ACTO SEGUNDO

ACTO SEGUNDOVista de arraial. É noute. Festões de lampadas de papel variegado pendem dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das pipas cobertas de ramos de folhagem. Barracas com botequins. Multidão de povo a beber á volta das pipas. Sinos repicando, e estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas fóra, se canta o «S. João» com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o povo, mirando as raparigas. Os dois já conhecidos creados de Pantaleão, com as pernas encruzadas nos varapáos, medem d'alto a baixo Frederico, e rompem a jogal-os um com outro. Frederico, por uma das suas evoluções maravilhosas de rapidez, desapparece. O povo ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez cabos armados. Os cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e rompe a banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompões, a qual entra em scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de calça branca, casaco azul com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma côr. As figuras podem caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a Morgadinha, com o pae, Macario, Cosme Giraldes, e João Lopes. Cosme Giraldes é um sugeito gordo, aspeito serio, com os seus oculos, um todo de summa gravidade. Os circumstantes cedem o logar aos recem-chegados, que formam grupos.{68}SCENA ITODOSOSDESCRIPTOS(GRUPO DA MORGADINHA E COSME GIRALDES)Cosme(com gesto de orador e com grandes pausas, á Morgadinha)A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e uma senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham, tudo reanimam. Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex.ª Falta, todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros acham graça nos seus olhos.Morgadinha(com desdem)Eu não lhe acho graça nenhuma.CosmeComo assim, divina ingrata?{69}MorgadinhaJá disse ao boticario o que tinha a dizer.CosmePois o seu coração...MorgadinhaEstá dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo.CosmeNão ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação, aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras funcções de escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que...MorgadinhaSim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á romaria para me divertir.(Volta-lhe as costas.)Ó papá, quando se{70}faz o Auto do Natal?(Ouve-se a musica tocando uma marcha.)PantaleãoÉ já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos, desempachem o terreiro que chêga o espectaculo.(O povo retira e apinha-se entre scenas.)SCENA IIOS MESMOS,E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR COMPETENTE(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. Chegada á bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois primeiros personagens do auto):Scena I do AutoADONISEMANASSÉS(Adonis traja de principe de carnaval; Manassés veste de propheta de procissão; mas toda a fatiota é muito usada e desbotada. Adonis traz um cavaquinho.)Adonis(com declamação muito boçal)Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.{71}Manassés(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)O céo estrellado,Sereno e propicio,Será pois indicioDo sol desejado.(CÔRO DE PASTORES)(Vozes femininas dentro)Quem o habitará?Quem o gozará?Manassés(cantando)Vêde a paz serena d'esta noute;Nascerá a estrella de Jacó?O gado socegado adivinha;Não se bole no ninho a avesinha.(CÔRO)Quem o habitará?Quem o gozará?{72}Adonis(declamando, e passeando com grandes passos)Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta amorosa me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o coração n'este peito!(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os cicumstantes.)MacarioO senhor está a mangar d'estes actos sérios?!FredericoPois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr. boticario.MacarioO senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão!{73}MorgadinhaSnr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer rir; chore vocemessê, se tem vontade.PantaleãoContinuem lá vocês co'isso.Scena II do AutoVOZD'UMAPASTORA,CANTANDO DENTROÓ Deus do céo, e da terra,Ó vós que podeis tanto,Ouvide nossos clamoresSêde propicio, ó Deus sancto!CÔRO(dos pastores)Do povo amado,Mandae o desejado.{74}(Os que estão no palco fazem scenas mudas de ternura muito lorpas.)ManassésEscuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou?AdonisFoi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.Scena III do AutoO VELHO SIMEÃOERUIVA(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um cordeiro branco nos braços)Simeão(com os olhos no firmamento)Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os nossos lamentos.(CÔRO)Do povo amado,Mandae o desejado.{75}ManassésAgora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores tem um só pensamento.SimeãoVinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute, que o auctor d'altos mysterios annuncia.Frederico(escancarando a bocca)Que semsaboria!Macario e CosmeSio!(prolongado.)Scena IV do AutoENTRAM PASTORINHOSEPASTORINHASRuiva(declamando)Aqui vimos, meus senhores,Adorar nós o menino:{76}No seu sancto nascimentoCom grande contentamento.(CÔRO)Se o menino é nascido,Nós o bamos précurar;Aparcei, senhor menino,Que vos queremos adorar.(Sáem por diversos lados.)Scena V do AutoUM REI TURCOE DEPOIS OUTROS FIGURÕESRei turco(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)Sou o turco rei, que éValoroso na arrogancia;Por ser filho da fortunaE neto da extravagancia!