XI

Não ha coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de amar quem tem coração.Fr. Antonio das Chagas.(Obras espirituaes.)Vêde agora se ainda persistis em vossa pretenção, porque, se este modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no estado em que até agora vivestes.(Ceremonial da congregação dos monges negros.)E Carlota Angela?Não dorme ainda o suspirado somno da morte sob a lagem humilde do claustro. Vive a vida que faz compaixão, e, nas pessoas que amam, excita o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor.Creram-a moribunda em frequentes accessos: Rufina, Dorothea, e todas as religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face cadaverica, muitas vezes. Se, por instantes, tibio clarão de vida lhe retingia o rosto, é que a labareda da febre ahi vinha emprestar-lhe uma reanimação convulsa, á qual succedia o esvaîmento, com o suor frio do traspasse.As orações eram contínuas. A communidade ia do quarto de Carlota para o côro, e do côro tornava ao quarto em ancias e esperanças que o fervor da oração lhe dera.De uma vez, encontraram-a tranquilla, risonha e desopprimida. Uma a uma, Carlota chamou-as á beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando uma palavra inintelligivel.Ás que choravam pedia que a não lastimassem, porqueella estava consolada com a esperança de descansar. Ás mais idosas, e veneraveis por sua santa vida, supplicava que a protegessem com os seus merecimentos, pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas d'esta vida.Perguntava pela mãe, mas, se lhe fallavam do pae, se lhe diziam que elle vinha todos os dias saber d'ella, Carlota franzia a testa, e dava sustos de crescimento febril.Soror Rufina esperava que ella lhe fallasse de Francisco Salter; Dorothea, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras allusivas; Carlota, porém, nunca permittiu á primeira, com o seu silencio, proferir tal nome; e á segunda, debulhando-se em lagrimas, fazia com a mão um signal de não poder ouvil-a.Uma tarde, as duas meninas passeiavam no pomar: era a primeira vez que a filha de Norberto de Meirelles saía do seu quarto.—Quando professas tu, menina?—disse Carlota.—D'aqui a tres mezes.—Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove mezes; mas ainda temos tres mezes de companheiras de noviciado.—Pois queres professar, Carlota?!—Quero, Dorothea, quero; se me não valesse essa esperança, estava morta. Já agora, o que me resta n'este mundo é o bem de me julgar perto de outro: d'aqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha, pedindo ao Senhor que... dê o céo...Carlota, entalada por subitos soluços, não proseguiu.—Diz, minha amiga... tu não me dizes tudo—acudiu Dorothea, abraçando-a com estremecido amor—ias fallar n'elle?... por que foges de me dizer que ainda o amas no céo?!—Fugia de t'o dizer, Dorothea, porque o teu coração não póde avaliar que amor era este que perdôa a um ingrato, e daria a vida para o restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei e perdi. Mais desgraçada que eu ha uma só pessoa: é a mulher que o adorava; e mais desgraçado que ella e que eu, é elle, o infeliz, a quem tão pouco tempo o Senhor deixougosar a mulher que o mereceu mais digna do que eu fui, e não teria, talvez, um pae que a aviltasse aos olhos d'elle.—Como o teu coração é bom, Carlota!—Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Dorothea, que já não é coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do céo; recordo quanto amei, quanto soffri, e tudo aceito, e o mais que soffrer, com o contentamento de uma penitente.—Pois verás que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota! Adopta-me como tua irmã; viveremos tão queridas e juntas, fallaremos tanto do que sentirmos triste ou agradavel, que chegaremos a gosar a existencia...—Não penses isso, minha amiga... Eu não quero dar-te quinhão das minhas amarguras. O meu curto viver ha de ser muito oppressivo para as pessoas que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma infeliz, como eu, precisa ser desafogado, sósinho, e aos pés de Deus. Alegria? jámais, jámais, Dorothea... Bemdito seja o Senhor, que me dá esta casa para acostumar a minha alma a adoral-o, e me deu aqui exemplos de virtude, sem os quaes, fóra do convento, tinha-me tirado a vida n'um d'aquelles frenesis de que tremo com a lembrança.Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porém decorrido breve intervallo de silencio, Carlota rompeu em gemidos, lançando-se ao seio de Dorothea.—Que tens, Carlota? Ainda agora estavas tão socegada!...—O que em cinco mezes se tem passado!—soluçou ella—Morto! é possivel que elle já não viva!... que eu esteja aqui, eu, meu Deus, eu que o adorava até á perdição! e pôde elle abandonar-me, esquecer-se da pobre Carlota! Isto não póde ser, Dorothea!... eu nunca o vi morto nos meus delirios, nunca, nunca o vi senão como na ultima vez que lhe fallei, jurando-me um amor eterno... Será isto uma falsidade? Será meu pae que prefere matar-me!? Diz, Dorothea, não te parece muito possivel esta crueldade!—Póde ser, Carlota!... quem sabe?! Olha, filha, tudo se ha de saber com o tempo... Tem esperança, sim?—Nenhuma!—replicou ella, caíndo da instantanea exaltação—não tenho esperança nenhuma! Se elle vivesse escrevia-me. É certo, é horrivelmente certo que não vive, que me desamparou, que foi castigado com a morte por ter assassinado uma amiga que se perderia por elle... Está tudo acabado, tudo, meu Deus, menos este peso de vida com que já não posso...Carlota Angela recolheu-se taciturna ao seu quarto, e escreveu a sua mãe uma breve carta, em que lhe pedia o consentimento de seus paes, e as licenças necessarias para entrar no noviciado.D. Rosalia quiz procurar Carlota; Norberto de Meirelles, receiando que sua mulher deixasse escapar algum ligeiro indicio de viver Francisco Salter, encarregou-se da resposta. Estas suspeitas fundavam-se nas querelas continuadas em que andavam, por causa de Carlota. D. Rosalia, algumas vezes, reprovara o zelo de seu irmão, e dureza do marido, mórmente depois que a freira lhe vaticinara a morte de Carlota. Norberto, escarnecendo, com lerdo desdem, o prognostico, impunha grosseiramente a D. Rosalia o calar-se, até ver em que paravam os taes fanicos da rapariga.Depois, porém, que a viu convalescer, o arrozeiro chasqueava os vaticinios da cunhada, e aceitava de melhor vontade a proposta da filha, na esperança de a curar da loucura, durante o anno do noviciado, com os recursos que o cunhado doutor promettia espiritar-lhe, consoante o andamento do tempo, bom para tudo.Antes, porém, de diligenciar o contracto do noviciado para a filha, Norberto de Meirelles mandou-a chamar, e Carlota, admoestada brandamente por soror Rufina, obedeceu.—Vamos a ver, menina, que mania é essa de seres freira?—disse elle.—Isto não é mania, meu pae, é aceitar com reconhecimento a consolação unica, e a melhor que Deus me dá n'este mundo, com esperanças de outro melhor.—Beatices que te metteu na cabeça tua tia... Deixa-te d'isso, Carlota; o convento é para quem é. Nunca te vi inclinação para este modo de vida...—A religião não é modo de vida, meu pae, é regra de vida.—Não me dês sentenças, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto aqui é para sempre. Se professares, não tens remedio, ainda que te arrependas; é d'aqui p'ra Christo.—Pois d'aqui para Christo é que eu quero ir, meu pae. Saiba que é inutil contradizer-me. A força que eu sinto em mim para ser freira é invencivel. Não me tolha a alegria, se é alegria este santo desejo de vestir o habito. Os obstaculos podem mortificar-me, mas não mudam o meu proposito. É escusado embaraçar-me. Offereci-me ao Senhor, quando cuidei de morrer de dor, pedindo-lhe allivios; senti-os, o Senhor apiedou-se de mim; é que a misericordia divina me aceita do modo que eu mais digna me posso fazer de morrer em paz.—Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser noviça um anno, veremos como se te reviram as ideias.—Pois sim, meu pae; se eu me não achar com forças de servir a Deus, dir-lh'o-hei, e sairei do convento.—É o mais certo, e verás como te ha de parecer bom isto cá de fóra. Tu és bonita, és rica, és prendada, podes casar...—Meu pae! por quem é não continue...—Então que tem isso? Já cá te disseram que o casar é crime? Boa vae ella! Ainda ha seis mezes que estavas n'outras ideias...—Se o pae faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu não venho aqui...—Isso é modo de fallar a teu pae, Carlota! Cá dentro ensina-se a dizer isso a quem te creou, e trabalha para ti ha trinta annos? Cuidadinho commigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que eu sou um mono de palha, engana-se...—Que mal lhe fez minha tia?—Que me fez?! Encheu-te essa cabeça de teias de aranha, lá com as suas arengas do beaterio, e deu-te auso a responderes com poderio a teu pae!—Eu não o offendi...—atalhou ella, chorando—Pedi-lheque não fizesse sangrar uma ferida de que estive á morte... Quem for meu amigo, ha de querer que eu ache allivio em alguma cousa; se a religião m'o dá, deixem-me ser freira, e não me fallem em casamentos impossiveis. Ora aqui está o que eu supplico a meu pae; se isto o offende, perdôe-me; e se é offendel-o não vir á grade para ouvir palavras que me amarguram, virei todas as vezes que o pae quizer.—Está bom; basta de chorar. Vae-se tratar dos arranjos para o teu noviciado. Deus lhe ponha a virtude, e te guie para o que for melhor. Eu ainda espero ter-te commigo, alegre e folgazã como eras antes de conhecer esse homem que...