*O demonio em Caçarelhos*
Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou á porta, e chamou de parte a fidalga.
—O meu homem veiu!—exclamou ella.
—Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.—E, retirados ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:
—Seu marido está perdido, sr.^a morgada.
—Que me diz? bradou a pallida consorte.
—Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer.
—Credo! Então que é?
—Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins. Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e parecia uma estrella.
—Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.
—Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.
—E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada senhora.
—É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que elle estraga o dinheiro.
—E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?
—Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu patrimonio.
—Não, que eu vou a Lisboa!—exclamou ella batendo o pé, e vibrando murros contra o ar.—Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!… Então a tal mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?…
—É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.
—Pois vou lá, que o meu homem é meu—vociferou ella voz em grita.—Se elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.
—Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha gente, e até amanhã, fidalga.
Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa daVerdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.
Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de algumas casadas, que não conservam as costellas todas.
Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da legitima.
Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia ao serão nas noites de inverno.
Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao mestre-escola.
—Bem t'o agourava eu, prima!—disse Lopo, concluidos os queixumes de Theodora.—Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido, dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias, senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!
—Pois fazia; estás enganado, Lopo—atalhou D. Theodora, molestada no instincto da sua vaidade de esposa.
—Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras, que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza, visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e tu?… chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.
—Isso é porque eu gosto.
—Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses. Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido de chita e chinellas! Tu!… de chinellas!… Foi bom que levasses vida de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!
—Não ha de levar, que eu vou lá!—bradou Theodora assanhada pelas reflexões do primo.
—Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto. A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam desbaratados em devassidões de um extravagante.
—Eu não quero separar-me do meu homem!—balbuciou ella afogada de soluços.
—Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?
—Eu sei cá?…—disse ella, alimpando as lagrimas.
—Pois duvidas, Theodora?
—Tu tens sido um estroina com mulheres…
—E não sabes por que?
—Não…
—Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!… Nunca te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?
—Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar…
—É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti! Céos! que martyrio! que martyrio!
Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.
Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.
Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:
—Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça; doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus, prima!
—Tu vaes afflicto, Lopo!—exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em que estivera—Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como poder ser.
—Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.
—Então que tens, primo? que te dóe?
—Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua união com este homem!… a certeza de que o has de amar sempre, ainda que elle te despreze como já te desprezou.
—Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!…
—Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!…
—Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.
—Não fallemos mais n'isto—atalhou com muita serenidade Lopo—Já chorei, e fiquei melhor!—continuou elle esborrachando os olhos até elles reverem agua—Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos. Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti, bem mais te merecia que o outro que te despreza… Queres mais alguma coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá procurar a Cintra?
—Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!—disse ella.
Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.
Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente imposto ao coração.
—Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais esta punhalada da tua mão, prima.
—-Valha-me Deus!—exclamou ella afflictivamente.—Tu dizes-me coisas que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu coração a outro em quanto fôr casada com um?
—Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade… Nunca me tiveste amor?
—Eu sei cá, primo!… Se me casasse comtigo, tinha-te amor… Assim como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?
—Matar-me!—disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e descendo ao chão os olhos amortiçados.
—Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora—Eu não sei o que te hei de fazer, Lopo!
—Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa—tornou elle gravemente.
—Então sempre queres ir, primo?
—Ámanhã, hoje, quando quizeres.
—E não te custa?
—E a ti não te custa que eu vá?
—Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido.
—Irei, já t'o disse.
—Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?
—Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de dinheiro.
—Então não quero que vás—accudiu ella—que tu não podes ir á tua custa…
N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e brada:
—É uma liteira! Será o meu homem?
Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.
*Como ella o amava!*
O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida que deu ao mestre-escola.
A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora, perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,—o dissabor por excellencia monstruoso—era a vinda de Theodora a Cintra, a isso aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo. Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.
Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo, embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas, repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola. Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.
—Tua senhora desmaiou de alegria, primo—disse-lhe Lopo deGamboa—estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira.Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá… Olha que opatife do mestre-escola veiu contar tudo!
—Já chegou?!
—Hoje ás cinco da tarde.
—Que disse?
—Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda…
—Que infame embusteiro!—clamou o fidalgo—Chama-me um lacaio, que lhe vou mandar cortar as carnes, com um tagante!
Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!
Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda muitissimo intalada de soluços.
—Então que é isto, Theodora?!—perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe as pontas dos dedos na face.
Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:
—Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!
—És tola, és tola, prima!—disse elle, assás incommodado com o apertão do abraço—Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?
Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro desfeito.
—Que tens tu?—perguntou elle.
—Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!… Corta essas barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo, Deus me perdôe!…
Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.
Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em quando arrancava um ai das entranhas.
—A fallar verdade—observou Lopo de Gamboa—estás um homem completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!
Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu em mais desentoada choradeira, dizendo:
—O meu homem a fumar!… Que feitiçaria te fizeram, Calisto!…
—De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso comer e dormir.
Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se, pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.
—Bem sei, bem sei…—disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:
«Minha querida Iphigenia.
Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto! Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração, salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge…»
Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.
Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo, emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia o retrato.
—Meu Calistinho—suspirava a esposa palpitante—meu amado marido, não tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!…
—Que remedio senão ir, Theodora!…—disse elle—Sou obrigado por esta desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.
—Não é isso, não é isso!—clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a largaram facilmente—Bem sei o que é…
—Sabes o que?—interrompeu com violentada placidez o marido—Sabes as calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!… Então que te disse elle?…
—Que tinhas lá outra… e que te viu a passeiar com ella.
—Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.
—Agora mando! que o leve a breca!—disse Theodora com alegre aspecto—Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?
O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.
—Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda, disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo conversaremos.
Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.
—Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que saiste d'esta casa. Já não tenho marido!…
N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a chorar, com a cara mettida entre os joelhos.
Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços.
Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.
O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das goelas.
*Vence o demonio! choram os anjos!*
Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por mão de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel quantia.
Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e acautellava o sacco das peças de duas caras, que trouxera de casa de seu pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisavô, governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar mais uma peça de D. Maria e D. Pedro III ás mil e duzentas que seu bisavô reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio, Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo não podessem nada agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio.
Não carecia o morgado de lançar mão de alguma verba do patrimonio de sua mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse que as peças eram d'ella, e não cuidasse elle que as havia de levar, Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que lhe voltou as costas para lhe não redarguir.
D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em Caçarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora. Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos saturados de lagrimas, em vão a esposa o espreitava pelos orificios das fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido.
No dia da partida, a despedaçada senhora experimentou um ataque de eloquencia. Entrou com o almoço no gabinete do marido, e bradou:
—Então que é isto? Entendamo-nos.
—Isto quê?
—Sempre vaes para a vida perdida?
—Vou hoje para Lisboa—respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em massos os titulos de sua casa.
—E então da tua mulher não queres saber mais nada?
—Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como deputado.
—Mas eu não quero saber d'isso.
—Então que queres tu saber, prima Theodora?
—Quero saber a lei em que hei de viver.
—Vive na lei de Deus.
—E tu na do diabo, ein?
—Berra pouco.
—Hei de berrar o que eu quizer.
—Pois berra, que eu não te hei de ouvir muito tempo.
—Se isto é assim, quero separar-me.
—Separa-te.
—Vou para o meu morgadio de Travanca.
—Pois vae.
—Cada qual fique com o que é seu.
—Pois sim. Leva d'aqui o que fôr teu.
A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.
A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de Gamboa, que vinha entrando.
Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:
—Esquece o ingrato, prima!… Guarda a tua vida para quem te ama!…
Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella.Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope aTheodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecidapara sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.
Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o segundo anno da sua legislatura, viria para casa.
Theodora ainda balbuciou:
—E deixas-me assim doente, homem?
—Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco, levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama. Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação, para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo, porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.
—Olha que não és mais novo que eu!—bradou ella.—Tens quarenta e quatro e eu quarenta.
—Está bom, está bom—obviou elle—não discutamos edades. O que se segue é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos teus zelos e desconfianças… Não posso demorar-me, que já ahi está a liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.
—Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!—clamou ella com profunda angustia.
—Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal.
E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.
*A virtude de Theodora em paroxismos*
Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de Cintra.
Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.
De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham propriamente a si.
Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de Freimas, Benevides de Barbuda.
A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa. Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do escandalo.
Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel inglez, a Buenos-Ayres.
As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a maledicencia ajuntou á admiração o respeito.
Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do parentesco. E mais nada.
Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa. Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico, e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete, e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda, saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos em nascimento, asnidade e estylo.
N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo. Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.
Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada ao filho das esperanças suas e da patria.
N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á platéa.
Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.
—O collega por aqui?—disse o doutor—Reminiscencias me não acodem de havel-o visto na platéa!
Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:
—Venho vêr as dimensões das suas orelhas.
—Como assim!…—balbuciou Liborio.
—Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá se a operação lhe convém aqui ou lá fora.
—Não comprehendo a razão do insulto!—disse Liborio.
—Será lá fora—concluiu Calisto e saiu.
A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual, dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso, Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.
O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso voltado para a friza de Iphigenia.
N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familiaSarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quandoCatharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.
Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de todo em todo.
Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D. Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido. Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada reincidira na velha culpa. Enganara-se.
Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto como esta na balança.
Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido se augmentava.
Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade. A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses, servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.
Mas—honra á virtude que cae mais tarde que o costume!—honra á virtude de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas immaculadas!
Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.
Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria eterna.
*Escandalos*
Abriram-se as camaras.
A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e disse-lhe:
—Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras. As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera, respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.
—Segue-se que está liberal?—perguntou o pavido abbade.
—Estou portuguez do seculo XIX.
—Apostatou!—disse com pesar mui entranhado o padre—Apostatou!…
—Da religião dos nescios.
—Mercês!—accudiu o abbade.
—Sem direitos—retorquiu o sardonico Barbuda.
Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre, despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o sorriso pungitivo de Calisto Eloy.
Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios. Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes, por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos, e por amor da ordem que está como poder executivo.
Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos, quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:
«Primo e amigo.
Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.
Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima. Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o que sinto.
Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.
Vamos agora ao que importa.
Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta, desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada. Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um patife como tu. Isto é bonito!
Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha tiral-a d'aqui.
Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas. Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa. Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria d'ella.
E se tu tens de a vêr a testilhas com essadiva, que em quanto a mim não écasta? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras, escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação, e tenho horror.
Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.
A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o que teu bom juizo te suggerir.
Teu primo muito dedicadoLopo.»
No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.
Ao outro dia embarcou para França.
Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:
—Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!
—Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.
Partiram.
No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra, recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.
*Perdida!…*
Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras, onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.
Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas raizes da sua pureza.
Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida assim á moderna.
Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira, cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica, como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe pedirem que se vestisse de outra maneira.
Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda, nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua consciencia illustrada em Penafiel:
—Eu assim estou melhor, a fallar verdade!
O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:
—Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris, salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa; porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para espantar os pardaes da sementeira.
Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos; animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que não era mortal a sua afflicção.
Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás pessoas que desembarcam enjoadas.
Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo, deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô. Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.
Terminada a leitura, o velho disse entre si:
—Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!… Os netos matam os avôs!…
Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de Freimas.
—Não sei—disse mal encarado o funccionario.
—Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tioPaulo de Figueirôa.
—Não posso lá ir—volveu o porteiro, mais brando.—Peça áquelle sr. deputado, que ahi vem que lh'o diga.
Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade deEstevães.
—Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu—disse o deputado—pelo menos pediu licença ás camaras para retirar-se.
—Iria para casa?—perguntou o velho.
—Creio que não. Então o senhor é tio d'elle!
—Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle.
—Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.—Ella perdeu um excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.
—Então meu sobrinho—atalhou Paulo—já não é legitimista?!
—Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais fez-se governamental!…
—Oh! que maroto!…
—E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher, que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa. Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!…
—Minha sobrinha veiu comigo—observou o velho.
—Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos. Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos dizem que mora a chamada «fidalga brazileira».
—Faz favor de tornar a dizer?—pediu Paulo desenrolando o nastro de uma enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.
—Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que fui do desgraçado sr. Calisto Eloy—ajuntou o abbade de Estevães.
Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem Casados.
Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa o sr. Calisto.
—Não mora aqui—disse o lacaio.
—Mora aqui!—teimou D. Theodora.
—Já lhe disse que não mora aqui—recalcitrou o criado.
—Então aqui não está uma mulher viuva?
—Mulher viuva?
—Sim.
—Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa.
—Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora.
—Quem lhe hei de eu dizer que a procura?
