O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo.
Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma.
Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes, alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor medieval.
O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação, contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa.
Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia. Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado: com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes.
Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem Pariz lhes repugnavam... para uma vez.
Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores, mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem ouvir nunca uma opera.
De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava habilitado a comer.
A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos.
O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo, deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos guerreiros d’Agar.
Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções populares, accentua-se com evidencia.
A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não invalidam a regra geral, antes a confirmam.
Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e pratica.
Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.
Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno.
Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á verdade.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas amavam como quem eram. Em pleno galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por outras tratar negocios, receber as prestações da venda da cortiça, vender cevados aos salchicheiros da Baixa.
E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro a cantar nas algibeiras, sabia-lhes bem a suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, antes de abancarem a jogar o loto com as netas,contavam ao avô, francamente, o resultado das suas transacções em Lisboa.
E as duas meninas, que se foram affeiçoando lentamente a elles, porque encontraram dois homens cujo typo conheciam, pois que era o da sua provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar de cevados, entendiam-n’os.
Horror! gritará a leitora alfacinha.
Pois minha senhora, nada e creada na patria de Ulysses, perdoe V. Ex.ª o horror da verdade. Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como, principalmente, Salomé, que era o braço direito do avô, sabiam a cotação das cabeças suinas, e conheciam todos os processos da engorda dos cevados.
Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de boa lei, portuguez do Alemtejo, onde a azinheira produz a boléta, que é riqueza.
Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos das operas de S. Carlos, nem das operetas da Trindade. A sua canção predilecta era aCeifeirade Palmeirim, poeta genuinamente nacional, que ha quarenta annos se vulgarisou tanto no norte como no sul do paiz.
O rythmo da canção era dolente como o de toda a musica popular do Alemtejo, mas lá gostavam de ouvir Hilda soluçar, como umFado, as trovas do poeta:
Ha quem diga por invejaQue és feia por ser trigueira;Dizem as damas da côrte,Deixal-as dizer, ceifeira.
Ha quem diga por invejaQue és feia por ser trigueira;Dizem as damas da côrte,Deixal-as dizer, ceifeira.
Ha quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da côrte,
Deixal-as dizer, ceifeira.
As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam dos campos, queimadas pelo sol, morriam por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava,porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a repetisse.
Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor patriarchal n’esses serões agricolas do Alemtejo, em que a neta, sentada nas escadas de pedra do palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras e pelosRatinhos, que descançavam ao luar.
O bom velho tinha sempre uma graça para dizer ás raparigas.
Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado de cantar, disse elle:
—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem é esta poesia que a minha Hilda vos cantou agora?
—Não sabemos, senhor.
—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama Palmeirim. E não fez só poesias que as meninas cantem; tambem fez algumas que servem para os velhos cantar.
Gargalhada unisona das ceifeiras e dosRatinhos.
—Não se riam vocês, que eu tambem vou cantar agora.
—O sr. Rodarte!
—Eu mesmo.
E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente, começou:
Vet’rano fiz as campanhasDa guerra peninsular.
Vet’rano fiz as campanhasDa guerra peninsular.
Vet’rano fiz as campanhas
Da guerra peninsular.
—Mais! mais! pediram muitas vozes.
—Nem mais nem menos, respondeu Araujo Rodarte rindo. Um veterano não póde passar d’aqui.
Nova e prolongada hilaridade dosRatinhose das ceifeiras.
Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar nos campos, que a foice dos trabalhadores ia deixando reduzidos á seccura do restolho:
Ha quem diga por invejaQue és feia por ser trigueira;Dizem as damas da côrte,Deixal-as dizer, ceifeira.
Ha quem diga por invejaQue és feia por ser trigueira;Dizem as damas da côrte,Deixal-as dizer, ceifeira.
Ha quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da côrte,
Deixal-as dizer, ceifeira.
—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte a Hilda, como honram a professora! Ainda não houveprima-donnade S. Carlos que fizesse escola como tu.
Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos como a gente ouve fallar de um paiz longinquo. O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos, conhecia-o pouco. Quando alguma vez viera da Messejana a Lisboa, aconteceu ir ouvir uma ou outra opera, sobretudo se a opera era do velho Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava por ser, especialmente, o auctor daNorma.
D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até uma ratice, que Araujo Rodarte sempre contava rindo.
Annunciava-se aNorma, e elle não resistiu ao cartaz. Mandou comprar a S. Carlos um bilhete dageral. Á noite dirigiu-se para o theatro, cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um caso extraordinario.Adalgizafôra raptada pela famosaSociedade do delirio. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera voar os cavallos da carruagem em queAdalgizaentrou, ao descer dohotel. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida doida, umcoupé, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.
Era aSociedade do delirio, que praticára mais uma das suas proezas,—o rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina.
Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, fez o que em amor se chama umadeclaração. Esse doce e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade, não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade agradavel, no trato familiar de todos os dias, e nolotode todas as noites.
As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem, mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham que pelo que lhes dizem.
Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia, fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o obrigassem a separar-se das duas netas.
Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento:
—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o abandonaremos nunca.
E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente, fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem aos dois alemtejanos, quando fosse occasião.
D. Enrique abandonou a casa de Setubal sem lhe mandar pôr escriptos.
Que de Setubal não queria saber mais, dissera elle á sr.ª Magdalena quando lhe entregou a chave.
A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram satisfeitissimas, por muitas e variadas razões.
Em primeiro logar, Ricardina havia contado á mãe que, n’aquella casa de pouca vergonha, tanto a hespanhola velha como a hespanhola nova, expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual parecia disposto, se podesse vencer-se aquella dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.
A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha bem casada, prometteu uma via-sacra ao Senhor do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem em paz a filha e o sueco.
O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade,e a sr.ª Magdalena tratára logo de cumprir a promessa.
Em segundo logar, a menina Ricardina gostava muito, quando a casa estava com escriptos, de atravessar a rua para ir mostral-a.
Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé debaixo da mesa do chá.
Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar a casa.
—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e olhando de relance para o pavimento e para os moveis.
Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão, ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes.
Feito o primeiro exameà vol d’oiseau, Ricardina abriu as gavetas de alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade.
Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde.
—O que será isto?! pensava Ricardina.
Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha.
Largou a rir do achado, que estava longe de esperar.
Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:
—Para qual dos tres seria isto?
E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos, continuou a pensar:
—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos. De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D. Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser mais barata ou melhor do que a que trazia.
E continuou a rir, a rir.
—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é!
E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe a alegre historia do seu achado.
—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito o milagre.
Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha nada com a outra.
A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa de D. Enrique.
Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao Marcolino, marcador do bilhar no caféEsperança, porque era esse o melhor meio de vulgarisar o caso em toda a cidade.
O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, foi logo comprar amendoas e cigarros á loja do Passos, na Praça do Bocage, e depois ao caféEsperançacontar a historia ao marcador.
Á tarde, oshabituésdo botequim commentavam o caso rindo, e ao anoitecer constava em toda a cidade que D. Estanislada, aleôa velha, como começavam a chamar-lhe, usava dentes postiços.
D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em Setubal, inesperadamente, D. Enrique Saavedra.
Foi direito da estação do caminho de ferro a casa da sr.ª Magdalena.
—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! perguntou a beata.
—Dizia que não queria mais nada da nossa terra! atalhou Ricardina.
—Que broma!exclamou D. Enrique.Olvidé una joya que vengo à buscar.
—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! que falso testemunho! exclamou a mãe de Ricardina.
—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de vêr! apostrophou arrogantemente Ricardina.
—Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan ustedes.
—E em que sitio calculam que estava a joia? perguntou Ricardina, muito esperta.
—En el cajon del labatorio, respondeu D. Enrique.
—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse triumphantemente Ricardina. Vamos já vêr.
Foram.
D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio e, encontrando a caixa, exclamou:
—Aqui está la joya!
—Não! disse Ricardina, que com difficuldade continha o riso. Vejaustedse a joia está como a deixaram. Faça favor de examinar.
D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro da gaveta, e, como Ricardina se approximasse, elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.
—Está ou não está? É negocio muito sério! Deve vêr, para que a verdade fique bem esclarecida!
—Está todo como habia quedado, respondeu D. Enrique.
—Deve ser joia de muito valor, paraustedse sujeitar a vir a Setubal procural-a? perguntava, muito desfructadora, Ricardina.
—Una joya de familia, de mas estimacion que valor.
—Bem me queria parecer que era joia de familia!... Ora ainda bem que appareceu! E a quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?
—Nó, és de mi mujer.
—Já estão em Santarem?
—Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos mañana para Santarem.
—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar muitas lembranças minhas ao sr. conselheiro, disse ironicamente Ricardina.
—Seran entregadas.
Quando D. Enrique foi almoçar aoEscoveiro, por isso que só de tarde podia regressar a Lisboa, sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.
—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!
—He venido buscar una joya de familia, que habia dejado quedar olvidada.
—E appareceu?
—Ah! perfectamente. Estaba en su sitio.
—Então já está em Santarem?
—Todavia nó. Solo partiremos mañana de Lisboa.
—E tenciona demorar-se muito em Santarem?
—Hasta vuelvan los Borbones.
—E as sr.ᵃˢ como passam?
—Magnificas!
E cada um lhe ia dizendo por sua vez:
—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao conselheiro. Não se esqueça, D. Enrique.
—Jamás.
