Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella, onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves emanações das flores dos jardins.
Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas, esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de tantos espinhos.
A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade, ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma indifferença verdadeira.
Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!
Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de Luiz.
O amor de Luiz!...
Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!
E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que Magdalena adormeceu.
Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi transparentes.
Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um vasto oceano d'amor.
Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que, inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira momentos antes.
A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres, como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.
Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!
Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é ventura e a ventura parece não ter fim!...
Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão perfumados.
E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o calix amargo e mortal do fel da desventura!
Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme, sonha, vive, e gosa!
E Magdalena sonhava.
N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.
Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.
As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor. Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno abençoando o Creador!
O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.
E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras, cajueiros e pitangueiras.
--Tão entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se.
--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo, com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante.
--Então? volveu ella. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das laranjeiras?
--O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção.
--Quero que vás á cidade.
--Ao branco? perguntou elle com rapidez.
--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só a elle, ouviste?
--Descance a minha filha, o negro vai já.
E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou:
--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia de chegar. É elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.
--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se tu soubesses como eu o amo!
--É como o cabinda á sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.
--Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por elle! Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda d'elle, e não poderia viver sem elle. Tu, oh! tu não sabes o que eu sinto, não! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim!
--E o branco tambem quer muito á minha filha, muito; acudiu o cabinda, a quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.
--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expressão d'alguma duvida.
--O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da senhora moça. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre as folhas do capim...
--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia.
--Agora, senhora moça, o negro vai e hade trazer alegrias á sua filha.
--Vem depressa, ouviste?
--O negro não tardará.
E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.
No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto.
Subiu.
Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.
--Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao vêl-a.
--Estava uma manhã tão bonita! vim vêr as minhas flôres.
E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga.
--E tão cêdo as deixas, doidinha!
--Já as vi, já lhes fallei, papae.
--E agora que vaes fazer?
--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo.
--Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena?
--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Então o meu piano?
--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae!
--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!
--Nunca?
--Nunca!
E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.
Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os paes são paes, e os filhos não degeneram.
O cabinda chegou á rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de terminada a disputa entre Luiz e Americo.
O escriptorio, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do seu interior ás pessoas que entravam.
Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma porta lateral.
--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.
--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.
--O negro quer fallar ao senhor Luiz.
--O teu senhor não vem hoje á cidade? perguntou Americo com intenção.
--O negro não sabe.
--Quem te mandou, então?
--A senhora moça.
E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador.
--A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o negro guardava da sua missão.
--Sim.
--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.
--O negro traz carta.
--Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.
--A ordem da senhora moça é só para entregar a elle.
Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:
--Bem se vê que és negro!
--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle.
--Patife!...
--O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco e de negro...
Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que, embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar:
--Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar recados da senhora moça, patife!
--O negro não tem mêdo.
E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe parecêra ouvir a voz de Luiz.
Chegou á porta e metteu a cabeça.
--Licença.
--Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.
--O negro, meu branco.
--A que vens?
--Trazer isto. Manda a senhora moça.
E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando com alegria, sorrindo de contentamento.
Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques, que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do objecto do nosso amor.
Que papel aquelle! que thesouro não estava alli!
Fossem dizer ao sympathico moço que o não lêsse! offerecessem-lhe por elle todas as riquezas do mundo!
Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação!
Apenas o perfumado papel lhe chegou ás mãos, Luiz abriu-o com uma rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o devorava, do que como quem o estava lendo.
Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias.
O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso, n'uma contemplação profunda e silenciosa;
A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos transportes sublimes da ventura.
O bilhete dizia o seguinte:
«Luiz«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que nunca hasde esquecer a... tuaMagdalena.»«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua imagem, que me sorria e eu acariciava.»
«Luiz
«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que nunca hasde esquecer a... tua
Magdalena.»
«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua imagem, que me sorria e eu acariciava.»
Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.
E Luiz olhou para o negro.
--Então? perguntou este.
--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a brilharem-lhe nas pupillas.
--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do extremo da alegria ao extremo do receio.
--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces, porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz, cabinda!
O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos, estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:
--E o branco gosta da senhora moça?
--Oh! se a amo!...
--Muito?
--Até ao delirio!
--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando phreneticamente as mãos ao moço.
--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles beijos a affeição do escravo por Magdalena.
--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora moça muito feliz.
--És uma grande alma!
--Mas o mulato...
--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle!
--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça.
--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?
--A minha filha espera, bem sei.
Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:
«Magdalena«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia, em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que te adoro muito, muitissimo.«Luiz.»
«Magdalena
«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia, em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que te adoro muito, muitissimo.
«Luiz.»
O negro partiu.
Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com dous affectuosissimos beijos.
