Chapter 2

O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na cabeça, já falleceu.(Dos jornaes).Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e todos os defeitos—se um filho póde ter defeitos para a mãe que o estremece!Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja.Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam.{6}Mas o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido—era como se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade, e ella havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os olhos com beijos, e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o do pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava as distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma protecção, mantendo sempre perante os mestres uma attitude que, nem por ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae, orgulhoso sem presumpção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.Como não havia de adoral-o!Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua profissão.{7}Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a retinham agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres fossem precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica razão da sua vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a matar?Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe escrever com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro linhas, meia duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as enxugar com os labios.Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico, para mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e defeitos—defeitos que para ella eram qualidades!Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá possivel não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria por ella finda a distribuição. Viria então entregar-lh'a.Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o carteiro não voltou.Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?{8}Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe enterrassem nas carnes uma choupa em braza.Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um nome, na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao hospital, onde os medicos verificaram o obito.Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro o proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:—Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua descendencia, o miseravel assassino!Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!{9}Se fores um dia ao mar,Que a fortuna te não deixe;Bota a rede e vae-te embora,—Quanto mais burro mais peixe.Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para onde.Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o doutor topou o milagrante collega{10}na rua, e reconheceu n'elle o seu velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da Egreja, havia uma extraordinaria multidão.—Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?—Uns milhares.—E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?—Algumas duzias.—Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem do jornal, que o administrador acha pequena.{11}A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a impôr sacrificios aos funccionarios.(Dos jornaes).Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seuTurco, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando saltos, como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma liberdade que não conhecia, mas que adivinhava.Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros, virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a cabeça entre as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os ventos, o pescoço muito{12}extendido, o focinho alto, as narinas muito abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava com o impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões inuteis, porque a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.Que bom devia ser a liberdade!Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do quartel, todos os dias a mesma coisa—comendo e bebendo por toques de clarim, n'um automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas era manso como um cordeiro, leal como um velho amigo,—uma creança faria d'elle o que quizesse. Ora succedeu que um dia foram dizer ao general que o seuTurcotinha rebentado o impedido com uma parelha de coices. Não acreditou, mas entrando na cavallariça, viu o pobre diabo extendido, soffrendo horrivelmente.—Tu que fizeste ao cavallo!—Nada, meu general.—É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?—Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por brincadeira, mexi-lhe na barriga.—Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.Era um grande philosopho, o general.{13}Uma sogra nem de barro á porta.Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a Lisboa, por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se tratava; mas, como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto de morte, calculando que ou a mulher ou o filho se encontrasse gravemente doente. Pouco habituado a ser feliz, imaginou logo o peor.O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que era a sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que a doença se aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace fatal. N'um grande ah! de allivio e satisfação, como precisava de assignar uma escriptura dahi a tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo que o informassem, por via telegraphica e postal, dos progressos da doença.{14}Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio, com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor perlando-lhe a vasta fronte.—... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se hoje mesmo, e agora é só questão de tempo.Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê irremediavelmente ludibriado:—E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...{15}A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os cidadãos pacificos, realizando muitas prisões.(Dos jornaes).A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do jardim, marginada de choupos e eucalyptos.Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de trabalho, muito pacifica e muito humilde.Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos abraços e beijos, como numa kermesse flamenga.{16}Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a estrada, açulando-os ás canelas de quem passava.Csi, csi, e arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta, levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse os cães—csi, csi—contra um bando alegre de camponezes, rapazes e raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho, ouviu-se um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um corpo que cae, lá adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois que tinha morrido o Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes que passavam pela estrada, larga e poeirenta, e de quando em quando paravam, abraçando-se e beijando-se, como n'uma kermesse de Rubens.{17}Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo.(Dos jornaes).Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava longe d'alli uns poucos de metros.Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava quem acreditasse nas{18}proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso, pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome, apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da companheira:—Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os charutos.Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.—Se lá estivesse, rachava-os.E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.{19}Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de duas horas.(Dos jornaes).—Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...—Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a finança.—Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem menos em negocios por assim dizer caseiros...—Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um negocio exclusivamente nacional.—Hom'essa! Queres então dizer...—Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de interesses internacionaes...—Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...{20}—Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim, dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...—Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens de theatro—mesmo quando estão fóra do palco, representam.—Julgava-me com direito a maior consideração da parte...—Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho atraz da orelha.—O que? Pois...—Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma seriedade á altura das tuas prosapias...—Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...—É como o uso do cachimbo—faz a bocca torta. Sempre me sahiste um gajo!...—Espero que não fique zangado...—Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.—Sempre amavel!...—Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...—Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras sem proveito...—E quanto achas tu...{21}—Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.—Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem, menos vintem... Que te parece?—Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande generosidade.—Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está dito; faço a coisa pelos duzentos.—É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.—Quero ser generoso...—Do pão do nosso compadre...—Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a viola...—Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.—Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda. Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem ninguem pelo meu lado.—Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.—E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?—Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia,{22}depois do facto consumado... Mas é absurdo o suppôr...—Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os gajos repontarão?—Que tem lá que repontem?...—Está claro. Isto é como dizia o de Braga—ou comem todos, ou ha-de haver moralidade.{23}S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer.(Dos jornaes).Não queria que a conhecessem.Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os que a conheciam cumprimentavam-na—bons dias, minha senhora!—e os que a não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe aCaridade. Envelheceu{24}muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era aCaridade Evangelica.Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar, como quem passeia um reclame:—É a Dona Caridade?—Não; é a Exploração da Miseria.{25}O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando a admiração dos seus professores.(Dos jornaes).Era um prodigio, o garoto.Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos noves mezes dizia—bolas!—e foi essa a sua primeira palavra. Comia de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos, como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto, d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho—Naturalmente, um genio, doutor?{26}E o doutor, encolhendo os hombros em ar de duvida—Naturalmente um idiota!Aos cinco annos já sabia tudo—quantas pernas tem um cão, quantas orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das fronteiras nacionaes.Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram todos—para bem de todos nós.{27}«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»(Carta anonyma).Oh! la pauvre bête!...Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta exclamação blasphema:—Benza-o Deus, como é bonito!...Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse uma{28}mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira. Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte, chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia, desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o assim:—A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.—Dá-lhe palha, Procopio amigo...{29}S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José.(Dos jornaes).Estava perdida...Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica,{30}incapaz de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava tisica.Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua cama como umfrou-froude sedas, muito pallida, muito magra, quasi cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia d'um delirio:—Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?{31}S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no mais rigoroso incognito.(Dos jornaes).Que frio cortante, meu Deus!O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas cinzas—uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os farrapos as carnes enregeladas.Que frio cortante. Deus do céu!A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.Que frio cortante. Senhor!E é então que a Opulencia desce ao antro onde{32}agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que seja a equidade?Que frio cortante, meu Deus!Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e grande de fazer obra meritoria.Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.{33}SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio.(Dos jornaes).—Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...—Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso pagar-lhe.—É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...—Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á gloria?—Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu me não ver envergonhado com os meus credores.—O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle serviço á larga, pelo menos{34}com certa generosidade, como seria justo que se fizesse?...—Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o companheiro:—já cá cantam dois mil réis. E toda a gente dizia por alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para dirigir aquella manobra.—Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e fica mudo como um peixe.—Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno agora, é porque me parece a occasião favoravel.—Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...{35}—De maneira que...—De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da estação.—Que pagará...—Quando houver outra manifestação espontanea.Resmungava o alfaiate, descendo a escada—Que grande pulha!Dizia o vivographo, fechando a porta—Que grande idiota!{36}Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito.(Dos jornaes).Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco. Não havia duvida possivel—estava alli um prodigioso talento, uma organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella austeridade de manequim,{37}n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á multidão, e gritou-lhe nas bochechas—é fundamentalmente estupido!Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas—Parece-me que fiz asneira!E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande homem se mostrou intelligente.{38}A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda possivel é a abdicação.(Nas entrelinhas dos jornaes).Era uma conspirata.Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.{39}Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro, homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:—Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas—creio que ha uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.{40}Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado.(Dos jornaes).Se tivesse echo!...Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da loja, consultava o livro derazão, e como visse que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os{41}rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o echo—quem está lá!—e fechava os olhos, n'um esforço enorme de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo acordado—quem está lá!—victima d'uma allucinação do ouvido. Por maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma quinta que tivesseecho, não se importando pagar o seu capricho a peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:—quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus pulmões—Ó João!—o pobre diabo, escondido por{42}detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde—Meu senhor!Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de barytono:—Que é lá isso ó seus gajos?Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?{43}Vaidade das vaidades—tudo é vaidade!Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no espaço, sem ponto de{44}apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem,in articulo mortis, se não receava pela salvação da sua alma, respondeu, tartamudeando muito—Receio que me mettam no céo. Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos.Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres biblicos:—Vanitas vanitatum, o que traduzido em portuguez quer simplesmente dizer:—Ora bolas para tanta embofia!...{45}Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das finanças a qualidade de portuguez.