O CALVARIO DO AMORISeriam duas horas d'uma fria noite de março, quando a cavalgada sahia o largo portal do Corcovado, em direitura á egreja da freguezia, que ficava a uma boa hora de distancia.A noiva, joven e formosa, com vestido de seda clara semeado de florinhas azues, montava soberba mula, ajaezada á hespanhola e coberta de valioso teliz de veludo encarnado com brilhos d'oiro, peça antiga na casa de D. Bento d'Osma, o ditoso noivo, que aos sessenta annos ia receber como esposa a encantadora Maria. Pelo caminho aspero e pedregoso, ladeado de pinheiraes sombrios, de penedias soberbas, de campos ferteis, de precipicios fundos onde grasnavam aguas tumultuosas, sentia-sea animação da extensa cavalgada. As lumieiras, que os creados sustentavam altas, erguendo os braços para aclararem maior area do caminho, produziam sombras phantasticas que se espalmavam nos muros e deitavam nos campos, dando a este quadro de vida commum, aspecto tão singular que ao longe pareceria festa de demonios em delirio. As aves silvestres e os animaes bravios que tal presenceassem, acordados do seu repouso, assim o deviam pensar, pois fugiam uns voando, outros correndo e sumindo-se todos no denso negrume da noite. Ia na frente a noiva, delgada e airosa, dentro do seu vestido claro, os cabellos negros e fartos ornados de flores naturaes, as mais bellas flores dos jardins d'Osma, onde as havia raras e viçosas todo o anno. Ao lado de Maria, D. Bento, ainda vigoroso, montava magnifico cavallo baio adrede comprado para este acto solemne. E logo a seguir o pae da airosa menina, o José Pereira do Corcovado, da conhecida casa do Corcovado e seus quatro filhos, Manuel, Thomaz, Vicente e José, rapazes valentes e destemidos, pimpões de varrer tudo em romarias e feiras, quando se junctassem os quatro. Cercava-os o maior numero das lumieiras, para acautelarem a noiva contra qualquer estorvo do caminho turtuoso e difficil, e assim assegurarem tambem aos que vinham atraz, transito livre. Estes eram pessoas de differentes edades e feitios; senhoras velhas de vestidos serios de seda preta e meninas novas todas de claro, desde a corde rosa virginal até ao verde-prado que é esperança. Os homens antigos estadeavam as suas casacas de gollas altas e bofes nos peitilhos das camisas; os rapazes d'agora vestuario delambido e collarinhos pegados á pelle do pescoço. Havia alguns padres na extensa cavalgada, de sobrecasaca grave, bota eclesiastica de borla no joelho, ou bute simples nos mais pobres que não tinham para abastanças, volta no pescoço, e deitando a sua sentença latina do alto das suas eguas de farta cauda e largo ventre prolifero. Os da rectaguarda mofavam do velho D. Bento, pela desproporção na edade com Maria, e alludindo á violenta e conhecida paixão, que por ella tinha, o João da Cunha, da casa da Maceira, disse um conceituosamente:—Póde muito bem ser um segundo tomo do velho D. Thomaz que se casou com a D. Paulina, morgada da Cerdosa[2].—Que lhe preste—accrescentou Frei Ignacio pitadeando-se.Era realmente coisa sabida que João da Cunha amava perdidamente Maria; e tão perdidamente a amava e tão de receiar era uma vingança dos rapazes da Maceira (que tambem eram quatro enão inferiores em valentia aos do Corcovado), que os irmãos da noiva iam adeante a guardal-a e promptos para tudo. Arrebatando-a ao amado preferido, levavam-na juncto do altar para a entregarem ao morgado d'Osma, senhor de Osma e de muitas propriedades de Minho e Douro. João só podia alardear boa linhagem e muito amor, quanto a haveres a casa era pequena e filhos muitos. Quando n'isto falaram ao velho do Corcovado desatou n'um berreiro de espantar lobos: «que amor sem riqueza era bonito, mas julgava-o destempero; que se lhe queria a filha viesse pedil-a trazendo titulos de propriedade para a merecer. Elle por sua parte, tinha boa casa; mas herdeiros cinco».—Portanto, que tire d'ahi o sentido—rematou para o enviado.O da Maceira que era ousado e temerario approximou-se um dia do velho e perguntou-lhe de cabeça alta:—Como quer o senhor José Pereira que eu arranje assim de repente dinheiro?—Isso é comtigo e não commigo.—E com quanto se contenta?—disse sarcastico.—Com muito; dinheiro quanto mais melhor—respondeu o velho no mesmo tom.—E quanto tempo me dá para arranjar isso com que lhe possa comprar Maria?—Ella não é negra. Não te me faças birbante que se os meus rapazes ouvem...—Bem me importo com ameaças! Peço um anno, para ir ao Brazil entender-me com meu tio Antonio, que lá tenho. Acceita?—Vae ao Brazil, vae onde quizeres, eu já falei.E voltou-lhe as costas sem mais ceremonias.O rapaz sahiu o portal do Corcovado com uma batalha no cerebro. A sua idéa n'aquelle instante, foi roubar violentamente Maria, fugir com ella para sitio alpestre e ignorado, e lá viverem vida selvatica d'amor, sustentando-se de leite e fructos da terra. Chamava-o, a grandes vozes, o coração, para essa existencia poetica, altiva e nomada, querida da imaginação de todos os independentes, como apropriada á vida feliz. Alimentarem-se de caça, do mel das abelhas, de medronhos e hervas; beberem o leite, a limpida agua das fontes por escudellas de madeiras ou de cortiça; vaguearem no silencio magestoso das mattas escuras, pouco conhecidas dos homens; suspirarem juncto das estrellas na amplidão das serras altas, absorverem a largos pulmões o ar fresco e aromatico das brizas que vem dos codeçaes floridos e das urzes sempre verdes... era o que lhes deleitaria a sensibilidade, irmanando-os com os pastores, com os anjos e com os poetas. Nos primeiros colloquios d'amor, que tivera com Maria, quando ainda eram creanças e simples, já detalhavam a vida dos ermos, baseando-a no aspecto ditoso e feliz dos pegureiros,que na primavera subiam ás montanhas com os seus rebanhos, e no que sabiam de contos de fadas e moiras encantadas. Era essa existencia que lhes convinha: uma cabana e dormir entre a lã das ovelhas, imaginar ao som gemente dos regatos e deleitar os olhos no azul infinito que não tem fim—um viver só pelo goso de existir e nada mais.Então ninguem sabia ainda que elles se amavam, a flor doente de sensibilidade que lhes estava rebentando no coração era apenas presentida pelas ingenuas creanças. A modo que iam crescendo tomava esse sentimento vago uma fórma mais definida e concreta, os olhos do corpo, ensinados pela experiencia, iam corrigindo as incertas aspirações da alma contemplativa e um dia disse João a Maria: «Quando nos casaremos nós?»; ficando absortos n'um spasmo de mente a voarem pelos espaços sidereos.Casar! palavra magica e dolente em que tudo se comprehende e pouco se diz. Seria só a união dos corpos? Seria a harmonia dos corações? Seria a orchestração das palavras melodicas que sentiam nos ouvidos, quando de noite pensavam um no outro? Que seria?!... O contacto das suas pelles, quando se abraçavam e beijavam nos brinquedos infantis, dispertava-lhes, por vezes, fulgurações no cerebro, chispas nos nervos, deleites celestiaes. Casar seria a absorpção de dois entes n'um ente novo e mais complexo; mas ocasar ideal, a completação ambiccionada era fugir, não ver homens, nem casas, nem mares turbulentos, e só conhecer serras tranquillas, arvoredos mysteriosos, e animaes amigos. Poderiam realisar estas sublimes aspirações?...Foram crescendo os corpos; adelgaçava-se a nuvem em que divinamente viviam occultos; era mais palpavel a realidade, João e Maria para casarem precisavam merecer-se. Por isso elle foi principiar os estudos, com idéa de seguir uma carreira, que lhe desse no mundo uma situação. Maria ficou na aldeia, entre as mesmas arvores, contemplando os mesmos penhascos e o mesmo céu, e, quando não teve comsigo João, cruciante foi a sua dôr. Porém logo nas primeiras férias todas as saudades se diluiram e a alegria d'esse primeiro encontro e dos seguintes compensara-os da magua da primeira separação.O velho da casa do Corcovado, mais experiente e sagaz do que os filhos, foi quem primeiro deu pelo caso. Não lhe convinha: determinou acabar aquillo d'uma vez. Formou uma assembléa com os seus rapazes: fechando-se n'um quarto com elles, expoz o caso e pediu-lhes alvitre no modo de proceder.—Isso dá-se cabo d'elle, é o melhor—disse Thomaz, o de genio mais violento.E o Vicente secundou-o:—Sahe-se-lhe ao caminho longe d'aqui, quando vier a férias; arruma-se-lhe um estalo na cabeçae enterra-se bem fundo n'um campo, onde ninguem o encontrará.—Não é preciso tanto—disse o velho concentrado e tenaz. O D. Bento d'Osma gosta da pequena; porque já m'o disse. Maria fez desoito; arranjam-se os papeis em segredo, chama-se aqui sem ella o esperar, fala-se-lhe tezo, e casam-se sem dar tempo a que o marmanjo consulte os irmãos.—Que nós não tememos—disse o Manuel, o mais velho, applaudido pelos mais novos.Maria por um acaso feliz estava no quarto contiguo e como falassem alto ouviu a conversa. Foi grande a sua perturbação, mas simulou o contrario para a defesa. Descobriu meio de tudo communicar ao mais velho da Maceira, o Gonsalo, para o tornar conhecido do irmão, asseverando-lhe que, por sua parte, estava prompta para quanto João entendesse necessario fazer-se com o fim de defenderem o seu amor. Foi n'essa occasião, que o namorado desejando levar as coisas a bem anunciou ao velho José Pereira, primeiro por um enviado, depois directamente, os projectos em que estava de conquistar no mundo posição que lhe desse direito á mão de Maria, terminando pela affirmativa de ir ao Brazil. Tal viagem, porém, nunca pensou em realisal-a e a promessa era apenas um estratagema de ganhar tempo, para concertar um plano de fugir com a sua amada.[2]Amores, amores...IISimulou-se na Maceira o caso da partida de João para a companhia do tio que tinha no Brazil, tudo com o apparato do estylo: enxoval, despedidas, choros, a sahida do rapaz acompanhado de seus irmãos, e até um telegramma do Porto, que participava o embarque. Fez-se a representação com a maior verosimilhança. O namorado desappareceu da aldeia e falava-se d'elle com saudade e sympathia. Os do Corcovado, acreditando só metade do que viam, principiaram logo a dispor as coisas para o enlace de Maria com D. Bento.O Manoel, que era o de mais tino, sahiu uma noite a cavallo levando comsigo dois creados só até ao limite da aldeia: ia tractar com o morgadod'Osma de coisas de escriptura e dote; informal-o do que havia e do que seu pae com todos elles tinha accordado. Assentes as bases do contracto com o noivo, que não offereceu difficuldades, pois toda a sua ambição era obter a mocidade de Maria para caldear com a sua velhice, logo se despacharam os dois mais novos, Vicente e José, para irem a Braga tractar secretamente dos papeis do casamento. No entretanto, dentro do Corcovado não se dormia descançado: havia armas promptas, e esculcas de noite no velho casarão. Conheciam bem os da Maceira: sabiam-nos ousados, valentes e até loucos d'audacia. Ainda que João houvesse partido (do que não tinham absoluta certeza), ficavam os outros que eram capazes de armarem uma batalha campal, para garantirem ao irmão ausente, uma desaffronta e uma vingança estrondosa. Dispunham os seus meios de resistencia para se defenderem, ainda que preferiam que tudo se passasse com normalidade e socego. Esconderam, pois, entre si e D. Bento o plano urdido, simularam vida tranquilla e ordinaria, simularam mesmo a crença no descuido dos da Maceira, na partida de João, e já em Braga corria velozmente o processo ecclesiastico com todas as licenças necessarias para em vinte e quatro horas, logo que taes licenças chegassem, se realisarem as nupcias.Em Braga era tambem onde estava João da Cunha, á espera de aviso dos irmãos, para regressar á aldeia na opportunidade conveniente, e aqui foiavisado por um amigo, de que os papeis andavam em segredo, nas mãos do senhor Arcebispo. Logo comprehendeu tudo e na manhã seguinte, depois de andar duas noites a cavallo, chegou á Maceira, onde entrou tanto a occultas, que só os irmãos e o pae d'isto tiveram conhecimento, pois elle tomara a precaução de despedir o arreeiro com a cavalgadura fora do logar, que atravessou a pé, não seguindo veredas nem caminhos, mas atravessando campos e saltando muros. O que logo ficou assente entre todos foi que Maria não casaria com D. Bento d'Osma, ainda que fosse necessario matarem e morrerem.A pobre menina, vigiada e guardada, como se sentia, não pôde, durante esses dias crueis, mandar nenhum enviado ao Corcovado. Vivia em grande amargura e afflicção por suspeitar coisas tenebrosas do que em volta d'ella se tramava. O seu amor e a exaltação do seu espirito eram tamanhos, que pensou em suicidar-se, antes que ceder a quaesquer conselhos ou pressão de pae e irmãos, para preferir outro homem a João. Porém era alma juvenil e crente, não podia comprehender que a Providencia divina, e Maria Santissima, de quem sempre fôra tão devota, podessem concordar em tal iniquidade. Ora não querendo Deus e não o consentindo a Virgem, nada podiam os homens—pensava ella.Os papeis chegaram de Braga ao mesmo tempo que vestidos e enfeites para o dia solemne dasbodas, que podiam realisar-se d'um para o outro momento. D'isto foi avisado D. Bento d'Osma, por uma carta, emquanto Maria era chamada á presença de seu pae e irmãos, que sisudos e graves como juizes a sentencear, lhe disseram a resolução em que tinham assente. O pae rematou o longo arrazoado dizendo:—De modo que tu vaes ser senhora d'uma das maiores casas da provincia e mulher d'um dos maiores fidalgos conhecidos.—Mas se eu não gosto d'elle, que é um velho e antes quero João da Cunha, apezar de pobre!...—Tolices dos desoito annos—commentou sarcasticamente o velho. Com esse não te dava eu consentimento, nem com um bacamarte cheio de zagalotes assente no meu peito.—Pois com outro não caso—disse resoluta e sem lagrimas.—Isso veremos—disse Manoel, o mais velho dos irmãos. Ainda que tenhamos de te levar para a egreja atada de pés e mãos, has de ir.—Não será preciso...—acrescentou o Thomaz, pronunciando as palavras com ironia feroz. Irá muito bem a cavallo e nós veremos.—Carrascos!—pronunciou Maria, cahindo redondamente no chão, rigida como um cadaver.A este tempo os da Maceira já estavam conhecedores do resolvido matrimonio de Maria com D. Bento d'Osma. Essa informação trouxera-a de Braga o proprio namorado. Mostravam-se, porém, naturaes no trato e despreoccupados do que se passava; mas entre si assentaram o raptar Maria antes do casamento, no proprio acto nupcial, ou até dos braços de D. Bento, se não pudesse ser d'outro modo. Quem os conhecesse bem, sabia que tentariam o supremo golpe, atravez de difficuldades, que outros pudessem julgar invenciveis. Entregar Maria intacta ao irmão era o supremo desejo de Gonçalo, Antonio e Thomé. Porém, vencer, á valentona, todos os obstaculos que os do Corcovado teriam accumulado em volta da desejada rapariga, para que não fosse tocada por mãos impuras, é que não poderiam... Necessario era, pois, servirem se do engenho, primeiro que da força; e tiveram artes de fazer chegar ás mãos da fraca creatura, as palavras animadoras d'uma carta que João lhe escreveu, em que explicava o proposito em que estava. Esse papel foi levado á casa do Corcovado por um pedinte de classica barba longa, curvado e de voz lamentosa quando pedia. Abeirou-se da porta da cosinha, e como fosse desconhecido e significasse vir de longe (talvez de romagem a S. Thiago de Compostella, pois traziaconchas cosidas nos andrajos) as creadas interessaram-se por elle e attenderam-n'o. Vinha esfomeado e friorento; pedia o caldo da esmola e o agasalho do palheiro; como soubesse contar historias e ler a signa, entreteve os creados e ficou por ali coisa de tres dias. Os proprios irmãos de Maria gostaram do pobre e escutaram-lhe os casos; o velho José Pereira, ouvindo-lhe dizer que fôra soldado no tempo dos francezes, que acompanhara o general inglez pela Hespanha dentro, conversou com elle e mandou dar-lhe uma tigella de vinho. Maria, a quem o misero, lendo nas linhas da mão aberta predestinou alegre e risonho futuro, sorriu-lhe no meio das suas amarguras. Foi n'este acto que o pedinte lhe introduziu na manga do vestido a carta de João da Cunha, o que tanto alvoroçou a pobre menina, que só por um milagre de energia não cahiu com um desmaio. Assim ficou ella instruida do plano concertado pelo seu namorado.IIIIa a cavalgada pelo tortuoso caminho que do Corcovado segue para a egreja, onde a festa nupcial de Maria com D. Bento d'Osma se ia realisar. Apesar das lumieiras (que só adeante, junto da noiva, faziam grande illuminação) aquelle acompanhamento de tão longa enfiada de gente de cavallo, atravez da noite escura, semelhava uma forte corrente de ferro de muitos e grossos elos, obrigada a repetidas curvas n'um subterraneo; ou, então, qualquer monstro de cobra-crotal curveteando em numerosos accidentes de terreno, para escapar a um perigo que receasse, ou attingir a presa que lhe fugisse. Os que cercavam a noiva tinham entre si poucas falas, como se fôra avançada de numerosas forças quetemessem qualquer cilada. Intrigava-os o aspecto sereno e a alma resignada de Maria, que sabiam coagida para aquelle acto. Jactanciosos, como eram os do Corcovado, passou-lhes pela mente que o animo da irmã se tivesse submettido á dura necessidade, logo que reconhecera o inane de qualquer resistencia. Essa mudança no espirito da namorada poderia ter desenganado os da Maceira, não sendo até impossivel que realmente João estivesse já além dos mares. Maria apenas mostrara furtivas lagrimas ao paramentar-se para a festa com o seu ultimo vestido de virgem, e antes de sahir de casa esteve no oratorio resando ferverosamente a Nossa Senhora dos Desamparados, de quem era devota. Conservara-se bastante tempo estranha, absorvida, quasi extatica, com os olhos sofregos na imagem querida, talvez pedindo-lhe fortaleza ou confessando-lhe os ultimos peccados de pensamento. Tudo parecia natural e simples e indicava que estivesse resignada. Porem, seus irmãos, por um resto de precaução, aperceberam-se para o caminho até á egreja, pois era longo, máu e iam de noite; ainda que este estado d'alma lhes parecesse logico, pois sabiam o espirito de piedade religiosa, com que sua santa mãe fallecida, a tinha educado. Em tão supremo lance da vida d'uma rapariga de desoito annos, era natural profunda commoção, pelo quanto apresentaria de desconhecido e nevoento o novo dia que se lhe ia abrir na existencia. O seu silencio era o fructo detodos os sentimentos desencontrados, que lhe moravam no peito, o fructo da curta e variada historia da sua vida, com um amor precoce e violento, que vira desfolhado no cumprimento do sagrado dever da obediencia ao pae, severo mas bom. Assim o presumiam todos; por isso a desconfiança não era absoluta e os meios de defesa eram incompletos.Scintillavam as estrellas no firmamento, n'essa immensa aboboda negra como o veludo, em que grandes e bellos diamantes estivessem collados desde infinitos tempos, e tremelusissem por um movimento ondulatorio do proprio céu. Fendiam as lumieiras, com alegres chammas, a sombra compacta da noite. O estrepito da cavalgada, perturbava o silencio, tal um caminhar de tropas. As sombras iam a grandes passos parecendo espectros. A amplitude da treva absorvente tornava mesquinha a existencia do homem. Os que se dirigiam na tortuosa estrada sentiam-se oprimidos no peito, mas a vista alegrou-se-lhes quando, vencida uma corcunda de caminho, descobriram a egreja rural, lá no fundo, com as vidraças a jorrarem luz, como se fôra noite faustosa de romaria. Quadro ao mesmo tempo phantastico e jubiloso, este apparecimento subito do modesto templo, assim illuminado, surgindo do infinito ventre da escuridade infinita. Era como um facho espetado n'uma grande caldeira de breu. Em todos os corações houve sobresalto de gozo, até mesmo no de Maria. D. Bentod'Osma descobrira o sacrario da sua felicidade; o velho do Corcovado o remate das suas aspirações de grandeza; seus filhos, julgaram afastados os receios de mau encontro dos da Maceira, que mesmo que fossem vencidos lhe aguariam o prazer da festa. E Maria o que descobrira para sorrir?...