PASTORAL

PASTORALIAs cabras e as ovelhas, iam a meia encosta, todas n'um carreiro, como formigas. Tinha sido longa a noite d'abstinencia no curral e pelo caminho, ás furtadellas, aboccavam as hervagens avulsas, ruminando-as sofregamente. O Rabicho, sempre adiante, como explorador. Vivo e esperto, n'um relance conheceu a impaciencia da Tonia, por não andar mais depressa. «Lá p'ra riba, cão!»—gritára-lhe a pastora, e logo elle subiu a um penedo, deixando passar todo o rebanho, que depois impelliu para a frente, com duas boas torquezadas de seus dentes. Os animaes correram á porfia, vencendo-se uns aos outros. A rapariga ficou distanciada, a fiar a sua lã, cuja tarefa, paraum dia, levava na abada junta com o presigo. E para não auctorisar novas investidas do rafeiro berregou-lhe de novo: «Tó, dianho! tens muito dente!...»N'esse dia, encaminhava-se ella para o Guidon. Perto de lá, na bouça de João-Paz, deixára escondida a tigela das sopas de leite. No caminho encontraria o Chico, pastor seu amado, e ambos juntos e unidos iriam espreguiçar-se por baixo das fragas ou no interior dos frescos giestaes. O Guidon, quando o maio é soalheiro e formoso, tem as melhores pastagens dos arredores. O tojo, nos sitios onde se fez queimada, borbulha, tenro e verde, como herva nos lameiros. Os gomos d'urze parecem microscopicos pampanos. O rosmaninho, o trevo, o rico e nutriente feno desabrocham em aromas e enfeitam a serra. Leite filho d'estas plantas silvestres, delicadas e cheirosas, é o mais gostoso e substancial. Por isso, ao pasto das terras baixas e frias, que não sobeja da boiada, n'esta épocha de lavradas, é preferido o dos pincaros, alegres e soberbos. Coisas da bruta experiencia, que os seculos teem garantido.Chegado o rabanho ao sitio onde na vespera o lobo roubára um timido cordeiro, a ovelha-mãe, na expressão de saudade, balou dolorosamente. Ao longe respondeu-lhe a voz tremula d'outra ovelha, como se fôra um echo. A pastora logo correu ao alto para alcançar mais com a vista. Imaginára estar p'r'áli aquelle a quem se votara. Ia ser umdia festival, ao encontrarem-se na suprema mudez da serra, protegidos do calor á sombra dos piornos, contemplando-se n'um vago absoluto. Em taes momentos accelera-se a imaginação; os ouvidos inattentos ensurdecem; a mente fica-se n'um pasmo; o mundo figura-se um lago tranquillo e morto; o azul do céo, onde se perde a vista, é d'um ferrete insondavel; o coração bate forte e rapido, como um bom potro, galopando solto na campina!...Porém, o que veria a Tonia de suspeito e desagradavel?! A expressão do seu rosto suave e louco, carregou-se de sombras; o gesto foi de arremesso e contrariedade; os olhos faiscaram de subita colera!...Ah!... Em vez do Chico, appareceu-lhe o outro, o Russo, um grande e forte, de cabellos vermelhos e physionomia diabolica. Coruscava-lhe a vista inquieta, pequeninas sardas picavam-lhe a pelle, a cabeça era uma tormenta de fogo!Quão differente o seu namorado, rapaz franzino, d'aspecto juvenil, rosto comprido á Nazareno, cabellos negros e mal cuidados, formando sobre a fronte um tufo revolto d'anneis. D'aquelle todo sahia a expressão que a enlevava; da expressão desdenhosa ou indifferente a superioridade com que a submettera; das palavras simples, a musica dos seus ouvidos e da sua alma inteira. Como era bello e encantador de costas sobre os penedos, a contemplar o céo n'um sonho de poeta! Como era amorosoe vago, quando tocava na flauta, coisas que não aprendera com viv'alma!O Russo decerto lhe queria com mais gana, com mais aquella, bem lá do fundo. Ao enxergal-a, desabrochando com a aurora no alto do monte, como subita e incomparavel flôr, todo se alvoroçou. Nos olhos e em todo o rosto mostrou um pasmo tonto, um riso sem valor, como aconteceria ao cego, cuja retina morta sentisse inesperadamente a gloriosa illuminação do sol. Correu para a abraçar no primeiro impulso; mas logo estacou contemplou-a a distancia. Ella, no alto onde se quedara, de roca á cinta, o lenço claro apanhando-lhe os cabellos, o recorte da sua figura desenhando-se no ar, era a pastora das lendas, calma e prophetica. O Russo percebendo o animo hostil com que a Tonia o recebia, accendeu-se-lhe n'alma a raiva e o ciume:—Querias ir só com o outro? Não, que não!...—Bem se me dá...—retorquiu desdenhosa. Tempo perdido, meu rico!—Que lh'achas tu? Um lesma, um gomitado. Cá, sou um home. Elle...A Tonia espertou-se:—Mal comparado! Tu és um diabo, um porco bravo. Estafermo! Elle é lindo como um anjo do céo!A furia do Russo cresceu:—Sou capaz de o esborrachar na unha, como um piolho, demonios me nunca levem!Tinha lagrimas de raiva, ao pronunciar a jura.Era paixão antiga e abrazadora. Desde os quinze annos, ainda aquelle corpo de rapariga era como um castanheiro novo, já elle a via constantemente na transparencia dos luares outonaes. As moles graniticas, penduradas eternamente dos pincaros, e resequidas pelo sol d'um infindavel agosto, não teriam mais firmeza, nem mais calor do que elle. O ciume era no seu corpo um moer lento e occulto, tal o fogo que mina a urze escondida na terra para a transformar em carvão. Condemnado por aquella repulsa constante, sentia-se desprezivel e desejava morte, em que soffresse muito. Comtudo não podia despegar a propria vida d'aquelle sonho malaventurado. Em presença da Tonia, a natureza ruiva e colerica aloirava-se-lhe n'uns cambiantes meigos e suaves. O mais tenro anho das suas ovelhas, não tinha para quem o aleitava tanto carinho e agradecimento, como elle mostrava áquella rapariga, n'uma submissão de coisa bruta. Comtanto que o amasse, se a sua vontade d'ella fôra vêl-o apodrecer no fundo d'uma córga, para ser alimento das aguias e corvos, ir-se-hia lá deitar voluntariamente e nunca mais comeria! A preferencia pelo outro é que o humilhava na sua consciencia de homem forte e magnifico. Quedava-se a scismar de noite no que teria de superior, esse engelhado, tão magro e pequeno como uma lavandisca. O corpo não, que o seu era grande como uma torre e devia inspirar sentimento de força. A paixão que lhe refervia lá dentro, longe de ser mollanqueirona,mostrava-se vehemente e feroz, tal a das lobas a defenderem os filhos. Aquella rapariga airosa, divina imagem de qualquer santa, voz musical como a dos passaros, tranquillo olhar como o da lua, aniquilava-o com a sua nervosa malquerença. Até ahi, nada a pudera abrandar: nem lagrimas soluçadas de bruços sobre os penedos; nem supplicas mais ferventes do que orações; nem juras e promessas inabalaveis como o céo. Diante das vontades e caprichos da pastora, era humilde e cego. Quantas vezes lhe ficára com a rez, para a deixar correr monte, talvez á procura do outro?! Quantas vezes lh'a fôra buscar ao curral e lh'a apascentara durante dias, para que ella fosse ás romarias, com os ranchos que passavam?! Até sacrificava o seu rebanho, pois dirigia o da Tonia para as melhores pastagens. Se tinha leite novo, logo lh'o offerecia como um presente; se encontrava tortulhos assava-lh'os e ella comia-os: para que não bebesse agua dos ribeiros, onde ha porcarias e animaes mortos, ia-lh'a buscar longe, trazendo-a na sua tigela, escrupulosamente lavada, como para uma rainha. Quando a Tonia acceitava de boa cara estes serviços, já o Russo se entendia muito bem pago. As recusas ou o mau modo, é que eram fundos golpes no seu torvo coração.Vivia uma vida negra e de sobresaltos continuos. Passavam-lhe incendios diante dos olhos e a sua imaginação ficava a trabalhar em desassocego. A fatidicaPedra-suspensa(essa antiga ameaça!) parecia-lhe,ás vezes, que se ia desprender lá do alto, rolar pelos montes e destruir o mundo inteiro! Oh! visão amedrontadora de todas as existencias!... Só para a afastar, quantas vezes elle consentira o Chico deitado ao lado da Tonia! A moça fiava a lã da tarefa, cantava ou escutava-o enlevada. O magricellas, o ninguem, de papo para o ar, não tratava da rez. E o desprezado é que fazia o serviço de todos, guiando caridosamente as cabras e as ovelhas para a sombra das ramadas nos grandes calores, e á bebida antes de as recolher. Viviam assim pelos montes, perdidos entre tojaes e piornos, dormindo no verão debaixo das lapas e dos azevinhos. Havendo satisfação reciproca, tambem gostava de ouvir o tocador de flauta, que sabia muitas modas tiradas da sua cabeça. Era feliz nos momentos em que morava longe o ciume, isso a que não sabendo dar o nome, lhe queimava o peito, como tição ardente. Esquecia o desamor da Tonia n'essas horas gastas em somno tranquillo. A vida era visão suspensa dos ramos dos carvalhos, ou fluctuava brandamente como as folhas outonaes ao sabor d'um murmuro vento. Não havia quisilias, só desejo de felicidade, socego e gozo, em ventura calypsiaca. Raramente, porém, se passavam dias assim completos de ventura!...IIJá tinham caminhado meia hora, n'um silencio inconvivente, quando chegaram ao ponto d'onde se descobria a Pedra-suspensa. Era o objecto da lenda mais famosa e conhecida nas povoações em redor. Visto de certo lado, aquelle granito, não se lhe encontrava o ponto de repouso, na lage subjacente; parecia um destaque de nuvem, no céo azul. Contavam, sempre em voz de medo, que logo no principio dos seculos, um mau genio e feio gigante, ali a depositara, como eterna ameaça a peccadores; porque a sua queda assignalaria o começo do fim do mundo. A instabilidade da Pedra-suspensa, tão reconhecida era, que ninguem duvidava de que uma creança de