VII«Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto) Eduardo, estando a fazer umas contas, tirou me da algibeira e pôz-me em cima da secretária. Depois, a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de mim, de fórma que eu já parecia um pobre Encéladosinho de seda, debaixo de um Etna de papelada.«Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se, e, como estivesse tocando a sineta para o jantar, foi para a meza e não se lembrou mais da pobre bolsa.«Por infelicidade, na vespera, tinham os donos da casa recebido a visita de uma joven viuva, muito galante, muitocoquette, e que parecia desejar jungir ao seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem não se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares cheios de fogo e de estrategia. Eduardo, como podemimaginar, nem reparára em semelhante coisa; porém sua esposa, com a perspicacia de mulher, adivinhára tudo, e sentira o ciume, não digo bem, o despeito apoderar-se d'ella. Não sei a que proposito, Eduardo me fôra buscar, e a joven viuva mostrou desejo de me vêr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mãos da baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente encontraram os dedos da gentilcoquette. Um raio de indignação fusilou nos olhos de Camilla, a baroneza sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ uma proxima tempestade.«Por isso, e apesar da mão da baroneza ser tão delicada e macia como a da minha creadora, apesar dos elogios que ella me prodigalisou, eu não fiquei satisfeita senão quando me vi livre da sua analyse.«Mas d'esta vez foi a mão de Camilla quem me recebeu. Rapidos como o relampago, os dedos elegantes, que me tinham lançado aomundo, adivinharam, antes d'ella a executar, a tenção que a baroneza formára de me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder a mão solicita de Eduardo.«Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom humor de Camilla alterára-se sensivelmente, alteração cujas consequencias Eduardo soffria com grande pasmo seu. Não podia comprehender o azedume que sentia em todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando pelo buraco da fechadura da minha gaveta, o vi de pernas cruzadas, e em attitude meditativa, perguntando a si mesmo quaes seriam os díabos azues que atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.«Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar café para o sitio onde eu estava; a conversa que se traváraentre elles affrouxava a cada instante, porque os esforços que Eduardo fazia para a sustentar eram completamente infructiferos, por causa da sequidão das respostas de Camilla.«Acabaram de tomar o café, e Camilla foi encostar-se á janella.—«Está uma tarde tão bonita!—disse Eduardo, não queres aproveitar este lindo dia de inverno para ires vêr os campos, que estão experimentando já os mantos verdejantes com que hão de comparecer na festa annual da primavera?—Está estragando comigo a sua poesia, respondeu Camilla seccamente, guarde-a para as pessoas que quizer deslumbrar. Isso era bom quando me fazia a côrte.—«E não sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste tu um instante só de ser a noiva gentil que eu adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar? Não sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos? Isso, a que se deu, por convenção, o triste nome de prosa do casamento, teve nunca entrada nos nossos corações?—Ah! Ah! que differença! O que me dizia então: «Oh! nunca me hei de separar de ti! Hei de estar sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo inteiro junto do teu olhar?» E agora sae quando lhe parece, anda por fóra o tempo que quer, demora-se a conversar com os amigos; porque sua mulher, essa não serve senão para estar n'um canto da casa, á espera que osenhorlhe faça a esmola da sua presença. Não é porque eu me importe com isso! Eu, sim! É-me completamente indifferente! Nunca estou melhor do que quandoestá longe de mim! Olhe, d'isso póde estar certo! Se fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.—«Quanto és injusta, Camilla! Pois eu não desdenho tudo, tudo n'este mundo para estar junto de ti; não prefiro a todos os vãos divertimentos, a todos os prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os meus negocios me chamam fóra de casa, não me affasto de ti tão penalisado, e não aproveito a primeira occasião de me desembaraçar d'elles para correr alegre, satisfeito, risonho, a abraçar-te, a beijar-te, a testemunhar-te o immenso e inalteravel affecto que te consagro?—«Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes são elles? Talvez ir visitar a baroneza!«Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher, e disse:—«A baroneza! A baroneza, porquê?—«Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou Camilla, fazendo-se ligeiramente córada.—«Nada! Isso è um tanto inverosimil.—«Inverosimil, porquê?—tornou Camilla,irritando-see fazendo-se vermelha de despeito. Talvez imagine que eu tenho ciumes do senhor. Que vaidade tão louca! que presumpção! Que fatuidade! Ora esta! como logo suppôz que eu era ciumenta!—«Mas, filha...—«Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! é de um ridiculo incrivel! Não querem vêr o formoso Richelieu, que anda semeando paixões por toda a parte! E julga talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore á sua vontade! Faça o que quizer! Esteja certo que nunca me ha de dar cuidado! convença-se... entendeu?Convença-se bem de que nunca tive ciumes do senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma predilecção passageira! Foi um capricho de que me arrependo!—«Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no seu amor proprio, que a união eterna de duas pessoas não é coisa tão ligeira que se possa decidir levianamente, e, se não sentias por mim o amor immenso que eu te consagrava, mais valia que me despedaçasses o coração, do que me dirigisses agora essas palavras amargas.—«Então chegou o momento! Sempre fica sabendo que se enganou; quando suppôz que eu tinha ciumes da baroneza.—«Mas foi coisa em que não fallei, filha, bradou Eduardo um pouco impacientado.—«Bem o deu a entender! Não o disse, mas pensou-o. E então escolheu bem a pessoa que me poderia tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida, umacoquetteinsupportavel, que não tem nem belleza, nem espirito, nem graça, nem elegancia, mas que possue em compensação uma vaidade immensa.—«Pobre baroneza!—«Defenda-a, ande! então porque a não defende? É o que lhe falta unicamente! Ouse tomar, deante de sua esposa, o partido de uma mulher como é a baroneza.—«Ih! Jesus! Camilla! Eu não tomo a defeza de pessoa alguma. Mas tu fallas da pobre senhora, como se lhe tivesses um odio mortal.—«E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os dentes cerrados e os olhos fusilantes, tenho odio a essas mulheres de maneiras affectadas, de olhares languidos,de vistas fascinadoras, deslumbrantes na apparencia, grosseiras na realidade, a quem os homens seguem tolamente, como as borboletas seguem a luz, ainda que essa luz emane de uma candeia afumada. Quando ella hontem quiz vêr a bolsa que eu fizera, tive tentações de a rasgar, para lhe poupar uma profanação. E a proposito, onde a tens tu?«Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever servir de transição para uma conversação mais serena, começou-me a procurar alegremente por todas as algibeiras. O acaso fôra-me collocar muito mirrada na extremidade da secretária. No remexer dos papeis eu tinha quasi caido ao chão; felizmente ou infelizmente, um resalto da secretária tinha-me retido, e eu alli ficára suspensa por uma das borlas, estando esta de mais a mais completamente occulta por um fragmento microscopico de papel. Da posição em que eu estava, podia vêr e ouvir tudo, sem que ninguem me podésse divisar.«Quando Eduardo começou a revolver as algibeiras não pude deixar de me rir. Era tão comico o espanto d'elle, quando, depois de ter esquadrinhado minuciosamente todos os cantos do seu fato, não encontrava coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam as consequencias d'aquella scena, ria-me a fartar.«Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e batendo o compasso com o pé no sobrado da sala.—«Talvez lhe esquecesse lá por fóra!—disse ella, accentuando muito as palavras.—«É impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter n'esta algibeira. Já depois de estar em casa eu a vi, e até lhe peguei.—«Talvez a tivesse confiado a alguem!—tornou Camilla com o mesmo sorriso estereotypado nos labios.—«A quem?—perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.—«Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse d'ella, e que a desejasse conservar por algum tempo.—«Ora essa! Não pódes suppôr que eu fizesse tal!—«E porque não? Os homens julgam que tudo lhes é permittido.«Mas Eduardo não a ouvia. Tinha-se recordado das contas que fizera, e tinha corrido a revolver os papeis que estavam em cima da secretária. Eu, que via a má figura que o negocio ia tomando, não desgostei de que elle tomasse aquella resolução.«Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do chão toda a papelada com uma impaciencia febril, debalde tentou, depois de os ter reunidos, separal-os um a um. Eu não apparecia; preza na minha esquininha, sem poder revelar por fórma alguma onde estava, assisti, espectadora muda mas não indifferente, áquella caçada férvida, em que tanto interesse tinham em se encontrar a caça como o caçador, mas que apesar d'isso ficava sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mão de Eduardo, revolutearem nos ares em torno de mim, senti a sua mão impaciente pousar em cima das minhas borlas, sem saber que estava a meia pollegada de distancia da extremidade dos seus dedos o objecto que tanto procurava. E elle bafejava-me com o halito e não tinha um presentimento que o advertisse, desviava com a mão tremula os papeis que me encobriam, e de nenhum d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse:«Para conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora com dez annos da tua vida, basta-te abaixar a cabeça, e estender a mão.»«Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada de suor, deixou-se cair prostrado em cima de uma cadeira, e dirigindo-se a sua mulher, disse com voz sumida:—«Creio que a perdi.«Camilla não se pôde conter. As lagrimas, tanto tempo retidas, rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as faces.—«Era isso que eu esperava havia muito tempo, bradou ella com voz entrecortada. Eis a resposta com que não só pagam a minha dedicação, mas tambem com que pretendem illudir a minha boa fé. Anda! trabalha com amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha thesouros de affecto, sorri só ao pensares que essa obra das tuas mãos vae ser a constante companheira d'aquelle em que tu só pensas, por quem tu só vives, cuja apparição te enche de prazer, cuja ausencia te faz ficar immensamente triste. Ai! quanto te illudes, pobre louca, esse teu mimo ha de ser desprezado, porque tu tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor conjugal é uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem o teu presente, e vão depressa offerecel-o á primeira namoradeira que prender, nas suas rêdes vulgares, a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja prisão lhe é insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem se exime a ella.—«Ih! Jesus! Ih! Jesus!—dizia o pobre Eduardo com as mãos na cabeça; mas, filha... eu sou um estouvado... a bolsa ha de estar por ahi... Da nefandatraição de que me accusas é que sou completamente incapaz.—«Traição!—tornava Camilla procurando, sem o conseguir, conter o pranto; póde-me trahir á sua vontade que me é completamente indifferente. Engana-se se julga que eu dê o menor apreço á sua fidelidade.—«Mas n'esse caso porquê?—«Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim? Riram-se das minhas creancices? Quantas caricias lhe valeu esse sacrificio tão pouco custoso?—«Isto é demais! Juro-te...—«Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem me jurou amor eterno, e...«E a pobre senhora desatou a soluçar, e caiu sentada n'uma cadeira. Eduardo, com as lagrimas nos olhos, ajoelhou aos pés d'ella, e exclamou com voz commovida:—«Camilla, não chores que me despedaças o coração. Sou um grande criminoso, mas não mereço castigo tão cruel. Bem sabes que o amor que te consagro é immenso, é exclusivo, e que, desde que te conheço, nunca mais ergui os olhos para outra mulher. Camilla...«Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe com modo friamentedesdenhoso:—«Aproveite a inspiração para algum arrufo que tiver com a baroneza.«E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com um joelho no chão, as mãos erguidas, a bocca aberta, espantado, aterrado, paralysado, petrificado, estupefacto!«Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo á secretária,e procurou entre os papeis. Com o revolver caíram alguns, e eu caí d'envolta com elles; o acaso fez-me ainda ficar tão mirrada entre duas folhas, que, quando Eduardo veiu procurar ao chão, escapei com grande desespero meu ás suas pesquizas. Um tal accesso de desespero se apoderou do meu dono, que, pegando n'um grande mólho de papeis, no meio dos quaes ia eu, sem elle o saber, amachucou-o, e depois enraivecido, atirou-o pela janella fóra. O vento desfez o mólho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de Eduardo, outro de Camilla, que estava n'uma outra janella por traz dos vidros.«O vento forte que soprava, tinha-me separado dos papeis, meus involuntarios carcereiros, eu caía magestosamente isolada, á vista dos dois conjuges, sobre as pedras da rua.VIII«Nunca vim a saber o que se passára na casa, d'onde fôra tão bruscamente e tão involuntariamente expulsa! Apenas eu caíra no chão, um gaiato de pé descalço, que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou a correr, apertando-me nas mãos, com uma tal velocidade, que, por mais ligeiro que fosse Eduardo em me vir apanhar, logo percebi que não havia esperança alguma de que o conseguisse.