz foi interpôr as minhas supplicas com o senhor Paulo e com elle para que não tivessem desintelligencias em que soffresse a minha reputação.
—A sua reputação é invulneravel...
—Não é tanto assim... A vinda frequente do senhor Paulo, e a ausencia completa de Alvaro de Sousa, é motivo de murmuração na visinhança.
—Quer com isso dizer que não a sacrifique á murmuração dos visinhos?
—Escuso lembrar á sua honra esse dever. O senhor deve ser o primeiro a lembrar-se da susceptibilidade em que estou na presença d'um mundo que não distingue as mais honestas das mais torpes intenções...
—Está raciocinando com admiravel prudencia, senhora D. Rosa!... Quer em summa dizer que não devo vir a sua casa...
—Não digo tanto; mas devo pedir-lhe que seja menos frequente nas suas visitas...
Comprehendi-a...
E ergui-me d'um impeto para retirar-me. Parece que o coração se me tinha despegado no peito. Ouvi um zunido estranho, que me fazia latejar a cabeça em dolorosas pontadas. Era tudo escuro diante de meus olhos, e não havia em mim sensação que me não fizesse recear uma demencia.
Sahi, e, só muitos passos longe d'aquella casa fatal, me lembrou a retirada boçal que fizera. Como foi possivel que eu não respondesse áquella mulher?! Que indignação, ou que nobreza d'alma foi a minha, que me não inspirou uma palavra que a fizesse córar?! Será isto uma devassidão moral, que supporta impassivel todas as offensas? A longa desgraça petrificou-me? Um amor, todo sancto, todo saudade, o amorde Helena, dous annos puro no sacrario do meu coração, fez-me cynico?
Tenho-me hoje feito estas perguntas. É um tormento não poder responder. Não posso. Não sei o que sou, nem o que é aquella mulher!
Seria uma desgraça, um cancro incuravel na minha alma a certeza de que ella é tão infame como se me ostenta!
Vejamos se posso absolvel-a... Oh! eu queria absolvel-a, sem deshonra para mim, nem para ella!... De que modo?...
Ha, por ventura, uma intriga? Qual? Por quem? E com que fim?
Não sei, não posso comprehendel-a.
Disse-me ella que nunca me confessou amor! Será isto verdade? Fui eu que me illudi? Então, aquella carta, aquella livre explicação d'um affecto repentino... foi tudo um sonho?! Terei eu mentido a v. exc.ª? A cópia da carta que lhe enviei, foi uma ignobil impostura?...
Como é especialmente horrivel a minha situação! Como eu, d'um lance d'olhos, vejo todos os casos em que um homem póde suicidar-se na sua honra cuspindo na face d'uma mulher!...
Esta situação não póde assim durar... Eu preciso ouvil-a... Ella ha de saber colorir a sua depravação d'outro modo... Eu quero até que ella se defenda, porque vai ahi n'essa defesa a salvação do meu amor proprio... Que dirá?... Que terei eu que responder-lhe?
Minha boa amiga, ha uma conspiração sobrenatural contra mim... Eu receio, hoje mais que nunca, uma demencia. Lamente o seu infeliz amigo
Paulo.
IX
2 de novembro
Tudo está perdido.
Rosa Guilhermina vai sahir do Porto. D. Anna do Carmo faz parar, ha quatro dias, a carruagem á porta de sua filha. Alvaro de Sousa reconciliou-as. Leia v. exc.ª essa carta, que recebo n'este momento:
«Confidente de minha amiga Rosa Guilhermina, devo dizer a v... que as suas visitas a esta casa, emquanto ella fôr minha hospeda, são bastante prejudiciaes á futura felicidade d'esta senhora. Sua mãe, informada das relações queo chamam a minha casa, obriga Rosa a sahir do Porto. Suspeito que a sua direcção não pare aqui em Portugal.
