Chapter 6

[8]Carta dirigida ao cavalheiro José Hume. Versão de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.

[8]Carta dirigida ao cavalheiro José Hume. Versão de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.

O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois, cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua importancia no anno em que governára a freguezia—o respeito dos rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça.

Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães, quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave, e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde, José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante de ordens do general,—dois homens gentilmente valorosos;—o coronel Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.

A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro, n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do batalhão do Populo.

O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho Leal,[9]um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé politica, antipoda da sua forte intelligencia—uma especie de poeta medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva...

—Que ha?—perguntou o quartel-mestre general.

—Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.

O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades, capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo—escreve o snr. Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me:Isso não vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis.» Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou Guimarães e entrou na estrada de Amarante.

Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho Leal: ...«A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu, vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar «superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada.»[10]

E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.

O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I.

Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O Victorino notava-lhe que elle bebia de mais—que o calor da genebra não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça—que era um perigo. O Cerveira dizia que estava affeito; mas queixava-se de dôres nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com somno, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:—Este ladrão d'este inglez metto-lhe a espada até aos copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã!

O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.

O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado; não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcoolica.

A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho Leal:N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em marcha com uma apoplexia fulminante o P...[11]Coitado! quando me lembra isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de que—mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado velho.[12]

Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta, repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos afincada como garra nas correias da pasta.

O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas, intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.

—Toma!—disse um dos jornaleiros—um conto de réis! E inclinando-se á orelha d'outro jornaleiro:—Ó Tonio, se temos ido mais cedo para o monte ... e topamos o morto...

—Que pechincha!...

Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa.

O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:—Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo. Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!

—Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta!—protestava o pedreiro cortando com o braço e punho fechado punhadas aereas.—Se me matarem ... até lh'o agradeço!—E com desalento: Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do sol! Veja você: ha tres annos que não tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lh'o eu! Você verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma forca pr'ámor d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e não me passa d'aqui!—e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.

Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.

Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida e á morte, se chamavainfelizedesgraçado, o destino implacavel preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D. Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas, tocando oRei-chegou: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta, cantando oBemdito. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando aCana-verdeeAgua leva o regadinho. Em um d'esses bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella, vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama atordoado.

—Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamellas com o regedor.

Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas.

O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou. O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle não podia defendel-a porque estava tolhido.

O Zeferino perguntou pacificamente:

—E o Simeão que dizia?

—Não dizia nada. Eu é que lhe disse...Arrieiros somos, na estrada andamos, visinho Simeão.

O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:

—Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ... Que leve o diabo tudo...—E, passados alguns segundos de recolhida angustia:—Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no corpo...

—Homem—atalhou o pai com juizo—não fosses tu lá a Prazins embirrar com o brazileiro...

—Eu tenho a minha paixão—objectou o filho com transporte—tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e elle ... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...

Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz acutilados.

Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa, invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella estivesse fina, casava com o tio.

—E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso.

—Pois então!... Tomára-a elle já.

—Emfim—tornou o Bento—você ha-de perdoar que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer...

—Tem bô estomago, é o que é—confirmou o Belchior da Rechousa.

O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se vingar.

—Emfim—disse o Belchior—você tinha-lh'a dado por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz.

—Isso cá da minha parte foi chalaça...—defendia-se o Simeão, quando tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão e derrubou-o.

Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou—aqui d'el-rei ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos, levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a confissão.

Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com medo á malta do Zeferino.

O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao irmão:—Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle sangue.—E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu quarto,—que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria retiral-a do espectaculo dos paroxismos.

Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso doBemditoe o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.

Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a alcôva:—quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino das Lamellas. Juro que não foi outro.—Esta affirmativa cravou-lhe no coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que lhe estava a rapar a cabeça.

Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.

O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o levava a mal, pelo contrario.

Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando. Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a. Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo, um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo.

Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e do pai.

O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O Feliciano acudiu:

—Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo.

—Eu morria contente—balbuciou o Simeão lacrimoso—se ella fosse sua mulher...

Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha, aconchegando-a de si, com muita ternura:

—Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço...

Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta.

O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia; era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque.

—Elle disse que o melhor era casar-se—lembrou o Feliciano ao padre Osorio.

