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XXDE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMESMadrid, 3 de setembro de 1842.«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.Almeida.»DO MESMO AO MESMOMadrid, 12 de setembro de 1842.«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados docofre! Vi o altissimo quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia.«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os effeitos são analogos.«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas. Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o essencial motivo do rompimento e reclusão.«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial. Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese, já estão alugados os juizes.«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão. Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer, ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as nossas.«Aconselhar-te eu? não me atrevo a tanto. Já disse: contra certos destinos é impotente esta logica vulgar,vade-mecumde todos os homens vulgares.Escuta o teu coração, sem menos-preço da consciencia. Obriga a razão a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que são o essencial da vida. Isto não é conselho: é supplica.«Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado; riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Aragão. Presume o conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco de ser encabeçada na côrte descabeçada de Aragão. Eugenia accrescenta a estas observações que Paulina só sairá do mosteiro, se a não deixarem lá sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando.«Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas? Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina.«Anceio a tua resposta.«Dá outro abraço ao meu bom pae. Diz-lhe que eu vou muito cedo aperta-lo ao coração, e que, se o aborrecimento d'esta vida diplomatica fôr assim augmentando, de certo lá ficarei a ouvir o estrondear das caldeiras. Adeus. Muito do coração.Almeida.DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA«Lisboa, 12 de setembro de 1842.«Respondo, meu amigo, á tua cartinha. A esta horajá recebeste a carta explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto. O meu destino é vêr que as minhas acções, aconselhadas pelo dever, redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espaço em que todas as operações de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho necessario á vida. Só assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde caiba com a minha insignificancia.«Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com o mundo. Puz o coração debaixo dos pés, e nem assim consigo a liberdade do espirito!«A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio que sim. Está repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua juventude, formosura e aspirações. Póde ser que, ao receberes esta carta, ella tenha já deixado o mosteiro pelas salas; e ámanhã deixará as salas pelo mosteiro. Paulina lê romances. Os personagens femininos, da novella moderna, são quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona. Imitam-se, onde ha espaço, e é preciso te-lo, ainda assim, para as scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo, futil e chocarreiro, denomina «comedias».«Na proxima carta me dirás o proseguimento d'esse estranho passo. Authoriso-te a dizer-lhe, tão directamente quanto puderes, que respeito em silenciotodos os seus designios, e peço a Deus, que ao encontro d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe sentir que eu sou bastante desgraçado para não poder esquece-la.«Vou ámanhã ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de calçado que lá devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa. Tudo é necessario para ir custeando estas grandes despezas. Já vês que estou feito caixeiro de cobrança de uma loja de sapatos. Para bem desempenhar estas funcções, levo comigo as minhas cartas de bacharel formado em leis!«Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de esperanças, de alegrias.Fernando.de Hypolito de Almeida a Fernando GomesMadrid, 25 de setembro de 1842.2«Meu amigo.«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na eternidade.«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em seiscentos contos, em differentes especies.«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que Paulina acompanhe a irmã.«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro.«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é inalteravel.«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremosoH. de Almeida.»Nenhuma outra carta nos veiu á mão.Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados, melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas estalagens onde se aposentava.Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim,pedia-lhe incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e serviços.Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia sempre:esperado.Esteesperadoé regularmente o prologo doindeferido. Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.Fernando leu o despacho noDiario do Governo, leu os commentarios n'um jornal da opposição, e riu-se.Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta:«Excellentissimo. Ashonrasa quem competem. Faça vossa excellencia presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode, que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos contumazes.Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister, e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia,Fernando Gomes, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11—Lisboa.»O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario; mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim acabou o episodio.Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado, e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus officiaes que se chamava Fernando.Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador se está contente com a obra que fez.Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem osofficiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego, nada fazia já.Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos gelos polares por Cook.Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação. Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher, como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em Lisboa lhe désse noticias dochevalier Ferdinand Gomes, como elle euphonicamente o conhecia.XXIEstava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calçada do Sacramento, aviando uma carregação de fazenda para o Porto.Antes de descer á loja, sua mãe, quando ia para a mesa do almoço, abraçou-se n'elle, e disse-lhe:—Olha Fernando, tu não crês em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho alegre!...—Então sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha mãe? Os nossos sonhos alegres não pódem ir mais além d'esta ambição de vender muito sapato.—Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!—disse a velhinha.—Desde que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae já disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os nossos bemzinhos do Cartaxo.—Então sonhou, minha mãe, que estavamos outra vez proprietarios no Cartaxo?—Não foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te via vestido de principe.—De principe?! Ólé! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho?—Que foi, meu filho?—É porque hontem á noite estivemos a conversar a respeito do entrudo, que está á porta. A mãe adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso sonhou que me via vestido de principe. Não foi outra coisa, minha querida mãesinha... Venha almoçar, que eu levo-a pelo braço, como em casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina.—Valha-te nosso Senhor! não me deixas dizer o meu sonho até ao fim!—tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda.—Pois o sonho estava no principio, minha mãe?—Estava... Credo!—Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez sapateiro?As irmãs riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos, largou tambem uma casquinada de alegre riso.Fernando temperou o chá de sua mãe, serviu o pae, e proseguiu:—Ora agora, ninguem a interrompe, mãesinha. Exponha lá as suas alegres visões.—Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, através do peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o coração. Quando tu assim estavas, começaste a chorar, porque descera do céo um anjo, e te levara o coração para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido, menos no logar dorosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como diamantes. Quando assim estavas muito triste, e nós todos a chorar comtigo, torna a descer o anjo, e dá-te o coração, que te havia levado, dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se não quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao mesmo tempo, e n'este momento é que eu acordei.—Alegre sonho, minha mãe! disse Fernando. O que eu agora queria era que vocemecê me explicasse o como se ha de converter em realidade esse bonito vestido de resplendores.—Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a mãe.—O seu chá arrefece, tornou Fernando, eu faço-lhe outra chavena.—Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia!—Vejo que ainda se lembra das suas lições de geographia, que o pae lhe dava ha vinte annos, minha mãe. Ainda sabe que a Siberia é fria!—Não, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que é velha!...—disse ella risonha.—Olha que ainda ás vezes recordo os versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do nosso sangue; o outro era do nosso coração, não era Francisco?—Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na mercearia, a S. Sebastião da Pedreira, me improvisou os versos com que eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por não poderes amar o Bocage, não foi? Ora confessa a verdade, que eu agora já não tenho ciumes...—Olha o tolo!—disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo bocado de pão, rebelde aos seus raros dentes.—Lá que os versinhos me encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... Não sei o que seria se me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras tão acanhado quando ias lá a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes, que m'o entregasse...Fernando e as irmãs sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que tivessem coração muito sensivel ás poucas coisas commoventes que tem a vida humana.Findo o almoço desceu Fernando á loja, como já se disse começando este capitulo.Acabára elle de dar saída aos caixões de embarque, e outras ordens, quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas corridas por dentro das vidraças.Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraça-lo, exclamando:—Que surpreza! Eu não te esperava, meu queridoamigo! Subamos á saleta. Deixa-me ao menos tirar esta jaleca!Almeida fitou os olhos no amigo do cêrco, de Coimbra, de Paris, de Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro.—Isso que é?—disse Fernando.—Que tens tu, Almeida?—Tenho a alegria, que precisa chorar como a dôr. A tua virtude causa-me uma vehemencia de respeito, de piedade, sensações tão estranhas e fortes, que me fazem isto que vês, estas não sei se primeiras lagrimas de minha vida. O que tu pudeste sobre ti, ó Fernando!Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem comprehender o alcance do que viam.—Subamos—repetiu Fernando commovido.—Vem dar um abraço em meu pae, em paga dos muitos abraços que tenho dado no teu.—Pois sim, vamos—tartamudeou Almeida, n'uma irresolução.—Vamos... tambem quero vêr tua mãe...Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente á saleta por ouvirem pronunciar o appellidoAlmeida.—É o amigo do nosso Fernando—disse Francisco—vem d'ahi, Maria! vem abraça-lo.Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis! Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na obscuridade onde vivem os vossos eleitos!Os dois velhinhos acharam-se nos braços de Hypolitode Almeida, que sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por aquelle instante da vida do céo, beijou a mão do amigo, por que elle assim respeitava e amava seus paes humildes.Almeida parecia querer dizer alguma coisa que se lhe não moldava á expressão. Aquelle vacillar, e olhar d'um para outro rosto, o começar e recomeçar da phrase, terminou por esta abrupta pergunta á mãe de Fernando:—Minha senhora, quer ter a delicadeza de offerecer a sua casa a uma dama, que veio em minha companhia, e me está lá fóra esperando na carruagem?—É sua irmã, senhor Almeida?—perguntou a velha.—Não tem irmã—disse Fernando.—Será sua esposa. Queres surprehender-me com a tua noiva? é hespanhola?—Não é noiva—tornou o secretario—é irmã.—Irmã!—redarguiu Fernando com espanto.—Sim, irmã, porque tu és meu irmão.—Como?!—exclamou impetuosamente Fernando.—Vá, vá!—volveu Almeida—vá, minha senhora, offerecer a sua casa á sua filha Paulina, que vem aqui pedir-lhe a mão de seu filho!—Fernando já tinha corrido a escada abaixo; mas, a meia descida, parou, olhou para si, e viu-se n'aquelle traje. Hesitou instantes, e disse:—Porque não?! Ainda me torturas, miseravel vaidade!A mãe seguia-o de perto, ajudada por Almeida.Em seguida iam as duas irmãs de Fernando, cada uma com seu filhinho nos braços.Francisco Lourenço, que mal descortinava as escaleiras, ia mui de manso, tacteando o mainel da escada.Fernando abriu a portinhola da carroagem.Paulina saltou-lhe aos braços; e, antes de proferir palavra, rompeu n'um chorar e soluçar tão suffocante, que, nos braços dos dois e da velhinha, foi transportada para o pateo.Fernando ajoelhou á beira de Paulina, que recostava a face desmaiada ao seio de Maria Luciana. Uma das creancinhas, do colo de sua mãe, estendeu-lhe a mão a um dos anneis dos cabellos negros.Paulina abriu os olhos, e sorriu á creança, e apertou a mão de Fernando.Maria, com as mãos erguidas, murmurou:—É o anjo do Senhor que volta com o coração de meu filho. Vejo-te agora vestido de resplendores, Fernando!O moço lembrou-se do sonho de sua mãe, e respondeu beijando-lhe a mão.Ainda agora chegava Francisco Lourenço. Pediu que o deixassem approximar de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas:—Eu lhe agradeço, minha senhora! Eu lhe agradeço o bem que faz ao meu virtuoso filho. Deus a abençôe, santa, que soube avaliar os merecimentos d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus pés, que não ha desaire n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei!Paulina abraçou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae.—Pae! meu Deus!—exclamou elle—Com que liberalidade me pagaes os padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta mais intensa felicidade que eu!...Paulina sahiu amparada ao braço de Fernando, e no pescoço de Maria Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa. Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto á meza onde elle fazia as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um grosso volume de papel almasso esta palavra—Paulina.—Lançou rapida mão ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas finaes, que diziam assim:«Porque te vejo ainda, ó abençoado anjo do meu infortunio! Que luz é que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar é sempre no meu abysmo de saudade?... Ainda te verei, ó Paulina?...»Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abençoado d'aquelle augusto infortunio, abraçou Fernando com fremente ardor, e disse:—Pois não vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando?CONCLUSÃOFernando Gomes não pedia explicações de sua felicidade a Hypolito de Almeida, nem a Paulina de Briteiros.Aquellas alegrias tinham ainda a vaga desconnexão d'um sonho.Os enlevos do presente não pedia ao passado a sua razão de existencia.Os paes, e as irmãs de Fernando, pallidas e melancholicas meninas, tão na madrugada da vida desgraçadas, pareciam estar agradecendo a Paulina o bem que fazia a seu irmão, unico amparo d'ellas.Almeida, quando pôde falar, sem desdizer da eloquencia das lagrimas da bem-aventurada familia, disse gravemente o seguinte:—Fernando, eu já te vi de joelhos aos pés d'esta senhora; mas não te ouvi pedir perdão...—Ah! exclamou Paulina, apertando ao seio Fernando para que has de tu ajoelhar-te? Não quero, meu querido amigo. A mais desgraçada não era eu!... Eu sabia que havia de encontrar-te, Fernando; tu é que não esperavas mais ver-me. Eras incomparavelmente mais atormentado que eu...—Mas, atalhou Almeida, vossa excellencia dá-me licença de expôr o relatorio conciso... (osizo, n'estes relatorios d'amores, é extraordinaria coisa...)Fernando e Paulina sorriram com o secretario, que proseguiu:—Expôr o relatorio, dizia eu, dos imperiosos acontecimentos que me constituiram na gloriosa obrigação de ser o mais ditoso dos casamenteiros. Permitte vossa excellencia?—Se fôr sempre engraçado como começa, consinto, disse Paulina.—Como hei de eu ser engraçado contando uma historia de lagrimas, minha senhora?