O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER

Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo qualquer cousa similhante á seducção.

Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por elle a companheira.

Reparou que os seus cabellos eram finos, a testa pensativa, e que as suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se derivassem de uma vontade séria de enfermeira. Os seus vestidos escuros, mal roçando nos moveis, como levados n'um vôo de borboleta, as suas lentas mãos guiadas á descoberta de fazerem o lar confortavel sem parecerem tocar nos objectos, uma percepção sagaz de concentrarem cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisação da luz, nas flôres da secretária, tudo isto que dir-se-hia casual, por vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinação que derivára primeiro do egoismo envaidecido de sentir em tôrno a vida sem attrictos, com as comidas a horas e bem feitas, a casinha tépida, macios osfauteuils, a atmosphera perfumada e aplethora de bem-estar constante de riqueza, defendida ás linguarices dos estranhos, pouco a pouco começou a lhe subir do estomago á intelligencia, e a figurita d'ella, severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e diaphana como uma sombra do paraizo, passava ás horas calmas de estudo pela cabeça d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia fecunda, se não fôra a fatalidade dos homens de genio não poderem propagar-se sem degenerações na descendencia. Começou a presentir então a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallação e absorpção que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de lingua, as irreverencias sardonicas daboutade,—todas as qualidades crueisque haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista maximo das degenerações sociaes do seu paiz.

Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do esposo, ella como que só pensava em lhe encadear as attenções no sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mão livros de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e até repassando ella mesma, através dos seus conselhos, os assumptos que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella transfilhára-se inteiramente ao corpo d'elle.

Uma noite de novembro, já depois das colheitas da uva e da azeitona, aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura, ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia financeira em que viviam.

Como a situação de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como senas palavras da esposa houvesse reprimenda á sua inercia.

Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretária, agarrou n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma calligraphia tortuosa, começou a dizer, com a sua voz de pauzas doces, que as vinhas estavam velhas, o phylloxera á porta, os terrenos estanques da produção sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade horrivel do fabrico; e quanto ás terras de cereal, parte não dava, por desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta de abrolhos e de estevas, apenas nos começos do outomno era pascigo para as cabras dos pastores furtivos da visinhança. O remedio era uma remodelação completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras de pousio lançar plantações americanas, reengorgitar os almargios da ceara com os elementos chimicos necessarios á cultura intensiva, ampliar a extensão aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda na fermentação do mosto em barros pesgados, e seu esforço alcoolico com aguardentes de balsa ao esturro e á porcaria do alambique.

Demandava a nova empreza capitaes de alguma fórma custosos para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam começar aos poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma vigilancia quanto possivel methodica e regulada.

—Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades espirituaes, ephemeras e... irritantes.

—Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a politica do districto...

—Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás, pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de acção.

—Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...

—Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma fortuna decisiva.

—Em dinheiro talvez?

—Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões. Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu declaras cerebralmente inferioresdesenvolveram na vida qualidades de lucta que te faltam.

—Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...

—A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.

—Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.

—Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas antigas ambições.

—Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!

—Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou defendes aquelles para quetens uma certa vocação. Em politica achas todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não visam nunca individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a rodo pelos regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo isto senão um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares sendo primeiro e unico de pé?

—Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que eu detesto!

—O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle? porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um canalha sarcastico,e quarenta adeptos que apenas servidos desertaram de ti como da peste.

A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia, e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente, fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe declan. Tudo estaria em fazer do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter feminino edominavel, acobardando-se diante dos obstaculos, e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos? Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por gazetilhas obscenas noPimpão, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e redactor politico daNova, jornal do presidente do conselho, que o despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de confiança.

Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando, avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma sublime benevolencia, apoiar-lheas pretensões, combinando-se depois de tres dias de hospedagem e de jantares pantagruelicos, que adquirida a gazeta, com typografia e pessoal conveniente, Jorge Miguel fosse a Lisboa munido de cartas prestar ao ministério vassallagem, e receber dos magnates do partido a sua iniciativa de cavalleiro. Quinze dias depois ia na casa do nosso pacifico contemplador uma barafunda dos demonios.

Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas, caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender,por conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do «escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador. Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para fazer de alqueires, moios.

A reapparição doClamor de Beja, jornalindependente, um typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande provincia.

Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa, jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto alevar de vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o gallego do bahú veio a dar fundo nasDuas Nações, ante uma canja que tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou como poude as vitellas flacidas com cenouras, umroast-beefde folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S. Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via, extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões de jornaes esilvos de comboyos. Mentalmente, com esforços de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seuraildeflaneurnocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado, como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um novo monumento—emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz, picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...(Voltar ao Conteúdo)

—Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o sei.

—Qual!

—Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade dos que amo, e o amor da minha filha...—Baixava a voz para dizer-me—Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo castigo.

Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura estrondosa, feitan'uma senhora das suas relações, por um dos taes.

—E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.

—Faço, faço.

—Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas, que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos medicamentos nem os tomo.

—Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...

—Horriveis! E tão prosaicas...

—De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.atira effeitos poeticos da doença que diz soffrer, confesse.

—Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um aneurisma, meu Deus!...

—Ahi, está V. Ex.apoetando com hypotheses de martyrio, simples achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. Ex.avê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu estomago!

—E o meu, doutor, o meu?

—A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.aduqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.amarqueza de Valle de Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.atem os seus soffrimentos. É uma compensação.

—Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo onde quatro homens faziamwhist, á luz d'uma serpentina. Um velho calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se respeitosamente e veiu junto de nós.

Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope: andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.

—Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa mãe.

—Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.

—Mas a partida...

—O doutor vae substitui-lo, sim?

—E a condessa assim me desterra tão cruelmente!—Ella estendeu-me a mão dizendo:

—Será por pouco tempo.—Fui. Esther não viera ainda. As senhoras começavam a chegar em pequena gala, combournousde casimira branca forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas pequeninassoirées, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle, enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido, uma elegancia fina degentleman; e nas conversações mais frivolas, em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a redondeza das suas espaduasreaes, surgindo de espumas de renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé, junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle disse:

—Já penetrei no mysterio.

—Qual?

—O da condessinha.

—Vamos a vêr como.

—Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...

—Sangue judeu! Ella?—Kebler baixou a voz e contou-me:

—Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira, chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria que um governo individado fez barão e par.

—Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto? Caramba!

—Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.

—A esposa era muito formosa então, parapoder alcançar tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.

—Lingua damnada!

—Adeante. É então supersticiosa, hein?

—Não imagina.

—Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos ao mysterio. Creio que foimysterio, que disse.

—Foi. Esther teve uma grande paixão!

—Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e sabonetes.Fermentoualguma cousa de?...

—Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.

—Está bem; estou já calado.

—Uma paixão fatal! Amou...

—Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.

—Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera missa.

—Bem dizia eu!

—Dizem que bella figura.

—Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima? Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?

—Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado e fugiu para as missões do ultramar.

—Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?

—Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.

—E como não lhe fosse permittido professar...

—Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.

—Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe traz uma especie nova, numacorbeilleadmiravel.

—Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida begoniarex-isis, especie do mais bello effeito decorativo. É um vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro, representando dragões engalfinhados.

—Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E depois?

—A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a convivencia dasmais plantas abreviaram-lhe os dias. Já entrou na estufa da condessinha?

—Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.

—É isso, com a begonia sêcca.

—Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle esqueleto de planta. E agora me lembro—ella ficava triste e suspirava. Era a theologia do primo adorado.

—Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do Mexico, que os francezes chamavamPoinsettie, exemplar soberbo. Conhece?

—Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde, envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas. Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande flôr. Uma opulencia, em resumo.

—Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da condessinha.

—Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos e... amor do judeu das tamaras com a...

—Mau!

—Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.

—Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:

—Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?

—Ella disse:Zebedeu?

