Preparação para a reforma,pag. 137.—A antiga Egreja celtica o a Educação,pag. 137.—A Escocia e o lollardismo,pag. 138.—A Escocia e Huss,pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica,pag. 142.—João Knox,pag. 141.—A Congregação e a Primeira Convenção,pag. 142.—AConfissão escoceza,pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma,pag. 145.—OLivro de Disciplina, e aPrimeira Assembléa Geral,pag. 147.—A educação,pag. 148.—A morte de Knox,pag. 149.—Os bispos tulchanos,pag. 150.—André Melville,pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina,pag. 152.
Preparação para a reforma,pag. 137.—A antiga Egreja celtica o a Educação,pag. 137.—A Escocia e o lollardismo,pag. 138.—A Escocia e Huss,pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica,pag. 142.—João Knox,pag. 141.—A Congregação e a Primeira Convenção,pag. 142.—AConfissão escoceza,pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma,pag. 145.—OLivro de Disciplina, e aPrimeira Assembléa Geral,pag. 147.—A educação,pag. 148.—A morte de Knox,pag. 149.—Os bispos tulchanos,pag. 150.—André Melville,pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina,pag. 152.
Preparação para a Reforma.—A Escocia, longe do centro da vida europeia no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma quasi tão cedo como a maioria dos outros paizes, e acceitou-a mais completamente do que elles.
A região tinha sido preparada para ella mediante a educação do povo, mediante o constante commercio entre a Escocia e as nações continentaes, especialmente a França e a Allemanha, e mediante a sympathia dos estudantes escocezes para com os primeiros movimentos religiosos na Inglaterra e na Bohemia; e por outro lado a condição da Egreja romana, a pobreza das classes aristocraticas, e a situação politica do paiz coadjuvaram em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma reformação religiosa na Escocia.
A antiga Egreja celtica e a Educação.—A antiga Egreja celtica na Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz durante perto de setecentos annos, tinha sempre considerado a educação do povo como um dever religioso. Os seus regulamentos declaram que é tão importante ensinar os rapazes e as raparigas a ler e a escrever como administrar os sacramentos ou tomar parte naintimidade das almas, que era o nome que davam á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se podia obter fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer aquellas escolas superiores, que depois se tornaram as maisantigas universidades da Europa, procurou nos mosteiros celtas os primeiros professores. Quando a Egreja celta da Escocia cedeu o logar á Egreja romana, o seu systema educativo foi, em grande escala, adoptado, e a educação na Escocia continuou a ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de civilisação.
As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande numero de professores e alumnos que desejavam ver os seus trabalhos continuados n’uma universidade como as que n’aquella epoca estavam apparecendo em toda a Europa.
Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação de universidades na Escocia, e mediante uma provisão feita pelo rei e pelos bispos foram enviados os melhores estudantes a Oxford, Cambridge e Paris. Professores viajantes foram da Escocia, com um certo numero de estudantes, aos centros, inglezes e continentaes, de instrucção. E era frequente que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na qualidade de leccionistas ou estudantes nomadas.
A Escocia e o lollardismo.—Este contacto academico approximou muito a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes da Europa. No período em que os estudantes escocezes iam em grande numero para Oxford, Wycliffe exercia o professorado, e o lollardismo triumphava na grande universidade ingleza. Os estudantes escocezes voltavam contaminados com as maximas constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes homens de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois das universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem sido fundadas, no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos que as auctoridades ecclesiasticas effectuaram inspecções com o fim de expurgar o corpo docente dos erros de Lollard. A seu devido tempo, o lollardismo passou das universidades para o publico, e os primeiros chronistas da Reforma nunca deixam de se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á entrevista que tiveram com James IV.
Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres.
A Escocia e Huss.—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão auricular e as orações aos santos defuntos.»Foi condenado á fogueira, e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se suspeitava.
A Egreja romana na Escocia o a situação politica.—A Egreja romana na Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos, e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,» diz João Row, «havia alguns livros, taes comoSir David Lindsay, e as suas poesias ácerca das Quatro Monarquias, que trata tambem de muitos outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; osPsalmos de Wedderburne asBalladas de Godlie, em que se alteram para fins piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e umaQueixafeita pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados, padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas, comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico; aSatyrade Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S. Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro, e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito benefico n’aquella ocasião.
As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco, apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições, e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos.
Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então, é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se preparasse para Knox e para os lords da Congregação.
Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França. A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu, ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza; e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia, e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu.
Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua admiravel obra de reformador.
O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez, e outros, ainda, queriam a todo o transeseguir o exemplo da Inglaterra e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de 1560.
João Knox, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em 1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542, tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios. Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi consultado ácerca da revisão dosArtigos da Religião, e suggeriu a celebredeclaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão, que ficou inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.
Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França e da Suissa. Em Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. Apoz uma curta estada em Frankfort sobre o Maine, onde foi pastor da congregação de refugiados inglezes que se haviam ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação ingleza de Genebra em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, sob os varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de Genebra e Lithurgia de Knox, serviu de guia no culto publico da Egreja reformada da Escocia até á publicação e adopção do Directorio dos Theologos de Westminster. Collaborou tambem ma traducção da mais popular das primitivas versões da Sagrada Escriptura, a Biblia de Genebra.
Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a reputação de ser o unico homem competente para conduzir os esforços do partido reformista da Escocia a satisfactorio resultado final; e no outomno de 1555 regressou á sua terra natal. Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer predicas nos aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros predicativos, como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord Torphichen. Foi durante esta visita que Knox principiou a administrar a Ceia do Senhor á moda reformada. A primeira celebração foi em casa do conde de Glencairn, na primavera de 1556.
O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado de entrar em qualquer grande movimento que o approximasse da Reforma, e partiu da Escocia para Genebra em Julho de 1556. Queixou-se da lentidão, timidez e falta de união entre os protestantes, quando alguns dos fidalgos lhe solicitaram, em Março de 1557, que voltasse, e mandou dizer que achava melhor addiar o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma Confederação dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia sob o titulo de Lords da Congregação.
A Congregação e a Primeira Convenção.—O turbulento caracter dos barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, tanto do rei como dos estados, eram origem de constantes confederações de homens de todas as classes para realisarem, com segurança, emprezas, umas vezes legaes, e outras illegaes. Os confederados promettiam ajudar-se uns aos outros na obra que se propunham executar, e defender-se mutuamente das consequencias que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu cumprimento tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas de garantia que a lei facultava. Estes Lords da Congregação seguiram um costume predominante em todas as confederações quando se alliaram para manter e dar maior desenvolvimento á bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e para renunciar á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas abominações e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram um novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu pacto de federação se tornou tambem uma promessa feita a Deus em publico, como as que encontramos no Antigo Testamento, de serem verdadeiros e fieis á Sua palavra e direcção. Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood lhe chama, foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas na historia da Egreja Reformada da Escocia.
A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que os confederados resolveram insistir no uso do Livro de Oração de Eduardo VI nas paroquias que estivessem debaixo do seu governo e dar incremento á exposição das Escripturas, particularmente,pelas casas, até que as auctoridades permittissem a prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».
Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam uma reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia para exprimir a sua aversão pelas supersticiosas ceremonias da Egreja Catholica Romana. A Côrte, em 1559, prohibiu de prégar todos aquelles que não estivessem auctorizados pelos bispos; e, como não se fizesse caso d’essa prohibição, os prégadores foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.
N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em Leith, a 2 de Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação se haviam reunido para proteger o seu prégador. Chegou a Perth a noticia, emquanto Knox estava prégando, de que os ministros reformados estavam proscriptos, e no dia seguinte, depois do sermão, quando um padre tentou dizer missa na presença de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e a «vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos conventos dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A rainha regente marchou a atacar os sediciosos; o conde de Glencairn saiu a proteger os reformados; estava prestes uma guerra civil. Quasi immediatamente, porém, a rainha cedeu; de ambos os lados se entrou em negociações sem uma mutua confiança. Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando os estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado com a Inglaterra, e Isabel mandou tropas inglezas para protegerem a Congregação. Houve um combate entre a facção romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a Congregação, auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os francezes foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do anno seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.
Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação um pedido da Congregação, referente a uma reforma de doutrina, de disciplina, de administração dos sacramentos, e da distribuição do patrimonio da egreja. Em resposta, os estados requisitaram um summario das desejadas reformas doutrinaes; e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um decumento, conhecido depois pelo nome deConfissão Escoceza. Foi tomado em consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações, e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual sorte tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do papa no interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações do parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus e á Confissão de Fé recentemente adoptada, e prohibida a assistencia á missa e a outras ceremonias idolatras. E a religião reformada ficou sendo a religião da Escocia legalmente auctorizada. A auctoridade, comtudo, era o poder dos Estados, independentemente do soberano; pois que a rainha regente tinha fallecido,e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia regressado da França.