—Então não diga, não diga; eu contarei tudo ao meu Fernando. São poucas palavras, meu amigo; é uma só palavra...amava-te; mas o teu Almeida foi um barbaro! Sabia as minhas angustias, e deixava-me morrer. Mandei-lhe pedir do convento, tantas vezes, que me dissesse em que ponto da terra eu poderia encontrar-te!... Por fim calei-me, e esperei acabar alli, e deixar-te uma lembrança que havia de vingar-me... Não recordemos... não queiras que eu recorde o que soffri, até á hora em que me vi livre para te procurar... Aqui estou, Fernando... É a segunda vez que te procuro... D'estavez não me deixes mais sair do abrigo da tua grande alma...Não sei se o prolongar o colloquio d'estas felizes creaturas seria dar ao leitor um quinhão do contentamento d'aquella familia; o que certamente me dispensam, é preambular para chegarmos ao ponto do casamento.Almeida, n'este mesmo dia, voltou com a licença do patriarcha para os esposorios se celebrarem logo, onde aprouvesse aos contrahentes, dentro do patriarchado.Paulina quiz ser recebida na egreja onde fôra baptisada, e onde estava a sepultura de sua mãe. Do templo de Santa Izabel passaram a visitar, nas Amoreiras, o palacio onde Paulina tinha nascido.—Pedia-te—disse ella a Fernando—que ficasses aqui, e a nossa familia toda. Vê tu como em vinte e quatro horas o nosso bom Almeida fez mobilar esta casa, ha nove annos deshabitada! Meu pae não consentiu nunca que vivesse alguem na casa onde minha mãe tinha morrido... Olha, Fernando, n'este quarto morreu ella e nasci eu!...Desceram ao jardim. Lá estavam os canteiros, mas nenhuma flôr das que ella memorava com infantil saudade em Florença.—Ellas renascerão!—disse Paulina.—Nós teremos as minhas flôres, Fernando! Serão os meus enfeites nos dias memoraveis de nossos prazeres e amarguras! Na felicidade deve ser tão doce recordar os gosos como as lagrimas...A familia de Fernando aposentou-se no palacio das Amoreiras. A loja da calçada do Sacramentofechou-se, depois que Francisco Lourenço andou repartindo por asylos, e cadeias, e familias pobres, a fazenda com que ia recomeçar a prosperidade do estabelecimento.O primeiro e unico desgosto que assaltou, de surpreza, Fernando Gomes, foi quererem os governos faze-lo por força visconde. O ministro que, á conta da remessa da medalha e da carta memoranda, o quizera metter nas garras da justiça, era o mais pertinaz thuribulario do homem que, um anno antes, fôra vencido em concorrencia com o filho do regedor. O ministerio estava entalado entre o Banco de Portugal e a divida activa, e a divida passiva, e a divida fluctuante. Fernando Gomes era convidado a salvar a ordem e as liberdades patrias, mediante cincoenta contos, garantidos pelas contribuições directas, indirectas, quinto para amortisação, real de agua... garantiam-lhe os cincoenta contos até com os brilhantes da corôa, se elle pagasse á guarnição do Porto, que ameaçava sublevar-se. Fernando Gomes teve pejo de ser portuguez, e respondeu que pagaria os direitos do viscondado se o dessem ao sobrinho do regedor, o qual sobrinho do regedor—diga-se aqui de passagem—chegou a ser visconde, sem que ninguem lhe pagasse os direitos.Francisco Lourenço morreu em 1848, e a senhora Maria Luciana dois annos depois.Tão ditosos lhes correram estes ultimos annos da existencia, que mais parece que os anjos vieram a traslada-los de um céo para outro.Gracinda e Genoveva educaram seus filhos naabundancia e melindre com que foram educados os de Paulina. Entre a filha do nobilissimo Briteiros e as empobrecidas filhas do artista, nenhuma estrema observavam os servos e a sociedade. As pompas no trajar eram eguaes, e raro se encontrava uma sem as outras nos bailes, onde Fernando ia por comprazer com sua mulher, e ella por comprazer com as invenciveis prescripções do mundo.Eugenia passava em Paris os invernos, e alguns passou em Lisboa. Todas as damas bem sorteadas em felicidade conjugal, poderiam inveja-la, menos Paulina. A condessa de Rohan dizia que, a não o ter, teria pedido a Deus um marido como o de sua irmã.São volvidos vinte annos. Paulina deve ter quarenta. É ainda uma d'aquellas privilegiadas formosuras, que Deus faz e conserva para que a adoração dos esposos não afrouxe nunca. Fernando Gomes, a orçar por cincoenta e dois annos, promette prolongada vida: a alegria do coração, e da consciencia é muito na pureza do sangue, no equilibrio nervoso, e n'esta suprema felicidade humana chamada saude, isto havemos de inferil-o da nenhuma concorrencia de medicos e padres ao palacio das Amoreiras.Quem alli é certo, todas as noites, é Hypolito de Almeida, conde de S. Salvador, par do reino, ministro de estado honorario, e padrinho dos dois filhos de Fernando. Como é riquissimo e solteiro, espera-se que os afilhados lhe succedam na herança.A um seu amigo contou o conde de S. Salvador que, um d'estes ultimos dias, Fernando Gomes desciaa calçada do Sacramento com sua mulher e filhos. Em frente da loja onde morou Francisco Lourenço, parou Fernando, chamou os filhos, e disse-lhes:—Vosso avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa. Se alguma vez o orgulho vos quizer perder, vinde aqui, e lembrae-vos que vosso honrado e santo avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa.E voltando-se a Paulina, disse-lhe:—Lembras-te, filha?... Ha vinte e dois annos, feitos em cinco de janeiro, que tu apeaste n'este mesmo sitio... Foi aqui... Minha mãe e eu levámos-te em braços para aquella pobre salinha dos meus livros. Recordas-te, Paulina?A senhora, com os olhos turvos de lagrimas, apertou a mão do marido, que lh'a beijou sem pejo de seus filhos.Ha um annexim, que diz:Procurar agulha em palheiro.É baldado empenho?Pois eu assevero que, uma vez, procurei uma, e achei-a!E, desde então, com a minha infinita paciencia, acho tudo que quero, n'este palheiro da humanidade, mórmente quando os individuos, que procuro, teem devorado a palha, e se me apresentam a nu,—coisa que me tem acontecido mais vezes do que mereço a Deus.Agora não espero achar tão cedo sujeito como Fernando Gomes.Paulinas de certo ha muitas. As senhoras, em geral,são, como ella, todas, todas, quando encontram homens como aquelle.Nós, miseraveis despotas e miseraveis escravos, é que as fazemos más ao parecer do mundo; mas na pureza de sua essencia, na angelica porção que trazem do céo, não podemos nós corrompel-as.Se não, corrompiamos.Ó santas do infortunio, vós sois, no juizo de Deus, como as santas da virtude!FIM

DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

Madrid, 3 de setembro de 1842.

«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.

Almeida.»

DO MESMO AO MESMO

Madrid, 12 de setembro de 1842.

«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados docofre! Vi o altissimo quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia.

«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os effeitos são analogos.

«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas. Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o essencial motivo do rompimento e reclusão.

«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial. Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese, já estão alugados os juizes.

«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão. Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer, ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as nossas.

«Aconselhar-te eu? não me atrevo a tanto. Já disse: contra certos destinos é impotente esta logica vulgar,vade-mecumde todos os homens vulgares.Escuta o teu coração, sem menos-preço da consciencia. Obriga a razão a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que são o essencial da vida. Isto não é conselho: é supplica.

«Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado; riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Aragão. Presume o conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco de ser encabeçada na côrte descabeçada de Aragão. Eugenia accrescenta a estas observações que Paulina só sairá do mosteiro, se a não deixarem lá sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando.

«Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas? Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina.

«Anceio a tua resposta.

«Dá outro abraço ao meu bom pae. Diz-lhe que eu vou muito cedo aperta-lo ao coração, e que, se o aborrecimento d'esta vida diplomatica fôr assim augmentando, de certo lá ficarei a ouvir o estrondear das caldeiras. Adeus. Muito do coração.

Almeida.

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

«Lisboa, 12 de setembro de 1842.

«Respondo, meu amigo, á tua cartinha. A esta horajá recebeste a carta explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto. O meu destino é vêr que as minhas acções, aconselhadas pelo dever, redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espaço em que todas as operações de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho necessario á vida. Só assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde caiba com a minha insignificancia.

«Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com o mundo. Puz o coração debaixo dos pés, e nem assim consigo a liberdade do espirito!

«A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio que sim. Está repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua juventude, formosura e aspirações. Póde ser que, ao receberes esta carta, ella tenha já deixado o mosteiro pelas salas; e ámanhã deixará as salas pelo mosteiro. Paulina lê romances. Os personagens femininos, da novella moderna, são quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona. Imitam-se, onde ha espaço, e é preciso te-lo, ainda assim, para as scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo, futil e chocarreiro, denomina «comedias».

«Na proxima carta me dirás o proseguimento d'esse estranho passo. Authoriso-te a dizer-lhe, tão directamente quanto puderes, que respeito em silenciotodos os seus designios, e peço a Deus, que ao encontro d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe sentir que eu sou bastante desgraçado para não poder esquece-la.

«Vou ámanhã ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de calçado que lá devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa. Tudo é necessario para ir custeando estas grandes despezas. Já vês que estou feito caixeiro de cobrança de uma loja de sapatos. Para bem desempenhar estas funcções, levo comigo as minhas cartas de bacharel formado em leis!

«Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de esperanças, de alegrias.

Fernando.

de Hypolito de Almeida a Fernando Gomes

Madrid, 25 de setembro de 1842.2

«Meu amigo.

«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na eternidade.

«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em seiscentos contos, em differentes especies.

«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que Paulina acompanhe a irmã.

«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro.

«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é inalteravel.

«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso

H. de Almeida.»

Nenhuma outra carta nos veiu á mão.

Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados, melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas estalagens onde se aposentava.

Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim,pedia-lhe incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e serviços.

Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.

De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia sempre:esperado.

Esteesperadoé regularmente o prologo doindeferido. Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.

Fernando leu o despacho noDiario do Governo, leu os commentarios n'um jornal da opposição, e riu-se.

Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta:

«Excellentissimo. Ashonrasa quem competem. Faça vossa excellencia presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode, que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos contumazes.Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister, e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia,Fernando Gomes, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11—Lisboa.»

O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario; mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim acabou o episodio.

Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado, e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus officiaes que se chamava Fernando.

Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».

O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador se está contente com a obra que fez.

Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem osofficiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego, nada fazia já.

Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos gelos polares por Cook.

Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação. Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher, como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em Lisboa lhe désse noticias dochevalier Ferdinand Gomes, como elle euphonicamente o conhecia.

Estava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calçada do Sacramento, aviando uma carregação de fazenda para o Porto.

Antes de descer á loja, sua mãe, quando ia para a mesa do almoço, abraçou-se n'elle, e disse-lhe:

—Olha Fernando, tu não crês em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho alegre!...

—Então sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha mãe? Os nossos sonhos alegres não pódem ir mais além d'esta ambição de vender muito sapato.

—Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!—disse a velhinha.—Desde que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae já disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os nossos bemzinhos do Cartaxo.

—Então sonhou, minha mãe, que estavamos outra vez proprietarios no Cartaxo?

—Não foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te via vestido de principe.

—De principe?! Ólé! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho?

—Que foi, meu filho?

—É porque hontem á noite estivemos a conversar a respeito do entrudo, que está á porta. A mãe adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso sonhou que me via vestido de principe. Não foi outra coisa, minha querida mãesinha... Venha almoçar, que eu levo-a pelo braço, como em casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina.

—Valha-te nosso Senhor! não me deixas dizer o meu sonho até ao fim!—tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda.

—Pois o sonho estava no principio, minha mãe?

—Estava... Credo!

—Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez sapateiro?

As irmãs riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos, largou tambem uma casquinada de alegre riso.