—Alguma esperança?... era aquelle luzeiro, alegria na tristeza das suas amarguras?...De todos os corações se levantara um peso; amplificara-se o sentir e o desejo de cada um; etherisara-se-lhes a imaginação em hymnos triumphaes. Os formosos olhos de Maria sorriram á profunda escuridade, talvez por á sua mente ter chegado em recordação, qualquer promessa do seu amado. Desciam para o valle onde brilhava a egreja, lentamente, no meio do fogo das lumieiras. Ao chegarem á borda do adro, o leve corpo da noiva, para ser tirado de cima da mula, ricamente ajaesada á hespanhola com teliz de veludo encarnado lampejando oiros, cahiu nos braços de Manoel, seu irmão mais velho. Repicaram faustosamente os sinos n'este instante, annunciando o momentoso acontecimento, ás estrellas que luziam, aos montes silenciosos, aos animaes bravios escondidos nas suas tocas. As aves occultas na espessura das mattas e no interior dos silvedos, quando ao romper da manhã viessem gorgear as suas impressões, decerto relatariam o acontecimento singular que lhes fizera abrir os olhos para a egreja illuminada, e os ouvidos para o jocundo repicar dos sinos. Que necessidadede perturbar a escuridão infinita e solemne, o silencio augusto e magestoso com signaes de festa humana?—perguntariam ao recomeçarem os seus amores, ebrios de rosea alvorada.Pela porta do templo, amplamente aberta, entraram os convidados. No interior, grande perfusão de lumes em todos os altares, para se celebrar a sumptuosa festa. Sorriam os santos, o rosto da Virgem era expressivo e carinhoso, os anjos, os seraphins e cherubins, que nas columnas do altar mór se suspendiam entre nuvens, brincavam alegremente.A luz espancara a tetrica escuridade; o cheiro do incenso e da cera do qual as paredes estavam impregnadas espiritualisara-se com o calor das velas. Os numerosos convidados sentiam-se satisfeitos e communicativos, tinham abundancia de palavras para encher a conversação. A modesta egreja rural, mais uma vez era perturbada na sua tranquillidade: assim cheia de movimento e sussurro de festa, deixava de escutar a musica do ribeiro, agora crescido d'aguas, e de ligar o seu viver obscuro ao das arvores amigas que lhe cresciam em volta, enfolhando-se todos os annos na primavera para a festejar...Maria subiu o corpo do templo, até ao altar mór, ao lado de seu pae, um velho robusto, de barba em volta da cara sadia, altos collarinhos em camisa de bofes, a casaca das suas bodas (quarenta annos antes) tapando-lhe a nuca com a alta golla. Ao passarem frente da imagem de Nossa Senhora, da qual era solicita devota, ajoelhou orando com fervor, o que fez com que muitos assistentes entrassem em piedoso recolhimento espiritual, imitando-a na mystica submissão. Pediria coragem para o difficil transe?... confessar-se-hia humilde peccadora por ter tido idéa de resistencia á vontade de seu pae?!... No alto da egreja, onde de novo se curvou reverente para fazer as suas supplicas ao Altissimo, cercavam-na as senhoras mais gradas da visinhança, amigas e parentas, as de Refuinho, da Torre Velha, do Ramisco... que todas como ella resavam com recolhimento e fervor. Davam assim tempo a que o padre Pitança se revestisse na sacristia acompanhado d'outros padres. O cura Clemente Carvalhosa, já velho, alquebrado e doente, não podia vir a estas festas de noite, por causa do seu rheumatismo: substituia-o o corpolento Pitança. Quando este reappareceu juncto do arco cruzeiro, coberto com a longa capa d'asperges, a batina occulta sob a alva de celebrante, a estola cahindo-lhe serenamente sobre o amplo peito de caçador e occulta pelo solemne pluvial, o grande vulto do sacerdote assim paramentado, tinha a magestade do d'um bispo da edade-média, guerreiro, soberbo e forte. Um absoluto silencio se estabeleceu rapidamente, em respeito ao acto momentoso que se ia celebrar. D. Bento d'Osma, radiante dentro d'uma farda de fidalgo em que se não encontrava muito á vontade, sorria d'um modo incaracteristico, trabalhado interiormentepor grande confusão de idéas e sentimentos. Maria estava pallida, mas o seu rosto mostrava serenidade e o seu olhar firmeza. Quando os nubentes davam o primeiro passo para o celebrante, no meio do silencio de tanta gente, attenta e commovida, no meio da gloria de luzes que transformavam o ambito da modesta egreja n'um templo de apotheose... é que um avejão, phantasma ou demonio, ou muitos demonios juntos se lembraram de lançar pela egreja fóra os seus gritos lamentosos, terriveis, amedrontadores, e tão lamentosos, terriveis e amedrontadores, que rebentaram simultaneamente no tecto e nas campas, por traz do altar mór e no côro! Não eram vozes com semelhança de humanas, era um como fremito horrendo que se sentisse ao mesmo tempo no céu e no cimo da terra, que surgisse da profundeza dos abysmos infernaes e tivesse a mesma natureza e raiva das imprecações dos condemnados. Todos ficaram transidos de mêdo, e se sentiram faltos do sentimento da realidade: deante dos olhos desvairados dos assistentes, assim colhidos de surpreza, e n'este primeiro momento, parecera-lhes que os mortos haviam rompido o lagedo das sepulturas ao clangor da trombeta final, ou que eram os santos que desciam espavoridos dos altares para recolherem ao logar seguro da celeste morada. Viam o tecto do templo vergar sob o peso da vontade divina, que procuraria assim castigar algum grande peccado, ou impedir tremenda iniquidade. A confusão de todos os cerebrosfoi completa quando no pulpito, no côro, e no recanto da pia baptismal appareceram tres grandes fogueiras com fumo de polvora e reboar de estoiros, como n'um incendio de magica. Da primeira perturbação logo se passou ao terror fundado na evidencia de um fogo no sanctuario. As vozes em grita, supplicantes e desvairadas, junctavam-se ás das aventesmas e ao rebate dos sinos. A maioria procurou fugir pela porta principal que estava aberta de par em par; os mais serenos, os que poderiam formular raciocinio no meio d'esta grande confusão foram levados na onda. Os rapazes do Corcovado, paraliticos na vontade, tiveram um vislumbre da possibilidade d'um acto de vingança dos da Maceira, mas não se poderam concertar para a defeza. Muitas senhoras fugiram para a sacristia, e no meio d'ellas foi Maria. A sacristia estava ás escuras e a porta para o adro viam-n'a aberta... Por ali entrara um vulto humano que rapidamente tomou nos braços a noiva, decerto para a salvar do pavoroso castigo que a todos ameaçava. O seu corpo gentil, dentro do vestido de casamento, a cabeça enfeitada de flores, os olhos bellos que tantas lagrimas amargas tinham chorado, o peito ancioso que em silencio suspirara sentidas endeixas d'amor... tudo levou esse salvador providencial e ambos se sumiram no negrume d'essa noite fria de Março. Festejavam-na do céu as estrellas, acompanhava-a o murmurio das fontes, cantava-lhe aos ouvidos a ligeira brisa, e a escuridadeamiga e silenciosa encobria estes amores deleitosos. João da Cunha, celere como um gamo, saltou primeiro o muro do adro levando comsigo a penna leve do corpo da sua amada, atravessou veloz um campo, saltou outro muro e no caminho d'além, atirou Maria para sobre uma egua valente, montando depois n'um cavallo fiel. E como se isto fôra um vôo de lendas scandinavas, lá foram os dois vencendo encostas, galgando ribeiros, entranhando-se de cada vez mais no seio protector e cumplice da noite calada e escura. Escutavam de vez em quando para ver se outro tropel de cavallos os seguiria; mas João confiava sereno na promessa de seus irmãos, que lhe haviam offerecido as vidas para o livrar de perseguidores.IVA perturbação de todos os que assistiam á ceremonia matrimonial foi maior do que podiam esperar os inventores do estratagema. Alarmados pelo subitaneo alarido de vozes de duendes, almas-penadas, diabos ou o que quer que era, em furia e delirio; accrescentado o primeiro barulho com o reboliço que se sentira no telhado da egreja, que parecia derruir-se; levado ao auge o desconcerto com o rapido apparecimento da chama azulada do incendio, com o cheiro da polvora e estrondo de bombas, acompanhados do toque desesperado de sinos a rebate... produziu-se em todos os cerebros um movimento de terror e assombro facil de comprehender. O povo casual e os creados das lumieiras, que tinham deixado as cavalgaduras no caminho para assistirem á festa, foramos primeiros a fugir e encontraram-se desvairados no adro, cegos no meio da escuridade pelo brilho que nos olhos traziam da farta illuminação das tochas. A sua grita e clamor acabou de apavorar os proprios animaes, que, n'um tropel desvairado, correram pelos caminhos e atravez dos campos, como fugidos d'uma casa em chamas. Os convidados, apesar de numerosos, não eram bastantes para acudir ás supplicas das senhoras, presas d'um extraordinario medo e algumas desmaiadas. Os minutos que durou a intensidade do perigo, pareceram annos de castigo e tormentos, a todos que se encontraram no meio do horrivel drama. Os homens mais resolutos, serenos, e affeitos a perigos julgaram que este era o seu ultimo instante de vida terrena e já sob os proprios pés sentiam abrirem-se-lhes escancaradas as verdadeiras gargantas do inferno. Ãs vozes rogativas das senhoras, acudiram alguns: o padre Pitança, caçador e temerario, encontrou-se entre ellas de capa d'asperges, falando alto, dizendo palavras incoherentes, mas que davam sentimento de realidade; os do Corcovado correram em busca de Maria... D. Bento d'Osma, esse cahira de joelhos no sitio em que estava na capella mór—tinha as mãos erguidas, os olhos espantados, no semblante o esgar dos epilepticos, e murmurava palavras de prece batendo os dentes. Estava inerte, não procurava evitar a condemnação que o abatera, não pensava em resistir á divina vontade, que o punia sem misericordia.Porém os do Corcovado procurando sua irmã gritavam por ella na egreja, no adro, na sacristia... por toda a parte. Não a encontrando vieram á fala para cerzirem as suas idéas, e facil lhes foi concordarem no que poderia ter sido aquella emboscada. Sentiram-se realmente apavorados e grotescos.—Nada! é lá possivel!—ainda teimou o mais velho—procuremol-a melhor, que estará por ahi cahida sem sentidos...Procuraram com vellas e tochas acesas, que arrancaram dos proprios altares, e de momento a momento a suspeita d'uma cilada dos da Maceira tomava maior vulto e lhes enchia o espirito d'uma colera crescente. A elles se juntaram o velho pae e o D. Bento d'Osma, que os creados haviam arrancado á sua paralisia, e todos chamavam por Maria e pronunciavam o seu doce nome, com ancia e carinho, atirando-o para o ventre mysterioso d'aquella negra e hostil noite de Março. Nem acordada, nem desmaiada, nem viva, nem morta a encontravam, por mais que empregassem vozes supplices ou de desespero. Agruparam-se com os parentes e o noivo de Maria, os convidados e os proprios creados. Assim todos reunidos, de tochas na mão, em volta da modesta egreja rural semelhavam multidão imprecativa de povo e não gente na ancia d'um interesse terreno. A noiva não respondera, nem ás primeiras vozes carinhosas do pae e do noivo, nem ás palavras já cheias de ira de seus irmãos. Na egreja, na sachristia, no adro não a descobriam...logo, Maria, ou voava para celesteaes alturas com as suas azas de pomba virgem, ou fugira nos braços do seu amado, o João da Cunha da Maceira.—Com dez mil demonios, que sou capaz de trincar o coração a esse malvado, como Pedro, o Crú, fez aos carrascos de sua mulher—rugiu o velho do Corcovado, com a face incendiada em desespero.—Rapazes!—berrou D. Bento d'Osma á multidão dos seus creados—mil cruzados novos aquelle que os pilhar.E os irmãos de Maria, concertados em identico pensamento de vindicta e com a imagem sarcastica e victoriosa dos da Maceira deante dos olhos, clamaram:—Os nossos cavallos depressa que não os deixaremos descançar, nem nas profundezas do inferno!Não era muito facil encontrar os cavallos, pois quasi todos tinham fugido espavoridos. Como se poderia ir ter com elles atravez da vaga escuridão da noite, por caminhos e veredas incertas? Correram os creados, que os conheciam e a cujo chamamento e vozes os animaes estavam habituados. Partiram do adro, cada um com a sua lumieira erguida como um tropheu, chamando e assobiando, em direcções diversas. Que coisa esta de homens com vozes bradantes, armados de fogachos furando a espessa treva, a saltarem muros, e a correr peloscampos, estradas e atalhos! Seria ás arvores hirtas e silenciosas, ás estrellas sorridentes e alegres, aos espaços mudos e infinitos que elles supplicavam? Lá iam com assobios e palavras semeando a negrura torva. Ao fim d'algum tempo alguns voltaram com os animaes que buscavam e lhes haviam obedecido, reconhecendo-lhes o imperio a que estavam sujeitos. Já se tinha passado talvez mais de uma hora, quando os parceaes de D. Bento e os rapazes do Corcovado poderam montar os seus fieis cavallos, para irem no alcance dos fugitivos—duração infinita para os apaixonados corações se distancearem no goso d'uma felicidade tão rudemente conquistada.Mas para que lado correriam os perseguidores, se os terrenos eram tão vastos, as montanhas tão silvestres e asperas? Como nortear a marcha em noite escura de breu, por veredas multiplas e perigosas? Reuniram conselho para deliberar.—Para a Maceira?—lembraram os rapazes do Corcovado.—Não seriam tão asnos que em tal ratoeira cahissem—observou o prudente José Pereira.—Para o Cerdal, pois são amigos de Cesario.—opinou uma voz.—Meu primo não me faria o aggravo de lá os receber—inteirou D. Bento d'Osma.—Sigam para os montes—ordenou o padre José Pitança, de estola sobre o amplo peito, mas já sem pluvial, que largara para se desembaraçarem qualquer lucta de braço a braço, se necessidade houvesse de a sustentar.—E se elle a fosse depositar respeitosamente e intacta no Ramisco, para depois seguir o processo judicial!?—aventou com a sua voz meliflua o desembargador João Xavier.Esta lembrança esdruxula, deixou perplexos e irritadas todas as vontades e corações que desejavam uma acção violenta e immediata de assignalada desforra. O sangue dos do Corcovado borbulhava em fremente cachoeira e Thomaz, que era dos quatro o de animo mais ardente e vingativo, disse:—Qual asneira! Vamos lá para cima que até me parece que já os estou sentindo correr adeante.E esporeou energicamente o seu cavallo, que lhe respondeu com um salto, vencendo á desfillada a ladeira, onde as ferraduras feriam lume nas lages. Manoel o mais velho ainda teve tempo para ordenar, gritando:—Cada um pelo seu caminho e por edades. Eu á direita.Abalaram encosta acima, acicatando com violencia os animaes. Alguns dos amigos e convidados de D. Bento d'Osma seguiram-nos animados d'um generoso espirito de desforra. No pavor da noite, este galope de combate, amplificou-se primeiro, foi esmorecendo gradualmente, restando por fim nos ouvidos dos que tinham ficado, uma ressonancia como de sons repercutidos no fundod'um poço. O padre José Pitança, de alva e estola, no meio do adro, estendeu com vigor os braços, increpando no vago com os punhos apontados ao céu:—Grandissimo patife! Que o esborrachava...