XIII

XIII

No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu sósinha, e punha-me a caminho da casa de Theodoro Leite.

A Annica dera-me as explicações topographicas mais minuciosas para que me não perdesse. Mas a Annica não contara com as distracções da minha phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa tarde de primavera, nas tentações de respirar em liberdade esse ar dos campos, tão puro, tão são, tão fragrante!

Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de todas as perseguições, só com a natureza e com Deus, engolphar-me de novo em pleno ambiente de poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me enlevava tanto, me rejubilava por tal forma, que me parecia renascer para a vida, como eu quizera, como eu comprehendera, para a vida do sonho, para a vida do ideal.

Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena elevação de terreno para descobrir mais largo horisonte, como eu ficava embebida em jubilo infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os quaes a brisa fluctuava de manso, acamando-os levemente, como se milhões de invisiveis borboletas poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor campestre! Tanto me enlevei, tanto me extasiei, tanto me deliciei que afinal perdi-me. Já cançada e offegante, via o sol pender cada vez mais para o horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia de tomar. Valeu-me um saloio venerando, que encontrei, e que me foi conduzir até á porta de Theodoro Leite, acceitando, apesar da sua physionomia patriarchal, com mostras de muito jubilo, a remuneração em dinheiro que lhe offereci.

A casa do mestre de meninos era modesta, mas aceiada. A sua fachada branca atapetava-se graciosamente com plantas trepadeiras, que lhe emolduravam as janellas, em cujos vidros scintillavam os raios do sol poente. Respirava toda ella pobresa, mas serenidade.

Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com um livro na mão. Soltou uma exclamação de jubilo assim que me viu.

—Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me os anjos, como visitaram outr’ora os patriarchas hebreus? Bemvinda seja a esta choupana, minha filha! Entre e illumine com o seu meigo sorriso as trevas precursoras de sepulchro em que estes dois velhos vivem.

—Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu, entrando alegremente. Velho que sabe dizer tantas finezas é mais perigoso que um rapaz.

—O gioventú, primavera della vita!tornou elle, mirando-me com terno sorriso. Doce estação da existencia, cujo reflexo até o inverno aclara. Aqui tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei, continuou voltando-se para sua irmã, palida creatura que jazia n’uma pobre cama.

Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio inspira. Josephina poisou-me na cabeça a mão quasi transparente, murmurando:

—Pobre creança! Deus te fade bem, e mude os abrolhos da estrada que trilhas em flores suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas, as agruras do caminho em aveludado tapete.

Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção maternal.

—Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil seria encontrar um quadro mais delicioso do que esse que estão agora ambas formando? Os teus cabellos brancos de neve confundem-se com as tranças levemente aloiradas de D. Margarida. Aqui, do sitio onde estou, vejo desenhar-se em graciosa curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o de fragrancias, a perfumar-te de juventude. Ha um raio do sol poente, que entra pela janella, e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa formosa menina, e a ti purpureia-te levemente a fronte de marfim. Onde ha espectaculo que se possacomparar a este que disfructo agora? Duas vidas que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso como a outra na sua aurora, duas auréolas, cujos raios de luz se confundem, auréolas que não sei dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma de infortunio, se a que se compõe de innocencia!

—Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou, voltando-se para mim; foi sempre o defeito d’este meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns versos...

—Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me na consciencia.

—É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa em rimas, entretem-se em devaneios, é o que lhe tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses de offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo appetite havia de ter sido despertado pela caminhada.

—Queres que lhe offereça os alimentos frugaes da nossa Thebaida? Pão secco...

—E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste das que te trouxe o pae d’um dos teus discipulos?

—Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho vontade.

As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco apparecia Theodoro com um açafate de laranjas magnificas.

—Madame de Maintenon, disse elle, quando não tinha assado para dar aos hospedes do seu primeiromarido, Scarron, contava-lhes uma historia. Aqui, senhora D. Margarida, tem de passar sem assado e sem historia.

—Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso a segunda. A sua vida passada não contará muitos factos d’util lição para quem entra, como eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente não está cheia tambem de modesto mas proveitoso ensinamento?

Theodoro abanou a cabeça com melancholia.

—O meu passado, filha, é um passado tristemente banal. Ferventes illusões, desenganos profundos, n’isso apenas se cifra. Julguei que o meu paiz caminhava com o resto da humanidade, e que podia tambem eu accender o meu facho modesto para o ajudar a dissipar as sombras. Enganei-me. Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os cabellos n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, percebi que, se o meu paiz regeitava o meu auxilio, reclamava-o a minha familia. Voltei para o lar, como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres como posso, e infelizmente posso pouco. A minha vida presente, senhora D. Margarida, tem o seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, ao pé do leito de minha irmã, contemplo o sol que illumina além o horisonte com as derradeiras chammas, quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa como a vejo obscura e contradictoria na egreja profanada pelos que se dizem seus sacerdotes, então sinto-me feliz, e agradeço á Providenciaestes breves instantes de suave repouso que me concede antes de me abrir as portas do tumulo. Outras vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer, sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado reclama, sinto as ondas da amargura invadirem-me o coração. Sinto o remorso pungir-me...