O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.
As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.
De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.
O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.
Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito.
Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos faiscaram centelhas de felicidade.
--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.
--Carta do branco.
--Dá cá, depressa, anda.
O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo modo que aquelle havia lido a d'ella.
Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os sentimentos da occasião.
Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo, e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria:
--Ah! cabinda! cabinda!
--Está contente a senhora moça?
--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!
--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!
Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.
Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um tanto da meiguice que o caracterisava.
Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com todo o cavalheirismo, emfim.
Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel, bondoso e em extremo meigo.
Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu nome e a concorrer com os seus fundos.
Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.
Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em um baile, em um club, em uma associação recreativa.
Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os prazeres.
Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes, n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de venturas suavissimas.
Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma simplicidade abundante.
As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.
E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças ao systema d'educação empregado por Jorge.
A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres ou ricos.
Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava d'asperidades, maus tratos e indifferença.
Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles.
Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas transacções de commum accordo.
Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de vêr as cousas era d'um alcance vasto.
Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como conselhos e lição.
Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.
Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.
Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de Jorge.
Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia.
A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia. Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não tinha uma unica appellação.
Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe:
--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens como entender conveniente.
--Sim, senhor.
--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao Botafogo.
--Não ha de ter duvida.
--Adeus.
Apertaram as mãos e Jorge sahiu.
Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram, pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle, conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se.
Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.
Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e fortuna até.
Estava d'um lado o amor, do outro o dever.
A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu juramento, constante no seu affecto.
Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr que um anjo bom havia de proteger a sua causa.
Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.
Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia. Ainda tinha tempo.
No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé.
O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as precauções.
Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem duvida, muito e muito a receiar.
A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.
O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso elle faria todas as diligencias para o evitar.
Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.
Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!
Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo que Jorge viesse da chacara.
Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para Macahé.
Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do mulato...
Ás nove horas entrava Jorge no armazem.
Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao armazem.
Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.
Um d'elles respondeu que sim.
--A que? perguntou Americo.
--Levar isto á senhora moça.
--Deixa vêr.
E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.
--Não é preciso ires, eu mandarei lá.
E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o sentimento d'uma vingança quasi realisada.
O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre pelos justos e pelos bons!
A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse tambem.
N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira, ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo!
Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma folha de papel e escreveu a seguinte carta:
«Ex.maSnr.a«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.mopae. Deixou-me uma carta para V. Ex.a, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me veja, peço a v. ex.ao obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas, no caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para entregar a V. Ex.aa referida carta.De V. Ex.a, etc.,Americo d'Abreu.»
«Ex.maSnr.a
«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.mopae. Deixou-me uma carta para V. Ex.a, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me veja, peço a v. ex.ao obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas, no caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para entregar a V. Ex.aa referida carta.
De V. Ex.a, etc.,
Americo d'Abreu.»
Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e enviou-o ao Botafogo, á chacara de Jorge.
Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo.
A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do mulato.
D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo lhe fazia.
Teve o presentimento d'uma traição, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida.
Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou.
Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posição altamente compromettedora; não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um desgosto grandissimo.
Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.
Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitação, quando entrou o cabinda.
O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. Só elle a podia tirar dos embaraços que a prendiam.
Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.
--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. Não podias chegar em melhor occasião.
--Quer alguma cousa ao negro a senhora moça?
--O senhor Luiz foi para Macahé.
--O branco? perguntou o cabinda admirado.
--Sim.
--Quem o disse á minha filha?
--O senhor Americo.
--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.
--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta noute ás 10 horas apparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma carta de Luiz.
--E porque a não mandou o mulato?
--Porque só a mim a quer entregar.
O cabinda sorriu-se n'uma expressão d'ironia e d'ameaça.
--E a senhora moça o que responde?
--Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes?
--Que a minha filha diga ao mulato que venha.
--Mas...
--Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!
Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de papel e escreveu o seguinte:
«Espero-o á hora marcada.Magdalena.»
«Espero-o á hora marcada.
Magdalena.»
Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:
--Toma; dá ao negro que está esperando.
--Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja.
--Porque?
--A minha filha o saberá. O mulato não é bom.
Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta.
Quando voltou já não encontrou o cabinda.
Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.
Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma imprudencia.
O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o mulato, é porque lá tinha os seus planos.
No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam, lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.
Só n'isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.
Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme peso, que a estava opprimindo!
Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz, os perfumes magicos das flôres mimosas do amor, que elle lhe protestava, os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada!
Pobre creança!
Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroços de louca alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar os seus planos.
A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo.
Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.
Não podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ella um abuso da parte de Luiz?
O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o dominava.
O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente para mostrar a Luiz que ella aproveitára a sua ausencia, para conceder a outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias?