—Uma costa d'Africa é que precisa—ameaçou o velho José Pereira.—Uma costa d'Africa!—rugiu D. Bento d'Osma. Uma forca! mil forcas é que merecia.Porem quasi todos entenderam que deviam ir para o Corcovado, onde estava a mesa preparada para o começo do festim da boda. Ali aguardariam os acontecimentos. Muitos porfiavam em acreditar que os fugitivos seriam alcançados. Porem a maioria das senhoras, cujos nervos tinham sido desorientados com a commoção causada por tão estranho, quanto inesperado, successo, preferiram as suas proprias casas, onde melhor se aquietariam com rezas e com descanço ao seu conchego habitual.VNoite escura e triste; noite, cheia de negruras no céu e no coração! Pouco depois de João da Cunha e Maria partirem a gallope para o seu louco destino, entraram com elles pavorosos receios, tremendo um por causa do outro. Durante muito tempo os acompanhou o alarme de vozes em grita, que se produzira na egreja e no adro, e que se fôra estendendo pela aldeia, tal onda de revolta popular. Como fossem subindo a céu amplo sobre o valle, onde a agitação se alastrava, ouviram, até muito longe, esse rumor sinistro, perseguidor e amaldiçoante; mas depois que venceram o primeiro cabeço de monte, era antes um sussurro de mar a bater em rochas escarpadas, isso que lhes chegavaaos ouvidos. Mais além, só conheciam a impressão arquejante que lhes ficara vibrando no cerebro perturbado. De vez em quando sonhavam tropel de cavallos que lhes viessem no encalce e paravam attonitos com o ouvido á escuta; conhecido o erro continuavam animados pela doce esperança de viverem no seu amor absoluto, reciproco e vehemente. Maria, apesar de animosa e a tudo resolvida, não deixava de temer a vindicta de seus irmãos, e no escuro da noite mysteriosa murmurou como n'uma prece: «Deus nos proteja! Se nos apanham está tudo acabado!» Ao que o intrepido amante oppoz, com voz decisiva: «Nada receies. O meu corpo será mais difficil de trespassar, que um duro penedo!» Continuavam a rasgar a treva densa, por caminhos perigosos e pouco calcados de gente. João conhecia todos aquelles montes como os campos da sua aldeia; palmilhara-os, durante annos, acompanhado do seu perdigueiro, em todos os carreiros e veredas. Cego que elle se houvera tornado, determinaria a posição dos ribeiros e rochedos e as nodoas das bouças. Por tanto, para se dirigir na selva escura d'esta noite espessa, bastava-lhe o sorrir das estrellas do céu e a ditosa ventura de ter a seu lado aquella a quem amava. Eram favoraveis as circumstancias para não serem encontrados e para chegarem ao ponto ditoso, onde descançariam longe da furia e perversidade humana. Trazia esse quadro na menina dos olhos; era uma casinha alpestre, armada entre fragoas.Porém, como estivesse ainda muito distante e os montes fossem largos, só quando se annunciasse a luz solar poderia definitivamente nortear-se, para chegar em direitura, ao paraiso onde podiam florir os seus amores. Por agora só pensava em distanciar-se de onde estavam os seus temiveis inimigos; queria apenas retirar-se do perigo, livrar a sua felicidade da furia dos irmãos de Maria, que seria cruenta se se viessem a encontrar, n'essa noite, face a face. Armara-se para chegar a todos os extremos d'um combate sanguinoso: preso no arção trazeiro levava duas clavinas carregadas com zagalotes, nos coldres duas magnificas pistolas de cavallaria com balas, no bolso interior um acerado punhal de lamina triangular. Preparara-se para uma rude empresa de morte e amor, venderia muito cara a vida e a fortuna de viver. Mas distancear a hypothese horrenda e desgraçada d'um encontro funesto com qualquer dos que o perseguiriam, era o seu anhelo, o seu unico desejo. Por isso procurava com ancia ganhar distancias, mettia por atalhos perigosos, evitava quanto podia a proximidade de casas e povoados, onde se podesse dar indicio da sua passagem. Nem sempre o pudéra conseguir e n'um logar que atravessaram, o ruido dos cavallos devia ter sido percebido por um grupo de mulheres, que enfornavam a broa da semana. Cresceram os pavores e receios que enegreciam a imaginação de Maria; porém João aquietou-a dizendo-lhe que, aquelle caminho era forçado para muitoslogares distantes, uns dos outros. Continuaram silenciosos e cheios d'esperança na negrura cumplice da noite, porém o sussurro dos ribeiros que iam grossos d'aguas, o acordar repentino d'algum animal bravio que fugisse por entre carrascos e tojos, a propria voz do vento que passava nos codeçaes e bouças se transformavam na mente de Maria em signaes de gente amotinada que os perseguia, em prenuncios de embuscadas que seus crueis irmãos tivessem armado contra o seu unico, verdadeiro e sentido amor. A aldeia ficava-lhes de cada vez mais distante, lá em baixo, em fundo valle. Demonstrava-o o passo mais lento das cavalgaduras que era já de fadiga. Tambem agora tinham de caminhar com maior prudencia, pois João confessava-se no limite dos montes seus conhecidos e familiares. Podiam esbarrar com algum ribeiro que os obrigasse a retroceder, por isso procurava sempre os pontos mais altos, onde essa contraria probabilidade diminuia. Ãs montanhas succediam outras montanhas, sempre n'um levantamento gigante que parecia ter limite no céu, onde talvez fossem cravar seus dentes de penedias asperas. Só as estrellas os acompanhavam com riso carinhoso e só estas é que davam a luz tenue, que lhes deixava distinguir os asperos carreiros, brancos sobre a terra negra. O ar tambem era mais leve e mais cortante, a modo que a sombra da noite se ia adelgaçando. Ao nascente, para onde levavam voltados os rostos, já viam com antecedencia a promettedora chegadado sol, essa alegria sumptuosa do mundo!... Eram menos inquietas e vibrateis as pestanas argenteas dos astros, que se sentiam cançados da continuada vigilancia durante a longa noite. Visto não terem podido combater victoriosamente a treva densa, deixavam essa encantadora tarefa ao seu glorioso avô, que traria a brilhante poeira de oiro fino, para enfeitar as cristas das montanhas, enchendo de luz a profundeza dos valles e os recessos das penedias. Maria anciosa por encontrar o limite no seu caminhar perguntou:—Estamos ainda muito longe?—Andaremos, com dia, talvez uma hora.—E a gente que nos encontrar?...—Só pastores e ovelhas poderemos encontrar.—Santo Deus! Esses pastores não nos denunciarão?—Os teus irmãos não nos fazem, decerto, para este lado, e daremos informações erradas a quem falarmos.—Em todo o caso fujamos sempre...—rematou inquieta.Seguiam, já n'uma penumbra fofa, o carreiro aberto, ao longo da espinha d'um monte amplo, pelos pés senhoris das ovelhas e cabras que ali passavam diariamente. Um bufo, que levantou o seu vôo pesado, de entre um massiço de penedos, gerou subito alarme no peito de Maria, denunciado n'um grito de susto, que o seu amado acalmou com a explicação prompta do facto. Aluz do sol, ainda distante, provocava este e ainda outros signaes de renascimento da vida terrestre. Já a massa espessa das montanhas se definia em formas comprehensiveis á vista: agigantavam-se os penedos com aspecto de homens associados em conversa; as arvores, dispersas nos terrenos aridos, recortavam-se no céu que se ia acinzentando; as aguas da chuva que se tinham accumulado em covas naturaes, eram espelhentas. Com taes prenuncios de dia entrava nos corações amantes, a fé e a esperança na felicidade do amor. Tão de breu fôra essa noite, que só agora sentiam a posse completa das proprias individualidades, até então amalgamadas com a espessura da treva.A proxima chegada do sol aclarando o firmamento, que parecia de vidro fosco, apagava gradualmente todos os luzeiros pendurados pelo ar. Formara-se um nimbo lacteo sobre o horisonte. Pipillavam as timidas calhandras erguendo-se do seu leito, entre carquejas, com as pennas irriçadas pelo frio, o que lhes avultava o tamanho. Das bouças já sahiam gaios, grasnando como patos selvagens; levantavam-se melros cortando o crepusculo com o seu vôo rectilineo e silvo agudo; surgiam pêgas a palrar como velhas dementes. Era a gloria da luz e da vida que renascia e animava a solemne mudez das montanhas crespas. Um ligeiro sorrir dos labios de Maria denunciou que o coração se lhe descomprimia, que a sua alma ingenua e pura, aceitavade boamente os perigos do dia, em troca da escuridade protectora da noite. Não assim João da Cunha, receioso dos males que podiam agora nascer. Se os do Corcovado houvessem acertado na perseguição, se os visse apparecer na volta d'um monte ou do meio d'um matagal, seria tamanha a desgraça, que só a morte a podia definir. Correria o seu sangue e o sangue dos de Maria. Todo o que se vertesse havia de ser em desproveito da sua ventura, que não mais poderia brotar. Mas com um movimento energico de cabeça afastou para longe ideias tetricas; de novo no amplo e corajoso peito entrou a esperança risonha e cariciosa. As montanhas eram largas, os caminhos muitos e intrincados, só um grande infortunio o levaria ao encontro dos seus algozes. Consumidos os dias de gozo, doces como o mel, que viessem as perseguições e os flagellos crueis, pois o encontrariam resoluto e altivo, como era natural do seu animo levantado e temerario.Subiam, subiam ainda na encosta d'um monte, que tinha outros mais altos para os lados do céu. Os já andados escorriam lá para o fundo, em successão de valles, n'um dos quaes assentava a risonha aldeia d'onde haviam partido. Ao vencerem um alto cabeço deram de frente com o olho redondo do sol, que os fitava impavido e dominador.—Ainda é muito longe?—perguntou Maria.—Mais uma legua para andar.Desciam na vertente d'além: n'esse alvorecerencontraram a primeira pastagem de boa relva, mosqueada de malmequeres, goivos e junquilhos nascidos no sopé d'uma penedia d'onde brotava agua, e o primeiro rebanho guardado por um pequeno pastor. Era um rapaz franzino e sujo: ao ver aquella formosa senhora, vestida de claro e com flores na cabeça como qualquer santa, acompanhada por tão garboso cavalleiro, logo se levantou da lage onde estava sentado, conservando-se com o grosso barrete na mão, até que elles chegassem.—Bom dia rapaz—saudou João da Cunha.—Bô dia—respondeu em voz rouquenha. Agora não ha romaria: eh! voncês p'ra onde vão?—Levar uma promessa á Senhora Apparecida—respondeu João.—Tão linda como a Senhora Apparecida é essa senhora. É sua?—É minha, é Joaquim. Chamas-te Joaquim?—Não senhor, sou Zé.—Pois toma lá este dinheiro e dá-o á tua mãe para te mercar uma camisa. Se por aqui vierem uns senhores a cavallo diz-lhes que não viste passar ninguem.—Se voncê quer, digo. Hei de rezar por vós, que não ides bem p'ra Senhora Apparecida, mas p'ro Senhor Bô-Home.—É que vamos primeiro ao Senhor Bom-Homem e depois á Senhora Apparecida—explicou.—Antão, havendes de tornar para traz.—Pois tornamos.—Isso é falar. Deus os acompanhe.Ficaram receiosos d'este encontro, como já o vinham das mulheres que enfornavam o pão. O convivio humano era-lhes n'este momento antipathico. Da intelligencia alheia, só perigos lhes poderiam advir. Maria levava o rosto palido e fatigado; desejava chegar breve ao ponto da terra, onde pudesse repousar e esconder-se. O seu amado comprehendeu-lhe este secreto pensamento tão legitimo e natural. Chegados a um sitio d'onde se lhes desdobrava aos olhos um largo ondeado de montanhas, João apontou a brancura d'uma ermida, que se destacava sobre a mancha negra d'uma matta e disse:—Acolá, vês?—É uma capella!—Para além da capella está a casa.—Quanto tempo?—Pouco tempo.Metteram por uma esplanada coberta de penedias em cujas anfractuosidades podiam esconder a sua marcha. A luz do sol já enchia os montes e até os valles cobertos pelo nevoeiro matinal. O ar rescendia a aromas, que se levantavam da terra, das flores e hervas alpestres. Passavam no céu, azul palido, aves de grande corpulencia, abutres e aguias, que pousavam nos pincaros mais levantados. Os negros corvos crocitavam perto, subindo do chão para os penhascos. Apparecia aqui umcoelho que rebolava pela terra arenosa; rompia adeante um par de perdizes, já acasaladas no começo d'amores; erguia-se uma lebre, veloz na carreira, corveteando de orelha guicha. Maria, certa do limite da sua jornada, mostrava rosto mais desanuveado; todo o seu desejo e ambição era, n'este momento, esconder-se como timida corsa no denso matagal, que fazia mysteriosa negrura, juncto da alva capella que João lhe apontara. Não tardou muito que aportassem ao carinhoso abrigo. Bem mereciam este repouso, depois de tão longas horas atormentadas pelo esforço corporeo e pelas preocupações do espirito. As horas, muitas ou poucas, que ali permanecessem, ignorados e tranquillos, enchel-os-hiam de amor ardente, para entorpecerem a sensibilidade, emquanto não vinha o desenlace da arrojada aventura.—Ninguem nos supporá aqui, meu amor—suspirou João ao saltar do seu cavallo.—E de quem é esta casa?—perguntou Maria ao cahir-lhe nos braços, para descer da egua.—D'um amigo de longe, que só vem aqui, de anno a anno, fazer as suas caçadas.Depois de recolher as cavalgaduras, entraram na modesta cabana, coberta de colmo. Logo fecharam a porta sobre os seus corpos cançados. João ao apertar Maria nos braços nervosos exclamou desvairado.—Até que emfim! Podem agora vir todos os tormentos da terra!...VIDia venturoso, primeiro dia d'amor, em casa modesta e simples, cercados do silencio dos ermos, bafejados pela brisa balsamica e leve, aquecidos pela chama copiosa do bello sol de primavera. Da terra humilde dos montes nasciam flores, abrindo no vasto azul o sorriso, que de noite cubiçara o brilho das estrellas. As aves simples, que a floresta enchiam de seus encantos, ignoravam a apotheose que estavam fazendo d'aquella felicidade. Tudo que havia de rescendente nas duas almas, ditosas e bellas como os lyrios brancos, subia em anhelos para as celestiaes alturas, enchendo os espaços infinitos de sua fragancia.O dedicado amigo de João da Cunha, que lhe cedera este sagrado abrigo, havia-lh'o provisionadode modo que não fosse necessario, logo de entrada, qualquer contacto com gente do povoado. Por isso n'este primeiro dia, nem as janellas descerraram, vivendo os dois na escuridade que mais os unia no seu amor immenso. Os serranos, que por acaso passavam, não presumiriam viv'alma dentro d'aquella casa simples, construida entre penhascos approveitados como tractos de paredes. As duas unicas janellas eram aberturas naturais das fragas: por ali entravam outr'ora as aves de presa, que nos reconcavos faziam seus ninhos. As duas portas collocadas no afastamento mais largo dos penedos aglomerados, davam entrada uma para a cosinha, outra para a casa de jantar e dormitorio. As cavalgaduras arrumavam-se n'uma loja aberta na espessura da terra no ponto inferior do fraguedo. O telhado de colmo era preso, para resistir ás ventanias invernaes, com pedras e paus atravessados. As aberturas desnecessarias tinham sido tapadas grosseiramente com pedra avulsa, sem o esmero de rebouco de argamassa exterior. Esta rustica morada assentava a mais de meia encosta, por cima da afamada matta do Medronhal. As duas janellas abriam para o declive dos montes e via-se, em corrida extensão, a severa e funda garganta, por onde sussurravam as grandes aguas, que vinham de longe, formando o ribeiro da Marnoca, celebre pelas suas trutas. O inverno tinha sido aspero e copioso, o desgelo das neves altas, ainda em principio, engrossava a corrente que n'umfragor de trovão se despenhava de rochedo em rochedo, por entre togeiras virgens, onde não pousaria o pé rustico do pegureiro, se para ali se lhe extraviasse a rez. Havia até sitios perigosos, aos quaes é duvidoso que pudesse chegar, lobo esfomeado em procura de presa. Eram brenhas selvaticas e dantescas onde, só no torrido estio, entrava o sol para calcinar as pedras. O contemplal-a apenas, enchia a alma de pavores e mysterio. Os dois amados, na escuridade da sua cabana e cercados do silencio do ermo, que este aspero ruido tornava mais completo, sentiam-se tão fóra do mundo e dos homens, que os seus corações já palpitavam unisonos e sem receio. Era sua aspiração e desejo, viverem, assim infinitamente, n'esta paz tranquilla de sepultura, formando um ser de dois seres, com um unico sentir e uma só vontade—louca aspiração de juvenil egoismo, de que só pode dar razão a immensa felicidade que fruiam. Eram como essas aves que outr'ora ali tinham formado seus ninhos toscos, na ignorancia de tudo que não fossem montes e estrellas. Independencia absoluta da vida esquecida dos que se persuadem que no amplo universo, nada mais existe do que o amor. Veio-lhes a fadiga e o somno, que mais dilatada lhes tornou a ventura, continuando-a pelo sonho em céus deslumbrantes. Quando acordaram já o sol declinava no horisonte, arrastando a resplendente juba loira pelo cume das montanhas. Abriram então uma das janellas para se despedirem do astro que, fulgurando, deixavao mundo e levava comsigo a alegria da terra.N'uma d'essas toscas aberturas a poente, appareceram amarellecidos pela ultima luz d'esse venturoso dia, as duas cabeças unidas, os dois corpos enlaçados. Demorando-se na contemplação do formoso espectaculo, Maria, tinha ainda o seu vestido de noiva e na cabeça as flores com que lh'a haviam enfeitado. O crepusculo cobriu-a lentamente com o seu veu de gaze fino, como a uma creança que dormisse, sombreando-lhe o rosto com tintas de melancolia.E para orchestrar este quadro de simplicidade antiga e paradisiaca, subia do fundo da garganta escura da floresta o som magnifico e potente das aguas, como um hymno religioso, que se amplificasse solemne nas abobadas d'uma cathedral. Fechava-se assim este primeiro dia enebriante e ditoso: viera a noite alargar o vasio de todas as existencias, afofar com sombras os meandros da vida universal.Accenderam lume, para se aquecerem.Em frente um do outro, sentados em toscos escabellos de carvalho annoso, estavam em silencio, enredando os seus pensamentos. Presas as suas linguas nas circumstancias d'esta existencia anomala e feliz, communicavam-se por meio de sorrisos e beijos. Maria, porém, rompeu o encanto da sua mudez, considerando:—Até quando durará isto?!