No comboyo da tarde D. Henrique regressou a Lisboa, levando na algibeira a joia de familia,—a dentadura de D. Estanislada.
O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos dias.
A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava a fazer a via-sacra, que promettera ao Senhor Jesus do Bomfim.
Ricardina aproveitava essa occasião para ir arejar a casa em que D. Enrique morára, e que ainda não estava arrendada.
De uma d’essas vezes, seriam seis horas e meia, Ricardina estava á janella, parecendo que se deliciava em tomar o ar fresco da manhã. Demorava-se, olhando ao longo da rua.
N’isto apparece o sueco, que parou debaixo da janella, e perguntou muito respeitosamente:
—É parra alugarr esse casa?
—É, sim, respondeu Ricardina.
—Poderrei verr agórra?
—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.
O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, examinou com interesse todos os compartimentos da casa, que aliás não eram muitos.
E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou a sr.ª Magdalena, para lhe dizer que desejava ser seu inquilino.
—Que tinha muita honra n’isso, respondeu affavelmente a mãe de Ricardina.
Attendendo a que já ia adiantada a estação balnear, e a que o inquilino poderia vir a ser genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe mais quatro libras do que pediria a qualquer outro.
O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. Jantava noHotel Escoveiro, mas almoçava em casa. Como não tinha criada, porque a menina Ricardina lhe prohibira que a tivesse, era ella propria quem ás oito horas da manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.
Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena recommendava-lhe sempre:
—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!
—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou d’essas...
No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume.
Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante resolução que os dois alemtejanos haviam tomado.
Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez, ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das deze meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se tranquillamente.
No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume, esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite.
Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que aliás não estava em costume.
Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em nome dos dois.
—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª assim o permittir.
Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa.
—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.
—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, sabe muito bem quem nós somos, e os meios de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos a pedir, eu a mão da sr.ª D. Hilda, o nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. Maria Ignez. Eis o assumpto especial da nossa visita.
—Eu, accrescentou do lado o proprietario das Alcaçovas, louvo-me nas palavras que V. Ex.ª acaba de ouvir.
—Pela minha parte, respondeu o avô das duas meninas, devo dizer a V. Ex.ᵃˢ que nada tenho que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter que separar-me d’estas creanças que com tanto amor eduquei depois que seus paes morreram, mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque o amor exclue o egoismo, de as conservar indefinidamente presas á minha ordem. Apenas sempre recommendei ás minhas netas que não tivessem pressa de casar, isto é, que o não fizessem irreflectidamente, porque lhes não faltavam commodidades, regalos e carinhos. Estou, porém, convencido de que V. Ex.ᵃˢ as saberão estimar, senão mais do que eu, porque seria impossivel, permittam-me esta vaidade, pelo menos tanto como eu.
N’este momento arrazaram-se de lagrimas os olhos de Araujo Rodarte.
Houve um momento de silencio.
—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, não basta n’esta grave materia o que eu digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o que dizem as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo as tinham prevenido dos intuitos d’esta sua visita...
Os dois alemtejanos responderam quasi ao mesmo tampo:
—Não, sr.
—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. Ainda bem, porque esse facto mostra ao meu coração que as minhas netas não teem segredos para mim. A reserva seria desculpavel por parte d’ellas, mas não deixaria de maguar-me, porque representava até certo ponto falta de confiança no seu velho e affectuoso avô.
—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas sorrindo, vamos agora saber pela primeira vez oque as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso respeito.
—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam com a franqueza que o momento requer.
Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi a meio do corredor, e chamou em voz alta:
—Salomé! Salomé!
—Meu avô!
—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem tu tambem.
Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos dois patricios:
—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem minha neta Salomé. É o meu braço direito. Em minha casa todas as resoluções são tomadas em conselho de familia. Não desejo que este espirito de solidariedade se interrompa justamente no momento em que vae tomar-se uma resolução importante para nós todos.
Não tardaram a apparecer as tres meninas.
Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais purpurino, dir-se-hia que Hilda e Maria Ignez não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo contrario, estava mais pallida que de costume, parecia ser ella a noiva, pela commoção que denunciava.
Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse voltando-se para Hilda e Maria Ignez:
—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e amigos, acabam de me expôr um assumpto que exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os como devo, porque ambos são pessoas que me merecem o melhor conceito, nada terei que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar com franqueza, porque se trata do vosso futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, e este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondeiagora ou quando quizerdes, e como quizerdes.
As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, cravando no avô os olhos embaciados de lagrimas.
Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, para desopprimir o animo das netas.
Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento da casa.
—Podeis e deveis fallar como entenderdes, disse Araujo Rodarte.
—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais purpurina ainda das faces do que havia entrado, porei apenas uma condição.
—Qual? perguntou Araujo Rodarte.