—Disse.

—Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...

—Eu nem podia fallar!

—Oh castidade loira de vinte annos!

—E apertava-me tanto as mãos...

—Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...

—Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.—Eu estava a tremer como um poltrão.—Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.

—Qual? perguntei em voz baixa.

—Que não amaria ninguem mais. A não ser...

—A não ser?...

—Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem ninguem lhe tocar.

—Mas isso é impossivel.

—Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não creia: chorei!—Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de branco, que vinha entrando. Era Esther.

—Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca, disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.

—Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.

O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo do instrumento.

—Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar. Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende, fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa, enfastiado e murmurando:

—Fosse a cousa commigo...

No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.

—Vem acabar-me a historia de hontem?

—Venho sollicitar a sua presteza de atirador.

—Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro! Cruel! Desalmado!

—Qual! Tenho um projecto.

—Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o projecto.

—O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?

—Creio que sim.

—O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o Alvaro.

—Vou.

—Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...

—Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não pensasse em tal?

—Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias. O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por agora.

—Então?

—Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo, aponta ao vaso da China e...

—O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.

—Que? Ama a condessinha?

—Eu amo toda a gente; que diabo!...

—Estou esperando a sua resposta.

—Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!

—Olhe para mim. Se o não fizer...

—Dá um tiro no craneo; dá?

—Qual! fico solteiro toda a vida.

—Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no jardim?

—Saltando o muro que o separa da casa em que habito.

—O senhor é o diabo.

—Se a adoro!

Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das mais noites. Ao fundo do salão, a banca dewhist, onde o cultor da pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, nomeio das suas amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.

—Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor Zebedeu Kebler.

Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther confessava ruborisada que...Deus o queria.Tinha apparecido em pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto pender coroada de flôres de larangeira.

—És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.

—Já agora... respondi.

O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que apparecera esmigalhado. Crescia n'elle umhibiscusdo Japão, trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em grinaldas.

—Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma vaga saudadede amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do pobre esmigalhado, e que elle seja o talisman de um amôr, fecundo embébésde olhos azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais durador por isso mesmo.

Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente brilhavam, sorrindo de um modo encantador.

Nunca fui piegas, palavra de honra—mas inda hoje tenho calafrios pensando nos dentes d'aquella mulher.(Voltar ao Conteúdo)

Ha sete ou oito annos vinha eu do Poço do Bispo no electrico, quando nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P., clinico da localidade, com quem vim conversando até á Baixa.

Trazia na mão um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio d'uma peça poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez fallar da Coronado. Fiz com a cabeça que não, e elle, explicando que era o médico da casa, em duas palavras fez o elogio sumário da sua cliente. Mez e meio havia que esta senhora, já então de oitenta a oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez mental e muscular, se fôra por uma escada de pedra, quebrando um braço pelo terço inferior do cubito e do rádio.

Poucas esperanças tinha o clinico, dada a edade provécta da paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; senão quando, ao lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham adherido, e a cura se fizera completa e ás maravilhas!

Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir o espirito volitante, ideára e compuzera em quadras endecasylabas, uma poesia festiva ás suas mãos.

E aqui o médico estendeu-me a revista para eu lêr.

Uma das mãos da Coronado estivéra mez e meio entrapada nas ligaduras do aparelho de fractura, sem vêr a outra, e a poetiza figurava-as como duas amigas ou irmãs gémeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos e instinctos identicos, e que uma tão longa separação lançára no desespero e na saudade.

A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem ôcos, com significados precisos, frases de bronzesonoro, imagens faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sóbria, e mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. Não havia hesitação nem cançaço, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que vivem de restos e, perdido o séstro construtivo e inventivo, fazem litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a transcendencia lyrica á precisão. No tempo da Coronado os poetas ainda eram só romanticos ou classicos...

O individualismo hysteropatha não tinha creado os grupos decabarete as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas, ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inçaram a poesia de brochuras pathologicas, dando a impressão d'uma casa d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspiração que maluqueira.