—Hade durar sempre—affirmou João.—Talvez bem pouco dure...—Teu pae perdoa-nos...—Nunca nos perdoará—disse repassada d'angustia. Não o conheces.—Seremos do mesmo modo felizes.—Porém como!?...João fez um gesto amplo e vago de quem acredita no céu clemente e mysterioso, dentro do qual se conservam em amalgama todas as soluções felizes da existencia humana. Apesar d'isto, continuaram tristes e absorvidos na sua tristeza, deante do lume alegre e crepitante, com chamas que se levantavam e diluiam como as esperanças. É assim toda a ventura: ergue-se com impeto, flameja triumphal, desaparece como a chama, como ella deixando a treva e o frio. Porém estes amores apenas começados estariam, por certo, bem distantes do seu fim: no querido ermo, protegidos pela treva densa, principiava a primeira noite fecunda e bella. Fecunda e bella foi, mas tinha de acabar como o dia. E acabou: já no ambiente se sentia o acordar de existencias chamadas pelo reapparecimento do sol, o qual, os ditosos amantes, tambem de novo vieram saudar.Abriram a porta que dava para nascente, e abraçados como duas estatuas em grupo, appareceram risonhos deante do sol:—Maria com o seu vestido de noiva machucado, as flores da cabeça emmurchecidas; João o rosto mais severo e palido do que ao findar o precedente dia.Rompeu o grande astro por entre penedias: primeiro como uma gema d'ovo, amarella e redonda; depois com a irradiação d'uma enorme fornalha que estivesse no infinito. A todos a luz patentearia a realidade da Terra: a Maria e a João mostrava-lhes a extensão aspera e vaga da montanha, um chão arenoso e safaro, cheio de granitos e pobres plantas, sempre açoitadas de ventanias e chuvas, crestadas pelas neves duradoras, roidas do dente damninho das cabras. Contemplavam essa aridez impressionante e forte das serranias, que educa as vontades para a victoria e para o sacrificio, que prepara o cerebro para extremos de abnegação até á morte. Sentiam essa grave austeridade contrastando com a terna ventura dos seus corações, jovens e amantes, com o sentir mais delicado das suas organisações creadas na tranquilidade e maciesa das veigas floridas, de culturas abundantes que agudam a sensibilidade. O bello sol reunia-lhes os dois corpos n'um feixe de luz, atando-os com os seus raios d'oiro; o seu magnificente beijo matinal sellava a incomparavel ventura d'este amor incomparavel. Tão descuidados e seguros se encontravam em momento tão ditoso, que João não teve duvida em propor á sua amada o sahirem á procura d'um rebanho, que lhes désse leite para o almoço.Foram enlaçados, como dois ramos nascidos do mesmo tronco. Rostos alegres e corações abertos á aventura iam pelo monte além, descendopara sitios onde presumiam pastos. Amplificavam-se-lhes os pulmões para n'elles entrar o ar fresco; dilatavam-se as narinas excitadas pelos aromas da brisa silvestre. Andaram bastante para encontrar o primeiro rebanho: quando voltavam, ao ninho d'amor, com a caneca a transbordar de grosso leite, é que ouviram latidos d'uma matilha, que de longe vinha batendo a serra para o Medronhal. Continuava a subir aparatosamente o sol, no céu tranquillo e mudo, desdobrando pelas corcovas das montanhas, pelo apertado das gargantas, e pelos ferteis valles o seu lençol de luz. Os cães ladravam ainda longe, porém a revoada dos seus ganidos, misturados a tiros de espingarda e a gritos de batedores, subia pela encosta acima, como o fumo d'uma nevoa, que o vento sul levantasse. O rosto de Maria alterou-se, parou com o ouvido á escuta e perguntou:—Que será?—Alguma batida ao bicho bravo. O fogo é lá p'ra baixo—explicou João.—Vamos depressa para casa!...—pediu receiosa.—Pois vamos—concordou abraçando-a pela cintura, para andarem mais depressa.Caminhavam diligentes e celeres, não reparando que se lhes vertia o leite da infusa. Dominava-os apenas a idéa de não serem vistos de viv'alma, de se esconderem na modesta choupana, com portas e janellas fechadas, n'uma escuridade completa. Porém, os seus passos deseguaes e nervosos foramsustidos n'um momento, pela apparição d'uma sombra... d'um phantasma... d'um homem a cavallo, que apparecendo ao norte se dirigia como elles, para o lado da ermida branca.—Olha gente!—exclamou Maria. Se nos vê, santo Deus!...Esconderam-se por traz d'um macisso do urzal virgem, que pegava com o Medronhal. D'ali queriam observar o destino do cavalleiro. O silencio de João, as linhas do seu rosto contrahido e pallido, o peito tão quieto que nem respirava, denunciavam a negrura do seu coração. Comprehendeu o perigo: ainda que aquelle homem fosse um estranho, que os não conhecesse, havia de causar-lhe surpresa o encontral-os n'aquellas rudes paragens, sósinhos, tão jovens, tão namorados e tão dignos um do outro. Levaria a noticia do singular encontro e estariam logo descobertos. Pelo menos seriam obrigados a mudar d'abrigo e a esgotar depressa o primeiro calix da sua ventura.—Talvez passe para deante—ciciou-lhe, quasi ao ouvido, o namorado de Maria.Mas o cavalleiro, caminhando devagar e cautelloso, como avançada na observação de campo inimigo, estava ainda bastante longe para só se distinguir o seu vulto com o chapeu desabado, a espingarda atravessada nos joelhos, o grosso tronco, firme sobre a sella.—Peor é—considerou João—se ha por aqui alguma porta de espera; porque então fica.—O que é uma porta de espera?—perguntou anciosa Maria.—O ponto onde pode romper a caça—esclareceu.Do lado esquerdo surgiu outro cavalleiro com o egual aspecto de descanço, da mesma forma vestido e armado, convergindo tambem para o sitio da ermida. Viam-no mais perto, sem que pudessem ainda definir particularidades. Porém, quando chegou a um altinho, onde o recorte do seu corpo e da cavalgadura se fez com maior precisão e nitidez, Maria deu um grito, que pela intensidade da dôr que exprimia, seria capaz de acordar lastimas nos reconcavos d'aquellas montanhas.—É meu irmão Thomaz!A João da Cunha cahiu-lhe da mão o tarro de leite, que se verteu pela terra. Affirmando-se com acuidade de vista, levou a mão ao punhal que tinha no bolso rugindo:—Pois matto-o.Em casa é que tinha as armas, com que poderia fazer frente aos seus inimigos; mas a casa estava distante, e tinham de subir um pedaço de encosta aspera. Chegariam a tempo se corressem; porém, as pernas de Maria, recusavam-se a andar. Era mortal a pallidez do seu bello rosto, tremula de commoção a sua voz melodica, pavorosa a angustia da sua alma; o seu corpo sem energia, deixava-se desfallecer sobre o chão. João da Cunha, o valente rapaz, principiou a tremer como um vidoeiro,açoitado por ventos furiosos. Maria agarrando-se fortemente ao seu corpo supplicava-lhe:—Esconde-me, esconde-me. Que me não vejam!Subia, magestoso e grave do fundo da matta, o sussurro do ribeiro da Marnoca, cujas grandes aguas se despenhavam, avolumando-se-lhes o som, com as ressonancias da montanha. Essa voz rouca e solemne attrahia os dois corações amantes, que só poderiam encontrar refugio nas covas fundas, onde a corrente uivava e onde o javali se escondia. N'essa tetrica escuridade de noite haveria por ventura, abrigo e defesa contra a furia e colera dos irmãos de Maria?—Vamos, vamos para baixo e se lá ainda nos encontrarem, jura-me que me has de mattar com esse punhal, antes que elles me toquem!—clamava a amada, enleando-se ao tronco do seu amado.VIIConservava-se silencioso João da Cunha, porem tinha o semblante terrivelmente tetrico. Já se ouviam mais perto os tiros de espingarda e os gritos d'alarme dos batedores, e com este novo perigo mais se estreitavam os corpos dos dois namorados. Obedecendo ao chamamento da voz em supplica e reconhecendo a inutilidade de quaesquer esforços para se deffender, João deixava-se arrastar por Maria para o fundo abysmo da garganta escura da montanha, onde se despenhavam as aguas em precipicios. No ultimo relance em que viu, por entre o urzal virgem que os occultava, os dois cavalleiros, reconheceu serem Thomaz e Vicente, os dois mais temiveis dos do Corcovado. Aproximava-se portanto,o fim do seu tragico amor. Com a robustez do seu corpo agil, ia amparando o corpo delicioso de Maria, que já se entregava sem animo. A cada paragem indispensavel para refazer forças ella solicitava de João, com verdadeiras lagrimas, que a deixasse esconder-se mais na escuridade. Já tinha os pés e os braços ensanguentados de roçarem nos silvedos e nas arestas vivas do granito; o vestido rasgado pelos espinhos dos abrolhos e das tojeiras! João, apesar de toda a solicitude, não conseguia afastar com as suas mãos piedosas todos esses duros obstaculos. Tambem elle tinha a carne dilacerada e dos olhos vermelhos e vehementes sahiam-lhe expressões alternadas de colera e de pavor. Mas iam descendo sempre, amparando-se para não rebolarem pelo ingreme declive, do fundo do qual vinha o bravio ronco das aguas, que se precipitavam de penedo em penedo, por entre nuvens de espuma branca. O espirito de Maria sentia consolação em embrenhar-se n'esta sombra de noite, cada vez mais espessa; mas o barulho dos batedores e dos cães chegava-lhe de muito perto. E quando se encontrou á borda do ribeiro gemebundo, com a pelle rasgada em feridas, o vestido de noiva em farrapos, os cabellos desgrenhados e sem flores, disse com expressão de alivio e desafogo:—Podemos morrer. Aqui não nos verão!O seu amado estava silencioso e rigido no meio da desventura, que por todos os lados o cercava. Em breve ali chegaria a sofrega matilha, quepodia denunciar a estada d'elles n'aquelle mattagal aspero, escondidos no reconcavo d'um penedo, abraçados n'um ultimo alento d'amor. João que já uma vez batera aquellas brenhas, em alegre e bulhenta companhia, via-se agora como o timido veado, occulto por medronheiros, altas giestas e urzes seculares, com o fim de se furtar á impertinencia de miseros rafeiros!... Do peito sahiam-lhe impetos de coragem, tinha subitaneos repellões de musculos que o animavam a mostrar-se aos seus inimigos, tal como era, indomito e sem temôr. Poderia subir n'um arranco, qual outro cabrito montez, aquellas rochas escarpadas; poderia haver ás mãos as clavinas e as pistolas: depois em campo claro, peito a peito, combater com denodo, matando e morrendo. O seu coração ousado era uma cachoeira de sangue n'estes momentos; exaltava-se-lhe a mente n'uma febre de lucta. Erguendo-se, alto como um gigante, exclamou com os braços para o céu:—Sem ao menos ter aqui as minhas armas com que te possa defender!...Maria dedusindo d'estas palavras do seu amado, que elle tivesse o pensamento de se ir aperceber para a lucta supplicou:—Não me deixes só! Ninguem nos imaginará n'esta cova.—Depois de darem busca á casa e encontrarem cavallos e mais coisas que nos pertencem, como não adivinharão?...—Falta-lhes ainda descobrir-nos.—Bastam os cães para nos denunciarem, como se fossemos bicho medroso...Humilhou-se, abatendo de novo o seu corpo sobre a terra humosa. Havia gemer de raiva n'aquelle peito ancioso. Com aspecto torvo e fronte livida, olhava com vista negra para a espessura da matta, onde o vivo sol da manhã, apenas gerava uma penumbra. Zumbiam abelhas colhendo o alimento do rosmaninho, da flôr do tojo e dos sargaços; os innocentes piscos de peito vermelho volitavam de galho em galho; passara uma cobra entre o folhedo, que tapetava o chão. A espessura do medronhal já se enfeitava com rebentos novos; a vida universal, independente e descuidosa, crescia, remoçava-se á vista d'aquelles corações desfallecidos e sem esperança.A grita dos batedores avultava em intensidade. A matilha em busca accesa estava perto, subia e descia as penedias, entrava nas covas e na negrura dos mattos. Os dois amantes, ouviam perto os latidos; sentiam o ganir e o choro proprio da canzoada na ancia da procura. João da Cunha, paralytico na sua vontade e remettido á impotencia do seu aspero desespero, não falava: fechou os olhos para não ver, tapou os ouvidos para não ouvir. Maria, com a sua alma candida cheia ainda de fé e esperança, estava de joelhos, as mãos erguidas, orando fervorosa e supplicante, o pallido rosto innundado de lagrimas. Deu um grito e interrompeua prece, ao ver por entre a espessura da velha urze que tapava a bocca do antro onde se tinham escondido, o negro focinho d'um valente cão do Crasto, que rosnava. João ergueu-se de repente, apurando todos os seus sentidos, e ficou ameaçador com o punhal na mão. O animal recuou, subindo para um penedo d'onde principiou a ladrar e a arremetter com ferocidade. Era um animal medeano, mas de cabeça poderosa: tinha o focinho agudo, a bocca rasgada como a dos lobos, as orelhas cortadas, em volta do pescoço uma colleira de pregos. O corpo zebrado de negro, em fundo pardacento, lembrava a pelle da hyena. O pello do dorso, mais cerdoso, estava erriçado pela colera; os olhos sanguineos, em circulo negro, olhavam com ferocidade; os dentes brancos, fortes, eguaes, arreganhavam-se deixando ver a lingua comprida, como uma chamma. Ladrava com desespero, resfolgando-lhe as narinas, pois via João da Cunha, com o punhal na mão, em attitude aggressiva. Outros cães da matilha vieram junctar as suas vozes ás do denunciante; os batedores, suppondo peça de caça renitente, algum javalli encurralado entre penedos, animavam com gritos os animaes, em quanto se iam approximando.O lance era de extremos perigos. João da Cunha, palido como a morte, estreitava ao seu valente corpo, o leve corpo de Maria, cujos irmãos, ao suspeitarem do valor do signal dado pelos cãesse tinham já reunido juncto da ermida para conferenciarem.—São elles—disse Thomaz, o de coração mais duro. Examinei aquella casa, tem coisas que lhes pertencem. Ha um cavallo da Maceira.—Não nos fugirão agora—disse rancorosamente Vicente.N'estas palavras havia alegria e impiedade. Concertaram o seu plano, que consistia em descerem, ao mesmo tempo, de quatro pontos differentes, convergindo para o sitio onde o ladrido se accentuava mais vivo e feroz. Porfiavam por chegar primeiro que os batedores, para só por si liquidarem este pleito. Tinham calma no aspecto, mas levavam no coração, muito mais goso e ferocidade, do que teriam para desalojar a mais temivel das féras.Tamanha era a perseguição que os mastins lhes faziam que João e Maria tiveram de sahir do seu esconderijo, para ficarem em terreno aberto, onde se pudessem defender. Os cães do Corcovado, ouvindo a voz carinhosa da sua ama, tinham-se afastado da contenda; mas os restantes, especialmente o que primeiro os descobrira, mostravam-se de cada vez mais inimigos. Houve um instante em que o assedio se tornou tão violento que João da Cunha pronunciou alto:—Maus raios! Eu sem lhes poder chegar!...N'este apertado lance é que Maria descobriu, n'uma clareira, cercada de urzes e medronheiros, passar seu irmão mais velho, o Manuel, com a espingardaao hombro, dirigindo-se para o sitio onde os cães ladravam.—Estamos descobertos!—disse apontando.—Inferno!—bramou João da Cunha. Não ter comigo as clavinas!Este apparecimento levou Maria para as visões da loucura. Pelo ramalhar das arvores, em cujos braços as espingardas se prendiam, pelo ondear dos mattos, percebia-se claramente que tambem os outros do Corcovado para o mesmo ponto convergiam.Maria pensou em encontrar sitio, ainda mais inaccessivel, lá para o fundo do precipicio. João desvairado, acompanhava-a, amparando-a, para a não deixar cahir. Nenhum d'elles sabia para onde era levado pelo destino, pela força interior que os impellia, mas ambos comprehendiam que mais para baixo era mais cavernoso o marulho da corrente, mais denso o arvoredo. Havia ahi uma queda de muitos metros, onde a agua levantava alegres nuvens de espuma, e depois se expraiava em larguesa de bahia tranquilla. Sem conhecerem o risco, para ahi se dirigiram, attrahidos pela escuridade e para se livrarem da perseguição crescente da matilha. Entraram n'uma passagem estreita, onde o ribeiro corria precipitado. O negrume do logar e o fragor da corrente cegava-os e ensurdecia-os. Chegaram á fraga d'onde a catadupa se precipita no fundo barathro. Ahi apareceram abraçados um ao outro, tão meigos e sorridentes, como no primeiro momentod'amor, e n'esse supremo instante é que uma voz de vingança se lhes levantou fronteira, ameaçando-os:—Nem mais um passo, que os varo!...Era o Thomaz, que os apontava com a arma aperrada.Maria deu um grito de pavor desprendendo-se dos braços do seu amado. Tapou os olhos para não ver e correndo pela lage fóra, precipitou-se na cachoeira fremente. João com os dentes cerrados de desespero, os olhos em chammas de loucura, ainda tentou agarral-a; porém acompanhou-a na queda, sem poder tocar-lhe no vestido de noiva.O cadaver de João da Cunha, foi encontrado, depois, entre as penedias, com o craneo esmigalhado. Já os corvos crocitavam em volta da sua misera podridão. O de Maria, colhido amorosamente pela massa das aguas ao cahir appareceu boiando no remanso limpido, como o de Ophelia, retido por um innocente ramo d'urze. Foi d'esta humilde planta, que o seu corpo gentil recebeu o ultimo beijo de carinho.FIM
Seriam duas horas d'uma fria noite de março, quando a cavalgada sahia o largo portal do Corcovado, em direitura á egreja da freguezia, que ficava a uma boa hora de distancia.
