Da velha cathedral, esbella e rendilhada, Votada a ser mansão do Deus, author do mundo, Na flecha a mais gentil, campeia abençoada A cruz do Redemptor, da Gallilêa o oriundo!
Nos impetos da fé, cortantes como a espada, O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo, Aponta á multidão, humilde e ajoelhada, Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo!
Em nome d'ella exalça a fé porque a aviventa, E diz mal da rasão que tenta, em vãos ensaios, Dos ceus arrebatar a luz, de que é sedenta!
Mas do alto onde ella está, que causa até desmaios, Temendo que a derrube o fogo da tormenta: Em nome da Rasão lhe pôe um pára raios!...
Outubro de 1888.
Em quanto eu, alta noite, velo e lido, Por vós mantendo innumeros cuidados, Dormis, caros filhinhos, socegados Em torno a mim o sonho appetecido!
Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido Meus esforços por vêr realisados Vossos sonhos gentis e perfumados: Ampara-vos um peito estremecido.
Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço: Com suprema bondade e sapiencia, Rege os mundos que rolam pelo espaço!
Esse Alguem é o Amor por excellencia, O formidavel e invisivel braço, E o olhar que nunca dorme==a Providencia==!
Lisboa, 1885.
Se vejo com pavor as luctas carniceiras Que empenham as nações, chamadas as primeiras, Nos campos da batalha, Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro, Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro: ==É Deus que ali trabalha==!
Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve, Nos ceus ha um limite além do qual em breve Fallece a aza e taes Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne. O dia ha de chegar em que Deus os condemne E brade-lhes==Não mais==!
No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca Que engeite o vôo alado!... Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra A fonte de chrystal, de cujas aguas medra A arvore, a flor, o prado!...
E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!... Ou odio figadal, intrinseco, tamanho Que a todos nos divida?! Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco D'um Cezar que decida,
D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo, Que um homem, cujo peito infinito e profundo Abrange a Terra e os Ceus, Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia, A luz, o ar, a vida, a força, a providencia, Que deste-lhe, meu Deus?!
Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça Obrigue-os a expiar com fronte submissa Dos crimes o estendal Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia, Servindo de lição, ficando por memoria, Em prol do teu Ideal!...
E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio, E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio Signaesde nova Luz!... As crenças do Passado estando já em terra, Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra Os sonhos de Jesus!...
E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo, Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento, E o espirito divino Aos nossos corações! Que a toda a creatura, Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura, A todos deu destino!
Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos, Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos, De fito no Senhor, De fito no Ideal, minha alma não se inquieta: Confia e sobe a Deus, é como a borboleta Que vae poisar na flor!
Bussaco, 1870.
De lobo te foi dado outrora o nome, Lobo que a propria especie devastava Cruento e fero, qual não viras nunca Leões, pantheras, tigres ou chacaes!... E a fera, quando a fome A incita, é quando crava O dente e a garra adunca Nos miseros mortaes.
Da massa do teu cerebro colhendo A luz consciente e pura das ideas, Concebes mil engenhos homicidas, Inventos d'infernal destruição! Com elles, monstro horrendo! Ha seculos semeias, Em guerras fratercidas, A morte e a assolação!...
Mas como as forças cosmicas da Terra Cessaram suas luctas de gigantes, Trazendo á luz do Sol, d'amôr sedenta, Dois mundos revestidos d'esplendores, O mineral que encerra Os fulgidos brilhantes; E o vegetal que ostenta O olhar gentil das flores:
Assim as mil paixões que a tanto custo Contem teu peito e o rubro sangue agita, Por ultimo hão de ter a vida calma Que impõe por norma a tudo a Providencia; E o Bello, o Bom e o Justo, Na sua acção bemdicta, Levar-te aos seios d'alma A paz da consciencia!
Do sol os raios que dão vida ao globo; Da vida a força multipla que actua Em prol de cada qual, para que tomem Quinhão no Bem, que é dado como a luz: Reclamam nos que o Lobo, Da historia se destrua, E dê lugar ao homem Sonhado por Jesus!
Se o cahos do teu peito foi sequencia Do cahos primitivo da natura: Terá tambem destino egual ao d'este; Dará um quarto mundo, o da Verdade!... O da alma, cuja essencia Incorruptivel, pura, Procria a luz celeste Do Bem, na Humanidade!