Fernando temperou o chá de sua mãe, serviu o pae, e proseguiu:

—Ora agora, ninguem a interrompe, mãesinha. Exponha lá as suas alegres visões.

—Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, através do peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o coração. Quando tu assim estavas, começaste a chorar, porque descera do céo um anjo, e te levara o coração para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido, menos no logar dorosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como diamantes. Quando assim estavas muito triste, e nós todos a chorar comtigo, torna a descer o anjo, e dá-te o coração, que te havia levado, dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se não quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao mesmo tempo, e n'este momento é que eu acordei.

—Alegre sonho, minha mãe! disse Fernando. O que eu agora queria era que vocemecê me explicasse o como se ha de converter em realidade esse bonito vestido de resplendores.

—Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a mãe.

—O seu chá arrefece, tornou Fernando, eu faço-lhe outra chavena.

—Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia!

—Vejo que ainda se lembra das suas lições de geographia, que o pae lhe dava ha vinte annos, minha mãe. Ainda sabe que a Siberia é fria!

—Não, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que é velha!...—disse ella risonha.—Olha que ainda ás vezes recordo os versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do nosso sangue; o outro era do nosso coração, não era Francisco?

—Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na mercearia, a S. Sebastião da Pedreira, me improvisou os versos com que eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por não poderes amar o Bocage, não foi? Ora confessa a verdade, que eu agora já não tenho ciumes...

—Olha o tolo!—disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo bocado de pão, rebelde aos seus raros dentes.—Lá que os versinhos me encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... Não sei o que seria se me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras tão acanhado quando ias lá a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes, que m'o entregasse...

Fernando e as irmãs sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que tivessem coração muito sensivel ás poucas coisas commoventes que tem a vida humana.

Findo o almoço desceu Fernando á loja, como já se disse começando este capitulo.

Acabára elle de dar saída aos caixões de embarque, e outras ordens, quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas corridas por dentro das vidraças.

Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraça-lo, exclamando:

—Que surpreza! Eu não te esperava, meu queridoamigo! Subamos á saleta. Deixa-me ao menos tirar esta jaleca!

Almeida fitou os olhos no amigo do cêrco, de Coimbra, de Paris, de Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro.

—Isso que é?—disse Fernando.—Que tens tu, Almeida?

—Tenho a alegria, que precisa chorar como a dôr. A tua virtude causa-me uma vehemencia de respeito, de piedade, sensações tão estranhas e fortes, que me fazem isto que vês, estas não sei se primeiras lagrimas de minha vida. O que tu pudeste sobre ti, ó Fernando!

Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem comprehender o alcance do que viam.

—Subamos—repetiu Fernando commovido.—Vem dar um abraço em meu pae, em paga dos muitos abraços que tenho dado no teu.

—Pois sim, vamos—tartamudeou Almeida, n'uma irresolução.—Vamos... tambem quero vêr tua mãe...

Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente á saleta por ouvirem pronunciar o appellidoAlmeida.

—É o amigo do nosso Fernando—disse Francisco—vem d'ahi, Maria! vem abraça-lo.

Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis! Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na obscuridade onde vivem os vossos eleitos!

Os dois velhinhos acharam-se nos braços de Hypolitode Almeida, que sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por aquelle instante da vida do céo, beijou a mão do amigo, por que elle assim respeitava e amava seus paes humildes.

Almeida parecia querer dizer alguma coisa que se lhe não moldava á expressão. Aquelle vacillar, e olhar d'um para outro rosto, o começar e recomeçar da phrase, terminou por esta abrupta pergunta á mãe de Fernando:

—Minha senhora, quer ter a delicadeza de offerecer a sua casa a uma dama, que veio em minha companhia, e me está lá fóra esperando na carruagem?

—É sua irmã, senhor Almeida?—perguntou a velha.

—Não tem irmã—disse Fernando.—Será sua esposa. Queres surprehender-me com a tua noiva? é hespanhola?

—Não é noiva—tornou o secretario—é irmã.

—Irmã!—redarguiu Fernando com espanto.

—Sim, irmã, porque tu és meu irmão.

—Como?!—exclamou impetuosamente Fernando.

—Vá, vá!—volveu Almeida—vá, minha senhora, offerecer a sua casa á sua filha Paulina, que vem aqui pedir-lhe a mão de seu filho!

—Fernando já tinha corrido a escada abaixo; mas, a meia descida, parou, olhou para si, e viu-se n'aquelle traje. Hesitou instantes, e disse:

—Porque não?! Ainda me torturas, miseravel vaidade!

A mãe seguia-o de perto, ajudada por Almeida.

Em seguida iam as duas irmãs de Fernando, cada uma com seu filhinho nos braços.

Francisco Lourenço, que mal descortinava as escaleiras, ia mui de manso, tacteando o mainel da escada.

Fernando abriu a portinhola da carroagem.

Paulina saltou-lhe aos braços; e, antes de proferir palavra, rompeu n'um chorar e soluçar tão suffocante, que, nos braços dos dois e da velhinha, foi transportada para o pateo.