«Da parte de v..., tanto eu como ella esperamos a cavalheira prudencia, que o seu bom caracter nos afiança. Se a ama, como devo acreditar das cartas que lhe escreve, desvele-se em não prejudical-a. Até aqui a sua união com a filha sem mãe, seria possivel. Hoje que D. Anna do Carmo reconhece sua filha para eleval-a até onde o dinheiro a collocou, declaro-lhe, com pesar meu, que serão, além de inuteis, nocivos todos os seus esforços.
«Com sincera estima
«De V...
«Veneradora affectuosa,
«Maria Elisa.»
Ora aqui tem, minha boa amiga, o artista em lucta com a sociedade. Ella ahi vem pôr-me um pé, segunda vez, no pescoço! Cá sinto já a dôr vilipendiosa, e nem sequer sei já sorrir-me, quando a soberba me estende na face uma bofetada! É preciso ser homem, antes de tudo. Quero tirar nobreza da minha vilania! Esta dôr moral é mais forte que a outra. Sinto desvanecer-se o amor, e só tenho alma para compulsar as agonias d'uma paixão incomparavelmente maior. Cerra-se uma ferida; mas creio que me abriram outra incuravel, rasgando-me a antiga cicatriz.
Hoje preciso da vida, porque é impossivel que eu não tenha a minha hora de vingança...
Vou sahir de Portugal... não porque me reconheça tão pusillanime que receie aqui uma consumpção moral... Não é isto... é que debaixo d'este céo não ha para mim um anjo bom que me auxilie n'esta peleja desigual com o meu inseparavel demonio.
Tenho dinheiro, que me é inutil aqui. Preciso desperdiçal-o... Quero tocar a extrema da miseria, para que a necessidade me faça artista, e o trabalho me salve d'estes ocios despedaçadores. Não sei onde irei... nem mesmo quero sabel-o... De qualquer parte, minha querida amiga, virá uma minha carta pedir-lhe uma lagrima. Quando a não receber... quando o silencio lhe afigurar que a sua amizade fez um ingrato, poderá v. exc.ª dizer: «Aquelle desgraçado, de quem fui tão amiga, e que tanto deveu ás minhas consolações, morreu!»
E v. exc.ª poderá então louvar a Deus, que encravou a roda do meu infortunio. Poderá agradecer-lhe, como unica pessoa que deixarei no mundo com o meu nome no coração, a graça da morte concedida ao talvez primeiro homem, que não teve cinco minutos de felicidade na demorada existencia de vinte e seis annos.
N'este momento ha em mim alguma cousa sobrenatural. Não amo Rosa Guilhermina; mas tambem a não detesto! O que eu muito queria era o segredo d'aquella indole, porque eu não seria acreditado se contasse a transição do amor ao desprêso, a infame mentira que me arrancou aos braços d'um cadaver para me lançar nos da desesperação.
Deixal-a! Quero até pedir a Deus...a Deus!a desgraça, que é a mãe da piedade! Sinto-me religioso, porque, acima d'estas torpezas, ha de necessariamente existir um Creador, que deixou aqui a dilacerarem-se o mal e o bem. Este Creador deve ser juiz, e eu começo a temêl-o desde este momento... Quero, pois, pedir a Deus que proteja o futuro de Rosa Guilhermina. Os anjos vão com ella. Esta expressão do povo é a mais expansiva e tocante que a minha alma pode dar-lhe. A derradeira consolação do infeliz é perdoar. Eu perdôo... Offereço o meu coração para todos os punhaes; curvo a minha cabeça a todas as desgraças; dobro o meu joelho a todas as violencias, e prometto de nunca mais chamar infames os instrumentos, que obedecem á vontade superior do grande motor da vida, e da morte, da honra, e da deshonra.
Não tenho coragem de abraçal-a, minha cara irmã. Adeus.
De v. exc.ª
Amigo de toda a vida,
Paulo.
X5
Roma, 4 d'abril de 1825
Minha prezada amiga
Eu tinha esperanças na minha convalescença moral. O coração, aturdido por padecimentos tumultuosos, cansado eendurecido por cicatrizes de golpes sobre golpes, adormecera extenuado... Eu principiava agora uma nova estação na minha vida. A insensibilidade promettia-me uma tranquilla vegetação. Adormeceria sem lagrimas; acordaria sem sobresaltos; veria tudo descórado em redor de mim; abriria para tudo, que me cerca, estes olhos de estatua, sem culto para o bello, nem asco para o repugnante.
