JANTAR NO MOINHO

JANTAR NO MOINHO

Estes dias luminosos em que nos apraz o amor das coisas simples, a comprehensão e o cumprimento dos deveres honrados, passados no campo e fóra da convivencia monotona dos trens de praça, dosmeetingsrepublicanos com vivorio, dos typhos e do parlamento, são-nos particularmente agradaveis e infiltram-nos no organismo fatigado, particulas de saude que fazem alegre a alma, e dentro de nós cantam marchas colossaes de poderosa instrumentação,preghierasde rythmo suavissimo e casto, toda uma opera de auroras e triumphos, cheia de grandes arias e surprehendentes córos. O ceu não tem negrumes, é frio e lavado o ar, transparencias em que o olhar se embebe sem esforço e a alma sonha sem pesadelo. Tu bem conheces este estado gazoso da alma,caro homem gordo que vens de me lêr, quando passas da rua onde móras na Baixa, para o ar de Pedrouços ou Lavarrabos. Este purissimo azul cantado desde que ha lyras, tão puro de lei, que nem as evolações morbigenas da poesia chocha d’outros tempos conseguiram corromper e estragar, sempre novo para os evohés de cada vate que chega, é o grande poema colossal, que cada um de nós busca metrificar e comprehender, na aprendizagem artistica de cada espirito em jornada para o supremo ideal de bondade, de justiça e d’amor.

Em cada manhã que rompe, pelas esplanadas que vagarosamente o arado sulcou, e as primeiras folhiculas das seáras germinantes avelludam de um tom verde e tenro; pelos barrancos franjados de arvoresitas sem folhas, espinheiros cobertos de drupas escarlates, maciços d’alecrins selvagens, losnas acres, rosmaninhos sombrios, estevas, piornos e murtas, o sol verte a sua pulverisação de oiro n’uma serie de musicaes vibrações, cujo rythmo só percebe uma pupilla impressionista; vibrações por que se afina a musica dos passaros na pennugem dos ninhos e opizzicatodo arvoredo regorgitante de seiva; vibrações que provocam lentamente o desgelo em refulgente orvalho, na concavidade dos pegos, á flor dos quaes anuros irrompem coaxando, verdentos e amorosos, fazendo tambem oscoupletsdo seu primeiro noivado d’este anno...

Com o meu chapeu derrubado e as minhas botas de couro cru, solidas e altas, cinta preta e jalecade pelles, á hora em que os senhores estão digerindo ainda môlhos do Silva e carinhos d’itaïra, vou eu a pé, fumando o meu cachimbo ou pensando nos meus alqueves, pelas veredas que passam nas folhas de semeadura, ou como fulvas serpentes galgam as espinhas dorsaes das cordilheiras.

Os cantos dos pardaes recordam-me sem saber porque, um canto d’ave estrangeira, preciosa ave cujo perfil etrusco lembra uma pintura exhumada dos sarcophagos de Corneto e Castellaccio, e cuja larynge é um thesouro—mademoiselle Borghi, essa morena de olhos intelligentes e bocca sarcastica, a quem Lisboa já deveu as maiores commoções e os mais vivos enthusiasmos.

E á força de muito pensar na cantora, sob estas arvores que em voz baixa cochicham e gentilmente me cumprimentam, ascoquettes, julgo que a voz d’ella me chega abafada no rumor das franças que o vento beija, trazida sobre os monstros phantasticos de nuvens elegantissimas, que chegam em caravanas como dromedarios dolentes, com a sua bagagem de chuva talvez; ou ainda communicada pelos fios do telegrapho, em cujo extremo Edisson tivesse a bondade de nos prender a sua simplissima e prodigiosa descoberta.

