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Todos sentimos como que uma commoção electrica; eu mesma confesso que estremeci ao dar por tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto mudou-se em espanto, quando vimos apparecer á porta D. Antonia, envolta n’um chale antiquissimo, que provavelmente descobrira n’algum dos velhos bahus da residencia.
—Então aqui não se trata da ceia? perguntou ella, cruzando os braços. Toca a palrar e a contar historias, e eu e a Maria do Rosario que nos aguentemos com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já, já fazer as camas; Quiteria veja se nos arranja alguma coisa para cearmos. Nunca se viu uma coisa assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e as donas da casa tendo de fazer o trabalho se o quizerem ver feito. A pobre Maria do Rosario é que havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha, venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta gente, senão está perdida.
O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás faces e affogueou-m’as. O que! pois não era eu a dona da casa, não era eu só quem podia dar essas ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer? Travar uma discussão em presença dos criados? Impossivel; a minha indole negava-se completamente a essas coisas. E por esta fórma conseguia sempre D. Antonia as victorias, que lhe assegurava a sua impudente iniciativa.
As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me e saí; passei por diante de D. Antonia, e vi a Maria do Rosario escondida na sombra. Percebi que tinha uma nova inimiga.
Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu quarto. Ella veiu logo, fazendo muitas mesuras, e, pegando no candieiro, caminhou adeante de mim. Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia.
—Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella.
—Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, e prefiro deitar-me.
Não me respondeu, e limitou-se a encolher os hombros. Eu subi a escada, seguindo a Maria do Rosario.
O meu quarto ficava situado n’um dos angulos do edificio.
Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com bambinellas, rasgavam-se n’uma das paredes. Um leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso, abrangia uma grande porção da parede fronteira. O quarto fôra forrado de papel, havia pouco, e o mau gosto de quem presidira a esses arranjos escolherao papel entre estes de linhas em zig-zag, parallelas e muito unidas, que impressionam a vista, e tomam fórmas phantasticas quando a luz vacillante d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se de um modo aterrador. Duas ou tres cadeiras de espaldar e pregaria e uma commoda antiquissima completavam a mobilia d’este quarto lugubre.
A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me os membros, opprimiu-me o coração. Pareceu-me que entrava n’um sepulchro.
Em cima da commoda havia dois castiçaes com vellas de stearina. Maria do Rosario accendeu-as, e perguntou-me se precisava de mais alguma coisa.
—De nada, respondi eu seccamente.
Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a.
—Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei eu.
—Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui esta porta deita para um corredor, que vae ter á casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas estão abertas.
—Obrigada, tornei eu.
Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e depois descer a escada de vagar, até que esmoreceu ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo em silencio.
Em silencio, não; porque a tempestade não se aplacara. O vento gemia com mais tristeza, açoitando os postigos das janellas. De quando em quando ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida da procella batia com furor nos vidros.
Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei pender a cabeça nas mãos. Senti quanto é horrorosa a soledade quando se tem vinte annos e um coração ardente. N’essas noites de temporal, em que é tão suave a reunião familiar, via-me eu só, abandonada, entregue a todos os pavores que a solidão inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo de mortos que habitação de vivos. Era esse quarto o symbolo da minha existencia, tal como o destino m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu tinha que encerrar todas as aspirações da minha juventude, todo o fogo vital que me incendia o sangue.
Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, porque esses pensamentos haviam-me opprimido o coração, e dei um grito de terror. Defronte de mim um vulto pallido mirava-me como que atterrado. Lagrimas silenciosas deslisavam-lhe pelas faces.
Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho em que eu ainda não reparara. Sorri-me do engano; ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és tu, Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, que ha pouco dançavas nos bailes com tão mimoso colorido nas faces? És tu a flor das salas? Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á sombra; mas que sol te poderia reanimar?»
«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto illuminou-se com vagos e ignotos clarões, e a tempestade como que se acalmou por incanto, e a sua voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O amor!» E as linhas do papel arredondaram-se tambemem graciosas curvas, e murmuraram: «Amor! amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas candidas, e eu ouvia-lhes o harmonioso bater d’azas. O rosto, reflectido no espelho, desfranziu-se n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe toldavam a fronte.
—Que loucuras! balbuciei.
E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me á bibliotheca a procurar um livro, que me distrahisse o espirito d’estes perigosos devaneios.
A livraria era uma casa pequena, toda cercada de estantes, que vergavam ao peso de formidaveisinfolio. Tirei ao acaso o primeiro volume que se me deparou. Era o segundo tomo dosTrabalhos de Jesus. Isso exactamente eu desejava. O titulo promettia-me um admiravel exorcista contra o demonio côr de rosa que ameaçava perseguir-me. Voltei pé ante pé, e entrei no quarto. Colloquei o pesado alfarrabio á cabeceira do meu leito, e principiei a despir-me.
Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. Tive curiosidade de ver o aspecto da atmosphéra e, meio despida, corri á janella e entreabri um postigo.
A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, e a lua, filtrando os seus raios por entre as nuvens, banhava os canteiros no seu magico fulgor. O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa suave, que agitava as folhas nascentes das arvores. Parecia-me assistir á transição do inverno para a primavera, e cheguei a pensar que esse momentoera o momento exacto em que findava o reinado dos gelos, e principiava o das flôres. A natureza, cançada da lucta, deixava-se embalar no regaço da primavera, que surgia coroada de estrellas, e scintillante de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce palavra vi-a claramente escripta no vidro em letras de prata por um raio luminoso, que se desprendeu languidamente do seio da namorada Phebe.
Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar por diante do espelho, relanceei para elle a vista, e divisei um rosto que me sorria com os olhos banhados em vaga languidez. Involuntariamente escondi o seio com os braços cruzados, e, toda tremula e risonha, metti-me na cama, lançando logo a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus. Abri ao acaso e li:
«Ó amor divino, como prendes, quando na alma te accendes; como captivas, quando á alma descobres alguma parte da formosura de tua face divina! Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo que de ti da vida sente, e póde com tua graça experimentar, como fica livre de si e das prisões da terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas tuas amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, que até dos corporaes sentidos lhe mudas o gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á tua mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, tu a acordas, se quer descançar, a aguilhôas, se quer comer, lhe tiras o sabor, se quer conversar, a apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe defendes; sempre amigo, sempre cioso; porquetodo te dás, e toda a tomas; todo te entregas, e toda a prendes.»
Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam não sei que namorados effluvios; sentia volitarem em torno de mim sylphos e fadas, que pareciam, occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas harmonias. O clarão suave da vella parecia oscillar brandamente ao meigo e perfumado sopro d’esses habitantes dos ares. As letras do livro eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente as mais voluptuosas arias de Bellini e de Rossini com letra de fr. Thomé de Jesus. Fui cerrando os olhos, como se o fluido magnetico, que enchia o quarto, me opprimisse as palpebras. A vela estava quasi expirando, e, nas vascas da agonia, projectava clarões phantasticos nas cortinas vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e fui-me deixando adormecer, murmurando a palavra: «Amor!... Amor!»