Este ultimo baluarte sinto-o esboroar-se debaixo dos pés. Á convalescença da alma segue-se a desorganisação da materia.
Estou doente d'uma enfermidade que eu sentia, ha annos, fermentar-se-me no coração. Muitas vezes sentia umas palpitações extraordinarias, e depois dores agudissimas, um suor copioso, um mal-estar physico e moral, um mixto de aborrecimento e desesperação, que eu attribuia sempre á inconsolavel viuvez da minha alma.
Este padecimento, nos primeiros mezes da minha viagem, diminuiu até se extinguir. N'outro tempo, não se me dava sentir aggravar-se o mal; mas, agora, queria vêr-me livre, queria viver muito n'este marasmo de todos os sentidos.
Não o quiz a Providencia. Ha quinze dias que soffro muito. Dizem-me que tenho uma aneurisma. Não sei o que é... É a morte, que me fugiu quando eu a chamava, e me chama quando eu lhe fujo. Não posso dizer-lhe que bem vinda seja!
Mandam-me a ares patrios... Eu não sahirei, já agora, d'aqui... Este conselho da medicina é um futil subterfugio.
A minha doença estudo-a nos livros onde aprendem a cural-a os medicos. É inevitavel a morte... Póde-se assim viver longos annos; mas eu, assim, não desejo viver...
É lamuria de mais por uma cousa tão transitoria como a vida!... Eu devo ser superior a esta pouca materia que se dissolve no dia seguinte áquelle em que o espírito planisa mil prosperidades. Não me deve ser penoso morrer, porque eu não tinha previsto felicidade nenhuma. O meu futuro seria uma atonia glacial, uma sensibilidade de morte no coração, evida na apparencia... Viver assim, entre os homens, ou entre cadaveres, que importa?... Morrerei resignado.
Agora posso fallar-lhe de tudo, porque tudo me é indifferente. Levanto, hoje, a suspensão que impuz á sua bondade, minha amiga. Póde fallar-me de Rosa. Que é feito d'essa mulher?
Incommoda-me muito o escrever. Prohibem-m'o; mas a prohibição não seria obedecida, se a cabeça me deixasse... Sinto um desprazer semelhante á nausea. É um esvahimento de cabeça, e uma lassidão em todo o corpo, que só posso attenuar com o uso do opio, que me entorpece completamente. Adeus.
De v. exc.ª
Amigo do coração,
Paulo.
RESPOSTA
Porto, 6 de maio de 1825
Meu bom amigo
Eu peço a Deus que lhe sosegue a imaginação. V... suppõe-se mais doente do que realmente está. O seu ardente espirito engana-o. Não se entregue ao terror da morte: viva, porque esse medo é signal de que a vida ainda lhe é cara.
Espero ainda vêl-o em Portugal, esquecido dos seus passados dissabores, e vivendo para a felicidade de pessoas suas amigas.
Quando v... perder um falso preconceito em que tem a sociedade, verá que o seu elevado merecimento lhe grangeia estimas, e o seu bom coração encontrará, por ventura, outro digno d'elle.
Não quero que se lembre da morte!
Dava-me tantas esperanças de o vêr feliz, na sua penultima carta, e agora parece que capricha em fazer-se desditoso, communicando á sua extremosa amiga as suas tristes previsões!
Bem sabe com que amizade lhe fallo. Affiz-me a tratal-o como irmão, e não saberia amar com mais ternura um filho. Quando perdi um esposo, na flôr dos annos, e uma filha queelle me deixou nos braços, tambem eu, senhor Paulo, me julguei morta para tudo. Sentei-me no leito d'onde vira sahir o cadaver de meu marido, e esperei ahi a morte. Abracei-me ao berço vasio de minha filha, e pedi ao Senhor a esmola de uma mesma sepultura para tres entes que deviam ajuntar-se.
