VOLTOU...

VOLTOU...IBons velhinhos os que moram n'aquella casa! N'este domingo sereno de março, lá se veem sentados á porta, com o sorriso dos modestos e felizes a florir-lhes no rosto; tem as cabeças protegidas contra o mal da soalheira e os pés, fóra dos tamancos, para os aquecerem. A veiga, onde pastam bois, é tranquilla; a subida da encosta, onde rebentam urzes e codeçaes, está vistosa. Aquelles bons companheiros, casados ha cerca de cincoenta annos, tem um para o outro o mesmo olhar confortativo e amoroso do tempo de moços. Miguel conserva impressa na retina a imagem de quando Luiza era nova: não lhe percebera o nascer das rugas; nem o desmaiar da pelle;nem a queda dos dentes, que no riso ainda lhe appareciam como uma fiada branca e egual de rosario de pinhões. Os cabellos (talvez pela vista enfraquecida) eram as mesmas longas tranças, negras e colleantes, como lampreias no fundo de rio arenoso. O corpo de sua mulher mantivera para elle, sempre, a mesma puresa de linhas—consolidara-se na graça e gentilesa da juventude, não o tinham abandonado os elementos de frescura e mocidade.De egual modo, Luiza, via seu marido. Quem estava ali, a seu lado, com os joelhos ao sol e o lenço de Alcobaça na cabeça, era o mesmo rapaz valente, trabalhador e sadio, ligeiro como um lobo, que a namorara quando ella tinha vinte annos. Nem as molhadellas lhe tinham engrossado as articulações com o rheumatismo, nem as barbas e cabellos eram da brancura de linho sedoso, mas acastanhados e lustrosos como outr'ora. Não tivera a edade poder para lhe diminuir a vista: logo que o emperramento das pernas passasse, vel-o-hiam como o primeiro malho nas eiras, a primeira enxada no morder da terra, a melhor roçadoura para derrubar silvedos. Ella que o amparava da cama até a lareira e da lareira até ao sol, vivia na fé de que o seu Miguel tornaria a ser o mais celere e desembaraçado homem de todas as redondesas para atracar um touro que fugisse em descampado, para vencer, d'um pulo, o ribeiro da freguezia, para pôr em debandada uma feira de troquilhas bulhentos. Não o vira ella ludibriar magotes deadversarios, ora afastando-os para longe com um talho de varrer, ora safando-se-lhes com um salto, para fóra da muralha da gente com que o cercavam? Assim mesmo, meio entrevado, ainda se não poderiam chegar a elle, nem tres, nem quatro pimpões, se Miguel tivesse nas unhas o seu pau de carvalho e estivesse bem encostado a uma parede para só poderem atacal-o de frente. Experimentassem, querendo, e ver-se-hia se ella não dizia a verdade.Á porta da casa estavam ambos silenciosos, n'esse secreto e intimo goso d'uma perpetua conformidade moral, imaginando-se na força do sentir e sem recearem a morte que podia separal-os, levando um e deixando o outro a vaguear no mundo, n'uma existencia de lamentos e saudades. Não pensavam n'este horror, visto que no céu havia um Deus, justo e bom, que não permittiria tal iniquidade. D'aquella somnolencia feliz, despertou-os o padre Clemente Carvalhosa, que ora vinha pelo estreito caminho rente á casa de Miguel.—É o senhor cura—disse Luiza, falando como se só comsigo falasse.—Ah! hoje demorou-se mais. É que os rapazes não sabiam a doutrina. Calaceiros!...—pronunciou o velho, sem levantar os olhos dos joelhos.O sacerdote adeantava-se com o seu habitual arbenevolente. A batina ecclesiastica dava-lhe solemnidade ao parecer, e só o passo energico era signal de que não vinha em boa disposição de espirito. Luiza, logo que o viu á voz, levantou-se para o saudar; Miguel que tinha, ao lado o pau a que se amparava, ia a fazer o primeiro esforço para se erguer, quando o cura, já com a mão na cancella para entrar, disse alto:—Eh! lá! Para doentes não ha ceremonias!...—Muito bom dia, senhor. Hoje mais tardinho. Os rapazes não a sabiam, está de vêr...—É verdade—informou o Carvalhosa com voz irritada. Talvez peior que no domingo passado e estamos no fim da quaresma.—Uma palmatoria senhor! Olhe que isso não vae sem lhes doer.—E é que o faço!—asseverou com energia o ecclesiastico. Se me obrigarem a sahir de mim, irá o diabo n'aquella sachristia.—Vossa Senhoria não é capaz d'isso...—opinou ironicamente Luiza.—Não sou capaz!? Estás enganadissima! É que vocês nunca me viram pelo lado do forro. Se me volto do avêsso, vae ahi o dia de juizo.Miguel offerecendo-lhe o bordão de paralytico aconselhou:—Com este é que elles se ensinavam. Já lá andam taludos, dos que não vão a palmatoria.—É o que elles mereciam, é—applaudiu Luiza.—Isso tambem não, mulher!—entendeu o cura.Um pau molesta de mais, pode fazer sangue ou quebrar algum osso. É bastante uma palmatoria puchada com valentia, como eu o sei fazer. Mando logo chamar o Corcunda para lh'a encommendar. Deixa que se elles virem, pendurada na sachristia, a santa Luzia de cinco olhos, não tornam a apparecer sem trazerem o recado na ponta da lingua.—Vossa Senhoria—commentou o Miguel—para essas coisas de bater... O senhor abbade, quando por ahi vinha, sabia-os tosar melhor, se os garotaços faltavam á obrigação...O Carvalhosa retomou a sua energia:—Estás parvo, homem! A questão é fazerem-me chegar a mostarda ao nariz. Mas vamos ao que serve—disse mudando de tom.—Do vosso Luiz, não tem havido noticia nenhuma... nenhuma?...—Nenhuma... nenhuma...—responderam os dois n'um unisono triste.—E tendes perguntado?—Se temos!—disse Miguel. Sempre que sei de alguem que chega do Brazil, se as dores das juntas me dão licença, lá vou ter com essa pessoa... Mas até agora nada, nada!...Luiza commentou chorosa:—São terras onde ha animaes que comem gente!... Quem sabe se alguma serpente me deu cabo d'elle...—É celebre!—entendeu o cura. Eu tambem tenho feito esforços para saber noticias, mas tudo em vão!... É celebre! Pois ainda ha dez annosvos mandou o dinheiro com que arranjastes esta casa e comprastes os bens por ahi abaixo e não torna a dar accordo de si! É celebre! muito celebre! Quem será o ladrão que disfruta, a esta hora, o que elle tanto lhe custaria a ganhar! Sim, porque elle fortuna havia de ter ganho!—Isso é o que menos importa—interferiu Luiza. Aqui ha que farte para elle e para nós. O que queriamos era vel-o vivo e são.—Pois apega-te com Nossa Senhora da Boa Viagem, que ella t'o trará. Eu vou-me até casa que são horas de minha irmã ter o caldo na tigella. Adeus e devoção, Luiza.—Ah! isso tenho eu, senhor! Promessas e resas olhe que as faço todos os dias.IIHavia muitas pessoas na freguezia que se lembravam da partida do filho do Miguel. Era um rapasinho carinhoso, serviçal e bem comportado. Delgado de corpo, tez morena, sorriso sempre conformado, fazia gosto vel-o ajudar á missa; porque procedia com grande promptidão e esmero. No caracter era a mãe, sempre boa e humilde; no desembaraço o pae, sempre agil e resolvido. De quatorze annos não havia, por ali, outro para mandar á villa n'uma pressa de chamar o medico ou buscar um remedio. Quer fosse de dia ou de noite, quer os caminhos estivessem cheios de neve ou de lama, o Luiz nunca se escusava, nunca procurou uma desculpa. Nem o medodo lobo, nem o das trovoadas o impedia de ser prestimoso. Miguel todo se ufanava com este brio do rapaz, e com a atmosphera de sympathia de que o via cercado. E quanto a estudo? Isso dizia o mestre que nenhum lhe levava a melhor nos desafios á taboada, e na doutrina. Até era uma pena não ser possivel ordenal-o em Braga, para um dia vir ali dizer uma missa nova, e verem-no do pulpito lançar a voz da religião. Porém, o Luiz, ainda que o podesse conseguir com esmolas, lá para essa vida de padre não o chamava a inclinação e toda a sua idéa era embarcar, para tirar seus paes da pobreza em que viviam e da labuta constante em que se amofinavam. Apesar do Brazil ser a commum ambição da gente d'aquella provincia, isto não tinha prognostico favoravel das pessoas que lhe conheciam o genio perdulario, o gosto que fazia, já em creança, em dar tudo que possuisse. Um pedaço de pão e presigo com que lhe pagassem qualquer serviço prestado, logo o repartia com os rapazes da sua egualha, ou com algum pobre que encontrasse, ou mesmo com qualquer cão esfomeado que estivesse a olhar para elle quando comia. E não era porque em casa lhe sobrasse, pois Miguel, n'esse tempo, tinha mais tres filhos vivos e era elle só a trabalhar, moirejando nas terras que são ingratas para compensar o esforço rude do homem, que só tem a sua enxada para as servir. Estava na indole de Luiz dar tudo, repartir com quem quer que fosse. O coração não lhe soffria o possuir coisa de queos outros não compartilhassem. Os unicos motivos de zanga de sua mãe para com elle, vinham de conhecer que lhe roubava pão para os pobres que passavam, quando ella não tinha bastante para si.—Tu és tolo, rapaz!—reprehendia-o. Vês que esta fornada me não chega até á outra, e tiras-me a brôa da masseira! Olha que ainda podes andar como esses mandriões de pedintes, que só tem por seu mal, não se quererem achegar ao trabalho.Luiz ficava triste, por, a santa creatura que era sua mãe, não comprehender o intimo goso que elle sentia em fazer bem. Amargurava-o esta idéa, pois não admittia maior consolação do que a de dar, mesmo aos que não tivessem necessidade. O rosto de agradecimento que os beneficiados faziam ao receber, era o premio unico a que aspirava. Mas havia mais alguma coisa n'este animo dadivoso: era o pouco geito de possuir em proprio, o que quer que fosse. Angustiava-o a preoccupação de guardar. Viver sempre na abstracção, na inconsciencia do que valem as coisas materiaes, era a caracteristica do seu coração. O prestar serviços sem idéa de interesse ou recompensa completava-lhe a indole bondosa. Sua mãe estava sempre a prégar-lhe:—Nunca hasde juntar coisa que se veja. Como é que tu queres ir para o negocio com esse genio?E porque assim o entendiam todos na fregueziae os proprios paes, é que muito os maravilhou o receberem, na pobre casita onde os dois velhos moravam e viviam sós, a visita d'um amigo de Luiz, que lhes trazia uma ordem para receberem no Porto uma grande somma de dinheiro—uma somma, para elles tamanha, que os lançava repentinamente na opulencia. Porém, Luiza, ao apparecimento d'esse senhor todo aceiado, já homem grisalho e enegrecido na pelle da face pelas soalheiras dos sertões brazilicos, não se importou nada com a riqueza que elle annunciava e tomando-o como o precursor de seu filho, logo inquiriu:—E o senhor conhece-o, o meu Luiz? Está um homem assim alto como é o pae? E quando é que o temos a consoar com a gente?A todas as perguntas o mensageiro respondeu de maneira a arrancar-lhe lagrimas de contentamento. Miguel que, chamado, viera offegante da labuta dos campos, perguntou, primeiro que tudo, em voz meia reprehensiva, mas cheia de coração:—E elle não tem idéa de vêr a gente antes que nos levem para a cova? A riqueza estimamol-a muito; mas antes queremos a companhia.O amigo de Luiz enterneceu-se com esta insistencia e consolou os paes fazendo-lhes graciosamente promessas para que não estava auctorisado. O dinheiro enviado era o melhor signal de que o filho os visitaria em breve—disse. Trazia tambem recommendação de lhes lembrar que transformassema casa de moradia para o receberem condignamente, e de que empregassem o restante na compra de algumas terras, que lhes garantissem uma mediania repousada e sem cuidados.—Isso—confessou Miguel—até vem a calhar, porque andam em bocca de venda estes bens aqui em redor.Para designar a grandeza das terras estendeu pela encosta que descia brandamente até ao ribeiro, um olhar commovido, acompanhado d'um gesto de opulencia. Fôra esta a ambição de toda a sua vida. Muitas vezes, só com Luiza, quando junto da lareira comiam o magro caldo da ceia, elle reprimia o prazer que o filho lhes daria se enviasse dinheiro para comprarem aquelles campos, que toda a vida haviam cultivado como caseiros. Era o seu suor d'elles accumulado sobre a terra, que os fazia fructificar e lh'os tornava queridos, como uma parte viva e nobre da propria existencia. Possuir a bella quinta que em volta do seu pequeno eido se estendia, abrir a agua das poças com a arrogancia de proprietario, levantar as videiras com a certeza de que eram seus aquelles braços flexiveis, e ao enterrar a enxada na terra negra e humosa sentir a convicção de que remexia no que ninguem lhe podia disputar, de que preparava o solo para resultados que não partilharia com outrem, era o maior goso que a boa fortuna podia trazer a Miguel. E tamanha commoção os dois manifestaram, na sua mudez, deante do hospede,quando designaram com o olhar essas terras, que o recemchegado perguntou:—São estes os bens que vocemecês trazem de casa?