«A corrida era desenfreada. Apertada na mão callosa do garoto, eu, habituada ao fino contacto das mãos aristocraticas, que até ahi me tinham manuseado, sentia dôres atrozes, e uma profunda humilhação. Eu, a favorita dos opulentos, tratada assim tão irreverenciosamentepor um rapaz pertencente á escoria da sociedade! Ao meu passado de gavetas de secretárias, de sophás, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro de palheiro, de calças esfarrapadas, de degraus humidos de escadarias. As feridas abertas na minha pelle, tão cuidadosamente curadas e cicatrisadas pela minha senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez alargadas pelos dedos travêssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu pensando, em quanto o meu roubador corria a bom correr, primeiramente pelas ruas da cidade, e depois já pelo campo.«Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz descalço á desfilada, não é um caso tão grave, e tão raro, que os encarregados da policia descessem da sua dignidade, para inquirirem o que motivára a carreira despedida em que elle ia.«Chegou ao pé de uma fonte, e, pensando provavelmente que já estava fóra do alcance dos seus perseguidores, entendeu que podia descançar. Por conseguinte estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira um lenço muito esfarrapado, começou a limpar o suor que lhe escorria pelas faces.«Estavamos já nos primeiros dias da primavera, e os campos revestiam-se de um manto verdejante, que os malmequeres e as boninas esmaltavam. A agua da fonte corria com um doce murmurio, e myriades de insectos com as azinhas doiradas pelo sol, esvoaçavam zumbindo pelo prado. O sôpro, mysteriosamente vivificador da primavera, percorria a creação.«O meu novo possuidor deitara-se, como já disse, em cima da relva, e collocára-me ao seu lado. Para mim tudo quanto me rodeava era completamente novo. Eununca tinha saído da cidade, e o aspecto dos campos enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro ambiente, que via um céo mais largo, mais azul! Um enchame de novas sensações se agitava dentro de mim.«Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo com uma alegre curiosidade. As feveras da herva que se agitavam em torno, mettiam as suas cabecinhas tambem curiosas pelos intersticios da seda, afim de observarem que monstro desconhecido eu era. As boninascoquettescomo todas as flôres, mostravam-me com desvanecimento a sua formosura, para verem se d'ellas me enamorava. Era a tentação que todas as formosas sentem, de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios: «Ninguem é propheta na sua terra» «Santos de casa não fazem milagres», são, n'este caso, da mais escrupulosa exactidão. As abelhas, que vem de fóra, extrahem mais depressa a essencia das flôres, do que as que pertencem á colmeia do jardim.«Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado. O vento, acamando a relva e as florinhas, perguntava-lhes, no seu dialecto incomprehensivel, que vós não entendeis, mas que para todas nós é clarissimo, quem era a recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que arfavam debaixo de mim, respondiam que era o Hymalaia, e os insectos zumbidores respondiam que era uma grande flôr verde com estames de oiro.«O que é certo é que eu consubstanciava-me de todo com a relva que me cercava. Egualmente verde, não transtornava em nada a unidade do tapete, e as minhas borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.«Assim estava n'aquelledolce farniente, e confessoque, apesar de me lembrar de vez emquandodos donos que me eram tão affeiçoados, e de quem me tinha separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo prazer completamente novo que me embriagava.«Mas aquelle ocio não podia durar sempre. O Tytiro, que me apanhára, não estava muito disposto a repousarsub tegmine fagi, mais do que convinha á sua indole vagabunda, e depois de ter saboreado, por espaço de dez minutos, quando muito, as delicias da posição horisontal succedendo á rapidez da corrida, levantou-se, dirigiu-se á fonte, encheu de agua a palma da mão, disposta para esse fim, levou-a á bocca, bebeu, repetiu duas ou tres vezes esta operação, e depois, dirigindo-se a mim, levantou me do chão, e foi-me levando socegadamente pelos campos fóra.«É tempo agora de descrever o meu novo dono. Era um rapazito dos seus quatorze annos, de rosto alegre e queimado, com uns olhos negros muito vivos e rasgados, uma bocca grande, que parecia estar sempre preparada para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia n'umas calças rotas, n'uma camisa muito suja, e n'uma jaqueta tão arremendada, que era um verdadeiro mosaico, porque creio que tinha todas as côres do espectro solar, e todas as combinações que com ellas se podem fazer. Um bonet, que estava rodeado por uma densa armadura de sebo, occupava o alto da cabeça; porque julgo não haver exemplo de ter sido collocado na posição habitual, e a testa do garoto, se lhe dissessem que este possuia um bonet, estou que ficaria summamente espantada.«E lá ia elle por ahi fóra, baloiçando o corpo a compasso de uma cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-seno caminho a apanhar borboletas, a atirar pedras aos cães, fugindo depois a bom fugir quando estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores da estrada a espreitar se já haveria ninhos entre os seus ramos, cobertos de novas folhas, e saltando os muros dos pomares, para se ir empoleirar nas larangeiras, trincando as laranjas verdes ou maduras, que se lhe deparavam.«Devo confessar que a minha situação durante estas excursões, motivadas pelos entretenimentos do meu dono, não eram das mais invejaveis, e que bastantes vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar dos campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos seus prazeres do que ás minhas commodidades, e nem posso descrever os sustos que curtí, quando os cães corriam atraz de nós, e que eu via os seus dentes agudos, que seriam capazes de me despedaçar n'um segundo; a triste impressão que eu sentia, vendo as borboletas tão gentis, tão galantinhas, nas garras do seu caçador cruel; as dôres que me faziam os esgalhos das arvores, rasgando me sem piedade, em quanto elle subiadescuidoso, indifferente, affastando a ramaría, para vêr se, n'alguma verdejante alcôva, não teria ido a carinhosa mãe dos passarinhos depôr o berço gentil, que as auras embalariam.«Sobre tudo o que me atormentava era o costume que elle tinha de saltar os muros dos pomares para se ir sentar nas larangeiras, a fartar-se d'esses pomos que a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e que o seu Camões asseverou teremA côr que tinha Daphne nos cabellos;o que é pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha, que vinha a ser hyper-ruiva, se acreditarmos as asserções do cantor dosLusiadas.N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa tão prodiga em reflexões.—O espanto, em que me colloca a sua erudição, impede-me de reprehender energicamente o tom com que falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me, quem a fez tão instruida?—Não antecipemos os acontecimentos, como diria o visconde d'Arlincourt, respondeu-me a bolsa.—O quê? Pois tambem leu ou ouviu os romances do visconde d'Arlincourt?—Então! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando, nem tudo são rosas na instrucção.—Bem, continue.