{77}(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)De moiriscos reis nasci,Sou seu filho alentado,O meu braço furibundoDeixa tudo escangalhado.Co'esta espada sou capazDe entrar pelo inferno dentroE pôr tudo em mil pedaçosQue eu sou um rei sanguenolento!(Risada de Frederico.)CosmeJá é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em tão solemne passo!FredericoSolemne passo, diz o nobre deputado! chamarsolemne passoá prostituição da arte!MacarioO snr. é que é uma prostituição! Bem disse{78}aqui S. Ex.ª que o senhor é um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos!Vozes(dentro)Quebra-se-lhe a cabeça!—Bordoada rija!—Vamos a elle!Morgadinha(erguendo-se colerica)Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?João LopesSaberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no palheiro d'um lavrador.Cosme(com enfaze)Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social. A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não póde educar as massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,{79}com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!MacarioApoiado!MorgadinhaEntão os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?Pantaleão(ao Rei turco)Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.Rei turcoSe isto não leva rumor, acaba-se a pandega!FredericoMagnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, snr. rei turco, que eu estou sério, e talvez chore.{80}Rei turcoAgora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel Zarôlho!(Chamando para dentro.)O Manel Zarolho é o rei christão.(Explicando.)Scena VI do Auto(Entra um Rei christão com muitos pastores e pastoras)Rei christãoEu trago os meus companheirosFieis á minha nação,Para te convencer, ó turco,E para te fazer christão.Rei turcoPara onde ides, romanos,Que tão alegres vos vejo?Rei christãoFestejar o menino nadoQue é todo o nosso desejo{81}Rei turcoQue é do passaporte?Rei christãoPassaporte não trazemos,Se nos não deixas passarPara traz nós tornaremos.Rei turcoPara traz não heisde tornar;Que eu vou buscar algemas,Que vos quero algemar.Pastores e pastoras(cantando)Milagroso Deus menino,Esta obra vossa é;Ajudai-o a vencerO turco inimigo da fé.{82}Rei christãoSaca lá da tua espada!Rei turco(arrancando para elle)Ó cão, que sova tu levas!Scena VII do AutoOS MESMOSE UMANJO,QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS REISCanta:Detem-te, barbaro turco!Cessa a tua infeliz sorte;Faz-te christão, que não tardaQue te apanhe a feia morte.CÔRO(dos pastores)Faz-te christão que não tardaQue te apanhe a feia morte.{83}Rei turco(declama)Eu sou o rei AlmeiranteLa do reino da Turquia;Nunca fui prezoneiro,So do rei da Lixandria!O Anjo(canta)Detem-te barbaro turco, etc.CÔRO(dos pastores)Faz-te christão que não tardaQue te apanhe a feia morte.Rei turco(afflicto)Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui?(Com a mão sobre o estomago)Que tenho eu aqui?FredericoHade ser vinho.(A Morgadinha ri-se ás escancaras.){84}Macario(sobremodo indignado)Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando que é um homem de sentimentos muito herejes!..CosmeE eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua hilaridade estas interrupções indecentes!Rei turco(zangado)Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui me esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho da Pêga.(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a marcha.){85}SCENA IIIOS MESMOS,EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordão, e Pantaleão com a filha. Alguns camponios de varapáo fazem cêrco a Frederico. A morgadinha passa por meio d'elles, bamboando a cabeça e vibrando o chicotinho. Frederico passeia com os cabos. Os camponios retiram-se, relançando olhos ameaçadores ao escrivão.)MorgadinhaIsto já me aborrece, papá...PantaleãoVamos embora, menina?MorgadinhaPor em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um pouquinho a casa dos cazeiros.{86}PantaleãoVae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.MorgadinhaÓ João Lopes, vem comigo.(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado com os cabos.)SCENA IVMACARIO, COSMEEPANTALEÃO(Formam um grupo á parte, do povo que gira no fundo)MacarioÓ snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar o espinhaço ao morôto?{87}PantaleãoA occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por que ella é capaz de se metter no meio da desordem.CosmePelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr. morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª que a mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a educação que deu a sua filha!Pantaleão(docil)Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada á laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o páo; em fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita graça; hoje não lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar{88}a mão. É tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, só se o casamento fizer a mudança, e espero que faça.CosmeSe o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, das suas informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não sinto com forças e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...Pantaleão(formalisado)Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!CosmeIsto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.