A noiva, joven e formosa, com vestido de seda clara semeado de florinhas azues, montava soberba mula, ajaezada á hespanhola e coberta de valioso teliz de veludo encarnado com brilhos d'oiro, peça antiga na casa de D. Bento d'Osma, o ditoso noivo, que aos sessenta annos ia receber como esposa a encantadora Maria. Pelo caminho aspero e pedregoso, ladeado de pinheiraes sombrios, de penedias soberbas, de campos ferteis, de precipicios fundos onde grasnavam aguas tumultuosas, sentia-sea animação da extensa cavalgada. As lumieiras, que os creados sustentavam altas, erguendo os braços para aclararem maior area do caminho, produziam sombras phantasticas que se espalmavam nos muros e deitavam nos campos, dando a este quadro de vida commum, aspecto tão singular que ao longe pareceria festa de demonios em delirio. As aves silvestres e os animaes bravios que tal presenceassem, acordados do seu repouso, assim o deviam pensar, pois fugiam uns voando, outros correndo e sumindo-se todos no denso negrume da noite. Ia na frente a noiva, delgada e airosa, dentro do seu vestido claro, os cabellos negros e fartos ornados de flores naturaes, as mais bellas flores dos jardins d'Osma, onde as havia raras e viçosas todo o anno. Ao lado de Maria, D. Bento, ainda vigoroso, montava magnifico cavallo baio adrede comprado para este acto solemne. E logo a seguir o pae da airosa menina, o José Pereira do Corcovado, da conhecida casa do Corcovado e seus quatro filhos, Manuel, Thomaz, Vicente e José, rapazes valentes e destemidos, pimpões de varrer tudo em romarias e feiras, quando se junctassem os quatro. Cercava-os o maior numero das lumieiras, para acautelarem a noiva contra qualquer estorvo do caminho turtuoso e difficil, e assim assegurarem tambem aos que vinham atraz, transito livre. Estes eram pessoas de differentes edades e feitios; senhoras velhas de vestidos serios de seda preta e meninas novas todas de claro, desde a corde rosa virginal até ao verde-prado que é esperança. Os homens antigos estadeavam as suas casacas de gollas altas e bofes nos peitilhos das camisas; os rapazes d'agora vestuario delambido e collarinhos pegados á pelle do pescoço. Havia alguns padres na extensa cavalgada, de sobrecasaca grave, bota eclesiastica de borla no joelho, ou bute simples nos mais pobres que não tinham para abastanças, volta no pescoço, e deitando a sua sentença latina do alto das suas eguas de farta cauda e largo ventre prolifero. Os da rectaguarda mofavam do velho D. Bento, pela desproporção na edade com Maria, e alludindo á violenta e conhecida paixão, que por ella tinha, o João da Cunha, da casa da Maceira, disse um conceituosamente:
—Póde muito bem ser um segundo tomo do velho D. Thomaz que se casou com a D. Paulina, morgada da Cerdosa[2].
—Que lhe preste—accrescentou Frei Ignacio pitadeando-se.
Era realmente coisa sabida que João da Cunha amava perdidamente Maria; e tão perdidamente a amava e tão de receiar era uma vingança dos rapazes da Maceira (que tambem eram quatro enão inferiores em valentia aos do Corcovado), que os irmãos da noiva iam adeante a guardal-a e promptos para tudo. Arrebatando-a ao amado preferido, levavam-na juncto do altar para a entregarem ao morgado d'Osma, senhor de Osma e de muitas propriedades de Minho e Douro. João só podia alardear boa linhagem e muito amor, quanto a haveres a casa era pequena e filhos muitos. Quando n'isto falaram ao velho do Corcovado desatou n'um berreiro de espantar lobos: «que amor sem riqueza era bonito, mas julgava-o destempero; que se lhe queria a filha viesse pedil-a trazendo titulos de propriedade para a merecer. Elle por sua parte, tinha boa casa; mas herdeiros cinco».
—Portanto, que tire d'ahi o sentido—rematou para o enviado.
O da Maceira que era ousado e temerario approximou-se um dia do velho e perguntou-lhe de cabeça alta:
—Como quer o senhor José Pereira que eu arranje assim de repente dinheiro?
—Isso é comtigo e não commigo.
—E com quanto se contenta?—disse sarcastico.
—Com muito; dinheiro quanto mais melhor—respondeu o velho no mesmo tom.
—E quanto tempo me dá para arranjar isso com que lhe possa comprar Maria?
—Ella não é negra. Não te me faças birbante que se os meus rapazes ouvem...
—Bem me importo com ameaças! Peço um anno, para ir ao Brazil entender-me com meu tio Antonio, que lá tenho. Acceita?
—Vae ao Brazil, vae onde quizeres, eu já falei.
E voltou-lhe as costas sem mais ceremonias.
O rapaz sahiu o portal do Corcovado com uma batalha no cerebro. A sua idéa n'aquelle instante, foi roubar violentamente Maria, fugir com ella para sitio alpestre e ignorado, e lá viverem vida selvatica d'amor, sustentando-se de leite e fructos da terra. Chamava-o, a grandes vozes, o coração, para essa existencia poetica, altiva e nomada, querida da imaginação de todos os independentes, como apropriada á vida feliz. Alimentarem-se de caça, do mel das abelhas, de medronhos e hervas; beberem o leite, a limpida agua das fontes por escudellas de madeiras ou de cortiça; vaguearem no silencio magestoso das mattas escuras, pouco conhecidas dos homens; suspirarem juncto das estrellas na amplidão das serras altas, absorverem a largos pulmões o ar fresco e aromatico das brizas que vem dos codeçaes floridos e das urzes sempre verdes... era o que lhes deleitaria a sensibilidade, irmanando-os com os pastores, com os anjos e com os poetas. Nos primeiros colloquios d'amor, que tivera com Maria, quando ainda eram creanças e simples, já detalhavam a vida dos ermos, baseando-a no aspecto ditoso e feliz dos pegureiros,que na primavera subiam ás montanhas com os seus rebanhos, e no que sabiam de contos de fadas e moiras encantadas. Era essa existencia que lhes convinha: uma cabana e dormir entre a lã das ovelhas, imaginar ao som gemente dos regatos e deleitar os olhos no azul infinito que não tem fim—um viver só pelo goso de existir e nada mais.
Então ninguem sabia ainda que elles se amavam, a flor doente de sensibilidade que lhes estava rebentando no coração era apenas presentida pelas ingenuas creanças. A modo que iam crescendo tomava esse sentimento vago uma fórma mais definida e concreta, os olhos do corpo, ensinados pela experiencia, iam corrigindo as incertas aspirações da alma contemplativa e um dia disse João a Maria: «Quando nos casaremos nós?»; ficando absortos n'um spasmo de mente a voarem pelos espaços sidereos.
Casar! palavra magica e dolente em que tudo se comprehende e pouco se diz. Seria só a união dos corpos? Seria a harmonia dos corações? Seria a orchestração das palavras melodicas que sentiam nos ouvidos, quando de noite pensavam um no outro? Que seria?!... O contacto das suas pelles, quando se abraçavam e beijavam nos brinquedos infantis, dispertava-lhes, por vezes, fulgurações no cerebro, chispas nos nervos, deleites celestiaes. Casar seria a absorpção de dois entes n'um ente novo e mais complexo; mas ocasar ideal, a completação ambiccionada era fugir, não ver homens, nem casas, nem mares turbulentos, e só conhecer serras tranquillas, arvoredos mysteriosos, e animaes amigos. Poderiam realisar estas sublimes aspirações?...
Foram crescendo os corpos; adelgaçava-se a nuvem em que divinamente viviam occultos; era mais palpavel a realidade, João e Maria para casarem precisavam merecer-se. Por isso elle foi principiar os estudos, com idéa de seguir uma carreira, que lhe desse no mundo uma situação. Maria ficou na aldeia, entre as mesmas arvores, contemplando os mesmos penhascos e o mesmo céu, e, quando não teve comsigo João, cruciante foi a sua dôr. Porém logo nas primeiras férias todas as saudades se diluiram e a alegria d'esse primeiro encontro e dos seguintes compensara-os da magua da primeira separação.
O velho da casa do Corcovado, mais experiente e sagaz do que os filhos, foi quem primeiro deu pelo caso. Não lhe convinha: determinou acabar aquillo d'uma vez. Formou uma assembléa com os seus rapazes: fechando-se n'um quarto com elles, expoz o caso e pediu-lhes alvitre no modo de proceder.
—Isso dá-se cabo d'elle, é o melhor—disse Thomaz, o de genio mais violento.
E o Vicente secundou-o:
—Sahe-se-lhe ao caminho longe d'aqui, quando vier a férias; arruma-se-lhe um estalo na cabeçae enterra-se bem fundo n'um campo, onde ninguem o encontrará.
—Não é preciso tanto—disse o velho concentrado e tenaz. O D. Bento d'Osma gosta da pequena; porque já m'o disse. Maria fez desoito; arranjam-se os papeis em segredo, chama-se aqui sem ella o esperar, fala-se-lhe tezo, e casam-se sem dar tempo a que o marmanjo consulte os irmãos.
—Que nós não tememos—disse o Manuel, o mais velho, applaudido pelos mais novos.
Maria por um acaso feliz estava no quarto contiguo e como falassem alto ouviu a conversa. Foi grande a sua perturbação, mas simulou o contrario para a defesa. Descobriu meio de tudo communicar ao mais velho da Maceira, o Gonsalo, para o tornar conhecido do irmão, asseverando-lhe que, por sua parte, estava prompta para quanto João entendesse necessario fazer-se com o fim de defenderem o seu amor. Foi n'essa occasião, que o namorado desejando levar as coisas a bem anunciou ao velho José Pereira, primeiro por um enviado, depois directamente, os projectos em que estava de conquistar no mundo posição que lhe desse direito á mão de Maria, terminando pela affirmativa de ir ao Brazil. Tal viagem, porém, nunca pensou em realisal-a e a promessa era apenas um estratagema de ganhar tempo, para concertar um plano de fugir com a sua amada.
[2]Amores, amores...
Simulou-se na Maceira o caso da partida de João para a companhia do tio que tinha no Brazil, tudo com o apparato do estylo: enxoval, despedidas, choros, a sahida do rapaz acompanhado de seus irmãos, e até um telegramma do Porto, que participava o embarque. Fez-se a representação com a maior verosimilhança. O namorado desappareceu da aldeia e falava-se d'elle com saudade e sympathia. Os do Corcovado, acreditando só metade do que viam, principiaram logo a dispor as coisas para o enlace de Maria com D. Bento.
O Manoel, que era o de mais tino, sahiu uma noite a cavallo levando comsigo dois creados só até ao limite da aldeia: ia tractar com o morgadod'Osma de coisas de escriptura e dote; informal-o do que havia e do que seu pae com todos elles tinha accordado. Assentes as bases do contracto com o noivo, que não offereceu difficuldades, pois toda a sua ambição era obter a mocidade de Maria para caldear com a sua velhice, logo se despacharam os dois mais novos, Vicente e José, para irem a Braga tractar secretamente dos papeis do casamento. No entretanto, dentro do Corcovado não se dormia descançado: havia armas promptas, e esculcas de noite no velho casarão. Conheciam bem os da Maceira: sabiam-nos ousados, valentes e até loucos d'audacia. Ainda que João houvesse partido (do que não tinham absoluta certeza), ficavam os outros que eram capazes de armarem uma batalha campal, para garantirem ao irmão ausente, uma desaffronta e uma vingança estrondosa. Dispunham os seus meios de resistencia para se defenderem, ainda que preferiam que tudo se passasse com normalidade e socego. Esconderam, pois, entre si e D. Bento o plano urdido, simularam vida tranquilla e ordinaria, simularam mesmo a crença no descuido dos da Maceira, na partida de João, e já em Braga corria velozmente o processo ecclesiastico com todas as licenças necessarias para em vinte e quatro horas, logo que taes licenças chegassem, se realisarem as nupcias.
Em Braga era tambem onde estava João da Cunha, á espera de aviso dos irmãos, para regressar á aldeia na opportunidade conveniente, e aqui foiavisado por um amigo, de que os papeis andavam em segredo, nas mãos do senhor Arcebispo. Logo comprehendeu tudo e na manhã seguinte, depois de andar duas noites a cavallo, chegou á Maceira, onde entrou tanto a occultas, que só os irmãos e o pae d'isto tiveram conhecimento, pois elle tomara a precaução de despedir o arreeiro com a cavalgadura fora do logar, que atravessou a pé, não seguindo veredas nem caminhos, mas atravessando campos e saltando muros. O que logo ficou assente entre todos foi que Maria não casaria com D. Bento d'Osma, ainda que fosse necessario matarem e morrerem.
A pobre menina, vigiada e guardada, como se sentia, não pôde, durante esses dias crueis, mandar nenhum enviado ao Corcovado. Vivia em grande amargura e afflicção por suspeitar coisas tenebrosas do que em volta d'ella se tramava. O seu amor e a exaltação do seu espirito eram tamanhos, que pensou em suicidar-se, antes que ceder a quaesquer conselhos ou pressão de pae e irmãos, para preferir outro homem a João. Porém era alma juvenil e crente, não podia comprehender que a Providencia divina, e Maria Santissima, de quem sempre fôra tão devota, podessem concordar em tal iniquidade. Ora não querendo Deus e não o consentindo a Virgem, nada podiam os homens—pensava ella.
Os papeis chegaram de Braga ao mesmo tempo que vestidos e enfeites para o dia solemne dasbodas, que podiam realisar-se d'um para o outro momento. D'isto foi avisado D. Bento d'Osma, por uma carta, emquanto Maria era chamada á presença de seu pae e irmãos, que sisudos e graves como juizes a sentencear, lhe disseram a resolução em que tinham assente. O pae rematou o longo arrazoado dizendo:
—De modo que tu vaes ser senhora d'uma das maiores casas da provincia e mulher d'um dos maiores fidalgos conhecidos.
—Mas se eu não gosto d'elle, que é um velho e antes quero João da Cunha, apezar de pobre!...
—Tolices dos desoito annos—commentou sarcasticamente o velho. Com esse não te dava eu consentimento, nem com um bacamarte cheio de zagalotes assente no meu peito.
—Pois com outro não caso—disse resoluta e sem lagrimas.
—Isso veremos—disse Manoel, o mais velho dos irmãos. Ainda que tenhamos de te levar para a egreja atada de pés e mãos, has de ir.
—Não será preciso...—acrescentou o Thomaz, pronunciando as palavras com ironia feroz. Irá muito bem a cavallo e nós veremos.
—Carrascos!—pronunciou Maria, cahindo redondamente no chão, rigida como um cadaver.
A este tempo os da Maceira já estavam conhecedores do resolvido matrimonio de Maria com D. Bento d'Osma. Essa informação trouxera-a de Braga o proprio namorado. Mostravam-se, porém, naturaes no trato e despreoccupados do que se passava; mas entre si assentaram o raptar Maria antes do casamento, no proprio acto nupcial, ou até dos braços de D. Bento, se não pudesse ser d'outro modo. Quem os conhecesse bem, sabia que tentariam o supremo golpe, atravez de difficuldades, que outros pudessem julgar invenciveis. Entregar Maria intacta ao irmão era o supremo desejo de Gonçalo, Antonio e Thomé. Porém, vencer, á valentona, todos os obstaculos que os do Corcovado teriam accumulado em volta da desejada rapariga, para que não fosse tocada por mãos impuras, é que não poderiam... Necessario era, pois, servirem se do engenho, primeiro que da força; e tiveram artes de fazer chegar ás mãos da fraca creatura, as palavras animadoras d'uma carta que João lhe escreveu, em que explicava o proposito em que estava. Esse papel foi levado á casa do Corcovado por um pedinte de classica barba longa, curvado e de voz lamentosa quando pedia. Abeirou-se da porta da cosinha, e como fosse desconhecido e significasse vir de longe (talvez de romagem a S. Thiago de Compostella, pois traziaconchas cosidas nos andrajos) as creadas interessaram-se por elle e attenderam-n'o. Vinha esfomeado e friorento; pedia o caldo da esmola e o agasalho do palheiro; como soubesse contar historias e ler a signa, entreteve os creados e ficou por ali coisa de tres dias. Os proprios irmãos de Maria gostaram do pobre e escutaram-lhe os casos; o velho José Pereira, ouvindo-lhe dizer que fôra soldado no tempo dos francezes, que acompanhara o general inglez pela Hespanha dentro, conversou com elle e mandou dar-lhe uma tigella de vinho. Maria, a quem o misero, lendo nas linhas da mão aberta predestinou alegre e risonho futuro, sorriu-lhe no meio das suas amarguras. Foi n'este acto que o pedinte lhe introduziu na manga do vestido a carta de João da Cunha, o que tanto alvoroçou a pobre menina, que só por um milagre de energia não cahiu com um desmaio. Assim ficou ella instruida do plano concertado pelo seu namorado.
Ia a cavalgada pelo tortuoso caminho que do Corcovado segue para a egreja, onde a festa nupcial de Maria com D. Bento d'Osma se ia realisar. Apesar das lumieiras (que só adeante, junto da noiva, faziam grande illuminação) aquelle acompanhamento de tão longa enfiada de gente de cavallo, atravez da noite escura, semelhava uma forte corrente de ferro de muitos e grossos elos, obrigada a repetidas curvas n'um subterraneo; ou, então, qualquer monstro de cobra-crotal curveteando em numerosos accidentes de terreno, para escapar a um perigo que receasse, ou attingir a presa que lhe fugisse. Os que cercavam a noiva tinham entre si poucas falas, como se fôra avançada de numerosas forças quetemessem qualquer cilada. Intrigava-os o aspecto sereno e a alma resignada de Maria, que sabiam coagida para aquelle acto. Jactanciosos, como eram os do Corcovado, passou-lhes pela mente que o animo da irmã se tivesse submettido á dura necessidade, logo que reconhecera o inane de qualquer resistencia. Essa mudança no espirito da namorada poderia ter desenganado os da Maceira, não sendo até impossivel que realmente João estivesse já além dos mares. Maria apenas mostrara furtivas lagrimas ao paramentar-se para a festa com o seu ultimo vestido de virgem, e antes de sahir de casa esteve no oratorio resando ferverosamente a Nossa Senhora dos Desamparados, de quem era devota. Conservara-se bastante tempo estranha, absorvida, quasi extatica, com os olhos sofregos na imagem querida, talvez pedindo-lhe fortaleza ou confessando-lhe os ultimos peccados de pensamento. Tudo parecia natural e simples e indicava que estivesse resignada. Porem, seus irmãos, por um resto de precaução, aperceberam-se para o caminho até á egreja, pois era longo, máu e iam de noite; ainda que este estado d'alma lhes parecesse logico, pois sabiam o espirito de piedade religiosa, com que sua santa mãe fallecida, a tinha educado. Em tão supremo lance da vida d'uma rapariga de desoito annos, era natural profunda commoção, pelo quanto apresentaria de desconhecido e nevoento o novo dia que se lhe ia abrir na existencia. O seu silencio era o fructo detodos os sentimentos desencontrados, que lhe moravam no peito, o fructo da curta e variada historia da sua vida, com um amor precoce e violento, que vira desfolhado no cumprimento do sagrado dever da obediencia ao pae, severo mas bom. Assim o presumiam todos; por isso a desconfiança não era absoluta e os meios de defesa eram incompletos.