—Sim, senhor, aquelles mesmos em que Luiz trabalhou comnosco, indo á soga dos bois, quando lavravamos. Elle falou-lhe n'isto?A um signal affirmativo, os consortes, choraram copiosamente. Até parecia mal ver um homem sadio e forte, como era então Miguel, limpar os olhos á grosseira estopa das mangas da sua camisa e soluçar com a cara escondida. Porém aquelle contentamento era mais forte do que elle; em coração humano não presumia outro egual. Para se desculpar, perante o amigo de Luiz, ia dizendo por entre lagrimas:—O senhor não pode comprehender o que isto é. Se soubesse o que me vae cá por dentro... Estou capaz de estoirar de alegria.O feliz mensageiro sentia-se transitoriamente envolvido na mesma atmosphera de felicidade que respiravam os dois casados. Ligando-os a si n'um só abraço disse:—O que desejo é que por muitos e largos annos gosem o que tanto amam, e que isto seja na companhia de seu filho, que estou certo se não demorará muito.Depois combinou com elles a maneira de receberem o dinheiro que estava no Porto, á ordem de Miguel. Para lhes facilitar a empresa já tinha tractadoda transferencia da quantia para a villa proxima, onde da mão de negociante honrado podiam recebel-a toda d'uma vez, ou parcelada, conforme melhor conviesse. N'esse mesmo dia, Miguel acompanhou o amigo de seu filho para pessoalmente ajustarem com o tal negociante o recebimento em questão.IIIEste notavel successo trouxe á memoria dos do logar o bom rapasinho que Luiz sempre fôra; como era geitoso no ajudar á missa, como, com desinteresse sympathico, se prestava a servir toda a gente. Não podia deixar de ser feliz, quem logo no começo da vida se mostrara tão diligente e bondoso. Deus, que é justo, ajuda de preferencia aquelles que o merecem, os que desde o principio se mostram attentos e respeitosos pelas coisas da religião. Entendiam-no assim e mostravam como exemplo d'isto a fortuna que acompanhara Luiz para poder alegrar a existencia de seus paes, garantindo-lhes um magnifico bem-estar, e proporcionando-lhes o goso de possuirem as terras que sempre haviam trabalhado.A proposito recordavam o bello dia de maio em que elle partira. Muitos faziam o apparato de mencionarem meudas circumstancias, que agora representavam como se as tivessem deante dos olhos. Repetiam palavras, apontavam pessoas, e reproduziam detalhes. Que formoso sol o d'esse tempo! como elle aquecia o corpo e alegrava o espirito! O padre Clemente Carvalhosa, já então curava a freguezia e, por assim dizer, era o parocho, pois que o verdadeiro estava frequentemente em Braga, junto do senhor arcebispo de quem era amigo, e havia annos que por ali não apparecia. Como Luiz não tivesse vocação para o estado ecclesiastico, fôra o Carvalhosa quem influira para o mandarem para o Brazil, ver mundo, fazer-se homem, ganhar a riqueza com que voltasse a engrandecer a sua familia e a sua terra. Se o bom velho fosse egoista, forcejaria por conserval-o para o ajudar á missa, tratar das coisas da egreja e auxiliar o mestre escola. Mais tarde poderia mesmo conseguir-se que ficasse substituindo José Fortunato, o que era alguma coisa de representativo. Porém, reconhecendo que aquella intelligencia naturalmente viva se acanharia na estreiteza d'uma aldeia, o bom cura é que promoveu, entre a melhor gente da freguezia, uma colheita de donativos para vestirem o Luiz do Miguel e pagarem-lhe a passagem para esse Brazil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a bondade dos fructos que alimentam o homem. Sentia nofundo do seu generoso coração, que era uma boa obra a que emprehendia. Quem sabia se não estava trabalhando para o esplendor das festas da sua egreja, para reformar e accrescentar materialmente a riqueza do templo, attenta a vocação que Luiz mostrava para as coisas santas? Não seria amesquinhar as bellas promessas de caracter de rapaz tão bom, tão docil, tão intelligente, o prendel-o entre aquellas montanhas de limitado horisonte?—Mas, senhor,—entendia a mãe—olhe que elle para conservar dinheiro não lhe serve. Quanto ganhar, quanto dá!—Cala-te, mulher,—contestou Miguel—deixa ir o rapaz que no mundo é que elles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor cura é que diz bem.Aquelle que assim falara com desapego, é a quem mais custou o desprender-se de Luiz, no assignalado dia da partida, n'esse bello maio em que o sol aquecia o corpo e alegrava o espirito d'um modo differente do actual. Luiz com o seu caracter submisso ia de vontade; mas não tinha n'essa occasião, propriamente idéa de ambição ou opulencia, nenhum proposito de no futuro deslumbrar os simples da sua aldeia. Commovido e sem fala, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, como pingos de seiva d'uma arvore quando chora. Se seu pae se não podia desagarrar d'elle, tambem elle se não podia desagarrar de seu pae, nem de sua mãe,nem dos rapazes que ficavam. No fundo da sua retina estampara-se indelevelmente e para sempre, toda aquella paizagem da sua alma—a modesta egreja, com o campanario exterior d'um só sino; o musgo das paredes dos caminhos estreitos; a largura dos campos onde rebentava a herva; a sobranceria dos montes altos, artilhados de penedias temerosas! Sentira que a alma, n'esse dia de sol encantador, se lhe dividira em duas partes: uma ali ficava pendurada dos galhos das arvores que se enfolhavam, dentro da pobrissima casa onde nascera, e nas encostas a escutar o gemer das fontes e dos regos d'agua; a outra, a mais dura e resistente levava-a comsigo. O cura Clemente Carvalhosa, ainda no vigor da vida e saude, abençoara-o no limitte da freguezia, até onde o acompanhara, e n'esse momento, Luiz, supplicante e com as mãos erguidas pediu-lhe:—Quando a Russa tiver a cria, senhor, peço-lhe que a deixe crescer e que a não venda, que eu mando dinheiro para a pagar.A Russa era a egua do cura. O rapasito tinha-lhe grande affecto, adquirido no habito de a levar a beber, e de a acompanhar quando o sacerdote ia para algum officio, no que substituira o creado Simão.Na villa é que se apartou de sua mãe e de seu pae, pois d'ali em deante seguia na companhia d'outros emigrantes que levavam identico destino. Na volta, a excellente Luiza, veio considerandose aquella dôr que soffrera no apartamento incluiria a redempção da sua pobresa. Valeria a pena tental-a, para quem desde o nascimento fôra destinada á vida do trabalho e das privações? Quando ella o dera á luz, bem como aos outros que lhe tinham morrido de bexigas, já fôra na perspectiva de os prender á terra negra, cavando-a com a enxada, para d'ella tirarem o pão duro de que se alimentariam. Isto era a vida assente na pobreza e conformidade: o que Luiz ia buscar longe, o que seria? Com os olhos razos d'agua, a pobre mulher, só percebia o esbatido d'um mar ennevoado e sem fim, a negrura d'um mysterio lugubre que formava esse porvir incerto...IVNos primeiros tempos d'ausencia, receberam frequentes cartas repassadas de affecto e saudade, ás vezes com signaes de lagrimas que ennodoavam o papel a ponto de se tornarem inintelligiveis algumas palavras. Porém, passados tres annos, a correspondencia cessou quasi de repente e espalhou-se o boato de que Luiz morrera, sendo depois isto desmentido por outros dizeres, egualmente sem base. N'estas alternativas, de luto e contentamento, passaram-se os dias longos e as noites infinitas, limitando-se os dois paes a reverem-se no seu passado, modesto e feliz, acreditando Miguel na eterna formosura de Luiza e esta no garbo e valentia perpetua de Miguel. Até que um dia chegou esse bom mensageiro, que lhes trouxe os meios para reformarema moradia e comprarem as terras, e com este facto lhes voltou a esperança, sempre risonha e carinhosa, de que seu filho havia de chegar em breve. Além das palavras de bom agouro, que o desconhecido deante d'elles pronunciara, receberam, logo após, carta de Luiz, em que lhes falava com ternura do possivel regresso e insistia especialmente na velhice tranquilla e abastada que procurava garantir-lhes. Porém, depois d'este promettedor acontecimento, que lhes deu annos de prazer emquanto reedificaram a casa, levantando-lhe um andar, emquanto plantaram videiras e enfeitaram a quinta, com arvores novas e um bello muro em volta; Luiz nunca mais escreveu, estabelecendo-se completo silencio, similhante ao primeiro que parecera de morte definitiva. Fartou-se o padre Clemente Carvalhosa de lhe escrever sentidas cartas, falando de tudo quanto podia haver de mais amoravel e terno no coração: a velhice dos paes, que não poderiam aguentar-se por muitos annos; a commodidade da habitação, que elles tinham arranjado ostentosamente para o receberem; a belleza e transformação dos campos em que elle labutara e brincara quando creança. Até lembrava a recommendação, que Luiz fizera no dia da partida, para não vender a cria da Russa: a esse proposito notificava-lhe que, tanto esse animal como a mãe, haviam morrido de velhos, em grande tranquillidade e ventura; mas que na mesma côrte da residencia havia outra egua descendente da segunda,que era a estampa viva das saudosas extinctas. Nenhuma d'estas amoraveis e longas dissertações teve resposta, o coração de Luiz tinha-se de certo ressequido, pois já não vivia para tão commoventes memorias. Receberia elle as cartas? Não lhe seriam entregues por ter mudado de terra?!... É no que assentavam, afastando sempre a hypothese da morte, como castigo cruel e immerecido. Mas ao fim d'um crescido periodo de annos, sem noticias de nenhuma especie, experimentados por muitos e successivos desenganos, atormentados pelos pensamentos negros que traz a velhice, Miguel disse, um dia, em voz sumida, para não assustar a companheira:—Talvez elle morresse... talvez....Quem sabe?! Ha diversas maneiras de morrer. O corpo póde andar, no mundo, aos solavancos e encontrões, e ter desapparecido a vida com a alegria da alma. N'este domingo de março soalheiro, os dois velhos estavam á porta de sua casa, serenos e meditativos, mas conformados; foi o bom cura que lhes veiu incautamente turvar o coração, recordando-lhes o filho morto, ou eternamente desapparecido, o que para elles valia o mesmo. E quando ambos retomavam a tranquillidade em que estavam antes da chegada do sacerdote, ficando mudos, com os pés extendidos ao sol e a cabeça resguardada para que o calor os não adoecesse, sentiram passos no caminho que bordeja a quinta e viram que um estrangeiro se encaminhavapara elles. Quem seria? Era um homem andrajoso, qualquer viajante pobre em caminhada para longe. O seu aspecto de miseria commovia... Trazia as botas cambadas, a camisa suja, as calças roidas; n'um saquito enfiado n'um pau, levava ás costas, toda a sua riqueza. Que ar esmorecido e doente! que longa barba mal tratada! como vinha dorido dos pés! Ao approximar-se da cancella, que dava ingresso no quinteiro, parou saudando com o chapeu esburacado. Miguel, com vista mais fraca do que Luiza, perguntou a esta:—O que é?O recemchegado é que respondeu em voz de cançado:—Um pobre viandante que pede uma sede de agua. Dão-m'a senhores?A velha disse com expressão de carinho:—Entre, faz favor?... Quanta agua quizer!...Não mostrou medo, nem repellencia, nem suspeitas d'aquelle homem roto, que podia ser um ladrão assassino. Foi ella mesma que veiu levantar a caravelha da cancella, para que elle entrasse, pois que o via sem forças para tão pouco... Conhecia-se que estava enfraquecido pela fome e pela longa jornada. Quem seria este misero de aspecto tão soffredor? Algum d'esses infelizes que vivem afastados durante muitos annos de todas as affeições e carinhos, e voltam ao seu lar depois de longa e dolorosa penitencia. O recem-vindo sentou-se n'uma tosca pedra que estava perto de Miguel,pousando ao lado o pobre saquito, que era a sua riqueza. O penoso suspiro que do peito lhe sahiu ao descançar, condensava, de certo, uma vida aspera de soffrimento e exprimia talvez o desejo d'um periodo de socego, ainda que fosse na sepultura. Quando Luiza veiu de dentro de casa, com a malga, branca de jaspe, cheia d'agua limpida e fresca, elle tomou-a nas duas mãos, emborcou-a com satisfação, tendo no fim de beber um respirar de saciedade. Os seus olhos amortecidos pela desgraça, tiveram brilho carinhoso e contente ao restituir a malga. Agradeceu este favor com um sentimento que lhe veiu do fundo d'alma:—Deus-lh'o pague!