cinco annos a pudesse derrubar. Grande milagre,não a terem o vento e os trovões arremessado pelos espaços fóra!... O respeito que esse granito infundia, era o de um idolo vingador, ameaçando, dia e noite, as aldeias e o mundo!... Todos os dez annos se formava grande procissão de penitencia, com gente que partia de sitios mui distantes e ali se reunia afim de implorar misericordia. Recebida da tradição essa pratica, executavam-n'a com fervor d'alma religiosa e temente. Os homens ciliciavam as carnes, as mulheres erguiam clamores, as creanças berravam de amedrontadas, os bacamartes de bocca de sino troavam pelos caminhos e por entre os penedos... tudo para distanciar o pavoroso castigo!...Depois das preces, ficariam acalmadas as justas cóleras divinas? Ninguem o assegurava. A intangivel crença em que a famosa pedra cahiria, para assignalar enormes desgraças, conservava-se viva e forte. Poucos tinham animo para a encarar tranquillos e serenos. Ninguem ousava approximar-se-lhe, muito menos tocar-lhe, com medo da responsabilidade n'um cataclysmo. Seria provocar inconsideradamente as cóleras do céo. Uma penha que bastaria o roçar d'uma corça para a fazer cahir! Pairava assim no ar, suspensa como uma aguia, por determinação da vontade divina. A não ser isto já as bategas da chuva, o impulso dos vendavaes, o degelo das neves a teriam arrastado. Pois não era um verdadeiro milagre a sua estabilidade?!...A idéa de a escorar, diminuindo-se as probabilidades da catastrophe, fôra sempre repellida. Significaria desconfiança no alto poder que ali a conservava. Melhor é deixar o destino trabalhar por si. Está lá em cima quem tudo regula. O que tem de ser faz muita força... Pensavam d'este modo em palavras; mas no fundo, n'esse intimo sentir que até parece esconder-se á Providencia, se elles pudessem calçar a pedra para não cahir!... Contra as imprudencias brutas dos gados já se tinham prevenido, as gentes supersticiosas, sebando-a em volta com ramos e tojos. Porém as aguias, que vinham de longe, no seu vôo arqueado e solemne ali poisar? E os lobos famintos, que preferiam aquelle sitio para comer as suas prêsas? Só milagre e grande milagre é que a sustinha n'aquella direitura. Acreditavam-n'o camponezes e serranos, todos os que se desbarretavam e persignavam murmurando qualquer reza, mal a viam. Foi assim que procederam a Tonia e o Russo. Ambos quedos, ella com o fuso parado, elle com o barrete na mão, ciciaram orações. Mas o pastor, logo depois ameaçou a rapariga apontando:—Vêl-a? Ha de cahir. O mundo acaba-se e tu não serás p'ra mim, nem p'r'ó outro.—A Senhora da Peneda não ha de deixar—disse confiada.—Sou eu que a empurro. Verás.—Cala-te, hereje, que t'abro a cabeça.Irada, com os olhos em chamma, arremetteu-lhecom um pedregulho. Havia ancia de raiva dentro do seu peito soberbo. O Russo não lhe pôde supportar a vista de cólera e desprezo; curvou a fronte, os olhos marejaram-se-lhe. O seu destino era peor que o dos condemnados do Inferno.—Perdôa, não olhes assim! Tu é que me fazes dizer todos estes peccados.—Tenho culpa de não teres temor de Deus? Estás na caldeira de Pedro-Botelho, vestido e calçado! E é bem feito!—accrescentou vingativa.O cabreiro queria humildar-se até ao rasteiro das cobras e lagartos, só para lhe merecer uma sombra de perdão. Affligia-o mortalmente a idéa de que mais uma vez desagradara á Tonia. Como, logo adiante a rapariga vendo umas cabras se principiou a affirmar, para descobrir o Chico, foi elle que, no intento de se reconciliar com a pastora apontou:—Está acolá, em cima do penedo...—Assobia-lhe para vir p'r'áqui.—Bem nos vê, se quizer...Mas obedeceu, assobiou com os dedos na bocca. O outro não se importava, apenas mexeu a cabeça conservando-se na mesma posição.—Vae lá, que vamos p'r'ó Guidon,—disse-lhe a moça.Foi, humildemente, como um perdigueiro. Sentiu gozo em ser mandado; mas de raiva torcia nas mãos a grossa carapuça. Distante, a occultas para esconder a sua fraqueza, limpou duas lagrimas aocanhão da vestia. O outro não queria ir para o Guidon, estava ali muito bem. O Russo pediu-lhe que obedecesse, para a Tonia se não zangar mais.—Ora... se 'stou regalado!—respondeu o pastor. Vai tu mais ella.—Vem, moço—exorou o cabreiro. Olha que ella hoje, sempre te está! Anda, levo-te a rez.Consentiu o Chico em deixar ir o rebanho; mas elle ficou. A Tonia não se teve. Foi pressurosa tiral-o d'aquelle adormecimento. Com ligeiro sorriso de meiguice, pediu ao Russo:—Ó aquelle. Junta-me tamem as minhas, que eu vou trazel-o.IIIE lá foi, doida, feliz, correndo de fraga em fraga. O Russo assobiou ao Rabicho, reuniu todo o gado e partiu... Chorava lagrimas como punhos, e voltava-se para vêr de relance a Tonia, que chamava o Chico, com acenos e gritos. Bem se importava o preguiçoso com aquelle louco amor da rapariga!...—Eh! moço! vem-te d'ahi p'r'ó Guidon.Elle respondeu-lhe:—Eh! que 'stou' qui mui bem.Tirou do seio a flauta e sentando-se no penedo, principiou a tocar. O sol illuminava-o de frente, prateando-lhe os cabellos negros. O destaque da sua figura magra e enfezada sobre o escuro penedo, fazia-se como o d'uma miniatura em fundo esmaltado. A Tonia chamou-o:—Já lá vão as tuas cabras, maluco.Não se importava, encolheu os hombros. A musica absorvia-o completamente, era o seu destino. A pastora, dominada por esse respeito instinctivo e sagrado, que se deve ás coisas elevadas, parou a distancia, para o não interromper. O Russo, que já ia longe, tambem subiu a uma rocha com o fim de ouvir melhor. Escutava triste e absorvido. O seu grande corpo, esbatendo-se no verde escuro do monte, ainda ensombrado n'aquella parte, percebia-se mal, como as figuras dos baixo-relevos, e tinha a mesma immobilidade captiva. Era moda triste a que o rapaz tocava. Finda ella, a Tonia approximou-se quasi respeitosa. Para subir ao penedo onde estava o tocador e arrancal-o d'ali, teve difficuldades. A pedra era lisa e as tacholas dos sócos estavam gastas. Mas agarrou-se a um ramo de carvalho, inclinou-se para diante... Os magnificos e potentes quadris arquearam-se n'uma curva de mulher completa e fecunda, creada nos caminhos pedregosos. O Chico, vendo-a no empenho de subir, largou a flauta, tomou-a pelos braços roliços, attrahiu-a para o seu corpo e por momentos ambos ficaram unidos!... O Russo presenceava de longe tudo isto. Sahiu-lhe do peito um rugido de cólera e ciume que fez estremecer as montanhas. Os seus olhos, vermelhos de desespero, viram uma successão de calamidades sem fim, como as descrevem os missionarios para o dia de juizo. A Pedra-suspensa oscillara, já cahia pelos fortesdeclives d'um mundo em ruinas. Ennegrecera subitamente o céo azul, reuniram-se n'um instante nuvens prenhes de tempestades, os trovões abriram medonhas gargantas no céo de fogo, as pupillas dos raios rutilavam, as trombetas apocalypticas enchiam de pavor os reconcavos da terra, onde se escondiam desgraçados!... Tudo se ia acabar para todos!... O seu corpo miseravel, junto ao de outros reprobos, rolava pelos abysmos. A grita dos homens era pavorosa, formando um unisono infernal.Isto o que viu e ouviu n'um instante aquella imaginação turbulenta. Mas o Chico e a Tonia já tinham descido do penedo. Elles lá vinham a caminhar, amorosamente unidos, ella apoiando-se-lhe no hombro. Riam e folgavam, como um casal de pintasilgos em março, resumindo em si todas as venturas pelos homens sonhadas. Ella offereceu-lhe do seu presigo uma racha de bacalhau, que o rapaz acceitou para offerecer ao outro, que era muito pobre, não tendo mesmo, ás vezes, a brôa sufficiente. Logo que se juntaram deu-lh'a.—Toma—disse.—Não tenho fome—rejeitou.—É a Tonia que t'a dá.Arrancou-lh'a da mão. Estracinhou-a raivosamente com os dentes, como faria á carne d'aquelles corpos felizes, se os pudesse trincar. Excandecido seguiu com os rebanhos, separado dos dois. O semblante sombrio e transtornado, impressionariaquem lh'o encarasse. Os olhos gazeos expelliam chispas metallicas e tinham escurecido de cólera. Os beiços tremiam-lhe como signal da sua loucura. A pastora no momento em que se juntaram escarneceu-o:—Que feia carranca... Santo Nome!...O cabreiro voltou-se rapidamente para a aniquilar, com todo o poder da sua força herculea. Porém ao vêr aquelle rosto sereno e risonho, só disse:—Hoje ha de ser falado!...N'um relance pensou na famosa Pedra, symbolo de desventuras. Sahia-lhe do semblante uma expressão feroz: no craneo aninhou-se-lhe a idéa d'um aniquilamento geral de todas as felicidades terrenas.Mas a rapariga é que não estava de geito para o aturar. Conhecia-lhe a maluqueira de bode raivoso e ciumento. Tinha meio de o curar, sem pau nem pedra: era deixal-o ir só. Um porco bravo assim, um bruto cujo aspecto causava medo, não servia para viver entre christãos. Fosse lá p'r'ós lobos, que eram seus iguaes.Quão differente o outro, o seu querido! Timido e meigo como o cabrito d'um mez, assobiava e cantava modas mais bonitas que as dos melros e rouxinoes das mattas. Viver a vida com elle pelos montes, era o mesmo que passar os dias n'um céo. Ensinava tantas coisas, que não aprendera!... As cantigas da sua invenção produziam sempre tristezabranda e carinhosa. Descobria nas estrellas sitios de felicidade e apontava-os, convidando-a a voarem para lá. Podiam-se comparar os dois?... O Russo era escambroeiro aspero que rasgava as carnes; o Chico, ramo de giesta, bello, cheiroso, e flexivel. Por isso ella despediu o rude