«Como já disse, esse costume do meu dono incommodava-me sobremaneira; porque a escalada tinha para mim todos os seus inconvenientes, e muitos mais, sem ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a subida pelo muro era summamente incommoda; porque o bom do meu amigo, tendo todas as algibeiras rotas, e, por conseguinte, não me podendo confiar a nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas calças e a sua jaqueta estavam tão amplamente providas, levava-me na mão, apertava-me sem cerimonia de encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo tempo uma pobre meia corôa que eu tinha dentro de mim, e que eu sentia, de afflicta, resmungar no meu seio.«Depois, quando, á força de trabalhos e de arranhões, chegavamos ao cimo do muro, novos desastres nos esperavam.Garrafas partidas formavam uma especie de negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar os seus dentes agudissimos nos aventureiros que intentassem a conquista. Mas o meu dono, que era, segundo parece, já pratico n'aquelles assedios, tinha tomado as suas precauções, e foi então que eu vi que não era só a questão das algibeiras que o inhibia de me resguardar, mas sim tambem uma questão de defeza propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu era, para assim dizer, océsto, á sombra do qual o garoto jogava o murro com as paredes. N'uma das mãos ia eu, na outra o lenço de assoar muito embrulhado. A mão que eu protegia, era ainda assim a que estava resguardada melhor; porque o tal lenço, para fallarmos verdade, parecia a moldura de um quadro ausente; um immenso rasgão formado por uma multidão de rasgõesinhos que se tinham annexado, occupava o centro-rodeado em toda a extensão por uma pobre tira. Creio que a historia d'essa transformação se póde explicar geographicamente. Imagine que o lenço ao principio se assimilhava com aquelle territorio da America do Norte, onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros. Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos que separam esses lagos, e que as aguas trasbordando, e unindo-se, formavam um verdadeiro mar no genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com os rasgões do lenço do garoto.—V. ex.apermitte-me, interrompi eu, que a proponha para socia do Instituto Geographico de Paris?—Muito obrigada! Não estou agora decente para entrar n'uma academia.—Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsasvasias devem ser da mesma fôrma que as cabeças, as que mais depressa sejam admittidas n'essas sociedades sábias. Póde continuar.«Não findavam aqui os meus soffrimentos. Experimentava alguns rasgões, mas consolava-me com o pensamento de que o meu sacrificio era util ás mãos do meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel sympathia. É verdade que o demonico do rapaz parecia não se affligir muito com as arranhadellas que recebia. A mão esquerda, confiada á protecção nominal do lenço de assoar, chegava toda em sangue, e isso, em vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a e dar melhor sabor ás laranjas com que se fartava.«Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se no ponto de união de dois ramos, toucado de folhas, baloiçando os pés no ar, e enviando as mãos em toda a direcção, a fazerem uma atrevidarazziaaos taes pomos de oiro do antigo jardim das Hesperides. E quer as laranjas estivessem ainda verdes, e por conseguinte amarellas (n'esse caso tem rasão Camões e a antiguidade), quer estivessem já em pleno sazonar, e por conseguinte trajassem a purpura que merecem, como rainhas que são de todas as fructas, o meu bom gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade digna de especial menção, e, ministro justiceiro dos negocios do seu estomago, escolhia para funccionarios todos os fructos, sem distincção de côres.«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto, esfarrapado, mais feliz no seu throno de cortiça do que os reis no seu throno de oiro, comendo as laranjas do proximo com mais satisfação, de certo, do que a quesente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos de que é victima a infeliz Polonia.«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria as más consequencias dos prazeres do meu senhor. Para poder comer á sua vontade, o meu amigo largava-me e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava á mão. O vento baloiçava o ramo; ás vezes um gatinho, que andava passeiando por cima dos muros, vendo-me ondular na extremidade, saltava e principiava a brincar comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma altura para mim desmesurada. Era necessario que os latidos de um cão de guarda viessem inquietar o meu dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha incommoda posição, afim de operar a sua retirada.Já vê, por conseguinte, que a minha existencia aventurosa, se tinha as suas vantagens, tinha tambem os seus inconvenientes.IX«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu não estava vasia, mas ainda se não dera ao trabalho de verificar a quanto montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de laranjas, cançado de trepar ás arvores, entendeu que era já tempo de attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro triumphalmente a moeda de cinco tostões.—«Olá! umcaiado!—bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor o seu regosijo entoou a aria daSaloia, e atirou comigo ao ar a uma distancia immensa,com grande desespero meu, porque vim assustadissima, aos trambolhões pelo espaço, cair na mão aberta do garoto.«Este não ficou em contemplação diante do seu thesouro; metteu o outra vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho, cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para me receber, attitudes de tambor-mór.«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas começavam a apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar aSaloiaa plenos pulmões, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um desafinadissimo côro de imprecações.—«Valdevinos!—Bregeiro!—Gaiato sem emenda!—D'onde vens tu, maroto?—Ah! boa sova!—Fosse eu tua mãe que te havia de moer o corpo com pancadas!—Só se perdiam as que caissem no chão!—D'onde vens tu, desavergonhado, vens de roubar laranjas?—Tu vaes direitinho para o inferno!—Berzabumte valha, démo pequeno!—O descarado vem a cantar para quebrar a cabeça ás almas christãs!—Quem te puzesse uma farda ás costas!«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle só respondia, grave e serenamente, com esta invariavel apostrophe:—«Eh! bruxas!«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito gordo, com umas barbas de phariseu, uns olhos esgazeados e orlados de vermelho, uma d'estas physionomiasbaixamente orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo o servilismo para com os poderosos, o desabrimento para com os humildes. Desbarretava-se até ao chão quando passava alguma carruagem, onde ia pessoa conhecida d'elle, e correspondia ligeiramente á saudação dos pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo, com aquelle ar gravemente cortez dos homens do campo, para lhe dizerem:—«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de lhe fazer alguma, foi acto simultaneo. Com um sorriso malicioso nos labios enrolou-me na mão muito bem enrolada, de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde estavam os cinco tostões, e approximando-se, pé ante pé, do empavezado passeiante, ergueu a mão, vibrou-me com toda a força, e fez-me desabar, indo a meia corôa de esquina, na copa do chapéo do gorducho.