[9]Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".

[9]Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".

[10]Carta de 10 de junho de 1877.

[10]Carta de 10 de junho de 1877.

[11]Quando Pinho Leal publicar as suasMemorias, então se saberá o verdadeiro nome do morto.

[11]Quando Pinho Leal publicar as suasMemorias, então se saberá o verdadeiro nome do morto.

[12]Carta citada.

[12]Carta citada.

Relatava o vigario de Caldellas:

—O cerebro do Simeão, se era refractario aos golpes da dignidade, não era mais sensivel ás commoções das pauladas. Duas vezes feliz quanto á cabeça: nem honra nem predisposições inflammatorias. Cicatrisou a ferida; começou a comer gallinhas com a fome de um cannibal e com o prazer carnivoro d'uma raposa. Dera tacitamente Martha o consentimento de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se minha irmã lhe tocava n'esse assumpto, dizia: «Façam de mim o que quizerem... Para o que eu hei-de viver ... tanto' me faz...» Quanto ao casamento, proseguiu o padre Osorio, eu scismava se a primeira noite nupcial seria a véspera de escandalosas desavenças, arrependimentos, choradeiras, divorcio, vergonhas, coisas; mas occorria-me que Feliciano me confessára repetidamente que sahira da sua aldeia aos doze annos e tornára casto e puro como sahira. E eu então, attendendo a que a castidade, além de ser em si e virtualmente uma coisa boa, tem umas ignorancias anatomicas, e umas inconscientes condescendencias com as impurezas alheias, descançava, tranquillisava o meu espirito escrupuloso. Uma falsa comprehensão da honra alheia ás vezes me aconselhava que mandasse o brazileiro conversar sobre o assumpto com o operario que o luar enganára em certa noite; mas a honra, como a consciencia, não são quantidades constantes no geral das pessoas; são condições da alma tão variaveis como a materia exposta ás mudanças climatericas. Ora as condições mentaes e moraes de Feliciano Prazins eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que direito ia eu estragar aquelle excellente organismo?

Até aqui o padre Osorio com a sua grande pratica ethnologica dos usos e costumes dos maridos sertanejos do Minho.

O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim como curára em silencio o coração, golpeado pelas deslealdades da defunta Genoveva, do mesmo modo se acommodára com os estragos soffridos nos tegumentos da cabeça. Dizia-lhe o administrador que querelasse contra o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam prova. Não quiz.—Depois é que me dão cabo do canastro;—dizia com um dom prophetico, e circumspecção admiravel em um homem sem instrucção primaria.

No entanto, Zeferino debatia-se n'um azedume de desesperado, muito má lingua, insano de paixão, a degenerar para faccinora em theorias de escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vicio do pai com sêdes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia allivios, consolações ineffaveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de duas caras que comprára no tempo em que amealhára dez mil cruzados com dez annos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de Famalicão a Landim, perto das Lamellas, jogadores professos, armar a forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pêgo. Depois das perdas, quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira, embriagava-se de novo, e n'essas allucinações ia a Prazins, de clavina ao hombro, com o Tagarro de Monte Cordova, e fallava alto, com petulancia, para que Martha o ouvisse. O brazileiro e o Simeão tinham-lhe medo e não abriam as janellas depois do sol-posto.

Espalhou-se então a noticia de que o brazileiro ia effectivamente casar com a sobrinha.

O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anonyma, que era um traslado augmentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da janella. E por fim ameaçava-o—que se casasse com a Martha, não a havia de gosar muito tempo. O Feliciano mostrou a carta ao irmão. Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, damnado de raiva. O brazileiro entrou a scismar que o scelerado era capaz de levar a vingança ao cabo—bater-lhe, matal-o. Os tiros desfechados á sua honra de marido de Martha resvalavam-lhe na coiraça da consciencia: «eu sei o que faço» dizia elle; mas a idéa de um tiro ao seu physico, inquietava-o devéras. «É preciso dar cabo d'este ladrão» dizia o brazileiro ao mano, n'um grande mysterio.

Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de olhos estrabicos, d'alcunha oAlma-negra, um que o tinha avisado, quando a malta da patuleia tencionava agarral-o. O Melro rompera relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hyperbolicamente ao seu compadre que o Zeferino, quando andára na patuleia, era ladrão como rato.

