O ROUBO

O ROUBO

Á porta da enfermaria pousaram a maca, á espera.

—Eh Ramon! gritou o enfermeiro, do fundo. Um servente já velho, olhou na direcção da voz, e de venta no ar, mangas arregaçadas, o labio estupido, farejava. O enfermeiro juntou:

—Cama do canto, vá!

E com o seu geito vagaroso, abria em volta de um que expirava, o biombo isolador, papel azul e verde, com ramitos de rosas e borboletas.

Alta e interminavel, a enfermaria recordava ainda o claustro d’onde nascera, com as suas pilastras de cantaria bruta, a abobada caiada de que os lampeões cahiam symetricamente, e janellas d’uma banda e outra, encimadas de respiradouroscirculares. Tinha talvez cem doentes a caserna desconforme, em cujo circuito se viam pequenas bancas de pinho com escarradores de folha, boletins clinicos pendendo a cada cabeceira, e na brancura amarellenta das fronhas, cabeças lividas de olhos estoirados, que se sentiam sós entre tanta gente, e mais soffriam de contemplar os males circumvisinhos. O enfermeiro era um de olhos biliosos e barba dura, cuja rude voz destillava monosyllabos roucos. O seu ventre abahulava-se em obesidades balôfas e a face livida, picada de variola, tinha uma expressão cobarde, espesinhada por esse longo mister de humilhações. Os ajudantes, gallegos velhos, não eram mais dôces de modos, e dia e noite altercando sobre qualquer coisa, batiam os sapatorros no sobrado, mostrando pelos descosidos da camisa, musculaturas de toiro sob epidermes de gallinha cozida.

Era quasi noite, e estagnava á flôr das coisas, uma penumbra morna em que se multiplicavam as larvas da febre, na atroz labuta da podridão. Tinham descoberto a maca no entanto, o enfermeiro viera vêr pachorrentamente, e com um dedo mostrára aos serventes a cama do canto, já prompta a receber hospede. Cada um d’elles então, foi a seu lado da maca; o mais baixo agarrou nos varaes da frente, o mais secco nos de traz. O enfermeiro disse—upa!—e em direitura á cama, a maca atravessou a enfermaria. O doente que vinha de entrar, era um rapazito enfezado e triste, cabeçaoblonga toda rapada, um geito de dizer provinciano, e essa doçura de olhar em que se estrellam todas as resignações. Devia contar treze annos, e viera aos dez de Santa Comba, recommendado ao Pinto por um lojista da terra. A vida na loja, durante os tres annos, fôra uma aspera peleja, de madrugada ás onze horas da noite, dia a dia, sem repouso. Era elle quem varria, como marçano mais novo, quem punha os taipaes, e manhãsinha abria a porta, limpava o pó e moía o café. Mettido no saguão de lagedo ou na cozinha tenebrosa da loja, onde de verão e inverno, uma baba salitrosa e gelada chorava da cantaria immunda e das paredes pulverulentas, ahi passava os dias, só com uma triste camisa coberta de nodoas, arregaçada nas mangas e rota por toda a parte, calças de cotim sobre as pernas núas, e tamancos nos pés sem meias, engordurados e torpes. Os invernos tinham sido implacaveis n’esse antro, mesmo para o montanhezito afeito aos gelos das serras beirãs. Como os portaes não tinham portas, um ventinho horrivel cortava pelo corredor, da loja ao saguão, zebrando nas carnes listrões arroxados, pondo frieiras nas mãos dos caixeiros, e tornando a cozinha inhabitavel e mortifera. O marçano não se queixava. Nunca na sua vida tivera jaleca, as calças de cotim safado, luzentes de sebo, não lhe resguardavam as pernitas esqueleticas, e cortado á escovinha, o cabello não podia resguardar-lhe a pelle do craneo. Quando chovia, peor ainda. A agua inundando o saguão, golfavana cosinha, escorrendo pela anfractuosidade das pedras, e vindo molhar os fardos do armazem.

Era então preciso desarrumar aquillo tudo, carregar saccos de assucar, costaes de bacalhau, barricas de peixe secco e manteiga, caixotes de golozeimas, lavar o chão, todos os preventivos exigidos. E sempre elle, o mais fraco e pequeno de todos, carregava com esses trabalhos pesados, e aturava os ralhos. Duas ou tres vezes, o Pinto insinuado pelos caixeiros, lhe batera com uma corda molhada, porque se queimava o café, porque tinham bolor os rebuçados, e algumas vezes, porque as arganassas invadiam os caixotes da fazenda. Era o joguete das intrigas do armazem, o ponto obrigado das chacotas villãs dos caixeiros, o alvo dos ralhos e a victima dos delirios viciosos, d’esses tres ou quatro encarcerados brutaes, que só podiam deixar a loja tres horas por quinzena.

Nos dias agrestes em que era forçado a residir no saguão, sentia por vezes já nos ultimos tempos, a cada lufada de vento, picadas interiores, ardencias mortaes no peito, oppressões vagas, um mau estar indefinido. E aquillo coincidia com uma sensação de fraqueza geral, dôres nas articulações, esquecimentos de membros e vertigens frequentes. O terceiro inverno foi o mais terrivel, e n’uma manhã em que a febre o calcinava e o delirio lhe fazia dizer incoherencias, quando furiosos os caixeiros o iam tirar da cama a pontapés, deram com a sua respiração arquejante, viram-lhe os olhos semluz, e desceram com medo. E quando anoiteceu, mesmo em mangas de camisa e calças de cotim, o pobre dava entrada no hospital, na maca da esquadra proxima, e aos hombros de quatro gallegos.

Essas primeiras horas de enfermaria foram para o rapazelho um desconforto mortal. Estrangulava-o uma sensação glacial de abandono e de pavôr, a ideia de matadouro onde se morre abandonado ao som de risadas, entre agonias atrozes, sem sacramentos e sem palavras de piedade. Dos fechos da abobada penumbrosa, os lampeões quadrados cahiam com luz triste, immovel na atmosphera podre do ambito, clarões que se amorteciam nos angulos da peça, em cujas muralhas, sombras de pilares traçavam fórmas de arvores colossaes.