—disse.Conservou-se silencioso durante muito tempo, a cabeça curvada para o peito, como um vagabundo que na alma procurasse o seu destino. Os dois velhos contemplavam-no compadecidos: nos seus corações amoraveis e bons apparecera um sentimento de infinda piedade. Não tinham elles tambem um filho, que assim andava perdido no mundo, vagueando por longes terras? O bem que elles, a este desconhecido, podessem fazer, outrem, no ponto distante onde estivesse Luiz, o retribuiria, soccorrendo-o se elle necessitasse. Com o instincto dos que são captivos do infortunio alheio, advinhavam que junto d'elles estava um infeliz precocemente avelhentado. Não procuravam, com perguntas desnecessarias, perturbar-lhe a paz que elle parecia ter encontrado sentando-se n'aquellapedra, a olhar meditativamente o chão do quinteiro. Adivinhavam-lhe, pelo aspecto, soffrimento que na sua vida obscura e modesta, elles nunca tinham sentido. Por esse mundo fóra, as desgraças engrossam, ás vezes, tão rapidamente, como o ribeiro que passa no fundo da aldeia, quando recebe as torrentes pluviaes, vindas a roncar pelas encostas e pelos caminhos. Que significaria o silencio dolorido d'este desgraçado, que nos restos do seu vestuario deixava perceber signaes de que no mundo tinha sido alguma coisa mais do que aquillo que ora apparentava?!...O viandante levantou lentamente a cabeça. Primeiro fixou a vista agradecida, amoravel e sem reservas nos que lhe tinham morto a sêde. Apesar da estranheza d'aquelle semblante, não causou aos dois velhos impressão, de que fosse o de algum doido que andasse desgarrado pelos caminhos da aldeia. O seu olhar era absorto, mas tranquillo e bondoso. Ainda que estranho ali, não lhes causava receio, nem pavor. Ao contrario: do imo da sua sensibilidade subia-lhes, a favor do misero, um formoso grito de benevolencia e compaixão. Aquella testa sulcada pela desventura, o rosto macerado pela desgraça, dizia alguma coisa de pacifico e sublime, como a luz sahindo de entre nuvens caliginosas no meio de rude tempestade. Os dois septuagenarios reconheciam que a apparição de tal infortunio estava tomando sympathico logar na sua pacifica existencia... «Este desconhecido—pensavam—ainda que em qualquer tempo de sua vida, tenha sido mau e perverso, agora só parece ser desventurado!» Isto originara-lhes no seio a mesma piedade que sentiriam se áquella casa se viesse recolher um lobo ferido, ou mesmo, se um abutre lhes cahisse exanime junto da capoeira de que fôra o flagello. Esses animaes, tantas vezes escorraçados com alaridos de colera, teriam elles animo de os acabar, quando os reconhecessem indefezos e supplicantes nas vascas da morte?! Não: o findar da vida merece sempre compaixão; a desgraça redime de todas as culpas perante os corações bons e sensiveis.VMas este pobresinho não era perigoso e não poderia nunca ter sido perverso: tamanha era a uncção maguada e soffredora que exprimia o seu rosto retalhado pelas rugas, o seu olhar extincto pela longa miseria! Havia n'elle tanta meiguice e affecto que só lhes provocava misericordia e caridade. Se o pedisse não lhe recusariam agasalho em sua casa. Que valia um logar junto da lareira, uma manta para cobrir os lassos membros sobre um pouco de colmo, uma tigella de caldo para aconchegar e fortalecer o estomago? De mais tinham elles, sem pessoa a quem o legassem. Uma obra de misericordia, offerecida por intenção d'aquelle que lhes dera o bem-estar de que gosavam, era actomeritorio que lhes consolaria o espirito e teria certo apreço perante Deus. Uma voz interior affirmava-lhes que ali estava um infeliz digno de piedade: e sem muito saberem porque, ia-lhes dispertando sympathia o sorriso lento que na sua expressão se abria, á maneira que contemplava os dois velhos, que examinava a casa toda caiada de fresco, a latada que cobria o quinteiro, e o saudavel aspecto dos campos da propriedade em redor. A horta, ali mesmo ao lado, estava opulenta de couves e grellos; as borbulhas das videiras principiavam a engrossar; a temperatura era tepida e carinhosa; o misero parecia respirar, n'este ar, felicidade nova e paradisiaca. Similhava um cego, desde muito privado do goso da vista, que readquirindo-a de surpreza, entrasse gradualmente n'um periodo de enthusiasmo lento; ou então, o homem que recolhido, por longos annos, em lugubre masmorra, fosse restituido á liberdade e á luz durante um somno, achando-se incredulo pela ventura reconquistada.Este silencio demorado, e o demorado exame que o estranho estava fazendo de tudo quanto em volta se via, principiava a enredar em pensamentos vagos Luiza e Miguel. Primeiro passeara em volta com os olhos do corpo; mas depois, uma alegria crescente, lhe fôra desabrochando no rosto escalavrado, a custo, como rebenta a bonina em terreno duro. Os velhos, apesar de suggestionados por aquelle todo de bondade e infortunio, houveum instante em que na mente lhes passaram receios, julgando-se agora na presença d'um louco. Pois que podia significar esta mudez, quasi familiar, da parte de quem ali era estranho e entrara sob pretexto de pedir uma sêde d'agua? Não se atreviam a interrogal-o, pois grande é a timidez da decrepitude. Annos antes já tudo estaria aclarado: pois que Miguel sempre fôra homem de grande desembaraço e não teria papas na lingua para perguntar quem era e o que queria do mais. Agora, porem, a edade e o corpo paralytico influiam no acanhamento do animo. Os septuagenarios entreolharam-se, volvendo ambos, depois, a vista para o peregrino ao qual Luiza disse:—Parece gostar muito d'este sitio...—Oh! muito!—exclamou. Tudo isto lhes pertence?Circumdou de novo o olhar pelo eido e pelos campos, extendendo-o até ao pinhal que se erguia n'uma ligeira collina.—Em quanto Deus quizer—respondeu Miguel. E vocemecê d'onde é? para onde vae?O desconhecido teve no rosto uma expressão de infinita paz e tranquilidade, que não deu idéa clara do seu pensar e destino. Sorria ligeiramente, com a incomparavel doçura d'uma creança a sonhar. Olhou os dois como se olham amigos e, Miguel, animado por esta expressão confortativa, ponderou:—Sim; porque vocemecê ha de ter por força uma terra...—Tenho, tenho uma terra...E ficou attento para o chão inculto do quinteiro, como se sentisse difficuldade em designar o ponto do globo, onde essa terra se talhava.Recahiu no silencio carinhoso que até ali conservara, mas com rosto tão aberto em bondade que, de todo, deixou de causar receios. Examinou a limpeza da casa em que os velhos moravam, e pensou na conformidade de existencia que dentro d'ella se passaria. Reinava, decerto, n'aquelles entes, a feliz paz da consciencia; desconheciam as perturbações agitadas da vida das cidades. Não pensavam em alardes, nem tinham ambições: talvez durante todos os seus annos, nem uma só noite tivessem abandonado aquella ditosa morada. Quem sabe o que o estrangeiro estaria calculando na sua mente, que pensamentos de felicidade o estariam a encantar!?... Talvez, depois de vida desventurosa, viesse encontrar n'aquelle quadro simples o primeiro refrigerio para as suas dores, a primeira idéa clara do que é a ventura. Os pacificos septuagenarios, pareciam comprehender, que o seu viver ditoso estava reconfortando a alma do misero que tinham na sua presença. Além de não ser rasoavel negarem-lhe um tal balsamo, encantava-os que assim fosse. Por isso, orgulhosos da sua modestia, deixavam que o homem andrajoso tudo apreciasse, sorridente e sem inveja. A casa juncto da qual se encontravam tinha aspecto de nova, as janellas com vidraças viam sobre a latada do quinteiro, o alpendre,debaixo da varanda deitava para o lado do caminho, uma escada exterior mostrava ingresso ao andar de cima—accrescente feito para a chegada de Luiz, se a Deus prouvera, guial-o um dia para ali. Como fossem inimigos de grandezas, apesar da casa assim reformada, nunca abandonaram a parte terrea conservando ahi a sua moradia. A cosinha, á porta da qual estavam, era a mesma em que viveram com os filhos; ao lado havia o quarto soalhado em que dormiam agora, como sempre. As transformações n'este pavimento consistiam em que o que d'antes fôra côrte de gado servia agora para adega, salgadeira e casa de recolher a lenha no inverno. Ao fundo d'um telheiro, armado cá fóra, é que guardavam as duas juntas de nedios bois, os mais bellos do logar. O chiqueiro do porco e a capoeira das gallinhas ficavam encostados ao muro, rente com a casa. Tudo designava certo bem estar, conforto, e até opulencia, dentro da modestia de camponezes.Para onde iria o infeliz, que tinham deante dos olhos não o sabiam, visto que elle o não quizera dizer; mas o que sentiam, com a intuição das almas simples, pouco habituadas a luctas, é que sendo a sua figura, quando o viram entrar a cancella, a d'um infeliz retorcido pela miseria, agora, ao fim de pouco tempo, e depois de reconfortado na contemplação de todas aquellas coisas bem arranjadas, parecia mais alliviado do soffrimento que lhe alquebrava o corpo e a alma. Era outro, tinha-lhefeito bem o repouso sobre a tosca pedra, refrigerara-o a malga de agua limpida, consolara-o o aspecto feliz dos velhos que estavam ao sol, esperando, n'este santo domingo, a hora do jantar parcimonioso, apesar de na panella haver carne e salpicão que elles ambos comeriam regalados, agradecendo a Deus tamanho beneficio na velhice. Ao quinteiro chegava o suave odor do caldo gordo e fumegante, e não tardaria que Luiza se levantasse para ir á adega buscar o excellente vinho, para o beber de parceria com o seu homem e pela mesma infusa. Como elles seriam felizes, se n'esse bello e glorioso dia podessem compartilhar com o seu Luiz, que uma voz intima lhes dizia ainda viver, este bom jantar! Se tal felicidade lhes fosse dado poderem gozar morreriam contentes, não duvidando de que iriam direitinhos para o céu!VIO descanço sobre a pedra tosca; o sabor da agua com que o tinham alliviado da sede do caminho; o banho de luz e tranquilidade em que todo o seu ser se mergulhara durante longos minutos; e principalmente a ventura que adivinhava na existencia sempre egual d'aquelles casados de tantos annos, haviam transformado em pouco tempo o aspecto do infeliz. Sorvia deleitado o ar que aqui se respirava, sorriam-lhe os olhos na contemplação d'esta paizagem carinhosa e melancolica, desfaziam-se-lhe as rugas da face ao renascer-lhe na alma a alegria que, por certo, n'elle se finara havia muito. Como Miguel o visse mais tractavel e familiar no aspecto, ponderou:—Vocemecê estava tão moido, que decerto vem de muitissimo longe.—Oh! de muitissimo longe!...—repetiu o forasteiro com accento de grande amargura.—Talvez d'essa Lisboa!...—entendeu o paralytico.—Muito mais para lá!...E fez um gesto largo, d'uma amplidão infinita, acompanhando-o com um olhar que fôra até aos confins do mundo.—Do Brazil?—indagou Luiza com ancia e soffreguidão no rosto inquieto.Um simples aceno affirmativo de cabeça, deu resposta á pergunta. E logo os rostos dos dois septuagenarios se alegraram, como se em crepusculo matinal vissem surgir d'entre as penedias o sol nascente. Ao mesmo tempo tiveram a mesma lembrança. «Quem sabe se este desconhecido nos poderá dar noticias do nosso Luiz?!...»—pensaram. Porém, antes de o inquirirem, sustiveram-se n'este pensamento triste: «Como se pode voltar do paiz do oiro, da opulencia e da ventura, assim pobre, mal trajado e n'um aspecto tão miseravel e desvalido!» E Luiza, compadecida, considerou com as lagrimas a rebentarem-lhe:—Então é que não foi feliz, por lá... Nem todos o podem ser...—Nem todos... nem todos...—disse o estrangeiro, apparecendo-lhe no rosto um fulgor de alegria velada por amargura.—E conheceria por lá o nosso filho?...—perguntou a velha.—O seu filho! Tem um filho no Brazil?—indagou, o mal trajado, n'uma voz que se esforçava por ser corajosa e serena.—Temos—esclareceu Miguel inclinando-se para o interlocutor. Chama-se Luiz da Silva; mas lá puzeram-lhe o nome de Luiz da Tóca, por ser o nome d'este logar em que nasceu. Foi e nunca mais voltou—concluiu o velho, por sua vez, com os olhos rasos d'agua.Um rubor de incendio subiu á face do desconhecido, que com fingido esforço, como de quem se recorda disse:—Luiz da Tóca... Luiz da Tóca... Lembro-me muito bem; vivi muito com elle, e somos amigos.No primeiro momento, os velhos quasi se julgaram ludibriados com esta resposta: tão grande era a inverosimilhança do que escutavam! Pois não haviam dado resultado as instantes e repetidas diligencias do cura Carvalhosa, para descobrir o paradeiro de Luiz, e o acaso trazia-lhes ao pé da porta uma testemunha, que em tudo os podia esclarecer! Porém, a crença de seus corações n'uma Suprema Vontade, providencial e divina, era forte, e não duvidaram de que Deus e os santos com quem se tinham apegado, pudessem mais do que o virtuoso sacerdote. O accento de sinceridade com que aquellas palavras foramditas, a expressão de bondade e espontanea satisfação do rosto do homem que tinham deante d'elles, excluiam a possibilidade de qualquer ignobil mentira. O velho Miguel, apesar de meio paralytico, logo se abordoou ao seu pau, para erguer o corpo doente, com a energia dos antigos tempos; mas a commoção tornava-lhe insufficiente o esforço. Mesmo sentado ainda poude dizer:—Pois, o senhor, é que já não sae d'esta casa. Se conhece o Luiz, se é seu amigo, fica aqui comnosco para nos ajudar a saber d'elle e a encontral-o.Luiza, apesar de a lingua se lhe recusar a exprimir tudo quanto lhe ia na alma, attonita como estava, perguntou em voz tremula:—E em que terra encontrou vocemecê o nosso filho? Sabe onde estará agora?O estranho não respondeu logo. A sua phisionomia denunciava excepcional perturbação de contentamento, que os velhos não podiam apreciar por causa da nevoa de lagrimas que tinham nos olhos. Approximando-se, porem, dos dois, que uniu no mesmo abraço, disse soluçante:—Seu filho está aqui, meus queridos paes!...E passada que foi a primeira onda de alegria accrescentou:—Mas venho muito pobre! Só possuo estes farrapos que me cobrem. Se soubessem quanto tenho soffrido!—Pobre!—bradou Miguel com a sua antiga energia, sahindo-lhe a voz do peito, como o ronco d'um trovão do interior d'uma nuvem. Então de quem é tudo quanto aqui temos? Não fostes tu que o ganhastes, homem!?E n'um gesto do seu braço revigorado pelo acontecimento, mostrava a riqueza que havia: a casa afidalgada, a horta abundante, os campos relvados que se extendiam para além, as videiras em promessas de rebentação, e o bello muro que circumdava a quinta todo caiado de novo.Luiza, voltando os olhos ao céu, pronunciou com as lagrimas a correrem-lhe em fio:—Nossa Senhora do Amparo ouviu as minhas rezas. Já podemos morrer em paz.