O Melro era má bisca. Estivera tres annos na Relação como cumplice em um homicidio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher e quatro filhos, e não cessava de pedir emprestimos ao compadre desde que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse em segredo que quem lhe batêra fôra o Zeferino, com as costas guardadas por dois pimpões do Monte Cordova. E accrescentou:—Elle bem sabe a quem as faz. Havia de ser commigo eu com pessoa que me doesse...

O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o compadre. Disse-lhe que ia vêr a quinta da Commenda que se vendia; que lh'a fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de uma casa com tres janellas e um quintal espaçoso.

—É aqui, disse o Melro.

O brazileiro poz o monoculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro tachas:Domingo, ás 10 da manhã, depois da missa, vai á praça a quem mais dér sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa, dizima a Deus, para partilhas. O Feliciano leu, retirou-se apressado para que o não vissem, murmurando quaesquer palavras a que o compadre Melro respondeu:

—Vossoria então está a lêr! Tão certo tivesse eu o céo como tenho a casa...

Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos freguezes da taverna que o seu compadre ia comprar a quinta da Commenda, e que estivera a lêr o escripto da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez a comprasse para a dar a um afilhado ...

—Ao teu pequeno?!—perguntavam.

—Pois a quem ha-de ser! Aquillo é que é um homem ás direitas!

—Elle não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa como a mim pagar-te um quarteirão d'aguardente—encareceu um pedreiro.—Anda agora a trabalhar no palacio da Retorta. Que riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que case com a Martha. Lá o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! Isso diz que dá cada arranco...

—O Zeferino, a fallar a verdade, tem razão—disse o Melro.—O Simeão tinha-lh'a promettido. Gente sem palavra que a leve o diabo! Eu, se fosse commigo... Mas, emfim, é irmão do meu compadre ... não devo dizer nada. Que se governem.

O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:—A casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...

—Credo!—exclamou a mulher com as mãos na cabeça.—Nossa Senhora nos acuda!

—Leva rumor!—e punha o dedo no nariz.

—Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...

—Já te disse que me não cantes—e relançava-lhe o seu formidavel olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.

—Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!—insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina rouca:

Leva ávante, portuguezes,Leva ávante, e não temer...

Leva ávante, portuguezes,Leva ávante, e não temer...

—Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.

E o Melro n'uma distracção lyrica:

Pela santa liberdade,Triumphar ou padecer...

Pela santa liberdade,Triumphar ou padecer...

Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.—Está suja—disse elle—dá cá um todo—nada de aguardente.

—Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!

—Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!—E poz-se a assobiar aLuizinha. Enroscou algodão embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibillo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava,mezza voce:

Agora, agora, agora,Luizinha, agora.

Agora, agora, agora,Luizinha, agora.

Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira que faiscava.

—Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!—soluçava a mulher.

E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'umsfogato:

E viva a nossa rainha,Luizinha,Que é uma linda capitôa...

E viva a nossa rainha,Luizinha,Que é uma linda capitôa...

—Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.

A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e regougou:—Máo! ... máo!...

Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.

Agora, agora, agora,Luizinha, agora.

Agora, agora, agora,Luizinha, agora.

Depois, pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. OAlma negrafôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas daMaria da Fonte.—Ora agora—disse elle—ouvistes? porta da cozinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

—Vai com Nossa Senhora—disse a mulher—e poz-se de joelhos a uma estampa do Bom Jesus a rezar muitosPadre-nossos, a fio.

Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio da coruja no campanario distante punham arrepios de medo na espinha d'aquelle homem que ia matar outro—chamal-o á janella e varal-o á traição com uma bala.—Era o traçado.

—Que raio de escuro!—dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.

Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente aoFiatgenesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.

O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o rio Pelle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos dofaubourg Saint-Honoré, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.

Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. Tinha dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.

O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era elle quem reclamava um quartinho que puzéra deporta, e o banqueiro recolhêra com as paradas que estavamdentro, quando tirou a contrariade cara.

—Que não admittia ladroeiras!

E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.

A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.

Quando, á meia noute, oAlma-negraentrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.

O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre—que o compadre não lhe dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a mulher—que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.

Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

—Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os outros não matam elle, hein?


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