No amontoado de leitos, e no sonho phantastico d’aquella luz amarellenta de craneiro, o marçano mal pôde no fervor da febre que o minava, reconstruir com verdade pelo que via, a vida purulenta do estabulo, para onde a cidade varria os seus tumores e as suas miserias. Pareceu-lhe que o deitavam ao pé de uma grande janella, n’algum canto de sombra luctuosa. Duas mãos enormes ergueram-lhe a cabeça para lhe metter o travesseiro, sentiu as coberturas comprimidas aos pés, e erguendo a vista, deu com uma cara gordalhuda e chata de enfermeiro, bigodes cahindo aos cantos da beiçadahorrenda, e esse ar de enfado ainda peor que a raiva, que pronostica a indifferença e o embrutecimento, de corações onde todas as cordas estão partidas. Cahiu então n’um estupor profundo, e assim ficou como os outros, arquejando, a pelle secca, bocca aberta e lingua cornea, pequenos gritos afflictivos, que a espaços marcavam as visões do delirio, que ia evocando. Nunca soube dizer os dias e as noites, que assim esteve atolado em modorra sinistra, com listrões plumbeos na face, carnes flaccidas, e sempre aquella oppressão que o afogava com teimosia cruel, se abandonando os travesseiros altos, procurava estender-se um momento sobre algum lado. Ás vezes, alguem lhe chegava ao pé, faziam-no sentar bruscamente na cama, com perguntas rapidas, se estava melhor, que voltasse a cabeça, estivesse socegado, ou erguesse o braço, para lhe cortarem as bolhas que o cinto de causticos abrira, pondo vermelho e doloroso no thorax, todo um circuito de carne viva. O que o atormentava eram as percussões que sobre chagas abertas lhe faziam, de manhã e á tarde, á hora da visita clinica. Se pedia mais devagar, o enfermeiro impunha-lhe silencio, e aquelles olhos de bilioso, vitrificados como n’uma porcelana chineza, davam um calefrio ao pobre rapaz. Noites atrozes, crescia-lhe a febre, e perdido o tino, punha-se a disparatar. Todas as scenas dos tres annos de loja se desmanchavam e reproduziam n’esses desvarios escandentes—a noite em que fôra roubado o armazem, e d’uma vez queficára a zorra da mulata portas a dentro, batuqueando co’a malta, e ainda as sovas do Pinto com uma corda molhada, por não ter apparecido o gato. Nada volvia a agitar-se com mais frenetica insistencia, n’esse pequeno cerebro atormentado pelo mal, que o roubo da loja. Os caixeiros tinham-se escapulido ao fechar da porta, e elle ficára só, em noite de S. João.

Deitado na enxerga do subsolo, barriga para o ar, as roupas fóra, mãos acima da cabeça, o pobre, sósinho no armazem enorme, pensava com saudades, na fogueira que em Santa Comba, deante do casebre natal ardia a essas horas da noite, e os irmãositos saltavam alegremente em cabriola ruidosa. Pela rua fóra, tudo seriam fogueiras, colmos em montes, canavouras de favas estalando na labareda rubra, e em torno dos mastros verdes, bailaricos alegres, bichas interminaveis de rapazio, rumorejos de guitarras e explosões de pandeiretas. Sobre a villa acordada em descantes, uma corôa de luz poria nas nuvens, o oiro-rosa das alvoradas de maio. As frontarias esclarecidas seriam alegres, e o relogio da egreja iria badalando a meia noite de S. João, quando o chavelho da lua mingoante, symbolico e triste, se fosse a sumir por traz de cabeços solitarios, vestidos de pinhaes sem termo. E abandonado para alli, emquanto escamugidos da loja como larapios, os outros andavam gozando pela cidade, elle fazia por dormir, sem poder. A porta da loja ficára unida, para quando os senhores entrassem. Que triste ser pobrinho e desgraçado!

Em tres annos de mourejar, apenas para comer tinha ganho. E tinha já vergonha de se vêr sebentão pelo armazem, e ao levar aos freguezes de estima no grande cabaz da loja, as mercearias encommendadas, ficava-se acabrunhado e tremulo antes de bater á porta, receoso que o expulsassem, cuspissem de nojo ao vêl-o, e o descompuzessem pelos rasgões da camisa, pelos calçotes de cotim gordurento, tão curtos que se lhe viam as canellas, vergastadas pela orla de coiro dos sapatorros montanhezes. Duas vezes ou tres, pela alta manhã, lhe quiz parecer que andava gente no armazem. Inda chegou a erguer-se da cama. Procurou os phosphoros, tinham-lhe esquecido na cozinha. E pondo o ouvido á escuta, apenas percebeu que as arganassas roiam nas cestas do macarrão, ou pelo lagedo arrastando papeis, armavam as correrias das mais noites. Demais, ia-o embebendo a modorra da madrugada. Fôra penoso o dia—moer café toda a santa tarde, arrumar garrafas que tinham vindo, limpar o bolor dos queijos...

E os olhos fechavam-se-lhe no amortecimento de uma enorme fadiga, quando muito ao de manso outra vez, as taes passadinhas soaram abafando ruidos, como de alguem que fosse, encostado ás paredes, tacteando as coisas na escuridade. A vontade d’elle era gritar—quem anda ahi?—procurava os phosphoros, mas vinha uma cobardia fundil-o todo, batiam-lhe os dentes—se fossem ladrões!... E na sua mente lendas de malfeitorestomavam relevo, attitudes tragicas, em que brilhavam navalhas e corria sangue. E os seus ouvidos zumbiam no terror d’aquella espectativa, e um phosphoro raspado na parede, abria clarões tibios, a cuja luz, a figura do larapio tomava relevos de sinistra audacia, oticsagaz de um animal feroz, pescoço estendido, á escuta para dentro, e cabeça chata, de um desenho de carnivoro, a que duas grandes orelhas despegadas das temporas, davam o aspecto de um mocho, esgalgado e lugubre.Ó Jasué! Ó Jasué!... E a voz que assim dissera, abafava-se em segredar entrecortado, parecendo voar por todos os pontos da casa, da abobada da loja á escadinha da cava: quando da rua um silvo discreto, lá longe, na precaução de um plano estudado, fazia cahir o phosphoro e correr a sombra do larapio, aos encontrões nas trevas. O marçano fazia então para gritar esforços desesperados; levavam o dinheiro da loja e a fazenda, o Pinto matal-o-hia em sabendo... E aquella suprema ideia galvanisando-o todo, fazia-o saltar da cama com um berro rouco, braços no ar, incoherencias de possesso... O larapio porem voltava, tinha-se-lhe atirado ás guelas, sacudia-o—quatro da manhã! Era o ajudante de quarto, com o remedio n’um copinho de folha.