Bons velhinhos os que moram n'aquella casa! N'este domingo sereno de março, lá se veem sentados á porta, com o sorriso dos modestos e felizes a florir-lhes no rosto; tem as cabeças protegidas contra o mal da soalheira e os pés, fóra dos tamancos, para os aquecerem. A veiga, onde pastam bois, é tranquilla; a subida da encosta, onde rebentam urzes e codeçaes, está vistosa. Aquelles bons companheiros, casados ha cerca de cincoenta annos, tem um para o outro o mesmo olhar confortativo e amoroso do tempo de moços. Miguel conserva impressa na retina a imagem de quando Luiza era nova: não lhe percebera o nascer das rugas; nem o desmaiar da pelle;nem a queda dos dentes, que no riso ainda lhe appareciam como uma fiada branca e egual de rosario de pinhões. Os cabellos (talvez pela vista enfraquecida) eram as mesmas longas tranças, negras e colleantes, como lampreias no fundo de rio arenoso. O corpo de sua mulher mantivera para elle, sempre, a mesma puresa de linhas—consolidara-se na graça e gentilesa da juventude, não o tinham abandonado os elementos de frescura e mocidade.

De egual modo, Luiza, via seu marido. Quem estava ali, a seu lado, com os joelhos ao sol e o lenço de Alcobaça na cabeça, era o mesmo rapaz valente, trabalhador e sadio, ligeiro como um lobo, que a namorara quando ella tinha vinte annos. Nem as molhadellas lhe tinham engrossado as articulações com o rheumatismo, nem as barbas e cabellos eram da brancura de linho sedoso, mas acastanhados e lustrosos como outr'ora. Não tivera a edade poder para lhe diminuir a vista: logo que o emperramento das pernas passasse, vel-o-hiam como o primeiro malho nas eiras, a primeira enxada no morder da terra, a melhor roçadoura para derrubar silvedos. Ella que o amparava da cama até a lareira e da lareira até ao sol, vivia na fé de que o seu Miguel tornaria a ser o mais celere e desembaraçado homem de todas as redondesas para atracar um touro que fugisse em descampado, para vencer, d'um pulo, o ribeiro da freguezia, para pôr em debandada uma feira de troquilhas bulhentos. Não o vira ella ludibriar magotes deadversarios, ora afastando-os para longe com um talho de varrer, ora safando-se-lhes com um salto, para fóra da muralha da gente com que o cercavam? Assim mesmo, meio entrevado, ainda se não poderiam chegar a elle, nem tres, nem quatro pimpões, se Miguel tivesse nas unhas o seu pau de carvalho e estivesse bem encostado a uma parede para só poderem atacal-o de frente. Experimentassem, querendo, e ver-se-hia se ella não dizia a verdade.

Á porta da casa estavam ambos silenciosos, n'esse secreto e intimo goso d'uma perpetua conformidade moral, imaginando-se na força do sentir e sem recearem a morte que podia separal-os, levando um e deixando o outro a vaguear no mundo, n'uma existencia de lamentos e saudades. Não pensavam n'este horror, visto que no céu havia um Deus, justo e bom, que não permittiria tal iniquidade. D'aquella somnolencia feliz, despertou-os o padre Clemente Carvalhosa, que ora vinha pelo estreito caminho rente á casa de Miguel.

—É o senhor cura—disse Luiza, falando como se só comsigo falasse.

—Ah! hoje demorou-se mais. É que os rapazes não sabiam a doutrina. Calaceiros!...—pronunciou o velho, sem levantar os olhos dos joelhos.

O sacerdote adeantava-se com o seu habitual arbenevolente. A batina ecclesiastica dava-lhe solemnidade ao parecer, e só o passo energico era signal de que não vinha em boa disposição de espirito. Luiza, logo que o viu á voz, levantou-se para o saudar; Miguel que tinha, ao lado o pau a que se amparava, ia a fazer o primeiro esforço para se erguer, quando o cura, já com a mão na cancella para entrar, disse alto:

—Eh! lá! Para doentes não ha ceremonias!...

—Muito bom dia, senhor. Hoje mais tardinho. Os rapazes não a sabiam, está de vêr...

—É verdade—informou o Carvalhosa com voz irritada. Talvez peior que no domingo passado e estamos no fim da quaresma.

—Uma palmatoria senhor! Olhe que isso não vae sem lhes doer.

—E é que o faço!—asseverou com energia o ecclesiastico. Se me obrigarem a sahir de mim, irá o diabo n'aquella sachristia.

—Vossa Senhoria não é capaz d'isso...—opinou ironicamente Luiza.

—Não sou capaz!? Estás enganadissima! É que vocês nunca me viram pelo lado do forro. Se me volto do avêsso, vae ahi o dia de juizo.

Miguel offerecendo-lhe o bordão de paralytico aconselhou:

—Com este é que elles se ensinavam. Já lá andam taludos, dos que não vão a palmatoria.

—É o que elles mereciam, é—applaudiu Luiza.

—Isso tambem não, mulher!—entendeu o cura.Um pau molesta de mais, pode fazer sangue ou quebrar algum osso. É bastante uma palmatoria puchada com valentia, como eu o sei fazer. Mando logo chamar o Corcunda para lh'a encommendar. Deixa que se elles virem, pendurada na sachristia, a santa Luzia de cinco olhos, não tornam a apparecer sem trazerem o recado na ponta da lingua.

—Vossa Senhoria—commentou o Miguel—para essas coisas de bater... O senhor abbade, quando por ahi vinha, sabia-os tosar melhor, se os garotaços faltavam á obrigação...

O Carvalhosa retomou a sua energia:

—Estás parvo, homem! A questão é fazerem-me chegar a mostarda ao nariz. Mas vamos ao que serve—disse mudando de tom.—Do vosso Luiz, não tem havido noticia nenhuma... nenhuma?...

—Nenhuma... nenhuma...—responderam os dois n'um unisono triste.

—E tendes perguntado?

—Se temos!—disse Miguel. Sempre que sei de alguem que chega do Brazil, se as dores das juntas me dão licença, lá vou ter com essa pessoa... Mas até agora nada, nada!...

Luiza commentou chorosa:

—São terras onde ha animaes que comem gente!... Quem sabe se alguma serpente me deu cabo d'elle...

—É celebre!—entendeu o cura. Eu tambem tenho feito esforços para saber noticias, mas tudo em vão!... É celebre! Pois ainda ha dez annosvos mandou o dinheiro com que arranjastes esta casa e comprastes os bens por ahi abaixo e não torna a dar accordo de si! É celebre! muito celebre! Quem será o ladrão que disfruta, a esta hora, o que elle tanto lhe custaria a ganhar! Sim, porque elle fortuna havia de ter ganho!

—Isso é o que menos importa—interferiu Luiza. Aqui ha que farte para elle e para nós. O que queriamos era vel-o vivo e são.

—Pois apega-te com Nossa Senhora da Boa Viagem, que ella t'o trará. Eu vou-me até casa que são horas de minha irmã ter o caldo na tigella. Adeus e devoção, Luiza.

—Ah! isso tenho eu, senhor! Promessas e resas olhe que as faço todos os dias.

Havia muitas pessoas na freguezia que se lembravam da partida do filho do Miguel. Era um rapasinho carinhoso, serviçal e bem comportado. Delgado de corpo, tez morena, sorriso sempre conformado, fazia gosto vel-o ajudar á missa; porque procedia com grande promptidão e esmero. No caracter era a mãe, sempre boa e humilde; no desembaraço o pae, sempre agil e resolvido. De quatorze annos não havia, por ali, outro para mandar á villa n'uma pressa de chamar o medico ou buscar um remedio. Quer fosse de dia ou de noite, quer os caminhos estivessem cheios de neve ou de lama, o Luiz nunca se escusava, nunca procurou uma desculpa. Nem o medodo lobo, nem o das trovoadas o impedia de ser prestimoso. Miguel todo se ufanava com este brio do rapaz, e com a atmosphera de sympathia de que o via cercado. E quanto a estudo? Isso dizia o mestre que nenhum lhe levava a melhor nos desafios á taboada, e na doutrina. Até era uma pena não ser possivel ordenal-o em Braga, para um dia vir ali dizer uma missa nova, e verem-no do pulpito lançar a voz da religião. Porém, o Luiz, ainda que o podesse conseguir com esmolas, lá para essa vida de padre não o chamava a inclinação e toda a sua idéa era embarcar, para tirar seus paes da pobreza em que viviam e da labuta constante em que se amofinavam. Apesar do Brazil ser a commum ambição da gente d'aquella provincia, isto não tinha prognostico favoravel das pessoas que lhe conheciam o genio perdulario, o gosto que fazia, já em creança, em dar tudo que possuisse. Um pedaço de pão e presigo com que lhe pagassem qualquer serviço prestado, logo o repartia com os rapazes da sua egualha, ou com algum pobre que encontrasse, ou mesmo com qualquer cão esfomeado que estivesse a olhar para elle quando comia. E não era porque em casa lhe sobrasse, pois Miguel, n'esse tempo, tinha mais tres filhos vivos e era elle só a trabalhar, moirejando nas terras que são ingratas para compensar o esforço rude do homem, que só tem a sua enxada para as servir. Estava na indole de Luiz dar tudo, repartir com quem quer que fosse. O coração não lhe soffria o possuir coisa de queos outros não compartilhassem. Os unicos motivos de zanga de sua mãe para com elle, vinham de conhecer que lhe roubava pão para os pobres que passavam, quando ella não tinha bastante para si.

—Tu és tolo, rapaz!—reprehendia-o. Vês que esta fornada me não chega até á outra, e tiras-me a brôa da masseira! Olha que ainda podes andar como esses mandriões de pedintes, que só tem por seu mal, não se quererem achegar ao trabalho.

Luiz ficava triste, por, a santa creatura que era sua mãe, não comprehender o intimo goso que elle sentia em fazer bem. Amargurava-o esta idéa, pois não admittia maior consolação do que a de dar, mesmo aos que não tivessem necessidade. O rosto de agradecimento que os beneficiados faziam ao receber, era o premio unico a que aspirava. Mas havia mais alguma coisa n'este animo dadivoso: era o pouco geito de possuir em proprio, o que quer que fosse. Angustiava-o a preoccupação de guardar. Viver sempre na abstracção, na inconsciencia do que valem as coisas materiaes, era a caracteristica do seu coração. O prestar serviços sem idéa de interesse ou recompensa completava-lhe a indole bondosa. Sua mãe estava sempre a prégar-lhe:

—Nunca hasde juntar coisa que se veja. Como é que tu queres ir para o negocio com esse genio?