No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e dos receios, das esperanças e das saudades.
Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario, permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima pagina no seu livro de recordações.
Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas resplandecentes do sol da ventura!
Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flôres, embriagada de perfumes e cega por excessos de luz divina!
Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!
Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de affectos, magico de harmonias.
Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado?
Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades da anciedade que lhe opprimia o peito debil!
O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a topographia do local.
O negro lá tinha a sua ideia.
Não era inutil, não devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.
E Luiz?
O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a agitar-lhe todo o ser.
É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa, mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave da aragem nocturna, os calices das flôres aromaticas, e os ramos, as folhas viçosas das arvores gigantes das florestas.
Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas, sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas engastadas na immensidão azul d'um céo tropical; as ondas inebriantes, embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis; os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão á alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.
É calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e verga ao pêso d'uma languidez, semilhante á somnolencia voluptuosa produzida pelo opio.
Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das montanhas, ás regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e ha em tudo, n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza.
Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos aveludados, e os sabiásdesfiem as perolasdos seus cantos amorosos!
Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se banhe na luz vaporósa do ideal da ventura!
É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo estão dormentes, quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho solitario, d'onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas estrophes d'amor.
É a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sêr que geme saudades?
Não sei.
O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e á chacara de Jorge de Macedo.
O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas ruas, que vão desembocar ao lago.
Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando centelhas de fogo dos seus grandes olhos.
--Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena.
--É cêdo ainda, senhora moça.
--Vou com tanto mêdo.
--O negro lá hade estar, minha filha.
--Corre logo, se fôr preciso, ouviste?
--De traz dos maracujás, o negro hade vêr tudo.
Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes de cipós, que o formavam.
--O negro fica aqui, senhora moça.
--Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te.
--Descance a senhora moça.
E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo.
Todavia, o que não faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se despedir?
Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas, caindo no lago pela boca do tritão de marmore.
O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade vaga e indecisa.
De subito a cabeça d'um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e saltou para dentro cauteloso.
Era Americo. O negro estava d'espreita e já o tinha sentido.
O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os passos, não o esperava mais animosa.
Chegou á entrada do caramanchão.
--Magdalena! murmurou elle baixo.
--Senhor Americo! respondeu ella timidamente.
--Esperou muito, não?
--Não; mas agora não posso demorar-me.
--Estamos sós.
--Estamos.
--Ainda bem.
E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ella retirando-as accudiu:
--Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me.
--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha senhora.
--Para que foi então? acudiu Magdalena de subito.
--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco por V. Ex.a!
--Senhor Americo!
--Oh! não se afflija V. Ex.aUsei d'este estratagema, porque sei que não conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.aSei que o seu coração se inclina para Luiz, mas V. Ex.aé que não sabe os sentimentos que o dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem, mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso, é dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e não dos que nascem entre os gelos que petreficam.
--Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou nada tenho que fazer aqui e retiro-me.
--Não; V. Ex.anão se retira assim. Já que consentiu em me receber a esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me.
--Não tenho que ouvir-lhe, senhor.
--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.a: porque ha de acceitar os galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que lhe offereço?
--E quem lhe dá o direito de m'interrogar?
--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos sós?
--Oh! mas isso é...
--Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex.anão sabe, não comprehende os desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex.aexcita-me em vez de esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!
E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante.
--Deixe-me, senhor!
E quiz fugir-lhe. Americo, porém, n'um momento d'exaltação deitou-lhe as mãos ás tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude desembaraçar-se d'elle, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe ornavam a cabeça.
--Oh o senhor é um infame!...
--Mas não ha de fugir-me assim!
E seguiu-a continuando:
--Ao menos hei de levar um beijo...
E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda.
Americo soltou um rugido.
Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:
--Que fazes, cabinda!
--Mato a serpente, senhora moça!
Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que, ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.
A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.
Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.
Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.
--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame mulato.
Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina brilhava aos raios da lua.
Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.
N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.
Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas victimas, rasgando dois seios.
E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena, imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve resultados funestos.
Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe, chegava Magdalena collocando-se entre elles.
Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva, o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.
--Que faz, senhora moça! gritou o negro.
--Estás doido, cabinda!
--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.
--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!
--Creança!
--Lacaio!
O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e ai do mulato se a lava podesse romper!
Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu atrevidamente a Magdalena:
--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.
--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para Americo.
--Não, que te enlameias!
--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que não ficaremos sem saldarmos as contas.
--Quando quizer. Vamos, cabinda.
E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga, delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em direcção a casa.
O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:
--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.
Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.
Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe, porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.
Estava cançado.
As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as offensas e as affrontas que havia recebido.
Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um momento em que quasi succumbiu.
Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz, Magdalena e o negro.