cabreiro, retorquindo-lhe á ameaça:—Elle é isso?! Pois vae-te sósinho com Deus. Nós levamos hoje o gado p'r'á Ralada.Chamaram o Rabicho e trataram de separar as suas cabras e ovelhas. O Russo, sob o castigo tremendo, mostrava-se submisso em todo o seu corpo. Pedia perdão, não dissera nada mau!... Se alguma palavra feia, se alguma ameaça ou jura a sua bocca cuspira, estava arrependido. Fossem com elle que tomaria conta dos rebanhos todo o dia. A comida para ali era a melhor dos sitios. Encontrava-se tojo tenro, como bicas de manteiga. A herva, apenas nascida, era a unica do appetite do gado. Havia agua corrente para os animaes e até uma fonte para a gente... Aquelle grande corpo, espadaúdo e alto, fazia-se pequeno com a humildade. Uma criança mostraria mais imponencia. As lagrimas cahiam-lhe em cachos e todo elle era uma supplica, de curvado e abatido.A Tonia foi cruel e inflexivel. Abandonou-o, desprezou-o como um trapo. Disse que os não acompanhasse para a Ralada, que isso os obrigaria a mudar. Fez-se imperiosa. O seu corpo d'ave, esbelto e franzino, teve coleamentos de panthera. Orosto de santa transformou-se pela cólera. A chamma do olhar e os cabellos mal juntos davam-lhe o aspecto d'uma leôa. O cabreiro tremia de medo, a cabeça sobre o peito, os braços pendentes. Separaram-se. Os dois lá foram, acintosamente abraçados. O Russo, desmoronada toda a sua existencia, dirigiu-se em passo tropego, adiante do gado, para o destino da sua má sorte!...IVChorou longamente o seu infortunio, p'r'áli, a cara junto á terra. Do fundo mysterioso vinham-lhe palavras infernaes, que o aconselhavam a ser feroz e deshumano. Ergueu-se tendo o coração empedernido. Os seus olhos enxutos, viram nitidamente ao longe a Tonia e o Chico enlaçados, patenteando ás aves o seu amor. Era uma visão graciosa que sahia de entre as lavaredas da colina em fogo! Á sombra da fraga, sobre a qual estava a Pedra-suspensa, os loucos tinham-se ido deitar. Elle tocava flauta, ella contemplava-o, com o fio da roca parado. Justiceira a mão, que para lá os guiou!—pensou na sua rude mente o Russo.Desencadearam-se-lhe diante da phantasia sanguineatodas as tempestades dos seculos sem fim. Só a grande Dôr poderia burilar n'aquelle rude cerebro taes florescencias tenebrosas. O seu corpo levantou-se n'um desespero formidavel. Um violento fremito rugia no interior da montanha, chegando até ás nuvens. Era a voz torva do seu peito, a soluçar pelos reconcavos da Terra e do Céo!Ia tombar a Pedra-suspensa—resolveu.Os seus cabellos ruivos, atravessados pelo sol, faiscavam. Idéas de impiedade e vingança, como lh'as ensinára a religião e o ciume, fixaram-se-lhe na fronte d'um modo definitivo. A ventura e a bondade não cabiam na sua alma desgraçada, pois em volta tudo era escuridão e rancor. Nem a saudade da serra que estava a florir, nem a convivencia amoravel do gado, nem o abandono da mãe cega e pobrissima o detiveram. Não via osoutrosabraçados n'um gozo sem limites? Palpitando d'amor á face do sol, pensavam acaso nas ovelhas? Que viesse o lobo e elles não seriam capazes de o perceber!... Aquelle embevecimento reciproco, era um peccado mortal, e nem o temor do inferno os separava! O aniquilamento, a morte rapida era o que mereciam! Clamava do céo vingança, uma tal falta de vergonha.Por isso ia elle empurrar a Pedra-suspensa!Doido, perdido, correu como um cabrão, de penedo em penedo. N'aquelle peito arquejante escondiam-se sentimentos de tigre. Era um demonio bruto; porém o instincto e o desespero tornaram-n'osagaz. Para ser mais ligeiro e imperceptivel, abandonou os tamancos no caminho. Uma força de vendaval levava-o pelo ar. Podiam merecer-lhe piedade a desgraça do mundo e a eterna condemnação de todos os homens?! Algum vivente lhe mostrara sympathia, ou pensara em lhe prodigalisar carinhos?! O seu odio absoluto não distinguia a justiça da perversidade.Já em cima dos penhascos, ao lado do rude instrumento de vingança, olhou em volta. Um leve impulso de sua vontade bastaria para se produzir o formidavel castigo. Conheceu a verdade da lenda:—simples sopro de gente moveria aquelle penedo tamanho como elle! Um resto d'esperança, porém, obrigou-o a reflectir. Deitou-se de bruços, arrastou-se para diante... A cabelleira fulva e farta como uma juba, excedendo o rebordo da lage, appareceu no espaço. Desvairaram-se-lhe subitamente os olhos:—viu com todas as minudencias irrefutaveis, aquelle terno idyllio, que resumia toda a sua desventura. O Chico tinha a cabeça no regaço da pastora. Ella dava-lhe de beber agua fresca pela sua tigela de barro vermelho. Era o quadro da Samaritana, dessedentando o tranquillo Nazareno, junto do poço biblico, na velha Palestina. O rosto pallido do rapaz, emmoldurado em cabellos pretos, tinha a sonhadora expressão de Jesus. Embebidos um no outro, prolongavam a existencia, na intensidade do sentir!...Porém elle tambem era homem, tinha direito áfelicidade como todo o sêr vivente. Se a Tonia lhe não havia de pertencer, melhor era acabar com a propria vida, que lhe não prestava! Havia de elle aniquillar-se, e os outros haviam de ficar n'aquellas serras queridas? Não lh'o acceitava a mente perturbada!Os miseros estavam mesmo por baixo da Pedra-suspensa! A vingança n'aquelle cerebro, tomou fórma exacta o real, sem poeira de lendas. Podia esmagal-os, como dois sapos nojentos!... D'esta maneira, acabariam n'um instante duas vidas incompativeis com a sua felicidade. A morte para todos tres era uma solução de suprema justiça. A fé supersticiosa das montanhas tinha-o abandonado; o pobre ficara só, recolhido na sua dôr infinita!Mesmo de bruços, principiou a recuar. O seu olho calculador e vingativo vira, que impellido o penedo, os dois morreriam, estreitamente unidos, sem tempo para um ai! Havia de ser fulminante esse acabamento como o causado por um raio de cólera divina! Poz-se em pé, sobre a lapa, a parallelo do instrumento fatidico. Veiu de novo a visão sanguinea! O panorama em frente appareceu-lhe envolvido em linguas de chammas! Era o primeiro signal do tremendo castigo, ha seculos esperado! Um impulso de cyclone dominava-lhe a vontade. Decerto era Deus que assim o mandava castigar dois peccadores.Com a força nervosa e a serenidade d'um illuminado,applicou ao granito o largo e potente dorso. Demorou-se ainda alguns instantes!... Seria indecisão?... Era o gozo de ouvir estranhas vozes de coragem e applauso, bramindo-lhe dentro do craneo! Em volta, já começava claramente o desmoronamento do universo! E o impavido cabreiro, soltando um ronco selvagem—medonho grito de féra!—tombou a Pedra-maldita!VNão se descollaram do ultimo beijo os dois ternos amantes. A altura era enorme. No espaço produziu-se um som abafado e largo, que foi de quebrada em quebrada, pulsando até ao coração da Terra! O Russo conservou-se em cima da lage, firme, contemplativo, como o Stylita. Parecia tomado d'assombro! Os seus olhos de louco, viram pedaços de carne e o sangue atirados para o céo! Aquillo teria sido malvadez?!... Arrependeu-se de subito, ou quiz envolver-se no aniquilamento geral?!... Não poderia sobreviver a tamanho crime, ou eram os demonios que o reclamavam, como sua prêsa?!...Approximou-se resoluto da borda da fraga! Em baixo o mundo cambaleante e confuso, era um grandeincendio, surgindo de trevas absolutas. Diabolicas figuras cruzavam os abysmos, á procura de victimas e sinistros. Gritos infernaes sahiam das boccas escancaradas dos pincaros, como jactos de lava! Olhos vermelhos de demonios fixavam-no ironicos e cubiçosos! Abriu os braços n'um gesto de supplica e perdão, atirou-se ao espaço como um abutre de amplas azas e o seu grande vulto, rolando pelo ar, parecia vir da eternidade, na primitiva condemnação! Sobre a mole granitica impellida pelo seu desespero, esmagaram-se-lhe as carnes e os ossos! O sangue espirrou, tingindo de vermelho a relva circumdante. Era tudo quanto restava, d'uma paixão desesperada e selvagem!...A manhã de primavera, tranquilla e sumptuosa de luz, alegrava montes e campinas. Enfeitavam as encostas, o codeço e o tojo, rebentados d'entre as penhas, cuja negrura avivavam d'amarello. As myriades de flôres dos urzaes, formavam tufos d'aljofares e d'amethystas nas aridas córgas. O feto novo era como uma extensão de relva, pelo verde claro. O modesto trevo e o alegre malmequer, salpicavam a terra. Gottas d'orvalho como lagrimas, rebrilhavam penduradas das flôres da giesta. As mattas silenciosas iam acordando com o gorgeio dos passaros. Nos fundos abysmos das montanhas, formavam lagos os pardacentos nevoeiros. Passado o primeiro momento de susto, os rebanhos continuarama retouçar nas hervas, diante da gloria do sol deslumbrante. As aguias pairavam magestosas, ao longe, sobre os mais altos cumes. Toda a natureza palpitava e se engrandecia, sob a acção impulsiva do calor. Nas serras, nas brandas, nos ribeiros, nos cabeços, nos valles... uma tranquillidade pathetica de vida natural. Sobre os telhados das aldeias levantavam-se os fumos domesticos, brandamente, como fumos de incenso sobre os altares. Em volta a muda altivez da soberba e impassivel montanha!...Só uma voz lamentosa se ouvia na socegada amplidão: era a do rafeiro, o amoravel Rabicho, que em redor da Pedra, chorava a pobre Tonia.E chorava a cortar a alma, como se fôra um christão, ganindo, uivando, aos saltos em volta dos cadaveres!... Amoravel rafeiro, pobre Tonia, desgraçados amantes!... Ah!...Lisboa—Novembro de 1888.