Ver-te-has então qual Semideus Consciente! O sangue que pecorre em tuas veias, Origem dando a fulgidas doutrinas, Ás nitidas noções das coisas bellas: Tua alma um resplendente Santuario, onde as ideias Serão luzes divinas, Mais puras que as estrellas!
Antithese da Vida do Passado, Compete-te integrar na Terra os Povos; E, chave do vastissimo problema Da Vida humana: honrando o Redemptor, Nos ceus tem Deus traçado Aos teus destinos novos, Por synthese suprema, A Paz, o Bem, o Amor!
25 d'abril de 1898.
Segundo as tradicções que vão sumir-se Na noite secular das priscas eras: Rugiram contra ti, Homem, as feras, E as coleras do mar; Dos ceus revoltos os trovões e os raios; Qual reprobo vivias no universo Inerme, nu e só, na sombra immerso, Sem Deus, sem luz, sem lar!...
Apoz infindos seculos de lucta Co'as forças implacaveis da materia, Soffrendo, em toda a escala da miseria, O frio, a fome, a dôr: Venceste, e oppões ás lugubres cavernas, Á escura habitação dos trogloditas, Os fulgidos palacios onde habitas, Conscio do teu valor!...
Imperios contra ti ergueram despotas, Quaes moles collossaes architectadas, Assentes no prestigio das espadas, Nas mãos d'um Pharaó, D'um habil Julio Cesar; mas as moles, Minadas pela acção do povo obscuro, Cahiram como cae um fragil muro No chão desfeito em pó!...
No intuito de livrar teu grande espirito Dos vinculos do mal e enobrecel-o, Tomas-te a Jesus Christo por modelo Das tuas concepções; D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma, De ti fizeram novamente escravo, Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo, Partiste os teus grilhões!...
Por ultimo lançando mão das forças Da Terra tua mãe, das leis da Historia: Apenas em tres seculos de gloria, Com mil prodigios teus, Mudas-te totalmente a face ao mundo, E propões-te a fazer o mesmo á alma, Porque esta, resplendente, justa e calma, Triumphe á luz dos céus!
Forjou a mão de Deus no sol teus raios!... D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio Do teu almo poder! o grão prodigio Das tuas concepções, Que em marmore e crystal, em prata e ouro, E em tellas formossissimas, transmittes De mão em mão, sem conta, e sem limites, Ás novas gerações!...
Na terra, erma de Luz, Homem surgiste, Trazendo no teu rubro sangue a Ideia, A luz que doma o fogo, o apaga, o atêa, E o faz descer do céu Humilde como um cão!... Poder terrivel, Que Jupiter temeu, quando, iracundo, Mandou prender, por dar exemplo ao mundo, Na rocha a Prometteu!...
D'ahi a mola occulta, a força ingenita, A causa porque tu, no ardor da guerra, Revolves sem cessar o céu, a terra, A alma e o coração, E fazes e desfazes, sem descanço, Systemas, religiões, philosophias; Depões a Deuses, reis e tiranias, Em nome da Rasão!...
Por veres quem tu és e quanto vales: Das proprias obras faze o claro espelho, E escreve em face dellas o evangelho Da nova religião, O authentico, o real, o verdadeiro; Que em vez do degradado filho d'Eva, Com ligitimo orgulho a Deus eleva Tua alma e coração!
Senhor das energias infinitas Do mundo, com que Deus teu pae reforça Teu multiplo poder: expulsa a força Que os despotas produz; Levanta novamente altar e templos Ao Bello, ao Justo, ao Bem, á Sapiencia, Afim de que na Terra a Consciencia Impere em plena luz!
Em vez de Força, Amôr rege hoje o mundo!... E Amôr, se toma as normas da Justiça, Fará com que, empenhando-te na liça D'um ideal melhor: Floresçam sobre a Terra, em prol de todos, Honrando a Deus, servindo a Humanidade, Os sonhos de pureza e de bondade De Christo, o Redemptor!...