{89}MacarioÉ rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica é uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...PantaleãoNão quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho de Encerrabodes seja respeitada!(Volta as costas, e sáe bufando.)SCENA VCOSMEEMACARIOCosmeIsto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do que eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. Macario, a{90}dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!MacarioFina, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente fallando.CosmePerdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.MacarioIsso então foi rethorica...CosmeEu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se{91}de homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?{92}MacarioOra se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha muitos annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens publicos não temos tempo para cuidar de mulheres...(Reparando em Frederico)Ahi vem o atheu...CosmeVou-me safando que não quero palestras com este safio.(Sáe.)SCENA VIMACARIOEFREDERICOFrederico(encarando o outro com a costumada careta)O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a interromper-se o escandalo do auto...{93}MacarioEu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim.FredericoA sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho, reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimarães, que é o trompão grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da historia dos doze Pares de França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos deRoncesvalhes.{94}MacarioVá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é Macario Mendes...(Sáe.)SCENA VIIFREDERICO, JOÃO LOPES,E CABOS(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)D'onde vens, ó velha,Eu venho da feira, etc.(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de Frederico com disfarce)João LopesOlhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a preparar os valentões.{95}(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar gritos.)SCENA VIIIFREDERICO,CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOSFrederico(com intimativa bellica)Formem em linha. Carregar armas!Um caboEstão carregadas.FredericoVamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem.(Vê-se atravessar a scena por{96}entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns poucos varrendo o campo a pauladas.)FredericoCabos de policia, sentido! Preparar armas!(Sáe perto da bocca da scena o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)Frederico(aos cabos)Aperrar armas!(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem,{97}logo que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o traz á bocca da scena.)FredericoQuem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?Morgadinha(arrancando o lenço do rosto)Sou eu! salvei-te, Frederico!FredericoÓ morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica!(Ajoelhando.){98}{99}FIM DO SEGUNDO ACTO.ACTO TERCEIROSalão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano moderno.SCENA IPANTALEÃOEMACARIOPantaleãoComo eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.{100}MacarioE quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?PantaleãoÉ a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja de fazendas brancas...MacarioBem sei, bem sei.PantaleãoForam lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não ha homens...MacarioQue tal pezêta é ella!..{101}PantaleãoE para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse medianeira d'alguma carta...MacarioE tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de marotos!PantaleãoNão ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a consorte.MacarioNão que sem licença d'elle não ha maior{102}desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...PantaleãoConte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?MacarioHoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe(expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)PantaleãoSe elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que{103}eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a outro.MacarioGrande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando...PantaleãoNão acho isso humanitario!MacarioMeu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço{104}por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamamburrocracia, não se indireita a patria.PantaleãoComo se chama isso?MacarioBurrocracia, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a dizer empregado publico.PantaleãoSnr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?{105}MacarioIsso é.PantaleãoPois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer.Macario(duvidoso)Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar.(Com energia)Matal-os, matal-os, é o grandedesideratum.PantaleãoE os papeis? deixam-se ficar?MacarioOs papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.{106}PantaleãoOra vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o processo da execução que a fazenda nacional me move...MacarioPor seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.PantaleãoQuem é o chefe da revolução?MacarioÁ falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general em chefe.{107}PantaleãoHomem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.MacarioFarei as diligencias; mas receio que...