(Dos jornaes)—Contente que nem um rato, não é verdade?—Não sei porquê...—Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?—Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito proveito de todas, conforme as circumstancias.—Mas os seus direitos...—Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, no meu entender, a faculdade de realizar um certo{46}lucro, da mesma fórma que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida commercial faz-se com estes dois termos—ganhos e perdas.—Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo ganhou.—Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados vantajosos; mas...—Mas...—Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de nacionalidade mais uma vez.{47}O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe sobejou da viagem.(Dos jornaes).Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, pregava-lhe duas bofetadas.Era aquillo um proceder de principe?Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que fosse, muito menos dinheiro.Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.Quem sabe?Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta{48}mentira os jornaes!... Ha gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam que lhe fosse desagradavel.—Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é sempre de maior edade...Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.—Ias sair, avózinha?—Ia procurar-te.{49}—Parece que não estás contente?—E com razão.Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:—Isto é verdade?O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.—É então mentira?—Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, pelas quaes tenho um verdadeiro culto.Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma lucta.E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não ser ouvida:—Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. Revejo n'elle toda a nobreza da raça.E adormeceu.{50}Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado.(«A Lucta»).Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas, cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida aos céus por milhares de labios virginaes.Morrer, dormir!...Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos, reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.Dormir, sonhar!...A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica{51}de uma regularidade geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se inflammar.Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.Quem sabe!Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um canto do cemiterio!{52}A morte perdendo a foiceCreu sua força desfeita.Disse-lhe um medico insigne:Aqui tens esta receita.Chamava-se Corvo, e era alfaiate.Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava aositio, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de vir alli,{53}apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos sefaziam; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca debeijara garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio caçador:—Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um{54}barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se fosse um pombo que sefizesse, e apanhasse a carga em cheio.{55}O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa.(Dos jornaes).A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª nãoestavapara ninguem, absolutamente ninguem.Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por discutida, a um signal doleader. Mas trabalhava muito, estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade{56}em que vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos.Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar obonetna mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.—Que ha?—Um senhor que deseja falar a v. ex.ª—Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?—É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. ex.ª não o recebesse.Mandou entrar immediatamente.—É você?...—Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?—O quê?{57}—Talvez não dure 48 horas.—Coitado! E a familia?...—Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.—Mas que posso eu fazer?—Uma coisa muito simples—um adeantamento.—Mas se elle está a morrer!...—Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.—E depois de morto?—Continua a descontar... no outro mundo.E assim se fez.—Era uma bagatela de dez contos redondos.{58}O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros.(Dos jornaes).Era dia de assignatura.Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas varias,—as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o aposento n'aquelle dia lindo.Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer{59}coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a cumprimentar, quasi envergonhados do seuá vontade, como n'um casino, e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.—Não sei se incommodo v. ex.as...—Ora essa! Por forma nenhuma.—V. ex.ª é...—O pintor da casa.E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, pelos seus trabalhos maritimos.—E V. ex.ª traz isto...—São os meus decretos; trago-os á assignatura.{60}O sr.D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo Pequeno.(Dos jornaes).—Está aqui tudo?—Creio que não falta nada.Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito para elle—por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma campainha electrica.{61}—Se não soubesse...—De primeira ordem, não é verdade?—Uma transfiguração á Rocambole.—Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...—Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.—De modo que não haverá perigo...—Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.—Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has de comprar-me um bilhete de sol.Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando osolinteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com umcambio.No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, entrou a dar-lhe conversa.—Vê-se que o amigo é amador.—Como poucos. Isto é um divertimento real.—Lá isso real...{62}—Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...—Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...—E agora já não vem?—Acho que cortou a coleta.—Elle, afinal, tudo aborrece.—Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece...Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o chamava.D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas pernas.—Ninguem desconfiou, é claro?—É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me não safo tão depressa...—E disse-lhe alguma inconveniencia?—Lá bem inconveniencia...—O melhor, para outra vez...—O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.—E aquadrilha?—Lá isso fica como estava.E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:—Isto é que é uma cambada!...{63}O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, e pronunciou alli um grande discurso.(Dos jornaes).—Muito interessante a festa, não é verdade?—Sim, foi interessante.—Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se fossem todos do mesmo collegio?—Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.—Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.—Assim o espero.—Assim o creio. E falaste ás creanças?{64}—Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia de dizer-lhes.—Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?—Houve só um discurso...—Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?—Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo que...—De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.—Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?—Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo,{65}os creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos creados, e cumprem-n'as.—Credo! Mas isso é o fim do mundo.—Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.{66}O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do partido republicano em Lisboa.(Dos jornaes).Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que estava o jantar na mesa.Que teria havido!Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado. Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.{67}Que teria havido!Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado. Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por Victor Hugo.De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se nas fructas.—Então?...—Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, d'essas que andam na memoria dos homens.—De modo que o prestigio d'essa creatura...