Scintillavam as estrellas no firmamento, n'essa immensa aboboda negra como o veludo, em que grandes e bellos diamantes estivessem collados desde infinitos tempos, e tremelusissem por um movimento ondulatorio do proprio céu. Fendiam as lumieiras, com alegres chammas, a sombra compacta da noite. O estrepito da cavalgada, perturbava o silencio, tal um caminhar de tropas. As sombras iam a grandes passos parecendo espectros. A amplitude da treva absorvente tornava mesquinha a existencia do homem. Os que se dirigiam na tortuosa estrada sentiam-se oprimidos no peito, mas a vista alegrou-se-lhes quando, vencida uma corcunda de caminho, descobriram a egreja rural, lá no fundo, com as vidraças a jorrarem luz, como se fôra noite faustosa de romaria. Quadro ao mesmo tempo phantastico e jubiloso, este apparecimento subito do modesto templo, assim illuminado, surgindo do infinito ventre da escuridade infinita. Era como um facho espetado n'uma grande caldeira de breu. Em todos os corações houve sobresalto de gozo, até mesmo no de Maria. D. Bentod'Osma descobrira o sacrario da sua felicidade; o velho do Corcovado o remate das suas aspirações de grandeza; seus filhos, julgaram afastados os receios de mau encontro dos da Maceira, que mesmo que fossem vencidos lhe aguariam o prazer da festa. E Maria o que descobrira para sorrir?...—Alguma esperança?... era aquelle luzeiro, alegria na tristeza das suas amarguras?...
De todos os corações se levantara um peso; amplificara-se o sentir e o desejo de cada um; etherisara-se-lhes a imaginação em hymnos triumphaes. Os formosos olhos de Maria sorriram á profunda escuridade, talvez por á sua mente ter chegado em recordação, qualquer promessa do seu amado. Desciam para o valle onde brilhava a egreja, lentamente, no meio do fogo das lumieiras. Ao chegarem á borda do adro, o leve corpo da noiva, para ser tirado de cima da mula, ricamente ajaesada á hespanhola com teliz de veludo encarnado lampejando oiros, cahiu nos braços de Manoel, seu irmão mais velho. Repicaram faustosamente os sinos n'este instante, annunciando o momentoso acontecimento, ás estrellas que luziam, aos montes silenciosos, aos animaes bravios escondidos nas suas tocas. As aves occultas na espessura das mattas e no interior dos silvedos, quando ao romper da manhã viessem gorgear as suas impressões, decerto relatariam o acontecimento singular que lhes fizera abrir os olhos para a egreja illuminada, e os ouvidos para o jocundo repicar dos sinos. Que necessidadede perturbar a escuridão infinita e solemne, o silencio augusto e magestoso com signaes de festa humana?—perguntariam ao recomeçarem os seus amores, ebrios de rosea alvorada.
Pela porta do templo, amplamente aberta, entraram os convidados. No interior, grande perfusão de lumes em todos os altares, para se celebrar a sumptuosa festa. Sorriam os santos, o rosto da Virgem era expressivo e carinhoso, os anjos, os seraphins e cherubins, que nas columnas do altar mór se suspendiam entre nuvens, brincavam alegremente.
A luz espancara a tetrica escuridade; o cheiro do incenso e da cera do qual as paredes estavam impregnadas espiritualisara-se com o calor das velas. Os numerosos convidados sentiam-se satisfeitos e communicativos, tinham abundancia de palavras para encher a conversação. A modesta egreja rural, mais uma vez era perturbada na sua tranquillidade: assim cheia de movimento e sussurro de festa, deixava de escutar a musica do ribeiro, agora crescido d'aguas, e de ligar o seu viver obscuro ao das arvores amigas que lhe cresciam em volta, enfolhando-se todos os annos na primavera para a festejar...
Maria subiu o corpo do templo, até ao altar mór, ao lado de seu pae, um velho robusto, de barba em volta da cara sadia, altos collarinhos em camisa de bofes, a casaca das suas bodas (quarenta annos antes) tapando-lhe a nuca com a alta golla. Ao passarem frente da imagem de Nossa Senhora, da qual era solicita devota, ajoelhou orando com fervor, o que fez com que muitos assistentes entrassem em piedoso recolhimento espiritual, imitando-a na mystica submissão. Pediria coragem para o difficil transe?... confessar-se-hia humilde peccadora por ter tido idéa de resistencia á vontade de seu pae?!... No alto da egreja, onde de novo se curvou reverente para fazer as suas supplicas ao Altissimo, cercavam-na as senhoras mais gradas da visinhança, amigas e parentas, as de Refuinho, da Torre Velha, do Ramisco... que todas como ella resavam com recolhimento e fervor. Davam assim tempo a que o padre Pitança se revestisse na sacristia acompanhado d'outros padres. O cura Clemente Carvalhosa, já velho, alquebrado e doente, não podia vir a estas festas de noite, por causa do seu rheumatismo: substituia-o o corpolento Pitança. Quando este reappareceu juncto do arco cruzeiro, coberto com a longa capa d'asperges, a batina occulta sob a alva de celebrante, a estola cahindo-lhe serenamente sobre o amplo peito de caçador e occulta pelo solemne pluvial, o grande vulto do sacerdote assim paramentado, tinha a magestade do d'um bispo da edade-média, guerreiro, soberbo e forte. Um absoluto silencio se estabeleceu rapidamente, em respeito ao acto momentoso que se ia celebrar. D. Bento d'Osma, radiante dentro d'uma farda de fidalgo em que se não encontrava muito á vontade, sorria d'um modo incaracteristico, trabalhado interiormentepor grande confusão de idéas e sentimentos. Maria estava pallida, mas o seu rosto mostrava serenidade e o seu olhar firmeza. Quando os nubentes davam o primeiro passo para o celebrante, no meio do silencio de tanta gente, attenta e commovida, no meio da gloria de luzes que transformavam o ambito da modesta egreja n'um templo de apotheose... é que um avejão, phantasma ou demonio, ou muitos demonios juntos se lembraram de lançar pela egreja fóra os seus gritos lamentosos, terriveis, amedrontadores, e tão lamentosos, terriveis e amedrontadores, que rebentaram simultaneamente no tecto e nas campas, por traz do altar mór e no côro! Não eram vozes com semelhança de humanas, era um como fremito horrendo que se sentisse ao mesmo tempo no céu e no cimo da terra, que surgisse da profundeza dos abysmos infernaes e tivesse a mesma natureza e raiva das imprecações dos condemnados. Todos ficaram transidos de mêdo, e se sentiram faltos do sentimento da realidade: deante dos olhos desvairados dos assistentes, assim colhidos de surpreza, e n'este primeiro momento, parecera-lhes que os mortos haviam rompido o lagedo das sepulturas ao clangor da trombeta final, ou que eram os santos que desciam espavoridos dos altares para recolherem ao logar seguro da celeste morada. Viam o tecto do templo vergar sob o peso da vontade divina, que procuraria assim castigar algum grande peccado, ou impedir tremenda iniquidade. A confusão de todos os cerebrosfoi completa quando no pulpito, no côro, e no recanto da pia baptismal appareceram tres grandes fogueiras com fumo de polvora e reboar de estoiros, como n'um incendio de magica. Da primeira perturbação logo se passou ao terror fundado na evidencia de um fogo no sanctuario. As vozes em grita, supplicantes e desvairadas, junctavam-se ás das aventesmas e ao rebate dos sinos. A maioria procurou fugir pela porta principal que estava aberta de par em par; os mais serenos, os que poderiam formular raciocinio no meio d'esta grande confusão foram levados na onda. Os rapazes do Corcovado, paraliticos na vontade, tiveram um vislumbre da possibilidade d'um acto de vingança dos da Maceira, mas não se poderam concertar para a defeza. Muitas senhoras fugiram para a sacristia, e no meio d'ellas foi Maria. A sacristia estava ás escuras e a porta para o adro viam-n'a aberta... Por ali entrara um vulto humano que rapidamente tomou nos braços a noiva, decerto para a salvar do pavoroso castigo que a todos ameaçava. O seu corpo gentil, dentro do vestido de casamento, a cabeça enfeitada de flores, os olhos bellos que tantas lagrimas amargas tinham chorado, o peito ancioso que em silencio suspirara sentidas endeixas d'amor... tudo levou esse salvador providencial e ambos se sumiram no negrume d'essa noite fria de Março. Festejavam-na do céu as estrellas, acompanhava-a o murmurio das fontes, cantava-lhe aos ouvidos a ligeira brisa, e a escuridadeamiga e silenciosa encobria estes amores deleitosos. João da Cunha, celere como um gamo, saltou primeiro o muro do adro levando comsigo a penna leve do corpo da sua amada, atravessou veloz um campo, saltou outro muro e no caminho d'além, atirou Maria para sobre uma egua valente, montando depois n'um cavallo fiel. E como se isto fôra um vôo de lendas scandinavas, lá foram os dois vencendo encostas, galgando ribeiros, entranhando-se de cada vez mais no seio protector e cumplice da noite calada e escura. Escutavam de vez em quando para ver se outro tropel de cavallos os seguiria; mas João confiava sereno na promessa de seus irmãos, que lhe haviam offerecido as vidas para o livrar de perseguidores.
A perturbação de todos os que assistiam á ceremonia matrimonial foi maior do que podiam esperar os inventores do estratagema. Alarmados pelo subitaneo alarido de vozes de duendes, almas-penadas, diabos ou o que quer que era, em furia e delirio; accrescentado o primeiro barulho com o reboliço que se sentira no telhado da egreja, que parecia derruir-se; levado ao auge o desconcerto com o rapido apparecimento da chama azulada do incendio, com o cheiro da polvora e estrondo de bombas, acompanhados do toque desesperado de sinos a rebate... produziu-se em todos os cerebros um movimento de terror e assombro facil de comprehender. O povo casual e os creados das lumieiras, que tinham deixado as cavalgaduras no caminho para assistirem á festa, foramos primeiros a fugir e encontraram-se desvairados no adro, cegos no meio da escuridade pelo brilho que nos olhos traziam da farta illuminação das tochas. A sua grita e clamor acabou de apavorar os proprios animaes, que, n'um tropel desvairado, correram pelos caminhos e atravez dos campos, como fugidos d'uma casa em chamas. Os convidados, apesar de numerosos, não eram bastantes para acudir ás supplicas das senhoras, presas d'um extraordinario medo e algumas desmaiadas. Os minutos que durou a intensidade do perigo, pareceram annos de castigo e tormentos, a todos que se encontraram no meio do horrivel drama. Os homens mais resolutos, serenos, e affeitos a perigos julgaram que este era o seu ultimo instante de vida terrena e já sob os proprios pés sentiam abrirem-se-lhes escancaradas as verdadeiras gargantas do inferno. Ãs vozes rogativas das senhoras, acudiram alguns: o padre Pitança, caçador e temerario, encontrou-se entre ellas de capa d'asperges, falando alto, dizendo palavras incoherentes, mas que davam sentimento de realidade; os do Corcovado correram em busca de Maria... D. Bento d'Osma, esse cahira de joelhos no sitio em que estava na capella mór—tinha as mãos erguidas, os olhos espantados, no semblante o esgar dos epilepticos, e murmurava palavras de prece batendo os dentes. Estava inerte, não procurava evitar a condemnação que o abatera, não pensava em resistir á divina vontade, que o punia sem misericordia.
Porém os do Corcovado procurando sua irmã gritavam por ella na egreja, no adro, na sacristia... por toda a parte. Não a encontrando vieram á fala para cerzirem as suas idéas, e facil lhes foi concordarem no que poderia ter sido aquella emboscada. Sentiram-se realmente apavorados e grotescos.
—Nada! é lá possivel!—ainda teimou o mais velho—procuremol-a melhor, que estará por ahi cahida sem sentidos...
Procuraram com vellas e tochas acesas, que arrancaram dos proprios altares, e de momento a momento a suspeita d'uma cilada dos da Maceira tomava maior vulto e lhes enchia o espirito d'uma colera crescente. A elles se juntaram o velho pae e o D. Bento d'Osma, que os creados haviam arrancado á sua paralisia, e todos chamavam por Maria e pronunciavam o seu doce nome, com ancia e carinho, atirando-o para o ventre mysterioso d'aquella negra e hostil noite de Março. Nem acordada, nem desmaiada, nem viva, nem morta a encontravam, por mais que empregassem vozes supplices ou de desespero. Agruparam-se com os parentes e o noivo de Maria, os convidados e os proprios creados. Assim todos reunidos, de tochas na mão, em volta da modesta egreja rural semelhavam multidão imprecativa de povo e não gente na ancia d'um interesse terreno. A noiva não respondera, nem ás primeiras vozes carinhosas do pae e do noivo, nem ás palavras já cheias de ira de seus irmãos. Na egreja, na sachristia, no adro não a descobriam...logo, Maria, ou voava para celesteaes alturas com as suas azas de pomba virgem, ou fugira nos braços do seu amado, o João da Cunha da Maceira.
—Com dez mil demonios, que sou capaz de trincar o coração a esse malvado, como Pedro, o Crú, fez aos carrascos de sua mulher—rugiu o velho do Corcovado, com a face incendiada em desespero.
—Rapazes!—berrou D. Bento d'Osma á multidão dos seus creados—mil cruzados novos aquelle que os pilhar.
E os irmãos de Maria, concertados em identico pensamento de vindicta e com a imagem sarcastica e victoriosa dos da Maceira deante dos olhos, clamaram:
—Os nossos cavallos depressa que não os deixaremos descançar, nem nas profundezas do inferno!
Não era muito facil encontrar os cavallos, pois quasi todos tinham fugido espavoridos. Como se poderia ir ter com elles atravez da vaga escuridão da noite, por caminhos e veredas incertas? Correram os creados, que os conheciam e a cujo chamamento e vozes os animaes estavam habituados. Partiram do adro, cada um com a sua lumieira erguida como um tropheu, chamando e assobiando, em direcções diversas. Que coisa esta de homens com vozes bradantes, armados de fogachos furando a espessa treva, a saltarem muros, e a correr peloscampos, estradas e atalhos! Seria ás arvores hirtas e silenciosas, ás estrellas sorridentes e alegres, aos espaços mudos e infinitos que elles supplicavam? Lá iam com assobios e palavras semeando a negrura torva. Ao fim d'algum tempo alguns voltaram com os animaes que buscavam e lhes haviam obedecido, reconhecendo-lhes o imperio a que estavam sujeitos. Já se tinha passado talvez mais de uma hora, quando os parceaes de D. Bento e os rapazes do Corcovado poderam montar os seus fieis cavallos, para irem no alcance dos fugitivos—duração infinita para os apaixonados corações se distancearem no goso d'uma felicidade tão rudemente conquistada.
Mas para que lado correriam os perseguidores, se os terrenos eram tão vastos, as montanhas tão silvestres e asperas? Como nortear a marcha em noite escura de breu, por veredas multiplas e perigosas? Reuniram conselho para deliberar.
—Para a Maceira?—lembraram os rapazes do Corcovado.
—Não seriam tão asnos que em tal ratoeira cahissem—observou o prudente José Pereira.
—Para o Cerdal, pois são amigos de Cesario.—opinou uma voz.
—Meu primo não me faria o aggravo de lá os receber—inteirou D. Bento d'Osma.
—Sigam para os montes—ordenou o padre José Pitança, de estola sobre o amplo peito, mas já sem pluvial, que largara para se desembaraçarem qualquer lucta de braço a braço, se necessidade houvesse de a sustentar.
—E se elle a fosse depositar respeitosamente e intacta no Ramisco, para depois seguir o processo judicial!?—aventou com a sua voz meliflua o desembargador João Xavier.
Esta lembrança esdruxula, deixou perplexos e irritadas todas as vontades e corações que desejavam uma acção violenta e immediata de assignalada desforra. O sangue dos do Corcovado borbulhava em fremente cachoeira e Thomaz, que era dos quatro o de animo mais ardente e vingativo, disse:
—Qual asneira! Vamos lá para cima que até me parece que já os estou sentindo correr adeante.
E esporeou energicamente o seu cavallo, que lhe respondeu com um salto, vencendo á desfillada a ladeira, onde as ferraduras feriam lume nas lages. Manoel o mais velho ainda teve tempo para ordenar, gritando:
—Cada um pelo seu caminho e por edades. Eu á direita.
Abalaram encosta acima, acicatando com violencia os animaes. Alguns dos amigos e convidados de D. Bento d'Osma seguiram-nos animados d'um generoso espirito de desforra. No pavor da noite, este galope de combate, amplificou-se primeiro, foi esmorecendo gradualmente, restando por fim nos ouvidos dos que tinham ficado, uma ressonancia como de sons repercutidos no fundod'um poço. O padre José Pitança, de alva e estola, no meio do adro, estendeu com vigor os braços, increpando no vago com os punhos apontados ao céu:
—Grandissimo patife! Que o esborrachava...
—Uma costa d'Africa é que precisa—ameaçou o velho José Pereira.
—Uma costa d'Africa!—rugiu D. Bento d'Osma. Uma forca! mil forcas é que merecia.