Fernando ajoelhou á beira de Paulina, que recostava a face desmaiada ao seio de Maria Luciana. Uma das creancinhas, do colo de sua mãe, estendeu-lhe a mão a um dos anneis dos cabellos negros.

Paulina abriu os olhos, e sorriu á creança, e apertou a mão de Fernando.

Maria, com as mãos erguidas, murmurou:

—É o anjo do Senhor que volta com o coração de meu filho. Vejo-te agora vestido de resplendores, Fernando!

O moço lembrou-se do sonho de sua mãe, e respondeu beijando-lhe a mão.

Ainda agora chegava Francisco Lourenço. Pediu que o deixassem approximar de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas:

—Eu lhe agradeço, minha senhora! Eu lhe agradeço o bem que faz ao meu virtuoso filho. Deus a abençôe, santa, que soube avaliar os merecimentos d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus pés, que não ha desaire n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei!

Paulina abraçou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae.

—Pae! meu Deus!—exclamou elle—Com que liberalidade me pagaes os padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta mais intensa felicidade que eu!...

Paulina sahiu amparada ao braço de Fernando, e no pescoço de Maria Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa. Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto á meza onde elle fazia as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um grosso volume de papel almasso esta palavra—Paulina.—

Lançou rapida mão ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas finaes, que diziam assim:

«Porque te vejo ainda, ó abençoado anjo do meu infortunio! Que luz é que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar é sempre no meu abysmo de saudade?... Ainda te verei, ó Paulina?...»

Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abençoado d'aquelle augusto infortunio, abraçou Fernando com fremente ardor, e disse:

—Pois não vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando?

Fernando Gomes não pedia explicações de sua felicidade a Hypolito de Almeida, nem a Paulina de Briteiros.

Aquellas alegrias tinham ainda a vaga desconnexão d'um sonho.

Os enlevos do presente não pedia ao passado a sua razão de existencia.

Os paes, e as irmãs de Fernando, pallidas e melancholicas meninas, tão na madrugada da vida desgraçadas, pareciam estar agradecendo a Paulina o bem que fazia a seu irmão, unico amparo d'ellas.

Almeida, quando pôde falar, sem desdizer da eloquencia das lagrimas da bem-aventurada familia, disse gravemente o seguinte:

—Fernando, eu já te vi de joelhos aos pés d'esta senhora; mas não te ouvi pedir perdão...

—Ah! exclamou Paulina, apertando ao seio Fernando para que has de tu ajoelhar-te? Não quero, meu querido amigo. A mais desgraçada não era eu!... Eu sabia que havia de encontrar-te, Fernando; tu é que não esperavas mais ver-me. Eras incomparavelmente mais atormentado que eu...

—Mas, atalhou Almeida, vossa excellencia dá-me licença de expôr o relatorio conciso... (osizo, n'estes relatorios d'amores, é extraordinaria coisa...)

Fernando e Paulina sorriram com o secretario, que proseguiu:

—Expôr o relatorio, dizia eu, dos imperiosos acontecimentos que me constituiram na gloriosa obrigação de ser o mais ditoso dos casamenteiros. Permitte vossa excellencia?

—Se fôr sempre engraçado como começa, consinto, disse Paulina.

—Como hei de eu ser engraçado contando uma historia de lagrimas, minha senhora?

—Então não diga, não diga; eu contarei tudo ao meu Fernando. São poucas palavras, meu amigo; é uma só palavra...amava-te; mas o teu Almeida foi um barbaro! Sabia as minhas angustias, e deixava-me morrer. Mandei-lhe pedir do convento, tantas vezes, que me dissesse em que ponto da terra eu poderia encontrar-te!... Por fim calei-me, e esperei acabar alli, e deixar-te uma lembrança que havia de vingar-me... Não recordemos... não queiras que eu recorde o que soffri, até á hora em que me vi livre para te procurar... Aqui estou, Fernando... É a segunda vez que te procuro... D'estavez não me deixes mais sair do abrigo da tua grande alma...

Não sei se o prolongar o colloquio d'estas felizes creaturas seria dar ao leitor um quinhão do contentamento d'aquella familia; o que certamente me dispensam, é preambular para chegarmos ao ponto do casamento.

Almeida, n'este mesmo dia, voltou com a licença do patriarcha para os esposorios se celebrarem logo, onde aprouvesse aos contrahentes, dentro do patriarchado.

Paulina quiz ser recebida na egreja onde fôra baptisada, e onde estava a sepultura de sua mãe. Do templo de Santa Izabel passaram a visitar, nas Amoreiras, o palacio onde Paulina tinha nascido.

—Pedia-te—disse ella a Fernando—que ficasses aqui, e a nossa familia toda. Vê tu como em vinte e quatro horas o nosso bom Almeida fez mobilar esta casa, ha nove annos deshabitada! Meu pae não consentiu nunca que vivesse alguem na casa onde minha mãe tinha morrido... Olha, Fernando, n'este quarto morreu ella e nasci eu!...

Desceram ao jardim. Lá estavam os canteiros, mas nenhuma flôr das que ella memorava com infantil saudade em Florença.

