IXA morteValentina não accrescentou uma unica palavra á confissão que lhe escapou, contra sua vontade, e que não fez mais do que antecipar a inevitavel conclusão a que a convergencia de tantos indicios{149}reveladores, arrastariam Chalinhy, mais tarde ou mais cedo. Elle, por sua parte, não fez nenhuma pergunta mais. Seguiu, quasi automaticamente, a mulher desvairada, descendo com ella a grande escadaria e atravessando tambem com ella o perystilo. Quando chegaram á porta do palacio o «coupé» do medico tinha partido já.—«Meu Deus!» exclamou Valentina. «Deu-se o que eu temia. É muito tarde! Ah! E pensar que talvez morra n'este instante!...» Foram-lhe necessarios alguns minutos para arranjar uma carruagem de praça que levou proximamente meia hora, apezar das reiteradas instancias, em fazer esse longo trajecto, quasi metade de Paris, que a encantadora mulher tinha andado tantas vezes, occultando-se. E, comtudo, agora fazia o mesmo trajecto apertando nas suas as mãos d'aquelle a quem tanto tinha querido encobrir estas visitas. Norberto continuava calado; mas, de tempos a tempos, correspondia á pressão d'esses dedos fieis, e, na dor intima em que se debatia sob o imperio da mais dolorosa das revelações, a presença da mulher que por tanto tempo desconheceu e que via tão carinhosa, tão dedicada, enternecia-lhe o coração. Não ignorava actualmente, nada com respeito ás suas traições. Tinha-o ouvido gemer de dor ao comprehender que suspeitava d'ella, de maneira tão injuriosa, sugestionado por uma amante—e que amante!...Traições, injurias, humilhações, nada tinha a perdoar-lhe porque tudo havia esquecido na sua piedade pelo marido que soffria, e que ella via soffrer.{150}Porque se não teria evidenciado mais cedo esta alma tão retrahida e tão nobre? Porque não revelou tambem Valentina, para com o homem que amava dedicamente, mais vehemencia n'esse amor, mais expansões, porque lhe não patenteou toda a intensidade do seu affecto?Ai de mim! A prophetica formula, do poeta antigo será sempre verdadeiro tanto no dominio dos modestos destinos particulares como nos das evoluções sociaes:«A sciencia em relação á dôr...» a que ás vezes se deve accrescentar e em relação á falta de cumprimento dos deveres! Sem que a generosa Valentina desse per isso, a chamma que brilhava nos seus olhos, n'aquelle momento, provinha da febre que o ciume lhe despertára desde que sabia da infidelidade do marido.Perante o vivo pesar que a traição lhe produzia sentia bem quanto o amava, de maneira que a tenebrosa intriga da invejosa Joanna produziu um resultado diametralmente opposto ao que ella desejava! E o marido desleal não estabeleceria tambem n'aquella mesma occasião uma comparação esmagadora para os seus indignos amores? Valentina e Chalinhy viviam ha muito tempo já uma vida recondita a par da vida apparente. Havia porém uma differença é que a reserva do marido servia para atraiçoar a mulher e a d'ella para cumprir uma missão de piedade filial da qual quiz, a todo o custo, evitar-lhe a amargura... Experimentariam elles todos estes sentimentos dentro da carruagem que os conduzia áquella scena suprema{151}de tristeza e agonia? Liga-se aos nomes, pae e mãe, um respeito augusto que torna muito penoso termos de associar a elles idéas como as que deviam de futuro e para sempre, levar ao espirito de Norberto a recordação dos dois entes que lhe haviam dado o ser. O adulterio de sua mãe—a condemnação infamante do verdadeiro pae—o seu nome que não era verdadeiramente o que lhe pertencia. Que vergonhas! Que miserias! Como se lesse no pensamento do desventurado, Valentina disse-lhe, rompendo pela primeira vez um tão cruel silencio em frente da pequena casa aonde o antigo amante da mãe de Norberto acabava de morrer:—«Fiz a tua mãe a promessa de não te dizer a verdade a não ser queellete chamasse para junto de si nos ultimos momentos da vida. Ameniza-lh'os. É ella que t'o pede, pois é o unico caso em que desejava que tudo te fosse revelado... Tem a certeza que te está vendo n'este momento... É talvez a sua ultima expiação...»—«Não me peças nada em seu nome,» replicou Chalinhy em voz quasi imperceptivel! «Incutir-me-has menos coragem. Conheço a minha vergonha e que uso um nome roubado.»—«Soffreram muito,» respondeu ella. «Expiaram bem as suas faltas! Tu o saberás!... Tu o saberás!...» repetiu estas palavras por tres vezes com uma convicção que mesmo n'aquelle momento de angustia fez aflorar aos labios do filho uma pergunta irritada:—«Que mais devo ainda saber?»{152}—«Tudo,» replicou ella em tom grave. «Não são os actos que devemos julgar na vida são os corações. Ah! Cede aos impulsos do teu n'este momento solemne, meu Norberto, arrepender-te-hias mais tarde de não teres perdoado.»Chegaram á porta da casa defronte da qual se achava o coupé do doutor Salvan. O cocheiro, que tinha descido da almofada achava-se junto da porta e ao reconhecer a marqueza de Chalinhy dirigiu-se para ella assim que desceu da carruagem.—«O que ha?» perguntou-lhe Valentina percebendo na sua physionomia que se passava alguma cousa muito grave.—«Morreu», respondeu o homem, muito baixo, indicando com a mão as janellas do primeiro andar da pequena casa, com a voz tão indifferente na sua gravidade fingida que toma a gente do povo para annunciar um acontecimento tragico e de cuja importancia parece participarem tambem, só pelo desempenho d'uma tal missão.—«Morreu!...» repetiu Valentina e apertou a mão do marido para lhe dizer:«Não teve tempo de saber a tua resposta e a tua primeira recusa, juro-te....»«Não é verdade» accrescentou em seguida, dirigindo-se ao cocheiro: «foi emquanto se dirigiu á rua Barbet-de-Jouy que falleceu?»—«Justamente, na occasião em que parti. Não sei como isso foi, comprehendeis, como cheguei n'este instante, o creado que entrava de chamar o padre é que me contou o accidente». A marqueza{153}de Chalinhy sentiu que o marido ao receber a triste nova, se apoiava ao seu braço para não cahir. Conheceu que a commoção produzida pela noticia da morte, recebida d'aquella fórma, lhe augmentaria os remorsos, por ter perdido a occasião suprema e unica de mostrar alguma piedade por aquelle que sabia era seu pae.Por esse motivo, e ainda para lhe evitar logo uma tal dôr, é que forçou o cocheiro a precisar um detalhe que devia, era sua convicção, attenuar, pelo menos n'um ponto, a impressão experimentada por Norberto. Viu, porem, que a segunda resposta o deixára mais perturbado ainda. Impallideceu tão horrorosamente que julgou que ia desfallecer. Valentina ignorava ainda que o ataque que victimou o doente se tinha declarado na occasião em que deparou inesperadamente com Norberto, julgando receber a visita do negociante enviado pela marqueza, por isso ella, muito afflicta, impelliu-o para dentro do carro, dizendo:—«Estás muito commovido. É conveniente não entrarmos... Se queres dizer-lhe adeus, voltaremos cá ámanhã...»—«Não,» respondeu elle. «Quero vel-o, immediatamente.»—«Ah! meu amigo, perdoaste-lhe. Ah! Ainda bem!»—«Perdoar-lhe!...» repetia Chalinhy, concentrando n'esta especie de suspiro todos os sentimentos tão contradictorios que o agitavam: o horror de ter sido a causa, muito involuntaria, mas a causa, em todo o caso, d'esta crise ultima a que o{154}moribundo tinha succumbido,—a revolta sempre fremente da sua honra contra a revelação que lhe fizeram a respeito da mãe;—uma emoção violenta, á idéa de que, ali, dentro d'aquelle pavilhão solitario acabava de morrer aquelle que sua mãe amou e que lhe deu o ser,—um reconhecimento augmentado constantemente pela esposa mal apreciada e trahida, sim, que elle trahiu como sua mãe tinha trahido o velho Chalinhy.Tinha, porventura, o direito de se indignar, de «perdoar», como dissera Valentina?Para perdoar não era necessario ter auctoridade para condemnar?Sentia tambem uma imperiosa necessidade de tornar a vêr, antes da completa desapparição que ia seguir essa morte, o scenario onde se desenrolou essa longa tragedia ultima na qual foi iniciado tão funestamente;—de tornar a vêr as feições do que n'ella foi o heroe, do homem que tão apaixonadamente se apoderou do coração de sua mãe para que ella o não tivesse renegado depois do crime:—de procurar sobre esse rosto immovel o traço d'uma similhança com o seu proprio rosto, a prova da filiação que lhe tornava de futuro tão cruel o ouvir pronunciar o nome que continuaria a usar. Batera a essa pequena porta, algumas horas antes, com uma pungente commoção quando julgava possuir a prova do adulterio da esposa. O que era isso comparado com o confrangimento da alma que sentia agora e que quasi o suffocava? A porta abriu-se como da outra vez. Como da outra vez subiu a estreita escadaria com{155}o seu tapete, os quadros e a graciosa ornamentação á qual certamente presidira sua mãe. Como d'aquella vez entrou na ante-camara e depois na bibliotheca aonde se achava o doutor Salvan, ao qual na perturbação produzida pela catastrophe, não transmittiram a primeira resposta, por isso que acolheu os recemchegados, dizendo-lhes:—«Esperava-os... Deixou já de soffrer e exhalou o ultimo suspiro, n'uma commoção suave e por sua causa,» accrescentou, dirigindo-se a Norberto. «Recuperou os sentidos, e pude comprehender que desejava tornal-o a vêr. Nas paralysias medullares progressivas está-se sempre á mercê d'uma syncope, e esta deu-se precisamente na occasião em que a minha carruagem partia. Ouvi o ruido produzido pelas rodas e elle tambem e lançou-me um manifesto olhar de reconhecimento!... Cinco minutos depois deixou de existir.... Havia muito já que morrera para o mundo e que entregára a alma a Deus. Não tendo mais nada a fazer aqui, vou presencear outras miserias. Ha-as bem peores e que não teem uma santa para as consolar....»O medico retirou-se e o rodar da sua carruagem—o ultimo ruido da vida percebido uma hora antes pelo morto—annunciava que esse grande homem de bem ia, como tinha dito, presencear outras miserias; e aquella a cuja dedicação rendeu merecido preito em termos d'uma veneração tão enternecida continuaria na sua missão de caridade cumprida, ha annos, na velha casa do modesto quarteirão, asylo, n'outro tempo, de tantas vocações religiosas.{156}As tilias do jardim, na epocha em que guarneciam a cerca d'um convento, viram passar por sob a sua sombra no verão e as folhas douradas no outomno, muitas mensageiras da consolação, mas nenhuma d'ellas tinha o coração inundado d'uma piedade mais profunda e mais ardente do que essa mulher quando se ajoelhou na camara mortuaria. Tomou de novo entre a sua a mão do marido que, em pé, olhava seu pae, immovel na cadeira. A celeridade dos ataques repetidos não permittiu que transportassem Raynevilhe—demos-lhe o seu verdadeiro nome—para a cama.Apenas, para prevenir qualquer choque nas convulsões do ataque, foi introduzido um travesseiro por detraz da cabeça, sobre o qual se destacava o seu rosto hirto e cuja extrema magreza attestava o marasmo d'uma physiologia gasta por muitos annos de doença.Os labios não cobriam completamente os dentes, que brilhavam na bocca livida. As palpebras, mal cerradas, deixavam ver o globo vitreo dos olhos. Mas o doutor Salvan dissera a verdade: apesar dos signaes do soffrimento que deviam tornar o seu aspecto sinistro, denunciava o socego, a tranquilidade de redempção emfim alcançada. O padre, chamado á ultima hora, e que resava a um canto do quarto, tinha já collocado no peito do morto um crucifixo sobre o qual se cruzavam as suas mãos que pareciam de cera, e cujos dedos os espasmos do ultimo ataque tinham como que torcido.Os cabellos raros e a barba toda branca foram{157}penteados. O jaquetão de cachemira preta estava abotoado até ao pescoço, e tinham-lho deitado sobre as pernas, sem duvida para encobrir a deformação dos pés que as contracções deviam ter produzido. Valentina percebeu, pela violenta pressão dos dedos do marido sobre a sua mão, que os pensamentos que o triste espectaculo lhe suggeria eram muito dolorosos. Levantou-se e conduziu-o á bibliotheca, onde a senhora de Chalinhy, de 1875, sorria na sua moldura oval, e, chegados ali, disse-lhe grave, acariciadora e persuasiva.—«Volta já para a rua Barbet-de-Jouy, Norberto, peço-t'o. Ficarei aqui mais algum tempo para cumprir um dever; o teu cifra-se apenas em o coração lhes fazer presentemente inteira justiça...» E com a mão indicou-lhe primeiro o retrato da mãe e em seguida a porta do quarto onde repousava o morto. «Entra no meu gabinete e procura na gaveta da secretaria um cofre de couro; abre-o» e desligou d'um bracelete aonde estavam presos alguns berloques, uma pequenina chave d'ouro, que lhe entregou. «Ali encontrarás um sobrescripto que tem por fóra as palavras: «Para meu marido, depois d'eu morrer», escriptas pela minha mão. Toma conhecimento do que contem e se desejares voltar aqui, iremos depois juntos...É ella que assim o quer...»Achava-se tão esgotado por uma série de acontecimentos qual d'elles mais violento, que obedeceu á esposa, como teria obedecido vinte e cinco annos antes a uma supplica d'aquella cuja effigie inesperadamente apparecida n'aquelle mesmo logar{158}se lhe tinha afigurado como mais compromettidor indicio. Recebeu a chave e deixou-se conduzir por Valentina até á porta, e meia hora depois, tendo encontrado o cofre de couro negro de que lhe falou, e dentro do cofre o sobrescripto com a epigraphe indicada, eis as paginas que começou a ler. Eram todas escriptas por Valentina e datadas de 3 de setembro de 1897, dois dias precisamente antes da mãe fallecer. As palavras traçadas no sobrescripto estavam reproduzidas no principio d'aquellas paginas, cuja primeira linha, por uma recordação do terno appello feito pela senhora de Chalinhy a Valentina, o fez logo chorar. Tinha por ventura culpa de não ter conhecido, então o que era esta mulher! Porque lh'o não teria sua mãe revelado? Ai! As mesmas reservas da sua vida de casado, conheceu n'outro tempo, no seio da familia, como filho.Tinha a pesarem sobre elle as consequencias sombrias e crueis do seu sêr concebido na mentira e temor. Trazendo tambem o mesmo peso sobre o coração, como teria sua mãe podido viver com elle n'essa communhão que suppõe a inteira sinceridade? É a inevitavel expiação das felicidades prohibidas que pela necessidade do mysterio, não permittem a uma mulher dizer ao seu proprio filho qual o sangue que lhe corre nas veias e o nome d'aquelle que deveria chamar seu pae!«Para meu marido, depois de eu morrer.»