Porem quasi todos entenderam que deviam ir para o Corcovado, onde estava a mesa preparada para o começo do festim da boda. Ali aguardariam os acontecimentos. Muitos porfiavam em acreditar que os fugitivos seriam alcançados. Porem a maioria das senhoras, cujos nervos tinham sido desorientados com a commoção causada por tão estranho, quanto inesperado, successo, preferiram as suas proprias casas, onde melhor se aquietariam com rezas e com descanço ao seu conchego habitual.
Noite escura e triste; noite, cheia de negruras no céu e no coração! Pouco depois de João da Cunha e Maria partirem a gallope para o seu louco destino, entraram com elles pavorosos receios, tremendo um por causa do outro. Durante muito tempo os acompanhou o alarme de vozes em grita, que se produzira na egreja e no adro, e que se fôra estendendo pela aldeia, tal onda de revolta popular. Como fossem subindo a céu amplo sobre o valle, onde a agitação se alastrava, ouviram, até muito longe, esse rumor sinistro, perseguidor e amaldiçoante; mas depois que venceram o primeiro cabeço de monte, era antes um sussurro de mar a bater em rochas escarpadas, isso que lhes chegavaaos ouvidos. Mais além, só conheciam a impressão arquejante que lhes ficara vibrando no cerebro perturbado. De vez em quando sonhavam tropel de cavallos que lhes viessem no encalce e paravam attonitos com o ouvido á escuta; conhecido o erro continuavam animados pela doce esperança de viverem no seu amor absoluto, reciproco e vehemente. Maria, apesar de animosa e a tudo resolvida, não deixava de temer a vindicta de seus irmãos, e no escuro da noite mysteriosa murmurou como n'uma prece: «Deus nos proteja! Se nos apanham está tudo acabado!» Ao que o intrepido amante oppoz, com voz decisiva: «Nada receies. O meu corpo será mais difficil de trespassar, que um duro penedo!» Continuavam a rasgar a treva densa, por caminhos perigosos e pouco calcados de gente. João conhecia todos aquelles montes como os campos da sua aldeia; palmilhara-os, durante annos, acompanhado do seu perdigueiro, em todos os carreiros e veredas. Cego que elle se houvera tornado, determinaria a posição dos ribeiros e rochedos e as nodoas das bouças. Por tanto, para se dirigir na selva escura d'esta noite espessa, bastava-lhe o sorrir das estrellas do céu e a ditosa ventura de ter a seu lado aquella a quem amava. Eram favoraveis as circumstancias para não serem encontrados e para chegarem ao ponto ditoso, onde descançariam longe da furia e perversidade humana. Trazia esse quadro na menina dos olhos; era uma casinha alpestre, armada entre fragoas.Porém, como estivesse ainda muito distante e os montes fossem largos, só quando se annunciasse a luz solar poderia definitivamente nortear-se, para chegar em direitura, ao paraiso onde podiam florir os seus amores. Por agora só pensava em distanciar-se de onde estavam os seus temiveis inimigos; queria apenas retirar-se do perigo, livrar a sua felicidade da furia dos irmãos de Maria, que seria cruenta se se viessem a encontrar, n'essa noite, face a face. Armara-se para chegar a todos os extremos d'um combate sanguinoso: preso no arção trazeiro levava duas clavinas carregadas com zagalotes, nos coldres duas magnificas pistolas de cavallaria com balas, no bolso interior um acerado punhal de lamina triangular. Preparara-se para uma rude empresa de morte e amor, venderia muito cara a vida e a fortuna de viver. Mas distancear a hypothese horrenda e desgraçada d'um encontro funesto com qualquer dos que o perseguiriam, era o seu anhelo, o seu unico desejo. Por isso procurava com ancia ganhar distancias, mettia por atalhos perigosos, evitava quanto podia a proximidade de casas e povoados, onde se podesse dar indicio da sua passagem. Nem sempre o pudéra conseguir e n'um logar que atravessaram, o ruido dos cavallos devia ter sido percebido por um grupo de mulheres, que enfornavam a broa da semana. Cresceram os pavores e receios que enegreciam a imaginação de Maria; porém João aquietou-a dizendo-lhe que, aquelle caminho era forçado para muitoslogares distantes, uns dos outros. Continuaram silenciosos e cheios d'esperança na negrura cumplice da noite, porém o sussurro dos ribeiros que iam grossos d'aguas, o acordar repentino d'algum animal bravio que fugisse por entre carrascos e tojos, a propria voz do vento que passava nos codeçaes e bouças se transformavam na mente de Maria em signaes de gente amotinada que os perseguia, em prenuncios de embuscadas que seus crueis irmãos tivessem armado contra o seu unico, verdadeiro e sentido amor. A aldeia ficava-lhes de cada vez mais distante, lá em baixo, em fundo valle. Demonstrava-o o passo mais lento das cavalgaduras que era já de fadiga. Tambem agora tinham de caminhar com maior prudencia, pois João confessava-se no limite dos montes seus conhecidos e familiares. Podiam esbarrar com algum ribeiro que os obrigasse a retroceder, por isso procurava sempre os pontos mais altos, onde essa contraria probabilidade diminuia. Ãs montanhas succediam outras montanhas, sempre n'um levantamento gigante que parecia ter limite no céu, onde talvez fossem cravar seus dentes de penedias asperas. Só as estrellas os acompanhavam com riso carinhoso e só estas é que davam a luz tenue, que lhes deixava distinguir os asperos carreiros, brancos sobre a terra negra. O ar tambem era mais leve e mais cortante, a modo que a sombra da noite se ia adelgaçando. Ao nascente, para onde levavam voltados os rostos, já viam com antecedencia a promettedora chegadado sol, essa alegria sumptuosa do mundo!... Eram menos inquietas e vibrateis as pestanas argenteas dos astros, que se sentiam cançados da continuada vigilancia durante a longa noite. Visto não terem podido combater victoriosamente a treva densa, deixavam essa encantadora tarefa ao seu glorioso avô, que traria a brilhante poeira de oiro fino, para enfeitar as cristas das montanhas, enchendo de luz a profundeza dos valles e os recessos das penedias. Maria anciosa por encontrar o limite no seu caminhar perguntou:
—Estamos ainda muito longe?
—Andaremos, com dia, talvez uma hora.
—E a gente que nos encontrar?...
—Só pastores e ovelhas poderemos encontrar.
—Santo Deus! Esses pastores não nos denunciarão?
—Os teus irmãos não nos fazem, decerto, para este lado, e daremos informações erradas a quem falarmos.
—Em todo o caso fujamos sempre...—rematou inquieta.
Seguiam, já n'uma penumbra fofa, o carreiro aberto, ao longo da espinha d'um monte amplo, pelos pés senhoris das ovelhas e cabras que ali passavam diariamente. Um bufo, que levantou o seu vôo pesado, de entre um massiço de penedos, gerou subito alarme no peito de Maria, denunciado n'um grito de susto, que o seu amado acalmou com a explicação prompta do facto. Aluz do sol, ainda distante, provocava este e ainda outros signaes de renascimento da vida terrestre. Já a massa espessa das montanhas se definia em formas comprehensiveis á vista: agigantavam-se os penedos com aspecto de homens associados em conversa; as arvores, dispersas nos terrenos aridos, recortavam-se no céu que se ia acinzentando; as aguas da chuva que se tinham accumulado em covas naturaes, eram espelhentas. Com taes prenuncios de dia entrava nos corações amantes, a fé e a esperança na felicidade do amor. Tão de breu fôra essa noite, que só agora sentiam a posse completa das proprias individualidades, até então amalgamadas com a espessura da treva.
A proxima chegada do sol aclarando o firmamento, que parecia de vidro fosco, apagava gradualmente todos os luzeiros pendurados pelo ar. Formara-se um nimbo lacteo sobre o horisonte. Pipillavam as timidas calhandras erguendo-se do seu leito, entre carquejas, com as pennas irriçadas pelo frio, o que lhes avultava o tamanho. Das bouças já sahiam gaios, grasnando como patos selvagens; levantavam-se melros cortando o crepusculo com o seu vôo rectilineo e silvo agudo; surgiam pêgas a palrar como velhas dementes. Era a gloria da luz e da vida que renascia e animava a solemne mudez das montanhas crespas. Um ligeiro sorrir dos labios de Maria denunciou que o coração se lhe descomprimia, que a sua alma ingenua e pura, aceitavade boamente os perigos do dia, em troca da escuridade protectora da noite. Não assim João da Cunha, receioso dos males que podiam agora nascer. Se os do Corcovado houvessem acertado na perseguição, se os visse apparecer na volta d'um monte ou do meio d'um matagal, seria tamanha a desgraça, que só a morte a podia definir. Correria o seu sangue e o sangue dos de Maria. Todo o que se vertesse havia de ser em desproveito da sua ventura, que não mais poderia brotar. Mas com um movimento energico de cabeça afastou para longe ideias tetricas; de novo no amplo e corajoso peito entrou a esperança risonha e cariciosa. As montanhas eram largas, os caminhos muitos e intrincados, só um grande infortunio o levaria ao encontro dos seus algozes. Consumidos os dias de gozo, doces como o mel, que viessem as perseguições e os flagellos crueis, pois o encontrariam resoluto e altivo, como era natural do seu animo levantado e temerario.
Subiam, subiam ainda na encosta d'um monte, que tinha outros mais altos para os lados do céu. Os já andados escorriam lá para o fundo, em successão de valles, n'um dos quaes assentava a risonha aldeia d'onde haviam partido. Ao vencerem um alto cabeço deram de frente com o olho redondo do sol, que os fitava impavido e dominador.
—Ainda é muito longe?—perguntou Maria.
—Mais uma legua para andar.
Desciam na vertente d'além: n'esse alvorecerencontraram a primeira pastagem de boa relva, mosqueada de malmequeres, goivos e junquilhos nascidos no sopé d'uma penedia d'onde brotava agua, e o primeiro rebanho guardado por um pequeno pastor. Era um rapaz franzino e sujo: ao ver aquella formosa senhora, vestida de claro e com flores na cabeça como qualquer santa, acompanhada por tão garboso cavalleiro, logo se levantou da lage onde estava sentado, conservando-se com o grosso barrete na mão, até que elles chegassem.
—Bom dia rapaz—saudou João da Cunha.
—Bô dia—respondeu em voz rouquenha. Agora não ha romaria: eh! voncês p'ra onde vão?
—Levar uma promessa á Senhora Apparecida—respondeu João.
—Tão linda como a Senhora Apparecida é essa senhora. É sua?
—É minha, é Joaquim. Chamas-te Joaquim?
—Não senhor, sou Zé.
—Pois toma lá este dinheiro e dá-o á tua mãe para te mercar uma camisa. Se por aqui vierem uns senhores a cavallo diz-lhes que não viste passar ninguem.
—Se voncê quer, digo. Hei de rezar por vós, que não ides bem p'ra Senhora Apparecida, mas p'ro Senhor Bô-Home.
—É que vamos primeiro ao Senhor Bom-Homem e depois á Senhora Apparecida—explicou.
—Antão, havendes de tornar para traz.
—Pois tornamos.
—Isso é falar. Deus os acompanhe.
Ficaram receiosos d'este encontro, como já o vinham das mulheres que enfornavam o pão. O convivio humano era-lhes n'este momento antipathico. Da intelligencia alheia, só perigos lhes poderiam advir. Maria levava o rosto palido e fatigado; desejava chegar breve ao ponto da terra, onde pudesse repousar e esconder-se. O seu amado comprehendeu-lhe este secreto pensamento tão legitimo e natural. Chegados a um sitio d'onde se lhes desdobrava aos olhos um largo ondeado de montanhas, João apontou a brancura d'uma ermida, que se destacava sobre a mancha negra d'uma matta e disse:
—Acolá, vês?
—É uma capella!
—Para além da capella está a casa.
—Quanto tempo?
—Pouco tempo.
Metteram por uma esplanada coberta de penedias em cujas anfractuosidades podiam esconder a sua marcha. A luz do sol já enchia os montes e até os valles cobertos pelo nevoeiro matinal. O ar rescendia a aromas, que se levantavam da terra, das flores e hervas alpestres. Passavam no céu, azul palido, aves de grande corpulencia, abutres e aguias, que pousavam nos pincaros mais levantados. Os negros corvos crocitavam perto, subindo do chão para os penhascos. Apparecia aqui umcoelho que rebolava pela terra arenosa; rompia adeante um par de perdizes, já acasaladas no começo d'amores; erguia-se uma lebre, veloz na carreira, corveteando de orelha guicha. Maria, certa do limite da sua jornada, mostrava rosto mais desanuveado; todo o seu desejo e ambição era, n'este momento, esconder-se como timida corsa no denso matagal, que fazia mysteriosa negrura, juncto da alva capella que João lhe apontara. Não tardou muito que aportassem ao carinhoso abrigo. Bem mereciam este repouso, depois de tão longas horas atormentadas pelo esforço corporeo e pelas preocupações do espirito. As horas, muitas ou poucas, que ali permanecessem, ignorados e tranquillos, enchel-os-hiam de amor ardente, para entorpecerem a sensibilidade, emquanto não vinha o desenlace da arrojada aventura.
—Ninguem nos supporá aqui, meu amor—suspirou João ao saltar do seu cavallo.
—E de quem é esta casa?—perguntou Maria ao cahir-lhe nos braços, para descer da egua.
—D'um amigo de longe, que só vem aqui, de anno a anno, fazer as suas caçadas.
Depois de recolher as cavalgaduras, entraram na modesta cabana, coberta de colmo. Logo fecharam a porta sobre os seus corpos cançados. João ao apertar Maria nos braços nervosos exclamou desvairado.
—Até que emfim! Podem agora vir todos os tormentos da terra!...
Dia venturoso, primeiro dia d'amor, em casa modesta e simples, cercados do silencio dos ermos, bafejados pela brisa balsamica e leve, aquecidos pela chama copiosa do bello sol de primavera. Da terra humilde dos montes nasciam flores, abrindo no vasto azul o sorriso, que de noite cubiçara o brilho das estrellas. As aves simples, que a floresta enchiam de seus encantos, ignoravam a apotheose que estavam fazendo d'aquella felicidade. Tudo que havia de rescendente nas duas almas, ditosas e bellas como os lyrios brancos, subia em anhelos para as celestiaes alturas, enchendo os espaços infinitos de sua fragancia.
O dedicado amigo de João da Cunha, que lhe cedera este sagrado abrigo, havia-lh'o provisionadode modo que não fosse necessario, logo de entrada, qualquer contacto com gente do povoado. Por isso n'este primeiro dia, nem as janellas descerraram, vivendo os dois na escuridade que mais os unia no seu amor immenso. Os serranos, que por acaso passavam, não presumiriam viv'alma dentro d'aquella casa simples, construida entre penhascos approveitados como tractos de paredes. As duas unicas janellas eram aberturas naturais das fragas: por ali entravam outr'ora as aves de presa, que nos reconcavos faziam seus ninhos. As duas portas collocadas no afastamento mais largo dos penedos aglomerados, davam entrada uma para a cosinha, outra para a casa de jantar e dormitorio. As cavalgaduras arrumavam-se n'uma loja aberta na espessura da terra no ponto inferior do fraguedo. O telhado de colmo era preso, para resistir ás ventanias invernaes, com pedras e paus atravessados. As aberturas desnecessarias tinham sido tapadas grosseiramente com pedra avulsa, sem o esmero de rebouco de argamassa exterior. Esta rustica morada assentava a mais de meia encosta, por cima da afamada matta do Medronhal. As duas janellas abriam para o declive dos montes e via-se, em corrida extensão, a severa e funda garganta, por onde sussurravam as grandes aguas, que vinham de longe, formando o ribeiro da Marnoca, celebre pelas suas trutas. O inverno tinha sido aspero e copioso, o desgelo das neves altas, ainda em principio, engrossava a corrente que n'umfragor de trovão se despenhava de rochedo em rochedo, por entre togeiras virgens, onde não pousaria o pé rustico do pegureiro, se para ali se lhe extraviasse a rez. Havia até sitios perigosos, aos quaes é duvidoso que pudesse chegar, lobo esfomeado em procura de presa. Eram brenhas selvaticas e dantescas onde, só no torrido estio, entrava o sol para calcinar as pedras. O contemplal-a apenas, enchia a alma de pavores e mysterio. Os dois amados, na escuridade da sua cabana e cercados do silencio do ermo, que este aspero ruido tornava mais completo, sentiam-se tão fóra do mundo e dos homens, que os seus corações já palpitavam unisonos e sem receio. Era sua aspiração e desejo, viverem, assim infinitamente, n'esta paz tranquilla de sepultura, formando um ser de dois seres, com um unico sentir e uma só vontade—louca aspiração de juvenil egoismo, de que só pode dar razão a immensa felicidade que fruiam. Eram como essas aves que outr'ora ali tinham formado seus ninhos toscos, na ignorancia de tudo que não fossem montes e estrellas. Independencia absoluta da vida esquecida dos que se persuadem que no amplo universo, nada mais existe do que o amor. Veio-lhes a fadiga e o somno, que mais dilatada lhes tornou a ventura, continuando-a pelo sonho em céus deslumbrantes. Quando acordaram já o sol declinava no horisonte, arrastando a resplendente juba loira pelo cume das montanhas. Abriram então uma das janellas para se despedirem do astro que, fulgurando, deixavao mundo e levava comsigo a alegria da terra.
N'uma d'essas toscas aberturas a poente, appareceram amarellecidos pela ultima luz d'esse venturoso dia, as duas cabeças unidas, os dois corpos enlaçados. Demorando-se na contemplação do formoso espectaculo, Maria, tinha ainda o seu vestido de noiva e na cabeça as flores com que lh'a haviam enfeitado. O crepusculo cobriu-a lentamente com o seu veu de gaze fino, como a uma creança que dormisse, sombreando-lhe o rosto com tintas de melancolia.
E para orchestrar este quadro de simplicidade antiga e paradisiaca, subia do fundo da garganta escura da floresta o som magnifico e potente das aguas, como um hymno religioso, que se amplificasse solemne nas abobadas d'uma cathedral. Fechava-se assim este primeiro dia enebriante e ditoso: viera a noite alargar o vasio de todas as existencias, afofar com sombras os meandros da vida universal.
Accenderam lume, para se aquecerem.