Afinal, abrindo olhos conscientes, ao fim de nãosei quantas semanas de parvoice morbida, conseguiu dar fé com tranquillidade, dos seus companheiros de camarata, os visinhos mórmente. Era já n’uma manhã de maio, nos dias em que a humidade das ruelas profundas e o frio dos interiores desabrigados, fazem parellelo ingrato com a tepidez da luz exterior, tão benefica que pelos troncos entorpecidos na hibernagem faz subir revigoramentos de seiva, e vae brotando dos bolbos decorações patheticas de folhas, como accende nas faces rubores de saude, e nos corpos rodopios de alegria insaciavel. Essa magnificencia gradual da terra paramentada de coloridos finos, relvas mosqueadas de malmequeres, papoilas e maios, as transições infinitas do verde que ondula do amarello ao anil, bosquejando fundos de oasis ás casinholas rusticas das hortas, feria pelo contraste os habitantes da velha enfermaria, de paredes impenetraveis, pilares gigantescos, e esse calor insipido de fogões que ardem, noite e dia, com intensidade prefixa n’uma escala, amollentando corpos e favorecendo as fermentações. Alguns hospitalados que melhoravam, derreados ainda pelo assedio de longas enfermidades, iam de janella em janella e cama em cama, espreitando a agitação da cidade alastrada em baixo, na expansão irregular de um bairro pobre, predios esguios, beccos de escadinhas, quintalorios afunilados, ou a coragem dos infelizes que em crise hesitavam, entre a franca convalescença e o franco paroxismo.

Um velho camponez de Chellas por exemplo, ingenuo e palreiro, era d’uma solicitude tocante. Tinha a face rude e calcinada das intemperies do campo, mãos disformes com dedos curvos, que a convivencia da enxada já não deixava endireitar, suiça amarella e raza imbecilisando o riso, e um sincero interesse pela sorte dos companheiros de doença. Curvado no capotão de briche da casa, barretinho branco atado no coronal, elle ia encostado ás camas, todas as manhãs saber dos seus doentes, ajudar os moços no serviço das rações e distribuição dos remedios, contar a sua vida aos que já iam melhor, dizer brejeirices aos que se punham á janella, alentar os que se amarguravam ou rezar pelos que já não sentiam.

E uma noite em que o da cama 24 morreu, o de Chellas sentado na cama, olhos nos dois punhos, chorou umas poucas de horas, como se fosse da familia, o que fez escandalo nas gentes do serviço, o enfermeiro principalmente, que chupando o cachimbo, olho morto, lhe chamou em voz alta—grande pantomineiro! O marçano tinha um amor pelo bom homem, ingenuo como elle, fallando n’um tom descansado que lhe recordava as gentes de Santa Comba, e que sabia esses proverbios rudimentares, sobre estados de tempo ou saude, signaes de colheitas ou fortuna pessoal, em que o povo usa synthetisar o seu patrimonio de observações seculares e anonymas. Era o velho de Chellas a unica pessoa que lhe mostrára interesse, querendo saber d’ondeera, que fazia, o nome do pai, se na loja era bem tratado, e que tal depaparóca...

Assim, na manhã em que a melhora se esboçou lealmente no marçano, pelo espirito lucido que volvia ao cabo de um periodo agudo, em que a febre lhe vedára de todo, percepções fieis e coherentes juizos, a primeira cara que afrontou, abrindo os olhos de um somno reparador, foi a do camponez que lhe sorriu, da cama do visinho do canto, a cujos pés estava assentado. E foi elle quem, no fim de uma grande parlenda sobre a doença de ambos, com o braço estendido lhe foi apresentando a enfermaria toda, com a historia de cada doente, as respectivas manias, as gracinhas dos moços, as invasões bruscas da estudantada, que escancarava as portas do guarda-vento, para em risos e replicas se espraiar depois, em volta de cada caso clinico mais curioso. De tudo, n’essa estufa de efflorescencias morbidas, havia um typo—velhos paralyticos, doenças febris, uma collecção completa de tisicos em todos os graus, classificados por ordem, cardiacos de face terrosa e respiração intermittente, enfermidades viciosas que eram a hilaridade dos convalescentes, anemias, bocios, tumores, um museu de torpeza physica, fazendo o orgulho de uma população e o delirio de um clinico. E reproduzindo o riso, a voz e o gesto do doutor, o velho de Chellas em pé junto ao leito do marçano, arremedava aquelle, d’uma vez que mostrando a enfermaria a um collega da provincia, dizia alegremente:

—Faz-se o que é possivel para haver de tudo, meu caro. Dá trabalho, não nego, mas com boa vontade...

—Bento nome de Deus! fazia amedrontado o rapazito, em quanto radioso da emoção que produzia, o outro tomava folegos, n’um orgulho de contar tão bem.

—Vê vossê o do numero 13, vê? dizia elle.—Esboçava o typo, detalhando devagar—aquelle gordo, todo calvo, passando o fogão... Anda por dois annos que mora cá, entrevadito de todo, e fôra do matadouro. Mau, santinho, como nunca vi! Desde que entrou, não diz senão agua!—quando tem sede. Cova!—se os colchões vão abaixo c’o peso do corpanzil, e assim. De estar para o mesmo lado, semanas e semanas, faz-se-lhe o corpo em chaga viva; e teem-lhe uma raiva na casa!... Nem admira—não arranjando recommendações, não avezando gorgeta, nem bom ar ao menos... A principio vinha a filha, domingos e quintas, com lembranças, sua fruta, e umas certas pratinhas... Eram descomposturas de morte na rapariga, que por fim mudou de bairro, entende? aborrecida do trambolho ruim. E o que fica de contente, em alguem morrendo!—Á força de viver aqui, já conhece o estado da creatura pelo fungar da respiração. Estando para haver carne fresca, avisa logo, a rir, como vingado d’alguma birra velha.