O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na cabeça, já falleceu.(Dos jornaes).

O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na cabeça, já falleceu.

(Dos jornaes).

Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!

Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e todos os defeitos—se um filho póde ter defeitos para a mãe que o estremece!

Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja.

Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam.{6}Mas o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido—era como se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.

Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!

Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade, e ella havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os olhos com beijos, e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.

Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o do pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava as distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma protecção, mantendo sempre perante os mestres uma attitude que, nem por ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae, orgulhoso sem presumpção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.

Como não havia de adoral-o!

Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua profissão.{7}Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a retinham agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.

Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres fossem precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica razão da sua vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a matar?

Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe escrever com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro linhas, meia duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as enxugar com os labios.

Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico, para mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e defeitos—defeitos que para ella eram qualidades!

Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá possivel não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria por ella finda a distribuição. Viria então entregar-lh'a.

Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o carteiro não voltou.

Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?{8}

Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe enterrassem nas carnes uma choupa em braza.

Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.

Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um nome, na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.

Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao hospital, onde os medicos verificaram o obito.

Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.

Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.

Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro o proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:

—Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua descendencia, o miseravel assassino!

Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!{9}

Se fores um dia ao mar,Que a fortuna te não deixe;Bota a rede e vae-te embora,—Quanto mais burro mais peixe.

Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para onde.

Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o doutor topou o milagrante collega{10}na rua, e reconheceu n'elle o seu velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da Egreja, havia uma extraordinaria multidão.

—Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?

—Uns milhares.

—E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?

—Algumas duzias.

—Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.

Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem do jornal, que o administrador acha pequena.{11}

A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a impôr sacrificios aos funccionarios.(Dos jornaes).

A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a impôr sacrificios aos funccionarios.

(Dos jornaes).

Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.

O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seuTurco, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.

Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando saltos, como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma liberdade que não conhecia, mas que adivinhava.

Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros, virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a cabeça entre as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os ventos, o pescoço muito{12}extendido, o focinho alto, as narinas muito abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava com o impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões inuteis, porque a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.

Que bom devia ser a liberdade!

Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do quartel, todos os dias a mesma coisa—comendo e bebendo por toques de clarim, n'um automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas era manso como um cordeiro, leal como um velho amigo,—uma creança faria d'elle o que quizesse. Ora succedeu que um dia foram dizer ao general que o seuTurcotinha rebentado o impedido com uma parelha de coices. Não acreditou, mas entrando na cavallariça, viu o pobre diabo extendido, soffrendo horrivelmente.

—Tu que fizeste ao cavallo!

—Nada, meu general.

—É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?

—Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por brincadeira, mexi-lhe na barriga.

—Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.

Era um grande philosopho, o general.{13}

Uma sogra nem de barro á porta.

Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a Lisboa, por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se tratava; mas, como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto de morte, calculando que ou a mulher ou o filho se encontrasse gravemente doente. Pouco habituado a ser feliz, imaginou logo o peor.

O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que era a sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que a doença se aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace fatal. N'um grande ah! de allivio e satisfação, como precisava de assignar uma escriptura dahi a tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo que o informassem, por via telegraphica e postal, dos progressos da doença.{14}

Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio, com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor perlando-lhe a vasta fronte.

—... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se hoje mesmo, e agora é só questão de tempo.

Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê irremediavelmente ludibriado:

—E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...{15}

A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os cidadãos pacificos, realizando muitas prisões.(Dos jornaes).

A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os cidadãos pacificos, realizando muitas prisões.

(Dos jornaes).

A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do jardim, marginada de choupos e eucalyptos.

Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de trabalho, muito pacifica e muito humilde.

Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos abraços e beijos, como numa kermesse flamenga.{16}

Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a estrada, açulando-os ás canelas de quem passava.Csi, csi, e arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta, levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.

Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse os cães—csi, csi—contra um bando alegre de camponezes, rapazes e raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho, ouviu-se um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um corpo que cae, lá adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois que tinha morrido o Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes que passavam pela estrada, larga e poeirenta, e de quando em quando paravam, abraçando-se e beijando-se, como n'uma kermesse de Rubens.{17}

Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo.(Dos jornaes).

Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo.

(Dos jornaes).

Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava longe d'alli uns poucos de metros.

Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava quem acreditasse nas{18}proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso, pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome, apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da companheira:

—Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os charutos.

Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.

—Se lá estivesse, rachava-os.

E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.{19}

Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de duas horas.(Dos jornaes).

Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de duas horas.

(Dos jornaes).

—Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...

—Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a finança.

—Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem menos em negocios por assim dizer caseiros...

—Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um negocio exclusivamente nacional.

—Hom'essa! Queres então dizer...

—Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de interesses internacionaes...

—Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...{20}

—Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim, dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...

—Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens de theatro—mesmo quando estão fóra do palco, representam.

—Julgava-me com direito a maior consideração da parte...

—Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho atraz da orelha.

—O que? Pois...

—Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma seriedade á altura das tuas prosapias...

—Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...

—É como o uso do cachimbo—faz a bocca torta. Sempre me sahiste um gajo!...

—Espero que não fique zangado...

—Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.

—Sempre amavel!...

—Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...

—Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras sem proveito...

—E quanto achas tu...{21}

—Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.

—Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem, menos vintem... Que te parece?

—Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande generosidade.

—Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está dito; faço a coisa pelos duzentos.

—É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.

—Quero ser generoso...

—Do pão do nosso compadre...

—Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a viola...

—Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.

—Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda. Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem ninguem pelo meu lado.

—Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.

—E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?

—Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia,{22}depois do facto consumado... Mas é absurdo o suppôr...

—Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os gajos repontarão?

—Que tem lá que repontem?...

—Está claro. Isto é como dizia o de Braga—ou comem todos, ou ha-de haver moralidade.{23}

S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer.(Dos jornaes).

S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer.

(Dos jornaes).

Não queria que a conhecessem.

Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os que a conheciam cumprimentavam-na—bons dias, minha senhora!—e os que a não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe aCaridade. Envelheceu{24}muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era aCaridade Evangelica.

Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar, como quem passeia um reclame:

—É a Dona Caridade?

—Não; é a Exploração da Miseria.{25}

O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando a admiração dos seus professores.(Dos jornaes).

O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando a admiração dos seus professores.

(Dos jornaes).

Era um prodigio, o garoto.

Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos noves mezes dizia—bolas!—e foi essa a sua primeira palavra. Comia de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos, como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto, d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho—Naturalmente, um genio, doutor?{26}E o doutor, encolhendo os hombros em ar de duvida—Naturalmente um idiota!

Aos cinco annos já sabia tudo—quantas pernas tem um cão, quantas orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das fronteiras nacionaes.

Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.

E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram todos—para bem de todos nós.{27}

«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»(Carta anonyma).

«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»

(Carta anonyma).

Oh! la pauvre bête!...

Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta exclamação blasphema:—Benza-o Deus, como é bonito!...

Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse uma{28}mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira. Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte, chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia, desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o assim:

—A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?

E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.

—Dá-lhe palha, Procopio amigo...{29}

S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José.(Dos jornaes).

S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José.

(Dos jornaes).

Estava perdida...

Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica,{30}incapaz de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava tisica.

Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua cama como umfrou-froude sedas, muito pallida, muito magra, quasi cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia d'um delirio:

—Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?{31}

S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no mais rigoroso incognito.(Dos jornaes).

S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no mais rigoroso incognito.

(Dos jornaes).

Que frio cortante, meu Deus!