«3 de setembro de 1867«A mamã esteve hontem tão mal, que o medico{159}julgou que não vivesse 24 horas. Pediu-me que não a abandonasse, ella que de ordinario deseja sempre que me vá deitar. A enfermeira devia substituir-me depois da meia noute. Comprehendi logo, pela sua terna insistencia que tinha uma ultima recomendação a fazer-me, á qual ligava uma extraordinaria importancia. Não podia suspeitar quanto essa entrevista teria de solemne e que confidencia me ia ser feita, a qual quero transcrever aqui, n'este momento em que todas as suas palavras estão ainda tão precisas na minha memoria. Quer ella, se eu morrer antes de uma certa pessoa, que meu marido seja o depositario d'este segredo, que não teve força para lhe revelar. Assim o quer para que um certo dever seja cumprido, dever que me confiou. Satisfarei os seus desejos deixando depois de mim, se for necessario, este testemunho. É precizo que eu reproduza as suas proprias palavras e que não misture com ellas as minhas emoções. Não poderia expôr d'outra fórma o seu pensamento. Depois d'essa conversa estou exhausta, estonteada. Só a vejo a ella e só a ella ouço.«Reinava em volta do palacio um profundo silencio.«Nesta epocha do anno poucas carruagens transitam pelas ruas Varenne e Barbet-de-Jouy. A palha que se fez espalhar pelas duas ruas amorteciam-lhes o ruido.«Instalei-me á cabeceira da cama, com a minha costura, mas não consegui fazer nada.«Pousava-a constantemente para olhar o pobre{160}rosto d'essa mulher, que era ainda tão bella quando casei, e onde vejo já pronuncios da morte proxima.«Fechou os olhos e parecia dormir.«Rezava mentalmente, pedindo a Deus coragem para me fallar, e quando levantou as palpebras, vi-lhe no olhar um tão intenso ardôr que advinhei logo o seu desejo e antecipando-me, para attenuar um pouco o grande esforço que faria em articular as palavras, disse-lhe:—«Está muito afflicta, mamã?... Quer alguma coisa de mim? Estou prompta para lhe fazer o que desejar.»—«Quero,» respondeu ella. A sua voz tão fraca n'estes ultimos dias tornou-se forte. Senti que ia gastar os ultimos lampejos da vida. «Como isto é penoso», acrescentou ainda.«A sua enorme perturbação assustou-me tanto que lhe disse:—«querida mamã está muito incommodada. Se tem qualquer pedido a fazer-me sabe que estou sempre prompta. Espere para amanhã, para depois ou para d'aqui a oito dias... Terá então já recuperado as forças...»—«Não,» respondeu, mostrando-me o rosto terrozo, amarellado, «terei ja morrido. É precizo que te falle agora, Valentina,» continuou, com a sua voz d'outro tempo, readquirida por um milagre de energia, «repito-te, vou morrer. Sei-o perfeitamente. Disse-mo o medico quando lhe declarei que tinha um assumpto extremamente importante a regular. Esse assumpto consiste em confiar á tua honra um segredo que não deve ser conhecido de{161}ninguem, excepto de Norberto, em duas circumstancias que precisarei. Consiste ainda em te encarregar d'uma missão muito delicada, muito penosa. Se vires que não podes cumpril-a, peço-te que m'o digas francamente.»—«Guardarei o segredo, mamã, e se a missão não é impossivel, cumpri-la-hei. Prometto-lho.»—«Obrigada,» disse ella, «mas para ter coragem de te fallar, preciso orar primeiro.»«Fechou os olhos. Na sua triste figura, tão doente, vi uma expressão de intensa dôr.«Os labios descórados recitavam muito baixo uma oração que eu não ouvia. Tinha medo...«Quando a oração mental terminou, disse-me:«Apaga a luz. Não poderei fallar se me vires e eu te vir a ti.» Obedeci-lhe:«Vem para o pé de mim», repetiu ella, «muito proxima, e dá-me a tua mão.» Obedeci-lhe ainda.«Os seus dedos ardiam em febre e na obscuridade em que nos achavamos, o som d'essa voz que parecia vir da outra vida,—e não era a confissão d'uma alma que não pertencia já a este mundo?...—nunca me esquecerá.—«Minha filha», começou ella, «o que tenho a referir-te deve ser dito sem interrupção.«Amei um homem que não era meu marido, que vive ainda e é o pae de Norberto. Chama-se, direi antes,chamava-seFilippe de Raynevilhe...«Estando prestes a entregar a alma ao creador e a ser julgada por uma falta que bastante expiei já e que expio ainda n'este momento, não tentarei desculpar-me.{162}«Conheci Filippe antes do meu casamento; era filho d'um dos visinhos do solar de meus paes, na provincia. Amámo-nos, sem reserva, com a esperança, com a certeza de um futuro enlace, que um inesperado acontecimento, uma mortal inimisade entre seu pae e o meu, a proposito d'uma questão d'interesse, tornára impossivel.«As duas familias sabiam dos nossos sentimentos.«A sua obrigou-o a fazer uma viagem, e a minha occultou-me que havia sido violentado a partir.«Consenti em casar com o marquez de Chalinhy.«Repito-te que não procuro justificar-me.«Precedi mal desposando alguem que não amava, tendo a imagem d'outro no coração. Mal fiz ainda em não occultar de meu marido a minha indifferença para com elle. Peor fiz, porém, affastando-o pela minha frieza, em tomar como pretexto a sua infidelidade para justificar a minha.«Teve uma amante. Soube-o. Disse comigo que a sua falta de fé conjugal me tornava livre.«Encontrei Filippe no mundo, a nossa antiga paixão reviveu; lancei-me nos seus braços e fui mãe.»«Ficou como morta. Apertei-lhe a mão com toda a piedade que, perante a confissão d'uma tragedia tão simples mas tão pungente na sua expressão muito humana, me enchia o coração. Com a outra mão, a que conservava livre, acariciava-lhe as faces, como faço algumas vezes, quando soffre mais e não supporta sequer que lhe toquem. Os meus dedos molharam-se com as suas lagrimas que lhe corriam dos olhos, silenciosamente, promovidas pelas caricias, que n'essa noite lhe prodigalizei.{163}«Para me provar quanto taes caricias, depois do que acabava de me confiar, lhe eram agradaveis e doces, agarrou-me na mão livre e levou-a aos labios. Nunca chorei tanto como n'esse momento.—«O peor está ainda para dizer», repetiu depois: «quando Norberto nasceu juro-te que não receberia o nome de Chalinhy se não tivesse tido outro filho. Não tinha tido força para me conservar uma mulher honesta, por causa d'esse filho, e não tive tambem coragem para o abandonar. Illudi a minha consciencia justificando-me com tantos exemplos de eguaes compromissos que via em torno de mim, e tambem porque a grande fortuna era minha. Estes miseraveis sophismas foram bem castigados. Se tivesse fugido com Filippe nada do que aconteceu, e que é medonho, teria acontecido. Era muito rica, bem o sabes. Vivia no mesmo meio em que tu vives hoje, sem ter nunca que me preoccupar com as questões de ordem material. Reynevilhe herdára dos seus uma fortuna muito abalada. Para viver na sociedade e fazer figura n'ella gastava mais do que os rendimentos. A infelicidade, soube-o depois, perseguia-o tambem. A fallencia d'um banco, em que imprudentemente collocára uma parte dos fundos, acabou de o arruinar. Se ao menos me tivesse dito alguma coisa!... Mas eu ignorava tudo! Vendo-se na necessidade de mudar de vida—o que segundo elle imaginava, o desgraçado, equivalia a perder-me—commetteu um crime. Tinha um tio muito velho e muito rico, sem filhos. Nenhum dos primos necessitava verdadeiramente da herança.{164}«O tio falleceu de um ataque, na epocha em que Filippe se achava mais atormentado, e, tendo sido chamado para junto d'elle, não resistiu á tentação, destruiu o testamento e fabricou um em que era declarado seu unico herdeiro... Uma manhã, ao despertar, Chalinhy entrou no meu quarto e mostrou-me um jornal onde se relatava a descoberta da falsificação e a prisão de Reynevilhe... Se não enlouqueci repentinamente, foi porque o olhar de meu marido me fez comprehender que suspeitava da nossa ligação. Pensei em Norberto, e tive força para me calar...»—«Ah! pobre mãe!» exclamei, «tem razão em dizer que tudo expiou. Pagou tudo com a dedicação por seu filho n'esse momento. Tem porventura a culpa de se ter enganado a respeito do senhor de Reynevilhe e d'elle ser um miseravel?»—«Não lhe chames miseravel, porque o não é», interrompeu logo. Quando classifiquei d'uma maneira tão dura o amante falsario, a minha imaginação ia alem da sua confidencia. Reportava-se á historia sinistra d'umachantage. Pela energia com que a sua mão se crispou sobre o meu braço, reconheci que os seus sentimentos pelo pae de Norberto não eram de odio e de desprezo. Continuei a escutal-a:—«Tudo o que Filippe havia feito, fel-o simplesmente porque me amava. Posso fazer a mim mesma a justiça de que tive a intuição d'isso, desde o primeiro momento. A certeza d'um horrivel equivoco é que evitou que succumbisse logo, ali mesmo.«O meu instincto de mulher não me enganou...{165}Mas», e o tom da sua voz denunciou um intimo desespero, «como posso provar o que sei tão bem! Julgam-se os homens pelos seus actos, e este é dos que se não perdoam. Uns matam porque amam, encontram ainda quem os proteja, quem os lamente, quem os estime. Para um falsario é a deshonra, a vergonha eterna, inexplicavel!... E portanto!... Escuta, Valentina, conheces-me. Tão verdade como eu vou comparecer deante de Deus, nunca mais na minha vida commetti uma segunda falta, nunca mais. Observaste a minha vida. Vaes presencear a minha morte. O juramento d'uma mulher no estado em que me encontro, poderia ser duvidoso?... Pois bem! Juro-te que Filippe não foi mais culpado do que o que mata porque ama. Não teve senão o amor a compellil-o ao crime, repito-te, sob juramento, só o amor. A sociedade tinha o direito de o julgar pela maneira porque o fez castigar. Os seus tinham o direito de o desprezar e os amigos de não mais o conhecer. Elle mesmo tinha o direito de se condemnar, como fez tambem... Mas eu, por causa de quem commetteu o crime, para me não deixar, para viver a minha vida, porque me amava, emfim, era a unica que tinha o dever de o não despresar e não o despresei...»—«Vive ainda?» perguntei-lhe quando terminou. «Sabe que vive e aonde vive?»«Posto que não comprehendesse ainda muito bem o fim a que tendia esta suprema confidencia, percebia comtudo que queria associar-me d'alguma maneira á sua obra de piedade. Sem duvida{166}tinha continuado a manter uma correspondencia activa com esse infeliz, retirado longe de Paris, e tendo-lhe occultado o seu estado, temia que uma carta d'elle, recebida depois da sua morte, fosse parar ás mãos de Norberto. Ia pedir-me que fosse eu a mensageira de tão triste situação? Estava já resolvida a prometter-lhe que contasse comigo. Não presenti senão uma parte da sua vontade. Podia lá adivinhar a que excesso de dedicação a conduzira a sua piedade por esse criminoso por amor, do qual era a unica consolação, no seu tristissimo estado physico!«Tinha-a muitas vezes ouvido dizer que o mundo está cheio de romances occultos, mais phantasticos na sua realidade palpitante do que todas as invenções dos livros.«Mas que uma aventura como essa fosse possivel—que uma mulher da nossa sociedade tivesse levado a exaltação do seu sentimento até consagrar a melhor parte da sua vida a um amante cahido—(e em que desastrosa queda!)—que encontrasse meio de lhe transmittir a esmola da sua ternura, por cartas, que o impediram de se matar,—que tivesse continuado a escrever-lhe durante o tempo do cumprimento da pena—que tornasse a ver esse amante depois de cumprida a mesma pena; que tivesse podido não uma vez, mas cem, mil vezes, escapar a todas as exigencias do seu meio para ir a uma casa perdida ao fundo de um arrabalde, passar uma hora com elle, reconfortal-o na sua angustia, auxilial-o com os seus conselhos na sua tortura moral—que esse homem{167}culpavel d'um tão grande crime, não tivesse mais sob esta influencia, nutrido senão um unico pensamento, mostrar-se digno d'uma tal amiga, resgatar um instante de aberração por uma vida inteira consagrada a boas obras—e que as relações d'esses dois seres se prolongaram assim, de mez para mez, durante annos, sob a ameaça d'um perigo continuo, n'este Paris do fim de seculo 19, tão positivo, tão brutal—não, não teria nunca imaginado um similhante romance e menos ainda que a sua heroina fosse a mãe de meu marido, esta marqueza de Chalinhy, que tanto me seduzio quando lhe fui apresentada, por a sua doçura, e comtudo ouço bramir na sua voz de moribunda todo este martyrio intimo dos seus tragicos amores.—«... Quando se descobriu tudo», disse ainda, «uma unica idéa o preocupou: fazer-me saber o motivo porque tinha cedido a essa allucinação, obter o meu perdão e morrer. Tenho as suas cartas. Lelal-as-has e saberás então quanto soffri. Ah! o que eu soffri?... Indicava-me um meio de lhe responder. Obtive d'elle que vivesse. Obtive que se deixasse julgar e condemnar quando se podia eximir a tudo suicidando-se. Mas eu não o queria. Amava e tinha fé. Tenho sempre tido fé, ainda mesmo quando me abandonava a esta felicidade prohibida... Tive logo a evidencia de que esta horrivel prova era o castigo dos dois, que Deus não nos puniria depois, se acceitassemos o castigo d'esta cruz. E que pesada que ella tem sido, para elle até agora, e para mim que devia escutar os commentarios do mundo a seu respeito, sem ter{168}a liberdade de o defender, nem mesmo de o chorar! Abafou-se o mais possivel o crime, por causa da familia, mas não tanto que a noticia do julgamento não chegasse ao dominio publico... E nos annos seguintes, emquanto cumpria a pena eu vivia no luxo, na honestidade e não abraçava nunca o seu filho sem me lembrar: «o pae está na prisão...»; sem o ver, a elle, na sua cella, que muito bem conhecia pela descripção feita nas suas cartas. Teve sempre meio de m'as enviar... E mais tarde, quando foi solto, e que nos tornámos a encontrar em face um do outro, pela primeira vez depois do funesto acontecimento!... Não padecerei mais ámanhã quando morrer... Emquanto estava na prisão, uma ironia da sorte quiz que herdasse, em consequencia da morte subita de um primo que falleceusem testamento, uma nova fortuna. Foi então que me foi permittido julgal-o completamente, vendo-o, livre, retirar-se n'um bairro pobre de Paris, com um nome falso, e começar ahi uma existencia de caridade, que não teve durante annos outro cambiante, senão procurar miserias a soccorrer, e as minhas visitas... Até que fiquei detida n'este quarto pela doença não se passou uma unica semana, quando estava em Paris, que não fosse vêl-o duas e tres vezes. Viuva, estas visitas tornavam-se-me faceis; mas n'outros tempos eram em extremo perigosas. Tinha receio principalmente por causa de Norberto. O que então senti pouco importa. O que importa é que vou morrer e desespera-me o que elle soffrerá depois da minha morte...{169}«Eis o que te desejava pedir, Valentina, que o vás ver quando eu deixar de existir, para lhe entregares as cartas, que não tive coragem de destruir, e que te esforces para lhe tornar o golpe o menos doloroso possivel. É actualmente um velho e um doente. Teve um ataque de paralisia ha mais d'um anno. Conhece-te. Sabe por mim o que és, e o que valem os primores do teu coração, pelo qual tenho tanta estima. É esta a maior prova que te posso dar d'isso!... A tua presença será o unico lenitivo que poderá receber. E depois, se tenho sido boa para ti, se conservares de mim alguma recordação, voltarás lá algumas vezes para o ajudares a esperar o momento de nos juntarmos...»