E a balla sibillando, E o trom da artilharia, E a tuba clamorosa, Que os peitos accendia; E as ameaças torvas, E os gritos de furor, E desses, que expiravam, Som cavo de estertor; E as pragas do vencido, Do vencedor o insulto, E a palidez do morto, Nu, sanguento, insepulto, Eram um cháos de dores, Em convulsão horrivel, Sonho de accesa febre, Scena tremenda e incrivel!E suspirei:--nos olhos Me borbulhava o pranto; E a dor, que trasbordava, Pediu-me infernal canto. Oh, sim!--maldisse o instante, Em que buscar viera, Por entre as tempestades, A terra em que nascêra. Que é, em fraternas lides, Um canto de victoria? É um prazer mesquinho; É triumphar sem gloria. Maldicto era o triumpho, Que rodeava o horror, Que me tingia tudo De sanguinosa côr! Então olhei saudoso Para o sonoro mar; Da nau do vagabundo Meigo me riu o arfar. De desespero um brado Soltou, impio, o poeta. Perdão!--chegára o misero Da desventura á meta.
Terra infame!--de servos aprisco, Mais chamar-me teu filho não sei: Desterrado, mendigo serei; De outra terra meus ossos serão! Mas a escravo, que pugna por ferros, Que herdará só maldicta memoria, Renegando da terra sem gloria, Nunca mais darei nome de irmão! Largo o mundo ahi 'stá ante o livre; Que este mundo é a patria do forte: Sobre os plainos gelados do norte, Luz do sol tambem mana do céu: Tambem lá se erguem montes, e o prado De boninas, em maio, se veste; Tambem lá se menêa um cypreste Sobre o corpo que á terra desceu! Que me importa o carvalho da encosta? Que me importa da fonte o ruido? Que me importa o saudoso gemido Da rollinha sedenta de amor?Que me importam outeiros cubertos Da verdura da vinha, no estio? Que me importa o remanso do rio, E, na calma, da selva o frescor? Que me importa o perfume dos campos, Quando passa de tarde a bafagem, Que se embebe, na sua passagem, Na fragrancia da flor do alecrim? Que me importa? Pergunta do inferno! É meu berço!--A minh'alma está lá! Que me importa?.... esta boca o dirá?! Maldicção, maldicção sobre mim! Combatamos!--O ferro se cruze, Assobie o pelouro nos ares; Estes campos convertam-se em mares, Onde o sangue se possa beber! Larga a valla!--que, apoz a peleja, Nós e elles seremos unidos! Lá, vingados, e do odio esquecidos, Paz faremos.... depois do morrer!
Assim, entre amarguras, Me delirava a mente!-- E o sol ía fugindo No termo do occidente. E os fortes lá jaziam Co'a face ao céu voltada; Sorria a noite aos mortos, Passando socegada. Porém, a noite delles Não era a que passava! Na eternidade a sua Corria, e não findava. Contrarios ainda ha pouco, Irmãos em fim lá eram! O seu thesouro de odio, Mordendo o pó, cederam. No limiar da morte, Assim tudo fenece! Inimisades callam, E até o amor esquece!Meus dias rodeados Foram de amor outr'ora; E nem um vão suspiro Terei, morrendo, agora: Nem o apertar da dextra Ao desprender da vida: Nem lagryma fraterna Sobre a feral jazida. Meu derradeiro alento Não colherão os meus? Por minha alma atterrada Quem pedirá a Deus? Ninguem!--Aos pés o servo Meus restos calcará; E o riso do despreso Vaidoso soltará. O sino luctuoso, Não lembrará meu fim: Preces, que o morto affagam, Não se erguerão por mim! O filho dos desertos, O lobo carniceiro Ha-de escutar alegre Meu grito derradeiro!Oh morte!--o somno teu Só é somno mais largo: Porém, na juventude, É o dormi-lo amargo. Quando na vida nasce Essa mimosa flor, Como a cecem suave, Delicioso amor: Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria: Quando o presente é tudo, É inda nada a memoria; Deixar a cara vida, Então, é doloroso; E o moribundo á terra Lança um olhar saudoso. A taça da existencia No fundo fezes tem; Mas os primeiros tragos Doces--bem doces--vem. E eu morrerei agora, Sem abraçar os meus, Sem jubiloso um hymno Alevantar aos céus?Morrer!--E isso que importa? Final suspiro, ouvi-lo Ha-de a patria. Na terra Eu dormirei tranquillo. Dormir?--Só dorme o frio Cadaver, que não sente; A alma vôa, e se abriga Aos pés do Omnipotente. Tambem eu para o throno Accorrerei do Eterno: Crimes não são meu dote; Erros não pune o inferno. E vós entes queridos, Entes que tanto amei, Dando-vos liberdade Contente acabarei. Por mim livres chorar Vós podereis um dia, E ás cinzas do soldado Erguer memoria pia.
