Chapter 4

Tão linda!{130}Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico como se o desenhára Frei Angelico.Tão linda!Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos beijos que outro lhe dera.—As plantas venenosas nunca deviam ser bellas, attrahindo para matar—nem as mulheres bellas deviam ser perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa!Tão linda!{131}Souvent femme varieBien fou qui s'y fie...—Tontinho!—Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...—Tontinho!—Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias, e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola aberta, pulsar com{132}força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.—Tontinho!—Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem espirrando como a lama quando a pisam na rua.—Tontinho!Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça, como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou umabonnesuissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho...Tontinhos!Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer{133}annunciar, mal saccudido o pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas passadas no logar onde as fruira.Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé, como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos, e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia, e discreta como uma velha tia, ou umabonnesuissa. Pareceu-lhe que alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais, cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo fundente que lhe instillassem nos ouvidos:—Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil.—Tontinho!Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli{134}já noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.Coitadinho!{135}Os milagres não se discutem—ou se negam ou se acceitam.Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas com os{136}santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa, para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos olhos—o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter livrado dos especialistas.{137}—Foi aquelle grandissimo ladrão!Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava, acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz. Então o homemzinho explicou:—A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas, entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos. Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a Senhora respondeu-me:—Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é um crente sincero, e{138}quando toda a gente negasse o milagre, elle o affirmaria como possivel.Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em paz, com os brincos e o cordão.Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:—Grandissimo ladrão!E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:—Reverendissimo burro!{139}Saudade! gôsto amargo de infelizes...(Garrett).—Fizeste bem em vir...Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.—Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.—Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a apertar-lhe{140}o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.—Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso em que se apagassem.—Custa tanto morrer, sabes?...Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.—Vê como se envelhece depressa...Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.—Lembras-te?...Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era tudo o que lhe restava de vida—um{141}sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte...—Doidos que nós eramos!..Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos.Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar dentro d'um jazigo, para violar uma morta.

Tão linda!{130}

Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico como se o desenhára Frei Angelico.

Tão linda!

Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos beijos que outro lhe dera.—As plantas venenosas nunca deviam ser bellas, attrahindo para matar—nem as mulheres bellas deviam ser perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa!

Tão linda!{131}

Souvent femme varieBien fou qui s'y fie...

Souvent femme varieBien fou qui s'y fie...

—Tontinho!

—Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...

—Tontinho!

—Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias, e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola aberta, pulsar com{132}força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.

—Tontinho!

—Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem espirrando como a lama quando a pisam na rua.

—Tontinho!

Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça, como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou umabonnesuissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.

Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho...

Tontinhos!

Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer{133}annunciar, mal saccudido o pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas passadas no logar onde as fruira.

Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé, como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos, e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.

Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia, e discreta como uma velha tia, ou umabonnesuissa. Pareceu-lhe que alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais, cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo fundente que lhe instillassem nos ouvidos:

—Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil.

—Tontinho!

Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli{134}já noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.

Coitadinho!{135}

Os milagres não se discutem—ou se negam ou se acceitam.

Os milagres não se discutem—ou se negam ou se acceitam.

Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.

Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas com os{136}santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.

Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa, para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.

No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos olhos—o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter livrado dos especialistas.{137}

—Foi aquelle grandissimo ladrão!

Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.

Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava, acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz. Então o homemzinho explicou:—A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas, entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos. Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a Senhora respondeu-me:

—Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é um crente sincero, e{138}quando toda a gente negasse o milagre, elle o affirmaria como possivel.

Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em paz, com os brincos e o cordão.

Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:

—Grandissimo ladrão!

E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:

—Reverendissimo burro!{139}

Saudade! gôsto amargo de infelizes...(Garrett).

Saudade! gôsto amargo de infelizes...

(Garrett).

—Fizeste bem em vir...

Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.

—Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.

—Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...

Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a apertar-lhe{140}o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.

—Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...

Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso em que se apagassem.

—Custa tanto morrer, sabes?...

Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.

—Vê como se envelhece depressa...

Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.

—Lembras-te?...

Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era tudo o que lhe restava de vida—um{141}sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte...

—Doidos que nós eramos!..

Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos.

Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar dentro d'um jazigo, para violar uma morta.


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