—«Prometto que farei o que me pedes mamã,» respondi com os olhos inundados de lagrimas. Só com esta recordação as lagrimas caem ainda sobre este papel, mas não é de mim que se trata. É preciso que refira ainda estas outras phrases, que me disse tambem:—«Norberto deve ignorar tudo, sempre. Mas se a fatalidade quizer que te achasses muito doente e em perigo de desappareceres do mundo antes de seu pae fallecer, peço-te que falles. Falla tambem se Filippe reclamar o filho á hora da morte... Se não absoluto silencio!».—«Transcrevi esta conversa sem nada omittir, immediatamente, para que possa, caso qualquer das duas circumstancias se produza, obedecer inteiramente a essa pobre senhora. Depois será á sua supplica e não á minha que deve obedecer. Que a ouça como eu a ouvi! E que me acredite{170}piamente dizendo-lhe que tenho por ella, n'este momento em que os nossos corações acabaram de bater tão proximos um do outro, durante essa hora de agonia moral, tanta veneração como piedade!«Disse-me ainda que o sr. Reynevilhe mora actualmente na rua Lacépède n.º 11, com o nome deDumont.Valentina.»XEpilogoEram quatro horas da tarde quando o filho dos dois heroes d'este doloroso e mysterioso drama d'amor começou a ler as paginas em que a confissão da morta se achava reproduzida com uma emoção que a escripta e a redacção denunciavam. Ha muito que era já noite e ainda tinha nas mãos aquellas folhas, cujas phrases não podia deixar de repetir, uma por uma. Era como se as palavras pronunciadas nas trevas do leito da agonia, viessem, com effeito, do tumulo, d'ali, do Père Lachaise, onde tinha acompanhado sua mãe poucos dias depois que ella confiou os amargos segredos da sua vida, n'esta confissão suprema.A marqueza de Chalinhy não quiz que a depositassem no jazigo de familia. Fez construir no ultimo{171}anno da sua vida um tumulo especial, pedindo que na frontaria da pequena capella fosse gravado um unico nome:Armanda. O filho conformou-se com esta disposição testamentaria da mãe e viu n'ella um d'esses caprichos de hypocondria que as pessoas que padecem de doenças do figado, que tão profundamente alteram o caracter, teem muitas vezes. Comprehendia agora o motivo occulto d'um tal desejo. E recordava-se tambem de que ao lado do mausoléo da sua mãe, e quasi igual a elle, existia um outro completamente novo e que não tinha ainda nenhum nome gravado na frontaria. Admirára effectivamente uma tal similhança; mas disseram-lhe que o comprador d'aquelle terreno fizera copiar o monumento visinho por lhe ter admirado a simplicidade elegante. Esse comprador, adivinhava-o: era Reynevilhe. O amigo e a amiga quizeram repousar em mausoléos parecidos já que não podiam reunir-se no mesmo tumulo. Quem reconheceria o antigo homem escravo da elegante moda parisiense, o condemnado por falsificador, debaixo d'este appellido anonymo, este nome quasi impessoal de Dumont? Quando o filho fosse, de futuro, lançar flôres no tumulo da mãe, como fizera ainda no principio do mez de novembro, o tumulo do seu verdadeiro pae elevar-se-hia ali proximo implorando um olhar, um pensamento, um perdão. Recusar-lh'o-ia?... Não. A transformação que Valentina lhe tinha annunciado estava-se já operando n'elle. Era-lhe impossivel condemnar estes dois seres, dos quaes descendia. A sua falta foi tão tragicamente perseguida{172}pela justiça vingadora, inherente á felicidade criminosa, que, mesmo no coração d'um extranho, a piedade teria sobrelevado a mais severa austeridade. Como não havia, pois, um filho de sentir superabundar nelle essa piedade, jorrando em lagrimas sobre o papel onde se descobriam ainda os vestigios d'outras lagrimas? E esses vestigios recordavam ao marido de Valentina a ternura feminina que acabara de purificar uma aventura culposa no principio, ainda que com muitas attenuantes,—criminosa depois pela allucinação d'um dos seus auctores,—ennobrecida mais tarde, mesmo na propria falta, pela fidelidade e pela dôr. Chegou a mesma aventura ao seu conhecimento absolutamente purificada por sua mulher. Era para junto d'ella, pois, que n'aquelle momento voava a sua alma dolorida, porque só por intermedio d'ella podera reconciliar-se inteiramente com a morta e com o morto, de cujo adulterio o nascimento o havia tornado cumplice, mau grado seu, unicamente pelo nome. Fizeram ainda peor! Transmittiram-lhe no intimo do ser as violentas contradições dos seus actos e das suas sensibilidades.O que possuia de nobre e altivo, a instinctiva nobreza que o fizera soffrer sempre tanto com a mentira da sua traição a Valentina, devia-o a elles. O extranho romanesco da sua ligação mostrava evidentemente que tinham sido d'aquelles amantes que respeitam pelo menos os seus corações e que procediam movidos pela paixão e não pela intriga e pela galanteria. A fraqueza lamentavel da sua vontade em presença de certas tentações, provinha{173}ainda d'elles. O peccado do seu amor transmittiu-se-lhe no sangue e tambem nas commoções do perigo que tinham corrido para se darem um ao outro. O que tinha de ferozmente timido derivava d'elles, assim como a desconfiança da doentia susceptibilidade, o obstaculo levantado ha alguns annos entre si e a esposa, exactamente como entre elle e sua mãe. Para que a moribunda o não tomasse por confidente, n'aquella hora suprema, era preciso que tivesse deixado augmentar muito entre os dois a profundeza do silencio que só catastrophes como aquella que o feria conseguem despedaçar.Eis as ideias suggeridas por essas folhas de papel, já um pouco amarellecidas, a esse homem, subitamente collocado em presença da mais inesperada, da mais estonteante das revelações—idéas ainda emmaranhadas e indeterminadas, confusas e incertas. Não se desenhavam na sua reflexão em tão vivos contornos. Mas no emtanto apossavam-se já d'elle, condensavam-se levando-o ao reconhecimento apaixonado por Valentina, a uma necessidade de lhe pagar em ternura, em culto, em veneração, tudo o que ella tinha feito primeiro pela moribunda, em seguida pelo solitario da rua Lacépède, e por ultimo por elle proprio! Os acontecimentos succediam-se depressa, fornecendo-lhe occasião de provar esta gratidão, e, como acontece sempre quando se está collocado em certas situações d'uma ambiguidade insoluvel, a volta ao respeito do seu lar não podia fazer-se senão á custa de quem lh'o tinha feito profanar.{174}Atravez d'estes pensamentos e absorvido como estava pela evocação de sua mãe, vivendo de novo pelas palavras da sua agonia, esquecia onde estava e que antes do jantar, sua mulher recebia habitualmente no pequeno salão em que se encontrava. Os creados entravam para executar o seu serviço habitual, accender as luzes, correr os reposteiros e preparar o chá. Norberto não reparava, deveria prever que Joanna de Node, depois da fórma porque o tinha deixado essa manhã, viria certamente saber noticias á tarde.As recepções intimas das 6 horas da tarde, dadas por Valentina, eram um magnifico pretexto. Mas Norberto esqueceu completamente a existencia da amante. Certos accidentes do destino assemelham-se verdadeiramente aos grandes cataclysmos, ao sahir dos quaes—um incendio como o do Bazar de Caridade, um tremor de terra como o da Martinica—o homem que conseguiu escapar se transformou n'algumas horas n'um outro individuo. O abalo ao mesmo tempo nervoso e sentimental foi demasiado forte. Uma testemunha d'um desastre quasi perturbador da razão, não poderá readquirir mais nem as alegrias, nem as dores d'outro tempo, nem esquecer nunca a commoção soffrida.Se tinha apenas 25 annos esta manhã, no momento actual tem sessenta, tem cem. Mofava de si mesmo e da vida, e ella lacerou-o na fibra mais intima. A sua indifferença acabou da mesma fórma que a sua jovialidade. Uma outra não se conhecia, nem ao seu proprio coração. Ia em procura{175}de emoções obscuras atravez de experiencias nas quaes não chegava a conhecer o verdadeiro gozo.Todas essas recordações se apagaram d'um golpe. Aniquilaram-se simplesmente ao contacto d'uma impressão tão forte, tão mordente que não ha mais prazer em torno d'ella. Este ultimo caso era o que se dava com Norberto de Chalinhy. A sua intriga com Joanna, na qual os sentidos tiveram a parte principal, não podia interessal-o mais, senão como um remorso, depois das horas que acabava de passar. Não se havia mesmo recordado de tal intriga durante essa tarde, senão para se censurar amargamente de ter desconhecido por tanto tempo Valentina. Foi por isso que com uma estranha surpresa misturada de tortura e de irritação, viu entrar a amante no pequeno gabinete da esposa, pela fórma porque entrou, sem se fazer annunciar e quando tinha ainda na mão as folhas de papel depositarias do terrivel segredo. Joanna de Node ia em demanda de novidades, depois de ter passado toda a tarde em passeio e em visitas, sempre com a mesma idéa fixa: Chalinhy está na casa da rua Lacépède... O que terá acontecido?... As mais variadas hypotheses tinham umas após outras surgido ao seu espirito desde o homicidio que de novo reapparecia para logo ser repellido, como insupportavel para a sua consciencia, até á, muito mais provavel e em parte conforme com os factos, d'um inquerito junto dos lojistas visinhos. Conhecia sufficientemente Norberto, para não duvidar de que, tendo-lhe promettido{176}nada dizer a Valentina, deixasse de cumprir a sua palavra.O que arriscava então em ir ao palacio Chalinhy? Dirigiu-se pois, lá. Disseram-lhe os creados que a senhora marqueza ainda não havia regressado, mas que o senhor marquez estava em casa e ella subiu como tantas outras vezes, com o pretexto de esperar pela prima, mas na realidade para ter com Norberto alguns momentos de conversa, a fim de o interrogar.Viu logo ao primeiro golpe de vista, que continuava a estar muito perturbado. Por outro lado, aquella secretaria com a gaveta meia aberta, o cofre de couro, que sabia muito bem pertencer a sua prima, aberto tambem, a carta cuja lettra não conhecia, porque Norberto a tapou logo com as mãos; o seu proprio gesto e sobresalto de surpresa que nem mesmo dissimulou—estes diversos signaes condiziam perfeitamente com o estado de violencia e de desconfiança em que ella tinha deixado o marido cioso. Acreditou que, tendo abortado a investigação da rua Lacépède, em volta da casa suspeita, tomou o partido de forçar o esconderijo onde Valentina encerrava a correspondencia intima e que estava em via de encontrar ali a prova em presença da qual a duvida cessaria completamente. O seu apaixonado desejo de que a rival feliz ha tantos annos, ficasse emfim perdida para sempre, brilhou na ancia com que a invejosa, apenas entrou no gabinete, interrogou o amante:—«Não podeste saber nada lá em baixo?... De quem é essa carta?... de Valentina...»{177}—«Não prosigas, Joanna», interrompeu levantando-se e a sua mão continuava pousada sobre a carta, como para a defender. «Não posso consentir que me falles de Valentina... Enganaste-te... continuou com uma firmeza imperativa e que não admittia replicas. «Sim» insistiu ainda «enganaste-te no que me disseste e escreveste a seu respeito... Procedeste de boa fé e não te censuro por isso; mas peço-te que nunca mais entre nós seja feita a mais leve allusão a factos de que nem sequer me devo recordar, para continuar a prezar-me...»Joanna de Node ouviu esta declaração, para ella tão completamente inexperada, com uma estupefacção que a paralisou durante um minuto. Lia na physionomia d'este homem, que sempre conhecera tão hesitante, tão complexo, uma resolução inabalavel e viva!Porque processo a visitante do pavilhão da rua Lacépède, havia transformado esta vontade habitualmente tão vacillante e agora tão firme? Joanna não possuia o menor dado que a habilitasse a responder a esta pergunta. Estava, por outro lado firmemente convencida da culpabilidade de sua prima para poder suppôr que estes processos tivessem sido leaes e sinceros.A uma amiga que lhe pedisse conselho em igual circumstancia, teria sem duvida, indicado como unico caminho a seguir, uma apparente condescendencia á illusão d'um marido, tão complascentemente enganado contra toda a evidencia, mas o odio á esposa triumphante foi n'este momento mais{178}forte no espirito da amante do que o genio da astucia, e, com um tom de maldosa ironia, retrucou:—«Felicito-me por não duvidares da minha boa fé. Muito obrigada...O que escrevi e o que disse, para fallar como tu, escrevi-o e disse-o para quem? Para ti...Não tens em consideração que depois d'isso ficaste n'um tal estado que me fazias medo. Não vim aqui, esta tarde, senão por esse motivo, pois estava muitissimo inquieta, temendo qualquer violencia da tua parte. Se Valentina foi assás habil para conseguir o que eu não consegui, isto é, para te acalmar, tanto melhor para ella... Mas, lembra-te, bem que no dia em que me quizeres tornar a fallar a seu respeito e das pretendidas revelações que a tia ou alguma amiga lhe tivesse feito, não te deixarei proseguir.Continuarei a ser sempre sacrificada...»Norberto fitou-a sem lhe responder. Acabava de communicar com uma alma magnifica n'uma dessas crises em que uma dôr violenta como que nos transforma os sentidos, para os quaes toda a sinceridade e toda a mentira são facilmente perceptiveis. Reconhecia agora, com uma espantosa evidencia, o fundo do coração de Joanna:—a paixão d'essa mulher por elle foi sempre alimentada só pelo seu odio por Valentina! A sua longa fraqueza inhibiam-no de fazer exprobrações que, partindo d'elle, tinham tanto de ridiculas como de odiosas. Sabendo, além d'isso, o que agora sabia, nada constituia para elle uma tão grande profanação, contra a qual toda a sua honra protestava, como{179}ouvir a amante proferir o nome d'essa mulher admiravel. Resignou-se a ficar calado, e para mostrar melhor o seu firme proposito de terminar radicalmente uma explicação insustentavel, começou a pôr tudo em ordem na secretaria, mettendo as folhas da «Declaração», no sobrescripto, o sobrescripto no cofre, e como fechasse o cofre com a pequena chave d'ouro, Joanna que vira durante muitos annos esse pequeno broloque no bracelete de Valentina, começou, a rir com aquelle sorriso insolente que já duas vezes empregára, tendo-se d'ambas ellas Norberto revoltado com o ultrage. D'esta vez ainda estremeceu e as mãos tremeram-lhe. Mas nem uma unica palavra escapou dos seus labios á qual Joanna poderia retorquir com alguma nova insinuação.Teria ella, se esta entrevista se prolongasse, tido a audacia de afrontar a colera reprimida que devorava o amante?A existencia d'essa chave nas mãos do marido que deixára loucamente desconfiado, e que encontrava tão estranhamente conformado depois dos indicios altamente compromettedores, era a prova, para ella, de que uma scena qualquer se déra entre os esposos, e que, apertada por Norberto, Valentina empregou o derradeiro artificio das mulheres levadas ao ultimo extremo: exigir uma inquirição, reclamar que os seus papeis intimos sejam vistos na sua ausencia. Teem antecipadamente tudo preparado para que a busca dê em resultado a completa cegueira do accusador. Era assim que, julgando a prima por si, Joanna de Node interpretava{180}um reviramento, tão extraordinario no qual não acreditou nos primeiros momentos, e em que, agora mesmo, só com difficuldade acreditava. Iria formular esta nova accusação e provocar da parte d'este homem que, resolvido a romper com ella, se constrangia para a não maltratar, uma explosão de revolta e de desprezo? A subita chegada da rival, da propria Valentina evitou-lhe essa má acção.Inquieta por causa do marido que sabia achar-se em disposição de ler a confissão da morta, e fatigada por ter cumprido, na rua Lacépède, o funebre dever, a nobre mulher sentiu uma intensa dôr, quando soube que Joanna a esperava.