Terás no espaço os soes por companheiros, Comtigo permuttando noite e dia, Na sua eterna e placida harmonia, Os mil problemas seus!... D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra: Verás com resplendor a tua Ideia, Chamando-a á vida, em tudo onde campeã O espirito de Deus!
1892.
Senhor da Força, nós, o heroe lendario, Da Terra o domador, o sabio, o forte, Dir-se-ia que jurámos ante a morte Guerra d'irmão a irmão!... Mais féros do que os tigres, destruimo-nos A ferro, a fogo, a polvora, a metralha, Deixando, pelos campos de batalha, O sangue, a assolação!...
Mudou agora o Eterno ao mundo a rota Que ha seculos trazia,... e novos astros Despontam no horisonte, e em nossos mastros Mais rutilos tropheus!... Em vez da guerra truculenta e impia, Impõe-nos por principio a Paz dos Povos, Que impavidos demandam mundos novos, Nova luz, novo Deus!...
Fechado para sempre o ferreo cyclo Da guerra universal, obscuro berço Do velho mundo barbaro, inda immerso Nas lendas dos heroes: Compete a Ti, Mulher, filha dilecta De Deus, c'roar na Terra a grande obra, Que em fulgido progresso se desdobra, Á clara luz dos soes!...
Missão mais nobre á vida humana é dado: Juntar e repartir de muitos modos, Por cada um de nós, e em prol de todos, Do Bem a eterna luz, Fazendo com que caiam na nossa alma, Qual chuva em messe loira e movediça, N'uma missão d'amor e de Justiça, Os sonhos de Jesus!...
Em vez da Força, Amor rege hoje o mundo! E amor, tomando as gallas da Belleza, As normas de Justiça, a mãe, a deusa Das novas gerações: Ao teu celeste influxo, posto á sombra Da mãe de todos nós, aHumanidade, A paz será na Terra, e na Verdade Os nossos corações!...
Belleza e Amor, unindo-se, fizeram Do teu mimoso ser um relicario, Onde a mão do divino estatuario Os sonhos seus guardou!... D'encantos mil, conjuncto incomparavel! A Deus já mereceste tal conceito, Que só do amor divino do teu peito, A vida confiou!...
Teu lindo rosto, espelho da sua alma, Transporta-me a ideaes de tal apreço, Que em frente d'elle extatico estremeço, E ponho-me a scismar: Se entre as ondas de graça e de belleza, Que lançam sobre mim seus olhos ternos, Está ou não occulto a bemdizer-nos De Deus o proprio olhar!...
Tem jus as niveas formas do teu corpo Ao flácido velludo, á fina seda, Primor da industria humana que arremeda As petalas da flôr! Rainha! traja mantos d'ouro e purpura, A doce perl'a, o fulgido brilhante, E tudo quanto esplendido levante Na Terra o teu amor!
Amor se symbolisa n'um menino, Dos ceus gentil e alado mensageiro, Trazendo atraz de si, como um cordeiro, Pacifico leão! O magico poder que a fera doma, A força de que se arma esse innocente És tu mulher, e a fera obediente O nosso coração!
Conscia de Ti, das leis da vida, impera! E aos pés verás as almas subjugadas! Tem mais poder que o fio das espadas, Um riso e olhar dos teus! Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo, Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique, Nos faça com que a alma humana fique Mais proxima de Deus!
1892.
Trazidos pelo Amor, que por instantes, O veu ergue á Verdade, Por nós á luz vieram, quaes prestantes Peões da Humanidade!...
Amor é quem dos ceus nos abre a porta, Nos deixa vêr o intuito De Deus na Terra, e a elle nos transporta Da amante o olhar fortuito!
Em nós n'um sonho lindo tendo origem, Se o sonho a Deus encerra, As sabias leis da historia humana exigem, Que o sonho desça á Terra!...
Dos paes vingasse o amor, que este o faria Entrar na realidade, Expondo a divinal sabedoria Em plena claridade!...
Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia Seus raios sempre novos; E a Terra os bens innumeros que cria Em paz, a bem dos Povos!
Em vez de irmãos maleficos eivados De odios que o sangue atiça, Os bons e os maus ver-se-iam congraçados Em nome de Justiça!