A poetiza desde 1874 ficára isolada, pela tristura claustral da sua vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dosaltos de Montmartre, té aos centros d'insurreição de Madrid e de Lisboa. Poetava á antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.

Despertou-se-me então o desejo de, senão conhecer de perto, pelo menos entrevêr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois annos rimava com uma pujança feraz tão bellas coizas. O visconde de Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de conversação da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes que me ajudassem á creação d'um retrato physico ou moral, justaponivel ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.

Pouco a pouco porém outros informadores foram surgindo, ao acaso das apresentações e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos traços de luz vieram vindo, á força d'indiscrição, devo dizer, que talvez pareça violar o recato da vida intima, mas que pelo significado ultimo d'exaltação admirativa, estou que m'o perdoarão aquelles que como eu não pódem examinar uma obra d'arte,senão tocando-a e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam comungar da sua singularidade e formosura.

Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mór parte amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir da gran senhora a estatua arcaica, entrevêl-a como atravéz dos veus d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que póde ser não seja alma, mas que servirá para marcar o sitio onde bateu um coração.

Morto o marido em 1891, Carolina Coronado não consentiu, por mais que a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia, vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da America, e deante de todos estes symbolos de força irrevogavel, a varonil mulher opôz a razão absurda da sua paixão esponsalicia, a aflição das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos mortuarios. Não queria que a terra do cemitério provasse o corpo amado,e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob a impressão dos seus cármes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podridão custasse menos ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu féretro,odes[1]vitaes pudessem vir impressionar e envolver de sugestão passional, o espirito amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.

Como Joannaa doidaella acompanha, da casa de Paço d'Arcos para o palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e á força de teimosia imperiosa, de soluços, de suplicas, consegue alfim que as autoridades fechem os olhos, movidas talvez pelas imposições dos diplomaticos; quem sabe mesmo se pela feitiçaria dramatica do feito, deixando vêr n'essa estremenha uma alma doRomancero, de grandiosa esculptura e anormal poder de sugestão!

Desenove annos, n'um simples caixão de chumbo, envolto em madeiras de cedro oud'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as estatuas dos nichos e os icones dos altares: até ha poucos dias irem os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz, onde como na vida as suas nupcias seguirão, na paz do nada.

Esta casa da Mitra foi não só mausuléo de Justus Perry, como tambem da Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro e o seu mosteiro.

Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poço do Bispo, em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do martelar das oficinas, do fumegar das altas chaminés, dos grupos de gente tisnada e arremangada, certo não poderia supôr que por traz d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma creaturarara sofria e meditava—uma creatura d'alma heroica, da raça das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e que aos oitenta e dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez desconcertante, a sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a sua belleza de rainha, e tal poder de ressurreição e recordação, que todos os fantasmas da sua mocidade viviam e existiamreaes, a cada simples apêlo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como as ressurgiria omediumEgglinton, ou Eusápia Palladini, n'alguma sessão de hermetica e telepatica.

Fechada completamente para as menores sugestões e aparições contemporaneas, não recebendo senão dois ou tres velhos amigos que lhe fallavam do passado, não chegando sequer á janella, por uma especie de horror aos inventos modernos e aos aspectos da multidão grosseira e circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para não sentir as evoluções e reviravoltas do mundo alheio e exterior.

D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos surdos-mudos perspicazes, que á mingua de sentidos proprios que lhesdesdobrem a attenção sobre o de fóra, vêem para dentro,com força décupla; d'onde uma hyperacuidade d'imaginações, visões, uma vida febril de sonhos e quiméras, uma sagacidade felina para induzir de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre, ou simplesmente anedótica, que ella conhecera e tratara em tempos idos.

Graças a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da escolha de traços com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com emoção profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.

Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe atribue.

A aristocracia e a elegancia representando-sepelas casas ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dénia, d'Abrantes, de Frias; pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oñate, de S. Bernardo, de Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paços disseminados pela cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres faziam ás tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soirées do Theatro Real, ou nas recepções do Palacio do Oriente, revoadas esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.

Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigação, navegação e ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovação trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estações; o tempo dos grandes emprestimos para expedições coloniaes e guerras politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola, Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finança hespanhola, como nas cathedraes osmonagillosencarrégues,d'entreter o oleo das lampadas, para que a fé se não extinga, e os deuses se não vejam abandonados.

Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero, Serrano, Prim.

Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (El pobrecito hablador), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Solá, Marinas (o autor da estatua de Velasquez), e nos seus docesrecuerdosde Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a delicadeza e a graça d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.

Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha, relampejantes sempre, e sempre finas, lançando-a nameléesocial, depois de queesquissava sumariamente as essencias directrizes e as paixões tendenciosas, era um d'estes cursos de historia fallada, uma d'estas delicias cerebraes que davam da narradora a impressão mais assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar alli a escutal-a eternamente.

Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra licença para percorrer rapidamente a escada e alguns salões. De combinação, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual, fingindo surpreza no encontro, me apresentaria á Egéria, ao tempo sósinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava, senão estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanças bordejando de perto a derrocada.

Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham já sido vendidas por 54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas então se pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu serviço em não sei que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na Mitra a vendedora, até final de vida, e certamente o preço da propriedade fôra para liquidar os honorarios do causidico, e provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno á escriptora. Ella não podia fugir á lei fatal que põe os cerebraes do ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mór parte, o valor do dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulações e trafegos rendosos.

A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia dos fundos do casal, não teria precavido a viuva, par e passo, contra os futuros perigos de gastar sem contar, mórmente ficando as contas entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e feitores, que são bons ou máus conforme a fiscalisação a que os sujeitam.

Está-se a vêr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado transita da fartura cómoda para a escassez molesta e tragica.

É sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a tripulação perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da historia, que de resto só entristeceria o leitor contra as injustiças da vida, e passo a dizer que a minha apresentação foi captivante, e a illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pôz a minha alma rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mão d'abadessa e imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.

Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve engêlho das póchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com dois bandós nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos dão á rainha IzabelIInos seus ultimos annos de Paris.

Fallava um hespanhol claro e castiço, floridode modismos que pela graça rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha; hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado entre a gente bem educada de ha meio seculo.

Ás minhas palavras de saudação, ella, certo para atalhar o discurso, e evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnéca onde eu nascera, acrescentou que então eramos quasi vizinhos, pois Villa de Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena, a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a, de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e Aragão. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos d'excepcional fragor e intensidade.

—Se eu tinha viajado em Hespanha?

Todo o hespanhol é sedentario e bairrista, porém o portuguez quasi que o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, é percorrer um pouco a sua terra.«Hespanhoes, resumiu ella, somos todos nós, os peninsulares».

E de repente, voltando-se para mim—Se eu era iberico?

Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha interpelante colheu,al primer vuelo, medindo n'elle a patriotice chocada em leituras daFilippa de Vilhenae outros canastrões theatraes archisandeus.

—No se moleste usted. No es mas que hablar, contraveio logo com o mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:

—Tinha sido o erro de FilippeII, tão grande politico, não transferir logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito, Portugal e Hespanha estariam hoje abraçados n'uma nacionalidade unica e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem té ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a perda da independencia não foi tão dolorosa a Portugal como se diz nos manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominação hespanhola em Lisboa foram até sympathicosá população, sobre quem FilippeIIexerceu uma atracção benevola e singular...

Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta com uma massa de territorio maior que a França, e as suas colonias somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.

Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de recepção da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a rua, e duas janellas-portas ao terraço, tinham luz deslumbrante, em grandes resteas de sol primaveral.

Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braçadeiras, cortinas e alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria assedia, e teem de morrer em serviço, como os cavallos velhos nas carroças. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas poltronas e sofás, cuja seda o sol e o roçar das cabeças fanára e mesmo tinha esgarçado em certos pontos. Nascarpetsde preço, gusano e pés tinham já consumido a lã das flores e dos desenhos apparecendo a trama em séries de cordas varicósas.

A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser refrescados e envernizados;jarras da India, sobre columnas, voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando tudo; e até, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos, confidentes de dores e desalentos, até esses tinham um ar d'exilados, e o geito de nos dizer que o seu tempo passára, e lhes doía a velhice e as suas imensas saüdades de Madrid...

De pé, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chamamar da palha. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e esfumadiça.

—Diga-me se isto não é a rada d'uma cidade de dois ou tres milhões de habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia una e congraçada.

Eu por mim não queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto que o erro de FilippeIIimpedira talvez a realisação d'um bello sonho de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois paizes egualmente preguiçosos e incapazes, loucura fosse ajuntar misérias que já dolorosas eram, separadas.

A enseada do Tejo é que verdadeiramente prendia os meus olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma falúa ou barco de pesca desfraldava a véla de guião, quadrada, vermelha com a latina á pôpa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal, de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias para o Lido, sob os esverdeados céus do Adriatico, por uma tarde assim primaveral.

Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim, do seculoXVII, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo á doida, como nos pouzios da devêza, ao Deus dará.

—E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiñol, Felippe Trigo, Antonio Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac Muñoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.

—E Juan Valera? interrogou.

—Conheço.

—Lopez d'Ayala?

—Sim.

—Campoamor, Nuñez d'Arce, Menendez Pelayo...

—Um pouco, um pouco.

—Pereda, Galdós, La Pardo...

—Sim, sim, tudo isso li.

—Hombre, exclamou ella com uma acerada ponta ironica.Es usted un portugués mui sabionado.

—Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:

—Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...

Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo das ruas,emaranhando para todos os lados, labyrinthos de folhas e de ramas.

Aquillo lembrava oParadoudaFautede Zola, com a noite glauca dos macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma guarda de honra de passaros respondia.

Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella intensa ablução d'asas e folhas:

—Aqui se vive em plena natureza.

E ella tornou:

—Não. Aqui se morre em plena soledade.(Voltar ao Conteúdo)

Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras, debruçada dos camarotes, e em chusma junto ás portinhas de sahida, acotovelando-se, clamando,bravo! bravo!A geral estava deserta, um grupo ao meio da sala berrava,fóra o auctor.

E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto, muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda, houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando opardessus, disse para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor laureado:

—Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.

—É possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em pyramide, com pellosde rato sobre a testa, pendulava-lhe para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate côr de moka. E puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, oplastrondescosido, disse alli que a peça não tinha fundo, que o estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que elles exgregavam nas gazetas, a razão era taes litteratos serem mais ignorantes, ou menos intelligentes, que a multidão a que se pretendiam impôr.

—Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.—Baixava a voz para insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado lá fóra. E este, e aquelle...

—Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nossoláosdo Serpa, nem noConde Alarcosdo Cunha. Dêem alguma coisa mais do que phrases ôcas, meus senhores! A formulalitteraria é apenas vehiculo da ideia, e não pode tornar-se em preoccupação, como ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um ponto de vista elevado e philosophico que a domine. Eis o que não ha n'essas mioleiras, meu filho! Veja-me vossê o Pimentel, que esses localistas parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe ás ventas; vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! Ocos que nem uma cabaça, immortaloides de redacção, sem testa, nem estudo, nem officio. Que tenho eu que vêr com tal romance ou tal drama, com tal phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se estas coisas me apparecerem abstractamente, sem uma orientação que as filie e correlacione n'uma dada corrente—não sei se me faço entender?

Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana, estabelecia—que tudo vinha sob dependencias e condições, facto moral ou facto physico. Tal livro é effeito do livro anterior, e causa do posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por sua anarchia psychica não sabe fazer progredirum systhema, assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito qualquer ideal em arte.