—Recordou-se de que, durante horas, depois das revelações da tia Nerestaing, se havia debatido contra provas indiscutiveis. (O barão de Node tinha communicado á velha fidalga as informações colhidas por uma agencia, precisando o nome de um hotel de provincia onde os dois amantes passaram tres dias e a data. Essa data coincidia exactamente com uma ausencia simultanea feita por Norberto e Joanna.)Depois o ruido das suas vozes, vindo do pequeno salão e a transformação subita do avisado, dissiparam as ultimas duvidas da confiante Valentina.Recordava-se tambem ainda de que na sua alma toda generosidade, toda dedicação, a visão do filho tão terrivelmente, tão subitamente esclarecido a respeito da mãe, a havia arrastado á piedade.A mordedura do ciume fôra tão aguda que hesitou em entrar na casa aonde se achavam os dois cumplices. A sua emoção foi tal que teve de se{181}apoiar durante um momento contra a parede da casa que precedia o pequeno salão.Foi então que, recordando-se da violencia com que a mão do marido apertou a sua, primeiro ao descer da carruagem quando lhe foi annunciada tão bruscamente a morte de Raynevilhe, depois junto da cadeira em que o velho amigo da senhora de Chalinhy jazia immovel para sempre, sentiu de novo quanto esse homem, fraco e apaixonado, necessitava d'ella. Ao mesmo tempo, porque era mulher, sentiu um certo orgulho em lhe provar a nobreza d'um coração, que elle desconhecia até ahi, mesmo em presença d'aquella por causa da qual a havia esquecido. Disse, para comsigo mesma: «Não devo saber d'essas vilanias; é a minha unica vingança...» E teve energia bastante para transpôr a porta do pequeno salão e cumprimentar Joanna da mesma maneira porque o teria feito oito dias antes, quando de cousa alguma desconfiava ainda.—«Vim mais tarde, é uma falta imperdoavel, da qual espero me desculparás, Joanna... Devias ter preparado o chá. Fazes o obsequio de o servir emquanto vou tirar o chapeu?»—«Estou um pouco incommodada», respondeu a outra. «Vim unicamente saber noticias tuas. Vou-me já embora. Esperam por mim na rua Barbet e é já tarde.» E, fitando Norberto com um olhar d'um impudôr e d'uma dureza singulares, accrescentou «Teu marido esperava por ti. Encontrei-o tão impaciente para te ver, que evidentemente estou aqui demais...» Fixou a prima d'uma maneira{182}que deixava transparecer todo o seu antigo odio, exasperado pelo choque inesperado e para ella inexplicavel, que soffreu n'uma lucta em que tanto desejava triumphar.Tinha ainda no olhar uma peor e mais insultante ironia, a d'uma mulher que, mentalmente, diz para outra: «Podes ludibriar á vontade esse imbecil, mas a mim não me enganas tu, minha menina...» Depois disse alto: «Supponho que terão muitas cousas que dizer um ao outro. Deixo-os, pois, na paz domestica!...»E sahiu, depois de proferir estas palavras, que tinham, na sua bocca, uma bem insolente significação. Norberto e Valentina sentiram egualmente a crueldade d'uma tal ironia, n'aquella occasião. Ficaram alguns instantes sem proferirem uma unica palavra, depois, ajoelhando-se em frente da esposa e tomando-lhe as mãos entre as suas, o marido infiel disse quasi em segredo:—«Será bastante a minha vida inteira para tudo te pagar?...»—«Pagar-me, o quê?» respondeu Valentina. «O ter-te amado sem t'o saber mostrar? Conhecel-o agora. Não estou a lamentar-me.» Proseguiu depois, obrigando Norberto a levantar-se, e appoiando a cabeça fatigada sobre o hombro d'esse homem que sentia, emfim, pertencer-lhe:—«Quem devemos lamentar são os que são amados sinceramente e que não teem direito a sêl-o, os que não podem ser verdadeiros para comsigo mesmo sem mentir aos outros, aquelles cujas felicidades podiam ter evitado muitos soffrimentos{183}a si e aos outros... Lastimal-os, tu?» perguntou ella.—«Lastimo-os, sim», respondeu Norberto, e na inexpremivel emoção de tantas maguas e de tantos erros, esses dois entes trocaram o primeiro beijo de amor que um e outro deram e receberam.Esta historia d'um episodio romanesco, desenrolado no meio menos romanesco que existe, a alta sociedade parisiense, não ficaria completa se o chronista não transcrevesse aqui—sem commentarios, como vulgarmente se diz em estylo de gazeta—o final d'um dialogo que surprehendeu uma noite, no theatro, do fundo d'uma frisa, que habitualmente frequentava, menos para gosar o entrecho das peças que se representavam no palco (levava-se n'aquella noite um drama no qual se fazia a apologia em regra da união livre!) do que para admirar aquella ou aquellas que lhe era licito adivinhar no vasto salão.Uma das interlocutoras era a senhora de Bonnivet, de que já fallámos e Saveuse, tambem nosso conhecido, ignorando um e outro que fallavam deante d'uma testemunha que conhecia o facto bem melhor do que elles proprios; commentavam:—«Sabe V. Ex.ª qual é a novidade mais palpitante?» dizia Saveuse, «a ex-baroneza de Node desposou um americano extremamente rico, chamado Harris, de New-York, o irmão do primeiro marido da princeza d'Ardêa.»{184}—«Era uma amiga» respondeu a senhora de Bonnivet. «Se fôr para os Estados Unidos teremos uma mulher divorciada menos a receber e a sermos recebidos por ella, conforme os dias. E que qualidade de pessoa é esse tal Harris?»—«Um homem encantador, um bonito rapaz e muito apaixonado por ella», respondeu Saveuse.—«Ainda bem!» repetiu a senhora de Bonivet, «tinha todo o direito a alguma felicidade desde que Chalinhy a deixou tão indignamente. Vamos tornar a ver este triste personagem. Visto que Joanna vae deixar Paris, Valentina com certeza lhe permitte que volte por cá. Depois de doze mezes passados no campo e d'um filho! Acho tudo isto d'um ridiculo espantoso, repugnante mesmo. Não haveria melhor maneira de fazer saber ao mundo que se era enganada e que tudo se perdoou?»—«Não sabe então ainda o melhor», insistiu Saveuse, «que não usam já ou vão deixar de usar o appellido Chalinhy. Trabalham para restabelecer o nome de Nerestaing...»—«É por causa do Castello. Isso é muitoridiculo,» replicou ella rindo.Ha ainda cousas tão profundas como as aguas tranquillas e como as bellas almas silenciosas. É a ignorancia e a maledicencia dasamigase sobre tudo dosamigos.FIM{185}{186}
Valentina não accrescentou uma unica palavra á confissão que lhe escapou, contra sua vontade, e que não fez mais do que antecipar a inevitavel conclusão a que a convergencia de tantos indicios{149}reveladores, arrastariam Chalinhy, mais tarde ou mais cedo. Elle, por sua parte, não fez nenhuma pergunta mais. Seguiu, quasi automaticamente, a mulher desvairada, descendo com ella a grande escadaria e atravessando tambem com ella o perystilo. Quando chegaram á porta do palacio o «coupé» do medico tinha partido já.
—«Meu Deus!» exclamou Valentina. «Deu-se o que eu temia. É muito tarde! Ah! E pensar que talvez morra n'este instante!...» Foram-lhe necessarios alguns minutos para arranjar uma carruagem de praça que levou proximamente meia hora, apezar das reiteradas instancias, em fazer esse longo trajecto, quasi metade de Paris, que a encantadora mulher tinha andado tantas vezes, occultando-se. E, comtudo, agora fazia o mesmo trajecto apertando nas suas as mãos d'aquelle a quem tanto tinha querido encobrir estas visitas. Norberto continuava calado; mas, de tempos a tempos, correspondia á pressão d'esses dedos fieis, e, na dor intima em que se debatia sob o imperio da mais dolorosa das revelações, a presença da mulher que por tanto tempo desconheceu e que via tão carinhosa, tão dedicada, enternecia-lhe o coração. Não ignorava actualmente, nada com respeito ás suas traições. Tinha-o ouvido gemer de dor ao comprehender que suspeitava d'ella, de maneira tão injuriosa, sugestionado por uma amante—e que amante!...
Traições, injurias, humilhações, nada tinha a perdoar-lhe porque tudo havia esquecido na sua piedade pelo marido que soffria, e que ella via soffrer.{150}Porque se não teria evidenciado mais cedo esta alma tão retrahida e tão nobre? Porque não revelou tambem Valentina, para com o homem que amava dedicamente, mais vehemencia n'esse amor, mais expansões, porque lhe não patenteou toda a intensidade do seu affecto?
Ai de mim! A prophetica formula, do poeta antigo será sempre verdadeiro tanto no dominio dos modestos destinos particulares como nos das evoluções sociaes:
«A sciencia em relação á dôr...» a que ás vezes se deve accrescentar e em relação á falta de cumprimento dos deveres! Sem que a generosa Valentina desse per isso, a chamma que brilhava nos seus olhos, n'aquelle momento, provinha da febre que o ciume lhe despertára desde que sabia da infidelidade do marido.
Perante o vivo pesar que a traição lhe produzia sentia bem quanto o amava, de maneira que a tenebrosa intriga da invejosa Joanna produziu um resultado diametralmente opposto ao que ella desejava! E o marido desleal não estabeleceria tambem n'aquella mesma occasião uma comparação esmagadora para os seus indignos amores? Valentina e Chalinhy viviam ha muito tempo já uma vida recondita a par da vida apparente. Havia porém uma differença é que a reserva do marido servia para atraiçoar a mulher e a d'ella para cumprir uma missão de piedade filial da qual quiz, a todo o custo, evitar-lhe a amargura... Experimentariam elles todos estes sentimentos dentro da carruagem que os conduzia áquella scena suprema{151}de tristeza e agonia? Liga-se aos nomes, pae e mãe, um respeito augusto que torna muito penoso termos de associar a elles idéas como as que deviam de futuro e para sempre, levar ao espirito de Norberto a recordação dos dois entes que lhe haviam dado o ser. O adulterio de sua mãe—a condemnação infamante do verdadeiro pae—o seu nome que não era verdadeiramente o que lhe pertencia. Que vergonhas! Que miserias! Como se lesse no pensamento do desventurado, Valentina disse-lhe, rompendo pela primeira vez um tão cruel silencio em frente da pequena casa aonde o antigo amante da mãe de Norberto acabava de morrer:
—«Fiz a tua mãe a promessa de não te dizer a verdade a não ser queellete chamasse para junto de si nos ultimos momentos da vida. Ameniza-lh'os. É ella que t'o pede, pois é o unico caso em que desejava que tudo te fosse revelado... Tem a certeza que te está vendo n'este momento... É talvez a sua ultima expiação...»
—«Não me peças nada em seu nome,» replicou Chalinhy em voz quasi imperceptivel! «Incutir-me-has menos coragem. Conheço a minha vergonha e que uso um nome roubado.»
—«Soffreram muito,» respondeu ella. «Expiaram bem as suas faltas! Tu o saberás!... Tu o saberás!...» repetiu estas palavras por tres vezes com uma convicção que mesmo n'aquelle momento de angustia fez aflorar aos labios do filho uma pergunta irritada:
—«Que mais devo ainda saber?»{152}
—«Tudo,» replicou ella em tom grave. «Não são os actos que devemos julgar na vida são os corações. Ah! Cede aos impulsos do teu n'este momento solemne, meu Norberto, arrepender-te-hias mais tarde de não teres perdoado.»
Chegaram á porta da casa defronte da qual se achava o coupé do doutor Salvan. O cocheiro, que tinha descido da almofada achava-se junto da porta e ao reconhecer a marqueza de Chalinhy dirigiu-se para ella assim que desceu da carruagem.
—«O que ha?» perguntou-lhe Valentina percebendo na sua physionomia que se passava alguma cousa muito grave.
—«Morreu», respondeu o homem, muito baixo, indicando com a mão as janellas do primeiro andar da pequena casa, com a voz tão indifferente na sua gravidade fingida que toma a gente do povo para annunciar um acontecimento tragico e de cuja importancia parece participarem tambem, só pelo desempenho d'uma tal missão.
—«Morreu!...» repetiu Valentina e apertou a mão do marido para lhe dizer:
«Não teve tempo de saber a tua resposta e a tua primeira recusa, juro-te....»
«Não é verdade» accrescentou em seguida, dirigindo-se ao cocheiro: «foi emquanto se dirigiu á rua Barbet-de-Jouy que falleceu?»
—«Justamente, na occasião em que parti. Não sei como isso foi, comprehendeis, como cheguei n'este instante, o creado que entrava de chamar o padre é que me contou o accidente». A marqueza{153}de Chalinhy sentiu que o marido ao receber a triste nova, se apoiava ao seu braço para não cahir. Conheceu que a commoção produzida pela noticia da morte, recebida d'aquella fórma, lhe augmentaria os remorsos, por ter perdido a occasião suprema e unica de mostrar alguma piedade por aquelle que sabia era seu pae.
Por esse motivo, e ainda para lhe evitar logo uma tal dôr, é que forçou o cocheiro a precisar um detalhe que devia, era sua convicção, attenuar, pelo menos n'um ponto, a impressão experimentada por Norberto. Viu, porem, que a segunda resposta o deixára mais perturbado ainda. Impallideceu tão horrorosamente que julgou que ia desfallecer. Valentina ignorava ainda que o ataque que victimou o doente se tinha declarado na occasião em que deparou inesperadamente com Norberto, julgando receber a visita do negociante enviado pela marqueza, por isso ella, muito afflicta, impelliu-o para dentro do carro, dizendo:
—«Estás muito commovido. É conveniente não entrarmos... Se queres dizer-lhe adeus, voltaremos cá ámanhã...»
—«Não,» respondeu elle. «Quero vel-o, immediatamente.»
—«Ah! meu amigo, perdoaste-lhe. Ah! Ainda bem!»
—«Perdoar-lhe!...» repetia Chalinhy, concentrando n'esta especie de suspiro todos os sentimentos tão contradictorios que o agitavam: o horror de ter sido a causa, muito involuntaria, mas a causa, em todo o caso, d'esta crise ultima a que o{154}moribundo tinha succumbido,—a revolta sempre fremente da sua honra contra a revelação que lhe fizeram a respeito da mãe;—uma emoção violenta, á idéa de que, ali, dentro d'aquelle pavilhão solitario acabava de morrer aquelle que sua mãe amou e que lhe deu o ser,—um reconhecimento augmentado constantemente pela esposa mal apreciada e trahida, sim, que elle trahiu como sua mãe tinha trahido o velho Chalinhy.
Tinha, porventura, o direito de se indignar, de «perdoar», como dissera Valentina?
Para perdoar não era necessario ter auctoridade para condemnar?