Aquelle contar, dava calefrios ao marçano, cuja phantasia ensopada em toscas superstições deprovincia, creava no leito 13, uma incarnação de diabo sarcastico, vivendo da tortura alheia, perto dos delirios, na allucinação das febres e no coração das dôres, batendo a therapeutica, fazendo as crenças debandar, e no crepusculo da agonia alongando sobre os corpos, azas de morcego, farpadas e verdes, faminto das almas côr de luar. Mas na sua monotonia implacavel, o velho ia para deante, verboso e contente, insistindo no caso, biographando uns e outros, referindo as rações de carne assada, as fomes tradicionaes da dieta, os grandes desalentos de quando tombava a noite na enfermaria enorme, á hora em que os accessos vem accelerados, o rhythmo das respirações se turba, uma afflição convulsa esmaga peitos e coragens, e ás janellas fumando, os lividos enfermeiros bocejam de tedio e mau humor. Cabisbaixo então, o velho pensando na sua velha e o marçano em sua mãi, sorriam um para o outro de tristes, com um desejo no bello sol dos prados, e nos tectos humildes sob que tinham dormido n’outro tempo. Quando a narrativa chegou á cama em que o de Chellas estava assentado, o marçano pôz a vista pela primeira vez no vulto do doente seu visinho, atufado em roupas até ás orelhas, e immovel como se fôra morto. Tinha entrado com facadas no lado esquerdo, ia em mez e meio, conforme o velho contou. Poucas palavras, olhos sempre fechados—quer vêr?

E destapando a cara do intractavel companheiro, o de Chellas gritou-lhe:

—Eh camarada, dê os bons dias á gente!...

O doente virou dolorosamente a cara para o lado d’onde partia a voz. O movimento que fez, instinctivo quasi, arrancou-lhe das profundezas do peito um gemido extincto, e o marçano pôde vêr entre a dobra do lençol ensanguentado e o algodão do barrete de dormir, uma face chupada e rôxa, cujo olho parecia dormir sob a palpebra cahida, pelle de elephante com barba rara, enormes orelhas que despegadas do craneo davam a esse todo, a expressão nocturna e lugubre de um mocho derreado. Deu um repellão na cama, uma especie de grito brusco que poz em alarme a população proxima.

—Alguma dôr? quiz saber o de Chellas.

—Nada! nada!—e confuso, tremulo de susto, o marçano tinha desejos de reatar palestra, readquirir sangue frio, rir mesmo do que o outro contava, mas voltavam-lhe ideias negras, parecia-lhe aquillo um carcere, os homens sêres ferozes devorando-se em eternas luctas e eternas intrigas, toda a cidade um covil, e a enfermaria um monturo. E aproximando reminiscencias, comparando feições, dizia para comsigo ter já visto aquella face terrosa. Onde? Fosse lá saber! Mas ficára inquieto, peor, uma coisa parecia estrangulal-o, roubar-lhe o socego e o calor do corpo. Olhava á roda, vazio de consciencia, opprimido, as mãos errantes nas roupas.

Fazia magnifico sol n’essa manhã, quinta-feira de Ascensão por signal, e era de vêr como os convalescentes,abandonando jornaes e palestras, vinham apinhar-se por traz dos vidros da enfermaria, alongando os olhos pela paizagem fronteira. Avistava-se já no arrabalde, um pouco das montanhas da Graça e do Monte, e além, no pendor do valle que se estende contra a Penha, searas a espigar, picadas de vivos pontos de flôres.

Como era dia daespiga, pelas veredas que as terras demarcavam, os grupos da gente operaria com exercitos de pequenada, iam entre as searas, serpenteando com fatos de domingo, para colher o ramilhete de papoilas e espigas, que no dizer da lenda lhes traria ao ninho, felicidades e paz. Logo de manhã, o paralytico que na velha cadeira de rodas corria tudo, pedira ao de Chellas para lhe deslocar o vehiculo contra a janella, saudoso dos tempos em que, como aquella gentana toda, espairecia os ocios do dia santo, blusa nova, madama ao lado, e o fedelho trotando no bengalão do pae. Tambem esse foi apontado pelo de Chellas ao marçano.

O rapaz olhou-o de longe, viu uma cara grave expressando saudades de venturas mortas, e estupida indifferença pelo que em volta vivia.

Tempos! Tempos! E o velho abanava a cabeça todo grave, de olhos no chão.

—Já tem a companheira no cemiterio, contava. O rapaz fez-se-lhe homem, e foi degredado por navalhadas. Ninguem herdaria o nome do ferreiro honrado, nem a ferramenta do officio, que por cincoentaannos, as mãos d’elle haviam puído na bella coragem de um labor sem treguas. Tudo n’esse hospital era pois triste, cheirando a tumba—miserias, desgraças, quedas!... Tremia a alma com frio. E tambem pensativo, o velho de Chellas, erguia o olhar sobre a paizagem fronteira, viva de mundo e penetrada dos fremitos da aura e do sol, que manso, mansinho, iam fazendo ondular os colmos das searas e as folhitas das oliveiras. Áquella hora, tudo abriria no seu pobre logarejo, corollas de risos matinaes, simples e sinceros como a alma dos prados verdes, exhalada no cantico dos passaros e na bruma cerula do entardecer. Iria chamando á festa o sino da egreja; gente de casaes aos ranchos, entrava talvez o velho portal de ogiva, gothico da primeira dynastia, e no arraial flautins e bombo, animariam o bailarico de cochopas com moleiros, espessos como bezerros. D’uma banda o rio espelhado, e da outra collinas verdes picadas de pomares em flôr, altas noras ronceiras, e moinhos de vento em rodopio, enquadrariam a paizagem n’uma suavidade casta, cheia de fecundos sonhos, nupcias, beijos, atomos de sol e borboletas sacudindo o iris das suas azas turbulentas. Cada corolla seria um ninho, e uma fuchsia cada insecto bicôr. Nas colmeias das hortas, abelhas iriam fazendo pacientemente, cathedraes de favo, gothicas e fulvas, com o perfume de todas as flôres e a doçura de todas as nectareas. Um deus coroado de folhas, crinas ao vento e riso de auroras, baccho peloscachos do carcaz, meio homem, meio monstro, esculpido nas troncagens das cepas, entre tufos de parras e cannaviaes, ou nos farrapos de nevoa, á hora em que espadana o sol das cordilheiras, espargiria sobre a natureza ebria, a munificencia das suas graças sem par. E na ponta da aldeia, á porta da casinhola terrea, a velhota de roca hirta no cós das saias, faria bailar o fuso nos dedos, longe do fuso e da roca porém, tendo o pensamento no seu velho do hospital, e chorando por isso mesmo. Ah, pae do ceu! Que seria das vaccas, das leiras de repolho, do batatal e da jumenta parida!... E campo fóra, apanhando espigas, chapeu largo e cantiga prompta, elle via a gentana trepando, serpenteando, correndo, e ficava-se amuado de estar preso, de se vêr doente, espectador de tantas miserias e de tantas dôres!

