Se eu morresse ámanhã, viria ao menosFechar meus olhos minha triste irmã:Minha mãe de saudades morreria,Se eu morresse ámanhã.Quanta gloria presinto em meu futuro!Que aurora de porvir e que manhã!Eu perdêra chorando essas corôas,Se eu morresse ámanhã.Que sol! que ceu azul! que doce n’alvaAcorda a natureza mais louçã!Não me batêra tanto amor no peito,Se eu morresse ámanhã.Mas essa dôr da vida, que devoraA ancia de gloria, o dolorido afan...A dôr no peito emmudecêra ao menos,Se eu morresse ámanhã...
Se eu morresse ámanhã, viria ao menosFechar meus olhos minha triste irmã:Minha mãe de saudades morreria,Se eu morresse ámanhã.Quanta gloria presinto em meu futuro!Que aurora de porvir e que manhã!Eu perdêra chorando essas corôas,Se eu morresse ámanhã.Que sol! que ceu azul! que doce n’alvaAcorda a natureza mais louçã!Não me batêra tanto amor no peito,Se eu morresse ámanhã.Mas essa dôr da vida, que devoraA ancia de gloria, o dolorido afan...A dôr no peito emmudecêra ao menos,Se eu morresse ámanhã...
Se eu morresse ámanhã, viria ao menosFechar meus olhos minha triste irmã:Minha mãe de saudades morreria,Se eu morresse ámanhã.
Se eu morresse ámanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã:
Minha mãe de saudades morreria,
Se eu morresse ámanhã.
Quanta gloria presinto em meu futuro!Que aurora de porvir e que manhã!Eu perdêra chorando essas corôas,Se eu morresse ámanhã.
Quanta gloria presinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdêra chorando essas corôas,
Se eu morresse ámanhã.
Que sol! que ceu azul! que doce n’alvaAcorda a natureza mais louçã!Não me batêra tanto amor no peito,Se eu morresse ámanhã.
Que sol! que ceu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batêra tanto amor no peito,
Se eu morresse ámanhã.
Mas essa dôr da vida, que devoraA ancia de gloria, o dolorido afan...A dôr no peito emmudecêra ao menos,Se eu morresse ámanhã...
Mas essa dôr da vida, que devora
A ancia de gloria, o dolorido afan...
A dôr no peito emmudecêra ao menos,
Se eu morresse ámanhã...
Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente poderia ter escolhido outra poesia, que melhor traduzisse as grandes luctas intimas da sua alma. É certo que nos pormenores da composição não havia inteira identidade de circumstancias entre o recitador e o poeta. O estudante nunca tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe de que a piedade fraterna tomasse sobre si o encargo de lhe fechar os olhos. E ainda que caisse ferido no campo da honra, de pistola em punho, sua mãe não morreria de saudade, pela simplesrasão de já ter morrido, alguns annos antes, com as febres de Alcacer. Quanto áscorôas, que elle perderia morrendo, a dessimilhança era profunda. O pae, com quanto fosse um bom proprietario de marinhas, estava cançado com as prodigalidades do filho,—isto pelo que toca ás corôas de... dez tostões; quanto ás de loiro, colhidas nas lides de Minerva, asraposasencarregavam-se de lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo o mais, essa triste prophecia de Alvares de Azevedo parecia quadrar á situação do estudante.
Soledad deu mediana importancia aos versos e ao recitador... N’essa noite parecia deliciada em conhecer como um homem forte do norte póde estontear de amor sob a influencia de uma mulher do sul. Quando o estudante sahiu da sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, depois de ter matado o jornalista, o marcador chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lheaquella continha de dezoito vintens, visto que ha viver e morrer, e elle haver dito que o duello havia de ser de morte...
O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu nas algibeiras, e poude, ao cabo de muitas pesquizas, encontrar 150 réis.
—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu morrer, mandem-me penhorar pelo resto no inferno. O cobrador que pergunte ao Cerbéro por Julio de Lemos. Cerbéro é um cão...
—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de 210! Corja de pulhas!...
