XXI
Pareceram-me seculos as horas, que decorreram até o cair da noite, e comtudo, quando as primeiras sombras do crepusculo principiaram a invadir o céu, desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver tão proximo o instante em que se ia decidir a minha sorte.
Chegaram, segundo o costume, as visitas; D. Antonia mostrara-se todo o dia affabilissima comigo, tambem a condessa houve por bem mimosear-me com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina abraçou-me e beijou-me com extraordinaria affeição.
A tudo correspondi com sereno e melancholico aspecto: causava-me asco esse corrilho de Judas.
Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia disse estar incommodada, e foi-se metter no seu quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto; depois saira.
Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me o coração com extraordinaria vehemencia;ia dando um grito, e deixando cair o castiçal, que levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel no fundo da escada.
Felizmente logo o conheci: era Quiteria.
—Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa; a condessa e a D. Carolina entraram agora mesmo.
—Estão cá? perguntei eu.
—Estão; fingiram que se iam embora; mas foram passear, voltaram, e metteram-se no quarto de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario.
—O que farão ellas?
—Não sei, mas não tema. Aproveite este momento, que é favoravel. Deus a proteja, filha.
Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava no horisonte a lua, mas aproximava-se a hora em que havia de surgir o meigo astro. A folhagem das arvores meneava-se brandamente ao sopro suave da brisa, e por entre a ramaria scintillavam as estrellas.
Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, dirigindo-me á porta que deitava para a estrada. Quando cheguei a uma espessa moita de buxo não tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma voz que murmurava muito de manso:
—Margarida!
Voltei-me, e vi Alberto.
Parei, e comprimi com a mão o violento arfar do peito. Alberto pegou-me na outra mão, e levou-a respeitosamente aos labios.
—O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, disse-lhe eu, ao receber o estranho recado que lhe enviei?
—Pensei que vossa excellencia tinha que me dar uma ordem, que eu tinha a ventura de poder executar um mandado seu, e vim.
—Disposto a obedecer-me?
—Em tudo.
Calei-me embaraçada; não sabia como havia de dar o primeiro passo n’esse terreno escorregadio. Tinha os olhos baixos, mas como que sentia o olhar de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. As nossas respirações oppressas confundiam-se n’um murmurio, que se casava com o sussurrar da brisa languida nas folhas do arvoredo.
Formava o buxo uma espessa parede, que nos abrigava do lado de casa; corria-lhe fronteiro o muro do jardim, mas a porta ficava-nos distante. Um pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós a copa como um docel perfumado. Uma estatua pagã, meio escondida no buxo, espreitava-nos maliciosamente da sua verde alcova.
—Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com voz profundamente commovida, poz-nos o acaso n’uma situação falsissima. N’um momento de exaltação passageira trocámos palavras fataes, que ainda hoje me soam aos ouvidos como um remorso. Justificámos a calumnia, demos rasão aos calumniadores. Esse crime só se resgata com a separação. É o allivio para os nossos espiritos, a tranquilidade para as nossas consciencias. Não podemos viver assimcom a recordação d’essa tarde a interpor-se constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre como espinho de rosa, que nasceu amaldiçoada. Chamei-o aqui para implorar da sua honra, do seu cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, se me é permittido proferir tal palavra, a esmola de um pouco de socego. Parta, rogo-lh’o, ausente-se d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente as suas relações com a minha familia; só assim poderei recuperar a paz, por que almejo tanto, que a acceito, ainda que seja o repouso do tumulo, ou a atonia do desespero.
—Minha senhora, respondeu Alberto com mal fingida firmesa, obedeço a esta ordem de vossa excellencia, como a todas obedeceria. E demais vejo, percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. Amigo de seu marido, estou representando um papel em que a minha lealdade soffre. Não sei se esta consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as leis da honra ás vezes são frageis diques contra as torrentes de alguns affectos. Mas não devo pensar em mim, devo pensar no anjo puro, cuja etherea serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado tive a audacia de fazer reboar um echo das paixões vis da terra. Possa o meu sacrificio restituir-lhe o repouso.
Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, sem forças para lhe responder, e mal podendo suster-me em pé, me encostava ao pedestal da estatua, continuou com voz triste, ainda que serena:
—Adeus, Margarida.
E estendeu-me a mão, que eu apertei.
—Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade e tristeza.
E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os olhos de um cravados nos olhos do outro. A brisa sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da lua nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro.
—Que sonho tão breve, Margarida! murmurou elle.
—Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu.
—Sim, como todos os sonhos, que descem das regiões da phantasia para o mundo da realidade. Dizem as lendas allemãs que os espiritos do ar e das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana forma e alma tambem humana, mas qualquer desgosto os fina, e perdem então de todo a immortalidade. Quer-me parecer que os sonhos são como os sylphos e as ondinas.
—Louco de quem lhes magôa as azas candidas com os attritos da vida!
—Bem louco!... Que irresistivel tentação, que absurdo escrupulo me impelliu a revelar-lhe n’aquella noite fatal a historia dos meus amores! Soltei as avesinhas captivas, julgando que as poderia fazer voltar ao ninho...
—E ellas foram despertar com os seus cantos as irmãs adormecidas na minha alma. Era natural, bem vê.
—Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, continuou Alberto um tanto exaltado, gosei uminstante de suprema ventura. Oh! antes de nos separarmos para sempre, diga, Margarida, diga-me que esse momento, em que se vae absorver e resumir todo o meu passado, ha de brilhar tambem como um ponto luminoso na sua vida.
—Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, e não me pejo de o dizer, porque vou expiar longamente esse prazer tão rapido. Entrevi de relance as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia criminosa o feiticeiro philtro das suas palavras. Não tardaram as amarguras. Estado tão inebriante era como esse mundo de crystal, que a phantasia de não sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, de esplendidos prodigios; mas um bafo annuviava o ridente quadro, qualquer attrito o partia. Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso mundo despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem dispersos. Mas crêa: sempre que os espinhos da realidade me ferirem em demasia, hei de volver os olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados poisámos.
—Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, essas magicas palavras! Quer que nos separemos, e está entrançando de ouro e seda o laço, que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz é canto de sereia, que me arrasta para o abysmo. Sinto que a minha alma se prende n’essa ineffavel seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, repetia elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa palavra destôa dos murmurios amorosos d’este jardim, das meigas notas da sua voz. Não a profira,não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, como dizia, no crystal onde sinto repercutir-se em eccos deliciosos cada uma das estrophes do meu encantador poema. Não, não, não posso.
—Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? Lembre-se do que me prometteu, lembre-se das desgraças, de que póde ser causa este infausto amor.
—Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me convulso as mãos, lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. Mas hoje é a ultima noite que me resta para te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear de novo pelo oceano sombrio da existencia, sósinho, sem uma esperança, sem uma estrella no céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades. E quando o vendaval agudo me açoitar alta noite, quando não bruxulear para mim no horisonte outro fanal que não seja a triste lampada do tumulo, não queres que eu conserve ao menos uma lembrança do radiante porto, da afortunada ilha onde pude repoisar por instantes a fronte queimada pelo sopro das procellas? Não queres que se me aclarem um momento as sombras, e que entre os fulgores da aurora me surja o teu vulto angelico, meigo e saudoso como na hora em que para sempre nos apartámos?
E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, e incendia-lhe vivissimos lampejos nos olhos marejados de lagrimas. A aragem meneava a copa do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam em torno de nós em chuva de perfumes. Esse murmuriovago das noites de estio expirava ao nosso ouvido em voluptuosa melodia.
Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica seducção do olhar de Alberto. Soltou-se-me então uma trança, que a brisa trouxe logo a beijar-me o collo, como essasboucles follesem que os francezes fallam.
