XVII
Ficámos todos tres por um instante enleados; Alberto foi quem primeiro tomou a palavra, com o seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a imital-o; mas, por maiores que fossem os meus esforços, negaram-se-me os labios a articular um som. Percebia que, se tentasse fallar, os soluços brotariam d’envolta com as palavras.
Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo, e fugi para o meu quarto. Alli chorei á vontade, desabafei. Quando esta dôr inexplicavel se acalmou um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo d’esses prantos.
«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto um homem como todos; o amor profundo que disse consagrar-me não deixou o mais leve rasto na sua memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario, é um prostibulo, aquelle coração tem a porta franca para quaesquer imagens.
«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo? Que direito me deu elle para fiscalisar as suas acções? Não me disse, não me affirmou, não me jurou até que esse amor antigo se dissipara como um devaneio de juventude, como um relampago de estio, que brilha e morre no firmamento azul? E não me devo eu até rejubilar com este acontecimento que me prova a verdade do que elle me dizia? Não contribue isto mesmo para dar nova paz á minha consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das calumnias de D. Antonia e da condessa?
«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção é a amisade fraternal, que a Alberto consagrei, é a estima que votei a esse espirito nobre! Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do seu pedestal a alma que eu julgara quasi superior á humanidade. O amor de Carolina macula um homem. E demais aquillo não é amor, é um capricho dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O amor não brota assim d’um instante para o outro, não viça com tanta facilidade nas cinzas d’um affecto extincto.
«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia, não queiras disfarçar com o vão nome de amisade o sentimento culpado, que se te apoderou do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo de vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio teu, és tu só a culpada; não podes allegar a influencia magnetica de um amor constante e vehemente, que actuasse a teu pesar no teu espiritoe no teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te, e não mereces ser respeitada, porque moralmente já trahiste os teus deveres de esposa, já falseaste a fé conjugal.»
E nova torrente de prantos me brotou dos olhos, e me inundou as faces.
Quando desci do meu quarto para a sala notaram todos a minha agitação. Alberto mirou-me inquieto, Carolina com um modo de ironia tal, que me deu forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento. Queria soffrer, sim, mas soffrer com dignidade, e sem dar ás minhas inimigas motivo para folgarem e triumpharem.
Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que tornou a mostrar-se todo attencioso e galanteador com a afilhada da condessa.
«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel é essa paixão, que nem elle tem forças para m’a occultar, e para a occultar aos outros. Não se lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora solteira, a quem se possa affoitamente render homenagens?
«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos, tão inquisidores comigo, estão cegos, ou fingem-se cegos, que não vêem ou não querem ver o escandalo, que se está praticando n’esta sala? Que é feito da austera moralidade d’esta gente? Onde se aninharam as suas severidades?...»
Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava sendo involuntariamente mais culpada do que elles? Não via eu que estes assomos de austeridade tinhama sua origem n’um sentimento, que devia reprimir com todas as forças da minha alma? Era a fatalilade que me impellia. Tranquilla vira entrar Alberto em minha casa, sem pensar em o distinguir dos outros homens. Accusando-me de um crime, de que nem sequer tivera o pensamento, obrigam-me a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua imagem deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente o compare ás outras pessoas, que me rodeiam, comparação que não póde deixar de lhe ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia, caminho com desassombro n’essa estrada semeada de perfidias, não vejo o abysmo que a pouco e pouco se me vae rasgando aos pés, que cada um dos meus passos alarga insensivelmente, abysmo por onde vou resvalando, e em que afinal baqueio.
Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera mil vezes mais baixa do que essa onde vivem as minhas accusadoras. A calumnia tinha rasão, os calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas, folgae, Messalinas de sachristia! conseguistes o vosso fim. Enxovalhei-me na lama, que tão obstinadamente me arrojastes ás faces! Polluí a corôa da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera no pensamento, e isso basta para me julgar mais vil aos meus proprios olhos do que essa que alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade, e que está agora impudentemente demonstrando á minha vista a veracidade das suas doutrinas.