«Agebadafoi magistral; o chapéo enterrou-se até aos olhos; e em quanto o dono d'elle, espumante de raiva, procurava desembaraçar a cara d'aquelle inesperado invólucro, o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e, já lá muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da sua victima, que ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o, esquartejal-o.«O homem ficára desesperado. Pois não tinha rasão; o seu chapéo, como sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.X«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, houve por bem rir-se ás gargalhadas do que praticára.Com effeito merecia a pena. Eu, apesar de ter padecido, não desgostei da correcção.«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor dagebadaque não poderia ser completa a sua satisfação se não visse a cara do paciente depois do castigo. Reflectiu como poderia conseguir vêl-o sem ser visto, e como afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a procurar inspiração, deu com a vista n'uma arvore que se erguia mesmo ao seu lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi uma e a mesma coisa. O mirante era optimo, bem arejado, completamente resguardado da curiosidade dos profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio um delicioso panorama para se entreter emquanto não passasse aquelle a quem esperava. Attendendo, pois, ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa da dita arvore, estabelecemo nos n'ella sem cerimonia, eu n'uma caminha de folhas, elle encostado a uma especie de janella verdejante, d'onde via optimamente tudo quanto se passava na rua.«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia curiosa e maliciosa á espreita por entre os ramos, parecia um macaquinho agil, que espera occasião propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro, macilento, mostrando no rosto a timidez envergonhada d'aquelles que um soffrer verdadeiro obriga a pedir esmola, estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas silenciosas lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da desventura estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos brancos, que o vento agitava, cingiam aquelle infortunio de uma aureola de magestade. Era augusta aquella miseria!«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair uma pobre moeda de cobre n'aquelle chapéo supplicante, que se lhes estendia. Uns seguiam desdenhosos o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto á muda rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais humanos, faziam distrahidamente um gesto negativo, levando ao mesmo tempo a mão ao chapéo. Outros, mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha paciencia» ou «Não levo troco», e todos diziam, lá de si para si, a phrase conhecida: «Este maroto provavelmente tem mais dinheiro do que eu. Desavergonhado! Abusarem assim da caridade publica! Os que mendigam não são os que precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha a verdadeira pobreza.»«Ah! miseraveis! que fingís pensar que é um officio divertido o expôr-se um velho, alquebrado de forças, ao sol, ao vento, á chuva, ás humilhações, ao desprezo, para fazer uma pobre colheita de dez ou doze moedas de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a inundar os membros mal resguardados do pobre pae de familias! E o sol a abrazal-o! E a imagem dos seus filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe na imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras!«Porque vós não sabeis, ou antes fingís não saber, vós que julgaes que esse homem vem pedir esmola para se ir embebedar na taverna proxima, não sabeis que ha n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia de espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle a quem despedis com as mãos vasias! Não sabeis, vós que accusaes de falta de resignação, de falta de animo, o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, não sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valorpara se embrulhar na pobre capinha, sair furtivamente do misero alojamento, e ir collocar-se, espectro da miseria, ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso para se despenhar da janella da sua agua-furtada e despedaçar a cabeça nas lages da rua!«Continuemos.«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava sequer ao pobre velho a esmola de um olhar de compaixão. O meu gaiato mirava-o de vez em quando.«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho estendeu-lhe o chapéo, murmurando mansinho:—«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos morrem de fome.«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente imaginará, de muito mau humor. Trazia agebada, para assim dizer, atravessada na garganta. As sobrancelhas franzidas, o olhar fusilante, a cara fula de raiva, denunciavam o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco amolgado, tambem mostrava resentir uma nobre indignação.«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma valvula de segurança, por onde póde sair uma porção de colera, que, mais tempo contida, o faria rebentar. Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a humanidade.«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava bruscamente o chapéo do pobre velho:—«Sucia de mandriões! Estão estes marotos á esquina de todas as ruas, para nos roubarem o dinheiro que nos custa a ganhar com o suor do nosso rosto! Vossê não tem vergonha de pedir esmola? Vá trabalhar, ou metta-se no hospital se está doente, ou vá parao asylo! Está o governo a pagar um bom par de contos de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e pessoas ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo é quem cae em tal, não ha de ser nunca o meu dinheiro que elles hão de apanhar; mas está alli aquelle estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife que não tem eira nem beira, para que? Para andarem estes velhacos a incommodar-nos. Fosse eu da camara municipal! Rêde para os cães, rêde para os mendigos. Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco réis! Canalha!«E o digno homem continuou magestosamente o seu caminho.«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do velho! Fez um gesto de resignação, e deixou pender a cabeça sobre o peito.«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto negro. A noite com o seu duplo cortejo de alegrias, de festas, de prazeres, de suspiros enamorados, e de tristezas, de crimes, de horrores, de soluços da miseria! A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que se deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia das aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda a parte pelo fulgor das estrellas, que é o olhar de Deus.«E o velho scismava tristemente. Não tivera resultado o sacrificio! Nem um pedaço de pão podia levar aos filhos esfaimados! Tristeza! A brisa soprava asperamente, e elle não a sentia! As lanternas das carruagens que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, mas as estrellas, essas miravam-no tristemente.«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, ondevivia, representava-se-lhe na imaginação! Via a filha doente, ella que á força de trabalho sustentava os irmãos, os pobres innocentes, que pediam de comer! E elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para lhes dizer: «Morrei, não tenho que vos dar!»