{108}SCENA IIOS MESMOSE AMORGADINHA(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; grande laço na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)PantaleãoVens para o piano, Joanninha?Morgadinha(pondo luneta d'oiro)Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala.(Senta-se ao piano.)Macario(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!{109}PantaleãoEstá vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!Macario(ironico)São bonitas...(Grave)Mas não acho isto decente para a observancia dos bons costumes.MorgadinhaQue quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.MacarioDo tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus quizer.Morgadinha(voltando o rosto com aborrecimento)Então as suas filhas são senhoras?{110}MacarioD'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...Morgadinha(dedilha nervosamente nas teclas)Adeus, adeus. Temos historia!Pantaleão(a meia voz)Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os vestidos...MacarioA cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não se podem observar os bons costumes...(A Morgadinha canta acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)PantaleãoAinda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?{111}MorgadinhaA mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial.(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)PantaleãoVeja lá os meus papeis, snr. Macario.SCENA IIIOS MESMOSEJOÃO LOPESJoão Lopes(trazendo castiçaes com luzes)Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.MorgadinhaEstá! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia.{112}Bem sabe que ella, se vir homem aqui, não entra.PantaleãoEstá bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem sério!MorgadinhaQue quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.PantaleãoCom certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso foi posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou.(Sáe.){113}SCENA IVMORGADINHA, JOÃO LOPESE DEPOISFREDERICOMorgadinhaPóde entrar a snr.ª D. Thomazia.João Lopes(para dentro, levantando o reposteiro)Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.(João Lopes sáe, assim que entra a supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)Morgadinha(alto)Passou bem, snr.ª D. Thomazia!..(Baixo)Não me falles que meu pae está espreitando, em quanto João Lopes tossir...(Tocam e cantam{114}a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)João LopesO snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam lá...Frederico(levanta o véo, abraçando o velho)Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você um habito de Christo!MorgadinhaDeixa-o ir, deixa-o ir...(João Lopes sáe.){115}Frederico(tomando-lhe as mãos calorosamente)E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh!(contemplando-a absorto)que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!Morgadinha(desviando-se)Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?FredericoSe gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!MorgadinhaVamos ao caso... Como estão os negocios?{116}FredericoOptimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade.(João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de enlevado.)João Lopes(mettendo a cabeça)Podem conversar, que elle passou para a tulha.Frederico(com transporte)És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé quebradiço{117}e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar!(Fixa os olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda)A minha vida vae ser uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!{118}(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:)Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos...(Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)MorgadinhaAh!Frederico(sobresaltado)O diabo!(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)Diz a teu pai que a mestraPara melhor te ensinar,Te está cantando uma áriaDas que se usa cantarNo Theatro de Lisbôa:Prega-lhe a pêta, que é bôa;E se esta nos não salva,Nada nos póde salvar.{119}SCENA VOS MESMOSEPANTALEÃOPantaleão(ao fundo)Então que é isso?MorgadinhaÉ a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no theatro de Lisbôa.PantaleãoElla tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!MorgadinhaElla canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido d'ella...{120}PantaleãoEstá bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido da senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu marido parece-me um doudo!..(Rindo)Ora andem lá, andem lá.(Sáe.)SCENA VIFREDERICO, MORGADINHAEJOÃO LOPESA INTERVALOSFredericoSalvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó formosa!(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.){121}MorgadinhaQue será isto!? Ó João Lopes!João Lopes(dentro)Que quer, snr.ª morgadinha?MorgadinhaSabes a que tocam os sinos? é fogo?João Lopes(dentro)Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo a gritaria.MorgadinhaDiz que é bernarda...Frederico(alvoroçado)Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente{122}comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!João Lopes(dentro)É revolução.MorgadinhaRevolução!FredericoNão ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?MorgadinhaQual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas, Frederico, que eu sou forte!..João Lopes(na scena)Já intendi o que elles dizem... Dão morras{123}aos papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?...