Encontrei-o ao meu lado, chorando comigo a perda de Helena, senhor Paulo, e os seus nobres padecimentos vieram minorar os meus. V... fallou-me do céo, da eternidade, da perpetua união das almas no seio de Deus, e eu acreditei-o. Como as suas palavras me vinham sanctificar a minha dôr no coração, gravei-as ahi, e a sua imagem entrou lá com ellas para sempre.
Não sei se o amei; mas, se o amor não era aquella extremosa amizade, que lhe consagrei, e consagro, então não sei o que é o amor.
Não era isso o que accende o ciume, porque esse não o senti eu nunca. O seu triste episodio com Rosa contristou-me, porque desde o principio prophetisei desventuras. Realisaram-se muito além do meu agouro.
Nunca lhe fallei assim, porque... deixe-me tambem ceder a não sei que triste e mysteriosa inspiração... parece-me que o não verei mais... isto é uma loucura, uma allucinação, mas o coração sente-a tão forte, que eu não posso suspender as lagrimas... Nunca lhe fallei assim, porque v... tem hoje vinte e sete annos, e eu trinta e sete... As desgraças não me poderam ainda envelhecer de todo, e eu recearia enganal-o, fazendo-o nutrir, a respeito da minha amizade, alguma falsa supposição, que me poderia fazer muito desgraçada, ou muito feliz.
Esses receios passaram. Agora conheço que não ha commum entre nós senão uma amizade illimitada até á honesta confiança. Nunca podia-lhe ser outra cousa...
Fallei já muito de mim. Quer que lhe falle de Rosa?
Depois da sua partida, a filha de Anna do Carmo foi viver na companhia de sua mãe, levando comsigo a viuva do negociante da rua das Flôres. Encontrei-as em casa do D. Antonio de ***, e achei-as ambas bellas.
Maria Elisa trazia douda a cabeça de S*** C***, Rosa Guilhermina, um pouco triste, recebia com indifferença o cortejo teimoso de Alvaro de Sousa. Por causa de Maria Elisa houve pequenas miserias de salão, ciumes senis, com que os nossos velhos se inculcam rapazes. Felizmente, não lhes falta zêlo para não deixarem transpirar as fidalgas impudencias, que sabem occultar nos seus solares.
Agora receba uma novidade, que não deve já ferir a sua vaidade, nem mesmo alvoroçar o seu coração.
Rosa Guilhermina vai casar-se.
Quer saber com que neto de trinta avós?
É um neto sem avô conhecido.
Não sei se ha seis ou mais annos que Rosa Guilhermina viveu algum tempo em casa do negociante Silva, da rua das Flôres, com quem seu pae, o arcediago de Barroso, a quiz casar.
Rosa namorou-se ahi d'um tal José Bento, filho d'um retrozeiro. Este lôrpa (diz Maria Elisa que o era de grande marca, e eu creio que continúa a sêl-o) estudava latim em casa do Passos, cujo quintal partia com o do arcediago, na travessa do Laranjal ou Bomjardim. Por causa d'ella, e á sua vista, o rapaz foi castigado com uma palmatoria. No dia seguinte, o mestre que o castigou, appareceu morto, e José Bento desappareceu.
Foi para o Brazil, onde se demorou alguns annos, vendendo carnes sêccas. Por fim, morre o patrão, e deixa-o senhor d'uma riqueza que parece extraordinaria, pelo fausto com que se apresentou no Porto.
Ninguem se lembrava já do filho do retrozeiro, que tinha morrido. José Bento de Magalhães e Castro, como elle se assigna, occultou algum tempo o seu nascimento; mas, um dia, apresenta-se em casa de Anna do Carmo, pedindo licença para vêr Rosa Guilhermina.
A viuva apparece; mas não se recordava já das feições do seu primeiro namoro. José Bento declara-se, e offerece-se como marido de Rosa.