N’uma aldeia lá baixo, ao fundo do aspero Alemtejo, onde passo a mór parte do tempo, a raça é bella de linha, vigorosa e sobria, d’uma pureza e simplicidade de costumes que me encantam, e governando-se como as tribus dos primeiros dias,sem conhecer ente supremo, além d’um velho lavrador patriarcha que reparte com os mais pobres, nos maus annos, os seus celleiros. Admiravel, a ignorancia serena d’estas boas almas pelo resto do mundo, e o seu desprezo ao mesmo tempo, pelos artificios pelintras, que grassam como uma civilisação tuberculada, por terras mais populosas da cercania,—cabeças de comarca com funccionarios a trezentos mil reis e casaquinha de botões recomidos, ou pobres villotas, a que a estação de caminho de ferro deu pretensões de centro culto e fidalga indolencia. O circo de montanhas altissimas que serve defichuá aldeia, isolou dos maus convivios a população laboriosa, cuja probidade inabalavel é encantadora de vêr. Ao mesmo tempo, um respeito pelas mulheres, um desvelo de familia para familia, uma religião poetica e pagã da natureza... As raparigas casadeiras sahem sós pelos campos, em cabello e roupinha curta, atravessam as eiras e os jogos de bola ao domingo, n’uma confiança donairosa, que é sympathica a toda a gente. Á porta das cabanas, a população das femeas costura e canta, n’uma paz cheia de candura. No meio dos largos, oliveiras de troncos rocados onde enxuga roupa. Os bois de trabalho, enormes, tendo um ar de pessoas de familia, com leves cumprimentos de cabeça para um lado e outro, passam junto ás portas sem guia, caminho dos seus curraes, á hora de beber; ou na grande dorna da fonte, sorvem com intermittencias preguiçosas, a agua que jorra por uma gotteira desconforme,em quanto aos seus pés quasi nuas, espendurando-se-lhes dos cornos, creanças brincam como bandos de novilhos descuidosos. Quando desce o astro, galvanoplastisando no poente clarões de forja titanesca, e entra a vir por baixo das arvores uma brisa refrigerante, as raparigas tomam os cantaros á cabeça, e direitas, trigueiras, de olhos magnificos, mãos no quadril, abalam por grupos cantando á fonte, com regularidades quasi architecturaes de figura. Vão os campos adormecendo, algum cão de malhada tem latidos, a aldeia tem recolhido aos lares, dos seus rusticos trabalhos, e faz-se assembléa geral em redor da fonte, para saber como ficou cada um na colheita, se fulana casa, e o burro do compadre vae melhor. Os rapazes arregaçados e altos, figura secca e musculo d’aço, bellos adolescentes como Yalouleds argelinos, tendo um ar calmo de estatuas, tiram agua para os cantaros das irmãs e das primas, cantando sob os freixos que agitam com ar benevolo, as suas cabelleiras de folhagem.

Os gados apertam-se cabriolando com sêde junto do bebedouro, fazendo elegias com balidos, a exprimirem poeticamente as suas saudades do sol. Trindades. Escurece. Por baixo dos parreiraes sem folhas, umas agora, outras depois, vêem-se as moças emsilhouette, equilibrando cantos arabes, sem ondulações nas ancas, e como levadas n’um sopro.

—Até ámanhã! Até ámanhã!

—Como vae a tua vacca, Maria?

—Mal, por desgraça minha. Desde que o boi lhe morreu, oalimalnão tem cara de gente!

Resposta que pinta a vida primitiva, amiga e em commum, d’esta familia toda animal, homens e brutos, partilhando eguaes interesses e gozando d’eguaes respeitos, sem distincção de fórmas ou categorias, o homem auxiliando o bruto, o bruto auxiliando o homem, e todos com direito á vida, e todos com direito á estima, santa vida!

Meio dia nos relogios de sol dos camponezes que varejam as oliveiras (não podem calcular como houve azeitona este anno!...) e no estomago valente das raparigas, que em baixo curvadas sobre a terra, apanham os fructosinhos negros cantando:

Tenho dentro do meu peitoUm canivete doirado,Para cortar umpan-leveNo dia do teu noivado.