Em frente das pacificas moradas, Jasmins, lyrios e rosas!... E as ruas que pisamos marchetadas De pedras preciosas!
Tal o sonho que passa pela mente D'um pae creando os filhos, E n'essa fé remove deligente Milhares d'empecilhos!...
Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto Cruel co'o odio eterno, Lhe põe em derredor, injusto e ingrato, Em vez do ceu, o inferno!...
Ás vezes chega a ter-se horror ao homem, Ás suas impias luctas, Ao termos de entregar o peito joven D'um filho ás feras brutas!...
Antithese do Bem em que inda espera, Pergunta dolorido Um pae a Deus: se accaso lhe valera Seu filho ter nascido!...
Emfim é lei, e a lei, ideal supremo Bemdicto e sublimado, Fará com que passemos d'este extremo Do mal, ao Bem sonhado!...
De Deus a Idéa amplissima, infinita, Qual filha ao lar paterno, Em torno a Deus explendida gravita, No seu percurso eterno!
E tal como do cahos pavoroso, Que a custo eu mal devasso, Surgio mais tarde o mundo esplendoroso, Que rola pelo espaço!
E á eterna luz dos soes no firmamento, Celeste peregrino, Caminha sem cessar no seguimento D'um Ideal Divino:
Assim o coração febril se arrasta, Na sua lucta immensa, Atraz do Bem Supremo, e tanto basta Por base á minha crença!...
Buscando o summo Ideal por entre antitheses, Fazendo e desmanchando: O espirito concebe as largas syntheses De Deus, de quando em quando!
Ao fim de cada qual resurge a Vida, E muda os moldes velhos Por outros que se ajustam á medida Dos novos evangelhos!...
Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!... Os criticos deparam Co'os netos desmachando um dia os templos, Que seus avós sagraram!...
D'ahi os odios vãos de fanatismo; Os multiplos revezes, Que assolam as nações co'o cataclysmo Das crenças muitas vezes!
Quem do alto vé, no entanto, a historia humana, Contempla sorridente A marcha dos destinos porque emana D'um Pae ommisciente!
Passem nos ceus, com rapidez tamanha, Os astros diamantinos; Que a terra os segue; a terra os acompanha Eguaes são seus destinos!...
Aquillo que ha de vir e que deriva D'aquillo que hoje somos, Que em si contém do Eterno a parte viva, Nos filhos o depomos!...
Os filhos são da arvore da vida A flôr dos novos fructos, A quem de Deus a essencia é transmittida, Com os seus mil attributos!
E os paes então o fructo assasonado, Já proximo da queda; Com elles cae a parte do Passado Que é morta, e Deus arreda!
E quem nas leis divinas confiando, Á fulgida seara Do bem se consagrou, não morre quando Dos vivos se separa!...
Contente desce em paz á sepultura, Na crença de que os filhos Verão mais tarde em plena formosura Dos sonhos seus os brilhos!
Na marcha ascencional da humana historia, Que a mão de Deus conduz, O filho entrou na Luz que é transitoria, O pae na eterna Luz!...
Á farta os vermes seu cadaver róam Na campa onde se esvae! Sua alma triumphante e os soes entoam Hossana a Deus que é Pae!
Abril de 1898.
Estrellas que rolaes no espaço ethereo N'um vertice de luz vertiginoso, E em numero sem conta e sem repouso, De Deus cumpris altissimo mysterio! E vós flôres gentis, purpureas rosas, Roxas violetas, candidas boninas, Que abris, tomando formas peregrinas, Á luz do Sol as petalas mimosas: Commigo erguendo a vóz Ao throno da Verdade, Saudae a Humanidade, Que é mãe de todos nós!
Materno amor, que tanto admiro e acato, Perenne luz vital do Ser Supremo, Ante cujo esplendor confuso eu tremo, Se sondo o teu Santissimo mandato! Ou sejas tu mulher juncto do berço Com terno olhar velando o teu filhinho; Ou tu maviosa rola no teu ninho; Bemditas no concerto do Universo: Por tão divinos bens, No intimo do peito, Votae sentido preito Ao symbolo das mães!