«Então pareceu-me vêr na fronte do garoto surgir uma estranha aurora! Immovel na arvore, contemplava o pobre velho, e a sua physionomia maliciosa tornava-se pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões, comprar bolos, ir ao theatro, alugar um burro, mil extravancias que elle acariciava com o amor de creança! N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões por um imperio!«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu a mão para mim, tirou-me do ramo, e deixou-me cair no chapéo do mendigo.«E depois de ter gozado por um instante da estupefacção do pobre homem, deixou-se escorregar da arvore, e escapou-se sorrateiramente.«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia vêr alvejarem vagamente, na escuridão nocturna, as azas luminosas do anjo da caridade.XI«Quando me achei no chapéo, e depois na mão do pobre velho, a primeira sensação foi a da alegria, a do desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára da boa acção do rapaz, e que me competia uma parte dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que e «Quando me achei no chapéo, e depois na mão do pobre velho, a primeira sensação foi a da alegria, a do desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára da boa acção do rapaz, e que me competia uma parte dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que estavalonge de esperar, é que seria eu quem os receberia a todos.«Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito tempo em torno de si, depois de mirar bem a arvore, cujos ramos se estendiam sobre a sua cabeça, concluiu por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia o beneficio que recebêra; e, depois de ter reflectido bastante tempo, convenceu-se devéras de que a bolsa lhe caira do céo, e tão arreigada conservou esta convicção, que ninguem seria capaz de lh'a arrancar. Veneravel candidez de crenças! Não se importou como pensamentode que não valia a pena fazer um milagro para dar cinco tostões, e que, ainda que o céo estivesse inclinado a economias, não era natural que a Providencia tomasse a precaução de collocar a sua esmola dentro de uma bolsa de seda verde.«A tudo isso responderia elle que a menos que a bolsa não se formasse no ar, e caisse por si mesma, ou que existissem actualmente arvores com esse fructo, esse dinheiro não podia vir senão do céo. E vinha com effeito.«Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso desalento á immensa alegria, ajoelhou, beijou-me fervorosamente, depois levantou-se, e correu com uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias á sua pobre familia.«Foi então que eu me pude convencer de que não eram a mim que se dirigiam, no tempo da minha prosperidade, os comprimentos que tanto me enchiam de orgulho, mas sim e unicamente á opulencia que eu representava. Foi essa uma desillusão fatal, e que me causou uma tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastaráesse dia para eu conhecer o egoismo dos homens. Desde o instante em que eu saíra da casa em que nascêra, no curto espaço de duas ou tres horas, que de agargas lições, que de tristes ensinamentos!«Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor, ninguem olhava para mim, assim como ninguem olhava para elle. N'uma loja de capellista onde o velhinho foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de sua filha, a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente o demonio da miseria, estavam umas senhoras arrastando sedas, e resplendendo em joias. Estavam comprando não sei o quê, mas fosse qual fosse a compra, ellas demoravam-se immenso, porque desejavam escolher á vontade, e obrigavam a dona da loja, que satisfazia as suas exigencias com toda a complacencia, a revolver todas as caixas, a mexer em todas as gavetas, a abrir todos os armarios.«O bom do meu velhinho, impaciente como estava, para levar de comer á sua pobre familia, depois de esperar um pedaço, não pôde deixar de dizer,collocando-metimidamente em cima do balcão:—«Se a sr.aIgnacia me podesse aviar n'um instantinho...«A capellista, interiormente enfurecida pelas maçadas que lhe estavam dando as suas opulentas freguezas, voltou-se, e empurrando-me bruscamente, tão bruscamente que caí no meio do chão, bradou com uma voz desesperada:—«Espere, não tenha pressa, guarde o seu dinheiro. Não vê que estou a servir estas senhoras?«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem murmur «O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem murmurar sequer. O que havia elle de fazer? A capellistafiava lhe os utensilios necessarios a sua filha, em occasiões de apuro, e até ás vezes, porque no fundo a tia Ignacia tinha um bom coração, lhe emprestava os seus vintens.«Eu é que não admitti circumstancia attenuante possivel para o ultrage que recebêra. N'essa manhã mesma eu fôra tratada tão amavelmente n'uma loja de capellista com estanco, onde Eduardo entrára a comprar charutos, que não percebia qual fosse o motivo da subita differença.«Já vê que as lições ainda não tinham aproveitado.«N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras da minha nova posição. Felizmente, a scena que se lhe seguiu veiu adoçal-as um pouco.XII«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus de uma escada tortuosa e escura, que conduzia á agua-furtada onde habitava. Quando chegou ao ultimo patamar parou para respirar. O coração batia-lhe com alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente, como um homem que leva sobre os seus hombros o peso enorme do infortunio; pensára tanto no soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse com o desespero na alma ao mesmo sitio onde parára ebrio de alegria; pensára tanto no triste espectaculo que se lhe havia de deparar, no desgosto profundo que havia de sentir; pensára tanto em tudo isso, que chegára quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidadeencontra-o armado para a desgraça e desprevenido para a ventura.«Finalmente entrou.«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu divisei! Das trevas, que envolviam a casa, saiam gemidos abafados, soluços horrendos, murmurio dilacerante, reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados do inferno accumulados na tenebrosagéhenneque Dante visitou. O meu dono, depois de abrir a porta, ficou um instante parado, e involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe as faces, parando nos labios, que sorriam com um sorriso de consolação.«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude então vêr no fundo do quarto, e deitadas em cima de uma pobre enxerga, duas creanças de nove para dez annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi nús, tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, e choravam de fome! Mais ao fundo, n'um pobre catre, que era ainda assim o unico traste da casa, jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos annos, a quem o soffrimento arrancava gemidos. Uma pobre coberta esfarrapada mal a resguardava. E comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre violentissima; o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava phrases incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a escuridão atroz a suffocal-a! E lá ao fundo, na sombra, a fulgirem sinistramente as garras do demonio livido da fome!