A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.
O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida, e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.
Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem d'astucias e d'ardis.
No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.
No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa, depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo, com ar de quem lhe impunha a sua vontade:
--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.
--Descance a minha filha.
--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?
--Nem o branco?
--Nem esse.
--Então o mulato hade ficar assim?
--Perdoo-lhe, Cabinda.
--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.
--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.
--E se elle voltar? o mulato é mau...
--Se voltar, fallaremos então.
--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda estende-o logo como o caçador á onça do mato.
--Já te disse que não fazes nada.
--A minha filha manda.
--E tu obedeces.
Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave, vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.
Magdalena apenas a viu perguntou logo:
--Onde vaes, Maria.
--Ia procurar a senhora moça.
--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago, acompanhada do cabinda.
--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.
--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.
--Fez bem, senhora moça.
--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava cantando um sabiá!
--Bonito, Maria!
E n'isto foram entrando em casa.
Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo, inesperada.
Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto tinha acabado de passar-se.
Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.
Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.
O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé, fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse, injuriasse ou affrontasse.
Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma esperança. Desanimar, não desanimava.
Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que, dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os obstaculos, que as barreiras se vão levantando.
Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez: --Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!
Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se. Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada vingança.
Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.
Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.
Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.
Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute; e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.
Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato, seu socio.
Teria elle respeitado Magdalena?
Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua dolorosa ausencia?
Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de que fôra encarregado.
Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.
Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a salvação, ou evitar-lhe um naufragio?
Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua indole, da sua perversidade.
Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria dos seus intentos.
No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena, e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o não estivesse remordendo intimamente.
O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.
A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto, com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam de recomeçar a luta com o seu antagonista.
Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.
Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e além d'isso era... portuguez!
Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter preparado.
Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.
Nem sequer olhou para o seu socio.
--Fez-se algum negocio? começou Luiz.
--Bastante, respondeu Americo seccamente.
--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?
--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.
Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis convulsões nas mãos.
--Mentes! bradou o moço.
--Mentirei...
--Mas como um vilão!...
--No entanto tenho as provas comigo.
--Mostra-as, se és capaz!
--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia, sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.
--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem esmaga um reptil venenoso!
--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.
--Fazes-me perder a razão, e depois...
--Conheces esta letra? lê...
E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a entrevista.
--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos seus cabellos... Que dizes agora?
Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento. Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados, amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.
Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:
--Tão infame é ella como tu!...
--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle podésse dirigir-lhe.
--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?
--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete falla bem alto.
--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...
--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!
--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não póde ser classificado senão de infame!
--Embora! com tanto que eu vença...
--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, Americo; as contas serão então comigo.
--Que pretendes, pois, fazer?
--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!
--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?
--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu, canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?
--Indaga.
--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia merecer-te todo o respeito.
--Em todo o caso restitue-me isso.
--O bilhete e a fita? nunca!
--São meus.
--Que importa,
--Importa muito. E, ou m'os dás ou...
--As ameaças depois, agora... a verdade!
E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia entrado.
O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter amargurado e bem o coração de Luiz.
Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.
O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou menos no seu perjurio.
N'este estado, seguiu para o Botafogo.
Eram onze horas quando chegou.
Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimoCamõesdo nosso immortal Garrett.
Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:
«Longe, por esse azul dos vastos mares, Na solidão melancólica das aguas, Ouvi gemer a lamentosa alcyone E com ella gemeu minha saudade...»
quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava.
Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.
Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das mãos e correu para elle, gritando commovida:
--Ah! ainda bem que veio!
Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as procuravam, e recuou dous passos dizendo:
--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!
--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.
--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V. Ex.a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...
--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz em lagrimas.
--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.aé uma mulher, como todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos olhos, quando, afinal V, Ex.asó preparava a victima para lhe despedir a punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.aera a mascara, debaixo da qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade, emfim!
--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas pupillas.
--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e sobretudo, digno de V. Ex.aque um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e aspirações, em quanto que V. Ex.a, zombando da sua fé, zombando do sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle, como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.a! O que não sei é como V. Ex.avivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como V. Ex.a, sendo tão nova, tem já tanta maldade!
--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque eu estou innocente!...
--Innocente!...
--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o meu peccado!...
--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, para me fazer um protesto d'amor!
--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou ella, inundada de lagrimas.
--É muito! é muito! diz V. Ex.a! O que não será, então, rojar um homem aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha muito o que me está ouvindo?
--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!
E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.
Eram as consequencias da sua imprudencia!
--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.ateve razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.aé a senhora D. Magdalena, a filha riquissima, a herdeira unica do ex.mocapitalista Jorge de Macedo!
Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais evidente da dôr aguda que estava sentindo: