—Que? Nau! Aquella é a grande Barbara de Loures, que vendo-se adorada por um homem das classes superiores, não pôde resistir-lhe.
E baixando a voz n’uma lascivia desordenada e surda: de encher a cama, c’um raio! Em eu as vendo de barba, hum! já sei—com’as castanhas, muito boas e muito quentes. Diz que sóajuntando-se... Mas ando a vêr se a atraco pela politica. Que a gaja é uma republicana escamadissima. Para embrulhos não quer senão oFacho. Ai, mas que carninhas!
—Pois é matriculal-a, disse Arthur.
—Hein? fez amigo Flores espinoteando, como beliscado no posterior das zonas medias.
—N’um club jacobino, está visto.
—Ando a pensar em servir-me d’ella para tornar os mercados republicanos. Isto, passada a lua de mel! fez elle com grande ostentação. Olhe que se angariam n’aquella Praça magnificos correligionarios, gente destemida, malta de pulso, arruaceiros! Entre as mulheres sobretudo. Porque as mulheres são uma força desaproveitada, já ousei dizel-o no famoso comicio de 24! Ellas muito serviçaes, muito sinceras! e nasbernardas, olhe que não sei! Em summa, Alcantara com dois ou tres clubs de femeaço, dá brado. Se tal metto em cabeça á grande Barbara, ella por um lado, eu por outro, e não dou á caranguejola do throno um mez para se mandar mudar. Que eu tive já esta ideia para creadas de servir. Mas vossê sabe, a municipal incute-lhes respeito ás instituições. Emquanto estiver a guarda, podemos contar que a creada de servir é pela monarchia.—E circumvagando olhares desconfiados, poz-se mysteriosamente a dizer que o não largavam, malandros! não era senhor de fazer um passo na rua.
—Mas quem? perguntou Arthur.
—A policia, homem! Como lhes faço medo, mandam-me guardar á vista. Erros do paço. Pois vou-me. Não sabem elles que a obra da revolução é fatal como a das tempestades. Até sempre. Marcha-se porque se marcha; é boa essa!
—Espere cá, espere cá, disse Arthur que não tinha podido sustar-lhe a verborrhêa de Quixote vingador. Preciso de vossê, appareça de manhã. Quero sessenta roseiras do melhor, custe o que custar. Pés com flôr, o mais vigoroso que houver. Ámanhã sem falta então. Conhece vossê quem venda?
—Eu não, mas a grande Barbara deve ter noticia d’esse ramo de commercio. Não gosto de rebater asserções de ninguem, mas é muito, sessenta roseiras. Dará vossê baile?
—Não, dou de jantar a alguem, d’aqui por deante.
—Caspite, provaremos dos vinhos. Então casa armada? Se vossê faz gosto, pintamos-lhe frescos na casa de jantar. Alguma coisa no genero Pompeia, como se não conhece por cá.
—Não, não, disse Arthur. Só necessito as roseiras.
—Concedido. Adeusinho. Soube vossê da grande manifestação republicana doMortalha e Onçaem Caparica? Anda tudo ahi cheio, guarda reforçada. E o ministerio cae!
Imagine que eram os clubs todos, mais de trinta pessoas, tudo em grande burricada, com barretes phrygios e cannas verdes, cantando a Marselheza. OTrintabotou artigo de fundo. Ah, foi imponente! Ao jantar vieram felicitações dos democratas da Amora. D’esta vez o rei embarca! O meu discurso vem noFacho, vossê deve ter lido.
—Não li.
—Vossê não é homem que se instrua com jornaes. Indole molle. Faz mal. Eu cá, sempre na brecha!
—Olá! disse a matrona com grandes berros de impaciencia. Despachar, gentes.
—Adeusinho, que a dama desafina. E os malandros a rondarem-me os passos. Eu vos direi, tyrannos! clamou elle mostrando punhos ameaçadores ás esquinas desertas. Então de manhã. Eu indago das roseiras. Saudinha. E trate de me vêr aquelle discurso, homem. Vem noFachode hontem, terceira pagina, ao alto da quarta columna. Lá verá asserções que ninguem póde rebater.—E foi-se a passos tragicos, com as abas do frac avoejando.
Em tres dias fez-se uma revolta em casa do esculptor. Veio terra vegetal para grandes canteiros talhados de redor das paredes, e em volta ás arvores; um jardineiro plantou com mão profusa as roseiras compradas a Campo d’Ourique, no Petit, ou remettidas pelo Loureiro do Porto. Ao mesmo tempo adquiria Arthur dois grandes volumes de floricultura, disposto a estudar a fundo o problema das rosas. Muitos exemplares que não cabiam no jardimzito, povoaram oatelier, alinhavam-se no corredor, e dir-se-hia velarem o somno do pobre rapaz, espreitando para dentro da alcova. A residencia então tomou um ar permanente de festa, onde os perfumes erravam de em torno ás estatuas, n’um mysterio nupcial que fazia inda mais triste o artista. Da janella, toda friorenta n’um chaile, Judith tinhaassistido aos trabalhos, com uma sollicitude attenta e silenciosa. Albano não apparecia, por seu lado.
—Então faz-se agora jardineiro? disse ella quando uma noite o esculptor lhe trouxe o primeiro bouquet de rosas brancas. Elle balbuciou confuso o quer que fosse em explicação—que as manhãs eram longas, tinha agora pouco trabalho, era um meio de entreter tempo. Depois adorava as rosas. E aqui fez por exaltar-se, tivera predilecção por aquellas flôres desde pequeno. E como ella mordendo as petalas devagarinho, uma a uma, o mirava com os seus olhos attentos, Arthur cada vez mais escarlate balbuciou coisas vagas, e a voz perdeu-se-lhe. Essa vez fallaram pouco. A mamã dormitava no seu quarto, o irmão sahira para um leilão de livros.
Ella tinha uma roupa escura muito simples, cingida ao corpo e cahindo em pregas amplas, onde a brancura das mãos ficava luminosa apertando o bouquet. Pareceu-lhe mais alta, nunca elle a vira tão pallida, e d’um austero tom cahindo para rigido, quando se faziam silencios entre os dois. Puzera uma romeira branca collada ao pescoço n’um desenho monacal. E contou a Arthur que se sentira doente n’aquelles dias, um frio nos ossos, pequenas tosses que a fatigavam, de noite mesmo sonhara coisas funestas.
—Porque não veio cá? disse ella em queixume. Foram uns serões tão tristes!
—Outro dia larguei Albano tarde. Podia incommodar, não subi.
—Incommodar! fez ella com um modo admirado. E voltando á sua ideia negra contou d’umas borboletas sombrias, que a mamã vira entrar pela janella á noitinha. E o tempo mais frio, sempre nuvens, parece que tudo chora...
Ia comendo irresistivelmente as rosas, toda disfarçada e a medo, como uma creança que faz uma maldade.
Á porta da escada, quando Arthur já se ia embora, ella com modos acanhados disse que lhe queria pedir uma coisa, mas tinha vergonha, receava que elle se puzesse a rir.
—Oh não, disse o esculptor todo serio. Que é?
—Guarde este dinheiro, tornou Judith muito baixinho, guarde, foi d’umas rendas que fiz para o armazem. E entregou-lhe dez tostões—Agora oiça cá, é muito serio, sim, muito serio. Alli defronte ha uma capella, mande lá dizer duas missas, no altar de Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha; prometta, ande.
—Mas prometto.
—Diga ao padre que é por intenção d’uma pessoa doente, que necessita muito de viver. Diz, sim?
—Digo.
—Eu estarei na janella da sala rezando. Sabe rezar? perguntou ella ingenuamente.
—Meu Deus, ensinaram-me.
—Inda bem, Nossa Senhora ha de ouvil-o. Tudoo que eu fôr ganhando será para ella, coitadinha, que é pobre. E não diga a ninguem, nem á mamã, nem ao Albano.
—Posso saber, disse elle, por quem faz esses sacrificios?
—Nada, respondeu ella baixando a vista. Vae sendo velhinha a mamã, e depois Albano não vive senão com livros. Para lhes tratar da roupa com amor é preciso ser da familia. Uma estranha não quer senão que lhe paguem. Quem havia cuidar d’elles se eu morresse!
Aquella infantil preoccupação fez pena a Arthur, que lhe beijou respeitosamente as mãos, pela primeira vez.
—Gosta de mim? disse ella olhando-o de face com grandes olhos ingenuos, em quanto lhe prendia na casa uma d’aquellas rosas brancas do ramo.
—Mas muito, juro, muito!
—E foi por minha causa que mandou vir as roseiras?
—Não, não, palavra.
—Shut! foi tal. Albano deu a entender. Eu mesma adivinharia. Hemos sempre ser amigos, quer? Se Nossa Senhora fosse servida dar-me saude, quem sabe ainda... Mas sinto-me tão fraca, e o tempo muda, depois...
Fez com o polegar na ponta do queixo, o gesto d’uma coisa que se aniquila. E chorava. Foi como Arthur a viu em sonhos d’alli por deante. Todas as manhãs lhe mandava rosas em grandes corbeilles.Mas nunca mais aquella visão de flôr, que emmurchece e pende, se lhe apagou do espirito.
Por esse tempo de feito, Judith adoeceu. Havia uns mezes que ella andava pallida, com o bistre das olheiras mais fundo e mais largo, recolhimentos religiosos, certos langores de cabeça, uma tristeza nos dias de frio. Á noite, Arthur vinha lêr alguma coisa, fallar do que corria, e saber como estavam. Via-lhe sempre um riso de esmalte amoravel, os cabellos enrolando muito baixos, no occiput, em duas rosaceas de oiro baço, um bocado de pescoço flaccido, e essa pallidez de mãos, cerosa e diaphana, que põe em cuidados os medicos. Como symptoma inquietante, nada. Nem dôr, nem prurido, nem ardencias de febre. Uma fraqueza crescente, um emmagrecimento sem causa, fastios, e em certos dias, cansaço. Consultado pelo artista, Albano ficou calado—e pela primeira vez não rematou com o bem bom! do estribilho.
N’esse calvo gasto de toda a emoção, envelhecido antes de feito, com postiças indifferenças pela familia, cynismos de philosopho e superioridades de sabio, via Arthur surdamente ir-se mostrando a alma mais affectuosa, á medida que Judith desfallecia. Elle que até alli tratára a irmã como uma cadellinha de collo, correndo uma vez por outra a sua velha mão pelos cabellos d’ella, com benevolenciasde pedagogo e sobrancerias de senhor, descia agora do seu sotão de anachoreta nos entre-actos dos livros, com a rabeca debaixo do braço, calva pensativa, e os myopes olhos perscrutando atraz dos oculos fixos. E alli sentado aos pés d’ella com um ar de artificial expansão, tocava-lhe os bocados de que Judith mais gostava, Schubert, Massenet ou Haydn, em cuja musica ha tremulinas de lua no azul dithyrambico dos lagos, por onde arfa a neve dos cysnes, em tapeçarias de nenuphares. ACélèbre Rêveriefazia-a chorar, assim como uma queixa de creança abandonada, por um caminho que mergulha nos bosques, sinuoso, e se perde em subsolos de floresta—e a voz esmorecendo a distancia, na noite, no desamparo, na fome... A espaços, inda ella chora na aura que faz ondular a herva dos descampados. É um dulcissimo e vago suspiro, uma supplica de alguem que embalde esmola por esses montes á chuva, á procura de cabana onde passar a noite, d’um ninho de ave onde dormir, da saccola do velho mendigo ao menos, para repousar a cabeça...
E a meio da clareira onde a chuva bate, lá longe, reunindo forças que a desamparam, inda o anjinho implora, e chama, e soluça. O vento leva o rumor d’essa voz que esvaece, repetindo manso, de mansinho, a supplica, tresvairada pela febre na oração!
—Oh cala-te! fazes-me mal! dizia ella detendo-lhe o arco inspirado. E em redor todos calados, deixavamerrar a imaginação nas brumas pallidas do sonho, soffrendo em commum d’esses presentimentos cujo phantastico é rhembrantesco, como nas noites de Walpurgis. Albano para distrahil-a tocava-lhe então coisas vivas e alegres, walsas, coplas, bailados meyerbeereanos—o dos patinadores, noPropheta, onde os grupos vão por turbilhões n’um impeto de vida brutal, sob a neve, á luz dos fachos; a bacchanal doRobertoque uma lascivia quente penetra, entre murmurios de beijos e o espumar das taças; e essa deliciosa walsa das wilis doHamlet, quando Ophelia vem louca, coroada de flôres e vestida de branco, musica tão volatil, tão sentida e tão doce, que a orchestra entrecorta de rumores de agua e echos fluctuantes da campina.
Judith conhecia a sorte das mulheres n’essas operas celebres; quasi todas morriam de amor, abandonadas, violadas, incomprehendidas. E por alegre que fosse o trecho tocado, na sua mente os vultos lendarios corriam de mãos em cruz e olhos vazios, evaporados do marmore romantico das sepulturas. Por outro lado, ella não podia passar sem ouvir o irmão, por uma hora ou duas. Distrahia-se ao menos assim, era como se fosse umasoirée. E deitada na marqueza com a nuca sobre as mãos, um papa abafando-lhe os pés, ficava assim muito tempo, muda, com o espirito longe, e immovel como adormecida. Para a contentar, Albano revolvia o reportorio classico,gavotesde Lurli, poemas ingenuos de Gery, certas sonatas faceis de Beethoven, o Mendelssohnmenos complicado, e esse menuete de Boccherini d’uma tessitura galanteadora e aerea, que diz a vida de salão no seculo dezoito, e ella nunca se cançava de ouvir. A musica amansava ao mesmo tempo o esculptor, regularisando-lhe as descargas dos nervos, mostrando-lhe os lados dôces e feminis da vida, dando o poema de cada impressão, de cada côr e cada sêr, sagrando tudo, as arvores antigas como deuses e altas como monumentos, as paixões nobres do homem, todos os infinitamente pequenos do amor e da bondade universal. E Judith sempre mais fraca que no dia anterior, com a exquisita melancolia virginal dos anjos doentes, olhos cheios de ceu, e a graça hysterica de um sangue pobre. Uma manhã não pôde erguer-se. Albano vestiu-a, tomou-a no collo como uma creança, e dôcemente veio sentar-se com ella ao pé da vidraça. Piscava os olhos vermelhos, tufados, com umticnervoso de palpebras, careca desolada, fingindo humor feliz, como se nada em casa houvesse de inspirar cuidados; e dizia muitas vezes—Bem bom! Bem bom! Mas a sua voz tremia com um degelo de lagrimas na guela; e deitada no hombro d’elle, Judith fitava-o com esses olhos inquisidores na fixidez d’uma ideia negra, constellados, profundos e crueis, de enferma que vem de lêr uma sentença na face do medico. O tempo arrefecia, iam nos ceus galopadas de nuvens, grandes chuveiros nos longes, dias pardos, as primeiras severidades luctuosas do outono.
Vortilhões de nevoa afogavam de manhã toda a paizagem de construcções esboçadas e bairros por terra, como esfumaçando dos tectos n’algum vasto incendio de cidadella. Essa fumarada crayonava nos seus ventres de monstro, escadas de Rembrandt d’uma profundeza insondavel, boqueirões que mastigavam com as suas maxillas tenebrosas, flammejantes linguas que vinham sobre os tectos lamber alguma presa estranha, membros destroncados que rolavam em explosões de minas pre-historicas.—E confundindo os cimos na formidavel confusão da abobada, iam-se franjando em rendas de tom alvacento, insculpiam trevos de ogiva barbara, columnellos, e escadarias com grandes mendigos encapuchados na sombra. A espaços, algum feixe de sol amarellentava essa betuminosa e lugubre architectura, campindo fundos d’apotheose murillana, nos truculentos ceus, onde o azul raro abria a sua elysea flôr de colorido.
No quintal de Arthur, os platanos choravam dos ramos, folhas doentias, na aggressão do vento—e desnudando os troncos dolorosos, dir-se-hiam esqueletos despegando dos membros farrapos de sudario ou de pelle. Uma regressão de seivas ia por jardins e alamedas, na melancolia torporosa dos primeiros frios. E ella ia-se devagarinho, quasi sem febre, o menor escarro de sangue, resvalando serenamente pelo mal como por um tapete de flôres. Apenas uma pequena tosse secca a fatigava muito, cavando-lhe as feições a duras enxadadas.Arthur vinha sempre, tendo agora com ella liberdades de irmão e velho amigo. Fallavam pouco.
Ella cansava, a voz ia-se-lhe sumindo como um fio de agua, nas profundezas do peito. E de mãos dadas olhavam-se os dois, n’uma quietação, comobabies. Ás vezes, raras, ella sorria, os seus olhos ganhavam lucidez como condensando a vida toda d’esse corpo franzino, e ficavam assim. Viera a maldita insomnia, uma inquietação, zumbidos. E as noites eternas torturavam-na, sem uns pobres minutos ao menos, de repouso.
Albano e o esculptor repartiram então entre si o tempo de vela, porque a pobre mamã velha e doente, não tinha mais forças para noites perdidas. Atrozes, essas noites sem conto, gastas a procurar posição de repouso, e successivamente alagadas em suores debilitantes. Raras vezes a tosse lhe permittia dormitar momentos, voltava-se para um lado e para outro, pedia rumas de travesseiros para logo os repellir com fadiga—e uma oppressão no peito, um ralo interior, um dolorir de membros, que lhe faziam insupportaveis certas horas. Pela madrugada, em o ar indo a regelar, a tossinha redobrava, teimava, insistia por horas, horas, horas, até dar com ella para a banda sem accordo, asphyxiada e rôxa. Então sobrevinham terrores, desvairamentos, hesitações. Jesus, se estaria morta! E no silencio da casa, elles olhavam-se com desesperos mudos. Albano applicava sinapismos, punha-lhe aos labiosaguas aromaticas com ether, auscultava-a por todos os lados, ou ia-lhe procurando as pulsações com os olhos sobre o relogio de segundos. Ainda não! Ella respira. E sorviam o ar com ruidos freneticos. Arthur ia logo accender sua lampada d’alcool para amornar um caldo. Ao largo a manhã bocejava n’um tedio nevoento e frigido; ruidos de carroças sacudindo ferragens, operarios que partiam, mugidos de vaccas e pregões vagos, punham em volta da pobre gente afflicta, vidas áparte, egoistas, explorando-se com raivas subterraneas, sem fazerem reparo n’aquella agonia de terceiro andar. Ao meio dia, em tempo de sol, se acaso a sentiam mais reanimada, e tinha mastigado o beef ou tomára bem a colher de Madeira, a mamã vestia-a com grandes precauções de flanellas, enrolavam-na em chailes para a sentar ao pé da janella, n’uma velha poltrona em coiro verde, da casa de jantar. Albano e Arthur disputavam-se o encargo de lhe pegarem ao collo, da alcova para a janella, da janella para a alcova, o que fazia sorrir a boquinha desbotada de Judith. Tomando-a nos braços, cada um d’elles nunca deixava de a sentir mais leve que no dia anterior, por mais que fizesse por se illudir. Albano trouxera um clinico celebre da Escóla, que por amor do estudante todos os dias vinha com o seu bom riso d’esperança, resuscitar a enferma, que aljofrava no riso pallido a mais admiravel resignação. Se alguma coisa parecia dar-lhe pena, era que se affligissem tanto por ella. Agradecia emeffusões excessivas o menor serviço que lhe rendiam, tudo achando bom, e sempre a dizer que não precisava de coisa alguma. Pequenas vaidades comtudo, ainda vinham como ephemeras margaritas, á flôr d’essa existencia de sylpho que se evaporava, gotta agora, gotta logo, imperceptivelmente, como um perfume raro. Sempre fôra um dos requintes penetrantes da sua preoccupação feminina, ter mãos de rainha ou de santa, com unhas esmaltadas de opala. E mirando agora a transparencia dos seus dedinhos mirrados, com vagos tons d’azul na raiz das unhas, o momo do labio maguava-se todo. Espiralitas rebeldes soltas da coifa, vinham de manhã nimbar-lhe em oiro o marfim da testa. E torcendo-as contra a luz, ella deixava vêr lenitivos de momento, e como um secreto orgulho na face murcha de soffrer. Mas cada vez perdia mais o gosto das côres claras, branco, côr de rosa, violeta pallido, fazendo na escolha dos vestidos severidades de viuva e de velha. A vista d’um chapeu, d’uma visite, qualquer vestuario de sahir, atravessavam-na de melancolias lividas—começava talvez dentro d’ella a horrivel saudade da vida alegre, luminosa, cheia de replicas e luvas frescas, das raparigas sadias e casadoiras, receios indefinidos de nunca mais vir á janella por seu pé, e essa nostalgia insondavel dos que vão morrer na flôr dos annos, nostalgia das velhas affeições queridas, do bom sol de inverno, das grandes arvores seculares, da mocidade dos outros, do amor, das aguas que se espelham,gorgeios de creanças, e da terra inteira e vigorosa—que embrutece a dôr, e Deus sabe se vae impulsionar com desesperos sinistros a chimica tragica das sepulturas. Por ventura a ideia de morrer lhe tinha acudido n’aquellas desfallencias de noites brancas, em que esphacelada de tosse, ella mesma se illudia, assim imaginando afugentar a morte. Tanto que dizia sempre estar melhor, fallava em residir uns dias na quinta dos Fonsecas, em mudando o tempo. Só d’uma vez, contando-lhe Arthur como se desempenhára das missas na capella defronte, por intenção d’ella, como estivesse esse dia peior, lhe ouviram ambiguamente dizer com uma voz abafada e tremula:
—Tem de ser, paciencia!
Os seus olhos tornavam-se enormes, inquietos, quasi ardentes, perscrutando as faces e gestos de todos. Recrudesciam-lhe cuidados pelos outros, a mamã que não comia, Albano que não socegava de noite, o Arthur sempre concentrado; depois eram as gavetas todas desarrumadas talvez, roupa que se ia accumulando de semanas, e ella a não poder costurar, Jesus! o irmão com falta de camizas engommadas. Mas ia levantar-se, andar, ter forças um d’estes dias, não era verdade? Já não deixava a cama, e nem suster podia a pobre cabecita de passaro. Voltavam-lhe fervores de monja por toda a côrte dos ceus, paixões da musica séria, grave, triste, que permuta confidencias de sêr para sêr, e em cuja secreta essencia a alma se banha,para despertar em mundos translucidos de reminiscencias divinas e indefinidas imagens, resolver a dôr pelas lagrimas, e impôr os grandes sacrificios na vida, sem rebellião nem blasphemia. N’este irresoluto spasmo de espirito bruxoleante, ella ia d’um a outro bocado sem coherencia nem logica, querendo apenas pela vibração, traduzido o estranho cosmos interior, que instantaneamente lhe chegava e instantaneamente partia. Embalde o estudante lhe evitava os dolorosos, os convulsivos, os doentios, os sem esperança—Chopin que parece ter escripto sob o inferno d’uma chaga por todo o corpo, excruciado em torturas freneticas; Massenet o poeta das emoções indefiniveis; Beethoven mysterioso como o mar, terrivel e dôce como elle; e os outros, Gounod, Berlioz, Widor, Schumann... Mas eram esses que ella pedia a toda a hora, estendida no seu leito de cassas immaculadas, entre rosas que esfolhavam meio comidas por esses vagarosos dentinhos, mãos em cruz como certas estatuas de mausoleu, o espirito errante. Ao anoitecer punham a lamparina longe, a um canto da alcova, uma penumbra morna ondulava tufando impalpaveis fórmas de mil coisas evocadas; e era quando Judith gostava mais de ouvir o irmão.
Na dubia e calma atmosphera, a musica equiparava todos esses organismos, polarisando-lhes a emoção n’uma mesma corrente de gostos e affinidade de devaneios. Aos gestos d’esse arco requintado, debandavam os allegros como pombas quevindo beber n’uma urna tumular de creança, partissem levando no bico ultimas lagrimas de mãe n’ella choradas. Esboçavam os scherzos fugacidades de cherubins em marcha do ceu á terra, n’uma grande espira biblica, com stalactites d’iris e revoadas d’espiritos santos, entre os threnos das cytharas e chuveiros de rosas mysticas. Por intervallos, suspensões faziam a alma indecisa recuar, reflectir, sacudir as plumas, tomar folego. E em meio da longinqua harmonia quebradiça, serena, carinhosa, supplicante, retinia subitamente um grito. Então os prestos desemboscavam-se, sahiam d’agua para algum sabbat n’uma flecha de lua, faziam-se e desfaziam-se, perseguindo-se, beijando-se, voando em pares por baixo das folhagens multiplas de arecas e nogaes perfumosos, vergando aos circulos como nos corpos de baile, pousando em grupos dissolventes, balanceando-se em grinaldas de flôres por cima dos murmurios da agua, ou ficando a rezar o motivo baixinho.
—Meu Deus, Judith, tu dormes, minha filha?
—Não, mamã, estava a pensar, vês tu, que é tão bom viver!
Albano nada dizia com medo de se ouvir; Arthur tinha receios de perguntar. Depois, era evidente. Começava a romagem dos tisicos n’essas frias manhãs côr de teia d’aranha e folhas mortas, em que a cidade vae pagando ao cemiterio o seu tributo de cem virgens. Na face de Judith, dos malares ao queixo, um claro-escuroprojectado na pallidez fazia-lhe amasquerigida e severa.
