Chapter 8

Martha regressou com D. Thereza, alguns dias depois. O brazileiro conveio no tratamento hydropathico da esposa; e a compadecida irmã do vigario offereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava n'ella com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a defendesse do missionario.

D. Thereza assistiu ao nascimento da primeira filha de Martha. Imaginava a irmã do vigario que no espirito da mãe se havia de operar uma benigna mudança; que o amor á filha seria diversão á saudade de José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensivel, porque era materia corrente nos tratados alienistas que um cerebro lesado não se restaura sob a impressão do amor maternal que só actua nas organisações normaes. Porém, D. Thereza não podia crer que Martha estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em que, raras vezes, se interessava, disparatasse, affirmando que via a alma de José Alves, como quem conta um caso trivial.

Quando lhe mostraram a filha recem-nascida, contemplou-a alguns segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a vêr se lhe espertava o coração. Punha-lh'a nos braços, dava-lh'a a beijar. Martha cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha como se fôra uma creança alheia. A ama ia dizer ás creadas que a brazileira era uma cafra, que não podia vêr o anginho do céo.

Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tres dias antes do ataque, a torvação de Martha manifestava-se com extravagancias, delirios. Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Thereza, á madrinha de sua filha, que arranjára aquelle caminho de rosas, porque o seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim em Villalva quando casassem, e ella fizera aquelle jardim para passearem juntos quando elle viesse á noite. D. Thereza encarou-a com uma grande piedade, porque se convenceu então que estava perdida.

O Feliciano, quando ella se fechava no quarto, já sabia que estava a preparar-se o ataque; ia dormir n'outra cama: necessitava do seu repouso, dizia elle; tinha de erguer-se cedo para vêr o que faziam os jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se casar já o mortificava, evadia-se ás irremediaveis apoquentações, olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se ás vezes que, tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradavel ficar viuvo. Não obstante, como, passado o ataque epileptico, a esposa recahia n'uma serena indolencia, n'uma impassibilidade mansa e tranquilla, o tio ia dormir com ella, tendo sempre em vista as condições do seu bem estar, as necessidades imperiosas da sua physiologia. Assim se explica a fecundidade de Martha, que deu em sete annos cinco filhos a seu marido. O medico já tinha explicado satisfatoriamente ao padre Osorio que a demencia de Martha era funccional, e as qualidades reproductoras não tinham que vêr com as anormalidades cerebraes. A Providencia não teve a bondade de fazer estereis as dementes.

Entretanto, nos tres dias precedentes ás crises epilepticas, parece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivencia de José Alves, o seu amado sahia do sepulchro, e transportava-a nas suas azas de anjo ao paraizo de Prazins. D. Thereza, collando o ouvido á fechadura da porta, ouvia-a conversar como era dialogo, ficar silenciosa, depois d'uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho á porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os labios postos em contacto de um rosto amado. O nome deJosérealçava com uma nitidez jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e ás vezes, um grito em esforçado desespêro como se elle se lhe desatasse dos braços para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria d'esta loucura um argumento a favor dasManifestações visiveis, em que o fluido, operispiritose apresenta semi-material, com as fórmas vagas do corpo, quasi tangivel aomedium.

O Feliciano ignorava estas scenas extra-naturaes. Elle, ao sexto anno de casado, encouraçára-se n'um impenetravel egoismo de avarento, cortando fundamente por todas as despezas que em vista da sua grande fortuna se reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunatico, mais ou menos inficcionado da alienação da mulher. E a loucura que é se não a exaggeração do caracter? Porque o viam ás vezes atravessar os seus pinhaes, com o monoculo, gesticulando, e faltando sósinho, chamavam-lhe doudo. Errada hypothese do vulgo ignorante. Elle fazia operações arithmeticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigaes n'uma declamação rythmica ao ar livre e ao luar. O certo é que ninguem o apanhava em intervallo escuro para o defraudar n'um vintem. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo, de Quadros; umas á viuva, e outras aos filhos. A D. Honorata Guião, casada em segundas nupcias com o desembargador do Ultramar Adolpho da Silveira, veio á metropole assim que viuvou para se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava nos Pombaes, com o marido e filhos, tentaram escorraçal-a com ameaças e insultos, atirando-lhe tiros á janella. O magistrado fugiu com a sua familia e acompanhou com força armada os actos judiciaes. Afinal, Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brazileiro Prazins; e o morgado, vendido o seu patrimonio desvinculado, e mais o irmão, vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existencia na tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufragio agarradas ás pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus casaes e as sovavam de pontapés injustos e extemporaneos, quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte.