Sentia tambem uma imperiosa necessidade de tornar a vêr, antes da completa desapparição que ia seguir essa morte, o scenario onde se desenrolou essa longa tragedia ultima na qual foi iniciado tão funestamente;—de tornar a vêr as feições do que n'ella foi o heroe, do homem que tão apaixonadamente se apoderou do coração de sua mãe para que ella o não tivesse renegado depois do crime:—de procurar sobre esse rosto immovel o traço d'uma similhança com o seu proprio rosto, a prova da filiação que lhe tornava de futuro tão cruel o ouvir pronunciar o nome que continuaria a usar. Batera a essa pequena porta, algumas horas antes, com uma pungente commoção quando julgava possuir a prova do adulterio da esposa. O que era isso comparado com o confrangimento da alma que sentia agora e que quasi o suffocava? A porta abriu-se como da outra vez. Como da outra vez subiu a estreita escadaria com{155}o seu tapete, os quadros e a graciosa ornamentação á qual certamente presidira sua mãe. Como d'aquella vez entrou na ante-camara e depois na bibliotheca aonde se achava o doutor Salvan, ao qual na perturbação produzida pela catastrophe, não transmittiram a primeira resposta, por isso que acolheu os recemchegados, dizendo-lhes:
—«Esperava-os... Deixou já de soffrer e exhalou o ultimo suspiro, n'uma commoção suave e por sua causa,» accrescentou, dirigindo-se a Norberto. «Recuperou os sentidos, e pude comprehender que desejava tornal-o a vêr. Nas paralysias medullares progressivas está-se sempre á mercê d'uma syncope, e esta deu-se precisamente na occasião em que a minha carruagem partia. Ouvi o ruido produzido pelas rodas e elle tambem e lançou-me um manifesto olhar de reconhecimento!... Cinco minutos depois deixou de existir.... Havia muito já que morrera para o mundo e que entregára a alma a Deus. Não tendo mais nada a fazer aqui, vou presencear outras miserias. Ha-as bem peores e que não teem uma santa para as consolar....»
O medico retirou-se e o rodar da sua carruagem—o ultimo ruido da vida percebido uma hora antes pelo morto—annunciava que esse grande homem de bem ia, como tinha dito, presencear outras miserias; e aquella a cuja dedicação rendeu merecido preito em termos d'uma veneração tão enternecida continuaria na sua missão de caridade cumprida, ha annos, na velha casa do modesto quarteirão, asylo, n'outro tempo, de tantas vocações religiosas.{156}
As tilias do jardim, na epocha em que guarneciam a cerca d'um convento, viram passar por sob a sua sombra no verão e as folhas douradas no outomno, muitas mensageiras da consolação, mas nenhuma d'ellas tinha o coração inundado d'uma piedade mais profunda e mais ardente do que essa mulher quando se ajoelhou na camara mortuaria. Tomou de novo entre a sua a mão do marido que, em pé, olhava seu pae, immovel na cadeira. A celeridade dos ataques repetidos não permittiu que transportassem Raynevilhe—demos-lhe o seu verdadeiro nome—para a cama.
Apenas, para prevenir qualquer choque nas convulsões do ataque, foi introduzido um travesseiro por detraz da cabeça, sobre o qual se destacava o seu rosto hirto e cuja extrema magreza attestava o marasmo d'uma physiologia gasta por muitos annos de doença.
Os labios não cobriam completamente os dentes, que brilhavam na bocca livida. As palpebras, mal cerradas, deixavam ver o globo vitreo dos olhos. Mas o doutor Salvan dissera a verdade: apesar dos signaes do soffrimento que deviam tornar o seu aspecto sinistro, denunciava o socego, a tranquilidade de redempção emfim alcançada. O padre, chamado á ultima hora, e que resava a um canto do quarto, tinha já collocado no peito do morto um crucifixo sobre o qual se cruzavam as suas mãos que pareciam de cera, e cujos dedos os espasmos do ultimo ataque tinham como que torcido.
Os cabellos raros e a barba toda branca foram{157}penteados. O jaquetão de cachemira preta estava abotoado até ao pescoço, e tinham-lho deitado sobre as pernas, sem duvida para encobrir a deformação dos pés que as contracções deviam ter produzido. Valentina percebeu, pela violenta pressão dos dedos do marido sobre a sua mão, que os pensamentos que o triste espectaculo lhe suggeria eram muito dolorosos. Levantou-se e conduziu-o á bibliotheca, onde a senhora de Chalinhy, de 1875, sorria na sua moldura oval, e, chegados ali, disse-lhe grave, acariciadora e persuasiva.
—«Volta já para a rua Barbet-de-Jouy, Norberto, peço-t'o. Ficarei aqui mais algum tempo para cumprir um dever; o teu cifra-se apenas em o coração lhes fazer presentemente inteira justiça...» E com a mão indicou-lhe primeiro o retrato da mãe e em seguida a porta do quarto onde repousava o morto. «Entra no meu gabinete e procura na gaveta da secretaria um cofre de couro; abre-o» e desligou d'um bracelete aonde estavam presos alguns berloques, uma pequenina chave d'ouro, que lhe entregou. «Ali encontrarás um sobrescripto que tem por fóra as palavras: «Para meu marido, depois d'eu morrer», escriptas pela minha mão. Toma conhecimento do que contem e se desejares voltar aqui, iremos depois juntos...É ella que assim o quer...»
Achava-se tão esgotado por uma série de acontecimentos qual d'elles mais violento, que obedeceu á esposa, como teria obedecido vinte e cinco annos antes a uma supplica d'aquella cuja effigie inesperadamente apparecida n'aquelle mesmo logar{158}se lhe tinha afigurado como mais compromettidor indicio. Recebeu a chave e deixou-se conduzir por Valentina até á porta, e meia hora depois, tendo encontrado o cofre de couro negro de que lhe falou, e dentro do cofre o sobrescripto com a epigraphe indicada, eis as paginas que começou a ler. Eram todas escriptas por Valentina e datadas de 3 de setembro de 1897, dois dias precisamente antes da mãe fallecer. As palavras traçadas no sobrescripto estavam reproduzidas no principio d'aquellas paginas, cuja primeira linha, por uma recordação do terno appello feito pela senhora de Chalinhy a Valentina, o fez logo chorar. Tinha por ventura culpa de não ter conhecido, então o que era esta mulher! Porque lh'o não teria sua mãe revelado? Ai! As mesmas reservas da sua vida de casado, conheceu n'outro tempo, no seio da familia, como filho.
Tinha a pesarem sobre elle as consequencias sombrias e crueis do seu sêr concebido na mentira e temor. Trazendo tambem o mesmo peso sobre o coração, como teria sua mãe podido viver com elle n'essa communhão que suppõe a inteira sinceridade? É a inevitavel expiação das felicidades prohibidas que pela necessidade do mysterio, não permittem a uma mulher dizer ao seu proprio filho qual o sangue que lhe corre nas veias e o nome d'aquelle que deveria chamar seu pae!
«Para meu marido, depois de eu morrer.»«3 de setembro de 1867«A mamã esteve hontem tão mal, que o medico{159}julgou que não vivesse 24 horas. Pediu-me que não a abandonasse, ella que de ordinario deseja sempre que me vá deitar. A enfermeira devia substituir-me depois da meia noute. Comprehendi logo, pela sua terna insistencia que tinha uma ultima recomendação a fazer-me, á qual ligava uma extraordinaria importancia. Não podia suspeitar quanto essa entrevista teria de solemne e que confidencia me ia ser feita, a qual quero transcrever aqui, n'este momento em que todas as suas palavras estão ainda tão precisas na minha memoria. Quer ella, se eu morrer antes de uma certa pessoa, que meu marido seja o depositario d'este segredo, que não teve força para lhe revelar. Assim o quer para que um certo dever seja cumprido, dever que me confiou. Satisfarei os seus desejos deixando depois de mim, se for necessario, este testemunho. É precizo que eu reproduza as suas proprias palavras e que não misture com ellas as minhas emoções. Não poderia expôr d'outra fórma o seu pensamento. Depois d'essa conversa estou exhausta, estonteada. Só a vejo a ella e só a ella ouço.«Reinava em volta do palacio um profundo silencio.«Nesta epocha do anno poucas carruagens transitam pelas ruas Varenne e Barbet-de-Jouy. A palha que se fez espalhar pelas duas ruas amorteciam-lhes o ruido.«Instalei-me á cabeceira da cama, com a minha costura, mas não consegui fazer nada.«Pousava-a constantemente para olhar o pobre{160}rosto d'essa mulher, que era ainda tão bella quando casei, e onde vejo já pronuncios da morte proxima.«Fechou os olhos e parecia dormir.«Rezava mentalmente, pedindo a Deus coragem para me fallar, e quando levantou as palpebras, vi-lhe no olhar um tão intenso ardôr que advinhei logo o seu desejo e antecipando-me, para attenuar um pouco o grande esforço que faria em articular as palavras, disse-lhe:—«Está muito afflicta, mamã?... Quer alguma coisa de mim? Estou prompta para lhe fazer o que desejar.»—«Quero,» respondeu ella. A sua voz tão fraca n'estes ultimos dias tornou-se forte. Senti que ia gastar os ultimos lampejos da vida. «Como isto é penoso», acrescentou ainda.«A sua enorme perturbação assustou-me tanto que lhe disse:—«querida mamã está muito incommodada. Se tem qualquer pedido a fazer-me sabe que estou sempre prompta. Espere para amanhã, para depois ou para d'aqui a oito dias... Terá então já recuperado as forças...»—«Não,» respondeu, mostrando-me o rosto terrozo, amarellado, «terei ja morrido. É precizo que te falle agora, Valentina,» continuou, com a sua voz d'outro tempo, readquirida por um milagre de energia, «repito-te, vou morrer. Sei-o perfeitamente. Disse-mo o medico quando lhe declarei que tinha um assumpto extremamente importante a regular. Esse assumpto consiste em confiar á tua honra um segredo que não deve ser conhecido de{161}ninguem, excepto de Norberto, em duas circumstancias que precisarei. Consiste ainda em te encarregar d'uma missão muito delicada, muito penosa. Se vires que não podes cumpril-a, peço-te que m'o digas francamente.»—«Guardarei o segredo, mamã, e se a missão não é impossivel, cumpri-la-hei. Prometto-lho.»—«Obrigada,» disse ella, «mas para ter coragem de te fallar, preciso orar primeiro.»«Fechou os olhos. Na sua triste figura, tão doente, vi uma expressão de intensa dôr.«Os labios descórados recitavam muito baixo uma oração que eu não ouvia. Tinha medo...«Quando a oração mental terminou, disse-me:«Apaga a luz. Não poderei fallar se me vires e eu te vir a ti.» Obedeci-lhe:«Vem para o pé de mim», repetiu ella, «muito proxima, e dá-me a tua mão.» Obedeci-lhe ainda.«Os seus dedos ardiam em febre e na obscuridade em que nos achavamos, o som d'essa voz que parecia vir da outra vida,—e não era a confissão d'uma alma que não pertencia já a este mundo?...—nunca me esquecerá.—«Minha filha», começou ella, «o que tenho a referir-te deve ser dito sem interrupção.«Amei um homem que não era meu marido, que vive ainda e é o pae de Norberto. Chama-se, direi antes,chamava-seFilippe de Raynevilhe...«Estando prestes a entregar a alma ao creador e a ser julgada por uma falta que bastante expiei já e que expio ainda n'este momento, não tentarei desculpar-me.{162}«Conheci Filippe antes do meu casamento; era filho d'um dos visinhos do solar de meus paes, na provincia. Amámo-nos, sem reserva, com a esperança, com a certeza de um futuro enlace, que um inesperado acontecimento, uma mortal inimisade entre seu pae e o meu, a proposito d'uma questão d'interesse, tornára impossivel.«As duas familias sabiam dos nossos sentimentos.«A sua obrigou-o a fazer uma viagem, e a minha occultou-me que havia sido violentado a partir.«Consenti em casar com o marquez de Chalinhy.«Repito-te que não procuro justificar-me.«Precedi mal desposando alguem que não amava, tendo a imagem d'outro no coração. Mal fiz ainda em não occultar de meu marido a minha indifferença para com elle. Peor fiz, porém, affastando-o pela minha frieza, em tomar como pretexto a sua infidelidade para justificar a minha.«Teve uma amante. Soube-o. Disse comigo que a sua falta de fé conjugal me tornava livre.«Encontrei Filippe no mundo, a nossa antiga paixão reviveu; lancei-me nos seus braços e fui mãe.»«Ficou como morta. Apertei-lhe a mão com toda a piedade que, perante a confissão d'uma tragedia tão simples mas tão pungente na sua expressão muito humana, me enchia o coração. Com a outra mão, a que conservava livre, acariciava-lhe as faces, como faço algumas vezes, quando soffre mais e não supporta sequer que lhe toquem. Os meus dedos molharam-se com as suas lagrimas que lhe corriam dos olhos, silenciosamente, promovidas pelas caricias, que n'essa noite lhe prodigalizei.{163}«Para me provar quanto taes caricias, depois do que acabava de me confiar, lhe eram agradaveis e doces, agarrou-me na mão livre e levou-a aos labios. Nunca chorei tanto como n'esse momento.—«O peor está ainda para dizer», repetiu depois: «quando Norberto nasceu juro-te que não receberia o nome de Chalinhy se não tivesse tido outro filho. Não tinha tido força para me conservar uma mulher honesta, por causa d'esse filho, e não tive tambem coragem para o abandonar. Illudi a minha consciencia justificando-me com tantos exemplos de eguaes compromissos que via em torno de mim, e tambem porque a grande fortuna era minha. Estes miseraveis sophismas foram bem castigados. Se tivesse fugido com Filippe nada do que aconteceu, e que é medonho, teria acontecido. Era muito rica, bem o sabes. Vivia no mesmo meio em que tu vives hoje, sem ter nunca que me preoccupar com as questões de ordem material. Reynevilhe herdára dos seus uma fortuna muito abalada. Para viver na sociedade e fazer figura n'ella gastava mais do que os rendimentos. A infelicidade, soube-o depois, perseguia-o tambem. A fallencia d'um banco, em que imprudentemente collocára uma parte dos fundos, acabou de o arruinar. Se ao menos me tivesse dito alguma coisa!... Mas eu ignorava tudo! Vendo-se na necessidade de mudar de vida—o que segundo elle imaginava, o desgraçado, equivalia a perder-me—commetteu um crime. Tinha um tio muito velho e muito rico, sem filhos. Nenhum dos primos necessitava verdadeiramente da herança.{164}«O tio falleceu de um ataque, na epocha em que Filippe se achava mais atormentado, e, tendo sido chamado para junto d'elle, não resistiu á tentação, destruiu o testamento e fabricou um em que era declarado seu unico herdeiro... Uma manhã, ao despertar, Chalinhy entrou no meu quarto e mostrou-me um jornal onde se relatava a descoberta da falsificação e a prisão de Reynevilhe... Se não enlouqueci repentinamente, foi porque o olhar de meu marido me fez comprehender que suspeitava da nossa ligação. Pensei em Norberto, e tive força para me calar...»—«Ah! pobre mãe!» exclamei, «tem razão em dizer que tudo expiou. Pagou tudo com a dedicação por seu filho n'esse momento. Tem porventura a culpa de se ter enganado a respeito do senhor de Reynevilhe e d'elle ser um miseravel?»—«Não lhe chames miseravel, porque o não é», interrompeu logo. Quando classifiquei d'uma maneira tão dura o amante falsario, a minha imaginação ia alem da sua confidencia. Reportava-se á historia sinistra d'umachantage. Pela energia com que a sua mão se crispou sobre o meu braço, reconheci que os seus sentimentos pelo pae de Norberto não eram de odio e de desprezo. Continuei a escutal-a:—«Tudo o que Filippe havia feito, fel-o simplesmente porque me amava. Posso fazer a mim mesma a justiça de que tive a intuição d'isso, desde o primeiro momento. A certeza d'um horrivel equivoco é que evitou que succumbisse logo, ali mesmo.«O meu instincto de mulher não me enganou...