Mulheres que prestaes culto a Maria, Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça, Doçura, vida e esperança onde se enlaça O vosso coração de noite e dia! E vós ingenuas multidões que hei visto Com ar tristonho, humilde e miserando, Nos templos de mãos postas adorando Por vossa padroeira a Mãe de Christo: A Virgem que adoraes, Tornou-se a precursora Da mãe que surge agora Aos olhos dos mortaes!
A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva, Levanta aos ceus os filhos redemidos! Em cantigos transforma os seus gemidos! No Bem o mal, na doce luz a treva! A mãe que os filhos todos encaminha Ao Summo Bem, que traz no peito occulto; Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto; Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha== «Bemdito sê nos ceus!» «Bemdito sê na Terra!» «Sacrario onde se encerra» «O Espirito de Deus!»
Oh povos que viveis sob a vigilia Do olhar supremo em toda a redondeza, Formando pelas leis da natureza E os vinculos moraes, uma familia: Sabei que cada qual, tendo-a comsigo, Trará como um clarão na consciencia, Um rutilo fanal, a Providencia Que o pode redimir na hora do perigo! Interpretes de Lei Divina, e para exemplo, Em honra d'ella um templo Na alma humana erguei!
Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes, Vós todos que formaes a eterna cahorte Dos bons, dos que perante a vida e a morte, De Deus esparsem raios resplendentes: Por preito á obra santa e redemptora, Que põe a Terra e os ceus em harmonia, Como alto solta alegre a cotovia A limpida canção á luz d'aurora: Á minha unindo a vóz, Cantemos creaturas, Hossana nas alturas Á Mãe de todos nós!
1897.
Homem! sob o docel das fulgidas estrellas, Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo, Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas, A custo iniciando o teu Poder no mundo!...
A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio, Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria, Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!...
No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem, Rompia ainda incerta, envolta em serração, Tua alma, cuja luz transporta o mundo á origem Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Rasão!...
Que seculos sem fim primeiro que desvendes, Dos vinculos da carne, esse fanal divino!... Que lugubres visões!... Que espectros!... Que duendes!... Que espiritos do mal, turvavam teu destino!...
Que o digam as ficções do extincto fetichismo!... O numero sem fim dos deuses dos selvagens!... As tetricas visões da Fé no Judaismo!... Do inferno dos christãos as lobregas voragens!...
Mas tudo emfim venceste e hoje sôa a hora De veres sem pavor a estrada percorrida!... De creres já em ti, em Deus, na luz d'aurora Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre á Vida!...
Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas, Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha, Medonhas convulsões e guerras fratricidas!...
Decerto obedecendo a occulto e grão motivo, No plano universal da Vida a que és sugeito, As mil conflagrações do cahos primitivo Vieram a surgir de novo no teu peito!...
Dois cyclos Deus traçou, d'uma orbita infinita, Dos povos do universo ás multiplas colmeias: Um vota-o as paixões que o rubro sangue agita; O outro ao resplendor sereno das idéas!...
Inicio da missão primeira a que és chamado, Tu vês, em pleno horror, da força o predominio Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado, Se votam sem quartel ás luctas de exterminio!...
Mil raças d'animaes, minados d'odio eterno, Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!... Tem odios figadaes, que lembram os do inferno, Que foi a projeção de tempos tão sombrios!...
Em face então do mundo acceso todo em guerra, Proclamas-te senhor e rei da creação! E levas sem quartel a morte a toda a Terra, Á pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canhão!...
Soberbo co'o poder, que d'ambições se nutre, Gravas-te nos brazões heraldicos da gloria, Das feras, o leão, o tigre, a aguia, o abutre, Quaes symbolos fieis da tua acção na Historia!...
Atraz de mil visões formadas como especulos Que alcançam do Ideal a luz sempre distante, Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos, Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante!
Os proprios animaes, aquelles que escolheste Por symbolos fieis do teu poder, é certo Que estão-se a eliminar tambem: a morte investe Com elles por fatal e superior decreto!...
A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema, É a mesma a que attingio o propio cahos por meta; Nos páramos do azul os soes a teem por lemma Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!...
N'um multiplo vae-vem, n'uma completa antithese Por entre o goso e a dôr, por entre a sombra e a luz, Chegas-te a conceber do mundo inteiro a synthese N'um pae celeste e Bom, no Deus que vio Jesus!...