—Meu pae!Carlota Angela erguera-se sobresaltada, e Norberto estacou, sopeando a ira que lhe espertara a vehemencia, um pouco soberba, da filha. A ira degenerou em um sorriso, cuja versão não acho no meu elucidario de sorrisos sandios.O arrozeiro, receioso deesbarrondar-se, como elle depois dizia a D. Rosalia, saiu da grade, onde a filha permaneceu longo tempo enxugando as lagrimas, para simular socegado o semblante.Um mez depois, entrava Carlota Angela, com a mestra de noviças e a cantora, no côro, onde se reunira a communidade.A dona abbadessa empunhando o bago, insignia magestosa da prelazia, estava no tôpo das duas alas de religiosas, solemnes e magnificas com suas roçagantes cogúlas. O clarão tremente dos cirios banhava o recinto de baço esplendor e sombras magestosas.A tres passos distantes da prelada, que lhe sorria com maternal caricia, Carlota prostrou-se com a face em; terra.A humildade com que fizera a reverencia, o subito rompimento das lagrimas, que a noviça não podera represar, a voz compungida da prelada, proferindo oquid petis, e o soluço tremido de Carlota, respondendomisericordiam... «a misericordia de Deus e a vossa», a terrivel magestade do silencio, durante as genuflexões danoviça; todos estes actos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o coração das religiosas a ponto de correrem lagrimas por todas as faces, no momento em que a prelada, commovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada ante si:Surge, «levanta-te».A noviça voltou-se com as duas religiosas para o altar-mór, enxugou as lagrimas emquanto fazia as reverencias do ceremonial, ajoelhou de novo aos pés da prelada, que proferiu uma breve pratica ácerca das gravissimas obrigações que a noviça contrahia com o promettido esposo. Carlota ouviu-a com as mãos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto venerando da abbadessa, onde a graça, ternura e o sorriso da bondade eram um como suave encarecimento ás virtudes que aconselhava, e estimulo para merecer no céo o galardão de as praticar.Carlota lançou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabeça. Longa e farta trança de cabellos negros se desenrolou até á cintura. Uma freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trança, que depôz em uma bandeja. A mestra de noviças cingiu-lhe a touca branca, e a prelada lançou-lhe aos hombros o habito ou mantilha. Carlota, durante este acto, parecia não sentir, não perceber a profunda e dolorosissima significação que elle deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do mundo, onde todas as suas esperanças foram cruelmente desmentidas.Estavam de joelhos todas as religiosas, ella, entre a mestra e a prelada. As cantoras entoaram o hymno:Veni, creator spiritus. Era um canto melancolico acompanhado a orgão; um mystico e lagrimoso offertorio da alma atribulada ao supremo consolador das angustias. Cantada a primeira estrophe, ergueram-se todas, excepto a noviça. Seguiram-se os versiculos e orações entoadas no côro e no altar-mór. A mestra de noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a ceremonia; a noviça, porém, continuava ajoelhada com as mãos entrelaçadas sobre o peito. Recommendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ella estremecia, como se já não podesse sustentar a violencia da posição. Carlota não se erguia, até que lhe deram a mão, e encontraram frias de neve as d'ella. Fizeram vão esforço para levantal-a, algumasfreiras que a rodearam. Carlota não respondia, apenas respirava; quiz obedecer ao impulso que lhe davam para erguer-se, mas á pallidez, ao turvamento da vista, seguiu-se o desmaio.Soror Rufina, Dorothea, e as outras ergueram o alarido do susto. Na igreja estava a mãe de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando, recitando Padre-nossos machinalmente, e promettendo a Deus confessar-se da sua culpa, se era culpa ter occultado a sua filha o engano que o tio doutor lhe urdira, arranjado com o pae.Quando, porém, os ais do côro chegaram aos seus ouvidos, com as exclamações afflictas de Rufina, D. Rosalia saíu da teia de um altar, veio ás grades do côro de baixo, e rompeu em brados desentoados, chamando a filha. O capellão-mór, vestido de sobrepeliz, estola e pluvial, veio lembrar á lamuriante senhora, que a sua gritaria não era propria da casa de Deus. D. Rosalia replicou, menos commedida, que queria cá fóra sua filha, viva ou morta. E n'esta altercação estiveram ella e os capellães, recreando uns e fazendo chorar outros dos circumstantes, até que soror Rufina e outras freiras vieram á grade do côro aquietar a mãe de Carlota, dizendo-lhe que o incommodo fôra um passageiro desmaio.E assim fora, felizmente.Carlota voltou a si, quando a mãe gritava. Os brados fizeram-a sair do côro vacillante e alvoroçada. Quizeram encaminhal-a á cella; mas Carlota sabia que era costume ir a noviça, finalisada a ceremonia, visitar as doentes.Foi; e ás mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente, rogassem a Deus que a levasse para si.XIPois ainda não ouvistes de seu valor o maior encomio.José de Sousa (o cego). (Obras posthumas.)Vereis amor da patria... etc.Camões.(Lusiadas.)Junot, a marchas forçadas, esperançoso ainda de obstar á saida da familia real, ia sobre Lisboa. A regencia desnorteou com a imbecilidade rara de que era dotada; a classe média, presumindo a tyrannia proxima, ainda quiz debalde oppôr um dique á invasão; mas a populaça, sedenta de anarchia, onde sevar temporariamente os vis instinctos, remoinhava, alegre e enthusiastica, rugindo como o tigre que fareja o sangue.Joaquim Antonio de Sampayo foi, n'essa época, a preexistencia dos grandes homens, das summidades estadistas dos ultimos vinte annos. Avaliando quanto difficil seria acertar com o caminho seguro na encruzilhada das perspectivas politicas, não preferiu algum, e aceitou-os todos como conducentes á prosperidade, quando a fortuna, filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu predilecto.Sampayo lamentava com Manique o desamparo em que ficara o reino pela impolitica e precipitada fuga do principe regente. Incriminava com os fidalgos a cobardia de similhante desaire para o paiz dos Pachecos e Albuquerques. Ouvia com acquiescencia os murmurios da nobreza contra a dynastia bragantina, murmurios timidos, que mais tarde se formularam n'uma vilipendiosa petição, requerendo ao usurpador um rei da sua escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara conscienciastão degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, Antonio.Com a classe média, Sampayo bociferava contra os francezes, e promettia sacrificar nas hecatombas da patria a sua ultima pinga de nobre, generoso e patriotico sangue. Todavia, exhausto o fôlego das imprecações retumbantes, e accendida a flamma do heroismo nos peitos burguezes que se apinhavam nas praças, Sampayo, passando da iracundia ao reflectido exame das circumstancias, dizia que a sublevação popular seria um desatino sem proveito, um sacrificio de vidas e fazendas intempestivo e inglorio para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de homem que privava no segredo dos destinos de Portugal, conselhos de paciencia, de resignação, e, mais que tudo, de maxima prudencia na entrada de Junot.Relacionado com a plebe, em razão do seu ministerio na intendencia geral da policia, o antigo advogado da rua de Santa Catharina insinuava-se nos grupos desordeiros e respondia com impertigamento de oraculo ás perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleão, dizia elle que não era o impio que se dizia. Napoleão, e os seus generaes, não saqueavam as igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem violentavam a virtude das donzellas, nem attentavam contra a liberdade do povo. Pelo contrario—continuava elle, baixando cada vez mais a voz, e relanceando o olho observador por sobre as physionomias suspeitas que chegavam de novo—pelo contrario, Napoleão queria mudar a face das cousas em favor das classes opprimidas, chamando o povo á partilha dos regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco e pouco através dos seculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleão, e acclamava general o doutor Sampayo, que se esgueirava surrateiramente pela primeira brecha que a agitação lhe proporcionasse.D'alli, ia á intendencia dizer a Manique o fermento que azedava os rasteiros instinctos da canalha. Alvitrava o emprego da força armada para dispersar os bandos, com prudencia; e, compungido de patriotica lastima, deplorava o indiscreto arbitrio dos palacianos que aconselharamao principe uma fuga tão calamitosa no instante em que o prestigio da nacionalidade estava na presença do soberano.Fora nomeada uma deputação para cumprimentar Junot. Além dos expressamente enviados pela regencia, Joaquim Antonio de Sampayo associou-se na deputação com alguns particulares, que se davam pressa em depôr aos pés do invasor a porção infame do paiz que elles representavam.O ajudante do intendente arremedava a lingua franceza, e fazia-se entender melhor que o deputado da regencia, o tenente-general Martinho de Sousa e Albuquerque.Junot, em Sacavem, chamou Sampayo a uma conferencia particular, e informou-se de cousas que a deputação não elucidava por astucia, ou por ignorancia da lingua. O certo é que o general francez, maravilhado do bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessario, agradeceu-lhe com um aperto de mão os serviços prestados ao reformador da Europa, e prometteu-lhe acrescental-o, quanto em si coubesse, em honras e fazenda.Chegados a Lisboa, as proclamações que circulavam entre a populaça eram de Sampayo. N'ellas se aquietava o espirito publico, dizendo-se que o excellentissimo senhor Andoche Junot, heroe de Toulon e de Nazareth, era o emissario da paz, da ordem, e da prosperidade portugueza; que a propriedade era sagrada para o exercito do imperador da França; que a virtude das virgens, e das menos suspeitas d'esse respeitavel estado, era inviolavel; que ninguem fugisse de suas casas, nem viesse para a rua fazer assuadas, algazarras, ou outras que taes manifestações de desordem e descontentamento.O bacharel Sampayo ajudara, na vespera do embarque da familia real, a encaixotar as pratas da patriarchal, que deviam acompanhar os reaes emigrados. A celeridade, porém, do embarque, fez que os quatorze carros de preciosos objectos ficassem no caes de Belem, e voltassem, com grande jubilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampayo, emquanto se encaixavam as riquissimas bandejas, castiçaes, corôas, lampadas,etc., resistira heroicamente aos assaltos da ladroice, que lhe estavam segredando o modo de empalmar algumas peças miudas de preciosissimo trabalho. Pôde sopear a tentação; mas não via, sem grande mágoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga tão valiosa. Um tal ou qual allivio o desopprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o tecto protector da sua igreja. Sampayo, a proposito d'isso, asseverou ás freiras de Santa Anna, onde almoçava todos os dias, que andava alli milagre n'aquella reconducção! Não acreditava elle, porém, que o milagre fosse perfeito e averiguado, emquanto um bom quinhão d'aquella prata não entrasse em casa d'elle. Convencido do «trabalha, que eu te ajudarei», o bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse.O processo não deixa de ser engenhoso: «engenho» é a palavra com que a civilisação, ainda então embryonaria, substituiu a palavra «ladroeira» dos costumes, das biographias, e das acções humanas, que, por força do progresso, hão de ir perdendo a nomenclatura aspera e illogica que lhe davam os gothicos moralistas de carcomida memoria.O engenhoso Sampayo (diga-se assim de um homem que merece o respeito que se presta aos contemporaneos, apesar do seu atrazo de meio seculo), o engenhoso bacharel pediu uma audiencia particular a Junot, e denunciou-lhe a existencia de quarenta caixões de prata na igreja patriarchal.Junot chamou seu cunhado, que por signal se chamava Jufre, e commetteu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao serviçal e benemerito denunciante.Os dois, com alguns operarios de confiança de Sampayo, entraram na igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixões, excepto dois, que não foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os inventariar em sua casa, para onde foram transportados, ao escurecer.Completou-se d'esta arte o milagre, que Sampayo, em beatifico extasi, agradeceu toda a noite, contemplandouma a uma as formosas e corpulentas peças que tencionava fundir em baixella de seu serviço, quando melhores dias de ordem e tranquillidade fossem concedidos ao desgraçado Portugal, que elle continuava a prantear com as freirinhas de Santa Anna.Dera-se, entretanto, o costumado reviramento na opinião da plebe.Junot não sabia, não podia, nem devia esconder as suas intenções usurpadoras.A bandeira franceza fora arvorada no castello de S. Jorge. As armas reaes do arsenal foram picadas. Do parapeito do seu camarote abaixo, Junot desenrolara as aguias vencedoras. As costas populares, n'uma desordem do Terreiro do Paço, tinham sido apalpadas pelas cronhas francezas. Nove portuguezes tinham sido espingardeados nas Caldas.Dissolvida, em summa, a regencia, fora inaugurado o governo de Napoleão.A populaça, portanto, bramia, e sobretudo, porque a sua força era nulla, o seu poder desprezado, a sua fome e sêde cada vez mais insaciavel pela careza dos generos. Havia um só meio de entreter-lhe as sanhas, ou captar-lhe as sympathias: era quebrar os poucos esteios da ordem, defendidos ainda pelas armas francezas, era facilitar o saque por meio da anarchia.A plebe, quando lobrigava Sampayo, cercava-o, pedindo-lhe conta das promessas que elle fizera. O expedito bacharel desfazia-se dos importunos, recommendando-lhes paciencia, e esperança nos serenos dias que se haviam de seguir á crise indispensavel n'uma instituição de principios novos, creada expressamente para o bem geral.O povo ouvia-o com escarneo, e apupava-o, quando elle abria com os hombros passagem para escapar-se.Uma vez, porém, passava o bacharel na rua da Amendoeira, onde, por esses tempos, se arruava a escoria das meretrizes, e se abandoavam os condignos hospedes. Conheceram-o, e fizeram-lhe assuada.Um gaiato de maus figados, instigado pela celeuma, saltou ao costado do bacharel, e enterrou-lhe, com retumbante penantada, o chapéo até aos queixos. A gargalhadapublica victoriou o garoto, incitando-o a maiores emprezas, e aguçando o estimulo dos emulos. Outro gaiato, cioso dos applausos, capeava-o pela frente com um lenço vermelho de uma meretriz, emquanto um terceiro, um quarto e um quinto lhe achatavam o chapéo, que já não podia restaurar o antigo prumo. Uma alcouceira lançava-lhe ao tiracollo uma restea esbrugada de alhos, emquanto outra lhe mettia na portinhola da casaca, uma couve lombarda. Esta por um tubo de lata lhe assoprava feijões á cara, emquanto outra lhe pendurava um rabo-leva de papel na casaca, ou lhe esguichava fetidas aspersões com a seringa carnavalesca.Sampayo gritava por soccorro. Alguns soldados portuguezes e hespanhoes, que por alli estanciavam, mantinham a neutralidade, ou riam á socapa do infeliz gêbo. O bacharel, vendo passar uma guarda de soldados francezes, bradou ao commandante, dizendo-lhe em francez que era victima da canalha, porque adorava Napoleão.O francez varejou com a espada as costas dos gaiatos; porém, as rameiras, o povo, os gaiatos, animados pelos soldados portuguezes e hespanhoes, fizeram menção de apedrejar os francezes. Travou-se uma sanguinolenta desordem, á qual Sampayo deveu a evasiva.A cólera não lhe deu respiro, até entrar no palacio de Junot. Queixou-se amargamente, dizendo que os amigos da França eram as primeiras victimas dos inimigos do imperador, n'um paiz de que Junot brevemente seria o monarcha.O governador de Portugal enviou Sampayo ao intendente geral da policia Lagarde, com especial recommendação, e poderes discricionarios.Dos soldados portuguezes, alguns foram lançados na enxovia, outros deportados, e as meretrizes da rua da Amendoeira, rua Suja, e immediatas, depois de rapadas á navalha, e vergastadas no pateo da intendencia, foram desterradas para o Alemtejo.Parece-nos opportuna n'este logar essa pagina ridicula da biographia de um homem, que merecia ter mais ampla chronica, em vista do tragico desfecho que no proximo capitulo se dirá.XIINous en avons les preuves irrécusables sous nos propres yeux.Volney.(Leçons d'Histoire.)Eis-aqui como o diabo os leva para o inferno sem appellação nem aggravo.S. S. da S. e Silva.(Governo do mundo em secco.)Junot recebera do imperador a graça de duque de Abrantes. Felicitaram-o as corporações civis e militares, e muitos particulares da alta nobreza, mercancia que o francez fizera sem blandicias nem razões de Estado persuasivas. A consciencia d'estes miseraveis transigira com o renegar tradições, nome, patria, pudor, e honra, logo que as palavras «contribuição e confisco» os ameaçou de expiarem na dureza das nobres privações a repleção estomacal de seculos. O conde da Ega, Ayres de Saldanha, o bispo do Porto, o principal Miranda, e outros que mais avultam na veniaga torpe, são uma parcella no rebanho das ovelhas tinhosas, immoladas na sua dignidade aos pés do soldado aventureiro, que lhes cuspira na cara o preço das almas, e nas quinas portuguezas a affronta d'elles.Emquanto estes, envilecidos como nunca fora nação usurpada, pediam a Napoleão um rei francez, e nomeadamente Junot I para a terra de D. João I e D. Manoel; emquanto os fidalgos de sangue phenicio, carthaginez, suevo e godo, sem mescla do judaico, requeriam a Junot os empregos desamparados por outros fidalgos, que acompanharam o regente para o Brazil, aterrados de pavor, e, como elle, acocorados ao pé das velhas açafatasde D. Maria I; quem eram os portuguezes de consciencia e esforço n'esta nação desmembrada, n'esta metropole de tamanha parte do mundo, offerecida pelos netos dos que a conquistaram a um soldado francez?Alguns ergueram a fronte, sem o ferrete da venda, por entre a turba dos nobres, que a devassidão herdada enfraquecera e deixara caír no tremedal d'onde o historiador severo ha de buscal-os para os inscrever no livro dos paroxismos vergonhosos da raça de piratas, que pouco tempo logrou o fructo dos seus flagicios.Esses, que levantaram o rosto sem mancha, para saudar no throno reerguido o degenerado neto do Mestre da Aviz, eram uma classe menos timida que a do vulgacho, a mais quieta na sua obscuridade, a que fora, nos dois ultimos seculos, pouco e pouco espoliada dos seus antigos fóros municipaes, a classe média, emfim, cuja importancia na cidade delimitava-se a engrossar a veia da thesouro.Foram esses homens, robustos de seiva e espiritos nacionaes, os unicos que se concatenaram em reacção, surda e tenacissima na oppressão, contra os tyrannos; foram esses os tributarios liberaes de fazenda e sangue á restauração duvidosa do throno, que lhes pediu, depois, com que reparar o antigo fausto; foram, para tudo dizer de um traço, foram elles os que nunca esmoreceram no resgate da terra captiva do Encelado, que quizera abarcar o mundo entre as duas extremidades da sua espada invencivel, salpicada com o sangue de nações poderosas.O bacharel Joaquim Antonio de Sampayo (é de quem o leitor supercilioso quer que se lhe falle, e da melhor vontade me dispensa de reflexões impertinentes, que me manda pôr de conserva para quando escrever um livro serio, grave, e reflectido, que ninguem ha de comprar): o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo vestiu-se á côrte, de chapéo armado, espadim, meia de seda, e fivelas de prata. Disseram que estas fivelas tinham pertencido a um santo da patriarchal: isto parece-nos calumnia. Folheamos, e esgaravatamos o agiologio europeu, e não deparamos santo contemporaneo das fivelas. O historiadorveridico rejeita, como Tacito na biographia dos grandes scelerados de Roma, as toardas de phantasia para infamar caracteres onde sobejam crimes provados para a execração universal. Desculpem a intumecencia do estylo, que a materia não é tanto de sóco, como á primeira vista parece.O duque de Abrantes recebeu affavelmente o bacharel, e, na presença dos fidalgos, que estendiam já a mão soberba ao ajudante do ex-intendente Manique, entregou-lhe a nomeação de juiz para um tribunal especial militar, creado no Porto por decreto de 9 de maio de 1808.O fim ostensivo d'esta alçada era punir os perturbadores da segurança publica, nos variados delictos que a legislação do reino não previra.A sentença d'este tribunal era executada no praso de vinte e quatro horas, sem revista ou appellação.O bacharel agradecido caiu de joelhos aos pés do duque de Abrantes, que se dignou levantal-o pela gola da casaca; os copos do faim, porém, travando-se na fivela do calção, rasgaram-lhe a meia na barriga da perna, abrindo fenda por onde regorgitou uma almofada supplementar á tibia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os fidalgos riram tambem. Sampayo, ligeiramente corrido, arrancou o musculo de algodão, escorchou-o entre a mão nervuda, e pediu licença para ir remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde da Ega ao fidalgo immediato, só nas pernas postiças do seu dono faria tamanho estrago.O juiz do tribunal militar partiu, no dia immediato, para o Porto, onde era preciso refrear os animos indomados dos portuenses.Norberto de Meirelles contou de novo a seu cunhado o já dito em longa carta, que Sampayo não lera, ácerca do noviciado de Carlota.—Tudo se ha de remediar, que temos muito tempo—disse o bacharel.—Em ultimo caso, nunca ella ha de alcançar licença regia para a profissão. Agora, do que se trata, é de me pôres a bom recado estes dois caixões de prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o principe para o Brazil. Cuidado com isso,que estão ahi alguns contos de réis, e eu fiz responsavel a minha honra á entrega d'estes caixões, logo que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe alcançar do meu particularissimo amigo duque de Abrantes.—E que me diz o doutor a respeito do snr. Junot?—disse Norberto de Meirelles—Pelos modos, ouvi dizer que elle já está despachado rei de Portugal!—Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde da Ega e Ayres de Saldanha trabalhamos para a sua acclamação.—Então o cunhado é amigo d'esses governos lá da côrte? Com effeito sempre lhe digo que o que o doutor não fizer, não o faz o deanho. Aquella de fazer ir o pintalegrete pela barra fóra, custou carita, mas fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor!—E acha muito? Não foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha influencia. Não sei se sabe que Francisco Salter de Mendonça mexia na côrte os pausinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu dinheiro e da minha influencia, e vir ao Porto tirar Carlota judicialmente!...—Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por lá, grande cousa era! Estou a arreceiar que elle volte antes d'ella professar.—Não receie, Norberto. O principe não volta mais a Portugal, e o tal marinha cá estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas d'elle, está tudo prevenido para que não chegue alguma ás mãos de Carlota, e a esta hora está elle convencido de que ella casou.—Homem, essa!... ó doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da sua agencia! O cunhado é capaz de fazer com que ella esqueça o homem, e torne para a minha companhia! Faça isso, que lhe dou uma mula arreiada de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal.—Nada de susto, mano. Vossê não sabe o que são mulheres. A rapariga tem venêtas e caprichos; o acertado é deixal-a barafustar, e ella virá cá ter ao caminho das outras. De paixão ninguem morre; e, no convento,isso então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos taramelos em cousas de amor, que lançam o amor pela bôca fóra, em logar dos figados. Deixe-a lá estar á vontade, e dê-lhe a entender que o seu maior gosto n'este mundo é vel-a freira. Nada de contradizel-a. Mulheres e creanças amuadas é deixal-as renhir. Se vossês começam a carpil-a, então não fico pelo resto.—Então o doutor não vae lá tirar-lhe a tolice do miolo?!—Não, senhor, não vou, é escusado lá ir, e se for é para lhe dizer que muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a liberdade do mundo, e pintar-lhe com côres tristes o jugo do convento. Assim é que se levam as mulheres, snr. Norberto, e, se ellas teem a soberba de Carlota, então nada de disputar. A astucia manda dizer com ellas, até as fazer passar á contradicção, porque a harmonia é impossivel em indoles orgulhosas.—Oh doutor! o senhor tem uma labia que revira a gente! Homem, eu estou a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! deixemol-a lá com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso á minha Rosalia; mas, antes que me esqueça, cunhado, esta cousa de governo está segura?—Segurissima.—É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que désse e viesse.—Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como debaixo da terra. Sabe o que ha de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos meus caixões de prata, e vá enterral-os na adêga do Candal. Eu tenho mais mêdo á canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu na capital que s. exc.ª o snr. governador ia dar a Lisboa a saque, saíram para as praças as turbas da gentalha portugueza, esperando a hora do assalto. D'estes é que eu tenho mêdo, e por isso sou de parecer que se acautele o nosso precioso, com summa prudencia. O Candal é bom sitio, porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o serviço de enterraros caixões a pessoa fiel, que não denuncie o escondedouro.—Não me fio em ninguem, cunhado. Quem ha de enterrar esse todo-nada de dinheiro que por ahi está, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu, se Deus quizer.Assentiram n'isto, e, logo no dia immediato, Norberto de Meirelles pôz mãos á obra, com o auxilio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte para o Candal com disfarce. Os caixões sairam de noite, e os conductores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem esquadrinhal-o.Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosalia e o proprietario das pratas da patriarchal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e ficou assim desaffrontado dos sustos que lhe traziam o animo opprimido, desde que Francisco Salter de Mendonça lhe presagiara um possivel assalto ao seu dinheiro.Sampayo, atarefado com o julgamento dos réos processados no tribunal de que elle era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um mez depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de proposito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado repugnancia em receber a visita do tio.O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas preventivas contra as tentações do demonio, acerrimo inimigo dos votos claustraes.Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosalia com enfado. A boa senhora não comprehendia a esperteza de seu irmão, e confrontando-a com a estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do outro. Foi-lhe á mão com as suas razões cem vezes repetidas á filha. Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de Carlota; e a esta, com ternas supplicas, implorava que saísse do convento, se não queria cêdo ficar sem mãe.Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seriamuito sensivel; mas que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe mandasse, com tanto que podesse offerecer o coração espedaçado ajoelhada no altar, onde jurara votos de eterno sacrificio.Joaquim Antonio de Sampayo, piscando o olho á irmã, louvava de novo a devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoal-a, quatro exemplos de santidade no convento de Santa Anna de Lisboa, onde elle almoçava, e contava os milagres da prata da patriarchal, salvo o ultimo.Carlota, saíndo da grade, foi pedir a Deus perdão do odio que tinha a seu tio. Soror Rufina, confidente d'esta ruim paixão, orou com ella, e penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternaes conselhos que lhe dera, e o applauso com que a ajudava a defender-se das instancias de seus paes.O bacharel, maravilhado d'esta carta, modificou a sua opinião a respeito da sobrinha, e planisou uma nova traça para despersuadil-a. Qual ella fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executal-a.Sampayo exerceu as funcções do juizado quatro mezes, e foi despachado juiz de fóra para uma pingue comarca do Minho. A causa d'esta mudança, ingrata ao despachado, explicou-a elle como grandemente honrosa para si, dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao governo. O governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes que representavam réos dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor recato, avultosas quantias.Partiu para a sua comarca o juiz de fóra, recommendando ao cunhado que vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua deshonra. Por essa occasião, entregou-lhe um caixãosinho supplementar aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de réis, de seus ordenados e propinas, e mercês dos beneficios que fizera caridosamente aos réos absolvidos no terrivel tribunal.Dispensam-nos de boa vontade a historia sabida dos decorridos successos que expulsaram os francezes do territorio portuguez. É certo que o juiz de fóra de ***,Joaquim Antonio de Sampayo, ingrata creatura de Junot, pôz luminarias quando soube que o exercito francez recuava ao exercito alliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando ás armas, e incitando os frades a que prégassem o odio contra Napoleão, e promettessem indulgencia plenaria, e salvação segura a todos os que morressem na defeza do seu legitimo principe, e dos augustos fóros da religião catholica-apostolica-romana.O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como elle, sympathisou com as manhas do juiz de fóra, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor da comarca onde estava servindo.Entra, porém, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua situação, e, apasiguando os animos das turbas com discursos ácerca da inutilidade da resistencia, resolve ir ao encontro do general Lorge, que marchava contra a villa onde elle exercia a suprema auctoridade.Diz-lhe que intimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a volta dos francezes, e faz accender o resto das torcidas das luminarias á entrada do general francez. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia, mais tarde. Sampayo, arreceiando-se d'aquelles caudilhos, denunciou os principaes ao seu hospede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pezar de acontecimento tão funesto.Retirou o general para occupar outro ponto; mas a pedido do corregedor, deixou uma numerosa guarnição á terra.O general Botelho estanciava nas immediações da villa, e investiu com o presidio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampayo queria fugir com elle, sobre o Porto, para onde convergiam os differentes chefes do exercito invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora, carregando os bahús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que soubera esbulhar á comarca sob os mil pretextos faceis ao seu engenho.Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante, em lance tão apertado, e saíu a lume com uma ideia, da qual esperava a sua salvação.Mandou tocar immediatamente os sinos das igrejas, foi elle proprio, bradando vivas ao principe, espertar o animo perplexo dos moradores da terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que devia ter o resultado que teve. Joaquim Antonio de Sampayo viu-se rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando á vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido espingardeados á ordem do general Lorge.O chefe das forças portuguezas occorreu n'este momento afflictivo. O corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação.Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as supplicas do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com attenção, e exclamou com serenidade:—Enforquem-o já, que é o mais seguro.Mais de um leitor maior de sessenta annos está recordando, n'este momento, a cabeça de comarca, na provincia do Minho, onde foi enforcado um corregedor.Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim Antonio de Sampayo. Ahi perneou esse homem de grandes espiritos, que veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos suffragios. É de fé que o thaumaturgo das pratas da patriarchal caiu da forca ao inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam nedios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da patria, amor do proximo, e abnegação do alheio.Joaquim Antonio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o direito e a justiça por espaço de trinta annos, nos auditorios do Porto. Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cincoenta e seis annos.Revelara, ainda que tardio, um espirito sobre-excellentepara engrandecer-se, e reflectir na sua familia as honras merecidas á custa de infamias necessarias para se ser alguma cousa n'uma terra, onde Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos propicios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de março de 1809.Piamente cremos que os santos da patriarchal de Lisboa, esbulhados de seus adornos, lhe urdiram este affrontoso traspasse.Como quer que seja, homens taes, diz uma epigraphe d'este capitulo, que os leva o diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.XIII