As cabras e as ovelhas, iam a meia encosta, todas n'um carreiro, como formigas. Tinha sido longa a noite d'abstinencia no curral e pelo caminho, ás furtadellas, aboccavam as hervagens avulsas, ruminando-as sofregamente. O Rabicho, sempre adiante, como explorador. Vivo e esperto, n'um relance conheceu a impaciencia da Tonia, por não andar mais depressa. «Lá p'ra riba, cão!»—gritára-lhe a pastora, e logo elle subiu a um penedo, deixando passar todo o rebanho, que depois impelliu para a frente, com duas boas torquezadas de seus dentes. Os animaes correram á porfia, vencendo-se uns aos outros. A rapariga ficou distanciada, a fiar a sua lã, cuja tarefa, paraum dia, levava na abada junta com o presigo. E para não auctorisar novas investidas do rafeiro berregou-lhe de novo: «Tó, dianho! tens muito dente!...»

N'esse dia, encaminhava-se ella para o Guidon. Perto de lá, na bouça de João-Paz, deixára escondida a tigela das sopas de leite. No caminho encontraria o Chico, pastor seu amado, e ambos juntos e unidos iriam espreguiçar-se por baixo das fragas ou no interior dos frescos giestaes. O Guidon, quando o maio é soalheiro e formoso, tem as melhores pastagens dos arredores. O tojo, nos sitios onde se fez queimada, borbulha, tenro e verde, como herva nos lameiros. Os gomos d'urze parecem microscopicos pampanos. O rosmaninho, o trevo, o rico e nutriente feno desabrocham em aromas e enfeitam a serra. Leite filho d'estas plantas silvestres, delicadas e cheirosas, é o mais gostoso e substancial. Por isso, ao pasto das terras baixas e frias, que não sobeja da boiada, n'esta épocha de lavradas, é preferido o dos pincaros, alegres e soberbos. Coisas da bruta experiencia, que os seculos teem garantido.