«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao menos não hei de transpor os limites que ainda meseparam d’uma vergonha completa. Esse amor fatal, que me devora, hei de abrigal-o no meu seio, como a áspide que me ha de matar, sem que o meu rosto revele os meus tormentos. Deixando de parte o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso, voarei para as regiões da phantasia, e ahi viverei enlaçada n’um casto amor com a sombra pura de Alberto, tal como elle se me afigurou, e não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle mais do que elle a si proprio se possue, porque é minha essa flôr secca, symbolo da sua poetica existencia, ao passo que elle, afastando-se cada vez mais d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins da torpe Armida, que soube, com um olhar provocador, transformar uma alma tão nobre n’um espirito vulgar.»
E soffria, soffria como nem eu o posso dizer, soffria e tinha vergonha do meu soffrimento, e não ousava erguer os olhos para Claudio, cujo rosto sombrio se ia desannuviando e alegrando ao ver Alberto enlevado nos seus novos amores.
Os homens são estupidos!
Desde então, a nossa vida tomou um outro aspecto, que inspirava grande espanto a D. Antonia. Por mais que ella tentasse renovar as suas manobras com o fim de nos deixar sós, rarissimas vezes o conseguia. Alberto sempre se lhe esquivava, e Carolina auxiliava-o n’isso, reclamando-o a cada instante, ora para a acompanhar n’um passeio a cavallo, ora para a ajudar a ler uma nova e difficil musica, que lhe chegara de Lisboa; e eu, afflicta,mas valorosa, desviava-me tambem de prompto, e entregava-me a longos passeios solitarios, onde me comprazia, vagueando pelas aridas planicies d’aquelles sitios, a avivar a memoria dos meus passeios e das minhas conversações com Alberto, que se me debuxavam na phantasia, sem me esquecer uma só particularidade, uma palavra só.
Triste voluptuosidade de quem alarga a ferida com as proprias mãos, de quem está saboreando a triaga fatal!
Os meus passeios dirigiam-se quasi sempre para o lado da casa de Theodoro Leite. N’aquelle doce asylo, aonde não chegava nem um ecco das paixões mundanas, que haviamos transportado comnosco da cidade para o campo, n’aquelle sanctuario do infortunio alegremente supportado, n’aquelle templo da familia, recuperava eu novas forças para o combate, que travara. N’esse ambiente são e perfumado de virtudes hauria as emanações do balsamo celeste, que guarece as feridas envenenadas. Um beijo da entrevadinha na minha fronte como que a cingia de novo da auréola da innocencia; um meigo olhar de Theodoro, calando-me no intimo da alma, expulsava a imagem que se obstinava a povoar-m’a. Voltava sempre d’essa pobre casa mais em paz com a minha consciencia; mas o encontro de Carolina com Alberto, encontro que era inevitavel, outra vez m’a turvava, e soltava as tempestades por um instante enfreadas.
Claudio quizera aproveitar esse estado da minha alma, que elle não saberia definir, mas que instinctivamenteadivinhava, para se aproximar de mim, e subtrahir-se ao mesmo tempo ao jugo de D. Antonia. Mas as suas timidas tentativas não me encontravam n’essa occasião disposta a animal-as. A minha consciencia dizia-me que não podia receber essa especie de homenagem, que já me não era devida, acceitar uma penitencia, que eu me devia impôr a mim mesma. E, por mais que tentasse levantar-me, uma força fatal me impellia cada vez mais rapidamente para o abysmo!
Mas emfim, as forças não me trahiam, e quando, saindo do meu quarto, onde me ficava muitas vezes depois de jantar, contemplando o horisonte purpureado, os effeitos da luz moribunda e das sombras recrescentes nas ruas e nas moitas do jardim, as estatuas banhadas pelos ultimos raios do sol, que lhes doiravam o manto verde com que o musgo as revestia, e que, ao vir do crepusculo, pareciam tremer de frio, e aconchegar bem as pregas d’essa tunica ao seu pobre marmore nú; ouvindo os vagos murmurios do campo, o melancolico suspirar das fontes, e deixando os meus sonhos esvoaçarem livremente n’essa atmosphera de poesia e de saudade; quando, saindo pois do meu quarto, e baixando d’essas regiões phantasiosas ao mundo real, me via cara a cara com uma atroz desillusão, conservava-se-me o rosto impassivel, e nem o mais leve franzir dos labios, nem uma só ruga da face denunciavam os tormentos, que vinham saltear-me.