(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura com os «môrra!»)João LopesO snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado...(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)MorgadinhaNão te deixo sahir agora, que é perigoso.Frederico(muito inquieto)Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu lado!{124}MorgadinhaFrederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o juizo!Frederico(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e como elles roncam!MorgadinhaVem então esconder-te, vem esconder-te!FredericoNão! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente!(Arranca os vestidos mulheris:{125}fica de quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles)Agora, armas! armas!(A morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.)Por que ris tu, mulher forte! porque ris tu, se fazes favor?!MorgadinhaTira a cartola e os cachos, meu amor.Vozes(que sobrelevam o estrondo dos figles)Morra o escrivão de fazenda! morra!(Grande catharro de João Lopes.)FredericoÉ chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino eterno! As nossas nupcias são no céo!..(Aponta para o tecto e fica como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous bacamartes de bocca de sino.){126}MorgadinhaAqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem!(Ella aperra o bacamarte.)SCENA VIIOS MESMOS, PANTALEÃOEJOÃO LOPESPantaleão(estupefacto)Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?Frederico(atirando ao chão o bacamarte)Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ªMorgadinhaMeu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!{127}PantaleãoDas duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!FredericoNão sei fugir: sei morrer.PantaleãoMas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.João LopesV. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina não ficavam com muita saude.PantaleãoPois vae escondêl-o... some-o no inferno!{128}MorgadinhaMeu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá(ajoelha-lhe)eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e juro que sou d'elle na vida e na morte!(Ergue-se: conduz Frederico pela mão, e ajoelha com elle)Dê-nos a sua benção, querido papá!PantaleãoNunca! nunca!(Ouvem-se fora as acclamações.)Morgadinha(erguendo-se soberba)Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!..(Lança mão do bacamarte)Que entre o povo!{129}PantaleãoEm que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..João Lopes(muito commovido)Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..Pantaleão(a Frederico)Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.FredericoObedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo.(Sáe com João Lopes.){130}SCENA VIIIPANTALEÃOE AMORGADINHAPantaleãoPerdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...MorgadinhaA pianista?..PantaleãoSim, a pianista onde está?..(Olha para o chão, tropeçando no vestido de mulher)Que é isto?(levantando o chapéo e os caracoes)Que é isto?! que é isto, Joanna?..Morgadinha(afflicta)Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..{131}PantaleãoEntão a pianista era... era o escrivão?!..Morgadinha(soluçando)Era, sim, snr.!PantaleãoQue sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..MorgadinhaÉ meu espôso... perdôe-nos...PantaleãoTu és o demonio, mulher!MorgadinhaSou uma infeliz apaixonada... O meu papá,{132}tenha piedade! Olhe que o Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde sêl-o ámanhã. O papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó outro.PantaleãoErgue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae!(Rompe a musica pelo interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)SCENA IXJOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido de official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada empunhada, e outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes subalternos, vestidos a capricho, uns com chapéo redondo e banda e dragonas, outros de barretina e niza. Um d'estes arvora uma bandeira de varias côres.)MacarioViva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças populares do Minho!{133}VozesViva!(Cala-se a musica.)Macario(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão reunidas fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, á frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex.ª que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gráo de pharmaceutico que V. Ex.ª soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles não me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em 1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª limpar este paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos desgraçam. Receba V. Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso Henriques!{134}Os commandantesViva o snr. boticario! Viva!MacarioObrigado, valentes guerreiros!(A musica executa uma marcha muito compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de que quer fallar. Silencio.)Pantaleão(commovido)Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as vossas palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas doenças e outras desgraças me não permittem tomar o commando das valentes forças populares que representaes. Não posso, senhores, não posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada estaria já nas mãos d'elle.{135}Morgadinha(tirando a espada da mão de Macario)Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será digno d'ella!(Chamando)Frederico! Frederico!