No gabinete as negociações haviam caminhado rapidamente durante a breve ausencia do estudante. Ospadrinhosconferenciaram, o alferes Ruivo declarou muitas vezes, piscando o olho para o lado, que o duello havia de ser de morte, que o seu committente queria matar ou morrer,que a offensa tinha sido grave, mas foi redigindo a seguinte acta, que já estava prompta quando o estudante entrou:
«Nós abaixo assignados fomos encarregados pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, a fim de lhe pedirmos explicações sobre algumas phrases violentas que na tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, suburbio de Setubal, dirigira ao nosso digno e brioso committente. Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes encarregou os dois cavalheiros, que comnosco assignam, de nos procurarem para deliberarmos sobre o que á honra de ambos mais conviesse, fazendo-se reciprocas declarações de que tanto um como o outro estavam dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria honra, caso se reconhecesse que havia sido offendida. Examinada por nós maduramente a causa do conflicto, e a maneira por que elle se deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade que as phrases tidas por violentas, apenas continham allusões litterarias, que de nenhum modo podiam susceptibilisar (sic) os brios pessoaes d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi por nós quatro reconhecido que não havia motivo rasoavel para que esta pendencia proseguisse, devendo outrosim declararmos que os nossos committentes se comportaram de modo a affirmar louvavelmente o seu pundonor e a sua coragem, como pessoas que nobremente antepõem o respeito pela honra individual a todas e quaesquer conveniencias materiaes.Setubal, etc., etc.Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos,FuãoeFuão.Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes,FuãoeFuão.
«Nós abaixo assignados fomos encarregados pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, a fim de lhe pedirmos explicações sobre algumas phrases violentas que na tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, suburbio de Setubal, dirigira ao nosso digno e brioso committente. Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes encarregou os dois cavalheiros, que comnosco assignam, de nos procurarem para deliberarmos sobre o que á honra de ambos mais conviesse, fazendo-se reciprocas declarações de que tanto um como o outro estavam dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria honra, caso se reconhecesse que havia sido offendida. Examinada por nós maduramente a causa do conflicto, e a maneira por que elle se deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade que as phrases tidas por violentas, apenas continham allusões litterarias, que de nenhum modo podiam susceptibilisar (sic) os brios pessoaes d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi por nós quatro reconhecido que não havia motivo rasoavel para que esta pendencia proseguisse, devendo outrosim declararmos que os nossos committentes se comportaram de modo a affirmar louvavelmente o seu pundonor e a sua coragem, como pessoas que nobremente antepõem o respeito pela honra individual a todas e quaesquer conveniencias materiaes.
Setubal, etc., etc.
Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos,FuãoeFuão.
Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes,FuãoeFuão.
O alferes Ruivo achou prudente não levar mais longe a brincadeira do duello, receiando que o coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio, se elles chegassem a ir ao campo.
O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente com o jornalista, declarou que effectivamente lhe parecia que os factos estavam correctamente apreciados, mas que muito o contrariava não poder experimentar no campo da honra a sua coragem; por sua parte, o jornalista disse que os factos haviam sido fielmente interpretados, mas que lamentava que ainda d’aquella vez elle não podesse provar que pertencia ao numero dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade das suas acções e das suas palavras em qualquer campo aonde sejam chamados.
Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente selladas com um abraço, e que uma copia authentica da acta apparecesse no proximo domingo nas columnas daGazeta Setubalense, e naTrombeta Ulyssiponense, de que Aurelio Goes era redactor effectivo.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas riram a bandeiras despregadas quando ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente que, se os duellistas houvessem tentado bater-se, teriam ido separal-os a murro e a ponta-pé.
Havia tal energia alemtejana n’esta declaração dos dois, que toda a gente os acreditou, incluindo os padrinhos e os proprios duellistas.
Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais tranquillos, porque a verdade é que ninguem sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro lado foi obrigado a reconhecer que lhe faltava o prestigio da heroicidade, que lhe tinha fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a reputação de duellista.