Não sei o que se seguiu a isto. O boato do proximo casamento correu logo. O senhor Magalhães e Castro é recebido nas primeiras casas. Alcançou fôro de fidalgo, e trata de edificar no Reimão um palacete com as armas dos Castros e Magalhães. Dizem-me, que, dentro de oito dias, Rosa será senhora de grandes bens de fortuna, e as suas carruagens serão as melhores.
Eu quizera que v... se risse com a fina ironia de talento, e da experiencia, como eu realmente me rio d'estas grutescas evoluções do mundo.
Vai extensa a carta, e parte para Cadiz o hiate que deve leval-a.
Adeus, meu querido amigo. Escreva-me, dizendo que se desvaneceram os seus terrores. Viva para a sua dedicada irmã.
***
XI
Roma, 28 d'abril de 1825
Graças, minha querida amiga! A sua carta é um modelo de que deviam servir-se os raros anjos, que receberam de Deus a divina missão de consolar infelizes.
O meu coração sentira uma estranha alegria, duas horas antes de eu abrir a carta de v. exc.ª Era o presentimento.
Tive uma hora de luz. Respirei o aroma de todas as flôres da vida. Dilatava-se-me o coração. As palpitações eram impetuosas como as do sangue, surprendido pela imagem de uma mulher, que se julga morta, e para sempre perdida.
Era esta justamente a hora em que v. exc.ª devia assim fallar-me. Mezes antes, esta linguagem faria a sua desgraça, que a minha está fadada desde o seio de minha mãe.
Foi minha amiga, quanto podia sêl-o. Fui eu quem lhe esposou o seu coração viuvo d'um esposo e d'uma filha. Eis aqui uma vaidade sancta, que não deshonra um quasi moribundo. As suas revelações, senhora, acolhe-as meu coração como um deposito sagrado que brevemente confiarei ao tumulo.
A minha morte proxima não é uma chimera de imaginação ardente. Já lhe disse que quero viver e não posso... Desfalleço, porque todos os meus esforços são impotentes. Cravo as unhas na aresta do abysmo; mas o corpo resvala, e a queda é infallivel.
Morro aos vinte e sete annos. Vou, envelhecido por toda a sorte de tribulações. Resta-me saber o que é a indigencia: vai muito adiantada a noite da vida para que a conheça. O meu dia eterno vai nascer, e a luz matutina d'esse dia irradiou-se em volta de mim, quando as suas palavras vieram povoar de bellas visões a solidão do meu quarto.
Foi o amor que me matou! Posso dizel-o com toda a ufania d'uma nobre amargura: foi o amor que me matou! Esta grande alma não era para esta sociedade. Offereci-lh'a, despresou-m'a... Lancei-lh'a aos pés... calcaram-m'a... Fez-se-me uma villania, porque eu era muito nobre... conheço que o era, porque tenho perdoado a todos aquelles que me cortaram as carnes até me chegarem ao coração... Não me conheceram, e eu não os conheci a tempo. Foi muito tarde que o mundo se me ostentou, qual é. Eu tinha direitos a ser feliz, embora recebesse a felicidade pela porta da deshonra.Não quiz. A minha pureza custou-me a vida, porque fugi do mundo para a solidão a digerir o fel que me deram, e protestei morrer antes de cuspil-o na face da sociedade.
Aconselho a infamia a todos os desgraçados, senão quizerem o martyrio. Se forem insultados, indemnisem-se. Renunciem educação, honra, pundonor, e dignidade, todas as vezes que a vingança depender da villania, da deshonra, da impudencia, e do descaramento.
Desculpe-me v. exc.ª... Esqueci-me que estava escrevendo a uma senhora, que não resolveu ainda os asquerosos problemas da infamia. A minha cabeça é um vulcão. Não é ainda a demencia que me desvaira, mas póde sêl-o a febre.
Ha tres dias que me não levanto. Estou quasi só. Tenho um medico alguns minutos no dia, um frade portuguez que por aqui anda atraz da salvação eterna, e um criado, que me serve um caldo, e não entende o que lhe digo.
