III

III

Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha. Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um gesto, de um segundo?

Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas a meus paes.

D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas».

Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de larangeira, emblemas nupciaes.

Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres, que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta, os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos suspensos nos copos esperavam a metamorphose.

A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas desmaiadas no horisonte.

Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa, corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia a rôxa pétala que ía encher decontentamento um coração virginal! Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh! fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és boa!»

Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente, e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista, e...

E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento, e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e luva branca!

Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!

Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me devia conduzir á igreja.

D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas.

Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar as brancas velas do baixel do meu destino.

Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida, a formosa e radiante constellação dos meus devaneios!


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