D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas de pôr têrmo átertulia, quando na egreja de S. Julião bateram as dez. Que sua mulher estava só em casa... e além d’isso o banho... que a maré era cedo: respondia elle ás instancias com que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao menos. Mas a verdade era que D. Enrique estava aborrecido por lhe faltar o cirurgião ajudante, para fallar com elle sobre a politica do Hespanha, e que, por causa do duello, não apanhára ninguem a quem podesse massar.
Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia para casa, acompanhada por todos aquelles que constituiam o seu sequito habitual, um vulto passava em direcção opposta, e, sendo reconhecido, chegára-se a D. Enrique e dissera-lhe a meia voz, com alguma atrapalhação:
—Sabeustedque ainda não pude até agora arranjar azeite bom para a caldeirada de amanha?! Com mau azeite não ha caldeirada que preste...
Amanheceu glorioso o dia seguinte.
Ás sete horas da manhã, já o conselheiro Antunes andava no velho mercado da praça do Sapal, comprando as melhores fructas que pôde encontrar. Tambem comprou algumas flôres para offerecer a D. Estanislada e a Soledad. Seguiam-n’o dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, onde não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado do peixe, onde comprou o melhor e o mais caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram a rôdos. A caldeirada devia ficar famosa.
Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer lhe appareceu todo açodado.
—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, ao vêl-o, o conselheiro.
—Ha caso! respondeu o estudante.
—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. Querem vêr que a D. Estanislada tornou a apanhar uma indigestão, e que já não vamos a Troia! Pois ha de perder-se tudo isto!
E com um olhar desalentado, em que se liam poemas d’angustia, relanceou os olhos ás flores, ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si mesmo, o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, significando a magua que lhe causava o perder-se tambem elle proprio, o seu raro talento culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, perante D. Estanislada, e os outros.
—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!
Aquietou-se o semblante do conselheiro, que entretanto se havia lembrado de que se perderia tambem o excellente azeite, que finalmente podéra descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se tudo, incluindo o azeite magnifico e o talento culinario.
Julio de Lemos, rapidamente, explicou:
—Chegaram hontem á tarde asnetas do Padre Eterno!
O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, e desconfiança: cara de quem não percebia nada.
—Como! exclamou. Asnetas do Padre Eterno! Então vossa senhoria, sr. Julio de Lemos, propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e comigo!
E, de repente, reconquistou toda a plenitude do seu bello ar conselheiratico, muito emproado.
—Pois vossa excellencia imagina que estou brincando! respondeu o estudante. Asnetas do Padre Eternosão tres lindas meninas da Messejana, que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram toda a gente encantada.
—Mas o que têm essas tres lindas meninas com o Padre Eterno? perguntou auctoritariamente o conselheiro.
—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes a alcunha de netas do Padre Eterno,porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes barbas brancas, que faz lembrar as imagens do Padre Eterno. Não ha ninguem mais estimavel do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, e que mette as cartas pelos olhos dentro, porque é muito myope. Mas as netas, as netas, sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!
—Bem! Bom é que a praia se vá animando cada vez mais! Mas não percebo a razão por que o sr. Julio de Lemos classifica decasoesse acontecimento, aliás vulgar!
—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a contar o que ia por cá, o que nos temos divertido com a familia de D. Enrique, e a caldeirada que hoje vamos fazer, graças ao talento culinario de vossa excellencia.
—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o conselheiro, lisongeado nas suas prosapias de Vatel amador.
—E, como ellas mostrassem pena de perder a caldeirada, julguei que não era decente deixar de convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto vossa excellencia, na sua qualidade de nosso amavel amphitryão, e pedir-lhe desculpa da minha ousadia, que aliás as circumstancias justificam.
—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre com as damas... Nada tenho que objectar. Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria ter sido prevenida primeiro...
—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. De mais a mais D. Estanislada e Soledad são muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, e a prova está em que apreciam sempre a presença de vossa excellencia...
—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... Bem! bem! Eu vou reforçar um pouco ocontingente dos salmonetes, visto que os ha com abundancia no mercado, felizmente! Só peço a vossa senhoria que tenha a bondade de explicar a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo a não me poder ser imputada a iniciativa d’elle.