E porque assim o entendiam todos na fregueziae os proprios paes, é que muito os maravilhou o receberem, na pobre casita onde os dois velhos moravam e viviam sós, a visita d'um amigo de Luiz, que lhes trazia uma ordem para receberem no Porto uma grande somma de dinheiro—uma somma, para elles tamanha, que os lançava repentinamente na opulencia. Porém, Luiza, ao apparecimento d'esse senhor todo aceiado, já homem grisalho e enegrecido na pelle da face pelas soalheiras dos sertões brazilicos, não se importou nada com a riqueza que elle annunciava e tomando-o como o precursor de seu filho, logo inquiriu:

—E o senhor conhece-o, o meu Luiz? Está um homem assim alto como é o pae? E quando é que o temos a consoar com a gente?

A todas as perguntas o mensageiro respondeu de maneira a arrancar-lhe lagrimas de contentamento. Miguel que, chamado, viera offegante da labuta dos campos, perguntou, primeiro que tudo, em voz meia reprehensiva, mas cheia de coração:

—E elle não tem idéa de vêr a gente antes que nos levem para a cova? A riqueza estimamol-a muito; mas antes queremos a companhia.

O amigo de Luiz enterneceu-se com esta insistencia e consolou os paes fazendo-lhes graciosamente promessas para que não estava auctorisado. O dinheiro enviado era o melhor signal de que o filho os visitaria em breve—disse. Trazia tambem recommendação de lhes lembrar que transformassema casa de moradia para o receberem condignamente, e de que empregassem o restante na compra de algumas terras, que lhes garantissem uma mediania repousada e sem cuidados.

—Isso—confessou Miguel—até vem a calhar, porque andam em bocca de venda estes bens aqui em redor.

Para designar a grandeza das terras estendeu pela encosta que descia brandamente até ao ribeiro, um olhar commovido, acompanhado d'um gesto de opulencia. Fôra esta a ambição de toda a sua vida. Muitas vezes, só com Luiza, quando junto da lareira comiam o magro caldo da ceia, elle reprimia o prazer que o filho lhes daria se enviasse dinheiro para comprarem aquelles campos, que toda a vida haviam cultivado como caseiros. Era o seu suor d'elles accumulado sobre a terra, que os fazia fructificar e lh'os tornava queridos, como uma parte viva e nobre da propria existencia. Possuir a bella quinta que em volta do seu pequeno eido se estendia, abrir a agua das poças com a arrogancia de proprietario, levantar as videiras com a certeza de que eram seus aquelles braços flexiveis, e ao enterrar a enxada na terra negra e humosa sentir a convicção de que remexia no que ninguem lhe podia disputar, de que preparava o solo para resultados que não partilharia com outrem, era o maior goso que a boa fortuna podia trazer a Miguel. E tamanha commoção os dois manifestaram, na sua mudez, deante do hospede,quando designaram com o olhar essas terras, que o recemchegado perguntou:

—São estes os bens que vocemecês trazem de casa?

—Sim, senhor, aquelles mesmos em que Luiz trabalhou comnosco, indo á soga dos bois, quando lavravamos. Elle falou-lhe n'isto?

A um signal affirmativo, os consortes, choraram copiosamente. Até parecia mal ver um homem sadio e forte, como era então Miguel, limpar os olhos á grosseira estopa das mangas da sua camisa e soluçar com a cara escondida. Porém aquelle contentamento era mais forte do que elle; em coração humano não presumia outro egual. Para se desculpar, perante o amigo de Luiz, ia dizendo por entre lagrimas:

—O senhor não pode comprehender o que isto é. Se soubesse o que me vae cá por dentro... Estou capaz de estoirar de alegria.

O feliz mensageiro sentia-se transitoriamente envolvido na mesma atmosphera de felicidade que respiravam os dois casados. Ligando-os a si n'um só abraço disse:

—O que desejo é que por muitos e largos annos gosem o que tanto amam, e que isto seja na companhia de seu filho, que estou certo se não demorará muito.

Depois combinou com elles a maneira de receberem o dinheiro que estava no Porto, á ordem de Miguel. Para lhes facilitar a empresa já tinha tractadoda transferencia da quantia para a villa proxima, onde da mão de negociante honrado podiam recebel-a toda d'uma vez, ou parcelada, conforme melhor conviesse. N'esse mesmo dia, Miguel acompanhou o amigo de seu filho para pessoalmente ajustarem com o tal negociante o recebimento em questão.

Este notavel successo trouxe á memoria dos do logar o bom rapasinho que Luiz sempre fôra; como era geitoso no ajudar á missa, como, com desinteresse sympathico, se prestava a servir toda a gente. Não podia deixar de ser feliz, quem logo no começo da vida se mostrara tão diligente e bondoso. Deus, que é justo, ajuda de preferencia aquelles que o merecem, os que desde o principio se mostram attentos e respeitosos pelas coisas da religião. Entendiam-no assim e mostravam como exemplo d'isto a fortuna que acompanhara Luiz para poder alegrar a existencia de seus paes, garantindo-lhes um magnifico bem-estar, e proporcionando-lhes o goso de possuirem as terras que sempre haviam trabalhado.

A proposito recordavam o bello dia de maio em que elle partira. Muitos faziam o apparato de mencionarem meudas circumstancias, que agora representavam como se as tivessem deante dos olhos. Repetiam palavras, apontavam pessoas, e reproduziam detalhes. Que formoso sol o d'esse tempo! como elle aquecia o corpo e alegrava o espirito! O padre Clemente Carvalhosa, já então curava a freguezia e, por assim dizer, era o parocho, pois que o verdadeiro estava frequentemente em Braga, junto do senhor arcebispo de quem era amigo, e havia annos que por ali não apparecia. Como Luiz não tivesse vocação para o estado ecclesiastico, fôra o Carvalhosa quem influira para o mandarem para o Brazil, ver mundo, fazer-se homem, ganhar a riqueza com que voltasse a engrandecer a sua familia e a sua terra. Se o bom velho fosse egoista, forcejaria por conserval-o para o ajudar á missa, tratar das coisas da egreja e auxiliar o mestre escola. Mais tarde poderia mesmo conseguir-se que ficasse substituindo José Fortunato, o que era alguma coisa de representativo. Porém, reconhecendo que aquella intelligencia naturalmente viva se acanharia na estreiteza d'uma aldeia, o bom cura é que promoveu, entre a melhor gente da freguezia, uma colheita de donativos para vestirem o Luiz do Miguel e pagarem-lhe a passagem para esse Brazil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a bondade dos fructos que alimentam o homem. Sentia nofundo do seu generoso coração, que era uma boa obra a que emprehendia. Quem sabia se não estava trabalhando para o esplendor das festas da sua egreja, para reformar e accrescentar materialmente a riqueza do templo, attenta a vocação que Luiz mostrava para as coisas santas? Não seria amesquinhar as bellas promessas de caracter de rapaz tão bom, tão docil, tão intelligente, o prendel-o entre aquellas montanhas de limitado horisonte?

—Mas, senhor,—entendia a mãe—olhe que elle para conservar dinheiro não lhe serve. Quanto ganhar, quanto dá!

—Cala-te, mulher,—contestou Miguel—deixa ir o rapaz que no mundo é que elles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor cura é que diz bem.

Aquelle que assim falara com desapego, é a quem mais custou o desprender-se de Luiz, no assignalado dia da partida, n'esse bello maio em que o sol aquecia o corpo e alegrava o espirito d'um modo differente do actual. Luiz com o seu caracter submisso ia de vontade; mas não tinha n'essa occasião, propriamente idéa de ambição ou opulencia, nenhum proposito de no futuro deslumbrar os simples da sua aldeia. Commovido e sem fala, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, como pingos de seiva d'uma arvore quando chora. Se seu pae se não podia desagarrar d'elle, tambem elle se não podia desagarrar de seu pae, nem de sua mãe,nem dos rapazes que ficavam. No fundo da sua retina estampara-se indelevelmente e para sempre, toda aquella paizagem da sua alma—a modesta egreja, com o campanario exterior d'um só sino; o musgo das paredes dos caminhos estreitos; a largura dos campos onde rebentava a herva; a sobranceria dos montes altos, artilhados de penedias temerosas! Sentira que a alma, n'esse dia de sol encantador, se lhe dividira em duas partes: uma ali ficava pendurada dos galhos das arvores que se enfolhavam, dentro da pobrissima casa onde nascera, e nas encostas a escutar o gemer das fontes e dos regos d'agua; a outra, a mais dura e resistente levava-a comsigo. O cura Clemente Carvalhosa, ainda no vigor da vida e saude, abençoara-o no limitte da freguezia, até onde o acompanhara, e n'esse momento, Luiz, supplicante e com as mãos erguidas pediu-lhe:

—Quando a Russa tiver a cria, senhor, peço-lhe que a deixe crescer e que a não venda, que eu mando dinheiro para a pagar.

A Russa era a egua do cura. O rapasito tinha-lhe grande affecto, adquirido no habito de a levar a beber, e de a acompanhar quando o sacerdote ia para algum officio, no que substituira o creado Simão.

Na villa é que se apartou de sua mãe e de seu pae, pois d'ali em deante seguia na companhia d'outros emigrantes que levavam identico destino. Na volta, a excellente Luiza, veio considerandose aquella dôr que soffrera no apartamento incluiria a redempção da sua pobresa. Valeria a pena tental-a, para quem desde o nascimento fôra destinada á vida do trabalho e das privações? Quando ella o dera á luz, bem como aos outros que lhe tinham morrido de bexigas, já fôra na perspectiva de os prender á terra negra, cavando-a com a enxada, para d'ella tirarem o pão duro de que se alimentariam. Isto era a vida assente na pobreza e conformidade: o que Luiz ia buscar longe, o que seria? Com os olhos razos d'agua, a pobre mulher, só percebia o esbatido d'um mar ennevoado e sem fim, a negrura d'um mysterio lugubre que formava esse porvir incerto...