Assim estiveram calados, deu uma hora no cuco da enfermaria, e o marçano attento no das facadas, via-lhe a immobilidade do corpo afogado em roupa até aos cabellos, e o quebramento da postura, sempre a mesma, vazia e morta. Fazia-lhe um medo algido aquelle homem tão quieto, a que nenhum remedio arrancava melhoras, sempre na mesma, sempre na mesma, não dando palavra, não respondendo ao medico, nem ao menos deixando vêr uma pagina sequer do que fazia por fóra.

—E como vae elle? perguntou o marçano, indicando ao de Chellas o vulto, de soslaio.

A resposta do velho foi:

—Diz que marcha.—E tão laconicamente dita, a sentença de morte deu allivio ao pequeno, que muito baixo para dentro de si, ousou dizer—ainda bem!—como se o mundo lhe ficasse aberto, por se fechar mais aquella cova.

Permittia-se áquella hora entrada na enfermaria, e em quanto com esmeros postiços, os moços alisavam a roupa aos protegidos, refazendo as dobras, achegando á cama bancas de cabeceira, e pondo a geito os escarradores,—pessoas da rua, acanhadas, passeando os olhos de cama em cama, á procura do seu doente, iam entrando receosas, as mulheres sobretudo, de tanto homem estiraçado. Os que na vida ainda tinham pessoa chegada, velhos paes ou maridos, irmãos, amigos, companheiros de predio ou de officina, levavam os olhos para o guarda-vento, á espera d’um rosto conhecido, que lhes viesse sorrir e fallar. O entrevado deixára-se ficar na eterna attitude de dois annos, indifferente ao que ia, n’um egoismo imbecil em que fuzilava rancor. E da janella mettia dó tambem, a face do paralytico, pintando uma d’essas tristezas planturosas e mudas, que até fazem pena ás creanças, e de que a gente toda a vida se lembra. Nenhum d’elles tinha quem lhe quizesse já, e as affeições dispensadas aos outros, mulheres revendo maridos, filhos beijando os paes, irmãos beijando irmãos, e amigosdizendo o que ia por fóra, escandalos de rua, casos de officina, projectos e desastres, faziam na alma dos dois como um estridor de bofetada, insulto que se não perdôa, e traz odio como reacção. Mas de repente, atraz do velho de Chellas, alguma voz atabalhoada disse:—Eh, marido!...

Voltou-se elle logo áquelle timbre conhecido, braços abertos, querendo erguer-se d’onde estava sentado e sem poder. Era a sua velha saloia, de botas crúas e lenço amarello.

—Eh, companheira!...—Largando o chalito de baetilha, a pobre tinha-lhe cahido em cheio no peito, chorando sem fallar, e toda alegre por vêl-o já de pé.

Riam em volta d’essas ternuras de setenta annos, vivas e sãs, que tinham, tão simples, um perfume casto de bodas de oiro, ao tempo em que um moço, apontando o leito do marçano, disse para um senhor—é aqui! E inesperadamente, o pobre rapaz deu de cara com o Pinto, solemne no frack preto dos dias santos, suiça rasa e cabello á escovinha, o alto ventre liberal, d’onde medalhão e corrente escorriam, n’um pus de riqueza gorda e chinfrim. O merceeiro adeantou-se, face austera de patrão, chapeu alto pendente, e mantinha de pavões bordados. Entrou logo n’uma lenga-lenga nasal e rapida, sem deixar fallar, onde pesava a nota hostil da sua posição superior. Como estás? Como não estás?

Que lhe tinham botado causticos—quantos,mesmo assim? E proseguiu—se purgavam? Era essencial, para puxar os humores.

Deixa doer quem doe! Elle bem lhe recommendára na loja, tivesse resguardos. Advertir um homem casmurros, é malhar n’um ferro frio. E quasi o mandava ficar bom no dia seguinte, impacientado, embirrativo, pela falta que fazia na loja.

Veio o senhor enfermeiro de mãos nos bolsos, o grande avental com chapa da casa, bonnézito á banda. E sabedor da alta posição que occupava aquella figura, o Pinto fez-lhe a reverencia, estendeu-lhe a mão com o grande riso de receber visitas, deu-lhe—bossa senhoria. Entraram a conversar na vida, tão trabalhosa para quem não queria andar á dependencia. E o Pinto disse o seu negocio, como tinha começado na rua dos Vinagres com a tendinha do canto, de sociedade com outro. E como subira pouco a pouco, sempre com honra, felizmente. N’um entorpecimento, o outro escutava, olhando por cima a chafra-nafra da enfermaria, tão pittoresca pelos visitantes que entravam, e pelo barulho das vozes que se embatiam. O merceeiro então, para lisonjear tão precioso donato, fallou nas doenças do tempo, na sabedoria dos enfermeiros,tão entendidosque chegavam a embrulhar cirurgiões—e pela primeira vez, o funccionario teve um gesto de concordancia, e disse com magestade batendo o avental—sim, sim!

—Se a doença do rapaz daria para muito ainda?

—Conforme, disse o enfermeiro. E com ares profundos:—Não se póde prevêr.Logo por conseguinte, póde estar um mez, dois...

—Dois! disse o Pinto com espanto.

—Tres, ou mais. Conforme. Vae melhor, vae melhor. Mas o Pinto já não o attendia. Dois mezes! E encarava duramente o marçano, como se o estivessem roubando.