—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a que horas é a partida? Preciso ir prevenir as Rodartes.
—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.
—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, e terá vossa excellencia occasião de conhecer as tres lindas netas...
—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.
E foi d’alireforçar, como elle disse,o contingente dos salmonetes.
O estudante andára com certa finura em todo este negocio.
Quando viu as Rodartes, que eram realmente tres lindas mulheres, ficou contentissimo por se lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de que ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad o premio da belleza. D’este modo conseguir-se-ia abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza. E elle, namorando alguma das tres, a Hilda, principalmente, a quem já havia, dois annos antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens com que Soledad acolhia por vezes, sempre caprichosa e indefinida, os seus galanteios.
Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um dos promotores da caldeirada, tendo portanto auctoridade para fazer o convite, que, n’essa fé, foi acceito.
Depois correu a procurar o conselheiro, mudando as guardas á fechadura: desculpando-se do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão da caldeirada.
E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, flôres que eram certamente destinadas a D. Estanislada e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar dois ramos de flôres, que uma palmelôa lhe vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar tres ramos, mas, para isso, não lhe chegava o dinheiro. Cortou o nó gordio, desfazendo em casa os dois ramos, e compondo tres, que sahiram mais geitosos do que estavam os dois.
Olhando, contente da sua obra, para elles, teve Julio de Lemos esta observação sensatissima:
—Para saber economia, não é preciso ser economista: basta não ter dinheiro.
Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás duas horas em ponto partiriam todos do caes do Livramento.
Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa estreia que a sua estação balnear ia ter.
Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o avô que tinham sido creadas. Baboso por ellas, o velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não tinha vontade propria. Extremamente myope, como o estudante d’Alcacer dissera, ia para toda a parte comboyado pelo braço de alguma das netas, quasi sempre Salomé, que era a mais velha, e das tres a menos formosa. Tinha vinte e tres annos.
Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. Vinte e um annos adoraveis. Mulheres fortes, de olhos negros, faces radiosas, braçospotelés, cobertos de um frouxel que reluzia ao sol como uma pennugem de ouro.
Salomé era menos forte e menos bella. Mas havia na sua physionomia uma graça peninsular, que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação, os seus ditos de espirito, partiam dasua bocca graciosa e sã como settas que brilhavam mais do que feriam.
Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela mãe. No districto de Beja não havia casa melhor do que a sua, cujas herdades e montados se espalhavam para o oriente até ao Chança e para o sul até Almodovar.
O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem pressa de casar, porque não poderiam encontrar noivos que as estimassem mais do que elle.
E enterradas na Messejana, lonje das tentações do mundo, ellas pareciam, realmente, não ter pressa de casar.
No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, que era uma semsaboria pouco melhor que a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram arrastar o avô até Setubal, onde fizeram sensação, e ficaram sendo conhecidas pelasnetas do Padre Eterno. Mas o avô fatigara-se com a jornada, e no anno seguinte voltaram para Sines. Agora fôra elle que voluntariamente, conhecendo que as suas tres graças preferiam naturalmente Setubal a Sines, se offerecera de motu proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal bonhomia de avô baboso.
Julio de Lemos, que encontrára na Physica da Escola Polytechnica um barranco ainda não vencido, resignava-se, durante as ferias, do desgosto que no fim de todos os annos lectivos recebia em Lisboa. Namorando e perpetrando o seu verso, preparava-se para no anno seguinte investir novamente com a Physica.
Fôra um dos mais dedicados satellytes dasNetas do Padre Eterno, quando ellas pela primeira vez appareceram em Setubal. Versejára em honra de todas tres, mas não era um namorado queninguem tomasse a serio. Todos os galanteios que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, não podiam auctorisar-se com a esperança de casamento. Mas, em compensação, ellas haviam atravessado triumphantemente Setubal, durante toda uma epocha balnear, sob uma chuva de flores.
Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam ainda Julio de Lemos escravisado pela Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto a divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o passado, como para aligeirar o presente, e, sobretudo, para vingar-se da altivez castelhana de Soledad.
Orientado por este complexo programma, não podendo disfarçar a alegria com que se propunha realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, no caes do Livramento, acompanhando as formosasNetas do Padre Eterno, á frente Hilda e Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz Salomé dando o braço ao avô myope, como Antigone a Œdipo.
Estava já no caes a bella Soledad com toda a sua côrte.
O conselheiro Antunes dava ordens, fazia recommendações aos barqueiros: que não esquecessem isto, que não deixassem ficar em terra os cabazes com as loiças, e as celhas com o peixe.
D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido n’essa manhã, e de momento a momento commentava a leitura monologando:Qué broma!
D. Estalisnada mostrava-se encantada com a solicitude cavalheirosa do conselheiro Antunes, e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado de Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: «N’isto do azeite anda marosca; é linguagem combinada.»
Quando o grupo das Rodartes chegou, houve sensação no grupo de Soledad. Foi como se duas côrtes se chocassem.
O morgado de Reguengos, o proprietario das Alcaçovas, os dois officiaes de caçadores 1 e oVianninha já as conheciam. Correram a cumprimental-as, a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao avô.
Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a familia Rodarte aos que pela primeira vez a viam.
Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão amável como ironica:
—Ficará eternamente na memoria do rio Sado este encontro da belleza de Portugal com a belleza de Hespanha.
Uma explosão de riso saudou esta apresentação original. As tres Rodartes sorriram, mas coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu que n’esse momento lhe vacillava na cabeça a corôa de rainha da belleza, até ahi indisputada.
A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por parte do estudante, muito respeitosa:
—Apresento a vossas excellencias um dos mais illustres e respeitaveis cavalheiros que tenho tido a honra de conhecer: o abastado proprietario de Santarem, dr. Antonio José Antunes, do conselho de sua magestade fidelissima, e presidente da junta geral d’aquelle districto. A vossa excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado proprietario da Messejana, o sr. Araujo Rodarte, e suas encantadoras netas.
Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro o amphitryão da festa, carregou a mão nos elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar da despeza que elle fizerareforçando um pouco o contingente dos salmonetes.
D. Enrique, na primeira occasião que teve, perguntou a Julio de Lemos se o velho Rodarte era bom conversador. Ficou contente de obter uma resposta affirmativa, porque encontrava mais uma victima para as suas estopadas sobre a politica hespanhola.
E, para estreitar desde logo as relações com a sua victima, dirigiu-se a ella dizendo-lhe:
—És usted un imponente anciano, de mi mayor respeto.
Imponente anciano!Esta só podia lembrar a um hespanhol! Mas as barbas brancas do velho Rodarte eram dignas da hespanholada.
Embarcaram todos, não sem a hilaridade que o embarque de senhoras produz sempre. D. Estanislada precisou que o conselheiro Antunes, muito cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, largando do caes, aproáram a Troia.
Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não citarei emquanto o não souber escrever correctamente, o que aliás não é facil, se sentasse a seu lado. Era a resposta ao cartel de desafio, que o estudante lhe trouxera com a presença das Rodartes. O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei Portugal.» E sobre o Sado, como na vespera, era a Suecia que triumphava.
Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar de montar o arsenal culinario.
O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se como Vatel amador. Muito methodico, elle mesmo dispunha os utensilios, procurava os tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o lume. Dir-se-ia que elle desejava imprimir o cunho da sua individualidade não só á caldeirada, que ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que estava organisando com o maior esmero.
Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha e os officiaes de caçadores 1 fossem explicando que em Troia existira uma cidade romana, chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda ruinas e outros vestigios, taes como amphoras e medalhas, toda a caravana, com excepção deduas pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente as medalhas, pois que o Vianninha affirmava que se encontravam com facilidade, e que elle mesmo possuia uma de bronze do tempo de Trajano.
As duas pessoas, que não acompanharam as outras, eram o conselheiro Antunes e D. Estanislada, que se offereceu para auxilial-o no mister de cosinheiro.
D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas disseram entre si, commentando: «Azeitenão falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»
Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre a area, enfiou o braço no do sueco, pendurando-se d’elle com abandono. Continuava, portanto, a sustentar o seu plano de combate. Em Troia, como no Sado, era a Suecia que triumphava.
Os outros perceberam a intenção de Soledad, e rodeavam, em despique, as tres Rodartes, acompanhando-as n’uma especie de cortejo triumphal e de certamen galante. O proprio hespanholito D. Ramon, julgando-se vencido pela Scandinavia, vingava a Iberia masculina arrastando a aza a Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o marialva do Chiado pareciam propender mais para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o morgado de Reguengos entabolaram conversação com Salomé sobre assumptos graves do Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores 1 e o Vianninha iam adiante dos grupos em exploração archeologica. Julio de Lemos, já despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente de Aurelio Goes, que não respeitava os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava a conquista de Hilda, principiava a lamentar-sede ter perdido a occasião do duello para lhe atravessar o coração com uma bala.
«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas mãos lhe morre.»
D. Enrique apossara-se doimponente anciano, levava-o a reboque pelo braço, e descrevia-lhe os horrores da insurreição cantonal, parando a cada momento, exclamando:
—Que barbaridad!... que atentado!
O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o Vianninha indicaram alguns vestigios da antiguidade romana de Cetóbriga, a que ninguem deu grande importancia.
Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha o Vianninha por causa da grande abundancia de moedas, que segundo elle, se encontravam em Troia, o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, ainda quiz justificar-se, excavando no areal.
Soledad, conversando com o sueco, cuja face irradiava como uma aurora polar, olhava desdenhosamente para tudo aquillo.
Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava da areia humida, offereceu-a a Hilda Rodarte.
Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança abrangia agora duas pessoas: Soledad e o redactor daTrombeta Ullyssiponense.
Mastigava represalias... em sêcco.
Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar das affirmações categoricas do Vianninha, e do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, que, occupando-se do assumpto, havia chamado a Troia—terreno fertilissimo d’estes achados.
Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido em pelotões, retrocedeu, a fim de procuraro abrigo do toldo que os barqueiros já deviam ter armado, para sob elle ser servida a caldeirada.
Com effeito, estava quasi prompto o improvisado pavilhão, feito de vélas de barco.
O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados do rosto, debruçados sobre a caldeira, provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, e annunciavam que estava divina.
Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra do toldo, deixando ficar a descoberto metade do sapato enfitado. O sueco, embasbacado, bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo muito abstracto ao que ella lhe dizia.
Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, com os outros. Havia risinhos. Soledad percebia, e de vez em quando ella mesma, com uma audacia castelhana, olhava para a ponta do sapato, como a encaminhar para esse alvo, que aliás era preto, o olhar do sueco.
Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera a ousadia de sentar-se na areia perto de Hilda, perdeu a tramontana e começou a escancarar umas gargalhadas alvares. Resolveu logo embebedar-se para tirar a desforra.
O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo do pavilhão, annunciou que ia ser posta a toalha, porque a caldeirada estava prompta, e que por isso cada um devia tratar de occupar logar em volta do recinto destinado á toalha.
Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio de Lemos sentou-se na areia entre Hilda e Soledad, ganhando uma excellente posição. O sueco poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o Goes á esquerda de Hilda. Mas o estudante de Alcacer ficou ardendo entre dois fogos, tinha ádireita a Hespanha e á esquerda a Messejana: ficou no meio da Peninsula.
Quando D. Estanislada appareceu, notou-se que ella vinha um pouco mascarrada n’uma das faces.
—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito solicito, o conselheiro Antunes.
Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam entre si olhares intelligentes: o conselheiro Antunes pintava o bigode.
A caldeirada estava deliciosa: até os anjos a poderiam comer.
O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.
A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões, referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda, quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem.
O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor daTrombeta, muito habituado alunchs, comia como uma frieira, mettendo a colherada em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista.
Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes.
Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam.