Não ha coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de amar quem tem coração.Fr. Antonio das Chagas.(Obras espirituaes.)

Não ha coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de amar quem tem coração.

Fr. Antonio das Chagas.(Obras espirituaes.)

Vêde agora se ainda persistis em vossa pretenção, porque, se este modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no estado em que até agora vivestes.(Ceremonial da congregação dos monges negros.)

Vêde agora se ainda persistis em vossa pretenção, porque, se este modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no estado em que até agora vivestes.

(Ceremonial da congregação dos monges negros.)

E Carlota Angela?

Não dorme ainda o suspirado somno da morte sob a lagem humilde do claustro. Vive a vida que faz compaixão, e, nas pessoas que amam, excita o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor.

Creram-a moribunda em frequentes accessos: Rufina, Dorothea, e todas as religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face cadaverica, muitas vezes. Se, por instantes, tibio clarão de vida lhe retingia o rosto, é que a labareda da febre ahi vinha emprestar-lhe uma reanimação convulsa, á qual succedia o esvaîmento, com o suor frio do traspasse.

As orações eram contínuas. A communidade ia do quarto de Carlota para o côro, e do côro tornava ao quarto em ancias e esperanças que o fervor da oração lhe dera.

De uma vez, encontraram-a tranquilla, risonha e desopprimida. Uma a uma, Carlota chamou-as á beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando uma palavra inintelligivel.

Ás que choravam pedia que a não lastimassem, porqueella estava consolada com a esperança de descansar. Ás mais idosas, e veneraveis por sua santa vida, supplicava que a protegessem com os seus merecimentos, pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas d'esta vida.

Perguntava pela mãe, mas, se lhe fallavam do pae, se lhe diziam que elle vinha todos os dias saber d'ella, Carlota franzia a testa, e dava sustos de crescimento febril.

Soror Rufina esperava que ella lhe fallasse de Francisco Salter; Dorothea, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras allusivas; Carlota, porém, nunca permittiu á primeira, com o seu silencio, proferir tal nome; e á segunda, debulhando-se em lagrimas, fazia com a mão um signal de não poder ouvil-a.

Uma tarde, as duas meninas passeiavam no pomar: era a primeira vez que a filha de Norberto de Meirelles saía do seu quarto.

—Quando professas tu, menina?—disse Carlota.

—D'aqui a tres mezes.

—Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove mezes; mas ainda temos tres mezes de companheiras de noviciado.

—Pois queres professar, Carlota?!

—Quero, Dorothea, quero; se me não valesse essa esperança, estava morta. Já agora, o que me resta n'este mundo é o bem de me julgar perto de outro: d'aqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha, pedindo ao Senhor que... dê o céo...

Carlota, entalada por subitos soluços, não proseguiu.

—Diz, minha amiga... tu não me dizes tudo—acudiu Dorothea, abraçando-a com estremecido amor—ias fallar n'elle?... por que foges de me dizer que ainda o amas no céo?!

—Fugia de t'o dizer, Dorothea, porque o teu coração não póde avaliar que amor era este que perdôa a um ingrato, e daria a vida para o restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei e perdi. Mais desgraçada que eu ha uma só pessoa: é a mulher que o adorava; e mais desgraçado que ella e que eu, é elle, o infeliz, a quem tão pouco tempo o Senhor deixougosar a mulher que o mereceu mais digna do que eu fui, e não teria, talvez, um pae que a aviltasse aos olhos d'elle.

—Como o teu coração é bom, Carlota!

—Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Dorothea, que já não é coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do céo; recordo quanto amei, quanto soffri, e tudo aceito, e o mais que soffrer, com o contentamento de uma penitente.

—Pois verás que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota! Adopta-me como tua irmã; viveremos tão queridas e juntas, fallaremos tanto do que sentirmos triste ou agradavel, que chegaremos a gosar a existencia...

—Não penses isso, minha amiga... Eu não quero dar-te quinhão das minhas amarguras. O meu curto viver ha de ser muito oppressivo para as pessoas que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma infeliz, como eu, precisa ser desafogado, sósinho, e aos pés de Deus. Alegria? jámais, jámais, Dorothea... Bemdito seja o Senhor, que me dá esta casa para acostumar a minha alma a adoral-o, e me deu aqui exemplos de virtude, sem os quaes, fóra do convento, tinha-me tirado a vida n'um d'aquelles frenesis de que tremo com a lembrança.

Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porém decorrido breve intervallo de silencio, Carlota rompeu em gemidos, lançando-se ao seio de Dorothea.

—Que tens, Carlota? Ainda agora estavas tão socegada!...

—O que em cinco mezes se tem passado!—soluçou ella—Morto! é possivel que elle já não viva!... que eu esteja aqui, eu, meu Deus, eu que o adorava até á perdição! e pôde elle abandonar-me, esquecer-se da pobre Carlota! Isto não póde ser, Dorothea!... eu nunca o vi morto nos meus delirios, nunca, nunca o vi senão como na ultima vez que lhe fallei, jurando-me um amor eterno... Será isto uma falsidade? Será meu pae que prefere matar-me!? Diz, Dorothea, não te parece muito possivel esta crueldade!

—Póde ser, Carlota!... quem sabe?! Olha, filha, tudo se ha de saber com o tempo... Tem esperança, sim?

—Nenhuma!—replicou ella, caíndo da instantanea exaltação—não tenho esperança nenhuma! Se elle vivesse escrevia-me. É certo, é horrivelmente certo que não vive, que me desamparou, que foi castigado com a morte por ter assassinado uma amiga que se perderia por elle... Está tudo acabado, tudo, meu Deus, menos este peso de vida com que já não posso...

Carlota Angela recolheu-se taciturna ao seu quarto, e escreveu a sua mãe uma breve carta, em que lhe pedia o consentimento de seus paes, e as licenças necessarias para entrar no noviciado.

D. Rosalia quiz procurar Carlota; Norberto de Meirelles, receiando que sua mulher deixasse escapar algum ligeiro indicio de viver Francisco Salter, encarregou-se da resposta. Estas suspeitas fundavam-se nas querelas continuadas em que andavam, por causa de Carlota. D. Rosalia, algumas vezes, reprovara o zelo de seu irmão, e dureza do marido, mórmente depois que a freira lhe vaticinara a morte de Carlota. Norberto, escarnecendo, com lerdo desdem, o prognostico, impunha grosseiramente a D. Rosalia o calar-se, até ver em que paravam os taes fanicos da rapariga.

Depois, porém, que a viu convalescer, o arrozeiro chasqueava os vaticinios da cunhada, e aceitava de melhor vontade a proposta da filha, na esperança de a curar da loucura, durante o anno do noviciado, com os recursos que o cunhado doutor promettia espiritar-lhe, consoante o andamento do tempo, bom para tudo.

Antes, porém, de diligenciar o contracto do noviciado para a filha, Norberto de Meirelles mandou-a chamar, e Carlota, admoestada brandamente por soror Rufina, obedeceu.

—Vamos a ver, menina, que mania é essa de seres freira?—disse elle.

—Isto não é mania, meu pae, é aceitar com reconhecimento a consolação unica, e a melhor que Deus me dá n'este mundo, com esperanças de outro melhor.

—Beatices que te metteu na cabeça tua tia... Deixa-te d'isso, Carlota; o convento é para quem é. Nunca te vi inclinação para este modo de vida...

—A religião não é modo de vida, meu pae, é regra de vida.

—Não me dês sentenças, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto aqui é para sempre. Se professares, não tens remedio, ainda que te arrependas; é d'aqui p'ra Christo.

—Pois d'aqui para Christo é que eu quero ir, meu pae. Saiba que é inutil contradizer-me. A força que eu sinto em mim para ser freira é invencivel. Não me tolha a alegria, se é alegria este santo desejo de vestir o habito. Os obstaculos podem mortificar-me, mas não mudam o meu proposito. É escusado embaraçar-me. Offereci-me ao Senhor, quando cuidei de morrer de dor, pedindo-lhe allivios; senti-os, o Senhor apiedou-se de mim; é que a misericordia divina me aceita do modo que eu mais digna me posso fazer de morrer em paz.

—Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser noviça um anno, veremos como se te reviram as ideias.

—Pois sim, meu pae; se eu me não achar com forças de servir a Deus, dir-lh'o-hei, e sairei do convento.

—É o mais certo, e verás como te ha de parecer bom isto cá de fóra. Tu és bonita, és rica, és prendada, podes casar...

—Meu pae! por quem é não continue...

—Então que tem isso? Já cá te disseram que o casar é crime? Boa vae ella! Ainda ha seis mezes que estavas n'outras ideias...

—Se o pae faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu não venho aqui...

—Isso é modo de fallar a teu pae, Carlota! Cá dentro ensina-se a dizer isso a quem te creou, e trabalha para ti ha trinta annos? Cuidadinho commigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que eu sou um mono de palha, engana-se...

—Que mal lhe fez minha tia?

—Que me fez?! Encheu-te essa cabeça de teias de aranha, lá com as suas arengas do beaterio, e deu-te auso a responderes com poderio a teu pae!

—Eu não o offendi...—atalhou ella, chorando—Pedi-lheque não fizesse sangrar uma ferida de que estive á morte... Quem for meu amigo, ha de querer que eu ache allivio em alguma cousa; se a religião m'o dá, deixem-me ser freira, e não me fallem em casamentos impossiveis. Ora aqui está o que eu supplico a meu pae; se isto o offende, perdôe-me; e se é offendel-o não vir á grade para ouvir palavras que me amarguram, virei todas as vezes que o pae quizer.

—Está bom; basta de chorar. Vae-se tratar dos arranjos para o teu noviciado. Deus lhe ponha a virtude, e te guie para o que for melhor. Eu ainda espero ter-te commigo, alegre e folgazã como eras antes de conhecer esse homem que...

—Meu pae!

Carlota Angela erguera-se sobresaltada, e Norberto estacou, sopeando a ira que lhe espertara a vehemencia, um pouco soberba, da filha. A ira degenerou em um sorriso, cuja versão não acho no meu elucidario de sorrisos sandios.

O arrozeiro, receioso deesbarrondar-se, como elle depois dizia a D. Rosalia, saiu da grade, onde a filha permaneceu longo tempo enxugando as lagrimas, para simular socegado o semblante.

Um mez depois, entrava Carlota Angela, com a mestra de noviças e a cantora, no côro, onde se reunira a communidade.

A dona abbadessa empunhando o bago, insignia magestosa da prelazia, estava no tôpo das duas alas de religiosas, solemnes e magnificas com suas roçagantes cogúlas. O clarão tremente dos cirios banhava o recinto de baço esplendor e sombras magestosas.