Chegado o rabanho ao sitio onde na vespera o lobo roubára um timido cordeiro, a ovelha-mãe, na expressão de saudade, balou dolorosamente. Ao longe respondeu-lhe a voz tremula d'outra ovelha, como se fôra um echo. A pastora logo correu ao alto para alcançar mais com a vista. Imaginára estar p'r'áli aquelle a quem se votara. Ia ser umdia festival, ao encontrarem-se na suprema mudez da serra, protegidos do calor á sombra dos piornos, contemplando-se n'um vago absoluto. Em taes momentos accelera-se a imaginação; os ouvidos inattentos ensurdecem; a mente fica-se n'um pasmo; o mundo figura-se um lago tranquillo e morto; o azul do céo, onde se perde a vista, é d'um ferrete insondavel; o coração bate forte e rapido, como um bom potro, galopando solto na campina!...

Porém, o que veria a Tonia de suspeito e desagradavel?! A expressão do seu rosto suave e louco, carregou-se de sombras; o gesto foi de arremesso e contrariedade; os olhos faiscaram de subita colera!...

Ah!... Em vez do Chico, appareceu-lhe o outro, o Russo, um grande e forte, de cabellos vermelhos e physionomia diabolica. Coruscava-lhe a vista inquieta, pequeninas sardas picavam-lhe a pelle, a cabeça era uma tormenta de fogo!

Quão differente o seu namorado, rapaz franzino, d'aspecto juvenil, rosto comprido á Nazareno, cabellos negros e mal cuidados, formando sobre a fronte um tufo revolto d'anneis. D'aquelle todo sahia a expressão que a enlevava; da expressão desdenhosa ou indifferente a superioridade com que a submettera; das palavras simples, a musica dos seus ouvidos e da sua alma inteira. Como era bello e encantador de costas sobre os penedos, a contemplar o céo n'um sonho de poeta! Como era amorosoe vago, quando tocava na flauta, coisas que não aprendera com viv'alma!

O Russo decerto lhe queria com mais gana, com mais aquella, bem lá do fundo. Ao enxergal-a, desabrochando com a aurora no alto do monte, como subita e incomparavel flôr, todo se alvoroçou. Nos olhos e em todo o rosto mostrou um pasmo tonto, um riso sem valor, como aconteceria ao cego, cuja retina morta sentisse inesperadamente a gloriosa illuminação do sol. Correu para a abraçar no primeiro impulso; mas logo estacou contemplou-a a distancia. Ella, no alto onde se quedara, de roca á cinta, o lenço claro apanhando-lhe os cabellos, o recorte da sua figura desenhando-se no ar, era a pastora das lendas, calma e prophetica. O Russo percebendo o animo hostil com que a Tonia o recebia, accendeu-se-lhe n'alma a raiva e o ciume:

—Querias ir só com o outro? Não, que não!...

—Bem se me dá...—retorquiu desdenhosa. Tempo perdido, meu rico!

—Que lh'achas tu? Um lesma, um gomitado. Cá, sou um home. Elle...

A Tonia espertou-se:

—Mal comparado! Tu és um diabo, um porco bravo. Estafermo! Elle é lindo como um anjo do céo!

A furia do Russo cresceu:

—Sou capaz de o esborrachar na unha, como um piolho, demonios me nunca levem!

Tinha lagrimas de raiva, ao pronunciar a jura.Era paixão antiga e abrazadora. Desde os quinze annos, ainda aquelle corpo de rapariga era como um castanheiro novo, já elle a via constantemente na transparencia dos luares outonaes. As moles graniticas, penduradas eternamente dos pincaros, e resequidas pelo sol d'um infindavel agosto, não teriam mais firmeza, nem mais calor do que elle. O ciume era no seu corpo um moer lento e occulto, tal o fogo que mina a urze escondida na terra para a transformar em carvão. Condemnado por aquella repulsa constante, sentia-se desprezivel e desejava morte, em que soffresse muito. Comtudo não podia despegar a propria vida d'aquelle sonho malaventurado. Em presença da Tonia, a natureza ruiva e colerica aloirava-se-lhe n'uns cambiantes meigos e suaves. O mais tenro anho das suas ovelhas, não tinha para quem o aleitava tanto carinho e agradecimento, como elle mostrava áquella rapariga, n'uma submissão de coisa bruta. Comtanto que o amasse, se a sua vontade d'ella fôra vêl-o apodrecer no fundo d'uma córga, para ser alimento das aguias e corvos, ir-se-hia lá deitar voluntariamente e nunca mais comeria! A preferencia pelo outro é que o humilhava na sua consciencia de homem forte e magnifico. Quedava-se a scismar de noite no que teria de superior, esse engelhado, tão magro e pequeno como uma lavandisca. O corpo não, que o seu era grande como uma torre e devia inspirar sentimento de força. A paixão que lhe refervia lá dentro, longe de ser mollanqueirona,mostrava-se vehemente e feroz, tal a das lobas a defenderem os filhos. Aquella rapariga airosa, divina imagem de qualquer santa, voz musical como a dos passaros, tranquillo olhar como o da lua, aniquilava-o com a sua nervosa malquerença. Até ahi, nada a pudera abrandar: nem lagrimas soluçadas de bruços sobre os penedos; nem supplicas mais ferventes do que orações; nem juras e promessas inabalaveis como o céo. Diante das vontades e caprichos da pastora, era humilde e cego. Quantas vezes lhe ficára com a rez, para a deixar correr monte, talvez á procura do outro?! Quantas vezes lh'a fôra buscar ao curral e lh'a apascentara durante dias, para que ella fosse ás romarias, com os ranchos que passavam?! Até sacrificava o seu rebanho, pois dirigia o da Tonia para as melhores pastagens. Se tinha leite novo, logo lh'o offerecia como um presente; se encontrava tortulhos assava-lh'os e ella comia-os: para que não bebesse agua dos ribeiros, onde ha porcarias e animaes mortos, ia-lh'a buscar longe, trazendo-a na sua tigela, escrupulosamente lavada, como para uma rainha. Quando a Tonia acceitava de boa cara estes serviços, já o Russo se entendia muito bem pago. As recusas ou o mau modo, é que eram fundos golpes no seu torvo coração.

Vivia uma vida negra e de sobresaltos continuos. Passavam-lhe incendios diante dos olhos e a sua imaginação ficava a trabalhar em desassocego. A fatidicaPedra-suspensa(essa antiga ameaça!) parecia-lhe,ás vezes, que se ia desprender lá do alto, rolar pelos montes e destruir o mundo inteiro! Oh! visão amedrontadora de todas as existencias!... Só para a afastar, quantas vezes elle consentira o Chico deitado ao lado da Tonia! A moça fiava a lã da tarefa, cantava ou escutava-o enlevada. O magricellas, o ninguem, de papo para o ar, não tratava da rez. E o desprezado é que fazia o serviço de todos, guiando caridosamente as cabras e as ovelhas para a sombra das ramadas nos grandes calores, e á bebida antes de as recolher. Viviam assim pelos montes, perdidos entre tojaes e piornos, dormindo no verão debaixo das lapas e dos azevinhos. Havendo satisfação reciproca, tambem gostava de ouvir o tocador de flauta, que sabia muitas modas tiradas da sua cabeça. Era feliz nos momentos em que morava longe o ciume, isso a que não sabendo dar o nome, lhe queimava o peito, como tição ardente. Esquecia o desamor da Tonia n'essas horas gastas em somno tranquillo. A vida era visão suspensa dos ramos dos carvalhos, ou fluctuava brandamente como as folhas outonaes ao sabor d'um murmuro vento. Não havia quisilias, só desejo de felicidade, socego e gozo, em ventura calypsiaca. Raramente, porém, se passavam dias assim completos de ventura!...

Já tinham caminhado meia hora, n'um silencio inconvivente, quando chegaram ao ponto d'onde se descobria a Pedra-suspensa. Era o objecto da lenda mais famosa e conhecida nas povoações em redor. Visto de certo lado, aquelle granito, não se lhe encontrava o ponto de repouso, na lage subjacente; parecia um destaque de nuvem, no céo azul. Contavam, sempre em voz de medo, que logo no principio dos seculos, um mau genio e feio gigante, ali a depositara, como eterna ameaça a peccadores; porque a sua queda assignalaria o começo do fim do mundo. A instabilidade da Pedra-suspensa, tão reconhecida era, que ninguem duvidava de que uma creança de cinco annos a pudesse derrubar. Grande milagre,não a terem o vento e os trovões arremessado pelos espaços fóra!... O respeito que esse granito infundia, era o de um idolo vingador, ameaçando, dia e noite, as aldeias e o mundo!... Todos os dez annos se formava grande procissão de penitencia, com gente que partia de sitios mui distantes e ali se reunia afim de implorar misericordia. Recebida da tradição essa pratica, executavam-n'a com fervor d'alma religiosa e temente. Os homens ciliciavam as carnes, as mulheres erguiam clamores, as creanças berravam de amedrontadas, os bacamartes de bocca de sino troavam pelos caminhos e por entre os penedos... tudo para distanciar o pavoroso castigo!...

Depois das preces, ficariam acalmadas as justas cóleras divinas? Ninguem o assegurava. A intangivel crença em que a famosa pedra cahiria, para assignalar enormes desgraças, conservava-se viva e forte. Poucos tinham animo para a encarar tranquillos e serenos. Ninguem ousava approximar-se-lhe, muito menos tocar-lhe, com medo da responsabilidade n'um cataclysmo. Seria provocar inconsideradamente as cóleras do céo. Uma penha que bastaria o roçar d'uma corça para a fazer cahir! Pairava assim no ar, suspensa como uma aguia, por determinação da vontade divina. A não ser isto já as bategas da chuva, o impulso dos vendavaes, o degelo das neves a teriam arrastado. Pois não era um verdadeiro milagre a sua estabilidade?!...

A idéa de a escorar, diminuindo-se as probabilidades da catastrophe, fôra sempre repellida. Significaria desconfiança no alto poder que ali a conservava. Melhor é deixar o destino trabalhar por si. Está lá em cima quem tudo regula. O que tem de ser faz muita força... Pensavam d'este modo em palavras; mas no fundo, n'esse intimo sentir que até parece esconder-se á Providencia, se elles pudessem calçar a pedra para não cahir!... Contra as imprudencias brutas dos gados já se tinham prevenido, as gentes supersticiosas, sebando-a em volta com ramos e tojos. Porém as aguias, que vinham de longe, no seu vôo arqueado e solemne ali poisar? E os lobos famintos, que preferiam aquelle sitio para comer as suas prêsas? Só milagre e grande milagre é que a sustinha n'aquella direitura. Acreditavam-n'o camponezes e serranos, todos os que se desbarretavam e persignavam murmurando qualquer reza, mal a viam. Foi assim que procederam a Tonia e o Russo. Ambos quedos, ella com o fuso parado, elle com o barrete na mão, ciciaram orações. Mas o pastor, logo depois ameaçou a rapariga apontando:

—Vêl-a? Ha de cahir. O mundo acaba-se e tu não serás p'ra mim, nem p'r'ó outro.

—A Senhora da Peneda não ha de deixar—disse confiada.

—Sou eu que a empurro. Verás.

—Cala-te, hereje, que t'abro a cabeça.

Irada, com os olhos em chamma, arremetteu-lhecom um pedregulho. Havia ancia de raiva dentro do seu peito soberbo. O Russo não lhe pôde supportar a vista de cólera e desprezo; curvou a fronte, os olhos marejaram-se-lhe. O seu destino era peor que o dos condemnados do Inferno.

—Perdôa, não olhes assim! Tu é que me fazes dizer todos estes peccados.

—Tenho culpa de não teres temor de Deus? Estás na caldeira de Pedro-Botelho, vestido e calçado! E é bem feito!—accrescentou vingativa.

O cabreiro queria humildar-se até ao rasteiro das cobras e lagartos, só para lhe merecer uma sombra de perdão. Affligia-o mortalmente a idéa de que mais uma vez desagradara á Tonia. Como, logo adiante a rapariga vendo umas cabras se principiou a affirmar, para descobrir o Chico, foi elle que, no intento de se reconciliar com a pastora apontou:

—Está acolá, em cima do penedo...

—Assobia-lhe para vir p'r'áqui.

—Bem nos vê, se quizer...

Mas obedeceu, assobiou com os dedos na bocca. O outro não se importava, apenas mexeu a cabeça conservando-se na mesma posição.

—Vae lá, que vamos p'r'ó Guidon,—disse-lhe a moça.

Foi, humildemente, como um perdigueiro. Sentiu gozo em ser mandado; mas de raiva torcia nas mãos a grossa carapuça. Distante, a occultas para esconder a sua fraqueza, limpou duas lagrimas aocanhão da vestia. O outro não queria ir para o Guidon, estava ali muito bem. O Russo pediu-lhe que obedecesse, para a Tonia se não zangar mais.

—Ora... se 'stou regalado!—respondeu o pastor. Vai tu mais ella.

—Vem, moço—exorou o cabreiro. Olha que ella hoje, sempre te está! Anda, levo-te a rez.

Consentiu o Chico em deixar ir o rebanho; mas elle ficou. A Tonia não se teve. Foi pressurosa tiral-o d'aquelle adormecimento. Com ligeiro sorriso de meiguice, pediu ao Russo:

—Ó aquelle. Junta-me tamem as minhas, que eu vou trazel-o.

E lá foi, doida, feliz, correndo de fraga em fraga. O Russo assobiou ao Rabicho, reuniu todo o gado e partiu... Chorava lagrimas como punhos, e voltava-se para vêr de relance a Tonia, que chamava o Chico, com acenos e gritos. Bem se importava o preguiçoso com aquelle louco amor da rapariga!...