Ás vezes, é o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem treguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.

Mas acontece—e o desenterrado levou á parede o Moreira das magicas, enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete branco—acontece um bello dia, haver mais illustração na massa que no grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes. É o que se está dando entre nós co'a politica e litteratura. A corrupção dos partidos dá de si...

Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma rebanhada de talentos da geração novissima furou por entre os conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben Johnson, e aquelle pobre Molière, coitado! No entanto o theatro esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se,os da orchestra enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as golas para sahir. Aqui e além, nas ultimas ordens, um arrastar de cadeiras soava ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto fazia-se na sala, sob a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que marcava cinco horas, havia mais de sete annos.

Fôra a primeira representação dosDois Rivaes na Côrte, quatro actos de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente pavoroso, onde as personagens se davam ovóscomparando-se ao systema planetario, e reforçando os lances de effeito, com allusões aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job... havendo um monologo sobre a capa de José, que osfauteuilstinham mimoseado com surdos bravos d'adhesão. A peça era estreia de Rogério, Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho tomára definitivamente logarna phalange dos nossos mais talentosos escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo, diziam os jornaes. Um triumpho completo, osRivaes na Côrte! Critico Borbas, doSeculo, tão exigenteem coisas de palco, parado no camarim da Velledo, recitára com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle bocado da separação—parto, o coração me fica suspenso n'estas paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de minha alma, conhecereis a fundo este báratro d'angustias, que como o universal diluvio...

Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!

Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande doCentral, á hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regosijo fremente. Aquelle Vasques, bello moço, que talento maleavel, e tão instruido! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em preconceitos d'escóla talvez.

Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o grande ar de Paris, tinha mesmo dito—é um temperamento. E omenupassava de bocca em bocca.

Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de provincia com preoccupações de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidadesde primeiro amante. Gastára no convivio d'actores, janotas, litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e boa que na educação caseira adquirira. E hypotecando as ultimas migalhas de herança, dormindo fóra, bebendo e jogando ás noites, tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.

O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada, tinha sido para ambos a melhor escóla pratica de malandrice e usura. Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia passar os dias na cogitação de explorar quem apparecesse á noite com cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella, a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma série de ratos de bastidor e polvos de redacção—gente faminta, intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripções, pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro—que ia girando n'uma baixeza d'inveja á roda dos charutos fumados, das correntes de relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para alcovitar, compormenores de creada sobre as pernas d'uma, os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o arsenal de canalhice exigido em curso para tão equivoco mister. Desengalfinhado d'esta tropa á custa de generosidades forçadas, desprezos, empuxões, até soccos, Rogério teve de rechaçar depois uma ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas, articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes nobres, ingenuas, galãs, graciosos—tenores tysicos, barytonos sem voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós deconscienciososoudiseurs, que serve para tudo e goza a estima dos auctores, em razão do merito reles que exhibe, de jámaisdesmanchar o conjuncto.

Eram tambem escriptores intermedios,amanuensandodas onze ás quatro, fazendo jornal das quatro ás onze, finorios chouteando na esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui a vaidade dos ministros, além atirando lama ás ventas dos adversarios, em eternos clamores contra adecadencia dos costumes, mas rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de provincia tanto admirára atravez das hyperboles dos diários. E por influencia de contacto, relações, letras assignadas, condescendencias d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicações que falliam ou não chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo, debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de cinco meses. Esta ligação d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a ser truncada apenas apresentaram Rogério á Velledo. Alcina era ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além d'isso! Não resistindo ás furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua franzina e pobre organização murchava e cahia. De manhã estava côr de morta, seios sorvados, olheiras á bocca, olhos imbecis, e um arde prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos, que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'umagriffede ruga.

E vinte e quatro annos apenas!

—Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engulir entre chavenas de café e charutos fortes, uma quantidade de calices de cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois tão petulante a beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licôr esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos, audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara pequenina!...


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