Eis-aqui a minha familia na vespera d'uma viagem infinita... Falta-me aqui uma mulher, que me fosse esposa, mãe, ou irmã. Em Portugal, quando estes ataques me annunciavam a morte, lembrei-me, muitas vezes, que o meu derradeiro olhar encontraria os olhos de v. exc.ª
Aqui, será a sua imagem, o seu retrato, que me sorri, aquelle retrato que v. exc.ª me concedeu a pedido da nossa pobre Helena...
Não posso...
Ah!... esquecia-me dizer-lhe que a historia de Rosa Guilhermina é uma bonita farça... Fez-me sorrir; mas, no coração, lamento-a!... É uma mulher bem trivial!...
Adeus, minha querida irmã... Será o ultimo?...
Paulo.
«—Eis-aqui a ultima carta, que eu recebi de Paulo—disse a senhora, que me confiou a leitura, e as cópias de todas.
«—Que sentia v. exc.ª depois que a leu?
«—O que eu senti?... Nem já me recordo... Isto passou-se ha trinta annos; e a memoria do coração, aos sessenta e seis, está embotada; mas, se quer um facto que lhe exprima melhor que todas as palavras o que eu senti, bastará dizer-lhe que, dous dias depois, parti para Roma...
«—Para Roma!...
«—Admira-se!?
«—Então v. exc.ª amava Paulo...
«—Se o amava!... Não se fazem essas perguntas a uma velha. O senhor ri de mim, se eu deixar fallar o coração, como elle, ainda ha trinta annos, lhe responderia.
«—Eu não posso rir do que a vida tem mais grave e triste...
«—O amor!... diz bem... É bem triste recordal-o; mas o ridiculo manda suffocar as expansões d'um coração, que não envelheceu ainda. Dizem que os cabellos brancos são veneraveis. Se o são, e só nos patriarchas, nos prophetas, e nos apostolos... Quer que lhe diga que amei Paulo? Pois sim... Amei-o muito... Conheci-o, já casada; mas eu fui uma esposa com todas as virtudes, e com a resignação para todos os sacrificios.
A filha do general *** amava Paulo.
A minha casa era o unico local onde se reuniam. Impuz-me esta violencia, e prestei-me ao doloroso serviço de os approximar, porque precisava matar um veneno com outro veneno.
Helena morreu, e Paulo refugiou-se a chorar comigo. Eu e o tumulo d'ella eramos o unico passatempo da sua atormentada existencia.
Enviuvei. Encontrei-o sempre a meu lado. Sondei com muita delicadeza a sua alma, e achei-a fria. Reconheci que era meu amigo, porque eu lhe fallava muito de Helena. Um homem assim não podia amar-me...
«—Porque não lhe revelou a sua alma?
«—Uma mulher, se não está gasta pela libertinagem, ou não é prodigiosamente estupida, nunca faz semelhantes revelações. Se elle me perguntasse se eu o amava, responder-lhe-ia que não, e córaria pela vergonha da mentira, ou pelo remorso da offensa... Dizem-me que as mulheres de hoje são faceis n'essas delações da sua alma. Se não é a moda que as absolve, o pudor de certo não é... Emfim, eu nunca lhe disse que o amava, nem elle me proporcionou occasiões de dizer-lh'o.
Um anno antes de conhecer essa mulher fatal...
«—Quem? Rosa Guilhermina?
«—Sim... Um anno antes de conhecel-a, raras vezes vinha a minha casa. Vivia muito só: dizia-me nas suas frequentes cartas, que vivia namorado da arte, que tinha muitos retratos de Helena, e que roubava á pintura o tempo apenas necessario para visitar-lhe, em S. Francisco, a sepultura.
Relacionado com Rosa, Paulo, sem o pensar, ultrajou-mequanto era possivel!... O ciume devorou-me alguns dias, e eu tive momentos de detestar o infame caracter do infeliz moço... Habituada, porém, a dominar-me, afivelei outra vez a mascara, e recebi-o com a mesma graça em minha casa para ouvir-lhe as expansivas apologias de Rosa Guilhermina.
Tenho remorsos de ter sentido uma cruel alegria, quando essa mulher o despresou...