Para mais, tudo acabrunhava o pesadêlo funebre; dir-se-hia ganharem as coisas de roda, physionomias crueis e implacaveis caracteres. Qualquer agouro caseiro de que Albano sempre se rira, deixava-o pensativo ás vezes, realisado agora. Alta noite, a calada do predio apavorava pela glacial enormidade, fazendo um enorme rir de caraça, baixo, vazio, sardonico; a pendula da casa de jantar irritava-lhe os nervos; lentos chuveiros iam rolando na terra negra, como prantos por vestidos de lucto; e nos descampados da Avenida, os uivos lamentosos dos cães noctambulos, pediam á cidade arquejante no seu somno de vicio, como pobres jaus, esmolas de corpos para matar a fome aos cemiterios. Aggressões em tudo. Se Judith passava pelo somno, os relogios davam horas muito alto, para ella despertar. Estalava o sobrado, quando punham mil precauções em pisal-o. Repetidassoiréescom piano e canto até de manhã, na visinhança; gatos cabriolando n’um esbanjamento de prazer, por essas casas; e a mamã apavorada, bradando no meio d’um sonho tenebroso—Jesus, minha filha morreu!
Por vezes tudo parecia um pesadêlo transitorio. Ella podia lá morrer! Morre-se lá com dezeseis annos! A natureza tem necessidade de corrigir por estes modêlos de innocencia e intangivel doçura como Judith, maus rebentos que produz e cadeias demonstros que deixa propagar, sem piedade nem consciencia. E argumentos dos livros. Os organismos novos arrancam dos proprios seios extraordinarias forças de reacção, com que se defendem dos males que os assaltam, até os deixar varados no campo.
Coisa alguma nasce sem um destino e um fim, Arthur, pois não é verdade? Vem ao mundo a mulher para mãe. Logo, Judith não podia morrer ainda. De repente cahiam em si desconhecendo-se, a si mesmos perguntando desde que tempo podera amassar-se-lhes dentro tanta fragilidade, tanta estupidez incoherente, tanta miseria. Cada um d’elles a occultas do outro, punha a sorte de Judith em loteria.
—Se emquanto fôr por esta rua, nenhum cão ladrar, ella melhorará, dizia Arthur apressando o passo, n’um terror de ouvir signal desfavoravel. E se effectivamente ladravam, enraivecido, fazendo um gesto violento:
—Não vale! Não vale! dizia elle transtornado.
A voz de Judith baixava sempre, baixava, cahia o pulso, a tosse era mal um suspiro.
—Por estes dias... dissera o velho pratico, e Albano tinha entrado a rir lugubremente.
—Ora adeus! Póde lá ser! Por estes dias!
Estava essa vez a manhã mais deliciosa, picada de friositos confortantes, nem a primeira nuvem, toda a cidade fumava, e flechas de sol embutiam jerogliphos n’um vehemente ceu d’Andaluzia, egrande rumor de pregões, como houvera peixe...
Não, elles não consentiriam que a sua pobre amiguinha fosse para os covões da fria terra molhada, dura, surda, que rangia as mandibulas na escuridão, e se enroscava corroendo tudo, apodrecendo tudo, substituindo tudo, e d’envolta remexendo no mesmo cadinho d’alchimia torva, velhos ninhos e cadaveres, cabellos loiros e folhas seccas, ultimos risos e virginaes capellas.
Buscavam excitar-se, reanimar reciprocamente as masculas energias decahidas, com dizeres de que não criam uma só palavra. Ante a impotencia nos meios de reagir, vinham-lhes cobardias, transigencias graduaes em materia de fé, vacillações atrozes. Deus atravessava ás vezes essas cabeças desnorteadas, n’um fundo de nevoa sebastianica, carrancudo, com o sarcasmo feroz d’um tyranno que se vinga de o não terem acreditado em começo.
Elles n’uma vil duvida, tendo nos ouvidos a prophecia do clinico,por estes dias, por estes dias, por estes dias! contavam as horas que só restavam talvez, perguntando quando seria, appellando para alguem que tudo podesse, fosse quem fosse, Deus ou o demonio. E renegavam dos seus grandes principios d’outr’ora, hesitantes, será, não será? entreolhando-se n’uma d’essas angustias verdenegras, cobardes, mesquinhas, despreziveis, inevitaveis, humanas, que são a bilis do coração, profundamente amargas. Quando foi meio dia, por uma temperaturaa mais amoravel, com abelhas zumbindo nas escapadas de sol, borboletas que arfavam, carruagens descendo dos bairros aristocraticos para a cidade commercial, raparigas que punham os ultimospompadoursclaros, todo o mundo que se desentorpecia passeando, respirando, cantando, pareceu Judith sensivelmente melhor. Os seus olhos fizeram-se docemente humidos, sem esbrazeamentos de febre; nem uma suffocação de tosse; a voz mesmo subiu um pouco; e coisa que não fôra vista em toda aquella semana, teve um riso quasi feliz. Vinha o sol alegremente pela alcova, festival e fulvo; ella mirava as suas mãos diaphanas com enlevos debaby. Albano deu-lhe a colher de Madeira, uma grande pilula de carne, e tintas menos baças pareceram reflorir-lhe por transparencia na pelle. Aquillo deu vislumbres de esperança ao esculptor, que lhe poz junto dos labios, muito jovial, uma bella rosa branca, por milagre obtida já n’aquelle tempo, ultima talvez do anno. Porque nunca se veio a saber como o pobre rapaz tinha artes de arranjar o seu pequeno ramo todas as manhãs.
Passava de seis dias que Judith parecia haver esquecido as flôres, de entorpecida na mollidão da febre, por fórma que havia rosas por toda a parte, nos grandes jarrões do aparador, vergando por cachos no centro de mesa, ou murchas em cabazinhos por todos os cantos. Erravam assim no ambito perfumes fanados de egreja, recolhimentos de penitencia, e halitos tepidos d’oração.
Arthur veio encontrar Albano, que subira ao sotão para trazer a rabeca.
—Mas que vem a ser isto? dizia elle alvoroçado. Melhorou tanto!—E abraçava todo feliz o companheiro. Albano poz n’elle os olhos mortos, não fez senão dizer bem bom! umas poucas de vezes, e viram-se-lhe as lagrimas correndo a quatro e quatro.