—Eh! moço! vem-te d'ahi p'r'ó Guidon.

Elle respondeu-lhe:

—Eh! que 'stou' qui mui bem.

Tirou do seio a flauta e sentando-se no penedo, principiou a tocar. O sol illuminava-o de frente, prateando-lhe os cabellos negros. O destaque da sua figura magra e enfezada sobre o escuro penedo, fazia-se como o d'uma miniatura em fundo esmaltado. A Tonia chamou-o:

—Já lá vão as tuas cabras, maluco.

Não se importava, encolheu os hombros. A musica absorvia-o completamente, era o seu destino. A pastora, dominada por esse respeito instinctivo e sagrado, que se deve ás coisas elevadas, parou a distancia, para o não interromper. O Russo, que já ia longe, tambem subiu a uma rocha com o fim de ouvir melhor. Escutava triste e absorvido. O seu grande corpo, esbatendo-se no verde escuro do monte, ainda ensombrado n'aquella parte, percebia-se mal, como as figuras dos baixo-relevos, e tinha a mesma immobilidade captiva. Era moda triste a que o rapaz tocava. Finda ella, a Tonia approximou-se quasi respeitosa. Para subir ao penedo onde estava o tocador e arrancal-o d'ali, teve difficuldades. A pedra era lisa e as tacholas dos sócos estavam gastas. Mas agarrou-se a um ramo de carvalho, inclinou-se para diante... Os magnificos e potentes quadris arquearam-se n'uma curva de mulher completa e fecunda, creada nos caminhos pedregosos. O Chico, vendo-a no empenho de subir, largou a flauta, tomou-a pelos braços roliços, attrahiu-a para o seu corpo e por momentos ambos ficaram unidos!... O Russo presenceava de longe tudo isto. Sahiu-lhe do peito um rugido de cólera e ciume que fez estremecer as montanhas. Os seus olhos, vermelhos de desespero, viram uma successão de calamidades sem fim, como as descrevem os missionarios para o dia de juizo. A Pedra-suspensa oscillara, já cahia pelos fortesdeclives d'um mundo em ruinas. Ennegrecera subitamente o céo azul, reuniram-se n'um instante nuvens prenhes de tempestades, os trovões abriram medonhas gargantas no céo de fogo, as pupillas dos raios rutilavam, as trombetas apocalypticas enchiam de pavor os reconcavos da terra, onde se escondiam desgraçados!... Tudo se ia acabar para todos!... O seu corpo miseravel, junto ao de outros reprobos, rolava pelos abysmos. A grita dos homens era pavorosa, formando um unisono infernal.

Isto o que viu e ouviu n'um instante aquella imaginação turbulenta. Mas o Chico e a Tonia já tinham descido do penedo. Elles lá vinham a caminhar, amorosamente unidos, ella apoiando-se-lhe no hombro. Riam e folgavam, como um casal de pintasilgos em março, resumindo em si todas as venturas pelos homens sonhadas. Ella offereceu-lhe do seu presigo uma racha de bacalhau, que o rapaz acceitou para offerecer ao outro, que era muito pobre, não tendo mesmo, ás vezes, a brôa sufficiente. Logo que se juntaram deu-lh'a.

—Toma—disse.

—Não tenho fome—rejeitou.

—É a Tonia que t'a dá.

Arrancou-lh'a da mão. Estracinhou-a raivosamente com os dentes, como faria á carne d'aquelles corpos felizes, se os pudesse trincar. Excandecido seguiu com os rebanhos, separado dos dois. O semblante sombrio e transtornado, impressionariaquem lh'o encarasse. Os olhos gazeos expelliam chispas metallicas e tinham escurecido de cólera. Os beiços tremiam-lhe como signal da sua loucura. A pastora no momento em que se juntaram escarneceu-o:

—Que feia carranca... Santo Nome!...

O cabreiro voltou-se rapidamente para a aniquilar, com todo o poder da sua força herculea. Porém ao vêr aquelle rosto sereno e risonho, só disse:

—Hoje ha de ser falado!...

N'um relance pensou na famosa Pedra, symbolo de desventuras. Sahia-lhe do semblante uma expressão feroz: no craneo aninhou-se-lhe a idéa d'um aniquilamento geral de todas as felicidades terrenas.

Mas a rapariga é que não estava de geito para o aturar. Conhecia-lhe a maluqueira de bode raivoso e ciumento. Tinha meio de o curar, sem pau nem pedra: era deixal-o ir só. Um porco bravo assim, um bruto cujo aspecto causava medo, não servia para viver entre christãos. Fosse lá p'r'ós lobos, que eram seus iguaes.

Quão differente o outro, o seu querido! Timido e meigo como o cabrito d'um mez, assobiava e cantava modas mais bonitas que as dos melros e rouxinoes das mattas. Viver a vida com elle pelos montes, era o mesmo que passar os dias n'um céo. Ensinava tantas coisas, que não aprendera!... As cantigas da sua invenção produziam sempre tristezabranda e carinhosa. Descobria nas estrellas sitios de felicidade e apontava-os, convidando-a a voarem para lá. Podiam-se comparar os dois?... O Russo era escambroeiro aspero que rasgava as carnes; o Chico, ramo de giesta, bello, cheiroso, e flexivel. Por isso ella despediu o rude cabreiro, retorquindo-lhe á ameaça:

—Elle é isso?! Pois vae-te sósinho com Deus. Nós levamos hoje o gado p'r'á Ralada.

Chamaram o Rabicho e trataram de separar as suas cabras e ovelhas. O Russo, sob o castigo tremendo, mostrava-se submisso em todo o seu corpo. Pedia perdão, não dissera nada mau!... Se alguma palavra feia, se alguma ameaça ou jura a sua bocca cuspira, estava arrependido. Fossem com elle que tomaria conta dos rebanhos todo o dia. A comida para ali era a melhor dos sitios. Encontrava-se tojo tenro, como bicas de manteiga. A herva, apenas nascida, era a unica do appetite do gado. Havia agua corrente para os animaes e até uma fonte para a gente... Aquelle grande corpo, espadaúdo e alto, fazia-se pequeno com a humildade. Uma criança mostraria mais imponencia. As lagrimas cahiam-lhe em cachos e todo elle era uma supplica, de curvado e abatido.

A Tonia foi cruel e inflexivel. Abandonou-o, desprezou-o como um trapo. Disse que os não acompanhasse para a Ralada, que isso os obrigaria a mudar. Fez-se imperiosa. O seu corpo d'ave, esbelto e franzino, teve coleamentos de panthera. Orosto de santa transformou-se pela cólera. A chamma do olhar e os cabellos mal juntos davam-lhe o aspecto d'uma leôa. O cabreiro tremia de medo, a cabeça sobre o peito, os braços pendentes. Separaram-se. Os dois lá foram, acintosamente abraçados. O Russo, desmoronada toda a sua existencia, dirigiu-se em passo tropego, adiante do gado, para o destino da sua má sorte!...

Chorou longamente o seu infortunio, p'r'áli, a cara junto á terra. Do fundo mysterioso vinham-lhe palavras infernaes, que o aconselhavam a ser feroz e deshumano. Ergueu-se tendo o coração empedernido. Os seus olhos enxutos, viram nitidamente ao longe a Tonia e o Chico enlaçados, patenteando ás aves o seu amor. Era uma visão graciosa que sahia de entre as lavaredas da colina em fogo! Á sombra da fraga, sobre a qual estava a Pedra-suspensa, os loucos tinham-se ido deitar. Elle tocava flauta, ella contemplava-o, com o fio da roca parado. Justiceira a mão, que para lá os guiou!—pensou na sua rude mente o Russo.

Desencadearam-se-lhe diante da phantasia sanguineatodas as tempestades dos seculos sem fim. Só a grande Dôr poderia burilar n'aquelle rude cerebro taes florescencias tenebrosas. O seu corpo levantou-se n'um desespero formidavel. Um violento fremito rugia no interior da montanha, chegando até ás nuvens. Era a voz torva do seu peito, a soluçar pelos reconcavos da Terra e do Céo!

Ia tombar a Pedra-suspensa—resolveu.

Os seus cabellos ruivos, atravessados pelo sol, faiscavam. Idéas de impiedade e vingança, como lh'as ensinára a religião e o ciume, fixaram-se-lhe na fronte d'um modo definitivo. A ventura e a bondade não cabiam na sua alma desgraçada, pois em volta tudo era escuridão e rancor. Nem a saudade da serra que estava a florir, nem a convivencia amoravel do gado, nem o abandono da mãe cega e pobrissima o detiveram. Não via osoutrosabraçados n'um gozo sem limites? Palpitando d'amor á face do sol, pensavam acaso nas ovelhas? Que viesse o lobo e elles não seriam capazes de o perceber!... Aquelle embevecimento reciproco, era um peccado mortal, e nem o temor do inferno os separava! O aniquilamento, a morte rapida era o que mereciam! Clamava do céo vingança, uma tal falta de vergonha.

Por isso ia elle empurrar a Pedra-suspensa!

Doido, perdido, correu como um cabrão, de penedo em penedo. N'aquelle peito arquejante escondiam-se sentimentos de tigre. Era um demonio bruto; porém o instincto e o desespero tornaram-n'osagaz. Para ser mais ligeiro e imperceptivel, abandonou os tamancos no caminho. Uma força de vendaval levava-o pelo ar. Podiam merecer-lhe piedade a desgraça do mundo e a eterna condemnação de todos os homens?! Algum vivente lhe mostrara sympathia, ou pensara em lhe prodigalisar carinhos?! O seu odio absoluto não distinguia a justiça da perversidade.

Já em cima dos penhascos, ao lado do rude instrumento de vingança, olhou em volta. Um leve impulso de sua vontade bastaria para se produzir o formidavel castigo. Conheceu a verdade da lenda:—simples sopro de gente moveria aquelle penedo tamanho como elle! Um resto d'esperança, porém, obrigou-o a reflectir. Deitou-se de bruços, arrastou-se para diante... A cabelleira fulva e farta como uma juba, excedendo o rebordo da lage, appareceu no espaço. Desvairaram-se-lhe subitamente os olhos:—viu com todas as minudencias irrefutaveis, aquelle terno idyllio, que resumia toda a sua desventura. O Chico tinha a cabeça no regaço da pastora. Ella dava-lhe de beber agua fresca pela sua tigela de barro vermelho. Era o quadro da Samaritana, dessedentando o tranquillo Nazareno, junto do poço biblico, na velha Palestina. O rosto pallido do rapaz, emmoldurado em cabellos pretos, tinha a sonhadora expressão de Jesus. Embebidos um no outro, prolongavam a existencia, na intensidade do sentir!...

Porém elle tambem era homem, tinha direito áfelicidade como todo o sêr vivente. Se a Tonia lhe não havia de pertencer, melhor era acabar com a propria vida, que lhe não prestava! Havia de elle aniquillar-se, e os outros haviam de ficar n'aquellas serras queridas? Não lh'o acceitava a mente perturbada!

Os miseros estavam mesmo por baixo da Pedra-suspensa! A vingança n'aquelle cerebro, tomou fórma exacta o real, sem poeira de lendas. Podia esmagal-os, como dois sapos nojentos!... D'esta maneira, acabariam n'um instante duas vidas incompativeis com a sua felicidade. A morte para todos tres era uma solução de suprema justiça. A fé supersticiosa das montanhas tinha-o abandonado; o pobre ficara só, recolhido na sua dôr infinita!

Mesmo de bruços, principiou a recuar. O seu olho calculador e vingativo vira, que impellido o penedo, os dois morreriam, estreitamente unidos, sem tempo para um ai! Havia de ser fulminante esse acabamento como o causado por um raio de cólera divina! Poz-se em pé, sobre a lapa, a parallelo do instrumento fatidico. Veiu de novo a visão sanguinea! O panorama em frente appareceu-lhe envolvido em linguas de chammas! Era o primeiro signal do tremendo castigo, ha seculos esperado! Um impulso de cyclone dominava-lhe a vontade. Decerto era Deus que assim o mandava castigar dois peccadores.

Com a força nervosa e a serenidade d'um illuminado,applicou ao granito o largo e potente dorso. Demorou-se ainda alguns instantes!... Seria indecisão?... Era o gozo de ouvir estranhas vozes de coragem e applauso, bramindo-lhe dentro do craneo! Em volta, já começava claramente o desmoronamento do universo! E o impavido cabreiro, soltando um ronco selvagem—medonho grito de féra!—tombou a Pedra-maldita!

Não se descollaram do ultimo beijo os dois ternos amantes. A altura era enorme. No espaço produziu-se um som abafado e largo, que foi de quebrada em quebrada, pulsando até ao coração da Terra! O Russo conservou-se em cima da lage, firme, contemplativo, como o Stylita. Parecia tomado d'assombro! Os seus olhos de louco, viram pedaços de carne e o sangue atirados para o céo! Aquillo teria sido malvadez?!... Arrependeu-se de subito, ou quiz envolver-se no aniquilamento geral?!... Não poderia sobreviver a tamanho crime, ou eram os demonios que o reclamavam, como sua prêsa?!...

Approximou-se resoluto da borda da fraga! Em baixo o mundo cambaleante e confuso, era um grandeincendio, surgindo de trevas absolutas. Diabolicas figuras cruzavam os abysmos, á procura de victimas e sinistros. Gritos infernaes sahiam das boccas escancaradas dos pincaros, como jactos de lava! Olhos vermelhos de demonios fixavam-no ironicos e cubiçosos! Abriu os braços n'um gesto de supplica e perdão, atirou-se ao espaço como um abutre de amplas azas e o seu grande vulto, rolando pelo ar, parecia vir da eternidade, na primitiva condemnação! Sobre a mole granitica impellida pelo seu desespero, esmagaram-se-lhe as carnes e os ossos! O sangue espirrou, tingindo de vermelho a relva circumdante. Era tudo quanto restava, d'uma paixão desesperada e selvagem!...

A manhã de primavera, tranquilla e sumptuosa de luz, alegrava montes e campinas. Enfeitavam as encostas, o codeço e o tojo, rebentados d'entre as penhas, cuja negrura avivavam d'amarello. As myriades de flôres dos urzaes, formavam tufos d'aljofares e d'amethystas nas aridas córgas. O feto novo era como uma extensão de relva, pelo verde claro. O modesto trevo e o alegre malmequer, salpicavam a terra. Gottas d'orvalho como lagrimas, rebrilhavam penduradas das flôres da giesta. As mattas silenciosas iam acordando com o gorgeio dos passaros. Nos fundos abysmos das montanhas, formavam lagos os pardacentos nevoeiros. Passado o primeiro momento de susto, os rebanhos continuarama retouçar nas hervas, diante da gloria do sol deslumbrante. As aguias pairavam magestosas, ao longe, sobre os mais altos cumes. Toda a natureza palpitava e se engrandecia, sob a acção impulsiva do calor. Nas serras, nas brandas, nos ribeiros, nos cabeços, nos valles... uma tranquillidade pathetica de vida natural. Sobre os telhados das aldeias levantavam-se os fumos domesticos, brandamente, como fumos de incenso sobre os altares. Em volta a muda altivez da soberba e impassivel montanha!...

Só uma voz lamentosa se ouvia na socegada amplidão: era a do rafeiro, o amoravel Rabicho, que em redor da Pedra, chorava a pobre Tonia.

E chorava a cortar a alma, como se fôra um christão, ganindo, uivando, aos saltos em volta dos cadaveres!... Amoravel rafeiro, pobre Tonia, desgraçados amantes!... Ah!...

Lisboa—Novembro de 1888.


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