A tres passos distantes da prelada, que lhe sorria com maternal caricia, Carlota prostrou-se com a face em; terra.

A humildade com que fizera a reverencia, o subito rompimento das lagrimas, que a noviça não podera represar, a voz compungida da prelada, proferindo oquid petis, e o soluço tremido de Carlota, respondendomisericordiam... «a misericordia de Deus e a vossa», a terrivel magestade do silencio, durante as genuflexões danoviça; todos estes actos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o coração das religiosas a ponto de correrem lagrimas por todas as faces, no momento em que a prelada, commovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada ante si:Surge, «levanta-te».

A noviça voltou-se com as duas religiosas para o altar-mór, enxugou as lagrimas emquanto fazia as reverencias do ceremonial, ajoelhou de novo aos pés da prelada, que proferiu uma breve pratica ácerca das gravissimas obrigações que a noviça contrahia com o promettido esposo. Carlota ouviu-a com as mãos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto venerando da abbadessa, onde a graça, ternura e o sorriso da bondade eram um como suave encarecimento ás virtudes que aconselhava, e estimulo para merecer no céo o galardão de as praticar.

Carlota lançou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabeça. Longa e farta trança de cabellos negros se desenrolou até á cintura. Uma freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trança, que depôz em uma bandeja. A mestra de noviças cingiu-lhe a touca branca, e a prelada lançou-lhe aos hombros o habito ou mantilha. Carlota, durante este acto, parecia não sentir, não perceber a profunda e dolorosissima significação que elle deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do mundo, onde todas as suas esperanças foram cruelmente desmentidas.

Estavam de joelhos todas as religiosas, ella, entre a mestra e a prelada. As cantoras entoaram o hymno:Veni, creator spiritus. Era um canto melancolico acompanhado a orgão; um mystico e lagrimoso offertorio da alma atribulada ao supremo consolador das angustias. Cantada a primeira estrophe, ergueram-se todas, excepto a noviça. Seguiram-se os versiculos e orações entoadas no côro e no altar-mór. A mestra de noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a ceremonia; a noviça, porém, continuava ajoelhada com as mãos entrelaçadas sobre o peito. Recommendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ella estremecia, como se já não podesse sustentar a violencia da posição. Carlota não se erguia, até que lhe deram a mão, e encontraram frias de neve as d'ella. Fizeram vão esforço para levantal-a, algumasfreiras que a rodearam. Carlota não respondia, apenas respirava; quiz obedecer ao impulso que lhe davam para erguer-se, mas á pallidez, ao turvamento da vista, seguiu-se o desmaio.

Soror Rufina, Dorothea, e as outras ergueram o alarido do susto. Na igreja estava a mãe de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando, recitando Padre-nossos machinalmente, e promettendo a Deus confessar-se da sua culpa, se era culpa ter occultado a sua filha o engano que o tio doutor lhe urdira, arranjado com o pae.

Quando, porém, os ais do côro chegaram aos seus ouvidos, com as exclamações afflictas de Rufina, D. Rosalia saíu da teia de um altar, veio ás grades do côro de baixo, e rompeu em brados desentoados, chamando a filha. O capellão-mór, vestido de sobrepeliz, estola e pluvial, veio lembrar á lamuriante senhora, que a sua gritaria não era propria da casa de Deus. D. Rosalia replicou, menos commedida, que queria cá fóra sua filha, viva ou morta. E n'esta altercação estiveram ella e os capellães, recreando uns e fazendo chorar outros dos circumstantes, até que soror Rufina e outras freiras vieram á grade do côro aquietar a mãe de Carlota, dizendo-lhe que o incommodo fôra um passageiro desmaio.

E assim fora, felizmente.

Carlota voltou a si, quando a mãe gritava. Os brados fizeram-a sair do côro vacillante e alvoroçada. Quizeram encaminhal-a á cella; mas Carlota sabia que era costume ir a noviça, finalisada a ceremonia, visitar as doentes.

Foi; e ás mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente, rogassem a Deus que a levasse para si.

Pois ainda não ouvistes de seu valor o maior encomio.José de Sousa (o cego). (Obras posthumas.)

Pois ainda não ouvistes de seu valor o maior encomio.

José de Sousa (o cego). (Obras posthumas.)

Vereis amor da patria... etc.Camões.(Lusiadas.)

Vereis amor da patria... etc.

Camões.(Lusiadas.)

Junot, a marchas forçadas, esperançoso ainda de obstar á saida da familia real, ia sobre Lisboa. A regencia desnorteou com a imbecilidade rara de que era dotada; a classe média, presumindo a tyrannia proxima, ainda quiz debalde oppôr um dique á invasão; mas a populaça, sedenta de anarchia, onde sevar temporariamente os vis instinctos, remoinhava, alegre e enthusiastica, rugindo como o tigre que fareja o sangue.

Joaquim Antonio de Sampayo foi, n'essa época, a preexistencia dos grandes homens, das summidades estadistas dos ultimos vinte annos. Avaliando quanto difficil seria acertar com o caminho seguro na encruzilhada das perspectivas politicas, não preferiu algum, e aceitou-os todos como conducentes á prosperidade, quando a fortuna, filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu predilecto.

Sampayo lamentava com Manique o desamparo em que ficara o reino pela impolitica e precipitada fuga do principe regente. Incriminava com os fidalgos a cobardia de similhante desaire para o paiz dos Pachecos e Albuquerques. Ouvia com acquiescencia os murmurios da nobreza contra a dynastia bragantina, murmurios timidos, que mais tarde se formularam n'uma vilipendiosa petição, requerendo ao usurpador um rei da sua escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara conscienciastão degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, Antonio.

Com a classe média, Sampayo bociferava contra os francezes, e promettia sacrificar nas hecatombas da patria a sua ultima pinga de nobre, generoso e patriotico sangue. Todavia, exhausto o fôlego das imprecações retumbantes, e accendida a flamma do heroismo nos peitos burguezes que se apinhavam nas praças, Sampayo, passando da iracundia ao reflectido exame das circumstancias, dizia que a sublevação popular seria um desatino sem proveito, um sacrificio de vidas e fazendas intempestivo e inglorio para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de homem que privava no segredo dos destinos de Portugal, conselhos de paciencia, de resignação, e, mais que tudo, de maxima prudencia na entrada de Junot.

Relacionado com a plebe, em razão do seu ministerio na intendencia geral da policia, o antigo advogado da rua de Santa Catharina insinuava-se nos grupos desordeiros e respondia com impertigamento de oraculo ás perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleão, dizia elle que não era o impio que se dizia. Napoleão, e os seus generaes, não saqueavam as igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem violentavam a virtude das donzellas, nem attentavam contra a liberdade do povo. Pelo contrario—continuava elle, baixando cada vez mais a voz, e relanceando o olho observador por sobre as physionomias suspeitas que chegavam de novo—pelo contrario, Napoleão queria mudar a face das cousas em favor das classes opprimidas, chamando o povo á partilha dos regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco e pouco através dos seculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleão, e acclamava general o doutor Sampayo, que se esgueirava surrateiramente pela primeira brecha que a agitação lhe proporcionasse.

D'alli, ia á intendencia dizer a Manique o fermento que azedava os rasteiros instinctos da canalha. Alvitrava o emprego da força armada para dispersar os bandos, com prudencia; e, compungido de patriotica lastima, deplorava o indiscreto arbitrio dos palacianos que aconselharamao principe uma fuga tão calamitosa no instante em que o prestigio da nacionalidade estava na presença do soberano.

Fora nomeada uma deputação para cumprimentar Junot. Além dos expressamente enviados pela regencia, Joaquim Antonio de Sampayo associou-se na deputação com alguns particulares, que se davam pressa em depôr aos pés do invasor a porção infame do paiz que elles representavam.

O ajudante do intendente arremedava a lingua franceza, e fazia-se entender melhor que o deputado da regencia, o tenente-general Martinho de Sousa e Albuquerque.

Junot, em Sacavem, chamou Sampayo a uma conferencia particular, e informou-se de cousas que a deputação não elucidava por astucia, ou por ignorancia da lingua. O certo é que o general francez, maravilhado do bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessario, agradeceu-lhe com um aperto de mão os serviços prestados ao reformador da Europa, e prometteu-lhe acrescental-o, quanto em si coubesse, em honras e fazenda.

Chegados a Lisboa, as proclamações que circulavam entre a populaça eram de Sampayo. N'ellas se aquietava o espirito publico, dizendo-se que o excellentissimo senhor Andoche Junot, heroe de Toulon e de Nazareth, era o emissario da paz, da ordem, e da prosperidade portugueza; que a propriedade era sagrada para o exercito do imperador da França; que a virtude das virgens, e das menos suspeitas d'esse respeitavel estado, era inviolavel; que ninguem fugisse de suas casas, nem viesse para a rua fazer assuadas, algazarras, ou outras que taes manifestações de desordem e descontentamento.

O bacharel Sampayo ajudara, na vespera do embarque da familia real, a encaixotar as pratas da patriarchal, que deviam acompanhar os reaes emigrados. A celeridade, porém, do embarque, fez que os quatorze carros de preciosos objectos ficassem no caes de Belem, e voltassem, com grande jubilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampayo, emquanto se encaixavam as riquissimas bandejas, castiçaes, corôas, lampadas,etc., resistira heroicamente aos assaltos da ladroice, que lhe estavam segredando o modo de empalmar algumas peças miudas de preciosissimo trabalho. Pôde sopear a tentação; mas não via, sem grande mágoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga tão valiosa. Um tal ou qual allivio o desopprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o tecto protector da sua igreja. Sampayo, a proposito d'isso, asseverou ás freiras de Santa Anna, onde almoçava todos os dias, que andava alli milagre n'aquella reconducção! Não acreditava elle, porém, que o milagre fosse perfeito e averiguado, emquanto um bom quinhão d'aquella prata não entrasse em casa d'elle. Convencido do «trabalha, que eu te ajudarei», o bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse.

