PrologoUm direito o nosso tempo conquistou plenamente—o direito de heresia. Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje. Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e esperanças mal fundadas.O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião, da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quantaafirmação o nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade independente de restricção e de crítica—êsse logrou, porêm, prevalecer atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras olimpicas de Jupiter, ou a revoltacontra as fogueiras da Inquisição, ou a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade, muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior havia constituído e estabelecido firmemente em onosso espirito; foi um ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem, a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros, muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se arruinou, muito fetichismo se desfez.De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de angustia, os que as meditárem.Umas foram já impressas noDiário de Noticias, de Lisboa; outras, o maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se referem àArte de Gastaruma versão quási completa do magnífico opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o meu reconhecimento.Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um desmentido rápido e radical.Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros despotas aqueles mesmos que clamaram pelalibertação dos oprimidos e no seu clamor conduziram os exercitos às batalhas.Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites, involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo quea levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe era estranha.Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra.A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes desta largueza e complexidade.Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo noHibbert Journalsôbre «a tiraniadas cousas que são meramente cousas», mostrou como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões predatórias?»Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forteda guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam.Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato, robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da liberdade, a mais fatal das opressões.Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa écerta desde já nos resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça, nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia, uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos vendilhões, superiores ao seu domínio.A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum1.» Foiessencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do mundo.O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo «invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo, destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso bem-estar—eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir. Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da tempestade universal nos revelou subitamente umnovo aspecto do mundo... Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a mesma—no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da guerra presente2».Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género, valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro pensamento. «Parecia dominar como filosofiana hora presente. Tinha a seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram. A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso próprio mundo—primeiro os animais inferiores, depois os animais superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temosde compreender que somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós, ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente, emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis3».Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais. Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendênciasde liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento de reinar.Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem. A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a.Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da «futilidade»que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da razão aEneidaserá porventura um conto para crianças, e os herois que nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que entrevemos a rudeza da edade da pedra.Convulsões dum enfêrmoQuando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um «crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam os canhões, amontoavam munições e edificavamfortalezas por modo nunca visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos impenitentes, quetambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças, tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca, era de ora em diante a lei da vida.De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes, surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia crê-la.Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações, alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores, um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia. Eram êles que na mais atroz loucura gerada deimaginárias ambições lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam. Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante odesrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados. E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico, e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã Bretanha e de todo o mundo culto:—«Não é um conflito meramentematerial, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito, entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin contraBismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo metodo e por subtil engenho.Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas daquilo que êles imaginam ser o caráctergermânico, a absorpção de todo o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza, embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:—«As bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», «não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França—esmagaram-na, roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer; nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações apolineas; e disto fez uma religião.Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento fundamental é de uma simplicidade incomparável:—«A Alemanha tem nos destinosdo mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura, levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente desimpedir o caminho.Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos com matrícula em Hamburgo.Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aosalicerces, aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores, poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» e «nausea», que «todos os deuses aprenderama temer. Se alguem quizesse vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente arrastado.Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas, fazendo da disciplina, obediência,ordem e comodidades a razão última da nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho, fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do amor, trocadospelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade, caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma esteira infinitade garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em tormento.Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra cousa; e oque nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha, sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra assassinado.Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido instinto que o não engana,considera que, quando o preto tem culpa, ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse implorado.Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da mais submissa humildade e contrição.Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano, abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder maisalto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo, culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa servidão terrena que lhe repugna.Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da mentalidade característicada nossa era. Á liberdade do pensamento, emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas, a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a unidade de tendênciasmentais, constantemente contrariados, minados e traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem quecombatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados à idade da razão.O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas, sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr. Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto pensar. Se assim fôr, veremos a verdadedaquêle velho e belo proverbio espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas seriam ganhos.»Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa a que nos sujeitam.É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado patriotismo e mais modesto bom senso?Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.Ganhos e perdasOs factos da consciência não esperam os feitos das armas para reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações inflexiveis.Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da conflagração tremenda em que o mundo se agita.Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões, apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber, a virtude e a fôrça.Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como, por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente acanhada, reduzindo a vida a umarepartição de comodidades e a uma cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo, deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração, consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente, senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados sonhos.Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas suas afirmações, menos a palavra liberdade.Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o despotismo e aopressão militar, passa-o ao bando das traidores e herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no imperio da consciência moral isenta de toda a violência e constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas. Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas,vê de súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do socialismo.Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em risco bens e grandezas.Há vinte anos, António de Serpa,—um talento culto, homem de superior e nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a esquecer,—escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo».Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi nesseincidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência, determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o engrandeciam.Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para durar—Oliveira Martins.A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e querido socialismo doEstado, grande progresso fabricado nas universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade, perdoando-lhe os agravos.Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e até nem sempre isenta de injustiça.Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e emprega.O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida, ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando emesperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência que foram a obra sinistra dos seus inimigos.O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças, fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo, levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza. Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso, emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da Religião que arruinára, segundo elacria, os edifícios de outras eras tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não é dêste mundo.Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que dolorosamente nos dominavam e turbavam—dêsse romantismo que, em obras de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco mas jámais vil.Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas. Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidasda Europa a Revolução Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao inimigo.Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina, prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças—estes homens trabalharam durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento ejusta fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos, confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos diversos dosque as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta guerra a sustentam».O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina política do mundo—a doutrina do estado predatório como encontrou a sua expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e organização, como Roma nunca possuiu».«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção do direito a uma altura que é universal,«Fez o direito independente e superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito, foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação mais alta.Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos da raça humana, aprendeu a grande lição universal—isto é, que há uma só raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêssesdos estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele «intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da «caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e vagamente profética.Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário, amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na imprensa—e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de governo e a mais engenhosaarte de governar os homens e os trazer contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos das coisas, nunca ninguem soube tãocompletamente as suas qualidades, e nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro, impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela, lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao maior e mais angustioso dos sacrificios.Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. Foi isso que êle odiou, foi isso que oofendeu e fez lançar no combate, incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas multíplices traduções práticas.Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor, muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta civilizaçãoconfundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente e fraca, embora erguida em dourados baluartes.Facto singular e notável—há muito a Alemanha se queixava de pobreza de homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorouqualquer factor essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições, mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico, renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de lhes restituir, na educação das novas gerações.Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia, romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e só pela guerra alcançariam manter a energia.A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda da necessidade e benefícios das guerras.No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, agrande ilusão; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os primeiros fumos dos canhões atoldaram.Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os instintos que a alimentavam. O presente era a demonstraçãoclara da subsistência dessa doutrina de morte.Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi certo—facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.
Um direito o nosso tempo conquistou plenamente—o direito de heresia. Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje. Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e esperanças mal fundadas.
O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião, da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quantaafirmação o nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade independente de restricção e de crítica—êsse logrou, porêm, prevalecer atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras olimpicas de Jupiter, ou a revoltacontra as fogueiras da Inquisição, ou a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade, muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.
O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior havia constituído e estabelecido firmemente em onosso espirito; foi um ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem, a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros, muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se arruinou, muito fetichismo se desfez.
De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de angustia, os que as meditárem.
Umas foram já impressas noDiário de Noticias, de Lisboa; outras, o maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se referem àArte de Gastaruma versão quási completa do magnífico opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o meu reconhecimento.
Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um desmentido rápido e radical.
Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros despotas aqueles mesmos que clamaram pelalibertação dos oprimidos e no seu clamor conduziram os exercitos às batalhas.
Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites, involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo quea levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe era estranha.
Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra.
A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes desta largueza e complexidade.
Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo noHibbert Journalsôbre «a tiraniadas cousas que são meramente cousas», mostrou como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões predatórias?»
Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forteda guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam.
Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato, robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da liberdade, a mais fatal das opressões.
Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa écerta desde já nos resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça, nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia, uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos vendilhões, superiores ao seu domínio.
A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum1.» Foiessencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do mundo.
O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo «invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo, destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso bem-estar—eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir. Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da tempestade universal nos revelou subitamente umnovo aspecto do mundo... Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a mesma—no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da guerra presente2».
Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género, valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro pensamento. «Parecia dominar como filosofiana hora presente. Tinha a seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram. A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso próprio mundo—primeiro os animais inferiores, depois os animais superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temosde compreender que somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós, ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente, emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis3».
Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais. Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendênciasde liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento de reinar.
Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem. A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a.
Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da «futilidade»que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da razão aEneidaserá porventura um conto para crianças, e os herois que nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que entrevemos a rudeza da edade da pedra.
Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um «crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam os canhões, amontoavam munições e edificavamfortalezas por modo nunca visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.
Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos impenitentes, quetambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças, tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca, era de ora em diante a lei da vida.
De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes, surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia crê-la.
Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...
A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações, alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores, um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia. Eram êles que na mais atroz loucura gerada deimaginárias ambições lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.
Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam. Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante odesrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados. E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico, e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã Bretanha e de todo o mundo culto:—«Não é um conflito meramentematerial, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».
Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito, entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin contraBismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo metodo e por subtil engenho.
Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas daquilo que êles imaginam ser o caráctergermânico, a absorpção de todo o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza, embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».
Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:—«As bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», «não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França—esmagaram-na, roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».
O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer; nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações apolineas; e disto fez uma religião.
Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento fundamental é de uma simplicidade incomparável:—«A Alemanha tem nos destinosdo mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura, levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente desimpedir o caminho.
Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos com matrícula em Hamburgo.
Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aosalicerces, aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores, poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».
Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» e «nausea», que «todos os deuses aprenderama temer. Se alguem quizesse vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente arrastado.
Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas, fazendo da disciplina, obediência,ordem e comodidades a razão última da nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.
Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho, fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do amor, trocadospelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade, caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma esteira infinitade garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em tormento.
Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.
O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra cousa; e oque nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha, sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra assassinado.
Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido instinto que o não engana,considera que, quando o preto tem culpa, ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse implorado.
Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da mais submissa humildade e contrição.
Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano, abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder maisalto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo, culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa servidão terrena que lhe repugna.
Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da mentalidade característicada nossa era. Á liberdade do pensamento, emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas, a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a unidade de tendênciasmentais, constantemente contrariados, minados e traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.
Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem quecombatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados à idade da razão.
O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas, sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr. Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto pensar. Se assim fôr, veremos a verdadedaquêle velho e belo proverbio espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas seriam ganhos.»
Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa a que nos sujeitam.
É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado patriotismo e mais modesto bom senso?
Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.
Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.
Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações inflexiveis.
Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da conflagração tremenda em que o mundo se agita.
Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões, apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber, a virtude e a fôrça.
Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como, por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente acanhada, reduzindo a vida a umarepartição de comodidades e a uma cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo, deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração, consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente, senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados sonhos.
Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas suas afirmações, menos a palavra liberdade.
Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o despotismo e aopressão militar, passa-o ao bando das traidores e herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no imperio da consciência moral isenta de toda a violência e constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas. Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas,vê de súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do socialismo.
Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em risco bens e grandezas.
Há vinte anos, António de Serpa,—um talento culto, homem de superior e nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a esquecer,—escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo».
Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi nesseincidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência, determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o engrandeciam.
Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para durar—Oliveira Martins.
A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e querido socialismo doEstado, grande progresso fabricado nas universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade, perdoando-lhe os agravos.
Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e até nem sempre isenta de injustiça.
Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.
Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e emprega.
O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida, ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando emesperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência que foram a obra sinistra dos seus inimigos.
O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças, fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo, levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza. Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.
Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso, emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da Religião que arruinára, segundo elacria, os edifícios de outras eras tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não é dêste mundo.
Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que dolorosamente nos dominavam e turbavam—dêsse romantismo que, em obras de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco mas jámais vil.
Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas. Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.
Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidasda Europa a Revolução Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.
Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao inimigo.
Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina, prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças—estes homens trabalharam durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento ejusta fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».
«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.
E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos, confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos diversos dosque as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta guerra a sustentam».
O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina política do mundo—a doutrina do estado predatório como encontrou a sua expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e organização, como Roma nunca possuiu».
«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção do direito a uma altura que é universal,«Fez o direito independente e superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito, foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação mais alta.
Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos da raça humana, aprendeu a grande lição universal—isto é, que há uma só raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêssesdos estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele «intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da «caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e vagamente profética.
Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário, amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na imprensa—e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de governo e a mais engenhosaarte de governar os homens e os trazer contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.
De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos das coisas, nunca ninguem soube tãocompletamente as suas qualidades, e nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro, impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela, lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao maior e mais angustioso dos sacrificios.
Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. Foi isso que êle odiou, foi isso que oofendeu e fez lançar no combate, incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas multíplices traduções práticas.
Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor, muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta civilizaçãoconfundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente e fraca, embora erguida em dourados baluartes.
Facto singular e notável—há muito a Alemanha se queixava de pobreza de homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.
Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorouqualquer factor essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições, mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico, renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de lhes restituir, na educação das novas gerações.
Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia, romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e só pela guerra alcançariam manter a energia.
A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda da necessidade e benefícios das guerras.
No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, agrande ilusão; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os primeiros fumos dos canhões atoldaram.
Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os instintos que a alimentavam. O presente era a demonstraçãoclara da subsistência dessa doutrina de morte.
Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi certo—facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.