—Estás agora piegas, tornou o esculptor cuidando que eram d’alegria. E desceram. Judith tinha querido vestir-se, mas fallava com os dentes cerrados e muito pouco, riso immovel, rolando os olhos n’um vagar quasi dramatico. Albano achou-lhe o pulso regularissimo; conservava-o entre os dedos contando, trinta e uma, trinta e duas, trinta e tres... Subitamente o grande silencio d’um relogio que pára. Judith sorria para todos. Como o irmão estava á cabeceira do leito, teve de virar a cabeça um quasi nada, e ainda o viu todo tremulo, encostado á parede. Mas o pulso recomeçára, trinta e quatro, trinta e cinco... E tão contente, a pobre velha mamã! Fôra Nossa Senhora da Penha, e mais o santo tal, e uma grande esmola que ella tinha deitado ás almas de S. Domingos. Quando estiveres melhor, querida filhinha, iremos aos Fonsecas n’um dia assim como este, em carruagem fechada.—Ia dizer surrateiramente ao ouvido de Albano, no vão da janella: parece-me que ella tem as pontas dos dedinhos frias. Se fechassemos as vidraças? Vae tu vêr.—E para Judith, carinhosamente:muda-se de vida, mal te ponhas boa, deixa isso cá por minha conta. Esse habito de não comeres ás horas, não dormires com medo de tudo, e nunca dares um passo fóra de casa, não póde ser salutar a ninguem, o doutor m’o disse: muito menos a ti que és tão debil, querida filhinha. Bem t’o recommendava eu; nunca querias attender, cabecita ôca!—Mil planos então successivamente, se retalhavam e abatiam na loquela feliz da pobre velhota, mudarem de casa, mandar fazer uma grande pelliça a Judith para o inverno proximo, e noites de theatro, e passeios, e tudo. Sorriam todos, Albano por comprazer dos mais, ceu e terra deslumbrados na fulva magnificencia do astro. Aos platanos d’Arthur, tinham subitamente voltado passaros chilreando n’esse ephemero bom tempo; repicavam sinos por todos os campanarios da cidade; salvas no largo azul-myosothis do rio, predios que embandeiravam içando pau de fileira, musicas dispersas de regimento, uma doce alegria de pombas voando de caramanchel em caramanchel e beira em beira. Vendo Judith tranquillamente na velha marqueza, mirando as suas mãos exangues, um pouco cheia de cara, e como preludiando convalescença proxima, Arthur mesmo sentia-se reconfortado, após tanta noite de maceração e vigilia. E dizendo que já vinha, foi a casa vêr se descançava um pouco. A mudez que Judith conservára, tinha-se rompido áquellas palavras. E dissera:
—Não se demore, n’uma voz que impressionouprofundamente o esculptor, timbres de cabra, como se a emitisse o phonographo, e tão espaçada que dir-se-hia não lhe irem occorrendo logo as palavras.
—Ha-de ser fraqueza, disse Arthur, querendo por força que ella estivesse melhor.
Pela tarde, mais de quatro horas, estava elle noatelier, á espera que amigo Flores chegasse de casa do Albano, onde o mandára saber de Judith, quando oártistaappareceu.
—Então como está? disse o pobre rapaz muito pallido.
Amigo Flores sacudiu a juba onde fios brancos corriam, e respondeu:
—Já boa. Escusado ter lá ido. E a escada que é alta!...
O outro não entendeu, repetiu-lhe:
—Hein? Melhor?
—Já boa!
—Vossê manga comigo? gritou-lhe Arthur com violencia desmedida.
—Não rebata as minhas asserções. Morreu!
Arthur deu um rugido de leão espingardeado, atirou-se a elle com furias de doido, e pelos hombros derribou-o sobre um grande gesso doatelier.
—Morta, que? Morta? dizia elle a tremer, com o outro debaixo do joelho, as mãos crispadas errando, e um riso horrivel na bocca. Morta? Este canalha!...
Ia alcançal-o pelas guelas com a cabeça perdidade dôr, mas presentindo o lance, amigo Flores furtou-lhe o corpo de repente, e Arthur cahiu de bruços, desamparado, como se fôra morto.
—Diabo, diabo! fez o jacobino attonito. Fui-lhe rebater as asserções, era a pequena. Hum! Indole molle; pouco dará.
Quando sem chapeu n’essa noite, envelhecido e lugubre, Arthur veio para modelar o rosto e mãos de Judith, encontrou Albano assentado na cama onde a irmã estava morta. Ao lado, espedaçado n’um impeto de colera, via-se o Stradivarius que o pobre careca vibrava tão bem, sendo ella viva.
Elles viram-se e não trocaram palavra, minados por esse febril e medonho tedio, que vem na ultima noite aos enforcados. O egoismo sereno das fórmas em roda, infiltrava-lhes desprezos áridos por tudo, uma quisilia de vingança contra a cidade, d’ella não vestir o lucto que os imbecilisava a ambos.
A pancada do relogio na casa do jantar era tão nitida, tão viva, tão insupportavel, que Arthur desconcertado fez parar a pendula. Assim as horas iam sem elles saber, e aquella ultima noite foi tres vezes mais pequena. Sómente a bocados, do fundo da Estrella, vinha em dobres arquejantes aquelle tragico sino que fôra o pavor de Judith pela alta noite, no inverno, quando o rir dos ventos cortava a solidão de imprecações, e muito embrulhada no velho capote d’Albano, ella se ia anichar ao pé da mamã, rolando para todos os lados os seus bonitosolhos assustadiços. E esse velho phantasma agora lamentava-a como de longe, um gigante amoroso, encarcerado n’uma velha torre de menagem. Não sei que arzinho escapado por fendas, punha ondulações nas cortinas. Por cima dos moveis, na mesa do centro, ou esmagadas sobre as costas das cadeiras, peças de roupa abandonavam-se em attitudes vazias, enrodilhavam-se, cahiam, remexidas dos bahús por mãos convulsas, trazidas ao acaso sem luz, postas de parte, atiradas com desespero, e por fim esquecidas na ultimatoilettede Judith. Um cangalheiro gordo, com a andaina preta esfiada de miseria, cabello em escova bordando cimalha por cima d’uma testa baixa, toda polida de gordura, viera tomar medidas para o caixão. Albano sem saber o que fazia, tinha empurrado o homem brutalmente, que se fosse embora quando não matava-o, e a gritar que não queria a sua irmã pisada, quando lhe deitassem a terra por cima da cova.