«—Naturalmente... alguma intriga...
«—Urdida por mim?...
«—O amor, muitas vezes, obriga...
«—A praticar villezas? O amor nobre, não... Eu não urdi intrigas... Rosa despresou-o; porque o seu caracter era o caracter de sua mãe... Anna do Carmo nascera nas palhas, fôra amante d'um padre, fôra adultera mulher d'um livreiro, fôra repellida de casa de sua filha, e recebera-a por fim, nos seus salões, sem vergonha do seu passado, nem resentimento da sua dignidade. Filha de tal mãe, não podia apreciar o amor de Paulo, que amára uma mulher, que morrera por elle.
Ia-me esquecendo o conto... Fui a Roma; cheguei lá vinte dias depois que recebi a carta.
«—Encontrou-o?
«—Sepultado... Morrera seis dias antes... Ao lado da sua cabeceira estava o meu retrato... É aquelle que alli se vê.»
Reparei... Ninguem diria que esta senhora podia ter sido tão bella!
Cahiam-lhe duas a duas as lagrimas... Eu quiz divertil-a d'esta dolorosa situação, perguntando-lhe:
«—Demorou-se em Roma?
«—Tres dias... Voltei a Portugal, depois... Deixe-me chorar, porque ha muitos annos que não fallei a ninguem n'este homem... Quer saber o resto d'esta historia, que faz o seu romance?... Essa senhora de que faz menção no seu prologo, póde contar-lh'a.
«—Com menos graça que v. exc.ª...
«—Pois eu lhe digo: Rosa Guilhermina morreu, ha seis annos em Lisboa, com o titulo de viscondessa de ***. Seu marido ainda vive... É um dos mais ricos proprietarios do paiz...
«—E Maria Elisa?
«—Essa mulher perdeu-se... Foi amante de S*** C***, que deu escandalo no Porto, e perturbou a tranquillidade da sua casa, e da casa das suas amantes, que eram quasi todascasadas. Depois, como elle morresse, Maria Elisa, que vivera na companhia de Rosa, reagiu contra os conselhos de José Bento, e abandonou a amiga para entregar-se a uma vida dissipada sem ao menos a colorir com as variadas tinturas da hypocrisia. Tocou o extremo grau de miseria; mas d'esta miseria prosaica e villã, e que não póde ser historiada n'um romance. Não era fome nem nudez. Era a negação para todos os sentimentos d'honra. Quando desceu tão abaixo recebeu uma boa mesada de Rosa; mas dissipou-a com amantes. Por fim envelheceu. Rosa tinha morrido, e o visconde de ***, que a soccorrera estimulado por sua mulher, abandonou-a inteiramente.
«—E ainda vive?
«—Morreu já depois que o senhor principiou o seu romance. Foi justamente no dia em que sahiu o quinto folhetim naConcordia.
«—Morreu miseravelmente?
«—Não, senhor. Quem lhe prestou os ultimos soccorros fui eu. Não lhe faltou uma cama, um medico, uma enfermeira, e um padre até ao seu ultimo momento.
«—Devia ser terrivel, nos ultimos dias, o olhar d'essa mulher para o passado!...
«—Creio que não... A desgraça desmemoria... Por não sei que favor da Providencia, a mulher que se degrada não tem já o senso intimo da sua dignidade perdida. Cahiu, do leito á sepultura, impassivel como a pedra que tomba insensivelmente do alto da serra ao fundo do abysmo...
«—Esqueceu-me perguntar-lhe como viveu Rosa com José Bento...
«—Honradamente, e parece que feliz.
«—Deixou filhos?
«—Do segundo marido nenhum.
«—E aquella Assucena, que tão linda me pintaram? Deve hoje ter trinta annos...
«—Morreu ha dous... Quer saber a vida d'essa mulher?
«—Desejava...
«—Mas tem de fazer outro volume.
«—Pois a vida de Assucena dá para tanto?
«—É um triste romance... Ha de escrevel-o, e intitulal-o:A NETA DO ARCEDIAGO.
FIM