Alberto não mostrava perante mim o minimo embaraço. Espantava-me esta quasi indelicadesa n’umhomem tão delicado. Bem sei que elle não tinha nem sequer obrigação moral de submetter á minha opinião o seu procedimento. Bem sei que, não tendo commettido culpa alguma para comigo, não tinha que se embaraçar em minha presença... mas emfim... ha certos escrupulos... exagerados talvez... pontos d’honra nimiamente requintados... não digo o contrario... o vulgo, ainda o mais escrupuloso rir-se-hia d’esta minha pretenção... mas eu julgava Alberto por tal fórma differente do vulgo... achava-o tão capaz de comprehender estas coisas...!
Como viram, não era a primeira vez que me illudia nos juizos formados a respeito de Alberto.
Uma tarde, mal acabamos de jantar, fomos dar um passeio a cavallo, eu, D. Antonia, Carolina, e Jeronymo. Alberto não apparecera; por isso, com visivel contrariedade da afilhada da condessa, fomos sem elle.
Comtudo Carolina teve a habilidade de dirigir o passeio de fórma, que pudessemos encontrar Alberto no caminho. Propoz que fossemos até Bellas, para aproveitarmos o resto da tarde, passeando na quinta do conde de Pombeiro. D. Antonia concordou. Jeronymo disse que lhe era indifferente ir para um ou para outro lado, e eu, que formava a minoria, não tive remedio senão acceder.
Partimos.
Sairam errados os calculos de Carolina. Não encontramos Alberto.
O calor do dia (um dos primeiros de junho) dissipara-se um pouco, sem desapparecer de todo. Asfrescas sombras da quinta do Senhor da Serra estavam-nos convidando a irmos deliciar-nos com ellas. Apeamo-nos, entregamos os cavallos ao creado, e entramos na quinta.
Carolina estava visivelmente preoccupada, e afastava-se a cada instante de nós, para ir espreitar as lamedas transversaes, como se esperasse que o acaso a favorecesse mais do que o seu calculo. D. Antonia dera o braço a Jeronymo, e conversava com elle. Eu ficara isolada, e, procurando completa solidão, fui affrouxando a pouco e pouco o passo, até que perdi de vista os meus companheiros. Estava só.
Sempre gostei immenso d’essas lamedas sombrias d’arvores seculares, que se encontram n’alguns dos nossos velhos parques. Em Cintra abandonava as garridas quintas modernas para passear nas melancholicas devesas da Penha Verde, ou nas ruas graves e aristocraticas do Ramalhão. No outono principalmente, quando as folhas seccas rangem debaixo dos pés dos passeantes, quando os ramos, despojados do seu verde ornato, cruzando-se-nos por cima da cabeça, deixam ver o céo pesado e triste, não conheço goso comparavel ao de passear e scismar por entre esses longos renques d’arvores centenarias, que meneiam, ao sopro da brisa, as suas frontes calvas.
Mas não estavamos então no outono, e a ramaria, toda folhuda e verdejante, formava sobre mim uma copada abobada, cujo verde se esmaltava com o oiro dos raios do sol, que a muito custo se lhe coavampelos intersticios. N’esses estrados de folhagem poisavam-se bandos e bandos de passarinhos, cujo alegre chilrear povoava a espessura de harmonias, docemente acompanhadas pelo melodioso murmurio da agua das fontes.
Expirava aquella solidão não sei que vagos effluvios de tranquilidade e remanso. Cedi ao inexprimivel encanto, e fui-me embebendo n’uma suave melancholia, que me enliava os sentidos e m’os absorvia todos no goso de devaneios, que purificava. Caminhando vagarosamente na extensa rua, haurindo os perfumes fortes que o arvoredo exhalava, enlevando-me no canto das aves, tirei a flôr secca do peito, e contemplei-a com ternura. Creio até que a estava beijando, quando subito, n’um dos meandros da lameda, dei de cara com Carolina.
Escondi a flôr com precipitação, e fiz-me toda vermelha.