Porto--Julho de 1832.
Pela encosta do Libano, rugindo, O nóto furioso Passou um dia, arremessando á terra O cedro mais frondoso; Assim te sacudiu da morte o sopro Do carro da victoria, Quando, ebrio de esperanças, tu sorrias, Filho caro da gloria. Se, depois de procella em mar de escolhos, A combatida nave Vê terra e o vento abranda, o porto aferra, Com jubilo suave. Tambem tu demandaste o céu sereno, Depois de uma ardua lida: Deus te chamou:--o premio recebeste Dos meritos da vida. Que é esta? Um ermo de espinhaes cortado, D'onde foge o prazer: Para o justo ella existe além da campa: Teme o ímpio o morrer. Plante-se a acacia, o symbolo do livre, Juncto ás cinzas do forte:Elle foi rei--e combateu tyrannos-- Chorae, chorae-lhe a morte! Regada pelas lagrymas de um povo, A planta crescerá; E á sombra della a fronte do guerreiro Placida pousará. Essa fronte das ballas respeitada, Agora a traga o pó: Do valente, do bom, do nosso Amigo Restam memorias só; Mas estas, entre nós, com a saudade Perennes viverão, Em quanto, á voz de patria e liberdade, Ancear um coração. Nas orgias de Roma, a prostituta, Folga, vil oppressor: Folga com os hypocritas do Tibre; Morreu teu vencedor. Involto em maldicções, em susto, em crimes Fugiste, desgraçado: Elle, subindo ao céu, ouviu só queixas, E um choro não comprado: Encostado na borda do sepulchro, O olhar atraz volveu, As suas obras contemplou passadas, E em paz adormeceu: Os teus dias tambem serão contados, Covarde foragido;Mas será de remorso tardo e inutil Teu ultimo gemido: Do passamento o calis lhe adoçaram Uma filha, uma esposa: Quem, tigre cru, te cercará o leito, N'essa hora pavorosa? Deus, tu és bom:--e o virtuoso em breve Chamas ao goso eterno, E o ímpio deixas saciar de crimes, Para o sumir no inferno? Alma gentil, que assim nos has deixado, Entregues á alta dôr, Anjo das préces nos serás, perante O throno do Senhor: E quando, cá na terra, o poderoso As Leis aos pés calcar, Juncto do teu sepulchro irá o oppresso Seus males deplorar; Assim, no Oriente, de Alboquerque ás cinzas O desvalido indiano Mais de uma vez foi demandar vingança De um despota inhumano. Mas quem ousára á patria tua e nossa Curvar nobre cerviz? Quem roubará ao lusitano povo Um povo ser feliz?Ninguem! Por tua gloria os teus soldados Juram livres viver. Ai do tyranno que primeiro ousasse Do voto escarnecer! N'esse abraço final, que nos legaste, Legaste o genio teu: Aqui--no coração--nós o guardámos; Teu genio não morreu. Jaz em paz: essa terra, que te esconde, O monstro abominado Só pisará ao baquear sobre ella Teu ultimo soldado. Eu tambem combati:--nas patrias lides Tambem colhi um louro: O prantear o Companheiro extincto Não me será desdouro. Para o Sol do Oriente outros se voltem, Calor e luz buscando: Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso, Cá ficarei chorando.
Porto--Novembro de 1834.