O pequeno lamentava, de cabeça baixa:

—Que por sua vontade não estava alli. Se o snr. Pinto cuidava que era fortuna, a vida de doente... Ah! elle não tinha culpa, por sua desgraça, não tinha culpa...

Mas o merceeiro sem attender, voltava á carga, atacando, fazendo-se ouvir. E o tom secco, cerrado e baixo da sua voz, opprimia pela dureza, vinha em saraivada cortando respostas e lamurias, alquebrando mais o pequeno, e pondo-lhe nos dedos e na espinha, a frialdade cruel do medo.

—Nem todos teriam esperado como elle, tres semanas assim. Era mesmo abusar! E que se a coisa dava para tarde, não teria remedio senão tomar outro. Meu rico, dizia-lhe enterrando a cabeça nos hombros, com um brusco movimento ascensional de espaduas; custa! Mas é marchar para a terra.

Reprehendia-o como de costume, pela fraqueza physica, a miseria dos ossitos cambados, a carne molle que cedia prostrada ao mais leve esforço, caniculas de braços, peito para dentro, amarellidõesde uma lesma. E a sua carne triumphante e rubra, que a fartura da mesa regalava e mantinha, cuspia desprezos aridos n’essa miseria de fedelho chupado, que vergava em cobardias de vime. Servia lá, nem o diabo! E vendo-lhe lagrimas, temendo que tivessem reparado, fazia a voz alta, amansando a expressão do dizer.

—Cura-se, deixa. Com descanso e tempo, inda vens a dar ahi um granadeiro.—E queria rir; era hediondo a rir! Por fim tirou a bolsa, ficou-se a olhar á volta para que vissem, mexia nas meias corôas novas, fazendo-as tenir, e uma a uma, deixou-lhe cahir cinco na roupa, que telintaram chamando as attenções de toda a casa, pessoal e doentes. Os que ficavam perto, ergueram um rumor de admiração sympathica—que rico patrão, a bella pessoa, feliz de quem servia homens assim! E pediam de mão estendida, o ar exhausto, para tabaco. Ao tenir da moeda, o das facadas abrira olho, immovel nas roupas, e pelo canto via attentamente o rapaz entretido nas meias corôas generosas, e o Pinto a distribuir os meudos que tinha, fazendo alargar o côro de bençãos, oleoso de orgulho, o medalhão oscillando no seu ventre burguez. O episodio fizera esquecer o par de Chellas, velho ao pé da velha, isolados dos mais, e referindo negocios de casa, esperanças no anno e o pequeno lucro das vaccas. Tinham sido abençoadas as aguas de abril, a sementeira enchia olho, nascera um burrico, e na venda do leite, o rapazote tinha dias de seis tostõese mais. O velho impacientado, mexia a perna doente, como a infiltrar-lhe vigor.

—Esta maldita que não enrija! dizia. Esta negregada sempre na mesma!—E procurava quedar-se de pé firme, por minutos, até que forçado a sentar-se rogava pragas, zangado da edade, da fraqueza e da demora.

—Paciencia, volvia a velha. É já por pouco!

E arregaçando o saiote azul, de estamparia pobre, tirou da enorme algibeira de retalhos um queijo fresco, as primeiras cerejas do hortejo, quatro ricas laranjas, e o pé de meia do dinheiro, para se abrir c’os enfermeiros em tendo alta. Um no outro, repousavam olhos tranquillos, na tocante amizade d’essa ligação tão longa, que a velhice despira já de erupções e arrulhos. E fallavam de tudo ao mesmo tempo, para aproveitar bem a visita—quando elle sahisse, não era verdade?... e as dôres que tinha soffrido, passeios ao sol, na cerca, por ordem do doutor, as chuvas, e das manhãs que vinham brumosas ainda, e da vida de cada qual na enfermaria... Interessada, a velha ria para os lados, a um e a outro, feliz por dar a sua piedade de mulher ao infortunio dos tristes, que sobre enfermos eram ainda por cima desamparados de affeições. Por descuido ficára entreaberto o guarda-vento, e como estivessem voltados para lá, viram passar no corredor um padre, de barrete e estola negra, e atraz, pouco depois, o sacrista que levava uma grande lanterna accesa e cruz alçada.

Encararam-se brancos, adivinhando a mesma coisa funebre. O queixo da velha tremia, e na crise nervosa que viera, os seus braços apertavam a cinta do velho, como a furtal-o a perigos. Era a Uncção, a alguem que partia d’este mundo.

—Adeus, disse ella tristemente.

Tornou o marido—adeus! E a olhar se ficou, bestificado nos aspectos sepulcraes da catacumba, a reconstruir aos pedaços, scena por scena e grito por grito, o lugubre drama da vida hospitalar, que desgrenhadas visões alumiavam, a labaredas de horror. Essa passagem do padre no corredor, lançára um calafrio nos catres—parecia menos triste o paralytico, e da sua cama o entrevado ria alto, com um gargalhar imbecil que era diabolico, exprimindo deleites de uma vingança, sinistra de vêr. Desentoada, sem modulações, como sahindo de uma larynge sem cordas, a sua voz cascalhava a espaços, acima do borborinho geral.

—Lá vae padre, lá vae padre! Carne fresca para hoje!...