«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. No primeiro andar havia baile. A dois passos do risonho turbilhão das walsas o horrido vendaval do infortunio!«Ó destino!«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois pôz na chaminé a lenha que trouxera, e accendeu o lume. Espalhou-se no quarto um doce calor.«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de couves, migou-as, tirou um pão, fel-o em sopas, deitou tudo dentro de um pobre tachinho de barro, e pôl-o ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de cãs, inclinou-se meigamente para as loiras cabecinhas que o rodeavam.«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em pé, abraçando-lhe os joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, a voz embargou-se-lhe na garganta, e só pôde dizer:—«Meus filhos!—«Pão!—foi a resposta das creanças.—«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. Haveis de ceiar, haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, e haveis de dormir depois o somno de innocentes, que a fome repelle ha tanto tempo de cima das vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar de vossa irmã, da minha querida filha, que tanto soffre por nossa causa.«E o velho approximou-se da pobre doente, que olhava para elle com uns olhos desvairados, coou-lhe por entre os dentes um calmante, que comprára n'uma botica, porque o pobre do homem gastára até aos ultimos cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira necessidade tinham ficado ainda por comprar!«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu a prostração, e a costureira adormeceu com um somno pacifico e reparador.«Então o resto da familia agrupou-se em torno da enxerga, meza improvisada, para onde foi trazido em triumpho o tacho das couves. Os pequenos lançaram-se sofregamente á comida, e em poucos minutos desappareceram as couves e as sopas, sem omissão de um talo, sem esquecer uma migalha.«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido na contemplação de seus filhos satisfeitos, nem pensára na sua propria fome. De vez em quando levantava ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava palavras incomprehensiveis. É essa a oração que a Deus mais agrada; porque é a effusão sincera, e livre de preceitos, de um coração que trasborda de reconhecimento.«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou as creanças para junto de si, e fazendo-as ajoelhar, e unindo-lhes as tenras mãosinhas, disse-lhes com voz grave:—«Meus filhos, agora que por uma esmola divina saciaram a fome, é justo que se não esqueçam d'Aquelle que se amerceou de vós. Vinde, e repeti comigo:—«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa omnipotencia, vos não esqueceis dos vossos filhinhos, que déstes pão a quem tinha fome, e consolações a quem estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita bondade, nos salvastes da morte, e a nosso pae do desespero! Vós que sois todo misericordia, tende compaixão de nossa pobre irmã! E vós, nossa mãe querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambema Deus que dê saúde a quem é o nosso amparo! Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso, e promettemos sempre ser dignos da vossa affeição, e conservarmo-nos no caminho da virtude, para que a alma da nossa mãesinha se não afflija de nos vêr peccadores.»«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina aquellas singelas palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, que estendia as mãos tremulas sobre essas cabeças innocentes, e erguia para o céo os olhos humedecidos.«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as deitar. Elle apagou a luz e o lume; sentou-se á borda da enxerga, e, encostando a cabeça nas mãos, meditou.«Porém o dia fôra agitadissimo; a natureza foi mais forte do que elle, e d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando a pouco e pouco as palpebras, adormeceu.«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror fugira. Á porta, um anjo do Senhor, com um dedo nos labios, velava meigamente sobre o somno da innocencia.XIII«Cinco tostões não duram eternamente, e a prova d'isso é que já tinham desapparecido. A miseria, que fugira um instante espavorida, voltava de novo a bater á porta. Que remedio senão abrir-lh'a!«Não era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras vezes obtinha o dinheiro sufficiente para comprar o necessario. Sua pobre filha melhorára sim, por um prodigio da natureza completamente desajudada da sciencia; mas a sua convalescença, desprotegida d'aquelleconforto, d'aquelles cuidados tão indispensaveis para o restabelecimento da saude, prolongava-se, apesar de todos os esforços que a animosa rapariga fazia para resumir, e que, como é facil de suppôr, só contribuiam para a accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava tão fraca, tão fraca, que, apenas dava dois ou tres pontos, caía desmaiada sobre a costura, e assim passava os dias em continuados desfallecimentos.«Seu pae tambem estava completamente impossibilitado de trabalhar. Eu chamei-o velho, porque com effeito os desgostos e as privações essa apparencia lhe haviam dado; mas não o era effectivamente. Ainda não contava cincoenta annos, e já não tinha na cabeça um só cabello preto.«Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava, porque a sua nimia fraqueza o tornava completamente improprio para os rudes trabalhos manuaes da fabrica, vira-se só com tres filhos, sem recursos, sem poder obter, n'um outro emprego mais suave, o pão para si e para elles.«A sua completa ignorancia tornava-o improprio para qualquer trabalho que não fosse manual.«Ó ignorancia, negra irmã da livida miseria!«Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os proventos que o pobre homem tirava da mendicidade. As comidas iam sendo cada vez mais frugaes, e a pobre rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando cada vez mais incapaz de trabalhar.«Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma casa onde reinava tão profunda miseria! Espanta-se de que me não tivessem vendido no dia immediato áquelle em que tinham gasto os cinco tostões. Eu lhe explicoesse facto na apparencia incomprehensivel, eu lhe dou a chave d'esse enigma.«O meu dono considerava-me, para assim dizer, como uma enviada de Deus, e não estava muito longe de imaginar que existisse no meu seio um anjo occulto. Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria de certo uma profanação.«Candidamente supersticioso, o bom velho tinha lá de si para si que eu, como mensageira que fôra de uma esmola providencial, não podia deixar de fazer a felicidade d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia tão difficil, como aos romanos cederem, em troca dos mais enormes thesouros, o palladio que fazia a republica invencivel. Eu era a égide da casa, emfim.«Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais triste e amargurado do que nunca. O dia correra-lhe como aquelle em que eu o tinha visto pela primeira vez, com a differença que nenhum garoto compassivo, enviado pela Providencia, se fôra esconder na ramaria de uma arvore protectora. O velho entrava, pois, em casa, sombrio, triste, como entraria uns poucos de dias antes, se não fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.«Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario que havia na parede, onde eu habitava, e, tirando-me para fóra, disse-me, depois de me ter contemplado lugubremente alguns instantes:—«Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos de allivio, e cuja côr suave me aconselha a esperança. A esperança?! não a posso ter já! Ai! a minha sina fatal é mais forte do que a tua benefica influencia! Ramo verde que uma pomba do céo trouxe no bico a esta pobre arca, que vae sem rumo nas aguas de umdiluvio de infortunios, enganaste-me involuntariamente! Não parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae, não procures luctar mais contra a minha má estrella! Vae, e que a tua mesma partida nos seja ainda bemfazeja! Os anjos de Deus, ou quando descem ao mundo, ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante, ou deixam após si, um rasto luminoso!«E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e saiu.«Foi triste a sua peregrinação á procura de um comprador que se resolvesse a dar por mim um preço razoavel. Todos, vendo-o assim pobre, mostrando no rosto livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam, depois de me terem mirado com desdem, um preço tão baixo, que, fosse qual fosse a extrema necessidade que o meu dono tivesse de dinheiro, entendeu que me não devia deixar ir assim.«Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos donos d'ellas se resolveu a comprar-me. Pois eu não valia tão pouco como isso, e estou convencida que muitas das pessoas, a quem o velho mendigo me apresentava, desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito, mas, segundo depois vim a saber, isso é trica de negociante para especular com a miseria. Sabem que ainda que a sua primeira proposta repilla o vendedor, este, por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir muito o preço que estabelecera.«Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem não quer não venha cá, accrescentam, terminando com a phrase pittoresca: «Eu não lhe puz a faca aos peitos.» É regra estabelecida que o vendedor peça um preço exorbitante, e o comprador offereça um preço diminutissimo.Que venha á discussão, mesmo por acaso, o valor real do objecto, isso é raro. Um negocio de compra e venda é um jogo de azar em que dois jogadores trapaceiam. Vêr qual dos dois ha de roubar o outro,that is the question. Nunca um só vendedor se lembrou de calcular: «Este objecto custou-me tanto, devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos»; e o comprador de pensar: «Posso gastar tanto, se o objecto valer mais, não compro.» Isso nunca: sem uma discussão preliminar, é sensabor o negocio. Se a invenção da moeda simplificou as relações mercantis, quanto as não simplificaria a invenção d'esta moeda dos corações nobres, que se chama «boa fé!».«A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos ladrões e dos negociantes, acertava devéras se accrescentasse—e dos consumidores.«Desculpe estas reflexões um pouco prolixas; mas eu sou o Nestor das bolsas, e desde o celebre ancião homerico, cujas palavras eram doces como favos de mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal fórma pelo rei de Pylos, que não sei como os gregos não tomaram uma indigestão de melaço: desde esse vulto epico, todos os Nestores gostam de pregar grandes massadas. Eu não me podia esquivar á regra geral.«Agora vou continuar.«O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos compradores, e fez-lhes falhar os calculos. Saía das lojas com o desespero na alma, o rubor da indignação na fronte, e não voltava.«Assim se passaram duas horas.«O preço, que lhe offereciam, ia sempre diminuindo:porquê? Porque de cada vez a physionomia do mendigo se tornava mais livida. A anciedade pintava-se-lhe nas feições. Cada ruga de mais, que se lhe cavava na fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco réis de menos no preço que lhe offereciam.«Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou n'uma ultima loja, e, quando entrou, deixou-se cair em cima de uma cadeira. As pernas recusavam-se a sustental-o mais tempo.«Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo não sei o quê. Sei apenas que era um rapaz de uma physionomia sympathica.«Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas o espanto do primeiro era um espanto encolerisado, o do segundo um espanto compadecido.«O dono da loja receiava para as suas cadeiras o contagio da miseria. Que um cão se estirasse em cima d'ellas, passe; mas um mendigo!«O meu dono estendeu-me com mão tremula para o logista, e disse com voz que mal se ouviu:—«Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me dá o senhor por ella?—«Que diz vossê?—tornou o dono da loja com modos irritados. Falle de maneira que se entenda! Julga que tenho ouvidos de tisico? Graças a Deus sempre gozei de boa saude.—«Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo um esforço sobre si mesmo para fallar com voz mais intelligivel, é porque estou muito fraco. Desejava saber quanto o senhor me dá por esta bolsa.—«Ah! até que emfim! Não seria mau que vossê se levantasse, porque este senhor talvez se queira sentar.—«Deixe estar o pobre homem,—interrompeu o freguez com vehemencia, não vê que mal se póde ter em pé. Coitado!—«Pois sim, sim!—resmungou o logista, se toda a gente que não póde andar se me viesse pespegar nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos lá a vêr a bolsa. Ah! está toda esfarrapada! que trapo! isto não vale cinco réis. Quanto quer vossê por isto!—«V. s.adirá quanto quer dar por ella!—«Eu! olhe, já lhe digo que não lhe dou mais de quatro vintens. Nem um real. Serve-lhe?—«Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!—tornou o meu dono com uma profunda accentuação de amargura na voz.—«Sim! que ella está muito bonita. E quem me assevera que vossê não roubou isto? Nada, parece-me que nem os quatro vintens lhe dou.—«Roubar! eu?—bradou o meu bom velho, erguendo-se indignado da cadeira.—«Sim! sim! Eu já conheço essas capas de santidade. O senhor não póde imaginar, continuou elle, voltando-se para o freguez, quanto esses malandros são finos! Olhe, um dia d'estes...—«Este homem não tem cara de ladrão, interrompeu bruscamente o desconhecido.—«Muito obrigado, senhor, muito obrigado!—exclamou o meu dono. Sirvam-me de consolação as suas palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de um coração nobre.—«Emfim, tornou o logista um pouco despeitado, se me quer dar a bolsa ahi tem os quatro vintens.—«Que remedio, senhor! A necessidade é má conselheira!ahi tem a bolsa! Sempre meus filhos não morrerão hoje de fome!—«Não, interrompeu ainda o generoso rapaz, agarrando no braço do mendigo, não consentirei que se pratique um roubo assím na minha presença. Sou eu quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostões, é tudo quanto tenho comigo. Creio que a bolsa não valerá muito mais.«E, pondo na mão do mendigo duas meias corôas, saiu levando-me comsigo, deixando o logista estupefacto, e sendo acompanhado pelas bençãos do velho.
A côr que tinha Daphne nos cabellos;