{68}

A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e uma senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham, tudo reanimam. Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex.ª Falta, todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros acham graça nos seus olhos.

Eu não lhe acho graça nenhuma.

Como assim, divina ingrata?{69}

Já disse ao boticario o que tinha a dizer.

Pois o seu coração...

Está dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo.

Não ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação, aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras funcções de escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que...

Sim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á romaria para me divertir.(Volta-lhe as costas.)Ó papá, quando se{70}faz o Auto do Natal?(Ouve-se a musica tocando uma marcha.)

É já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos, desempachem o terreiro que chêga o espectaculo.(O povo retira e apinha-se entre scenas.)

Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.{71}

O céo estrellado,Sereno e propicio,Será pois indicioDo sol desejado.

Quem o habitará?Quem o gozará?

Vêde a paz serena d'esta noute;Nascerá a estrella de Jacó?O gado socegado adivinha;Não se bole no ninho a avesinha.

Quem o habitará?Quem o gozará?{72}

Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta amorosa me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o coração n'este peito!(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os cicumstantes.)

O senhor está a mangar d'estes actos sérios?!

Pois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr. boticario.

O senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão!{73}

Snr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer rir; chore vocemessê, se tem vontade.

Continuem lá vocês co'isso.

Ó Deus do céo, e da terra,Ó vós que podeis tanto,Ouvide nossos clamoresSêde propicio, ó Deus sancto!

Do povo amado,Mandae o desejado.

{74}

Escuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou?

Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.

Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os nossos lamentos.

Do povo amado,Mandae o desejado.{75}

Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores tem um só pensamento.

Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute, que o auctor d'altos mysterios annuncia.

Que semsaboria!

Sio!(prolongado.)

Aqui vimos, meus senhores,Adorar nós o menino:{76}No seu sancto nascimentoCom grande contentamento.

Se o menino é nascido,Nós o bamos précurar;Aparcei, senhor menino,Que vos queremos adorar.

Sou o turco rei, que éValoroso na arrogancia;Por ser filho da fortunaE neto da extravagancia!

{77}

De moiriscos reis nasci,Sou seu filho alentado,O meu braço furibundoDeixa tudo escangalhado.

Co'esta espada sou capazDe entrar pelo inferno dentroE pôr tudo em mil pedaçosQue eu sou um rei sanguenolento!

Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em tão solemne passo!

Solemne passo, diz o nobre deputado! chamarsolemne passoá prostituição da arte!

O snr. é que é uma prostituição! Bem disse{78}aqui S. Ex.ª que o senhor é um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos!

Quebra-se-lhe a cabeça!—Bordoada rija!—Vamos a elle!

Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?

Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no palheiro d'um lavrador.

Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social. A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não póde educar as massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,{79}com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!

Apoiado!

Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?

Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.

Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega!

Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, snr. rei turco, que eu estou sério, e talvez chore.{80}

Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel Zarôlho!(Chamando para dentro.)O Manel Zarolho é o rei christão.(Explicando.)

Eu trago os meus companheirosFieis á minha nação,Para te convencer, ó turco,E para te fazer christão.

Para onde ides, romanos,Que tão alegres vos vejo?

Festejar o menino nadoQue é todo o nosso desejo{81}

Que é do passaporte?

Passaporte não trazemos,Se nos não deixas passarPara traz nós tornaremos.

Para traz não heisde tornar;Que eu vou buscar algemas,Que vos quero algemar.

Milagroso Deus menino,Esta obra vossa é;Ajudai-o a vencerO turco inimigo da fé.{82}

Saca lá da tua espada!

Ó cão, que sova tu levas!

Detem-te, barbaro turco!Cessa a tua infeliz sorte;Faz-te christão, que não tardaQue te apanhe a feia morte.

Faz-te christão que não tardaQue te apanhe a feia morte.{83}

Eu sou o rei AlmeiranteLa do reino da Turquia;Nunca fui prezoneiro,So do rei da Lixandria!