O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal a que o tinha subido.
D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher, acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete.
O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco, contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso para elle.
O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro, dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe soubesse melhor.
Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de uma vez a deixa do Rodarte, e, pondo-se de joelhos, caneca em punho, declamou:
Eu saúdo o illustre conselheiro,Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro
Eu saúdo o illustre conselheiro,Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro
Eu saúdo o illustre conselheiro,
Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro
Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo o improviso.
—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, para o ver, por deante de Hilda.
E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, deitou agua na fervura:
—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa amisade. Queira continuar, sr. Lemos.
—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça melhores, se é capaz, insistiu o estudante.
—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira continuar o seu improviso.
—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... Acho que era isto:
Mas unico talvez na caldeirada:Que é comêl-a e morrer...
Mas unico talvez na caldeirada:Que é comêl-a e morrer...
Mas unico talvez na caldeirada:
Que é comêl-a e morrer...
Julio de Lemos engasgou-se.
—Não diz mais nada?! exclamou o tenente Epaminondas completando o verso em que o estudante se pegára.
Uma explosão de gargalhadas saudou este comico episodio, e o estudante, que não tinha espinha com o tenente, antes era seu amigo, riu tambem, aproveitando a tangente para fugir á difficuldade do verso.
Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as palmas, e recitou:
Eu, n’esta agradavel festa,Tão grata e tão jovial,Brindo, honrando o bello sexo,Por Hespanha e Portugal.
Eu, n’esta agradavel festa,Tão grata e tão jovial,Brindo, honrando o bello sexo,Por Hespanha e Portugal.
Eu, n’esta agradavel festa,
Tão grata e tão jovial,
Brindo, honrando o bello sexo,
Por Hespanha e Portugal.
—São de cravo da Praça da Figueira! berrou o estudante.
—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo com applausos a inconveniente apostrophe do estudante.
E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de Salomé, levantou-se pausadamente.
—Tambem eu quero fazer o meu brinde.
Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.
—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, me pareço um pouco com S. Pedro, permittam-me que feche a porta dos brindes. Bebo em honra do illustre conselheiro, dignissimo presidente da junta geral do districto de Santarem.
Beberam todos. E levantaram-se a pouco e pouco, alguns com difficuldade.
O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, e, emquanto se abraçavam, cochicharam ao ouvido.
Os barqueiros trataram de recolher as loiças, e os cabazes.
E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria melhor que o barco fosse primeiro a Setubal levar as senhoras, e que voltasse depois. Que elle, pela sua idade avançada, desde já se considerava senhora; que o sr. conselheiro, que devia estar fatigado, iria tambem com as senhoras, bem como D. Enrique, para acompanhar a esposa e a filha. Era a combinação que tinham feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho Rodarte.
Os outros ficaram com cara de parvos, mas o Rodarte, chamando de parte o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:
—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. Que desculpassem. E que lhes pedia o favor de olharem por elles.
Um e outro concordaram:
—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.
Largou de Troia o barco com as senhoras, D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro.
Os rapazes ficaram por longo tempo acenando com os lenços, dizendo adeus.
Desembarcaram as damas no caes do Livramento, e o barco voltou a buscar os que tinham ficado.
Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam a descer sobre o Sado, a envolvel-o n’um veo que a pouco foi perdendo a transparencia. Apenas um ponto luminoso brilhava ao longe na areial de Troia.
Deram oito horas, e o barco não tinha voltado ainda.
No caféEsperança, do Zé Lapido, esperava-se o regresso dos rapazes.
Uns commentavam:
—Que tal foi a bebedeira!
Outros, mais timoratos, diziam:
—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma semsaboria!
Deram nove horas, e o barco não voltava.
Então alguns officiaes de caçadores resolveram ir a Troia ver o que tinha acontecido.
Tomaram um barco, e largaram.
A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e perguntaram:
—Quem vem lá?
—Somos nós, respondeu a voz do proprietario das Alcaçovas.
—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes.
—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos.
Mas não se ouvia nenhuma outra voz.
—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes.
