Chapter 4

Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada; detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada, escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um remorso.

Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois, e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do interior, ignora-se.

O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.

--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que, assentado, a escutava.

—Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e outra cousa.

—A ambição não é defeito.

—Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em você, que ha de ser para mim uma força nova.

—Oh! sim! exclamou Guiomar.

E com um modo gracioso continuou:

—Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?

—O lustre do meu nome, respondeu elle.

Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.

INDICEAdvertência de 1907Advertência de 1874

I.—O fim da cartaII.—Um roupãoIII.—Ao pé da cercaIV.—Latet anguisV.—MeniniceVI.—post-scriptumVII.—Um rivalVIII.—GolpeIX.—ConspiraçãoX.—A revelaçãoXI.—Luiz AlvesXII.—A viagemXIII.—ExplicaçõesXIV.—Ex-abruptoXV.—Embargos de terceiroXVI.—A confissãoXVII.—A cartaXVIII.—A escolhaXIX.—Conclusão


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