{165}Mas», e o tom da sua voz denunciou um intimo desespero, «como posso provar o que sei tão bem! Julgam-se os homens pelos seus actos, e este é dos que se não perdoam. Uns matam porque amam, encontram ainda quem os proteja, quem os lamente, quem os estime. Para um falsario é a deshonra, a vergonha eterna, inexplicavel!... E portanto!... Escuta, Valentina, conheces-me. Tão verdade como eu vou comparecer deante de Deus, nunca mais na minha vida commetti uma segunda falta, nunca mais. Observaste a minha vida. Vaes presencear a minha morte. O juramento d'uma mulher no estado em que me encontro, poderia ser duvidoso?... Pois bem! Juro-te que Filippe não foi mais culpado do que o que mata porque ama. Não teve senão o amor a compellil-o ao crime, repito-te, sob juramento, só o amor. A sociedade tinha o direito de o julgar pela maneira porque o fez castigar. Os seus tinham o direito de o desprezar e os amigos de não mais o conhecer. Elle mesmo tinha o direito de se condemnar, como fez tambem... Mas eu, por causa de quem commetteu o crime, para me não deixar, para viver a minha vida, porque me amava, emfim, era a unica que tinha o dever de o não despresar e não o despresei...»—«Vive ainda?» perguntei-lhe quando terminou. «Sabe que vive e aonde vive?»«Posto que não comprehendesse ainda muito bem o fim a que tendia esta suprema confidencia, percebia comtudo que queria associar-me d'alguma maneira á sua obra de piedade. Sem duvida{166}tinha continuado a manter uma correspondencia activa com esse infeliz, retirado longe de Paris, e tendo-lhe occultado o seu estado, temia que uma carta d'elle, recebida depois da sua morte, fosse parar ás mãos de Norberto. Ia pedir-me que fosse eu a mensageira de tão triste situação? Estava já resolvida a prometter-lhe que contasse comigo. Não presenti senão uma parte da sua vontade. Podia lá adivinhar a que excesso de dedicação a conduzira a sua piedade por esse criminoso por amor, do qual era a unica consolação, no seu tristissimo estado physico!«Tinha-a muitas vezes ouvido dizer que o mundo está cheio de romances occultos, mais phantasticos na sua realidade palpitante do que todas as invenções dos livros.«Mas que uma aventura como essa fosse possivel—que uma mulher da nossa sociedade tivesse levado a exaltação do seu sentimento até consagrar a melhor parte da sua vida a um amante cahido—(e em que desastrosa queda!)—que encontrasse meio de lhe transmittir a esmola da sua ternura, por cartas, que o impediram de se matar,—que tivesse continuado a escrever-lhe durante o tempo do cumprimento da pena—que tornasse a ver esse amante depois de cumprida a mesma pena; que tivesse podido não uma vez, mas cem, mil vezes, escapar a todas as exigencias do seu meio para ir a uma casa perdida ao fundo de um arrabalde, passar uma hora com elle, reconfortal-o na sua angustia, auxilial-o com os seus conselhos na sua tortura moral—que esse homem{167}culpavel d'um tão grande crime, não tivesse mais sob esta influencia, nutrido senão um unico pensamento, mostrar-se digno d'uma tal amiga, resgatar um instante de aberração por uma vida inteira consagrada a boas obras—e que as relações d'esses dois seres se prolongaram assim, de mez para mez, durante annos, sob a ameaça d'um perigo continuo, n'este Paris do fim de seculo 19, tão positivo, tão brutal—não, não teria nunca imaginado um similhante romance e menos ainda que a sua heroina fosse a mãe de meu marido, esta marqueza de Chalinhy, que tanto me seduzio quando lhe fui apresentada, por a sua doçura, e comtudo ouço bramir na sua voz de moribunda todo este martyrio intimo dos seus tragicos amores.—«... Quando se descobriu tudo», disse ainda, «uma unica idéa o preocupou: fazer-me saber o motivo porque tinha cedido a essa allucinação, obter o meu perdão e morrer. Tenho as suas cartas. Lelal-as-has e saberás então quanto soffri. Ah! o que eu soffri?... Indicava-me um meio de lhe responder. Obtive d'elle que vivesse. Obtive que se deixasse julgar e condemnar quando se podia eximir a tudo suicidando-se. Mas eu não o queria. Amava e tinha fé. Tenho sempre tido fé, ainda mesmo quando me abandonava a esta felicidade prohibida... Tive logo a evidencia de que esta horrivel prova era o castigo dos dois, que Deus não nos puniria depois, se acceitassemos o castigo d'esta cruz. E que pesada que ella tem sido, para elle até agora, e para mim que devia escutar os commentarios do mundo a seu respeito, sem ter{168}a liberdade de o defender, nem mesmo de o chorar! Abafou-se o mais possivel o crime, por causa da familia, mas não tanto que a noticia do julgamento não chegasse ao dominio publico... E nos annos seguintes, emquanto cumpria a pena eu vivia no luxo, na honestidade e não abraçava nunca o seu filho sem me lembrar: «o pae está na prisão...»; sem o ver, a elle, na sua cella, que muito bem conhecia pela descripção feita nas suas cartas. Teve sempre meio de m'as enviar... E mais tarde, quando foi solto, e que nos tornámos a encontrar em face um do outro, pela primeira vez depois do funesto acontecimento!... Não padecerei mais ámanhã quando morrer... Emquanto estava na prisão, uma ironia da sorte quiz que herdasse, em consequencia da morte subita de um primo que falleceusem testamento, uma nova fortuna. Foi então que me foi permittido julgal-o completamente, vendo-o, livre, retirar-se n'um bairro pobre de Paris, com um nome falso, e começar ahi uma existencia de caridade, que não teve durante annos outro cambiante, senão procurar miserias a soccorrer, e as minhas visitas... Até que fiquei detida n'este quarto pela doença não se passou uma unica semana, quando estava em Paris, que não fosse vêl-o duas e tres vezes. Viuva, estas visitas tornavam-se-me faceis; mas n'outros tempos eram em extremo perigosas. Tinha receio principalmente por causa de Norberto. O que então senti pouco importa. O que importa é que vou morrer e desespera-me o que elle soffrerá depois da minha morte...{169}«Eis o que te desejava pedir, Valentina, que o vás ver quando eu deixar de existir, para lhe entregares as cartas, que não tive coragem de destruir, e que te esforces para lhe tornar o golpe o menos doloroso possivel. É actualmente um velho e um doente. Teve um ataque de paralisia ha mais d'um anno. Conhece-te. Sabe por mim o que és, e o que valem os primores do teu coração, pelo qual tenho tanta estima. É esta a maior prova que te posso dar d'isso!... A tua presença será o unico lenitivo que poderá receber. E depois, se tenho sido boa para ti, se conservares de mim alguma recordação, voltarás lá algumas vezes para o ajudares a esperar o momento de nos juntarmos...»—«Prometto que farei o que me pedes mamã,» respondi com os olhos inundados de lagrimas. Só com esta recordação as lagrimas caem ainda sobre este papel, mas não é de mim que se trata. É preciso que refira ainda estas outras phrases, que me disse tambem:—«Norberto deve ignorar tudo, sempre. Mas se a fatalidade quizer que te achasses muito doente e em perigo de desappareceres do mundo antes de seu pae fallecer, peço-te que falles. Falla tambem se Filippe reclamar o filho á hora da morte... Se não absoluto silencio!».—«Transcrevi esta conversa sem nada omittir, immediatamente, para que possa, caso qualquer das duas circumstancias se produza, obedecer inteiramente a essa pobre senhora. Depois será á sua supplica e não á minha que deve obedecer. Que a ouça como eu a ouvi! E que me acredite{170}piamente dizendo-lhe que tenho por ella, n'este momento em que os nossos corações acabaram de bater tão proximos um do outro, durante essa hora de agonia moral, tanta veneração como piedade!«Disse-me ainda que o sr. Reynevilhe mora actualmente na rua Lacépède n.º 11, com o nome deDumont.Valentina.»
«Para meu marido, depois de eu morrer.»
«3 de setembro de 1867
«A mamã esteve hontem tão mal, que o medico{159}julgou que não vivesse 24 horas. Pediu-me que não a abandonasse, ella que de ordinario deseja sempre que me vá deitar. A enfermeira devia substituir-me depois da meia noute. Comprehendi logo, pela sua terna insistencia que tinha uma ultima recomendação a fazer-me, á qual ligava uma extraordinaria importancia. Não podia suspeitar quanto essa entrevista teria de solemne e que confidencia me ia ser feita, a qual quero transcrever aqui, n'este momento em que todas as suas palavras estão ainda tão precisas na minha memoria. Quer ella, se eu morrer antes de uma certa pessoa, que meu marido seja o depositario d'este segredo, que não teve força para lhe revelar. Assim o quer para que um certo dever seja cumprido, dever que me confiou. Satisfarei os seus desejos deixando depois de mim, se for necessario, este testemunho. É precizo que eu reproduza as suas proprias palavras e que não misture com ellas as minhas emoções. Não poderia expôr d'outra fórma o seu pensamento. Depois d'essa conversa estou exhausta, estonteada. Só a vejo a ella e só a ella ouço.
«Reinava em volta do palacio um profundo silencio.
«Nesta epocha do anno poucas carruagens transitam pelas ruas Varenne e Barbet-de-Jouy. A palha que se fez espalhar pelas duas ruas amorteciam-lhes o ruido.
«Instalei-me á cabeceira da cama, com a minha costura, mas não consegui fazer nada.
«Pousava-a constantemente para olhar o pobre{160}rosto d'essa mulher, que era ainda tão bella quando casei, e onde vejo já pronuncios da morte proxima.
«Fechou os olhos e parecia dormir.
«Rezava mentalmente, pedindo a Deus coragem para me fallar, e quando levantou as palpebras, vi-lhe no olhar um tão intenso ardôr que advinhei logo o seu desejo e antecipando-me, para attenuar um pouco o grande esforço que faria em articular as palavras, disse-lhe:
—«Está muito afflicta, mamã?... Quer alguma coisa de mim? Estou prompta para lhe fazer o que desejar.»
—«Quero,» respondeu ella. A sua voz tão fraca n'estes ultimos dias tornou-se forte. Senti que ia gastar os ultimos lampejos da vida. «Como isto é penoso», acrescentou ainda.
«A sua enorme perturbação assustou-me tanto que lhe disse:—«querida mamã está muito incommodada. Se tem qualquer pedido a fazer-me sabe que estou sempre prompta. Espere para amanhã, para depois ou para d'aqui a oito dias... Terá então já recuperado as forças...»
—«Não,» respondeu, mostrando-me o rosto terrozo, amarellado, «terei ja morrido. É precizo que te falle agora, Valentina,» continuou, com a sua voz d'outro tempo, readquirida por um milagre de energia, «repito-te, vou morrer. Sei-o perfeitamente. Disse-mo o medico quando lhe declarei que tinha um assumpto extremamente importante a regular. Esse assumpto consiste em confiar á tua honra um segredo que não deve ser conhecido de{161}ninguem, excepto de Norberto, em duas circumstancias que precisarei. Consiste ainda em te encarregar d'uma missão muito delicada, muito penosa. Se vires que não podes cumpril-a, peço-te que m'o digas francamente.»
—«Guardarei o segredo, mamã, e se a missão não é impossivel, cumpri-la-hei. Prometto-lho.»
—«Obrigada,» disse ella, «mas para ter coragem de te fallar, preciso orar primeiro.»
«Fechou os olhos. Na sua triste figura, tão doente, vi uma expressão de intensa dôr.
«Os labios descórados recitavam muito baixo uma oração que eu não ouvia. Tinha medo...
«Quando a oração mental terminou, disse-me:
«Apaga a luz. Não poderei fallar se me vires e eu te vir a ti.» Obedeci-lhe:
«Vem para o pé de mim», repetiu ella, «muito proxima, e dá-me a tua mão.» Obedeci-lhe ainda.
«Os seus dedos ardiam em febre e na obscuridade em que nos achavamos, o som d'essa voz que parecia vir da outra vida,—e não era a confissão d'uma alma que não pertencia já a este mundo?...—nunca me esquecerá.
—«Minha filha», começou ella, «o que tenho a referir-te deve ser dito sem interrupção.
«Amei um homem que não era meu marido, que vive ainda e é o pae de Norberto. Chama-se, direi antes,chamava-seFilippe de Raynevilhe...
«Estando prestes a entregar a alma ao creador e a ser julgada por uma falta que bastante expiei já e que expio ainda n'este momento, não tentarei desculpar-me.{162}
«Conheci Filippe antes do meu casamento; era filho d'um dos visinhos do solar de meus paes, na provincia. Amámo-nos, sem reserva, com a esperança, com a certeza de um futuro enlace, que um inesperado acontecimento, uma mortal inimisade entre seu pae e o meu, a proposito d'uma questão d'interesse, tornára impossivel.
«As duas familias sabiam dos nossos sentimentos.
«A sua obrigou-o a fazer uma viagem, e a minha occultou-me que havia sido violentado a partir.
«Consenti em casar com o marquez de Chalinhy.
«Repito-te que não procuro justificar-me.
«Precedi mal desposando alguem que não amava, tendo a imagem d'outro no coração. Mal fiz ainda em não occultar de meu marido a minha indifferença para com elle. Peor fiz, porém, affastando-o pela minha frieza, em tomar como pretexto a sua infidelidade para justificar a minha.
«Teve uma amante. Soube-o. Disse comigo que a sua falta de fé conjugal me tornava livre.
«Encontrei Filippe no mundo, a nossa antiga paixão reviveu; lancei-me nos seus braços e fui mãe.»
«Ficou como morta. Apertei-lhe a mão com toda a piedade que, perante a confissão d'uma tragedia tão simples mas tão pungente na sua expressão muito humana, me enchia o coração. Com a outra mão, a que conservava livre, acariciava-lhe as faces, como faço algumas vezes, quando soffre mais e não supporta sequer que lhe toquem. Os meus dedos molharam-se com as suas lagrimas que lhe corriam dos olhos, silenciosamente, promovidas pelas caricias, que n'essa noite lhe prodigalizei.{163}
«Para me provar quanto taes caricias, depois do que acabava de me confiar, lhe eram agradaveis e doces, agarrou-me na mão livre e levou-a aos labios. Nunca chorei tanto como n'esse momento.
—«O peor está ainda para dizer», repetiu depois: «quando Norberto nasceu juro-te que não receberia o nome de Chalinhy se não tivesse tido outro filho. Não tinha tido força para me conservar uma mulher honesta, por causa d'esse filho, e não tive tambem coragem para o abandonar. Illudi a minha consciencia justificando-me com tantos exemplos de eguaes compromissos que via em torno de mim, e tambem porque a grande fortuna era minha. Estes miseraveis sophismas foram bem castigados. Se tivesse fugido com Filippe nada do que aconteceu, e que é medonho, teria acontecido. Era muito rica, bem o sabes. Vivia no mesmo meio em que tu vives hoje, sem ter nunca que me preoccupar com as questões de ordem material. Reynevilhe herdára dos seus uma fortuna muito abalada. Para viver na sociedade e fazer figura n'ella gastava mais do que os rendimentos. A infelicidade, soube-o depois, perseguia-o tambem. A fallencia d'um banco, em que imprudentemente collocára uma parte dos fundos, acabou de o arruinar. Se ao menos me tivesse dito alguma coisa!... Mas eu ignorava tudo! Vendo-se na necessidade de mudar de vida—o que segundo elle imaginava, o desgraçado, equivalia a perder-me—commetteu um crime. Tinha um tio muito velho e muito rico, sem filhos. Nenhum dos primos necessitava verdadeiramente da herança.{164}
«O tio falleceu de um ataque, na epocha em que Filippe se achava mais atormentado, e, tendo sido chamado para junto d'elle, não resistiu á tentação, destruiu o testamento e fabricou um em que era declarado seu unico herdeiro... Uma manhã, ao despertar, Chalinhy entrou no meu quarto e mostrou-me um jornal onde se relatava a descoberta da falsificação e a prisão de Reynevilhe... Se não enlouqueci repentinamente, foi porque o olhar de meu marido me fez comprehender que suspeitava da nossa ligação. Pensei em Norberto, e tive força para me calar...»