O processo não deixa de ser engenhoso: «engenho» é a palavra com que a civilisação, ainda então embryonaria, substituiu a palavra «ladroeira» dos costumes, das biographias, e das acções humanas, que, por força do progresso, hão de ir perdendo a nomenclatura aspera e illogica que lhe davam os gothicos moralistas de carcomida memoria.

O engenhoso Sampayo (diga-se assim de um homem que merece o respeito que se presta aos contemporaneos, apesar do seu atrazo de meio seculo), o engenhoso bacharel pediu uma audiencia particular a Junot, e denunciou-lhe a existencia de quarenta caixões de prata na igreja patriarchal.

Junot chamou seu cunhado, que por signal se chamava Jufre, e commetteu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao serviçal e benemerito denunciante.

Os dois, com alguns operarios de confiança de Sampayo, entraram na igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixões, excepto dois, que não foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os inventariar em sua casa, para onde foram transportados, ao escurecer.

Completou-se d'esta arte o milagre, que Sampayo, em beatifico extasi, agradeceu toda a noite, contemplandouma a uma as formosas e corpulentas peças que tencionava fundir em baixella de seu serviço, quando melhores dias de ordem e tranquillidade fossem concedidos ao desgraçado Portugal, que elle continuava a prantear com as freirinhas de Santa Anna.

Dera-se, entretanto, o costumado reviramento na opinião da plebe.

Junot não sabia, não podia, nem devia esconder as suas intenções usurpadoras.

A bandeira franceza fora arvorada no castello de S. Jorge. As armas reaes do arsenal foram picadas. Do parapeito do seu camarote abaixo, Junot desenrolara as aguias vencedoras. As costas populares, n'uma desordem do Terreiro do Paço, tinham sido apalpadas pelas cronhas francezas. Nove portuguezes tinham sido espingardeados nas Caldas.

Dissolvida, em summa, a regencia, fora inaugurado o governo de Napoleão.

A populaça, portanto, bramia, e sobretudo, porque a sua força era nulla, o seu poder desprezado, a sua fome e sêde cada vez mais insaciavel pela careza dos generos. Havia um só meio de entreter-lhe as sanhas, ou captar-lhe as sympathias: era quebrar os poucos esteios da ordem, defendidos ainda pelas armas francezas, era facilitar o saque por meio da anarchia.

A plebe, quando lobrigava Sampayo, cercava-o, pedindo-lhe conta das promessas que elle fizera. O expedito bacharel desfazia-se dos importunos, recommendando-lhes paciencia, e esperança nos serenos dias que se haviam de seguir á crise indispensavel n'uma instituição de principios novos, creada expressamente para o bem geral.

O povo ouvia-o com escarneo, e apupava-o, quando elle abria com os hombros passagem para escapar-se.

Uma vez, porém, passava o bacharel na rua da Amendoeira, onde, por esses tempos, se arruava a escoria das meretrizes, e se abandoavam os condignos hospedes. Conheceram-o, e fizeram-lhe assuada.

Um gaiato de maus figados, instigado pela celeuma, saltou ao costado do bacharel, e enterrou-lhe, com retumbante penantada, o chapéo até aos queixos. A gargalhadapublica victoriou o garoto, incitando-o a maiores emprezas, e aguçando o estimulo dos emulos. Outro gaiato, cioso dos applausos, capeava-o pela frente com um lenço vermelho de uma meretriz, emquanto um terceiro, um quarto e um quinto lhe achatavam o chapéo, que já não podia restaurar o antigo prumo. Uma alcouceira lançava-lhe ao tiracollo uma restea esbrugada de alhos, emquanto outra lhe mettia na portinhola da casaca, uma couve lombarda. Esta por um tubo de lata lhe assoprava feijões á cara, emquanto outra lhe pendurava um rabo-leva de papel na casaca, ou lhe esguichava fetidas aspersões com a seringa carnavalesca.

Sampayo gritava por soccorro. Alguns soldados portuguezes e hespanhoes, que por alli estanciavam, mantinham a neutralidade, ou riam á socapa do infeliz gêbo. O bacharel, vendo passar uma guarda de soldados francezes, bradou ao commandante, dizendo-lhe em francez que era victima da canalha, porque adorava Napoleão.

O francez varejou com a espada as costas dos gaiatos; porém, as rameiras, o povo, os gaiatos, animados pelos soldados portuguezes e hespanhoes, fizeram menção de apedrejar os francezes. Travou-se uma sanguinolenta desordem, á qual Sampayo deveu a evasiva.

A cólera não lhe deu respiro, até entrar no palacio de Junot. Queixou-se amargamente, dizendo que os amigos da França eram as primeiras victimas dos inimigos do imperador, n'um paiz de que Junot brevemente seria o monarcha.

O governador de Portugal enviou Sampayo ao intendente geral da policia Lagarde, com especial recommendação, e poderes discricionarios.

Dos soldados portuguezes, alguns foram lançados na enxovia, outros deportados, e as meretrizes da rua da Amendoeira, rua Suja, e immediatas, depois de rapadas á navalha, e vergastadas no pateo da intendencia, foram desterradas para o Alemtejo.

Parece-nos opportuna n'este logar essa pagina ridicula da biographia de um homem, que merecia ter mais ampla chronica, em vista do tragico desfecho que no proximo capitulo se dirá.

Nous en avons les preuves irrécusables sous nos propres yeux.Volney.(Leçons d'Histoire.)

Nous en avons les preuves irrécusables sous nos propres yeux.

Volney.(Leçons d'Histoire.)

Eis-aqui como o diabo os leva para o inferno sem appellação nem aggravo.S. S. da S. e Silva.(Governo do mundo em secco.)

Eis-aqui como o diabo os leva para o inferno sem appellação nem aggravo.

S. S. da S. e Silva.(Governo do mundo em secco.)

Junot recebera do imperador a graça de duque de Abrantes. Felicitaram-o as corporações civis e militares, e muitos particulares da alta nobreza, mercancia que o francez fizera sem blandicias nem razões de Estado persuasivas. A consciencia d'estes miseraveis transigira com o renegar tradições, nome, patria, pudor, e honra, logo que as palavras «contribuição e confisco» os ameaçou de expiarem na dureza das nobres privações a repleção estomacal de seculos. O conde da Ega, Ayres de Saldanha, o bispo do Porto, o principal Miranda, e outros que mais avultam na veniaga torpe, são uma parcella no rebanho das ovelhas tinhosas, immoladas na sua dignidade aos pés do soldado aventureiro, que lhes cuspira na cara o preço das almas, e nas quinas portuguezas a affronta d'elles.

Emquanto estes, envilecidos como nunca fora nação usurpada, pediam a Napoleão um rei francez, e nomeadamente Junot I para a terra de D. João I e D. Manoel; emquanto os fidalgos de sangue phenicio, carthaginez, suevo e godo, sem mescla do judaico, requeriam a Junot os empregos desamparados por outros fidalgos, que acompanharam o regente para o Brazil, aterrados de pavor, e, como elle, acocorados ao pé das velhas açafatasde D. Maria I; quem eram os portuguezes de consciencia e esforço n'esta nação desmembrada, n'esta metropole de tamanha parte do mundo, offerecida pelos netos dos que a conquistaram a um soldado francez?

Alguns ergueram a fronte, sem o ferrete da venda, por entre a turba dos nobres, que a devassidão herdada enfraquecera e deixara caír no tremedal d'onde o historiador severo ha de buscal-os para os inscrever no livro dos paroxismos vergonhosos da raça de piratas, que pouco tempo logrou o fructo dos seus flagicios.

Esses, que levantaram o rosto sem mancha, para saudar no throno reerguido o degenerado neto do Mestre da Aviz, eram uma classe menos timida que a do vulgacho, a mais quieta na sua obscuridade, a que fora, nos dois ultimos seculos, pouco e pouco espoliada dos seus antigos fóros municipaes, a classe média, emfim, cuja importancia na cidade delimitava-se a engrossar a veia da thesouro.

Foram esses homens, robustos de seiva e espiritos nacionaes, os unicos que se concatenaram em reacção, surda e tenacissima na oppressão, contra os tyrannos; foram esses os tributarios liberaes de fazenda e sangue á restauração duvidosa do throno, que lhes pediu, depois, com que reparar o antigo fausto; foram, para tudo dizer de um traço, foram elles os que nunca esmoreceram no resgate da terra captiva do Encelado, que quizera abarcar o mundo entre as duas extremidades da sua espada invencivel, salpicada com o sangue de nações poderosas.

O bacharel Joaquim Antonio de Sampayo (é de quem o leitor supercilioso quer que se lhe falle, e da melhor vontade me dispensa de reflexões impertinentes, que me manda pôr de conserva para quando escrever um livro serio, grave, e reflectido, que ninguem ha de comprar): o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo vestiu-se á côrte, de chapéo armado, espadim, meia de seda, e fivelas de prata. Disseram que estas fivelas tinham pertencido a um santo da patriarchal: isto parece-nos calumnia. Folheamos, e esgaravatamos o agiologio europeu, e não deparamos santo contemporaneo das fivelas. O historiadorveridico rejeita, como Tacito na biographia dos grandes scelerados de Roma, as toardas de phantasia para infamar caracteres onde sobejam crimes provados para a execração universal. Desculpem a intumecencia do estylo, que a materia não é tanto de sóco, como á primeira vista parece.

O duque de Abrantes recebeu affavelmente o bacharel, e, na presença dos fidalgos, que estendiam já a mão soberba ao ajudante do ex-intendente Manique, entregou-lhe a nomeação de juiz para um tribunal especial militar, creado no Porto por decreto de 9 de maio de 1808.

O fim ostensivo d'esta alçada era punir os perturbadores da segurança publica, nos variados delictos que a legislação do reino não previra.

A sentença d'este tribunal era executada no praso de vinte e quatro horas, sem revista ou appellação.