—Oh! temos segredinhos, disse ella desatando a rir, que flôr era essa que beijava tão devotamente? Se estivesse fallando com um cavalheiro, adivinharia logo que essa rosa caira das tranças da dama dos seus pensamentos; mas, fallando com uma senhora, torna-se o caso mais difficil de averiguar. Não me ajuda?
—Permitta-me que não escolha confidente, respondi eu com frieza. Costumo guardar os meus segredos, mesmo quando, como este, nada têem de melindroso.
—Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou Carolina, que se me não faz confidencias, nãoé porque não tenha assumpto para ellas; apanhei-a em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me zango com isso; sempre tive muita consideração pelas pessoas que sabem esconder bem o seu jogo. Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça á sua veracidade. Eram erroneas as minhas supposições ácerca de Alberto Mascarenhas, e verdadeiras as suas negativas.
—Já o sabe? tornei eu com ironia.
—Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu ella impudentemente.
Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo Freitas.
—Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu marido, e bom será que voltemos para casa. Não desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde.
Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão. Montamos a cavallo, e seguimos pelo caminho da nossa aldeia.
Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote. A agitação, que por instantes se acalmara, refervia-me de novo na mente, excitada pelas palavras de Carolina.
Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me a moderar o passo do cavallo, continuou a conversação principiada na quinta.
—Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes?
—Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente o sobr’olho.
—Da intimidade que existe agora entre mim e Alberto.
—Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora, respondi, insulto que demais a mais não comprehendo, depois do que me disse ainda ha pouco.
—Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla em amor? A amisade não inspira tambem zelos?
—A mim não, decerto; estimo até que os meus amigos se liguem com pessoasdignas do seu affecto.
E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras.
—O que quer dizer, tornou Carolina serenamente, que me acha completamente indigna d’essas affeições. Oh! minha querida, sou perfeitamente da sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo comnosco sobre esse ponto importante. Que quer que eu lhe faça?
Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes em silencio.
—Alberto, tornou Carolina no tom mais placido d’este mundo, é realmente um dos rapazes mais amaveis que tenho encontrado. Associa ao caracter nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e coração ardente; raro conjuncto de predicados. A sua voz insinuante exerce sobre quem o escuta um dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e ardente captiva e abrasa. É um poeta na linguagem, um principe nas maneiras, um anjo no sentir. É a realisação d’esse marido ideal, que todas nós devaneamos aos quinze annos, antes de descermos áprosa do mundo para casarmos com os Jeronymos Freitas, e com os Claudios da Cunha.
—Tudo isso é amisade?
—Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no mesmo tom sereno. Olhe, eu não sou diplomata senão com a tola da condessa, e com a sua beata roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que me vejo obrigada a desempenhar todos os dias, que, mal entro nos bastidores, não tenho forças para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á scena. Por isso lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me a Alberto um amor profundo. É abominavel? Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador. Mas, filha, tenciono consagrar a minha velhice a um longo arrependimento. Hei de ir a Roma, hei de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes, proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças indigentes, obras pias de que seria dispensada, se não passasse a minha mocidade a commetter alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê que lucra com isto a beneficencia publica. Tive a fraqueza de amar Alberto. Não a teria, se suspeitasse que o ia tirar do lanço á minha boa amiga. Mas não; soube que era falso tudo quanto a D. Antonia dissera, soube que se não amavam, e ficou-me a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo. A minha querida Margaridinha, que sabe quanto é poderosa a influencia da poesia, pode comprehender o modo como eu cedi aos protestos d’amor d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda como esta; estavamos ambos sós na sala, contemplandoo horisonte dos campos. Alberto murmurava-me ao ouvido essas palavras deliciosas, que sempre eccoam n’um coração feminino. A belleza do céu, as harmonias campestres, o doce murmurio da sua voz, a poetica auréola com que o sol moribundo lhe cingia a fronte, a solidão da sala, tudo conspirava contra mim. Senti-o aproximar-se...
—Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente louca e desvairada, n’um paroxismo de dor, sem saber o que dizia, nem o que fazia, não quero ouvir mais as suas infames e mentirosas confidencias.
E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um galope desenfreado, soluçando a um tempo de dor, de raiva e de vergonha. A viração da tarde trouxe-me ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e estas palavras, que proferia ironicamente:
—E não o amava?