Estacado á porta da alcova, braços cahidos, collarinho sem botão, o collete abotoado ao acaso, Arthur viu de relance aquella desordem de gavetas abertas, a ultima chicara de caldo fria na beira do aparador, colheres pelo chão, a um canto o centro de mesa com pinhas de rosas esmorecendo sem agua no crystal do jarrão proeminente—e por tudo aquillo os seus olhos iam vitrosos d’imbecilidade. Um grande tule pendia n’um cabide, com vincos ainda da loja, cortes nitidos de tesoura na base; e por elle abaixo, com folhas de panno envernizado,grinaldas brancas desabrochando efflorencias de quinquilharia vulgar, n’um asco de tintas frescas ainda. Ao redor d’um crucifixo de pau, assustador, como esculptura, velas altas derretiam nos castiçaes da sala. Duas hospitaleiras com grandes rosarios badalando á cinta, andavam á roda bulindo, aconchegando as coisas de olhos baixos, psalmejando rezas lugubres em latim barbarengo. Elle via-as na sombra negra dos biocos, aborridas, resfolegando, bocejar muitas vezes com mau modo, emquanto as suas rezas seguiam de cór, n’uma lenga-lenga afadigosa. Mas entre a realidade e os seus olhos, um vago de bruma interpunha-se, fazendo-lhe vêr as coisas n’uma perspectiva remotissima. A morte de Judith surgia-lhe indefinida como n’um pesadêlo, sem maguas d’aresta viva, sem biographia, nem vehementes saudades inconsolaveis, sem lagrimas mesmo, descorrelacionada, confusa, como phosphorencia do cerebro doente. Era uma impressão de coisa passada n’outros tempos, com outras pessoas, n’outros logares. De quando em quando, ascorbeillesem misulas nos vãos da casa de jantar, esfolhavam rosas silenciosamente, deixando folhas murchas irem cahindo n’um pranto humilde. E Arthur n’uma cadeira baixa considerava as pequeninas graças d’aquella doce amiga, como ella cortava as espinhas com os seus dentinhos brancos, vivacidades sedosas dos seus garços olhos que piscavam n’um fremito irrequieto, e todas as manhãs os seus bons dias chilreantes detrepadora. E apodrece para ahi n’esse desconforme cemiterio, calcada a pés juntos por coveiros ferozes e descarnados! Dez horas, onze horas, duas da manhã, tres, quatro...
Pôz-se a amassar gesso para a mascara, quando o viu plastico penetrou timidamente na camara e foi para o cadaver.
—Gostavas d’ella? perguntou o estudante n’um tom estupido. O esculptor fez com a cabeça que sim, e o outro ficou a vel-o applicar o gesso.
Sobre a colcha afogada em flôres, tochas á cabeceira, dormia ella vestida de noiva para os esponsaes da bemaventurança, o nariz afilando n’uma aresta fina como um gume. Cerrada com ancia, essa bocca dir-se-hia um sulco a buril. Quem teria coragem de viver sem ella n’este crapuloso e vil mundo, quem?
E como o esculptor comprimia certos pontos do rosto, os olhos, azas do nariz, as maçãs da face, todas as proeminencias e fossetas das feições, Albano n’uma ternura magoada, desviando-lhe o braço:
—Olha que isso faz doer, coitadinha!
Esta simples phrase fez que os olhares se encontrassem, medindo a horrivel desgraça; veio-lhes o mesmo brado d’aniquilação supplicante; e n’um choro de profundos soluços e grandes lagrimas que rolavam no branco setim da morta, abraçaram-se por cima do leito, e assim estiveram, por muito tempo, n’aquella postura. Uma das hospitaleiras,que tinha ido roendo pão e queijo que trouxera na mala, entre o livro de orações, unguentos, e um frasco com agua benta, foi para dizer baixinho alguma coisa ao estudante, que alheio a tudo nem a ouviu, e fez um gesto de hombros evasivo. Aquillo forçou a pobre mulher a ir ter com Arthur. Era uma anafada, minhota de fallas, mais velha que nova, com sua grande verruga no queixo. Pedia dinheiro para a agua de Labarraque. Arthur descollava a mascara de gesso ao tempo, e áquellas palavras os seus olhos cahiram sobre Judith, viram-lhe a face marbreada de roxo, tomando a expressão carrancuda d’uma mulher offendida. E teve os olhos longamente n’aquelle desmoronar. Por um canto dos beiços tufavam n’uma espuma viscosa, bolhas de gaz podre que punham ruidos de fervor. Já moscas se abatiam por dezenas no rebordo das palpebras e fendas do nariz, depondo larvas.
A irmã minhota de lado, desviando a outra que se pozera a dormitar:
—Já cheira.
Um calafrio alvorotou Arthur áquella horrivel palavra.
Só na parede, ao debil ondular das tochas, arfava a sombra deitada de Judith, n’uma tranquilla respiração, e dir-se-hia dormindo, tão placida, a virgem das rosas brancas!
Ainda hoje ouço dizer, que Arthur seria o mais extraordinario esculptor do seu tempo, se aquella morte subita o não desorienta no foco das suas grandes faculdades. Elle antes de tudo era uma cabeça fraca, que por uma indole singularmente recatada e hesitante, jámais ousara sasonar e polir as indomaveis paixões da sua alma. Como nos abandonados d’affectos desde o berço, aquelle primeiro amor de mulher alanceando-o no mais fogoso da edade, devia explosir por fórma a perturbar-lhe dentro o rythmo placido do coração e do cerebro.
O certo foi que mudou de residencia ao outro dia da morte de Judith, e Albano nunca mais o viu. Embalde o pobre careca o andou procurando por toda a banda, agora que tanto precisava d’aquelle grande irmão. Nunca mais o taberneiro do Bemformoso ouvira fallar d’elle, nabrasseriequasi estava esquecido; as ruas deixaram de o vêr. Á mingua de melhor coisa onde matar tempo, Albano decidiu-se a acabar o curso. E esses annos que foram passando, tornaram o esculptor n’um singular personagem. Morto o idolo que soubera inspirar-lhe culto absorvente, o amor d’elle deformou-se, ampliou-se, derivou por excessos que o frenesi tornava assustadores, ou transfigurava-o o talento em prodigos d’arte ás vezes, como é uso nas gentes d’atelier, que amam sempre materialisar as mais fortes emoções. Elle não via nem fallava a ninguem; tinha tomado amor á aguardente, morava n’um arrabalde distante, todo curvado d’espinhae envelhecendo o mais depressa possivel. Amigo Flores, que alfim desposara a grande Barbara, nunca vinha áquella thebaida; o gallego avaro aposentara nos bucolismos da aldeia natal—e assim Arthur vivia miseravelmente, sem companhias, sem trabalho, sem amigos, sem fato, com uma juba feroz e uma barba intractavel, atormentado por não sei que estranho calor no cerebro, e escutando as grandes coleras desordenadas do coração revolto. O primeiro anno corrido sobre a morte de Judith, fôra para elle um d’esses terremotos de caracter mal forjado contra as asperidões da vida, que ao menor abalo esbeiçam fendas, por onde se vêem estrebuchar fraquezas e escorrer restos de crenças, lucta de paixão, hesitação, saudade e loucura, que a educação plastica do artista ia moldando lentamente, desesperadamente, em lucidos pedaços d’estatuaria. Ao cabo d’alguns mezes, quando já iam embotando as irritabilidades mais lancinantes da dôr, por fadiga dos centros de sensação, muitos detalhes finos d’essa divina figura de creança, escapavam á memoria d’Arthur, empallideciam, ou vinham-lhe apenas como esforço de reminiscencia, nas más horas de desconforto. Sómente as grandes linhas dramaticas da sua morte, relevos scenicos, attitudes que ella tomava, detalhes de perfil, um modo de inclinar a cabeça, certos timbres da sua voz melodica que elle ouvia de noite, ainda agora estando tudo tranquillo, ficaram-lhe para sempre na ideia, vehementes e nitidos, por sympathia ao ramo d’arteque professava. Dez vezes ou doze, com deseguaes intervallos, começara n’um bloco ou outro a estatua da mesma mulher em diversas posturas, e outras tantas o cinzel desalentado lhe cahira das mãos em meio da obra, na pavorosa desconfiança de estar profanando o divino ideal preconcebido, com facturas de mediocre nobreza.