Tenho dentro do meu peitoUm canivete doirado,Para cortar umpan-leveNo dia do teu noivado.

Tenho dentro do meu peitoUm canivete doirado,Para cortar umpan-leveNo dia do teu noivado.

Tenho dentro do meu peito

Um canivete doirado,

Para cortar umpan-leve

No dia do teu noivado.

O sol é como um botão d’oiro polido na farda azul do incommensuravel. Subo as encostas apoiado ao meu bordão de rendeiro, e á medida que subo alargam-se-me os horisontes, como pannos de fundo successivamente corridos nos confins dos valles, que a luz retoca n’uma graça castissima de tonalidades.

Á direita, um moinho braceja com os seus braçosde vélas laboriosas, dilatadas como azas de borboletas reaes. E penso no moinho de Daudet, aquella deliciosa ruina no fundo da Provença legendaria! O vento faz-lhe ranger as cordagens e o cavername. Á roda tudo verde, relvas altas e humidas, tapeçarias interminaveis que ás ouviellas dos ferragiaes vão descendo, com os seusbouquetsde arvoredo, renques de choupos e salgueiros, casinholas e hortejos, o convento em ruinas onde as corujas piam, e no declive silencioso, o cemiterio da aldeia, sem capella e sem arvores, semeado de pontos negros com numeros brancos, e tendo aqui e além, pequenas grades negras de sepulturas. Detenho sobre aquelle cerrado os meus olhos. Ai de mim! Dos que me viram pequeno e me tiveram nos joelhos, dos que brincaram comigo e todas as manhãs me vinham acordar n’um cicio de beijos castos e risadinhas innocentes—pobres e queridos deuses da minha alma!—muitos jazem além para nunca mais.

Doze badaladas na parochia. Os que lavram e os que varejam, os que apanham azeitona e plantam bacello, param da faina.

—Meio dia, panella vazia!é o que se ouve. E nas courellas, nos olivaes, nos reconcavos da montanha e nos vinhedos do valle, ranchos fazem roda, cantando para jantar. Biot, Helmoltz ou mesmo Tyndall, se estivessem cá, iam logo calcular a distancia dos cantadores pela intensidade mais ou menos amortecida com que aqui chegam as vozes.Eu sigo caminho, fumando no meu cachimbo, solitario e nostalgico, com a saudade brumosa dos que nunca tiveramchancena vida.

Começa o montado, chão coberto de bolotas, arvores lacoonticas que pendem carregadas de fructos, meio engastados nas suas capsulas serabulhentas. A vara de suinos passa, fossando, tasquinhando, grunhindo. O suino mesmo em sociedade, é macambuzio, coitado! Quantos vivem e morrem a comer essa bolota farinosa, que a meia duzia dos seus irmãos felizes faz bordar a ouro nas golas dos uniformes de gala! Detenho-me a calcular melancolicamente, que por mil d’estes tristes assados em familia, e patentes á venda por essas salchicharias, ha talvez um só que chega a conselheiro. E esse consagrado mesmo, que monotono e que tristonho!... Quasi sempre copía em côrte o ar rhinoceronte do rei JoãoVI, calvo, obeso, adiposo e molle. Mesmo a fallar na camara dos pares, do seufauteuilcôr de bronze, sob os olhares do arcebispo de Mytelene, a sua voz é um grunhido nasal, bom para se repercutir em charneca, nada mais. E o typo do massador, do auctor de prosa dura, victima de fluxos hemorrhoidaes, callosolho de perdiz, e assaduras na região do perineo. Sempre que elle é ministro, os artigos politicos da opposição representam apenas—um raspão de costelleta.

E no seu fervor doutrinario, a maioria, o mais a que chega, é a servir ao paizSon excellence Eugène Rougon, com feijão branco.

