V
Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do seuspleenincuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio, arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiavaa entrar nas minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da influencia diabolica da arte, e dos artistas.
Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu apparecer nas salas com aquellechaperonsempre a meu lado, que me expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres, cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de quarenta annos!
Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e, apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D. Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o seu effeito.
Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas reclamações! Claramentese via que o meu desejo era prival-a de todos os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos clamores, mantive a minha resolução.
Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo. Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha vida mesquinhamente agitada.
Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor!
E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e deslisaram-me vagarosamente pelas faces.
N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva, que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita.
N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem.
—Claudio!amice!onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico, porque, se t’o dou na realidade, encharco-te.
—Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de braços abertos.
—Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade italiana está matando olazzarone, a chuva mais dia menos dia dá cabo do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas a bordo de umsteamer. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande marquez não chovia, meu amigo.
—Alberto, deixa-me...
—Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes, só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem, Claudio!
—Consente, Alberto, que...
—Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza devemol-a ao Beresford...
N’este momento entrou um criado com luz.
Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia.
—Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me palrar como um idiota que sou...
—Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia.
—É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante recemchegado da terrados prodigios, como não ha de ser recebido cordial e curiosamente?
Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:
—Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas ha de confessar que na escuridão era difficil...
—Ora, dasvelhasnunca os senhores fazem caso.
—Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe, parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?
—Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora uma loucura d’essas. Os homens...
—São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis.
—Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu agora de França.
—Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!
—Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meumarido, que via a conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor.
Levantámo-nos e fomos para a sala.
Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo tubo do fogão.
—Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como Victor Hugo,
Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!
—Safa, que egoista! exclamou Claudio.
—Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que nãocito por duas razões: a primeira porque são em latim...
—E a segunda? perguntei eu.
—Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.
Desatei a rir.
—Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando por essa fórma as viagens?
—Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as!
—Mas, parece-me...
—Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?» Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e composta poresse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente o viajante recem-chegado?
—Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente.
—Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se.
—Qual é? perguntou Claudio.
—O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario, que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo, andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla com tanto despreson’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª D. Antonia?
—O que?
—Dizer mal... que é um grande prazer.
—Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por exemplo...
—Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior. O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella?
—Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.
—Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja contemporanea.
—Bazilia!...
—Sim, mulher de D. Bazilio.
—Qual D. Bazilio?
—Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado depois por outro chamado Rossini!
—Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito.
—Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a agua de Juvencio.
—Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido.
Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-meimperceptivelmente, e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha sidomystificada, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.
—Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu marido, para dizer alguma coisa.
—Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco? Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes principalmente. Oslazzaroniandam de chapeu alto, e o Vesuvio mais dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia, que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas?
—Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram as pedras, sumiram o Mediterraneo,impuzeram silencio ás brisas, desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a olvidaram de certo os eccos dastrada Balbi. Levem-me á Italia, e eu atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tembersaglieri? não sei, não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero engolphar-me n’esse pélago de maravilhas,quero percorrer esse mundo mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte, não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor, que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte!
—Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo, cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas e passam, agitandoas azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes, passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles, não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso, como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de Horacio e a Delia de Tibullo.
Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:
—Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos soltava lugubrementea voz, como que para entoar o epicedio da grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal, tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de melodia a deliciosa serenata doMarino Falierode Donizetti. Como por mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore branco. Avultou-me ao longe oBucentauro, com o seu magestoso cortejo de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a Veneza do carnaval, surgiu-mede novo das ondas, como a borboleta da chrysalida, como a Venus da espuma!
—O que! ouviu em Veneza a serenata doMarino Faliero? acudi eu com jubilo infantil.
E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia.
Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado, como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza, reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.
Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava rijo, fazendo gemer os postigos.
Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento d’essanota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias, Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido havia muito com a aza branca magoada!
Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que entregue a um delicioso extasi.
—Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias! são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes, nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual, pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do Mediterraneodescantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia!
—Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido?
—Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; aLuciae aNormasão as duas chaves do Paraizo.
—E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.
—Oh! esse é o porteiro do inferno.
Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:
—Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a darem eternamente odódo peito. Pois onde queria que eu collocasse o author doRoberto do Diabo? No céo de certo que não. Meyerbeer é o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica doRobertoé a pavorosa traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo. São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo soberbo no meio do seu tenebroso exilio.E as notas isoladas da abertura doPropheta! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos!
N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e saiu.