—«Ah! pobre mãe!» exclamei, «tem razão em dizer que tudo expiou. Pagou tudo com a dedicação por seu filho n'esse momento. Tem porventura a culpa de se ter enganado a respeito do senhor de Reynevilhe e d'elle ser um miseravel?»
—«Não lhe chames miseravel, porque o não é», interrompeu logo. Quando classifiquei d'uma maneira tão dura o amante falsario, a minha imaginação ia alem da sua confidencia. Reportava-se á historia sinistra d'umachantage. Pela energia com que a sua mão se crispou sobre o meu braço, reconheci que os seus sentimentos pelo pae de Norberto não eram de odio e de desprezo. Continuei a escutal-a:
—«Tudo o que Filippe havia feito, fel-o simplesmente porque me amava. Posso fazer a mim mesma a justiça de que tive a intuição d'isso, desde o primeiro momento. A certeza d'um horrivel equivoco é que evitou que succumbisse logo, ali mesmo.
«O meu instincto de mulher não me enganou...{165}Mas», e o tom da sua voz denunciou um intimo desespero, «como posso provar o que sei tão bem! Julgam-se os homens pelos seus actos, e este é dos que se não perdoam. Uns matam porque amam, encontram ainda quem os proteja, quem os lamente, quem os estime. Para um falsario é a deshonra, a vergonha eterna, inexplicavel!... E portanto!... Escuta, Valentina, conheces-me. Tão verdade como eu vou comparecer deante de Deus, nunca mais na minha vida commetti uma segunda falta, nunca mais. Observaste a minha vida. Vaes presencear a minha morte. O juramento d'uma mulher no estado em que me encontro, poderia ser duvidoso?... Pois bem! Juro-te que Filippe não foi mais culpado do que o que mata porque ama. Não teve senão o amor a compellil-o ao crime, repito-te, sob juramento, só o amor. A sociedade tinha o direito de o julgar pela maneira porque o fez castigar. Os seus tinham o direito de o desprezar e os amigos de não mais o conhecer. Elle mesmo tinha o direito de se condemnar, como fez tambem... Mas eu, por causa de quem commetteu o crime, para me não deixar, para viver a minha vida, porque me amava, emfim, era a unica que tinha o dever de o não despresar e não o despresei...»
—«Vive ainda?» perguntei-lhe quando terminou. «Sabe que vive e aonde vive?»
«Posto que não comprehendesse ainda muito bem o fim a que tendia esta suprema confidencia, percebia comtudo que queria associar-me d'alguma maneira á sua obra de piedade. Sem duvida{166}tinha continuado a manter uma correspondencia activa com esse infeliz, retirado longe de Paris, e tendo-lhe occultado o seu estado, temia que uma carta d'elle, recebida depois da sua morte, fosse parar ás mãos de Norberto. Ia pedir-me que fosse eu a mensageira de tão triste situação? Estava já resolvida a prometter-lhe que contasse comigo. Não presenti senão uma parte da sua vontade. Podia lá adivinhar a que excesso de dedicação a conduzira a sua piedade por esse criminoso por amor, do qual era a unica consolação, no seu tristissimo estado physico!
«Tinha-a muitas vezes ouvido dizer que o mundo está cheio de romances occultos, mais phantasticos na sua realidade palpitante do que todas as invenções dos livros.
«Mas que uma aventura como essa fosse possivel—que uma mulher da nossa sociedade tivesse levado a exaltação do seu sentimento até consagrar a melhor parte da sua vida a um amante cahido—(e em que desastrosa queda!)—que encontrasse meio de lhe transmittir a esmola da sua ternura, por cartas, que o impediram de se matar,—que tivesse continuado a escrever-lhe durante o tempo do cumprimento da pena—que tornasse a ver esse amante depois de cumprida a mesma pena; que tivesse podido não uma vez, mas cem, mil vezes, escapar a todas as exigencias do seu meio para ir a uma casa perdida ao fundo de um arrabalde, passar uma hora com elle, reconfortal-o na sua angustia, auxilial-o com os seus conselhos na sua tortura moral—que esse homem{167}culpavel d'um tão grande crime, não tivesse mais sob esta influencia, nutrido senão um unico pensamento, mostrar-se digno d'uma tal amiga, resgatar um instante de aberração por uma vida inteira consagrada a boas obras—e que as relações d'esses dois seres se prolongaram assim, de mez para mez, durante annos, sob a ameaça d'um perigo continuo, n'este Paris do fim de seculo 19, tão positivo, tão brutal—não, não teria nunca imaginado um similhante romance e menos ainda que a sua heroina fosse a mãe de meu marido, esta marqueza de Chalinhy, que tanto me seduzio quando lhe fui apresentada, por a sua doçura, e comtudo ouço bramir na sua voz de moribunda todo este martyrio intimo dos seus tragicos amores.
—«... Quando se descobriu tudo», disse ainda, «uma unica idéa o preocupou: fazer-me saber o motivo porque tinha cedido a essa allucinação, obter o meu perdão e morrer. Tenho as suas cartas. Lelal-as-has e saberás então quanto soffri. Ah! o que eu soffri?... Indicava-me um meio de lhe responder. Obtive d'elle que vivesse. Obtive que se deixasse julgar e condemnar quando se podia eximir a tudo suicidando-se. Mas eu não o queria. Amava e tinha fé. Tenho sempre tido fé, ainda mesmo quando me abandonava a esta felicidade prohibida... Tive logo a evidencia de que esta horrivel prova era o castigo dos dois, que Deus não nos puniria depois, se acceitassemos o castigo d'esta cruz. E que pesada que ella tem sido, para elle até agora, e para mim que devia escutar os commentarios do mundo a seu respeito, sem ter{168}a liberdade de o defender, nem mesmo de o chorar! Abafou-se o mais possivel o crime, por causa da familia, mas não tanto que a noticia do julgamento não chegasse ao dominio publico... E nos annos seguintes, emquanto cumpria a pena eu vivia no luxo, na honestidade e não abraçava nunca o seu filho sem me lembrar: «o pae está na prisão...»; sem o ver, a elle, na sua cella, que muito bem conhecia pela descripção feita nas suas cartas. Teve sempre meio de m'as enviar... E mais tarde, quando foi solto, e que nos tornámos a encontrar em face um do outro, pela primeira vez depois do funesto acontecimento!... Não padecerei mais ámanhã quando morrer... Emquanto estava na prisão, uma ironia da sorte quiz que herdasse, em consequencia da morte subita de um primo que falleceusem testamento, uma nova fortuna. Foi então que me foi permittido julgal-o completamente, vendo-o, livre, retirar-se n'um bairro pobre de Paris, com um nome falso, e começar ahi uma existencia de caridade, que não teve durante annos outro cambiante, senão procurar miserias a soccorrer, e as minhas visitas... Até que fiquei detida n'este quarto pela doença não se passou uma unica semana, quando estava em Paris, que não fosse vêl-o duas e tres vezes. Viuva, estas visitas tornavam-se-me faceis; mas n'outros tempos eram em extremo perigosas. Tinha receio principalmente por causa de Norberto. O que então senti pouco importa. O que importa é que vou morrer e desespera-me o que elle soffrerá depois da minha morte...{169}
«Eis o que te desejava pedir, Valentina, que o vás ver quando eu deixar de existir, para lhe entregares as cartas, que não tive coragem de destruir, e que te esforces para lhe tornar o golpe o menos doloroso possivel. É actualmente um velho e um doente. Teve um ataque de paralisia ha mais d'um anno. Conhece-te. Sabe por mim o que és, e o que valem os primores do teu coração, pelo qual tenho tanta estima. É esta a maior prova que te posso dar d'isso!... A tua presença será o unico lenitivo que poderá receber. E depois, se tenho sido boa para ti, se conservares de mim alguma recordação, voltarás lá algumas vezes para o ajudares a esperar o momento de nos juntarmos...»
—«Prometto que farei o que me pedes mamã,» respondi com os olhos inundados de lagrimas. Só com esta recordação as lagrimas caem ainda sobre este papel, mas não é de mim que se trata. É preciso que refira ainda estas outras phrases, que me disse tambem:
—«Norberto deve ignorar tudo, sempre. Mas se a fatalidade quizer que te achasses muito doente e em perigo de desappareceres do mundo antes de seu pae fallecer, peço-te que falles. Falla tambem se Filippe reclamar o filho á hora da morte... Se não absoluto silencio!».
—«Transcrevi esta conversa sem nada omittir, immediatamente, para que possa, caso qualquer das duas circumstancias se produza, obedecer inteiramente a essa pobre senhora. Depois será á sua supplica e não á minha que deve obedecer. Que a ouça como eu a ouvi! E que me acredite{170}piamente dizendo-lhe que tenho por ella, n'este momento em que os nossos corações acabaram de bater tão proximos um do outro, durante essa hora de agonia moral, tanta veneração como piedade!
«Disse-me ainda que o sr. Reynevilhe mora actualmente na rua Lacépède n.º 11, com o nome deDumont.
Valentina.»
Eram quatro horas da tarde quando o filho dos dois heroes d'este doloroso e mysterioso drama d'amor começou a ler as paginas em que a confissão da morta se achava reproduzida com uma emoção que a escripta e a redacção denunciavam. Ha muito que era já noite e ainda tinha nas mãos aquellas folhas, cujas phrases não podia deixar de repetir, uma por uma. Era como se as palavras pronunciadas nas trevas do leito da agonia, viessem, com effeito, do tumulo, d'ali, do Père Lachaise, onde tinha acompanhado sua mãe poucos dias depois que ella confiou os amargos segredos da sua vida, n'esta confissão suprema.
A marqueza de Chalinhy não quiz que a depositassem no jazigo de familia. Fez construir no ultimo{171}anno da sua vida um tumulo especial, pedindo que na frontaria da pequena capella fosse gravado um unico nome:Armanda. O filho conformou-se com esta disposição testamentaria da mãe e viu n'ella um d'esses caprichos de hypocondria que as pessoas que padecem de doenças do figado, que tão profundamente alteram o caracter, teem muitas vezes. Comprehendia agora o motivo occulto d'um tal desejo. E recordava-se tambem de que ao lado do mausoléo da sua mãe, e quasi igual a elle, existia um outro completamente novo e que não tinha ainda nenhum nome gravado na frontaria. Admirára effectivamente uma tal similhança; mas disseram-lhe que o comprador d'aquelle terreno fizera copiar o monumento visinho por lhe ter admirado a simplicidade elegante. Esse comprador, adivinhava-o: era Reynevilhe. O amigo e a amiga quizeram repousar em mausoléos parecidos já que não podiam reunir-se no mesmo tumulo. Quem reconheceria o antigo homem escravo da elegante moda parisiense, o condemnado por falsificador, debaixo d'este appellido anonymo, este nome quasi impessoal de Dumont? Quando o filho fosse, de futuro, lançar flôres no tumulo da mãe, como fizera ainda no principio do mez de novembro, o tumulo do seu verdadeiro pae elevar-se-hia ali proximo implorando um olhar, um pensamento, um perdão. Recusar-lh'o-ia?... Não. A transformação que Valentina lhe tinha annunciado estava-se já operando n'elle. Era-lhe impossivel condemnar estes dois seres, dos quaes descendia. A sua falta foi tão tragicamente perseguida{172}pela justiça vingadora, inherente á felicidade criminosa, que, mesmo no coração d'um extranho, a piedade teria sobrelevado a mais severa austeridade. Como não havia, pois, um filho de sentir superabundar nelle essa piedade, jorrando em lagrimas sobre o papel onde se descobriam ainda os vestigios d'outras lagrimas? E esses vestigios recordavam ao marido de Valentina a ternura feminina que acabara de purificar uma aventura culposa no principio, ainda que com muitas attenuantes,—criminosa depois pela allucinação d'um dos seus auctores,—ennobrecida mais tarde, mesmo na propria falta, pela fidelidade e pela dôr. Chegou a mesma aventura ao seu conhecimento absolutamente purificada por sua mulher. Era para junto d'ella, pois, que n'aquelle momento voava a sua alma dolorida, porque só por intermedio d'ella podera reconciliar-se inteiramente com a morta e com o morto, de cujo adulterio o nascimento o havia tornado cumplice, mau grado seu, unicamente pelo nome. Fizeram ainda peor! Transmittiram-lhe no intimo do ser as violentas contradições dos seus actos e das suas sensibilidades.
O que possuia de nobre e altivo, a instinctiva nobreza que o fizera soffrer sempre tanto com a mentira da sua traição a Valentina, devia-o a elles. O extranho romanesco da sua ligação mostrava evidentemente que tinham sido d'aquelles amantes que respeitam pelo menos os seus corações e que procediam movidos pela paixão e não pela intriga e pela galanteria. A fraqueza lamentavel da sua vontade em presença de certas tentações, provinha{173}ainda d'elles. O peccado do seu amor transmittiu-se-lhe no sangue e tambem nas commoções do perigo que tinham corrido para se darem um ao outro. O que tinha de ferozmente timido derivava d'elles, assim como a desconfiança da doentia susceptibilidade, o obstaculo levantado ha alguns annos entre si e a esposa, exactamente como entre elle e sua mãe. Para que a moribunda o não tomasse por confidente, n'aquella hora suprema, era preciso que tivesse deixado augmentar muito entre os dois a profundeza do silencio que só catastrophes como aquella que o feria conseguem despedaçar.
Eis as ideias suggeridas por essas folhas de papel, já um pouco amarellecidas, a esse homem, subitamente collocado em presença da mais inesperada, da mais estonteante das revelações—idéas ainda emmaranhadas e indeterminadas, confusas e incertas. Não se desenhavam na sua reflexão em tão vivos contornos. Mas no emtanto apossavam-se já d'elle, condensavam-se levando-o ao reconhecimento apaixonado por Valentina, a uma necessidade de lhe pagar em ternura, em culto, em veneração, tudo o que ella tinha feito primeiro pela moribunda, em seguida pelo solitario da rua Lacépède, e por ultimo por elle proprio! Os acontecimentos succediam-se depressa, fornecendo-lhe occasião de provar esta gratidão, e, como acontece sempre quando se está collocado em certas situações d'uma ambiguidade insoluvel, a volta ao respeito do seu lar não podia fazer-se senão á custa de quem lh'o tinha feito profanar.{174}
Atravez d'estes pensamentos e absorvido como estava pela evocação de sua mãe, vivendo de novo pelas palavras da sua agonia, esquecia onde estava e que antes do jantar, sua mulher recebia habitualmente no pequeno salão em que se encontrava. Os creados entravam para executar o seu serviço habitual, accender as luzes, correr os reposteiros e preparar o chá. Norberto não reparava, deveria prever que Joanna de Node, depois da fórma porque o tinha deixado essa manhã, viria certamente saber noticias á tarde.