Á janella do seu moinho, o moleiro de barrete azul e cigarro, faz-me os seus cumprimentos de velho amigo, confessando que me não esperava tão cedo, e dizendo que estou um homem, benza-me Deus!—o que a fallar serio me não espanta, pois que lh’o oiço ha dez annos, sempre que nos vimos no campo. Pomo’-nos a tagarellar sobre o que vae pelo mundo, nos casamentos projectados, pauladas distribuidas desde a minha ultima estada na terra, nas esperanças da seára e no preço do vinho. Que as decimas do anno hão de augmentar, pelos modos? Ha uma coisa que não entende lá muito bem, o pobre trabalhador, a quem o Estado tudo suga e nada dá.

—Uma comparação! diz-me elle com energico arregaçar de mangas.

Comprar uma creatura o seu porquinho, gastar na compra do bagaço e farello com que o engorda, ás vezes uma quantia séria, e quando vae a fazer chouriços e presuntos do bicho, vir a magana da justiça dizer—oh! das cabras, salta p’ra cá tanto, por fazeres matança p’r’á fartura da casa. Paga-se de ter burro, de ser casado, de ter filhos, de pisar a terra de Deus, paga-se de tudo, senhores!... Com um dedo descuidoso aponto-lhe a rir o varapau que elle esqueceu á porta. O moleiro encolhe os hombros e responde:

—Mas em quem?

Encolho tambem os meus, sem lhe poder mostrar um costado criminoso, n’um paiz onde todos mais ou menos o são.

Se quero jantar? Não recuso, e elle vem-me abrir a sua porta hospitaleira, fazendo-me penetrar a sua morada cheia de saccos de farinha, mós alvas, e trigos em montões sobre as grandes esteiras de palma do Algarve. A mulher estende a toalha na banca, lisonjeada da minha franqueza e orgulhosa de me receber á sua mesa, a santa creatura! Uma pequena loira, de olhos espantados e bocca humida, um grande cão de guarda de poderosa cabeça e pêllo negro, dois gatos malhados, e o rapaz do carrego, chegam-se para me receber affavelmente, para me sorrirem, para brincarem comigo e me fazerem festa.

E todos:

—Esta casa é sua! Esta casa é sua!

Dizem o moleiro e a mulher com a bocca, os gatos, os cães, a pequenina e o rapaz com os olhos—bons olhos sinceros e castos onde Deus reflecte a suprema bondade, e a biblia do azul deixa um capitulo da sua limpidez.

Jantamos. Mostram-me as habilidades da filhita, que já anda á escola. Descubro um livro, dois livros.

—A Cartilha maternale osDeveres dos filhos.

Que jubilo, encontrar aqui a mão que tenho tantas vezes apertado, d’esse benemerito tão simplese grande, que todos nós, escrevinhadores de má morte, umas vezes por outras, vamos ouvir ao Salitre, na pequenina casa onde ha creanças loiras tambem,Cartilhas maternaeseDeveres dos filhos!

Em dez lições a creança tem feito prodigios. Vae pela manhãsinha no burro entre dois saccos de farinha, para a aldeia, toda embrulhada no chailito da mãe, os livros n’uma taleiga, lunch na outra, escoltada pelo rapaz e pelo cão. O rapaz cantando ladeira abaixo as imaginosas cantigas que ouve pelos bailaricos; o cão latindo atraz das alveloas e codornizes, que entre regos procuram os bagos de trigo semeado de fresco.

Á tarde volta, faminta e viva, fallando essa linguagem monosyllabica dos anjos, que as mães comprehendem tão bem, e faz rejuvenescer as tremulas avósinhas corcovadas. Despeço-me, e vem tudo á porta para me acenar quando eu fôr longe. Até mais vêr! até mais vêr! Na ribeira, as gallinholas pullulam, segundo me disseram na adega. Até mais vêr, boa gente! Este velho Fortunato é rabugento quando espera, diabo! É preciso estar lá d’aqui a uma hora...


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