A brazileira de Prazins tem hoje cincoenta e tres annos. Os seus visinhos que contam trinta annos, nunca a viram, por que ella, desde que, em 1848, morreu D. Thereza, nunca mais sahiu do seu quarto. Já ninguem a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de ha quarenta annos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas allucinações, e—o que mais é—ainda tem lagrimas, quando, nos intervallos dos delirios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O padre Osorio ainda a procura n'esses periodos de razão bruxuleante e falla-lhe da irmã por sentir a ineffavel amargura doce de se vêr acompanhado nas lagrimas. Mas o padre diz que nunca pudéra vêr nitidamente a linha divisoria entre a razão e a insania de Martha. Depois do delirio, sobrevem a monomania hypocondriaca. A alma continua a dormir sem sonhar, sem as allucinações. N'essa segunda crise de torpor, elle e só elle é admittido ao seu quarto, depois de esperar que desça da cama ou se embrulhe n'um challe para encobrir a sordidez do corpête dos vestidos. Este challe é uma scintilla resistente de instincto feminil que raras vezes se apaga no commum das dementes, excepto no maior numero das hystericas com erothismo.

Martha tem duas filhas casadas e já mães. Ás temporadas, vestem serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos paes, onde continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai educára-as na lavoira, de pé descalço; e sachola nas unhas. Trabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando regressam, recebem-as sem as interrogarem; porque, se as affligem, dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos, escrofulosos, tristes e sem infancia predomina a diathese da imbecilidade e a falta de senso-moral que é uma especie pathologica menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos ha um que estudou para clerigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. Estudou seis annos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas violencias á sua incapacidade; e quando Feliciano, prodigo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com tres reprovações, elle trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas hostias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E o pai foi tão feliz que pôde vender as hostias com o pequeno prejuizo de dez por cento.

—Ahi tem o brazileiro de Prazins, se nunca o viu—dizia-me ha trez mezes o padre Osorio mostrando-me no mercado de Famalicão um velho escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monoculo fixo, vestido de cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas.

—Tem 84 annos—continuou o vigario de Caldellas—veio a pé de sua casa, que dista d'aqui legua e meia, janta um vintem de arroz, bebe outro vintem de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a pé, atravez ou pouco menos das suas quatorze quintas. Com a frugalidade, com o exercicio e com o seu egoismo sordido viverá ainda muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoistas e os papagaios viviam cento e cincoenta annos.

Com os subsidios ministrados pelo cura de Caldellas compuz esta narrativa, espraiando-me por accessorios de duvidoso bom senso, cuja responsabilidade declino dos hombros d'aquelle discreto sacerdote. Tudo que n'este livro tem bafio de velhas chalaças, ironias e satyras é meu; e, se alguem por isso me arguir de pouco respeitador do vicio e da tolice, retiro tudo.

Se o meu condescendente informador me permitte, ouso dizer-lhe—para nos esquivarmos ambos ás insidias da critica portugueza—que a demencia de Martha não é extremamente original nem o meu romance uma singularidade incontroversa. O que, sem disputa, é original, é duvidar eu de que o sou.

Em umContode Charles Nodier, auctor remoto que se perde no crepusculo da litteratura archeologica, ha uma LYDIA que endoudeceu quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa indole, pereceu n'um incendio salvando tres creanças e sua mãe.

Lydia enlouquece e cuida que seu esposo está no céo de dia e a visita de noute. Ella, desde o repontar da aurora, sae ao jardim, e colhe flores para o brindar quando elle desce do azul com azas de pennas de ouro. Ao cabo de seis annos d'este sonhar delicioso, a ditosa douda, quando andava a recolher as flores dilectas para obouquetdas nupcias com o anjo de cada noute, sentou-se em dulcissima somnolencia e expirou.

As analogias de Lydia e Martha frizam pela visão dominante na demencia de ambas—uma especie de resurreição do amado. No que ellas diversificam essencialmente é que uma sonhou seis annos e a outra vai no trigesimo setimo da sua demencia; Lydia sonhou absorvida na sua ideal alliança com um celicola, um bem-aventurado com azas de ouro; Martha quando immerge allucinada no seu lethargo, é a paixão leal ao amado sempre vivo na terra e no seu coração. Lydia passa as noutes em amplexos do marido celestial: Martha, sem consciencia da sua vida organica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a porção ignobil de seu ser e a rejeitasse ao sêvo sensual do marido resalvando a alma d'essa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que não ha nodoa de plagiato no meu livrinho—uma coisa original como o peccado.

O leitor pergunta:

—Qual é o intuito scientifico, disciplinar, moderno, d'este romance? Que prova e conclue? Que ha ahi proveitoso como elemento que reorganise o individuo ou a especie?

Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende reorganisar coisa nenhuma. E o auctor d'esta obra esteril assevera, em nome do patriarcha Voltaire, quedeixaremos este mundo tolo e máo, tal qual era quando cá entramos.

S. Miguel de Seide, dezembro de 1882.


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