Detem-te barbaro turco, etc.

Faz-te christão que não tardaQue te apanhe a feia morte.

Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui?(Com a mão sobre o estomago)Que tenho eu aqui?

Hade ser vinho.(A Morgadinha ri-se ás escancaras.){84}

Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando que é um homem de sentimentos muito herejes!..

E eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua hilaridade estas interrupções indecentes!

Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui me esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho da Pêga.(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a marcha.){85}

Isto já me aborrece, papá...

Vamos embora, menina?

Por em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um pouquinho a casa dos cazeiros.{86}

Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.

Ó João Lopes, vem comigo.(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado com os cabos.)

Ó snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar o espinhaço ao morôto?{87}

A occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por que ella é capaz de se metter no meio da desordem.

Pelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr. morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª que a mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a educação que deu a sua filha!

Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada á laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o páo; em fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita graça; hoje não lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar{88}a mão. É tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, só se o casamento fizer a mudança, e espero que faça.

Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, das suas informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não sinto com forças e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...

Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!

Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.{89}

É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica é uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...

Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho de Encerrabodes seja respeitada!(Volta as costas, e sáe bufando.)

Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do que eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. Macario, a{90}dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!

Fina, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente fallando.

Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.

Isso então foi rethorica...

Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se{91}de homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?{92}

Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha muitos annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens publicos não temos tempo para cuidar de mulheres...(Reparando em Frederico)Ahi vem o atheu...

Vou-me safando que não quero palestras com este safio.(Sáe.)

O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a interromper-se o escandalo do auto...{93}

Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim.

A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho, reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimarães, que é o trompão grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da historia dos doze Pares de França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos deRoncesvalhes.{94}

Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é Macario Mendes...(Sáe.)

D'onde vens, ó velha,Eu venho da feira, etc.

Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a preparar os valentões.{95}(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar gritos.)

Formem em linha. Carregar armas!

Estão carregadas.

Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem.(Vê-se atravessar a scena por{96}entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns poucos varrendo o campo a pauladas.)

Cabos de policia, sentido! Preparar armas!(Sáe perto da bocca da scena o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)

Aperrar armas!(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem,{97}logo que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o traz á bocca da scena.)

Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?

Sou eu! salvei-te, Frederico!

Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica!(Ajoelhando.){98}{99}

Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.{100}

E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?

É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja de fazendas brancas...

Bem sei, bem sei.

Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não ha homens...

Que tal pezêta é ella!..{101}

E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse medianeira d'alguma carta...

E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de marotos!

Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a consorte.

Não que sem licença d'elle não ha maior{102}desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...

Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?

Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe(expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)

Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que{103}eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a outro.

Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando...

Não acho isso humanitario!

Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço{104}por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamamburrocracia, não se indireita a patria.

Como se chama isso?

Burrocracia, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a dizer empregado publico.

Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?{105}

Isso é.

Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer.

Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar.(Com energia)Matal-os, matal-os, é o grandedesideratum.

E os papeis? deixam-se ficar?

Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.{106}

Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o processo da execução que a fazenda nacional me move...

Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.

Quem é o chefe da revolução?

Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general em chefe.{107}

Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.

Farei as diligencias; mas receio que...{108}

Vens para o piano, Joanninha?

Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala.(Senta-se ao piano.)

Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!{109}

Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!

São bonitas...(Grave)Mas não acho isto decente para a observancia dos bons costumes.

Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.

Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus quizer.

Então as suas filhas são senhoras?{110}

D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...

Adeus, adeus. Temos historia!

Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os vestidos...

A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não se podem observar os bons costumes...(A Morgadinha canta acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)

Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?{111}

A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial.(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)

Veja lá os meus papeis, snr. Macario.

Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.

Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia.{112}Bem sabe que ella, se vir homem aqui, não entra.

Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem sério!

Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.

Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso foi posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou.(Sáe.){113}

Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.

Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.(João Lopes sáe, assim que entra a supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)

Passou bem, snr.ª D. Thomazia!..(Baixo)Não me falles que meu pae está espreitando, em quanto João Lopes tossir...(Tocam e cantam{114}a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)

O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam lá...

Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você um habito de Christo!

Deixa-o ir, deixa-o ir...(João Lopes sáe.){115}

E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh!(contemplando-a absorto)que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!

Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?

Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!

Vamos ao caso... Como estão os negocios?{116}

Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade.(João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de enlevado.)

Podem conversar, que elle passou para a tulha.

És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé quebradiço{117}e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar!(Fixa os olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda)A minha vida vae ser uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!{118}(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:)Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos...(Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)

Ah!

O diabo!(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)

Diz a teu pai que a mestraPara melhor te ensinar,Te está cantando uma áriaDas que se usa cantarNo Theatro de Lisbôa:Prega-lhe a pêta, que é bôa;E se esta nos não salva,Nada nos póde salvar.{119}

Então que é isso?

É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no theatro de Lisbôa.

Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!

Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido d'ella...{120}

Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido da senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu marido parece-me um doudo!..(Rindo)Ora andem lá, andem lá.(Sáe.)

Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó formosa!(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.){121}

Que será isto!? Ó João Lopes!

Que quer, snr.ª morgadinha?

Sabes a que tocam os sinos? é fogo?

Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo a gritaria.

Diz que é bernarda...

Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente{122}comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!

É revolução.

Revolução!

Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?

Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas, Frederico, que eu sou forte!..

Já intendi o que elles dizem... Dão morras{123}aos papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?...(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura com os «môrra!»)

O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado...(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)

Não te deixo sahir agora, que é perigoso.

Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu lado!{124}

Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o juizo!

Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e como elles roncam!

Vem então esconder-te, vem esconder-te!

Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente!(Arranca os vestidos mulheris:{125}fica de quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles)Agora, armas! armas!(A morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.)Por que ris tu, mulher forte! porque ris tu, se fazes favor?!

Tira a cartola e os cachos, meu amor.

Morra o escrivão de fazenda! morra!(Grande catharro de João Lopes.)

É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino eterno! As nossas nupcias são no céo!..(Aponta para o tecto e fica como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous bacamartes de bocca de sino.){126}

Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem!(Ella aperra o bacamarte.)

Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?

Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª

Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!{127}

Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!

Não sei fugir: sei morrer.

Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.

V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina não ficavam com muita saude.

Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!{128}

Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá(ajoelha-lhe)eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e juro que sou d'elle na vida e na morte!(Ergue-se: conduz Frederico pela mão, e ajoelha com elle)Dê-nos a sua benção, querido papá!

Nunca! nunca!(Ouvem-se fora as acclamações.)

Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!..(Lança mão do bacamarte)Que entre o povo!{129}

Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..

Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..

Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.

Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo.(Sáe com João Lopes.){130}

Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...

A pianista?..

Sim, a pianista onde está?..(Olha para o chão, tropeçando no vestido de mulher)Que é isto?(levantando o chapéo e os caracoes)Que é isto?! que é isto, Joanna?..

Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..{131}

Então a pianista era... era o escrivão?!..

Era, sim, snr.!

Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..

É meu espôso... perdôe-nos...

Tu és o demonio, mulher!

Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá,{132}tenha piedade! Olhe que o Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde sêl-o ámanhã. O papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó outro.

Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae!(Rompe a musica pelo interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)

Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças populares do Minho!{133}

Viva!(Cala-se a musica.)

Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão reunidas fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, á frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex.ª que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gráo de pharmaceutico que V. Ex.ª soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles não me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em 1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª limpar este paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos desgraçam. Receba V. Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso Henriques!{134}

Viva o snr. boticario! Viva!

Obrigado, valentes guerreiros!(A musica executa uma marcha muito compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de que quer fallar. Silencio.)

Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as vossas palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas doenças e outras desgraças me não permittem tomar o commando das valentes forças populares que representaes. Não posso, senhores, não posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada estaria já nas mãos d'elle.{135}

Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será digno d'ella!(Chamando)Frederico! Frederico!


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