Em frente um do outro, sentados em toscos escabellos de carvalho annoso, estavam em silencio, enredando os seus pensamentos. Presas as suas linguas nas circumstancias d'esta existencia anomala e feliz, communicavam-se por meio de sorrisos e beijos. Maria, porém, rompeu o encanto da sua mudez, considerando:
—Até quando durará isto?!
—Hade durar sempre—affirmou João.
—Talvez bem pouco dure...
—Teu pae perdoa-nos...
—Nunca nos perdoará—disse repassada d'angustia. Não o conheces.
—Seremos do mesmo modo felizes.
—Porém como!?...
João fez um gesto amplo e vago de quem acredita no céu clemente e mysterioso, dentro do qual se conservam em amalgama todas as soluções felizes da existencia humana. Apesar d'isto, continuaram tristes e absorvidos na sua tristeza, deante do lume alegre e crepitante, com chamas que se levantavam e diluiam como as esperanças. É assim toda a ventura: ergue-se com impeto, flameja triumphal, desaparece como a chama, como ella deixando a treva e o frio. Porém estes amores apenas começados estariam, por certo, bem distantes do seu fim: no querido ermo, protegidos pela treva densa, principiava a primeira noite fecunda e bella. Fecunda e bella foi, mas tinha de acabar como o dia. E acabou: já no ambiente se sentia o acordar de existencias chamadas pelo reapparecimento do sol, o qual, os ditosos amantes, tambem de novo vieram saudar.
Abriram a porta que dava para nascente, e abraçados como duas estatuas em grupo, appareceram risonhos deante do sol:—Maria com o seu vestido de noiva machucado, as flores da cabeça emmurchecidas; João o rosto mais severo e palido do que ao findar o precedente dia.
Rompeu o grande astro por entre penedias: primeiro como uma gema d'ovo, amarella e redonda; depois com a irradiação d'uma enorme fornalha que estivesse no infinito. A todos a luz patentearia a realidade da Terra: a Maria e a João mostrava-lhes a extensão aspera e vaga da montanha, um chão arenoso e safaro, cheio de granitos e pobres plantas, sempre açoitadas de ventanias e chuvas, crestadas pelas neves duradoras, roidas do dente damninho das cabras. Contemplavam essa aridez impressionante e forte das serranias, que educa as vontades para a victoria e para o sacrificio, que prepara o cerebro para extremos de abnegação até á morte. Sentiam essa grave austeridade contrastando com a terna ventura dos seus corações, jovens e amantes, com o sentir mais delicado das suas organisações creadas na tranquilidade e maciesa das veigas floridas, de culturas abundantes que agudam a sensibilidade. O bello sol reunia-lhes os dois corpos n'um feixe de luz, atando-os com os seus raios d'oiro; o seu magnificente beijo matinal sellava a incomparavel ventura d'este amor incomparavel. Tão descuidados e seguros se encontravam em momento tão ditoso, que João não teve duvida em propor á sua amada o sahirem á procura d'um rebanho, que lhes désse leite para o almoço.
Foram enlaçados, como dois ramos nascidos do mesmo tronco. Rostos alegres e corações abertos á aventura iam pelo monte além, descendopara sitios onde presumiam pastos. Amplificavam-se-lhes os pulmões para n'elles entrar o ar fresco; dilatavam-se as narinas excitadas pelos aromas da brisa silvestre. Andaram bastante para encontrar o primeiro rebanho: quando voltavam, ao ninho d'amor, com a caneca a transbordar de grosso leite, é que ouviram latidos d'uma matilha, que de longe vinha batendo a serra para o Medronhal. Continuava a subir aparatosamente o sol, no céu tranquillo e mudo, desdobrando pelas corcovas das montanhas, pelo apertado das gargantas, e pelos ferteis valles o seu lençol de luz. Os cães ladravam ainda longe, porém a revoada dos seus ganidos, misturados a tiros de espingarda e a gritos de batedores, subia pela encosta acima, como o fumo d'uma nevoa, que o vento sul levantasse. O rosto de Maria alterou-se, parou com o ouvido á escuta e perguntou:
—Que será?
—Alguma batida ao bicho bravo. O fogo é lá p'ra baixo—explicou João.
—Vamos depressa para casa!...—pediu receiosa.
—Pois vamos—concordou abraçando-a pela cintura, para andarem mais depressa.
Caminhavam diligentes e celeres, não reparando que se lhes vertia o leite da infusa. Dominava-os apenas a idéa de não serem vistos de viv'alma, de se esconderem na modesta choupana, com portas e janellas fechadas, n'uma escuridade completa. Porém, os seus passos deseguaes e nervosos foramsustidos n'um momento, pela apparição d'uma sombra... d'um phantasma... d'um homem a cavallo, que apparecendo ao norte se dirigia como elles, para o lado da ermida branca.
—Olha gente!—exclamou Maria. Se nos vê, santo Deus!...
Esconderam-se por traz d'um macisso do urzal virgem, que pegava com o Medronhal. D'ali queriam observar o destino do cavalleiro. O silencio de João, as linhas do seu rosto contrahido e pallido, o peito tão quieto que nem respirava, denunciavam a negrura do seu coração. Comprehendeu o perigo: ainda que aquelle homem fosse um estranho, que os não conhecesse, havia de causar-lhe surpresa o encontral-os n'aquellas rudes paragens, sósinhos, tão jovens, tão namorados e tão dignos um do outro. Levaria a noticia do singular encontro e estariam logo descobertos. Pelo menos seriam obrigados a mudar d'abrigo e a esgotar depressa o primeiro calix da sua ventura.
—Talvez passe para deante—ciciou-lhe, quasi ao ouvido, o namorado de Maria.
Mas o cavalleiro, caminhando devagar e cautelloso, como avançada na observação de campo inimigo, estava ainda bastante longe para só se distinguir o seu vulto com o chapeu desabado, a espingarda atravessada nos joelhos, o grosso tronco, firme sobre a sella.
—Peor é—considerou João—se ha por aqui alguma porta de espera; porque então fica.
—O que é uma porta de espera?—perguntou anciosa Maria.
—O ponto onde pode romper a caça—esclareceu.
Do lado esquerdo surgiu outro cavalleiro com o egual aspecto de descanço, da mesma forma vestido e armado, convergindo tambem para o sitio da ermida. Viam-no mais perto, sem que pudessem ainda definir particularidades. Porém, quando chegou a um altinho, onde o recorte do seu corpo e da cavalgadura se fez com maior precisão e nitidez, Maria deu um grito, que pela intensidade da dôr que exprimia, seria capaz de acordar lastimas nos reconcavos d'aquellas montanhas.
—É meu irmão Thomaz!
A João da Cunha cahiu-lhe da mão o tarro de leite, que se verteu pela terra. Affirmando-se com acuidade de vista, levou a mão ao punhal que tinha no bolso rugindo:
—Pois matto-o.
Em casa é que tinha as armas, com que poderia fazer frente aos seus inimigos; mas a casa estava distante, e tinham de subir um pedaço de encosta aspera. Chegariam a tempo se corressem; porém, as pernas de Maria, recusavam-se a andar. Era mortal a pallidez do seu bello rosto, tremula de commoção a sua voz melodica, pavorosa a angustia da sua alma; o seu corpo sem energia, deixava-se desfallecer sobre o chão. João da Cunha, o valente rapaz, principiou a tremer como um vidoeiro,açoitado por ventos furiosos. Maria agarrando-se fortemente ao seu corpo supplicava-lhe:
—Esconde-me, esconde-me. Que me não vejam!
Subia, magestoso e grave do fundo da matta, o sussurro do ribeiro da Marnoca, cujas grandes aguas se despenhavam, avolumando-se-lhes o som, com as ressonancias da montanha. Essa voz rouca e solemne attrahia os dois corações amantes, que só poderiam encontrar refugio nas covas fundas, onde a corrente uivava e onde o javali se escondia. N'essa tetrica escuridade de noite haveria por ventura, abrigo e defesa contra a furia e colera dos irmãos de Maria?
—Vamos, vamos para baixo e se lá ainda nos encontrarem, jura-me que me has de mattar com esse punhal, antes que elles me toquem!—clamava a amada, enleando-se ao tronco do seu amado.
Conservava-se silencioso João da Cunha, porem tinha o semblante terrivelmente tetrico. Já se ouviam mais perto os tiros de espingarda e os gritos d'alarme dos batedores, e com este novo perigo mais se estreitavam os corpos dos dois namorados. Obedecendo ao chamamento da voz em supplica e reconhecendo a inutilidade de quaesquer esforços para se deffender, João deixava-se arrastar por Maria para o fundo abysmo da garganta escura da montanha, onde se despenhavam as aguas em precipicios. No ultimo relance em que viu, por entre o urzal virgem que os occultava, os dois cavalleiros, reconheceu serem Thomaz e Vicente, os dois mais temiveis dos do Corcovado. Aproximava-se portanto,o fim do seu tragico amor. Com a robustez do seu corpo agil, ia amparando o corpo delicioso de Maria, que já se entregava sem animo. A cada paragem indispensavel para refazer forças ella solicitava de João, com verdadeiras lagrimas, que a deixasse esconder-se mais na escuridade. Já tinha os pés e os braços ensanguentados de roçarem nos silvedos e nas arestas vivas do granito; o vestido rasgado pelos espinhos dos abrolhos e das tojeiras! João, apesar de toda a solicitude, não conseguia afastar com as suas mãos piedosas todos esses duros obstaculos. Tambem elle tinha a carne dilacerada e dos olhos vermelhos e vehementes sahiam-lhe expressões alternadas de colera e de pavor. Mas iam descendo sempre, amparando-se para não rebolarem pelo ingreme declive, do fundo do qual vinha o bravio ronco das aguas, que se precipitavam de penedo em penedo, por entre nuvens de espuma branca. O espirito de Maria sentia consolação em embrenhar-se n'esta sombra de noite, cada vez mais espessa; mas o barulho dos batedores e dos cães chegava-lhe de muito perto. E quando se encontrou á borda do ribeiro gemebundo, com a pelle rasgada em feridas, o vestido de noiva em farrapos, os cabellos desgrenhados e sem flores, disse com expressão de alivio e desafogo:
—Podemos morrer. Aqui não nos verão!
O seu amado estava silencioso e rigido no meio da desventura, que por todos os lados o cercava. Em breve ali chegaria a sofrega matilha, quepodia denunciar a estada d'elles n'aquelle mattagal aspero, escondidos no reconcavo d'um penedo, abraçados n'um ultimo alento d'amor. João que já uma vez batera aquellas brenhas, em alegre e bulhenta companhia, via-se agora como o timido veado, occulto por medronheiros, altas giestas e urzes seculares, com o fim de se furtar á impertinencia de miseros rafeiros!... Do peito sahiam-lhe impetos de coragem, tinha subitaneos repellões de musculos que o animavam a mostrar-se aos seus inimigos, tal como era, indomito e sem temôr. Poderia subir n'um arranco, qual outro cabrito montez, aquellas rochas escarpadas; poderia haver ás mãos as clavinas e as pistolas: depois em campo claro, peito a peito, combater com denodo, matando e morrendo. O seu coração ousado era uma cachoeira de sangue n'estes momentos; exaltava-se-lhe a mente n'uma febre de lucta. Erguendo-se, alto como um gigante, exclamou com os braços para o céu:
—Sem ao menos ter aqui as minhas armas com que te possa defender!...
Maria dedusindo d'estas palavras do seu amado, que elle tivesse o pensamento de se ir aperceber para a lucta supplicou:
—Não me deixes só! Ninguem nos imaginará n'esta cova.
—Depois de darem busca á casa e encontrarem cavallos e mais coisas que nos pertencem, como não adivinharão?...
—Falta-lhes ainda descobrir-nos.
—Bastam os cães para nos denunciarem, como se fossemos bicho medroso...
Humilhou-se, abatendo de novo o seu corpo sobre a terra humosa. Havia gemer de raiva n'aquelle peito ancioso. Com aspecto torvo e fronte livida, olhava com vista negra para a espessura da matta, onde o vivo sol da manhã, apenas gerava uma penumbra. Zumbiam abelhas colhendo o alimento do rosmaninho, da flôr do tojo e dos sargaços; os innocentes piscos de peito vermelho volitavam de galho em galho; passara uma cobra entre o folhedo, que tapetava o chão. A espessura do medronhal já se enfeitava com rebentos novos; a vida universal, independente e descuidosa, crescia, remoçava-se á vista d'aquelles corações desfallecidos e sem esperança.
A grita dos batedores avultava em intensidade. A matilha em busca accesa estava perto, subia e descia as penedias, entrava nas covas e na negrura dos mattos. Os dois amantes, ouviam perto os latidos; sentiam o ganir e o choro proprio da canzoada na ancia da procura. João da Cunha, paralytico na sua vontade e remettido á impotencia do seu aspero desespero, não falava: fechou os olhos para não ver, tapou os ouvidos para não ouvir. Maria, com a sua alma candida cheia ainda de fé e esperança, estava de joelhos, as mãos erguidas, orando fervorosa e supplicante, o pallido rosto innundado de lagrimas. Deu um grito e interrompeua prece, ao ver por entre a espessura da velha urze que tapava a bocca do antro onde se tinham escondido, o negro focinho d'um valente cão do Crasto, que rosnava. João ergueu-se de repente, apurando todos os seus sentidos, e ficou ameaçador com o punhal na mão. O animal recuou, subindo para um penedo d'onde principiou a ladrar e a arremetter com ferocidade. Era um animal medeano, mas de cabeça poderosa: tinha o focinho agudo, a bocca rasgada como a dos lobos, as orelhas cortadas, em volta do pescoço uma colleira de pregos. O corpo zebrado de negro, em fundo pardacento, lembrava a pelle da hyena. O pello do dorso, mais cerdoso, estava erriçado pela colera; os olhos sanguineos, em circulo negro, olhavam com ferocidade; os dentes brancos, fortes, eguaes, arreganhavam-se deixando ver a lingua comprida, como uma chamma. Ladrava com desespero, resfolgando-lhe as narinas, pois via João da Cunha, com o punhal na mão, em attitude aggressiva. Outros cães da matilha vieram junctar as suas vozes ás do denunciante; os batedores, suppondo peça de caça renitente, algum javalli encurralado entre penedos, animavam com gritos os animaes, em quanto se iam approximando.
O lance era de extremos perigos. João da Cunha, palido como a morte, estreitava ao seu valente corpo, o leve corpo de Maria, cujos irmãos, ao suspeitarem do valor do signal dado pelos cãesse tinham já reunido juncto da ermida para conferenciarem.
—São elles—disse Thomaz, o de coração mais duro. Examinei aquella casa, tem coisas que lhes pertencem. Ha um cavallo da Maceira.
—Não nos fugirão agora—disse rancorosamente Vicente.
N'estas palavras havia alegria e impiedade. Concertaram o seu plano, que consistia em descerem, ao mesmo tempo, de quatro pontos differentes, convergindo para o sitio onde o ladrido se accentuava mais vivo e feroz. Porfiavam por chegar primeiro que os batedores, para só por si liquidarem este pleito. Tinham calma no aspecto, mas levavam no coração, muito mais goso e ferocidade, do que teriam para desalojar a mais temivel das féras.
Tamanha era a perseguição que os mastins lhes faziam que João e Maria tiveram de sahir do seu esconderijo, para ficarem em terreno aberto, onde se pudessem defender. Os cães do Corcovado, ouvindo a voz carinhosa da sua ama, tinham-se afastado da contenda; mas os restantes, especialmente o que primeiro os descobrira, mostravam-se de cada vez mais inimigos. Houve um instante em que o assedio se tornou tão violento que João da Cunha pronunciou alto:
—Maus raios! Eu sem lhes poder chegar!...
N'este apertado lance é que Maria descobriu, n'uma clareira, cercada de urzes e medronheiros, passar seu irmão mais velho, o Manuel, com a espingardaao hombro, dirigindo-se para o sitio onde os cães ladravam.
—Estamos descobertos!—disse apontando.
—Inferno!—bramou João da Cunha. Não ter comigo as clavinas!
Este apparecimento levou Maria para as visões da loucura. Pelo ramalhar das arvores, em cujos braços as espingardas se prendiam, pelo ondear dos mattos, percebia-se claramente que tambem os outros do Corcovado para o mesmo ponto convergiam.
Maria pensou em encontrar sitio, ainda mais inaccessivel, lá para o fundo do precipicio. João desvairado, acompanhava-a, amparando-a, para a não deixar cahir. Nenhum d'elles sabia para onde era levado pelo destino, pela força interior que os impellia, mas ambos comprehendiam que mais para baixo era mais cavernoso o marulho da corrente, mais denso o arvoredo. Havia ahi uma queda de muitos metros, onde a agua levantava alegres nuvens de espuma, e depois se expraiava em larguesa de bahia tranquilla. Sem conhecerem o risco, para ahi se dirigiram, attrahidos pela escuridade e para se livrarem da perseguição crescente da matilha. Entraram n'uma passagem estreita, onde o ribeiro corria precipitado. O negrume do logar e o fragor da corrente cegava-os e ensurdecia-os. Chegaram á fraga d'onde a catadupa se precipita no fundo barathro. Ahi apareceram abraçados um ao outro, tão meigos e sorridentes, como no primeiro momentod'amor, e n'esse supremo instante é que uma voz de vingança se lhes levantou fronteira, ameaçando-os:
—Nem mais um passo, que os varo!...
Era o Thomaz, que os apontava com a arma aperrada.
Maria deu um grito de pavor desprendendo-se dos braços do seu amado. Tapou os olhos para não ver e correndo pela lage fóra, precipitou-se na cachoeira fremente. João com os dentes cerrados de desespero, os olhos em chammas de loucura, ainda tentou agarral-a; porém acompanhou-a na queda, sem poder tocar-lhe no vestido de noiva.
O cadaver de João da Cunha, foi encontrado, depois, entre as penedias, com o craneo esmigalhado. Já os corvos crocitavam em volta da sua misera podridão. O de Maria, colhido amorosamente pela massa das aguas ao cahir appareceu boiando no remanso limpido, como o de Ophelia, retido por um innocente ramo d'urze. Foi d'esta humilde planta, que o seu corpo gentil recebeu o ultimo beijo de carinho.
FIM