Nos primeiros tempos d'ausencia, receberam frequentes cartas repassadas de affecto e saudade, ás vezes com signaes de lagrimas que ennodoavam o papel a ponto de se tornarem inintelligiveis algumas palavras. Porém, passados tres annos, a correspondencia cessou quasi de repente e espalhou-se o boato de que Luiz morrera, sendo depois isto desmentido por outros dizeres, egualmente sem base. N'estas alternativas, de luto e contentamento, passaram-se os dias longos e as noites infinitas, limitando-se os dois paes a reverem-se no seu passado, modesto e feliz, acreditando Miguel na eterna formosura de Luiza e esta no garbo e valentia perpetua de Miguel. Até que um dia chegou esse bom mensageiro, que lhes trouxe os meios para reformarema moradia e comprarem as terras, e com este facto lhes voltou a esperança, sempre risonha e carinhosa, de que seu filho havia de chegar em breve. Além das palavras de bom agouro, que o desconhecido deante d'elles pronunciara, receberam, logo após, carta de Luiz, em que lhes falava com ternura do possivel regresso e insistia especialmente na velhice tranquilla e abastada que procurava garantir-lhes. Porém, depois d'este promettedor acontecimento, que lhes deu annos de prazer emquanto reedificaram a casa, levantando-lhe um andar, emquanto plantaram videiras e enfeitaram a quinta, com arvores novas e um bello muro em volta; Luiz nunca mais escreveu, estabelecendo-se completo silencio, similhante ao primeiro que parecera de morte definitiva. Fartou-se o padre Clemente Carvalhosa de lhe escrever sentidas cartas, falando de tudo quanto podia haver de mais amoravel e terno no coração: a velhice dos paes, que não poderiam aguentar-se por muitos annos; a commodidade da habitação, que elles tinham arranjado ostentosamente para o receberem; a belleza e transformação dos campos em que elle labutara e brincara quando creança. Até lembrava a recommendação, que Luiz fizera no dia da partida, para não vender a cria da Russa: a esse proposito notificava-lhe que, tanto esse animal como a mãe, haviam morrido de velhos, em grande tranquillidade e ventura; mas que na mesma côrte da residencia havia outra egua descendente da segunda,que era a estampa viva das saudosas extinctas. Nenhuma d'estas amoraveis e longas dissertações teve resposta, o coração de Luiz tinha-se de certo ressequido, pois já não vivia para tão commoventes memorias. Receberia elle as cartas? Não lhe seriam entregues por ter mudado de terra?!... É no que assentavam, afastando sempre a hypothese da morte, como castigo cruel e immerecido. Mas ao fim d'um crescido periodo de annos, sem noticias de nenhuma especie, experimentados por muitos e successivos desenganos, atormentados pelos pensamentos negros que traz a velhice, Miguel disse, um dia, em voz sumida, para não assustar a companheira:

—Talvez elle morresse... talvez....

Quem sabe?! Ha diversas maneiras de morrer. O corpo póde andar, no mundo, aos solavancos e encontrões, e ter desapparecido a vida com a alegria da alma. N'este domingo de março soalheiro, os dois velhos estavam á porta de sua casa, serenos e meditativos, mas conformados; foi o bom cura que lhes veiu incautamente turvar o coração, recordando-lhes o filho morto, ou eternamente desapparecido, o que para elles valia o mesmo. E quando ambos retomavam a tranquillidade em que estavam antes da chegada do sacerdote, ficando mudos, com os pés extendidos ao sol e a cabeça resguardada para que o calor os não adoecesse, sentiram passos no caminho que bordeja a quinta e viram que um estrangeiro se encaminhavapara elles. Quem seria? Era um homem andrajoso, qualquer viajante pobre em caminhada para longe. O seu aspecto de miseria commovia... Trazia as botas cambadas, a camisa suja, as calças roidas; n'um saquito enfiado n'um pau, levava ás costas, toda a sua riqueza. Que ar esmorecido e doente! que longa barba mal tratada! como vinha dorido dos pés! Ao approximar-se da cancella, que dava ingresso no quinteiro, parou saudando com o chapeu esburacado. Miguel, com vista mais fraca do que Luiza, perguntou a esta:

—O que é?

O recemchegado é que respondeu em voz de cançado:

—Um pobre viandante que pede uma sede de agua. Dão-m'a senhores?

A velha disse com expressão de carinho:

—Entre, faz favor?... Quanta agua quizer!...

Não mostrou medo, nem repellencia, nem suspeitas d'aquelle homem roto, que podia ser um ladrão assassino. Foi ella mesma que veiu levantar a caravelha da cancella, para que elle entrasse, pois que o via sem forças para tão pouco... Conhecia-se que estava enfraquecido pela fome e pela longa jornada. Quem seria este misero de aspecto tão soffredor? Algum d'esses infelizes que vivem afastados durante muitos annos de todas as affeições e carinhos, e voltam ao seu lar depois de longa e dolorosa penitencia. O recem-vindo sentou-se n'uma tosca pedra que estava perto de Miguel,pousando ao lado o pobre saquito, que era a sua riqueza. O penoso suspiro que do peito lhe sahiu ao descançar, condensava, de certo, uma vida aspera de soffrimento e exprimia talvez o desejo d'um periodo de socego, ainda que fosse na sepultura. Quando Luiza veiu de dentro de casa, com a malga, branca de jaspe, cheia d'agua limpida e fresca, elle tomou-a nas duas mãos, emborcou-a com satisfação, tendo no fim de beber um respirar de saciedade. Os seus olhos amortecidos pela desgraça, tiveram brilho carinhoso e contente ao restituir a malga. Agradeceu este favor com um sentimento que lhe veiu do fundo d'alma:

—Deus-lh'o pague!—disse.

Conservou-se silencioso durante muito tempo, a cabeça curvada para o peito, como um vagabundo que na alma procurasse o seu destino. Os dois velhos contemplavam-no compadecidos: nos seus corações amoraveis e bons apparecera um sentimento de infinda piedade. Não tinham elles tambem um filho, que assim andava perdido no mundo, vagueando por longes terras? O bem que elles, a este desconhecido, podessem fazer, outrem, no ponto distante onde estivesse Luiz, o retribuiria, soccorrendo-o se elle necessitasse. Com o instincto dos que são captivos do infortunio alheio, advinhavam que junto d'elles estava um infeliz precocemente avelhentado. Não procuravam, com perguntas desnecessarias, perturbar-lhe a paz que elle parecia ter encontrado sentando-se n'aquellapedra, a olhar meditativamente o chão do quinteiro. Adivinhavam-lhe, pelo aspecto, soffrimento que na sua vida obscura e modesta, elles nunca tinham sentido. Por esse mundo fóra, as desgraças engrossam, ás vezes, tão rapidamente, como o ribeiro que passa no fundo da aldeia, quando recebe as torrentes pluviaes, vindas a roncar pelas encostas e pelos caminhos. Que significaria o silencio dolorido d'este desgraçado, que nos restos do seu vestuario deixava perceber signaes de que no mundo tinha sido alguma coisa mais do que aquillo que ora apparentava?!...

O viandante levantou lentamente a cabeça. Primeiro fixou a vista agradecida, amoravel e sem reservas nos que lhe tinham morto a sêde. Apesar da estranheza d'aquelle semblante, não causou aos dois velhos impressão, de que fosse o de algum doido que andasse desgarrado pelos caminhos da aldeia. O seu olhar era absorto, mas tranquillo e bondoso. Ainda que estranho ali, não lhes causava receio, nem pavor. Ao contrario: do imo da sua sensibilidade subia-lhes, a favor do misero, um formoso grito de benevolencia e compaixão. Aquella testa sulcada pela desventura, o rosto macerado pela desgraça, dizia alguma coisa de pacifico e sublime, como a luz sahindo de entre nuvens caliginosas no meio de rude tempestade. Os dois septuagenarios reconheciam que a apparição de tal infortunio estava tomando sympathico logar na sua pacifica existencia... «Este desconhecido—pensavam—ainda que em qualquer tempo de sua vida, tenha sido mau e perverso, agora só parece ser desventurado!» Isto originara-lhes no seio a mesma piedade que sentiriam se áquella casa se viesse recolher um lobo ferido, ou mesmo, se um abutre lhes cahisse exanime junto da capoeira de que fôra o flagello. Esses animaes, tantas vezes escorraçados com alaridos de colera, teriam elles animo de os acabar, quando os reconhecessem indefezos e supplicantes nas vascas da morte?! Não: o findar da vida merece sempre compaixão; a desgraça redime de todas as culpas perante os corações bons e sensiveis.

Mas este pobresinho não era perigoso e não poderia nunca ter sido perverso: tamanha era a uncção maguada e soffredora que exprimia o seu rosto retalhado pelas rugas, o seu olhar extincto pela longa miseria! Havia n'elle tanta meiguice e affecto que só lhes provocava misericordia e caridade. Se o pedisse não lhe recusariam agasalho em sua casa. Que valia um logar junto da lareira, uma manta para cobrir os lassos membros sobre um pouco de colmo, uma tigella de caldo para aconchegar e fortalecer o estomago? De mais tinham elles, sem pessoa a quem o legassem. Uma obra de misericordia, offerecida por intenção d'aquelle que lhes dera o bem-estar de que gosavam, era actomeritorio que lhes consolaria o espirito e teria certo apreço perante Deus. Uma voz interior affirmava-lhes que ali estava um infeliz digno de piedade: e sem muito saberem porque, ia-lhes dispertando sympathia o sorriso lento que na sua expressão se abria, á maneira que contemplava os dois velhos, que examinava a casa toda caiada de fresco, a latada que cobria o quinteiro, e o saudavel aspecto dos campos da propriedade em redor. A horta, ali mesmo ao lado, estava opulenta de couves e grellos; as borbulhas das videiras principiavam a engrossar; a temperatura era tepida e carinhosa; o misero parecia respirar, n'este ar, felicidade nova e paradisiaca. Similhava um cego, desde muito privado do goso da vista, que readquirindo-a de surpreza, entrasse gradualmente n'um periodo de enthusiasmo lento; ou então, o homem que recolhido, por longos annos, em lugubre masmorra, fosse restituido á liberdade e á luz durante um somno, achando-se incredulo pela ventura reconquistada.

Este silencio demorado, e o demorado exame que o estranho estava fazendo de tudo quanto em volta se via, principiava a enredar em pensamentos vagos Luiza e Miguel. Primeiro passeara em volta com os olhos do corpo; mas depois, uma alegria crescente, lhe fôra desabrochando no rosto escalavrado, a custo, como rebenta a bonina em terreno duro. Os velhos, apesar de suggestionados por aquelle todo de bondade e infortunio, houveum instante em que na mente lhes passaram receios, julgando-se agora na presença d'um louco. Pois que podia significar esta mudez, quasi familiar, da parte de quem ali era estranho e entrara sob pretexto de pedir uma sêde d'agua? Não se atreviam a interrogal-o, pois grande é a timidez da decrepitude. Annos antes já tudo estaria aclarado: pois que Miguel sempre fôra homem de grande desembaraço e não teria papas na lingua para perguntar quem era e o que queria do mais. Agora, porem, a edade e o corpo paralytico influiam no acanhamento do animo. Os septuagenarios entreolharam-se, volvendo ambos, depois, a vista para o peregrino ao qual Luiza disse:

—Parece gostar muito d'este sitio...