Já a saloia ia á porta, dizendo ao marido adeus com a sua mão nodosa, muitas vezes, e ao descer parou, esteve a olhar saudosamente ainda, e foi-se. O velho enternecido, ria já tranquillo, recolhendo de sobre a cama do esfaqueado, os presentes da companheira. Ia repartir a sua fruta mal-o queijo, com o amiguito de Santa Comba. Laranjas quatro; eram seis molhitos de cerejas; e o rico queijo sem sal, muito branco, vinha embrulhado n’uma folhade couve. Ia mettendo tudo nos grandes bolsos do capotão de briche. O ultimo molhito de cerejas era magnifico e rubro, inda humido das parras em que viera envolto; e de braço erguido, cerejas contra a luz, o de Chellas mirava-as muito—eram da cerejeira de ao pé do tanque, não se enganava. Os olhos riam-lhe de felicidade para os fructos, como para queridos filhos. Plantára elle a boa arvore, ha dez annos, n’um dia de orago, estando a mulher de parto. Tão graudas e vermelhas!... Trincava-as uma por uma, mascando vagarosamente, de olho pisco. De estalo, meu homem! Cuspia os caroços com orgulho, saboreando a sua fructa, que viera da sua horta, colhida pelo seu rapaz e trazida pela sua mulher! N’aquella embriaguez esquecera-se do pé da meia, em que o dinheiro vinha. Estendeu a mão para a cama, machinalmente, á procura. O pé de meia! O pé de meia! E não dando por elle, affirmava-se, mas não o via, o rico pé de meia das economias... Baixou-se custosamente então, a vêr debaixo da cama, e aos lados da banquinha, nas dobras da coberta, em toda a parte—nada! Os seus olhos erravam por uma banda e por outra, exprimindo um pasmo afflictivo agora, e o ar oppresso de quem quer gritar e não póde. Fez para o marçano:

—Vossê viu por aqui, o pé de meia da companheira?

O outro fez não, com a cabeça. Não tinha visto! Que era? O pé de meia da companheira? Porseu lado, o velho reflectia, olhando á roda. Ninguem podia ter-lh’o assim furtado, não se salvasse! Entre a cama do esfaqueado e as mais, abriam amplos intervallos—da direita era a janella, da esquerda o canto. E o amigo das facadas nem se movera!... Diabo! Surpreso, o marçano encarava-o de face, á espera, sem saber.

—É que o levou por engano, tornou o velho afinal.

—Levou quem?

—A companheira, homem! Aquillo é que se esqueceu, a cabecinha de vento, e guardou o pé de meia. Pega cerejas. Deixal-a!

Pelo cahir da tarde, tinha-lhe voltado abruptamente o accesso de febre, trazendo comsigo o desvario. Jactitante e curta, a respiração vinha sifflante na guela, cornea de seccura. Acrescia a difficuldade de estar deitado, parecendo que uma gargalheira de bronze o afogava, pondo-lhe zumbidos no pavilhão, e deslocando-lhe as coisas aos circulos por deante dos olhos, n’uma walsa lenta, em que os contornos e as côres, se apagavam e fundiam. A espaços, despertando dos lethargos profundos em que amodorrava horas e horas, ouvia o entrevado prégando mortes, que já nas sombras da egreja velha, o riso das corujas tinha predicto noites e noites. Com seculos de intervallo batiam horasno cuco da enfermaria, alargando n’uma tortura livida, sem fim, as dôres e as insomnias, e moendo os corpos pela vida morta em que os agitava. Por vezes o enfermeiro de quarto, de varino, capuz derrubado e lanterna á cinta, sahia ao guarda-vento para gritar—Dez horas! Duas horas! Seis horas!—Seguia-se o barulho de passadas somnolentas, vozes que trocavam ordens, pontos vermelhos de cigarro scintillando na treva do corredor—eram os moços que se rendiam nos quartos, gente que batia custosamente o lagedo, e outros levando em padiolas cobertas de negro, quentes ainda, para o deposito, os miseraveis que vinham de expirar nas enfermarias. Outra noite então começava, eterna, sem guarida, sob a calma densa do ambito, que a bassa luz dos lampeões enchia de oscillações mortiças, que docemente, em franjas vagas, vinham quebrar-se na sombra tremula dos oito pilares da abobada.

Aqui e além, dois ou tres sonhavam co’a vida livre dos seus mesteres, nas ruas, nos campos, nas fabricas e no lar, recompondo as scenas quotidianas, dialogos de atelier, as pequenas birras de familia—e d’alli para cima entrava um fervor afflictivo, subindo, descendo, intercalado de haustos fundos, de suspiros oppressos, spasmos de asphyxia momentanea, cansaços, impaciencias, raivas—depois era ainda a série dos que não podiam dormir, e para todos os lados rolavam n’um esbrazeamento de sêde, deitando os braços de fóra, pedindoagua, n’uma irritabilidade de sentidos que os punha fulos ao menor ruido, ao attrito mais debil, ao leve ondular de uma luz. E as respirações fundidas com esses movimentos desordenados davam um concerto informe, alguma coisa como fervores de cratera activa, ralos que em espira fugiam do rumor geral para morrer em silvo, n’uma especie de sopro apagado, por vezes n’um ronco até.

—Carne fresca para esta noite! Carne para esta noite!—Que as maganas estão-se a rir...

Uivo de besta-fera que alarmava de lugubre, a deshoras, zangando uns, mortificando outros. Sómente desprezando a sucia, indifferente aos gritos e aos terrores, o enfermeiro estava na cadeira de braços para o quarto da madrugada,Rocambolena mesa, lanterna ao lado, cachimbo acceso para matar o somno, e certa idéa gulosa em dois dedos de carne, feminina e sadia.

A sua sensação dominante, era um odio da vida negra eivada de miserias, em que amortecem affectos e bons impulsos, todas as lealdades da estima, abnegações do sangue, e os fluidos de uma sympathia que ás vezes, instantaneamente, se contrahe. Porque o tirocinio da profissão deserta de risos, constantemente em face do estertor, da allucinação e do soffrimento, o eterno espectaculo de corpos doentes, pondo a nú as podridões do temperamento e das faculdades, a crueza dos instinctos e os urros da cubiça e do odio, aluira-lhe o ideal de generosidade, estancando as fontes do bem, da paciencae do amparo, quanto é inherente á intelligencia e se bebe de salutar na educação.

Oh, a Julia, que sobrolho promettedor!...

E rolava todo amoroso, n’um espreguiçamento lubrico, cabeça para traz, na molleza somnolenta que faz para assim dizer, atmosphera ao desejo. Bocca aberta, cahidos os braços, cachimbo em ala esburacando o capote, ficou a resonar espapaçado como um odre, e via-se o bigode cahido nas commissuras, pondo-lhe na cara o laivo despotico de um mandarim feroz.

