Chapter 2

1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as materias em controversia.2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão de theologos illustrados.

1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as materias em controversia.

2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão de theologos illustrados.

No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.

A disputa de Leipzig.—Luthero tinha promettido conservar-se quieto se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram quietos, e Luthero considerou-se livrepara os atacar. O indiscreto amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu Santo Espirito.

Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S. Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja» respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas» disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara, pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus», elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes. Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de credito do que um papa ou um concilio que o não faça.

Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha chegado com asua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada servia.

A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma, e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam. Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve logar em 1519.

A bulla do papa e a queima da mesma.—Eck e os demais adversarios de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado, não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo, mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.

N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades; além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros, e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas. Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão inefficazesque ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa, que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá. Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento do primeiro anno (os annatas). Todo este dinheiro que era exportado para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no seu opusculoÁ nobreza da nação allemãtornava tudo isto saliente, e perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, quetodosos christãos são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.

Escreveu tambem outro tratado,O captiveiro babylonico da egreja de Christo, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro, muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho fique constituindo uma parte da minha futura retractação».

Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha, e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de 1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o. Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto, em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro,á frente de um cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma. A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que tinha poder agora para reprimir Luthero.

O imperador e a Reforma.—O imperador era, por esse tempo, Carlos V. Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.

No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o governo e as leis da nação que haviam derrubado.

Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca universal era o imperador, que dominavacirca civiliacomo vigario, ou representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominavacirca sacra, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma, estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.

No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes, restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIIIde Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel, e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.

Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe algum tanto o poder.

O estado politico da Allemanha.—A Allemanha, no tempo da Reforma, não tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta, era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de 1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln. As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições iam diminuindo o poder imperial.

Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos; III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo, tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um dos principes independentes podia fazero que muito bem quizesse. As cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes e pelos barões.

A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar. Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras, mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos, chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc. Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o feudalismo, de se tornarem proprietarios.

O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de Luthero continuava agitando os espiritos.

Luthero e a dieta de Worms.—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes, porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se, e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé para que lh’o beijassem; a Christo levandoa cruz contrapunha-se o papa levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo junto de si um monte de dinheiro.

Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho, ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões, ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms, e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi reconduzido á casa onde se hospedára.

Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez, mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto, prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada. «Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes contraa Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou dar-vol-a, pois. (Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o original). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo», retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen». Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte, sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos os seus esforços.

Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa: quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem. Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o salvo-conducto mencionava.

Luthero em Wartburgo.—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg; e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se, sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio, onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba, vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez mezes n’aquelle seu esconderijo.

Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens difficeis.

Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos, homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram, chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma lingua barbara».

A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã, pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação que passou depois por toda a Allemanha.

Regresso de Luthero a Wittenberg.—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo, andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria. Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente longe; foi o que succedeu na Allemanha.

Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira deErzgebirge, ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus conterraneos, que os pozeram fóra.

Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.

Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo, e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava. Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de Storch, e do seu companheiro Münzer.

Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais em conformidade com as Escripturas.

A Dieta de Nürnberg.—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero, pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha, deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados a desposar a causa do papa.

Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em1522 e 1524, o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte. Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações, insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os quaes se baseou a condemnação de Luthero.

Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido, annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na Dinamarca e nos Paizes Baixos.

A revolta dos nobresfoi o primeiro dos grandes revezes que o movimento da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias reformas.

Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles, supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-sed’este estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.

A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo, probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam, realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.

O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms, Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta. Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem ajudado e instigado esta guerra civil.

De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna, ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma. O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam pôr-se ao lado de Romana lucta que estava imminente. A Convenção de Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.

A revolta dos camponezesteve consequencias mais serias. Não fez sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação; deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma; a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas, sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma; esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser preciso metter a mão á bolsa.

A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido, sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma ovelha, ou até a propria cama.

A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava para o pobre camponez e sua familia.

Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha essa certeza. O velhocodigo romano havia substituido gradualmente a legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.

Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em summa, exigir d’elles o que quizesse.

N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e luxuosamente.

Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto, e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os impostos.

Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas associações era a de Bundschuh, isto é, ado sapato atado. A liga de Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms, quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.

A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta.A Bundschuh reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em 1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma propagou-se em todas as direcções.

Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam, talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o ensino da Palavra de Deus:

1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada.

2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros, comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios, seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus creou os animaes para uso do homem.

3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são livres.

4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus creou as aves e os peixes para uso de todos.

5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa, que impeçam qualquer acto de vandalismo.

6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido pelos antigos costumes.

7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.

8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo, e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.

9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes, ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario.

10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico.

11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido).

12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.

Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar, ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim, vendo-se atraiçoados, pegaram em armas.

Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram, intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha centuplicado mediante a paz futura.

«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes, porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem paraseu proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos tinha a dizer.

«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes, haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais. Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia, até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é applicavel ao vosso caso».

E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É preciso que ambosos adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem de ser equitativamente liquidado por um tribunal.»

O seu alvitre não foi acatado.

Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho, deixou de se interessar pelos revoltosos.

Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos massacrados.

Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.

Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido, e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.

Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, havia morrido.

Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco depois, tendo sido sacramentado, falleceu.

As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.—O imperador ainda não havia voltado á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms. Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França, desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperiose propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.

As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.

Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem. Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.

O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.

Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas indicações do reconhecimento dos direitos do povochristão, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe, mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização ecclesiastica.

Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o systemaConsistorialdo governo da Egreja—systema peculiar da Egreja Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.

Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta importancia o guardar-se a chamadadisciplinada egreja. Deus quer que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios, e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.

Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas prevalecessem, eram organizadasegrejas, onde se rendia a Deus um culto simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero, Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.

Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava, para esmagar a heresia na Allemanha.

Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526, e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido de celebrar missa.

Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questõesque dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» «Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo, Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. Gall, Weissenburgo e Windsheim.

Foi d’este protesto que se originou o termoprotestantes.

O imperador pretende subjugar a Reforma.—Este protesto tornou ainda mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo, conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia. Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço collectivo, a Reforma teria soffrido muito.

A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes. Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto reunir todos os protestantes n’uma liga offensivae defensiva, e havia protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso. Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa, com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.

A Conferencia de Marburgo.—Pode-se imaginar o que seria aquella reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se mostravam mais inquietos.

Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em coisa alguma.

A controversia entre Luthero e os suissos.—O thema do debate era este. Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.

Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e sangue de Christo, equando estes são saboreados pelo padre, no acto de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face um do outro durante um momento, mediante a missa.

Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.

A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia, operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda, posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.

Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a fé era indispensavel.

Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento, não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e que, ainda queChristo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.

Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a Sua presença e tirava o beneficio inherente.

Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento, colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu sobre a cruz.

Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes, fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.

Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras palavras, ensinaram que a palavrapresençasignificava duas coisas differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa. A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados, empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas, o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto, porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era transportado da dextra de Deus para os elementos.

Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.

Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle, segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e sangue de Christo nos elementos do sacramento.

E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavrasHoc est corpus meum(Isto é o meu corpo).

Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira», «Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.

A Dieta de Augsburgo.—O imperador tinha sido victorioso em toda a parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa conseguiu n’esse sentido.


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