—Mas o que quer? o que exige de mim? disse eu com voz tremula. Oh! Alberto, porque se não ausentou já?
—Nada quero nada, senão que se deixe estar assim, formosa incarnação do meu sonho mais bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia pela deusa da caça, nas horas em que desce ao seio dos bosques a procurar Endymião. Ha na sua attitude um mixto indizivel de languidez e de pudor, um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe namoraria os olhos, como a mim m’os namora, captivando-me o espirito. És linda, Margarida!
—Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte ruborisada nas mãos trementes.
Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para si, e obrigando-me ao mesmo tempo com dôce violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua m’o illuminava em cheio, continuou:
—És linda! és linda! quero gravar bem no coração a tua imagem, as linhas do teu semblante, a luz do teu olhar! Quereria até poder captivar e reter na urna do meu peito esse perfume inebriante e impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E vou perder-te para sempre... para sempre... nãover-te mais, senão em sonhos. E hei de assim abandonar a ventura, quando a tenho nos meus braços, hei de eu mesmo precipitar-me das alturas do céu nas profundesas do inferno? Que tortura, não é?
—E a minha, Alberto?
—A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao ver desfazer-se o devaneio de um instante, o desgosto da creança, quando desapparece o globo de agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes côres pelos raios de sol, globo que um sopro creou e um sopro mata. Mas eu!... Este sonho formava parte integrante da minha existencia. Ainda que o julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança me vinha segredar ao ouvido ineffaveis consolações. Mas agora, filha, agora nem isso me é permittido! morreu para sempre, morreu o pobre sonho, o meu constante companheiro, o meigo irmão da minha alma!
E apertava-me convulso ao peito, e embebia nos meus os seus olhos desvairados. Afastava-me os cabellos da fronte com os dedos tremulos, e o seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como o beijo de um anjo.
—E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse aos pés as leis do mundo e as da honra, se te pedisse que fugissemos d’aqui para um recanto ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos e aromas! Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse formoso golpho, por baixo d’esse céu azul, n’esse solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio, como o meu peito pela fervente lava d’este amor.Alli de todos nos esqueceriamos; alli podiamos prolongar infinitamente estes rapidos instantes. Margarida! tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo, n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes os nossos fados. Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente para este pelago de paixões, unico elemento onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, devoremos em Napoles em alguns annos uma existencia de seculos, até que morrâmos juntos sobre o tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde nasceu o vate de Armida.
E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe:
—Alberto, não queiras macular o nosso tão casto sonho. Estes devaneios, que fórmas, bastantes vezes me acariciaram, mas repelli-os sempre, mas quero ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente, hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha para consolo dos teus dias attribulados. Mas a flor secca, Alberto, a flor que guardo no meu seio é o symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo perfume, e viço novo, á custa de um sacrilegio. O tufão da desgraça merecida dispersar-lhe-hia as folhas, e que dôr, que immensa dôr não seria-a nossa! Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te.
—Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras, de sacrificios vãos! És minha, só minha. Dá-me o amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o remorso nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos. Que importa? Morreremos enlaçados, na flôr dos annos. É esse o destino d’aquelles a quem ama a céu.
—Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor inspirado pelo paganismo, e não o que se purifica nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre as ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado por Deus.
—Deus! se existe, não póde separar os que se amam.
—E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio, e a consciencia? Oh! se cedesses a esta impia tentação, o teu anjo da guarda velaria com as mãos o rosto indignado.
—O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo da guarda és tu!
—Não, Alberto, é o espirito de tua mãe!
Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam o corpo, levou-as aos olhos, d’onde lhe irrompia o pranto; depois, voltando a mim, e tomando-me a cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me:
—E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para sempre!
E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da estatua. Quando levantei a fronte, vi deante de mim um vulto, cujo rosto estava mais pallido do que o marmore, que eu regara com as minhas lagrimas.
Era Claudio.