—Theodoro! exclamou a irmã.

—Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio da ambição quem me arrastou para longe da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa, quando me devia restringir ao dever mil vezes mais santo de consolador, de esteio dos que Deus confiou á minha protecção immediata. Pelahumanidadetrabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse trabalho glorioso, e esquecem ohomem, o homem com os seus affectos, com os seus deveres modestos, mas augustos, deveres que se resumem no acanhado circulo da familia. Acanhado, acanhado como é acanhada a cellula da abelha, mas a cellula á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a colmeia. O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade.

Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida aquella fronte limpida, onde se revia tão doce serenidade, aquelle homem apodado de impio, que professava tão nobres principios, emquanto os que se presavam de religiosos tinham apenas (e demais a mais só em palavras) uma desamoravel e falsa moralidade.

Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar. Eu fabricara em casa uma historia muito complicada,que me authorisasse a soccorrer aquella infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha causa. Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma me enliara, que não pude conseguir dizer duas palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava d’um parente meu, que desejava editar traducções do latim, e um mistiforio tal, que logo estaquei, fazendo-me muito córada, e só pude dizer, pondo as mãos em attitude de supplica:

—Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta que eu tome parte no tratamento de sua irmã.

Theodoro Leite ouvira a minha historia com um benevolo sorriso; mas afinal duas lagrimas lhe marejaram nos olhos, e travando-me das mãos, e beijando m’as, disse:

—Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a esmola, que as suas mãos santificaram. Quem não acceitaria o orvalho celeste, que as brancas azas d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho tão mal entendido seria o meu! Deus lhe pague, filha, esse oiro bemdito, em rosas no Empyreo, e em venturas na terra.

E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos, deslisaram-lhe lentamente pelas faces venerandas.

A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me tão bem n’aquella humilde casa!

Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol desapparecera já no horisonte; as roxas côres do crepusculo iam-se destingindo a pouco e pouco, e o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando cada vez mais. Augmentava o fulgor das estrellas,e a lua, ainda desmaiada, apparecia no Oriente.

Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos conversando e rindo, calando-nos a espaços para escutarmos o ultimo echo dos ruidos expirantes do dia e os primeiros murmurios nocturnos. Separarámo-nos no principio da lameda, que ia ter a minha casa.

Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite a reunião completa, e logo todos repararam na expressão da minha physionomia.

—Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha querida senhora D. Margarida? acudiu maliciosamente Carolina, diz assim: «Viu passarinho novo!»

—Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola onde não ha senão passaros velhos. Venho de casa de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre entrevadinha. A senhora condessa por força ha de ter soccorrido aquelle infortunio, continuei eu maliciosamente.

—Minha filha, respondeu a condessa, não me quero oppôr aos juizos de Deus. A minha caridade estende-se a todos os christãos; mas animar os impios não entra nos meus principios.

—Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi eu sorrindo-me, parece-me que teria ensejo para repetir a parabola do Samaritano.

—Está muito forte em theologia, tornou a condessa.

—Não, minha senhora, não sou theologa; mas gosto de ler o Evangelho.

—Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga,de contestar o merecimento dos livros sagrados; mas deixe-me avisal-a que não é bom lel-os e commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a que isso nos conduz? Ao protestantismo.

—Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, que a senhora D. Margarida não tenha um guia espiritual? As suas excursões por estes campos, tão, desprovidos de attractivos, não podem ter outro fim senão o de procurar um... confessor.

—Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, que não era bonito andar sósinha. Podia isso dar logar a mil interpretações, falsas decerto, mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. Não me quiz ouvir.

—Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, é esse o grande defeito da mocidade contemporanea. Independencia individual, eis o seudesideratum. Liberdade de pensamento... para o mal, e liberdade de acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós e andarem sós. Pois olhe, D. Antonia, quando uma menina lê algum livro muito recatada, e sem querer que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado se debruça sobre a pagina a cabeça de Satanaz, e quando quer andar só, não será Lucifer o companheiro, mas olhe que vem a dar na mesma.

Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações, porque decididamente não me fadara Deus para este genero de luctas, onde perdia logo o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear de um cavallo, depois passos de homem na escada; e afinal abriu-se a porta, e appareceu no humbralum sujeito moço, de figura esbelta, e amavel physionomia.

Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se com um risinho de escarneo.

Esse homem, que surgira á porta, era Alberto Mascarenhas.


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