Deriva desde então do periodo primeiro O fim que se approxima e o resplendente alvor Do novo Ideal que traz o fim do captiveiro: Em vez da Força, a Ideia; e, em vez do Odio, o Amor!
Teu cerebro pensante é como uma semente Que está reproduzindo a flôr do Ideal! Eterno nos traduz por forma resplendente Do seu divino author a essencia espiritual!...
Do bello lyrio d'alma as petalas brilhantes Cambiam sem cessar de côr e de perfume, E levam do Porvir, aos seculos distantes, O espirito de Deus que o mundo em si resume!...
É como o grão subtil que um cedro do Hymalaia Expôe formoso ao Sol, em todo o seu systhema!... Em intimo labor co'as leis da Vida, ensaia A eterna solução do divinal problema!...
O mesmo estão fazendo as fulgidas estrellas, Formoso campo em flôr, ideal jardim divino!... D'ahi as mil visões das coisas as mais bellas Que exparsem sobre nós seu brilho diamantino!
O mundo desde os soes da cupula infinita Ás flores a teus pés, com paternal carinho, Insuflam n'esse peito ancioso que palpita Valor para que vás seguro em teu caminho!...
Tem fé no teu destino; em Deus tem confiança! Da tua historia escripta as paginas sem conta Derramam na tua alma a nova luz que avança D'accordo co'o universo e que hoje em ti desponta!...
Em vez do legendario heroe das priscas eras, Das guerras extrahindo a gloria a todo o custo: Honrando o Creador, e as fulgidas espheras, Serás, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!...
É este o Ideal que as leis da natureza Inspiram com sublime e candida alegria!... Que as normas da Rasão, que as pompas da Belleza, E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!...
O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante, Da terra enviando a Deus seus canticos d'amôr!... O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante; O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flôr!...
O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto, Vem dar um novo rumo á tua antiga historia; Vem pôr-te em equilibrio, em intimo concerto Co'a vida universal, de que és a alma e a gloria!
É esta a nova Fé que em tuba altisonante, Interprete da Vida, entôa a voz da musa!... Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!... O espirito de Deus em sua vóz se accusa!...
Novembro de 1898.
Espirito Supremo, d'onde brota A luz que eterna os mundos alumia, E deixa pelo espaço uma harmonia Echo da tua vóz! Inspira-me a assistir, sereno e impavido, Ao funebre ruiz do christianismo, E d'este inevitavel cataclysmo Salva-te a ti e a nós!
A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo De toda a perfeição, a ti importa Que d'esta fé, tornada letra morta, Vejamos renascer Do mundo novo a crença ardente e rutila, Co'o magico fulgor da nossa Ideia, O espelho onde melhor se patenteia No mundo o teu poder!
Ao teu olhar religiões sem numero, Com ritos, cultos, cheios de fulgores, Desambam, como as petalas das flôres Ao Sol que as reproduz!... Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido, Trajando d'ouro e purpura o horizonte, Das sombras de hoje, esplendido desponte, A dar-nos nova luz!...
Outra verdade, filha d'estes tempos, Que venha a nós em nome teu, n'esta hora, Matar a sêde ardente que devora Os nossos corações, Depois que á intensa luz de mil combates, Travados pela fé contra a Sciencia, Começa-se a apagar na consciencia O ideal christão!
A Ti attraes as almas como as aguias De monte em monte a prole aos ceus subindo, Fazendo com que attinja o espaço infindo Que abarca o seu olhar!... De Brahma a Budha, de Moysés a Christo, Se fez essa ascenção prodigiosa, Ao fim do qual a alma é desejosa De a novos ceus voar!...
Ah d'esta vacuidade em que se encontram Os nossos corações cheios de febre, Que uma alma nova irrompa e audaz celebre Suas nupcias d'amor Co'o mundo que lhe coube por partilha, Passando a co-existir serenamente, Harmonica, feliz e resplendente, Como ante o Sol a flôr!...
Por nós, que não por ti, que és intangivel Ás frageis condições da vida humana: Perante o aspecto triumphal que emana De toda a creação: Convem-nos expurgir do fundo d'alma, Da fonte onde se gera o pensamento, O cunho de tristeza e desalento, Que imprime o ideal christão!...