—Oh! muito!—exclamou. Tudo isto lhes pertence?

Circumdou de novo o olhar pelo eido e pelos campos, extendendo-o até ao pinhal que se erguia n'uma ligeira collina.

—Em quanto Deus quizer—respondeu Miguel. E vocemecê d'onde é? para onde vae?

O desconhecido teve no rosto uma expressão de infinita paz e tranquilidade, que não deu idéa clara do seu pensar e destino. Sorria ligeiramente, com a incomparavel doçura d'uma creança a sonhar. Olhou os dois como se olham amigos e, Miguel, animado por esta expressão confortativa, ponderou:

—Sim; porque vocemecê ha de ter por força uma terra...

—Tenho, tenho uma terra...

E ficou attento para o chão inculto do quinteiro, como se sentisse difficuldade em designar o ponto do globo, onde essa terra se talhava.

Recahiu no silencio carinhoso que até ali conservara, mas com rosto tão aberto em bondade que, de todo, deixou de causar receios. Examinou a limpeza da casa em que os velhos moravam, e pensou na conformidade de existencia que dentro d'ella se passaria. Reinava, decerto, n'aquelles entes, a feliz paz da consciencia; desconheciam as perturbações agitadas da vida das cidades. Não pensavam em alardes, nem tinham ambições: talvez durante todos os seus annos, nem uma só noite tivessem abandonado aquella ditosa morada. Quem sabe o que o estrangeiro estaria calculando na sua mente, que pensamentos de felicidade o estariam a encantar!?... Talvez, depois de vida desventurosa, viesse encontrar n'aquelle quadro simples o primeiro refrigerio para as suas dores, a primeira idéa clara do que é a ventura. Os pacificos septuagenarios, pareciam comprehender, que o seu viver ditoso estava reconfortando a alma do misero que tinham na sua presença. Além de não ser rasoavel negarem-lhe um tal balsamo, encantava-os que assim fosse. Por isso, orgulhosos da sua modestia, deixavam que o homem andrajoso tudo apreciasse, sorridente e sem inveja. A casa juncto da qual se encontravam tinha aspecto de nova, as janellas com vidraças viam sobre a latada do quinteiro, o alpendre,debaixo da varanda deitava para o lado do caminho, uma escada exterior mostrava ingresso ao andar de cima—accrescente feito para a chegada de Luiz, se a Deus prouvera, guial-o um dia para ali. Como fossem inimigos de grandezas, apesar da casa assim reformada, nunca abandonaram a parte terrea conservando ahi a sua moradia. A cosinha, á porta da qual estavam, era a mesma em que viveram com os filhos; ao lado havia o quarto soalhado em que dormiam agora, como sempre. As transformações n'este pavimento consistiam em que o que d'antes fôra côrte de gado servia agora para adega, salgadeira e casa de recolher a lenha no inverno. Ao fundo d'um telheiro, armado cá fóra, é que guardavam as duas juntas de nedios bois, os mais bellos do logar. O chiqueiro do porco e a capoeira das gallinhas ficavam encostados ao muro, rente com a casa. Tudo designava certo bem estar, conforto, e até opulencia, dentro da modestia de camponezes.

Para onde iria o infeliz, que tinham deante dos olhos não o sabiam, visto que elle o não quizera dizer; mas o que sentiam, com a intuição das almas simples, pouco habituadas a luctas, é que sendo a sua figura, quando o viram entrar a cancella, a d'um infeliz retorcido pela miseria, agora, ao fim de pouco tempo, e depois de reconfortado na contemplação de todas aquellas coisas bem arranjadas, parecia mais alliviado do soffrimento que lhe alquebrava o corpo e a alma. Era outro, tinha-lhefeito bem o repouso sobre a tosca pedra, refrigerara-o a malga de agua limpida, consolara-o o aspecto feliz dos velhos que estavam ao sol, esperando, n'este santo domingo, a hora do jantar parcimonioso, apesar de na panella haver carne e salpicão que elles ambos comeriam regalados, agradecendo a Deus tamanho beneficio na velhice. Ao quinteiro chegava o suave odor do caldo gordo e fumegante, e não tardaria que Luiza se levantasse para ir á adega buscar o excellente vinho, para o beber de parceria com o seu homem e pela mesma infusa. Como elles seriam felizes, se n'esse bello e glorioso dia podessem compartilhar com o seu Luiz, que uma voz intima lhes dizia ainda viver, este bom jantar! Se tal felicidade lhes fosse dado poderem gozar morreriam contentes, não duvidando de que iriam direitinhos para o céu!

O descanço sobre a pedra tosca; o sabor da agua com que o tinham alliviado da sede do caminho; o banho de luz e tranquilidade em que todo o seu ser se mergulhara durante longos minutos; e principalmente a ventura que adivinhava na existencia sempre egual d'aquelles casados de tantos annos, haviam transformado em pouco tempo o aspecto do infeliz. Sorvia deleitado o ar que aqui se respirava, sorriam-lhe os olhos na contemplação d'esta paizagem carinhosa e melancolica, desfaziam-se-lhe as rugas da face ao renascer-lhe na alma a alegria que, por certo, n'elle se finara havia muito. Como Miguel o visse mais tractavel e familiar no aspecto, ponderou:

—Vocemecê estava tão moido, que decerto vem de muitissimo longe.

—Oh! de muitissimo longe!...—repetiu o forasteiro com accento de grande amargura.

—Talvez d'essa Lisboa!...—entendeu o paralytico.

—Muito mais para lá!...

E fez um gesto largo, d'uma amplidão infinita, acompanhando-o com um olhar que fôra até aos confins do mundo.

—Do Brazil?—indagou Luiza com ancia e soffreguidão no rosto inquieto.

Um simples aceno affirmativo de cabeça, deu resposta á pergunta. E logo os rostos dos dois septuagenarios se alegraram, como se em crepusculo matinal vissem surgir d'entre as penedias o sol nascente. Ao mesmo tempo tiveram a mesma lembrança. «Quem sabe se este desconhecido nos poderá dar noticias do nosso Luiz?!...»—pensaram. Porém, antes de o inquirirem, sustiveram-se n'este pensamento triste: «Como se pode voltar do paiz do oiro, da opulencia e da ventura, assim pobre, mal trajado e n'um aspecto tão miseravel e desvalido!» E Luiza, compadecida, considerou com as lagrimas a rebentarem-lhe:

—Então é que não foi feliz, por lá... Nem todos o podem ser...

—Nem todos... nem todos...—disse o estrangeiro, apparecendo-lhe no rosto um fulgor de alegria velada por amargura.

—E conheceria por lá o nosso filho?...—perguntou a velha.

—O seu filho! Tem um filho no Brazil?—indagou, o mal trajado, n'uma voz que se esforçava por ser corajosa e serena.

—Temos—esclareceu Miguel inclinando-se para o interlocutor. Chama-se Luiz da Silva; mas lá puzeram-lhe o nome de Luiz da Tóca, por ser o nome d'este logar em que nasceu. Foi e nunca mais voltou—concluiu o velho, por sua vez, com os olhos rasos d'agua.

Um rubor de incendio subiu á face do desconhecido, que com fingido esforço, como de quem se recorda disse:

—Luiz da Tóca... Luiz da Tóca... Lembro-me muito bem; vivi muito com elle, e somos amigos.

No primeiro momento, os velhos quasi se julgaram ludibriados com esta resposta: tão grande era a inverosimilhança do que escutavam! Pois não haviam dado resultado as instantes e repetidas diligencias do cura Carvalhosa, para descobrir o paradeiro de Luiz, e o acaso trazia-lhes ao pé da porta uma testemunha, que em tudo os podia esclarecer! Porém, a crença de seus corações n'uma Suprema Vontade, providencial e divina, era forte, e não duvidaram de que Deus e os santos com quem se tinham apegado, pudessem mais do que o virtuoso sacerdote. O accento de sinceridade com que aquellas palavras foramditas, a expressão de bondade e espontanea satisfação do rosto do homem que tinham deante d'elles, excluiam a possibilidade de qualquer ignobil mentira. O velho Miguel, apesar de meio paralytico, logo se abordoou ao seu pau, para erguer o corpo doente, com a energia dos antigos tempos; mas a commoção tornava-lhe insufficiente o esforço. Mesmo sentado ainda poude dizer:

—Pois, o senhor, é que já não sae d'esta casa. Se conhece o Luiz, se é seu amigo, fica aqui comnosco para nos ajudar a saber d'elle e a encontral-o.

Luiza, apesar de a lingua se lhe recusar a exprimir tudo quanto lhe ia na alma, attonita como estava, perguntou em voz tremula:

—E em que terra encontrou vocemecê o nosso filho? Sabe onde estará agora?

O estranho não respondeu logo. A sua phisionomia denunciava excepcional perturbação de contentamento, que os velhos não podiam apreciar por causa da nevoa de lagrimas que tinham nos olhos. Approximando-se, porem, dos dois, que uniu no mesmo abraço, disse soluçante:

—Seu filho está aqui, meus queridos paes!...

E passada que foi a primeira onda de alegria accrescentou:

—Mas venho muito pobre! Só possuo estes farrapos que me cobrem. Se soubessem quanto tenho soffrido!

—Pobre!—bradou Miguel com a sua antiga energia, sahindo-lhe a voz do peito, como o ronco d'um trovão do interior d'uma nuvem. Então de quem é tudo quanto aqui temos? Não fostes tu que o ganhastes, homem!?

E n'um gesto do seu braço revigorado pelo acontecimento, mostrava a riqueza que havia: a casa afidalgada, a horta abundante, os campos relvados que se extendiam para além, as videiras em promessas de rebentação, e o bello muro que circumdava a quinta todo caiado de novo.

Luiza, voltando os olhos ao céu, pronunciou com as lagrimas a correrem-lhe em fio:

—Nossa Senhora do Amparo ouviu as minhas rezas. Já podemos morrer em paz.


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