I

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Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha, sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello, que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos.

—Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro, que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.

Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.

—Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.

Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, e disse-lhe:

—Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á minha affeição.

—Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.

Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.

Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado duas horas.

Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam sem brilho.

Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A tal convite nunca eu soubera resistir.

Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu par na polka.

O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus olhos.

—Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade.

—Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.

Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia n’uma das suas horas de mau humor.

Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza.

Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos giros que tanto me enlevavam.

Confesso que nunca mais pensei em Claudio daCunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile.

O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual gravidade.

—Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se, quando íamos descendo as escadas do palacio.

—Pareceu-me bem, respondi eu, porque?

—É o noivo que te destinâmos, tornou minha mãe, inclinando-se um pouco para o meu ouvido.

—Ah! redargui eu distraidamente.

Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que travei conhecimento com meu marido.


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