Ha na verdade em tudo o que é belleza, E força e vida e amor nas creaturas, Desde os astros que brilham nas alturas, Á flôr a nossos pés: Tanta porta do ceu a abrir-se á alma; Riqueza tanta e tanto amor occulto A revellar-te a Ti, que é justo um culto Erguer-lhes outra vez!
Digamos a verdade: uma semente, Que eterna e intacta a arvore resume, Com troncos, folhas, flôres e o perfume Que entrega ás virações: Encerra em si mais luz, lição mais pratica, Mais digna de por nós ser apprendida Qual maxima d'amor, e ideal da vida, Que um livro d'orações!
Tua alma é presa ao mundo que creaste E o mundo, cuja orbita infinita Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita D'amor teu coração, Tem jus a que façamos d'elle a Biblia Eterna, aonde apprenda a Humanidade, Sedenta de Justiça e de Verdade, A nova religião!...
Ah tens a executar teus vastos planos D'amor, e de Justiça, aurifulgentes, Fanaticos aos mil, e mil videntes, E innumeros heroes, De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio, Buscando interpretar teu pensamento; E encontram pelo azul do firmamento No mesmo afan os soes!...
Que á tua vóz as gerações extinctas Resurjam e contemplem com surpreza Esta obra immensa, cheia de belleza, Que em multiplo labor, As novas gerações estão fazendo!... Que em nome da Verdade triumphante, Unisono na Terra se alevante Este hymno em teu louvor!
1889.
A minha alma immortal n'este exilio onde existe, Abrigando no seio a ideaes tão risonhos, E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste, Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos:
Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio; Mas que dias depois, co'o cahir da geada, E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!...
Assim foi para mim o florir dos amores, N'essa quadra febril em que o sangue é fecundo, Quando rompe a manhã, quando abrem as flôres, Quando o Sol brilhante e o azul é profundo!...
Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida; Nem ha nuvem no ceu, pelo vento açoutada; Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida, Que se possa dizer mais do que eu desgraçada!...
Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte D'um estadio a outro estadio atravez muito custo, Em demanda doBem, que triumpha da morte: Deves crêr do Porvir no Ideal santo e augusto!
E se foste, minha alma, a illudida afinal, Quando crêste emplumar nesta quadra o teu ninho,... Pede a Deus que te envie aquella hora fatal Que abre a porta á Verdade e vae tu teu caminho!...
Oh Justiça increada! oh meu Deus! oh meu Pae! Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo DaBellesae doAmor, que me envolve e me attrae: Dá-me as azas Senhor, com que vá ter comtigo!...
Lisboa, 1869.
Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito A ti meu ser se evol'!... Tem jus aos ceus quem mede esse infinito Que vae de sol a sol!...
Sonhei na terra, amando-a muito e muito, Novo Deus, nova lei; Mas foi, pura illusão, baldado intuito, Comtigo só me achei!...
Suppuz em vez do gellido egoismo, Da guerra surda e atroz D'interesses, em perpetuo antagonismo, Que envolve a todos nós:
Homens, povos, nações, por varios modos Unidos, dando as mãos:Todos por um, valendo um só por todos, Vivendo como irmãos!...
É fé que sigo, é crença que mantenho: Que em mysterioso nó Unis-te os homens, com supremo engenho, Formando uma alma só;
Em serviço da qual cada individuo, Com multiplo labor, Trabalha por lhe dar, no esforço assiduo, O maximo esplendor!...
Quão mais estreito o vinculo fôr dado, Mais luz hade irromper Do nosso coração, do amor gerado No ventre da mulher!...
Tal o sonho que em dias mais felizes Ao mundo consagrei!... Como hade aqui lançar fundas raizes: A ti contente irei!...
Se um raio de calôr ou luz, prestantes, A terra a si prendeu: É vel'os como, em rapidos instantes, Se evolam para o céu;
E como, n'um sentido em tudo opposto, A pedra na amplidão, Quanto mais alto attinge, com mais gosto Gravita para o chão!...
E eu não gravito: eu subo na vertigem D'um céllico condor A demandar em ti, na propria origem, Belleza, luz e amor!