O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas cinzas—uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os farrapos as carnes enregeladas.

Que frio cortante. Deus do céu!

A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.

Que frio cortante. Senhor!

E é então que a Opulencia desce ao antro onde{32}agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.

Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que seja a equidade?

Que frio cortante, meu Deus!

Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.

Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e grande de fazer obra meritoria.

Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.{33}

SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio.(Dos jornaes).

SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio.

(Dos jornaes).

—Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...

—Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso pagar-lhe.

—É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...

—Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á gloria?

—Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu me não ver envergonhado com os meus credores.

—O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle serviço á larga, pelo menos{34}com certa generosidade, como seria justo que se fizesse?...

—Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o companheiro:—já cá cantam dois mil réis. E toda a gente dizia por alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para dirigir aquella manobra.

—Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e fica mudo como um peixe.

—Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno agora, é porque me parece a occasião favoravel.

—Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...{35}

—De maneira que...

—De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da estação.

—Que pagará...

—Quando houver outra manifestação espontanea.

Resmungava o alfaiate, descendo a escada—Que grande pulha!

Dizia o vivographo, fechando a porta—Que grande idiota!{36}

Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito.(Dos jornaes).

Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito.

(Dos jornaes).

Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco. Não havia duvida possivel—estava alli um prodigioso talento, uma organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella austeridade de manequim,{37}n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á multidão, e gritou-lhe nas bochechas—é fundamentalmente estupido!

Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas—Parece-me que fiz asneira!

E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande homem se mostrou intelligente.{38}

A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda possivel é a abdicação.(Nas entrelinhas dos jornaes).

A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda possivel é a abdicação.

(Nas entrelinhas dos jornaes).

Era uma conspirata.

Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.{39}

Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro, homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:

—Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas—creio que ha uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.{40}

Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado.(Dos jornaes).

Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado.

(Dos jornaes).

Se tivesse echo!...

Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da loja, consultava o livro derazão, e como visse que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os{41}rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o echo—quem está lá!—e fechava os olhos, n'um esforço enorme de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo acordado—quem está lá!—victima d'uma allucinação do ouvido. Por maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma quinta que tivesseecho, não se importando pagar o seu capricho a peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:—quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus pulmões—Ó João!—o pobre diabo, escondido por{42}detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde—Meu senhor!

Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de barytono:—Que é lá isso ó seus gajos?

Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?{43}

Vaidade das vaidades—tudo é vaidade!

Vaidade das vaidades—tudo é vaidade!

Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no espaço, sem ponto de{44}apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem,in articulo mortis, se não receava pela salvação da sua alma, respondeu, tartamudeando muito—Receio que me mettam no céo. Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos.

Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres biblicos:—Vanitas vanitatum, o que traduzido em portuguez quer simplesmente dizer:

—Ora bolas para tanta embofia!...{45}

Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das finanças a qualidade de portuguez.(Dos jornaes)

Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das finanças a qualidade de portuguez.

(Dos jornaes)

—Contente que nem um rato, não é verdade?

—Não sei porquê...

—Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?

—Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito proveito de todas, conforme as circumstancias.

—Mas os seus direitos...

—Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, no meu entender, a faculdade de realizar um certo{46}lucro, da mesma fórma que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida commercial faz-se com estes dois termos—ganhos e perdas.

—Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo ganhou.

—Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados vantajosos; mas...

—Mas...

—Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de nacionalidade mais uma vez.{47}

O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe sobejou da viagem.(Dos jornaes).

O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe sobejou da viagem.

(Dos jornaes).

Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, pregava-lhe duas bofetadas.

Era aquillo um proceder de principe?

Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que fosse, muito menos dinheiro.

Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.

De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.

Quem sabe?

Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta{48}mentira os jornaes!... Ha gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.

E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam que lhe fosse desagradavel.

—Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?

Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.

Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.

Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.

Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é sempre de maior edade...

Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.

—Ias sair, avózinha?

—Ia procurar-te.{49}

—Parece que não estás contente?

—E com razão.

Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:

—Isto é verdade?

O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.

—É então mentira?

—Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, pelas quaes tenho um verdadeiro culto.

Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma lucta.

E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não ser ouvida:

—Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. Revejo n'elle toda a nobreza da raça.

E adormeceu.{50}

Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado.(«A Lucta»).

Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado.

(«A Lucta»).

Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...