N’um sobresalto então, o marçano viu uma fórma núa que se debruçava para elle, de olhos estourados, os braços em arco pintados de figuras azues, ancoras, letras, cruzes, datas, e de mãos tremulas tacteava as roupas, por baixo do travesseiro, á procura. De medo, nem pio deu. Olhava a estranha cabeça, muito chata de fronte e alongada ao alto, pequenina, afocinhada, de orelhas salientes. Apenas se mexeu, a fórma recuára sem ruido, como se escorregasse, e as suas mãos buscavam sempre, com incisão subtil e fina, pelos colchões, abaixo dos lençoes, sob o travesseiro. Que é? Quem está? Que quer? A adunca fórma vinha com precauções minuciosas, parecia crescer endireitando subitamente o tronco de livida magreza, em que saltavam costellas, e a enorme ligadura passava cingindo-a desde os sovacos até aos rins, com discos de sangue secco. Trespassado de terror, o pequeno fazia tudo para gritar, em lucta com o pesadêlo das maisnoites—primogenito das grandes febres, em que mesmo acordado, tresvairava. E a catalepsia era implacavel, completa, prendia-lhe os braços, prendia-lhe as pernas, gelava-lhe a lingua, estrangulava-o pela garganta. Via essa aranha de nodosos membros, amarellos, terrosos, cheios de lanugem parda, cujos ossos davam estalos, indo e vindo, palpando o leito dos pés á cabeceira, escorregando-lhe as mãos ao longo do corpo, de olhos fixos, carcomido, atroz, cheirando a raposo e a mattagal. E não partia, a gargalheira de aço que o estrangulava!...

Transparente da extraordinaria magreza, o larvado sêr dir-se-hia movido por uma idéa fixa, procurando aqui e além, palpando tudo sem ruido. De cada vez que as suas mãos tocavam a carne do rapaz, sentia elle uma frialdade de reptil, pelle escamosa e aspera, que ao contacto dava irritações doridas. Cada articulação lhe fazia uma massa redonda e enorme, na linha torta dos membros.

Era todo anguloso e torcido, inutilisado por uma degenerescencia trahida nos mais simples pormenores organicos, desde os musculos que mal avultavam comidos de cachexia, até ás phalanges dos dedos, filiformes, agitadiças, tendo o ar de vermes.

Afinal o estado fez crise, pela condensação de uma grande força nervosa—e o pequeno deu um berro roufenho e brusco, muito curto, mas ao erguer-se sentiu a guela oppressa pela pressão de uns dedos crispados. A aranha cahira-lhe em cheio sobre o peito, tinha-se-lhe aferrado ás guelas, de pupillaaccesa, calada por cima d’elle, e toda inteiriçada na sua magreza funambulesca. O pequeno debatia-se em vão; mas tinha os braços livres e atirava-lhe murros ao focinho, dando pontapés sob as roupas, e furtando o corpo a cada solavanco da guerreia. Luctaram dois segundos assim, n’um silencio lugubre em que os halitos sifflavam; e o espectro mordia nas mãos do garoto, aos pulos sobre a cama, furioso, tentando arrancar-lhe o quer que fosse, mão nas guelas, e a outra mão aggredindo sem descanso. Afinal conseguiu tirar-lhe o que era, pôz um pé no sobrado, deixára-lhe as guelas livres. A lucta porém não cessou, era o marçano quem atacava agora, aos gritos, agarrado ao pescoço do espectro. Tinham acordado em volta, no entanto, chamavam por gente, estremunhados, sem saber o que havia. De braços tisicos, o rapaz retinha a fórma núa, sem largar, arquejando, implorando—dê-me isso! dê-me isso! Mas o disforme sêr parecia de pedra, olhando de pé a creança que implorava. Tinha já ensopada em sangue a ligadura, e dobrado para a frente queria avançar um passo, dizer o quer que fosse, acenar com as mãos talvez; mas ao tempo corriam, e o enfermeiro atirou-lhe um empurrão—seu malandro! seu assassino!

Tinha-se reconhecido o das facadas, o que nunca mexia do seu lugar: e como elle vinha para aggredir, o enfermeiro injuriando-o, n’um chuveiro de infamias vertiginosas—que viera do Limoeiro para alli, era um degredado por toda a vida, umassassino, um pulha e um ladrão!—descarregou-lhe a bofetada em cheio, e com uma cara hedionda viu-o cahir desamparado, todo um, vomitando sangue negro, que cheirava a pôdre. Então disse alto, contra o guarda-vento:

—Eh, carreguem o canalha!

Os moços agarraram n’elle, um pelos pés, outro pela cabeça, e a custo ergueram-no do chão. Ensopada, a enorme ligadura não podendo reter o sangue das facadas abertas no esforço de luctar, pelos intersticios deixava-o correr em fio, muito escuro, crepitante, espumoso, nas tabuas, e pelas roupas, alagando tudo. Esse corpo resequido, sob cuja pelle tendões sahiam retesados como varas, jogava solavancos para toda a banda, com os braços, com as pernas, dando urros de touro agonisante. A enfermaria estava agora em balburdia, e todos fallavam n’um fundo de pavor, esbracejando, commentando o caso, fallando ao mesmo tempo.

Os moços vinham de atirar sobre a cama o rebelde, que a morte estorcia em repellões profundos. Viram-se essas pernas flectidas como para um salto, erguerem as rotulas juntas, contra a bocca torcida, d’onde um sangue denso golfava ao de manso. E dobrado pela cinta, todo aquelle sêr mexia, rolava, uivando, procurando apoio nos hombros, nos cotovêlos, nas nadegas, alçando a cabeça, cahindo outra vez, e erguendo-se ainda para luctar de novo, na ancia do ultimo arranco. Tinham chamado o interno de serviço, que veio ao pé da cama,e seccamente, chupando o cigarro disse—prompto!—e abalou de mãos nos bolsos. O fervor da respiração que subira mal viera a agonia, cahia lento, com o ruido d’um comboio que chega, e a mascara ficára rigida e baça, listrada de um bistre singular, ao ultimo rolar convulso dos olhos. Coincidia com o aniquilamento da face, a geral prostração dos membros—as pernas abatiam-se n’uma rigidez de pedra, mettera-se-lhe o peito para dentro como sorvido, e pendida do leito, a mão que estava fechada relaxou-se, deixando cahir no sobrado sonoramente, umas após outras, as cinco meias corôas do marçano, que condensando afinal as suas lembranças, acabava de reconhecer no morto, o ladrão do armazem.


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