E perguntaram:
—Vem ahi os nossos camaradas?
—Vamos, respondeu o alferes Ruivo.
—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas.
—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!... continuavam a dizer entre si os officiaes que tinham ido procurar os outros.
Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo tempo ao caes do Livramento. Então poude verificar-se que effectivamente os da caldeirada vinham macambuzios, entrombados, e que o sueco, estatelado no fundo do barco, e occupando-o quasi todo, dormia profundamente, a ponto de terem que acordal-o berrando.
E como elle grunhisse uns roncos cavernosos, sem comtudo se levantar, foi preciso que o proprietario das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro, o filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé.
—Mas o que se passou? o que se passou? perguntavam cheios de curiosidade os que tinham ido buscal-os.
—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de genebra, disse o das Alcaçovas, e conversaremos.
Quando entraram no café, e logo que se sentaram, deram pela falta do sueco, que se tinha escapulido.
Todos os conhecidos, que estavam no botequim, lhes fizeram circulo, sentando-se em torno da mesma mesa.
O tenente Epaminondas contou miudamente as peripecias dopic-nic, incluindo a mascarra de D. Estanislada, historia que produziu grande hilaridade no auditorio.
Depois poz em relevo a prudente astucia com que oPadre Eterno, pois que no café todos lhe chamavam assim, se safára com as netas e as hespanholas quando vira romper as hostilidades entre o estudante e o jornalista.
Disse que, logo que o barco partiu, o sueco investira, muito bebado, contra o estudante, accusando-o de acintosamente ter ido sentar-se ao lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens que, como preferido, havia conquistado nos ultimos dias.
Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado, começara a implicar com o Goes, accusando-o de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe o improviso com uma gargalhada insolente.
O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante ao jornalista.
Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os a murro, e contou o tenente que o proprietario das Alcaçovas conseguira abalar a columna vertebral e a colera do sueco com um valente pontapé applicado em cheio no sitio em que as costas mudam de nome.
—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente o alferes Ruivo.
Gargalhada geral.
—Que no meio de toda esta balburdia o morgado de Reguengos lembrára jovialmente que, para de uma vez pôr termo a tão impertinentes conflictos, e definir a situação de todos, o melhor seria confiar á sorte a distribuição do papel amoroso de cada um.
Esta lembrança produzira um excellente effeito, foi como que um punhado de areia atirado aos olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo, ficariam livres de concorrentes perigosos e incommodos.
Deram pois a sua palavra de que respeitariam fielmente os decretos da sorte.
Trataram então de espertar a fogueira, que tinha servido para a caldeirada. E á luz d’ella fizeram,de cartas velhas e outros pedaços de papel, pequenas listas, em que escreveram a lapis os nomes de todos elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as na copa de um chapeu. Depois inscreveram n’outras listas os nomes das quatro damas, mas, n’esta occasião, houve um protesto do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a favor do recenseamento de D. Estanislada, comopremio de consolaçãoao que ficasse a ver navios.
O jornalista observou que D. Estanislada já pertencia, pela mascarra, ao conselheiro Antunes.
O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente, dizendo que, desde o momento em que a sorte era chamada a decidir, desapparecia a principio dosdireitos adquiridos.
Por essa occasião o estudante observára:
—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal doazeite.
Todo o caféEsperançaria, a bandeiras despregadas, com a narração do tenente Epaminondas.
Lançadas as cinco listas, e mais algumas em branco na copa de outro chapeu, procedeu-se ao sorteio, que deu o seguinte resultado:
Morgado de Reguengos—D. Hilda.
Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez.
D. Ramon Mendoza—Soledad.
Vianninha—Salomé.
O sueco—D. Estanislada.
Os que a sorte desfavorecera, especialmente o sueco, o estudante e o jornalista, romperam em protestos contra o acto eleitoral, distinguindo-se o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se a acceitar D. Estanislada.
E tanto berrava e barafustava, que o proprietario das Alcaçovas teve que atiral-o para o fundo do barco, onde elle escabujou ao principio e adormeceu depois.