A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas, cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida aos céus por milhares de labios virginaes.

Morrer, dormir!...

Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos, reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.

Dormir, sonhar!...

A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica{51}de uma regularidade geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se inflammar.

Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...

E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.

Quem sabe!

Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um canto do cemiterio!{52}

A morte perdendo a foiceCreu sua força desfeita.Disse-lhe um medico insigne:Aqui tens esta receita.

Chamava-se Corvo, e era alfaiate.

Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava aositio, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de vir alli,{53}apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos sefaziam; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca debeijara garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.

Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.

Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.

O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio caçador:

—Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um{54}barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se fosse um pombo que sefizesse, e apanhasse a carga em cheio.{55}

O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa.(Dos jornaes).

O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa.

(Dos jornaes).

A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª nãoestavapara ninguem, absolutamente ninguem.

Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.

Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por discutida, a um signal doleader. Mas trabalhava muito, estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade{56}em que vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.

Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos.

Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.

Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.

Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar obonetna mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.

—Que ha?

—Um senhor que deseja falar a v. ex.ª

—Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?

—É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. ex.ª não o recebesse.

Mandou entrar immediatamente.

—É você?...

—Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?

—O quê?{57}

—Talvez não dure 48 horas.

—Coitado! E a familia?...

—Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.

—Mas que posso eu fazer?

—Uma coisa muito simples—um adeantamento.

—Mas se elle está a morrer!...

—Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.

—E depois de morto?

—Continua a descontar... no outro mundo.

E assim se fez.—Era uma bagatela de dez contos redondos.{58}

O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros.(Dos jornaes).

O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros.

(Dos jornaes).

Era dia de assignatura.

Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas varias,—as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o aposento n'aquelle dia lindo.

Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer{59}coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.

Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a cumprimentar, quasi envergonhados do seuá vontade, como n'um casino, e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.

—Não sei se incommodo v. ex.as...

—Ora essa! Por forma nenhuma.

—V. ex.ª é...

—O pintor da casa.

E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, pelos seus trabalhos maritimos.

—E V. ex.ª traz isto...

—São os meus decretos; trago-os á assignatura.{60}

O sr.D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo Pequeno.(Dos jornaes).

O sr.D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo Pequeno.

(Dos jornaes).

—Está aqui tudo?

—Creio que não falta nada.

Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito para elle—por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma campainha electrica.{61}

—Se não soubesse...

—De primeira ordem, não é verdade?

—Uma transfiguração á Rocambole.

—Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...

—Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.

—De modo que não haverá perigo...

—Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.

—Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has de comprar-me um bilhete de sol.

Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando osolinteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com umcambio.

No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, entrou a dar-lhe conversa.

—Vê-se que o amigo é amador.

—Como poucos. Isto é um divertimento real.

—Lá isso real...{62}

—Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...

—Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...

—E agora já não vem?

—Acho que cortou a coleta.

—Elle, afinal, tudo aborrece.

—Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece...

Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o chamava.

D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas pernas.

—Ninguem desconfiou, é claro?

—É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me não safo tão depressa...

—E disse-lhe alguma inconveniencia?

—Lá bem inconveniencia...

—O melhor, para outra vez...

—O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.

—E aquadrilha?

—Lá isso fica como estava.

E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:

—Isto é que é uma cambada!...{63}

O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, e pronunciou alli um grande discurso.(Dos jornaes).

O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, e pronunciou alli um grande discurso.

(Dos jornaes).

—Muito interessante a festa, não é verdade?

—Sim, foi interessante.

—Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se fossem todos do mesmo collegio?

—Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.

—Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.

—Assim o espero.

—Assim o creio. E falaste ás creanças?{64}

—Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia de dizer-lhes.

—Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?

—Houve só um discurso...

—Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?

—Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo que...

—De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.

—Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?

—Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo,{65}os creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos creados, e cumprem-n'as.

—Credo! Mas isso é o fim do mundo.

—Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.{66}

O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do partido republicano em Lisboa.(Dos jornaes).

O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do partido republicano em Lisboa.

(Dos jornaes).

Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que estava o jantar na mesa.

Que teria havido!

Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado. Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.{67}

Que teria havido!

Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado. Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por Victor Hugo.

De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se nas fructas.

—Então?...

—Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, d'essas que andam na memoria dos homens.

—De modo que o prestigio d'essa creatura...


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