O bacharel agradecido caiu de joelhos aos pés do duque de Abrantes, que se dignou levantal-o pela gola da casaca; os copos do faim, porém, travando-se na fivela do calção, rasgaram-lhe a meia na barriga da perna, abrindo fenda por onde regorgitou uma almofada supplementar á tibia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os fidalgos riram tambem. Sampayo, ligeiramente corrido, arrancou o musculo de algodão, escorchou-o entre a mão nervuda, e pediu licença para ir remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde da Ega ao fidalgo immediato, só nas pernas postiças do seu dono faria tamanho estrago.

O juiz do tribunal militar partiu, no dia immediato, para o Porto, onde era preciso refrear os animos indomados dos portuenses.

Norberto de Meirelles contou de novo a seu cunhado o já dito em longa carta, que Sampayo não lera, ácerca do noviciado de Carlota.

—Tudo se ha de remediar, que temos muito tempo—disse o bacharel.—Em ultimo caso, nunca ella ha de alcançar licença regia para a profissão. Agora, do que se trata, é de me pôres a bom recado estes dois caixões de prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o principe para o Brazil. Cuidado com isso,que estão ahi alguns contos de réis, e eu fiz responsavel a minha honra á entrega d'estes caixões, logo que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe alcançar do meu particularissimo amigo duque de Abrantes.

—E que me diz o doutor a respeito do snr. Junot?—disse Norberto de Meirelles—Pelos modos, ouvi dizer que elle já está despachado rei de Portugal!

—Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde da Ega e Ayres de Saldanha trabalhamos para a sua acclamação.

—Então o cunhado é amigo d'esses governos lá da côrte? Com effeito sempre lhe digo que o que o doutor não fizer, não o faz o deanho. Aquella de fazer ir o pintalegrete pela barra fóra, custou carita, mas fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor!

—E acha muito? Não foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha influencia. Não sei se sabe que Francisco Salter de Mendonça mexia na côrte os pausinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu dinheiro e da minha influencia, e vir ao Porto tirar Carlota judicialmente!...

—Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por lá, grande cousa era! Estou a arreceiar que elle volte antes d'ella professar.

—Não receie, Norberto. O principe não volta mais a Portugal, e o tal marinha cá estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas d'elle, está tudo prevenido para que não chegue alguma ás mãos de Carlota, e a esta hora está elle convencido de que ella casou.

—Homem, essa!... ó doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da sua agencia! O cunhado é capaz de fazer com que ella esqueça o homem, e torne para a minha companhia! Faça isso, que lhe dou uma mula arreiada de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal.

—Nada de susto, mano. Vossê não sabe o que são mulheres. A rapariga tem venêtas e caprichos; o acertado é deixal-a barafustar, e ella virá cá ter ao caminho das outras. De paixão ninguem morre; e, no convento,isso então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos taramelos em cousas de amor, que lançam o amor pela bôca fóra, em logar dos figados. Deixe-a lá estar á vontade, e dê-lhe a entender que o seu maior gosto n'este mundo é vel-a freira. Nada de contradizel-a. Mulheres e creanças amuadas é deixal-as renhir. Se vossês começam a carpil-a, então não fico pelo resto.

—Então o doutor não vae lá tirar-lhe a tolice do miolo?!

—Não, senhor, não vou, é escusado lá ir, e se for é para lhe dizer que muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a liberdade do mundo, e pintar-lhe com côres tristes o jugo do convento. Assim é que se levam as mulheres, snr. Norberto, e, se ellas teem a soberba de Carlota, então nada de disputar. A astucia manda dizer com ellas, até as fazer passar á contradicção, porque a harmonia é impossivel em indoles orgulhosas.

—Oh doutor! o senhor tem uma labia que revira a gente! Homem, eu estou a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! deixemol-a lá com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso á minha Rosalia; mas, antes que me esqueça, cunhado, esta cousa de governo está segura?

—Segurissima.

—É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que désse e viesse.

—Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como debaixo da terra. Sabe o que ha de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos meus caixões de prata, e vá enterral-os na adêga do Candal. Eu tenho mais mêdo á canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu na capital que s. exc.ª o snr. governador ia dar a Lisboa a saque, saíram para as praças as turbas da gentalha portugueza, esperando a hora do assalto. D'estes é que eu tenho mêdo, e por isso sou de parecer que se acautele o nosso precioso, com summa prudencia. O Candal é bom sitio, porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o serviço de enterraros caixões a pessoa fiel, que não denuncie o escondedouro.

—Não me fio em ninguem, cunhado. Quem ha de enterrar esse todo-nada de dinheiro que por ahi está, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu, se Deus quizer.

Assentiram n'isto, e, logo no dia immediato, Norberto de Meirelles pôz mãos á obra, com o auxilio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte para o Candal com disfarce. Os caixões sairam de noite, e os conductores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem esquadrinhal-o.

Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosalia e o proprietario das pratas da patriarchal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e ficou assim desaffrontado dos sustos que lhe traziam o animo opprimido, desde que Francisco Salter de Mendonça lhe presagiara um possivel assalto ao seu dinheiro.

Sampayo, atarefado com o julgamento dos réos processados no tribunal de que elle era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um mez depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de proposito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado repugnancia em receber a visita do tio.

O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas preventivas contra as tentações do demonio, acerrimo inimigo dos votos claustraes.

Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosalia com enfado. A boa senhora não comprehendia a esperteza de seu irmão, e confrontando-a com a estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do outro. Foi-lhe á mão com as suas razões cem vezes repetidas á filha. Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de Carlota; e a esta, com ternas supplicas, implorava que saísse do convento, se não queria cêdo ficar sem mãe.

Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seriamuito sensivel; mas que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe mandasse, com tanto que podesse offerecer o coração espedaçado ajoelhada no altar, onde jurara votos de eterno sacrificio.

Joaquim Antonio de Sampayo, piscando o olho á irmã, louvava de novo a devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoal-a, quatro exemplos de santidade no convento de Santa Anna de Lisboa, onde elle almoçava, e contava os milagres da prata da patriarchal, salvo o ultimo.

Carlota, saíndo da grade, foi pedir a Deus perdão do odio que tinha a seu tio. Soror Rufina, confidente d'esta ruim paixão, orou com ella, e penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternaes conselhos que lhe dera, e o applauso com que a ajudava a defender-se das instancias de seus paes.

O bacharel, maravilhado d'esta carta, modificou a sua opinião a respeito da sobrinha, e planisou uma nova traça para despersuadil-a. Qual ella fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executal-a.

Sampayo exerceu as funcções do juizado quatro mezes, e foi despachado juiz de fóra para uma pingue comarca do Minho. A causa d'esta mudança, ingrata ao despachado, explicou-a elle como grandemente honrosa para si, dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao governo. O governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes que representavam réos dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor recato, avultosas quantias.

Partiu para a sua comarca o juiz de fóra, recommendando ao cunhado que vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua deshonra. Por essa occasião, entregou-lhe um caixãosinho supplementar aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de réis, de seus ordenados e propinas, e mercês dos beneficios que fizera caridosamente aos réos absolvidos no terrivel tribunal.

Dispensam-nos de boa vontade a historia sabida dos decorridos successos que expulsaram os francezes do territorio portuguez. É certo que o juiz de fóra de ***,Joaquim Antonio de Sampayo, ingrata creatura de Junot, pôz luminarias quando soube que o exercito francez recuava ao exercito alliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando ás armas, e incitando os frades a que prégassem o odio contra Napoleão, e promettessem indulgencia plenaria, e salvação segura a todos os que morressem na defeza do seu legitimo principe, e dos augustos fóros da religião catholica-apostolica-romana.

O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como elle, sympathisou com as manhas do juiz de fóra, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor da comarca onde estava servindo.

Entra, porém, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua situação, e, apasiguando os animos das turbas com discursos ácerca da inutilidade da resistencia, resolve ir ao encontro do general Lorge, que marchava contra a villa onde elle exercia a suprema auctoridade.

Diz-lhe que intimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a volta dos francezes, e faz accender o resto das torcidas das luminarias á entrada do general francez. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia, mais tarde. Sampayo, arreceiando-se d'aquelles caudilhos, denunciou os principaes ao seu hospede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pezar de acontecimento tão funesto.

Retirou o general para occupar outro ponto; mas a pedido do corregedor, deixou uma numerosa guarnição á terra.

O general Botelho estanciava nas immediações da villa, e investiu com o presidio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampayo queria fugir com elle, sobre o Porto, para onde convergiam os differentes chefes do exercito invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora, carregando os bahús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que soubera esbulhar á comarca sob os mil pretextos faceis ao seu engenho.

Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante, em lance tão apertado, e saíu a lume com uma ideia, da qual esperava a sua salvação.

Mandou tocar immediatamente os sinos das igrejas, foi elle proprio, bradando vivas ao principe, espertar o animo perplexo dos moradores da terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.

Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que devia ter o resultado que teve. Joaquim Antonio de Sampayo viu-se rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando á vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido espingardeados á ordem do general Lorge.

O chefe das forças portuguezas occorreu n'este momento afflictivo. O corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação.

Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as supplicas do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com attenção, e exclamou com serenidade:

—Enforquem-o já, que é o mais seguro.

Mais de um leitor maior de sessenta annos está recordando, n'este momento, a cabeça de comarca, na provincia do Minho, onde foi enforcado um corregedor.

Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim Antonio de Sampayo. Ahi perneou esse homem de grandes espiritos, que veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.

Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos suffragios. É de fé que o thaumaturgo das pratas da patriarchal caiu da forca ao inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam nedios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da patria, amor do proximo, e abnegação do alheio.

Joaquim Antonio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o direito e a justiça por espaço de trinta annos, nos auditorios do Porto. Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cincoenta e seis annos.

Revelara, ainda que tardio, um espirito sobre-excellentepara engrandecer-se, e reflectir na sua familia as honras merecidas á custa de infamias necessarias para se ser alguma cousa n'uma terra, onde Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos propicios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de março de 1809.

Piamente cremos que os santos da patriarchal de Lisboa, esbulhados de seus adornos, lhe urdiram este affrontoso traspasse.

Como quer que seja, homens taes, diz uma epigraphe d'este capitulo, que os leva o diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.


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