A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.—Apresentada aos Estados, e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, foi a obra de seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, Willock, Row, Douglas e Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, tido na conta de um dos mais habeis estadistas do seu tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas declarações. Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa razão tem-se recommendado a muitas pessoas que não se conformam com a logica impessoal da Confissão de Westminster. As primeiras phrases do prefacio dão uma idéa geral do todo. «Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por notificar ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, e pela qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. Tal tem sido, porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus Christo, cuja verdade eterna se manifestou ultimamente entre nós, que até hoje não nos tem sido concedido tempo para desobstruir as nossas consciencias, o que com muito regozijo teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte do que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com que os vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos a qualquer pessoa que notar n’esta nossa Confissão algum artigo ou phrase que esteja em desacordo com a Santa Palavra de Deus, que, dando prova da sua caridade christã, nos advirta d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e fidelidade, promettemos dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é, mediante a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo que se demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos escripto nas nossas consciencias que abominamos, do fundo do coração, todas as seitas hereticas, e todos os promulgadores de doutrinas erroneas; e que com toda a humildade abraçamos a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico alimento das nossas almas.»
A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma. Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição é considerada, segundoo antigo calvinismo, um meio de graça, uma evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica. A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do seu Esposo e Pastor.»
Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos, alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza, sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão,Nunc dimitis».
A rainha Maria e a Reforma.—A Reforma não tinha de triumphar na Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands, encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um completo reconhecimento official.
Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios, membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency. O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais. Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a. Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumanacrueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e aconselhar a joven rainha.
Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e impiedade.
A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo, nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida, e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes, os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa. Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada vida da rainha Maria.
A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou, pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta, sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray. O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na legislaçãodo paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do christianismo legalmente reconhecida na Escocia.
O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.—Pouco depois de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia. Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros, diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente, muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa. Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra, e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino, e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres, ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias. Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara, haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca recebeu a sancção official concedida á Confissão.
A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida, houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade.
Fez-se uma traducção doCatecismo para a Infancia, de Calvino, e deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum, ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão, a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz, levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo efficazmente para a educação do mesmo.
Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas, mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão, a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas, e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim, durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou «benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava.
A Educação.—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os impulsionadores da Reforma,quer na Allemanha, quer na França, quer na Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo. Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade, a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se, nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media, elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades, para que podessem prestar serviços uteis á nação.
A morte de Knox.—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André, apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-seque andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial, andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden. Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.»
Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem. «Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que fez o reformador da Escocia.
Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez. Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era, individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus, mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».
Os bispos tulchanos.—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é, durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza tratou constantementede derrubar o governo episcopal, e collocar a Egreja sob o dominio dos bispos.
Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as algibeiras dos fidalgos de primeira plana.
Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento do ministerio regular. Este accordo, chamado aConvenção de Leith, foi devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.
O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos, abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas, tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que queria a todo o custo conservar o seu patrimonio,e esses tulchanos. Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos. Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia. Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamamtulchan. Ora para esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos tulchanos.»
André Melville.—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal, André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574 voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não só escocezes como estrangeiros.
Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres especies de bispos: My Lord Bishop (Meu Senhor Bispo), My Lord’s Bishop (Bispo do Meu Senhor), e Lord’s Bishop (Bispo do Senhor), sendo os primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros pastores das congregações.
O Segundo Livro de Disciplina.—Quando a Egreja Reformada da Escocia se encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da egreja do que aquelle que oPrimeiro Livro de Disciplina continha. Esse systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que oO Segundo Livro de Disciplinafosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas.
Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo; e que este livro de politica não faça menção especial de similhante tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização presbyteriana escoceza.
Como a publicação doSegundo Livro de Disciplinaa Egreja Reformada da Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião, mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja, que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus, e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de Egreja de Christo.
Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas. Haviam-se conservado as paroquias que existiamantes da Reforma, e cujo numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios, os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses, anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.
Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.
O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574 até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e, no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e derribar por completo a constituição presbyteriana.
O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.
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