—Que ficaremos vivendo na Messejana em companhia do avô.
Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho ao ouvir estas palavras.
—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. Não quero que o sr. Rodarte tenha motivo algum para desgostar-se com o meu casamento.
—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante de alegria. V. Ex.ª, disse elle risonho ao morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir a minha Ignez. Falla tu, menina.
—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda fallou por ella e por mim. Dou a mesma resposta com a mesma condição.
—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, não tenho a accrescentar uma virgula ao que disse o morgado. O que elle disse é o que eu digo tambem.
Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, levantou-se da cadeira e apostrophou erguendo as mãos e os olhos:
—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, meu Deus!
As tres netas correram a abraçar-se no avô, que effusivamente as beijava no cabello.
Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos no chão, assistiam de pé a esta encantadora scena de ternura patriarchal.
Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, nadando em felicidade, dizia familiarmente ao morgado de Reguengos:
—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. Como foi que isto começou?
—Ora! respondeu o morgado. Começou por uma brincadeira!
—Como?
—Na Troia, depois dopic-nic, nós dois, p’ra nos rirmos com a rapaziada, que estava levada da bréca por ciume uns dos outros, lembramo-nos de tirar á sorte os nomes das damas que cada um havia de namorar.
—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.
—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. Foste tu, morgado. Porque elle, sr. Rodarte, lá mesmo se gabou de ter muita sorte a todos os jogos.
—Bem se vê, observou o velho, bem se vê pelo dinheiro que nos tem apanhado ao loto! Que fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. Ó morgado, logo que estivermos na Messejana, havemos de ensinar o voltarete a seu cunhado.
—Dito.
—Mas então, continuou interrogando o velho, a minha Hilda coube em sorte ao morgado.
—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario das Alcaçovas.
—E o agouro sahiu certo! Tem graça! temgraça! Parece romance! E, diga-me, a andaluza não entrou tambem na loteria?
—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.
—Ahi é que me parece que o agouro falhou. Mas quem sabe? O futuro a Deus pertence. Mas o hespanholito ainda ahi está, pois não está?
—Sim, sr.
—Não o tenho visto!
—Elle não sae do caféEsperança, onde bebe gazozas umas sobre outras. Não parece disposto a morrer de saudades pelaseñorita.
—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo Rodarte.
—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou o proprietario das Alcaçovas. Nem parece hespanhol! Á força de tomar gazoza, já a tem nas veias.
Riram todos muito com esta observação, que era exacta.
O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio.
—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte?
—Ao Vianninha.
—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem quero lembrar!
Não se soube logo no caféEsperançaque as duas Rodartes iam casar. Os dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse uma garrafade vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de Portugal sobre a Hespanha.
—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos, opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da patria offendida. (Hilaridade geral.) Ficou triumphante a belleza de Portugal, sem precisar para isso recorrer átertulia, aoabanico, nem aos dentes postiços da mamã. (Alguns dos «habitués» do café Esperança choravam de riso). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer.
E fez uma longa pausa.
—Então?
—Venham de lá as taes palavras!
—Vem ou não vem?
O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, esvazia o copo e recita com emphase:
Que mais querem de nós? apoz tamanhagalhardia d’algoz, ébrios de gloria,apagaram acaso a luz da Historia?não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...Quer insultar a lapide funereaque pesa sobre vós, heroes deOurique!...Estremecei de horror, filhos de Henrique!...Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
Que mais querem de nós? apoz tamanhagalhardia d’algoz, ébrios de gloria,apagaram acaso a luz da Historia?não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...Quer insultar a lapide funereaque pesa sobre vós, heroes deOurique!...Estremecei de horror, filhos de Henrique!...Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
Que mais querem de nós? apoz tamanhagalhardia d’algoz, ébrios de gloria,apagaram acaso a luz da Historia?não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...
Que mais querem de nós? apoz tamanha
galhardia d’algoz, ébrios de gloria,
apagaram acaso a luz da Historia?
não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...
Quer insultar a lapide funereaque pesa sobre vós, heroes deOurique!...Estremecei de horror, filhos de Henrique!...Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
Quer insultar a lapide funerea
que pesa sobre vós, heroes deOurique!...
Estremecei de horror, filhos de Henrique!...
Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
Fim
Post scriptum.—Pude finalmente conseguir escrever o nome do sueco. Chamava-se Andreas Setterquist. A menina Ricardina, muito carinhosa, chamava-lhe familiarmente o seuSettequiz. E o malicioso alferes Ruivo dizia que, a contar por alto, devia effectivamente ser o setimo.
Pag. 129:
Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem alguma traição», deve lêr-se—«terão coragem para me fazer alguma traição».
Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda tão tolo», deve lêr-se—«A velhice não me tornou ainda tão tolo, etc.»