—Diga-lha que é uma pessoa.
—A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo.
—Quem é a senhora?—perguntou a viuva do tenente.
D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.
—Quero fallar á senhora viuva.
—Abra a porta, José—disse D. Thomazia ao criado.
—Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.
D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos setins e marmores, e dizia intallada:
—Olha o meu dinheiro por onde anda!…
Paulo benzia-se e murmurava:
—Parece o palacio do rei!
D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas.Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora:
—Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar.
—Então a senhora é que é a viuva?
—Eu é que sou a viuva do tenente de infanteria 13, João da Silva Gonçalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido tinha na provincia do Minho?
—Não sou quem a senhora pensa.
—Então tem a bondade de dizer…
—Pois a senhora é que é a tal pessoa?…—tornou Theodora, já menos raivosa, que espantada do depravado gosto do marido.
—Que pessoa? não sei de quem v. ex.^a falla.
—A amasia de meu marido…
—Amasia de seu marido!… Cruzes!… a senhora veiu enganada… Eu sou uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem é o marido da senhora?! Isto tem graça!…
—Meu marido é o deputado Calisto Eloy.
—Ah!—exclamou Thomazia—Então v. ex.^a é esposa do sr. morgado…
—Já me conhece?!…—disse sorrindo ferozmente Theodora.
—Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu não sou a pessoa que v. ex.^a procura. Bem vê que sou uma mulher de edade, e por desgraça estou aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da fidalga.
—E que é da tal fidalga?
—Anda a viajar pela Europa.
—Onde é a Europa?—perguntou D. Theodora colerica.
—A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora—respondeu promptamente a viuva.
—Mas é longe onde está a tal prima de meu marido?
—Muito longe: elles já embarcaram ha seis dias… Deus sabe onde elles estão agora.
—Pois foram os dois?—bradou Theodora, sacudindo murros fechados.
—Foram sim, minha senhora.
—E quando voltam?
—Quem sabe!… Os fidalgos não disseram nada: póde ser que passem alguns mezes lá por fóra.
—Raios os partam!—vociferou Theodora.
—Deus os defenda!—emendou Thomazia—Pois v. ex.^a deseja tanto mal a seu marido, que é um anjo, e a sua prima, que é um serafim!…
—A minha prima?!—ululou a morgada.
—Sim, minha senhora; pois tão prima é ella do marido de v. ex.^a como sua.
—Ella o que é, sabe que mais? é uma desavergonhada, e tudo que aqui está é meu, foi comprado com o meu dinheiro.
—Seria—disse Thomazia algum tanto enfadada—seria, mas eu não tenho nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leão entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a recebi; e v. ex.^a lá se avenha com seu marido, quando elle voltar. D. Theodora Figueirôa, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo para angulo o salão. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal fechadas para o interior de outra sala, e exclamou:
—Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae!
Deu um pontapé nas portadas, e entrou, bradando:
—O meu dinheiro! o meu dinheiro!…
Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia. Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona.
—Olha o meu marido!—clamou Theodora—aquella é a tal mulher? perguntou á espantada Thomazia.
—Aquella é a sr.^a D. Iphigenia.
—Vou rasgar aquelle diabo!—berrou a morgada, puchando uma cadeira para trepar.
—Isso alto lá, minha senhora!—acudiu irada a dispenseira—V. ex.^a não estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar o cabo da rua para a pôr lá fóra.
—Pôr-me a mim lá fóra?! bradou Theodora!
—Sim, minha senhora, que isto não são termos. Nem me parece senhora! cá em Lisboa acções d'estas só as praticam as peixeiras.
Paulo foi ao pé da sobrinha, e disse-lhe:
—Theodora, vamos. A mulher tem razão, porque é criada da casa e tem de dar contas.
—Não sou criada; sou aia da fidalga—corregiu a viuva, offendida nas dragonas do seu defunto tenente.
—Aia, ou o diabo que é—tornou Paulo—Vem d'ahi, sobrinha—e tirou-a pelo braço, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de Iphigenia.
Á saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez eclypse nas virtudes conjugaes do Indostão, sentiu quebrar-se o ultimo cabello que a prendia á historia das esposas exemplares.
N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa.
O patife vencêra!