As recepções intimas das 6 horas da tarde, dadas por Valentina, eram um magnifico pretexto. Mas Norberto esqueceu completamente a existencia da amante. Certos accidentes do destino assemelham-se verdadeiramente aos grandes cataclysmos, ao sahir dos quaes—um incendio como o do Bazar de Caridade, um tremor de terra como o da Martinica—o homem que conseguiu escapar se transformou n'algumas horas n'um outro individuo. O abalo ao mesmo tempo nervoso e sentimental foi demasiado forte. Uma testemunha d'um desastre quasi perturbador da razão, não poderá readquirir mais nem as alegrias, nem as dores d'outro tempo, nem esquecer nunca a commoção soffrida.
Se tinha apenas 25 annos esta manhã, no momento actual tem sessenta, tem cem. Mofava de si mesmo e da vida, e ella lacerou-o na fibra mais intima. A sua indifferença acabou da mesma fórma que a sua jovialidade. Uma outra não se conhecia, nem ao seu proprio coração. Ia em procura{175}de emoções obscuras atravez de experiencias nas quaes não chegava a conhecer o verdadeiro gozo.
Todas essas recordações se apagaram d'um golpe. Aniquilaram-se simplesmente ao contacto d'uma impressão tão forte, tão mordente que não ha mais prazer em torno d'ella. Este ultimo caso era o que se dava com Norberto de Chalinhy. A sua intriga com Joanna, na qual os sentidos tiveram a parte principal, não podia interessal-o mais, senão como um remorso, depois das horas que acabava de passar. Não se havia mesmo recordado de tal intriga durante essa tarde, senão para se censurar amargamente de ter desconhecido por tanto tempo Valentina. Foi por isso que com uma estranha surpresa misturada de tortura e de irritação, viu entrar a amante no pequeno gabinete da esposa, pela fórma porque entrou, sem se fazer annunciar e quando tinha ainda na mão as folhas de papel depositarias do terrivel segredo. Joanna de Node ia em demanda de novidades, depois de ter passado toda a tarde em passeio e em visitas, sempre com a mesma idéa fixa: Chalinhy está na casa da rua Lacépède... O que terá acontecido?... As mais variadas hypotheses tinham umas após outras surgido ao seu espirito desde o homicidio que de novo reapparecia para logo ser repellido, como insupportavel para a sua consciencia, até á, muito mais provavel e em parte conforme com os factos, d'um inquerito junto dos lojistas visinhos. Conhecia sufficientemente Norberto, para não duvidar de que, tendo-lhe promettido{176}nada dizer a Valentina, deixasse de cumprir a sua palavra.
O que arriscava então em ir ao palacio Chalinhy? Dirigiu-se pois, lá. Disseram-lhe os creados que a senhora marqueza ainda não havia regressado, mas que o senhor marquez estava em casa e ella subiu como tantas outras vezes, com o pretexto de esperar pela prima, mas na realidade para ter com Norberto alguns momentos de conversa, a fim de o interrogar.
Viu logo ao primeiro golpe de vista, que continuava a estar muito perturbado. Por outro lado, aquella secretaria com a gaveta meia aberta, o cofre de couro, que sabia muito bem pertencer a sua prima, aberto tambem, a carta cuja lettra não conhecia, porque Norberto a tapou logo com as mãos; o seu proprio gesto e sobresalto de surpresa que nem mesmo dissimulou—estes diversos signaes condiziam perfeitamente com o estado de violencia e de desconfiança em que ella tinha deixado o marido cioso. Acreditou que, tendo abortado a investigação da rua Lacépède, em volta da casa suspeita, tomou o partido de forçar o esconderijo onde Valentina encerrava a correspondencia intima e que estava em via de encontrar ali a prova em presença da qual a duvida cessaria completamente. O seu apaixonado desejo de que a rival feliz ha tantos annos, ficasse emfim perdida para sempre, brilhou na ancia com que a invejosa, apenas entrou no gabinete, interrogou o amante:
—«Não podeste saber nada lá em baixo?... De quem é essa carta?... de Valentina...»{177}
—«Não prosigas, Joanna», interrompeu levantando-se e a sua mão continuava pousada sobre a carta, como para a defender. «Não posso consentir que me falles de Valentina... Enganaste-te... continuou com uma firmeza imperativa e que não admittia replicas. «Sim» insistiu ainda «enganaste-te no que me disseste e escreveste a seu respeito... Procedeste de boa fé e não te censuro por isso; mas peço-te que nunca mais entre nós seja feita a mais leve allusão a factos de que nem sequer me devo recordar, para continuar a prezar-me...»
Joanna de Node ouviu esta declaração, para ella tão completamente inexperada, com uma estupefacção que a paralisou durante um minuto. Lia na physionomia d'este homem, que sempre conhecera tão hesitante, tão complexo, uma resolução inabalavel e viva!
Porque processo a visitante do pavilhão da rua Lacépède, havia transformado esta vontade habitualmente tão vacillante e agora tão firme? Joanna não possuia o menor dado que a habilitasse a responder a esta pergunta. Estava, por outro lado firmemente convencida da culpabilidade de sua prima para poder suppôr que estes processos tivessem sido leaes e sinceros.
A uma amiga que lhe pedisse conselho em igual circumstancia, teria sem duvida, indicado como unico caminho a seguir, uma apparente condescendencia á illusão d'um marido, tão complascentemente enganado contra toda a evidencia, mas o odio á esposa triumphante foi n'este momento mais{178}forte no espirito da amante do que o genio da astucia, e, com um tom de maldosa ironia, retrucou:
—«Felicito-me por não duvidares da minha boa fé. Muito obrigada...
O que escrevi e o que disse, para fallar como tu, escrevi-o e disse-o para quem? Para ti...
Não tens em consideração que depois d'isso ficaste n'um tal estado que me fazias medo. Não vim aqui, esta tarde, senão por esse motivo, pois estava muitissimo inquieta, temendo qualquer violencia da tua parte. Se Valentina foi assás habil para conseguir o que eu não consegui, isto é, para te acalmar, tanto melhor para ella... Mas, lembra-te, bem que no dia em que me quizeres tornar a fallar a seu respeito e das pretendidas revelações que a tia ou alguma amiga lhe tivesse feito, não te deixarei proseguir.
Continuarei a ser sempre sacrificada...»
Norberto fitou-a sem lhe responder. Acabava de communicar com uma alma magnifica n'uma dessas crises em que uma dôr violenta como que nos transforma os sentidos, para os quaes toda a sinceridade e toda a mentira são facilmente perceptiveis. Reconhecia agora, com uma espantosa evidencia, o fundo do coração de Joanna:—a paixão d'essa mulher por elle foi sempre alimentada só pelo seu odio por Valentina! A sua longa fraqueza inhibiam-no de fazer exprobrações que, partindo d'elle, tinham tanto de ridiculas como de odiosas. Sabendo, além d'isso, o que agora sabia, nada constituia para elle uma tão grande profanação, contra a qual toda a sua honra protestava, como{179}ouvir a amante proferir o nome d'essa mulher admiravel. Resignou-se a ficar calado, e para mostrar melhor o seu firme proposito de terminar radicalmente uma explicação insustentavel, começou a pôr tudo em ordem na secretaria, mettendo as folhas da «Declaração», no sobrescripto, o sobrescripto no cofre, e como fechasse o cofre com a pequena chave d'ouro, Joanna que vira durante muitos annos esse pequeno broloque no bracelete de Valentina, começou, a rir com aquelle sorriso insolente que já duas vezes empregára, tendo-se d'ambas ellas Norberto revoltado com o ultrage. D'esta vez ainda estremeceu e as mãos tremeram-lhe. Mas nem uma unica palavra escapou dos seus labios á qual Joanna poderia retorquir com alguma nova insinuação.
Teria ella, se esta entrevista se prolongasse, tido a audacia de afrontar a colera reprimida que devorava o amante?
A existencia d'essa chave nas mãos do marido que deixára loucamente desconfiado, e que encontrava tão estranhamente conformado depois dos indicios altamente compromettedores, era a prova, para ella, de que uma scena qualquer se déra entre os esposos, e que, apertada por Norberto, Valentina empregou o derradeiro artificio das mulheres levadas ao ultimo extremo: exigir uma inquirição, reclamar que os seus papeis intimos sejam vistos na sua ausencia. Teem antecipadamente tudo preparado para que a busca dê em resultado a completa cegueira do accusador. Era assim que, julgando a prima por si, Joanna de Node interpretava{180}um reviramento, tão extraordinario no qual não acreditou nos primeiros momentos, e em que, agora mesmo, só com difficuldade acreditava. Iria formular esta nova accusação e provocar da parte d'este homem que, resolvido a romper com ella, se constrangia para a não maltratar, uma explosão de revolta e de desprezo? A subita chegada da rival, da propria Valentina evitou-lhe essa má acção.
Inquieta por causa do marido que sabia achar-se em disposição de ler a confissão da morta, e fatigada por ter cumprido, na rua Lacépède, o funebre dever, a nobre mulher sentiu uma intensa dôr, quando soube que Joanna a esperava.—Recordou-se de que, durante horas, depois das revelações da tia Nerestaing, se havia debatido contra provas indiscutiveis. (O barão de Node tinha communicado á velha fidalga as informações colhidas por uma agencia, precisando o nome de um hotel de provincia onde os dois amantes passaram tres dias e a data. Essa data coincidia exactamente com uma ausencia simultanea feita por Norberto e Joanna.)
Depois o ruido das suas vozes, vindo do pequeno salão e a transformação subita do avisado, dissiparam as ultimas duvidas da confiante Valentina.
Recordava-se tambem ainda de que na sua alma toda generosidade, toda dedicação, a visão do filho tão terrivelmente, tão subitamente esclarecido a respeito da mãe, a havia arrastado á piedade.
A mordedura do ciume fôra tão aguda que hesitou em entrar na casa aonde se achavam os dois cumplices. A sua emoção foi tal que teve de se{181}apoiar durante um momento contra a parede da casa que precedia o pequeno salão.
Foi então que, recordando-se da violencia com que a mão do marido apertou a sua, primeiro ao descer da carruagem quando lhe foi annunciada tão bruscamente a morte de Raynevilhe, depois junto da cadeira em que o velho amigo da senhora de Chalinhy jazia immovel para sempre, sentiu de novo quanto esse homem, fraco e apaixonado, necessitava d'ella. Ao mesmo tempo, porque era mulher, sentiu um certo orgulho em lhe provar a nobreza d'um coração, que elle desconhecia até ahi, mesmo em presença d'aquella por causa da qual a havia esquecido. Disse, para comsigo mesma: «Não devo saber d'essas vilanias; é a minha unica vingança...» E teve energia bastante para transpôr a porta do pequeno salão e cumprimentar Joanna da mesma maneira porque o teria feito oito dias antes, quando de cousa alguma desconfiava ainda.
—«Vim mais tarde, é uma falta imperdoavel, da qual espero me desculparás, Joanna... Devias ter preparado o chá. Fazes o obsequio de o servir emquanto vou tirar o chapeu?»
—«Estou um pouco incommodada», respondeu a outra. «Vim unicamente saber noticias tuas. Vou-me já embora. Esperam por mim na rua Barbet e é já tarde.» E, fitando Norberto com um olhar d'um impudôr e d'uma dureza singulares, accrescentou «Teu marido esperava por ti. Encontrei-o tão impaciente para te ver, que evidentemente estou aqui demais...» Fixou a prima d'uma maneira{182}que deixava transparecer todo o seu antigo odio, exasperado pelo choque inesperado e para ella inexplicavel, que soffreu n'uma lucta em que tanto desejava triumphar.
Tinha ainda no olhar uma peor e mais insultante ironia, a d'uma mulher que, mentalmente, diz para outra: «Podes ludibriar á vontade esse imbecil, mas a mim não me enganas tu, minha menina...» Depois disse alto: «Supponho que terão muitas cousas que dizer um ao outro. Deixo-os, pois, na paz domestica!...»
E sahiu, depois de proferir estas palavras, que tinham, na sua bocca, uma bem insolente significação. Norberto e Valentina sentiram egualmente a crueldade d'uma tal ironia, n'aquella occasião. Ficaram alguns instantes sem proferirem uma unica palavra, depois, ajoelhando-se em frente da esposa e tomando-lhe as mãos entre as suas, o marido infiel disse quasi em segredo:
—«Será bastante a minha vida inteira para tudo te pagar?...»
—«Pagar-me, o quê?» respondeu Valentina. «O ter-te amado sem t'o saber mostrar? Conhecel-o agora. Não estou a lamentar-me.» Proseguiu depois, obrigando Norberto a levantar-se, e appoiando a cabeça fatigada sobre o hombro d'esse homem que sentia, emfim, pertencer-lhe:
—«Quem devemos lamentar são os que são amados sinceramente e que não teem direito a sêl-o, os que não podem ser verdadeiros para comsigo mesmo sem mentir aos outros, aquelles cujas felicidades podiam ter evitado muitos soffrimentos{183}a si e aos outros... Lastimal-os, tu?» perguntou ella.
—«Lastimo-os, sim», respondeu Norberto, e na inexpremivel emoção de tantas maguas e de tantos erros, esses dois entes trocaram o primeiro beijo de amor que um e outro deram e receberam.
Esta historia d'um episodio romanesco, desenrolado no meio menos romanesco que existe, a alta sociedade parisiense, não ficaria completa se o chronista não transcrevesse aqui—sem commentarios, como vulgarmente se diz em estylo de gazeta—o final d'um dialogo que surprehendeu uma noite, no theatro, do fundo d'uma frisa, que habitualmente frequentava, menos para gosar o entrecho das peças que se representavam no palco (levava-se n'aquella noite um drama no qual se fazia a apologia em regra da união livre!) do que para admirar aquella ou aquellas que lhe era licito adivinhar no vasto salão.
Uma das interlocutoras era a senhora de Bonnivet, de que já fallámos e Saveuse, tambem nosso conhecido, ignorando um e outro que fallavam deante d'uma testemunha que conhecia o facto bem melhor do que elles proprios; commentavam:
—«Sabe V. Ex.ª qual é a novidade mais palpitante?» dizia Saveuse, «a ex-baroneza de Node desposou um americano extremamente rico, chamado Harris, de New-York, o irmão do primeiro marido da princeza d'Ardêa.»{184}
—«Era uma amiga» respondeu a senhora de Bonnivet. «Se fôr para os Estados Unidos teremos uma mulher divorciada menos a receber e a sermos recebidos por ella, conforme os dias. E que qualidade de pessoa é esse tal Harris?»
—«Um homem encantador, um bonito rapaz e muito apaixonado por ella», respondeu Saveuse.
—«Ainda bem!» repetiu a senhora de Bonivet, «tinha todo o direito a alguma felicidade desde que Chalinhy a deixou tão indignamente. Vamos tornar a ver este triste personagem. Visto que Joanna vae deixar Paris, Valentina com certeza lhe permitte que volte por cá. Depois de doze mezes passados no campo e d'um filho! Acho tudo isto d'um ridiculo espantoso, repugnante mesmo. Não haveria melhor maneira de fazer saber ao mundo que se era enganada e que tudo se perdoou?»
—«Não sabe então ainda o melhor», insistiu Saveuse, «que não usam já ou vão deixar de usar o appellido Chalinhy. Trabalham para restabelecer o nome de Nerestaing...»
—«É por causa do Castello. Isso é muitoridiculo,» replicou ella rindo.
Ha ainda cousas tão profundas como as aguas tranquillas e como as bellas almas silenciosas. É a ignorancia e a maledicencia dasamigase sobre tudo dosamigos.
FIM{185}{186}