—Ellas renascerão!—disse Paulina.—Nós teremos as minhas flôres, Fernando! Serão os meus enfeites nos dias memoraveis de nossos prazeres e amarguras! Na felicidade deve ser tão doce recordar os gosos como as lagrimas...

A familia de Fernando aposentou-se no palacio das Amoreiras. A loja da calçada do Sacramentofechou-se, depois que Francisco Lourenço andou repartindo por asylos, e cadeias, e familias pobres, a fazenda com que ia recomeçar a prosperidade do estabelecimento.

O primeiro e unico desgosto que assaltou, de surpreza, Fernando Gomes, foi quererem os governos faze-lo por força visconde. O ministro que, á conta da remessa da medalha e da carta memoranda, o quizera metter nas garras da justiça, era o mais pertinaz thuribulario do homem que, um anno antes, fôra vencido em concorrencia com o filho do regedor. O ministerio estava entalado entre o Banco de Portugal e a divida activa, e a divida passiva, e a divida fluctuante. Fernando Gomes era convidado a salvar a ordem e as liberdades patrias, mediante cincoenta contos, garantidos pelas contribuições directas, indirectas, quinto para amortisação, real de agua... garantiam-lhe os cincoenta contos até com os brilhantes da corôa, se elle pagasse á guarnição do Porto, que ameaçava sublevar-se. Fernando Gomes teve pejo de ser portuguez, e respondeu que pagaria os direitos do viscondado se o dessem ao sobrinho do regedor, o qual sobrinho do regedor—diga-se aqui de passagem—chegou a ser visconde, sem que ninguem lhe pagasse os direitos.

Francisco Lourenço morreu em 1848, e a senhora Maria Luciana dois annos depois.

Tão ditosos lhes correram estes ultimos annos da existencia, que mais parece que os anjos vieram a traslada-los de um céo para outro.

Gracinda e Genoveva educaram seus filhos naabundancia e melindre com que foram educados os de Paulina. Entre a filha do nobilissimo Briteiros e as empobrecidas filhas do artista, nenhuma estrema observavam os servos e a sociedade. As pompas no trajar eram eguaes, e raro se encontrava uma sem as outras nos bailes, onde Fernando ia por comprazer com sua mulher, e ella por comprazer com as invenciveis prescripções do mundo.

Eugenia passava em Paris os invernos, e alguns passou em Lisboa. Todas as damas bem sorteadas em felicidade conjugal, poderiam inveja-la, menos Paulina. A condessa de Rohan dizia que, a não o ter, teria pedido a Deus um marido como o de sua irmã.

São volvidos vinte annos. Paulina deve ter quarenta. É ainda uma d'aquellas privilegiadas formosuras, que Deus faz e conserva para que a adoração dos esposos não afrouxe nunca. Fernando Gomes, a orçar por cincoenta e dois annos, promette prolongada vida: a alegria do coração, e da consciencia é muito na pureza do sangue, no equilibrio nervoso, e n'esta suprema felicidade humana chamada saude, isto havemos de inferil-o da nenhuma concorrencia de medicos e padres ao palacio das Amoreiras.

Quem alli é certo, todas as noites, é Hypolito de Almeida, conde de S. Salvador, par do reino, ministro de estado honorario, e padrinho dos dois filhos de Fernando. Como é riquissimo e solteiro, espera-se que os afilhados lhe succedam na herança.

A um seu amigo contou o conde de S. Salvador que, um d'estes ultimos dias, Fernando Gomes desciaa calçada do Sacramento com sua mulher e filhos. Em frente da loja onde morou Francisco Lourenço, parou Fernando, chamou os filhos, e disse-lhes:

—Vosso avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa. Se alguma vez o orgulho vos quizer perder, vinde aqui, e lembrae-vos que vosso honrado e santo avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa.

E voltando-se a Paulina, disse-lhe:

—Lembras-te, filha?... Ha vinte e dois annos, feitos em cinco de janeiro, que tu apeaste n'este mesmo sitio... Foi aqui... Minha mãe e eu levámos-te em braços para aquella pobre salinha dos meus livros. Recordas-te, Paulina?

A senhora, com os olhos turvos de lagrimas, apertou a mão do marido, que lh'a beijou sem pejo de seus filhos.

Ha um annexim, que diz:

Procurar agulha em palheiro.

É baldado empenho?

Pois eu assevero que, uma vez, procurei uma, e achei-a!

E, desde então, com a minha infinita paciencia, acho tudo que quero, n'este palheiro da humanidade, mórmente quando os individuos, que procuro, teem devorado a palha, e se me apresentam a nu,—coisa que me tem acontecido mais vezes do que mereço a Deus.

Agora não espero achar tão cedo sujeito como Fernando Gomes.

Paulinas de certo ha muitas. As senhoras, em geral,são, como ella, todas, todas, quando encontram homens como aquelle.

Nós, miseraveis despotas e miseraveis escravos, é que as fazemos más ao parecer do mundo; mas na pureza de sua essencia, na angelica porção que trazem do céo, não podemos nós corrompel-as.

Se não, corrompiamos.

Ó santas do infortunio, vós sois, no juizo de Deus, como as santas da virtude!


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