No casinholo inhospito em que morava, esses esboços de marmore faziam por baixo da pedra a desbastar ainda, assombrosas tentativas de evasão, resurreição, de gritar por soccorro, como visagens por traz de espessos veus, medonhos arremedos d’angustia, estorsões dentro da lava solida que os constrangia: e no supplicio d’aquella immobilidade viva querendo cuspir entulhos da bocca n’um grito dilacerante, romper com os seus membros o atoleiro que a envolvel-os se petrificava todo, communicando a atroz sensação d’um soffrimento alarmante, tão magistralmente lançados esses primeiros golpes de grande esculptor. Era assim que de informes pedregulhos, rompiam admiraveis trechos acabados e vivos; braços invocando os ceus de mãos descarnadas; cabeças radiando suavidades esquivas, de nariz palpitante e bocca em supplica, tocadas talvez na visão paradisiaca do fraAngelico; busto d’uma impossivel delicadeza, sempre cingidos em romeiras de monacal desenho, onde pequeninas mãos apertavam rosas, surprehendentes e brancas, com pétalas finas como papel...—e para baixo o infame bloco impassivel soterravao resto, desconforme, anguloso, hostil, brutal, como o tronco adusto soterra e termina a dryade na floresta sagrada da antiguidade. Estas tentativas de sceptico iniciando prodigios de cinzel para o sarcasmo de os pôr de banda logo, indo de obra prima em obra prima como um eterno descontente, no proposito de enraivecer a posteridade que o buscasse acaso n’uma obra completa, tudo achando mesquinho e pobre, e sem pretender da vida algum dos seus miseraveis triumphos, gloria, fortuna, estimulos ou emulos, faziam ellas só, toda uma arte estrondosa e moderna, cheia de singularidades e grandezas é certo, mas assignalavam no artista desconfortos de gigante e amarguras de vencido. Uma estatua seguia outra, e outra; e todas a alturas differentes eram postas de banda com teimosia colerica. Dias inteiros, mezes inteiros, levava no meio d’aquelles destroços d’olympo novo, sem fallar, sem trabalhar, exasperado de virgindade, consumido na chamma funebre do alcool, fazendo medonhos esforços para a reconstruir toda na ideia e parando onde se não lembrava, com medo de perverter a sua adoração de escravo, magro, revoltado, quasi faminto, com rosetas escandentes na face morta, e a bocca n’um rictus tragico de cariatide. A sua poderosa estatura curvava-se para a terra lentamente, aqui e além já lhe nevavam cabellos, a aguardente poz-se a agitar-lhe na allucinação que o ia invadindo, frageis phantasmas exhumados do passado—e via-a,fallava com ella, sentia as suas desgraças, deslumbrava-se na sua belleza, tinha com ella longos colloquios. Gargalhava pelas ruas sósinho, argumentando comsigo mesmo em voz alta; o fato cahia-lhe de miseria aos pedaços, deixou d’usar camisa, as suas botas cambavam. N’esse embrutecer cruel comtudo, lucidos espaços riam d’onde a onde; então n’um convergir de ultimos esforços, volvia aos ensaios, aos seus esboços, começava e recomeçava, modificando, inutilisando, com a ancia d’um naufrago e o desespero emphatico d’um rebelde.
Viam-se noatelierespalhados por duzias, como occupações d’esses curtos intervallos de razão, pares de mãos divinamente esculpidas, longos dedos, unhas de opala transparente, celestes delicadezas de toque, mas todos eguaes e como reproduzidos do mesmo modêlo raro. Ou copias sem numero d’uma mascara de gesso, soffredora e candida, que na parede, envolta em crepes, olhava pelo vazio das orbitas. Tal insistencia nos accessorios da mesma figura, exprimia o sentimento immutavel, mais remoto ou menos, da dôr. Era a arte d’um taciturno, immobilisando a imaginação do artista, mas crystallisando cada bocado em perfeições surprehendentes.
E Albano? Emfim como ultimo relampago, uma vez Arthur descobriu que acabara a estatua, ao fim de a haver começado doze vezes. Mas essa, que maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços para invocar Deus, por um assombro d’equilibrio lançada na attitude de quemdesprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de estranha belleza, era ao mesmo tempo um prodigio d’audacia, palpitava, fallava, sentia-se soffrer e respirar como uma creatura.
Tinha uma simples roupa em longas pregas, a romeira cingida até á barba com austeridades claustraes, tranças meio enroladas ainda, soltando-se da nuca n’uma expressão espavorida e subitanea. E alli para um canto, acocorado por baixo d’uma juba de velho leão cahido, contemplou Arthur longamente a sua obra, com olhos extinctos onde pela derradeira vez passara um fogo subterraneo de cratera.
Pelas joelheiras laceradas, furavam os seus joelhos carcomidos, e a barba indomita de mendigo, espargia sobre os ossos do peito lugubres fios brancos, vestindo-lhe a nudez por uma especie de instinctivo pudor.
Ante o asceta miseravel, essa apparição de madona ascendia em escapadas de genio do seu pedestal floreteado, que representava um enorme bouquet das flores que Judith amara tanto. N’isto ouviu dizerem perto o nome d’ella.
Sem curiosidade voltou a cabeça, estava Albano ao pé d’elle devorando a estatua, maravilhado, attonito, imbecil.
—Ah, és tu, disse Arthur que se levantou n’um pulo, sem mostras d’alegria comtudo, vendo Albano correcto n’um vestuario de gentleman. Tenstabaco, por acaso?—Albano desviou a vista um momento, para procurar charutos nas algibeiras; então Arthur com um martello, fez a estatua em pedaços[1].