DEDICATORIAAoINSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROofferece a propriedade das conferencias effectuadas ácerca deChristovam Colombo e do Descobrimento da America,como homenagem de consideração, e testemunha de apreço, que lhe tributa seu socio honorario.J. M. Pereira da Silva.{VI}{VII}O INSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROresolveu em sessão publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende celebrar no dia 12 de outubro de 1892.{VIII}{IX}CabeçalhoADVERTENCIAAo approximar-se o 4º centenario do descobrimento da America por Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser celebrado em Madrid, Chicago e Genova, tão fausto e glorioso acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instrucção, fundada no Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as conferencias{X}populares á que anteriormente havia presidido, e encarregando ao Sr. Conselheiro João Manuel Pereira da Silva a missão de tratar d'aquelle assumpto.Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto interessava á historia do descobrimento da America e á biographia de Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia. O decano da imprensa brazileira, oJornal do Commerciodo Rio de Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou integralmente em suas interessantes columnas.Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.Não as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos: entendeu que si valor haviam tido, não o deviam perder, modificadas que fossem na fórma ou na essencia. Convinha mais que corressem{XI}como foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados os incidentes da occasião, que só interessavam ao orador e ao auditorio.O estylo e a linguagem do orador devem a fórma ao improviso da palavra e das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorrecções e lapsos, porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias, quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto á uma acurada meditação.Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciará com justiça.{XII}{1}CabeçalhoCHRISTOVAM COLOMBOEO DESCOBRIMENTO DA AMERICAPRIMEIRA CONFERENCIA17 de maio de 1891Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta á meu espirito uma idéa triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e durante{2}muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias, animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas palavras, áquelles pedindo a perseverança no trabalho, a estes aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D. Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo ainda bater-lhe o coração de saudades por ella, e faz votos ardentes pela sua felicidade e futuro.Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de respeitosa saudação, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa conferencia de hoje, appellando, como em outras occasiões, para a vossa benevolencia.Sorriu-me esta idéa com a leitura dos annuncios publicados em periodicos de varias nações. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos Americanos, porque nos não recordaremos de epoca tão memoravel!{3}Para que se comprehenda, porém, a historia do descobrimento da America, necessario nos é começar pelo estudo da situação social, politica, economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.Sahia da edade média, penetrava na da renascença, e passava por extraordinarias evoluções. Cahia a feudalidade, isto é, o dominio despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que, independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que começavam a governar nações maiores e mais unidas: apparecia já tambem á tona d'agua, reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então existira esmagada e submettida.Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instrucção que estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes{4}da egreja christã que succedera ao antigo culto do polytheismo pagão.Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou externas: Italia era presa de estrangeiros; França lutava com Inglaterra, unida á Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christãos independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em paroxismos diante das invasões e victorias dos Turcos asiaticos, que o assaltavam de continuo.Nenhuma nação possuia então marinha militar propriamente dita e apenas exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões bellicas em terra e só em terra.Havia, porém, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separação e{5}tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas côrtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. João, Mestre de Aviz, filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater, carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas em qualquer empreza de vulto.Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para o mar suas energias e affoitezas. Não tivera ao principio marinha, e para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das armadas do Norte, que se dirigiam ás Cruzadas. Do governo de D. Diniz em diante aprendera, porém, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. Não o convidava elle com seus murmurios á lançar-se-lhe nos braços?Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, já pelos{6}talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do animo. D. Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiencia em viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leão, e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmãos que tanto se haviam ennobrecido.De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande facção, atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem daquellas regiões, como o haviam sido{7}de Portugal. Dito e feito. Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista verificada.Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios, seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no espirito,—adeantar—estender os conhecimentos cosmographicos e geographicos—descobrir terras de que já haviam fallado os antigos Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais—devassar os segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria—dilatar e propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas mercadorias e escambos.{8}Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos, Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão Cypango.{9}Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e{10}sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos de que careciam.É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico{11}proximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas.Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem{12}ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas epocas do anno.{13}Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros, pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte, mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D. Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando!{14}Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?{15}O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra, salvo mouro ou arabe, e por terra.Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se então autorizados para distribuirem reinos e corôas.Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuizos populares se{16}desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se descobrira que ella era habitavel?Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella epoca.Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do imperio{17}grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia Menor, do mar Negro e de{18}Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras{19}nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta epoca, não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de outras nações, divergem, contradizem-se, por fórma que ao certo se não alcança a realidade.Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e tratou de empregar-se logo na marinha{20}portugueza, casando-se com a filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Corôa com a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mappas importantes a respeito de navegações maritimas.Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos Açores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se passavam, engenhou logo empreza que lhe désse renome.Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua actividade, para o fim de adquiril-a.Nessa epoca era abraçada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.Copernico, já como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas.{21}Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios só, o principio da redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro todo e qualquer peso.Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na ponta sul da Africa.Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não{22}ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias, atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D. Henrique trilhavam{23}arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo.Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos.Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundissima convicção.Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam{24}alli defronte de Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana.Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza.Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já era 1486 seguiu viagem para Genova.{25}CabeçalhoSEGUNDA CONFERENCIA31 de maio de 1891Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico, seguindo rumo de Oeste.Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova. Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas;{26}e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados.Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,—de estrellas luzentes, por Rogerio Bacon,—do cahos impenetravel nas proximidades da linha segundo Albi,—de basiliscos descriptos por Averrhoes,—de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado{27}grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima.Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam{28}exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual, seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido varios fidalgos e familias{29}italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma.Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em Genova elle nascera e de lá sahira.Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente{30}que elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do patriotismo?Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35 annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada delle á Lisboa,{31}em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que{32}dobrassem o Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança: do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que{33}procuraria auxilio de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira afinal que se aceitassem seus serviços?Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos; que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que, conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos cosmographicos.Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do{34}descobrimento das Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de proveitosas conquistas ultramarinas.Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear os Arabes e Mouros de Granada.Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle momento.Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos tres reinos christãos sómente:{35}Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com os Mouros da Africa septentrional.Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro, astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava independente tanto em Castella como no Aragão.Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos. Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do sólo.{36}Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar, queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a{37}Egreja impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus, até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi constantemente dispensada.Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada, no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava, e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das recommendações{38}do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou, então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas. Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o concilio formulasse opinião á respeito.{39}Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que adquiriram e que lhes abria as portas de todos os{40}altos empregos da politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma espherica, e que, dividido{41}em terras e aguas de mares e rios, e circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria—clamavam os sabios do concilio de Salamanca.—A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados, a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio, S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta pela atmosphera ou céos. Admittida a{42}theoria de que era redonda, dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira sciencia.Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:«—A doutrina de antipodas—dizia o lumiar da Egreja—é incompativel com os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario. Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens derivam de um só pai.»Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo Lactancio, que assim se exprimia:«—Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em opposição aos nossos?{43}Pessoas que andam com os tacões para o ar e a cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas, as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns, inventam outros.»Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma, com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições, prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente na{44}egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles, Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D. Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á descobrimentos de terras, nunca se entregara{45}á estudos geographicos; combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação, na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha contava era essencialmente costeira.Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da Africa.Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra a doutrina da redondeza da terra.Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.A redondeza da terra admittida,—perguntavam elles a Colombo,—como depois de descer de um{46}lado podia-se subir voltando por esse ou pelo outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional, estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as suspendeu, protestando cansaço.No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada, atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco{47}conquistando-lhe territorios, castellos, praças e cidades, que incorporavam logo em seus Estados.Voltou Colombo para Cordova, e esperou a decisão dos monarcas. Acompanhava-os á guerra, coadjuvava-os com seu braço e com seu valor; esforçava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e não perdia occasião de patentear á rainha seus enthusiasmos religiosos e seus sentimentos catholicos, no intuito de assim affeiçoar-lhe a sympathia e ganhar-lhe a protecção.Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em presença da opinião e consulta do concilio de Salamanca, não se acceitavam seus projectos.Acabrunhado deixou a Côrte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa familia, formaram com{48}elle e Colombo a sociedade em que se discutiram os projectos e theorias do geographo.Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes proveitos, riquezas e gloria á Hespanha. Resolveram que se tentassem ainda esforços com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens eminentes, rogando-lhes a intervenção.Bem succedidas foram as endereçadas ao Duque de Medina Celi e ao arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que Isabel mandasse de novo chamar Colombo á sua Côrte.Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa Fé, cidade improvisada na Veiga de Granada, junto á capital dos Abencerrages, e destinada á combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de Colombo, porque Fernando{49}considerava sua idéa de utopia: a guerra foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu Granada em poder de Castella: assistiu Colombo á scena da entrega das chaves do Alhambra e da cidade, da expulsão e desterro para a Africa dos reis Mouros e de quantos subditos seus se não prestaram a ser baptisados christãos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo victoriosa e ufana.Nada de decisão todavia á respeito dos projectos de Colombo, e já se entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para conseguir seus designios.{50}Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha? Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo á Europa o caminho das Indias.Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle, Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de Castella, sem que o Aragão participasse.{51}Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas, prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha significava então fidalguia da primeira plana.Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas{52}convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem. Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas, zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos designios, que lhe assoberbavam o animo.Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e despovoado, porque os moradores transferiram-se{53}para o de Muguer, mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei, e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João Perez viesse{54}acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se devia temer e assustar diante da viagem projectada.Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior, que Colombo denominouSanta Maria, de pouco mais de 100 toneladas de carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra, de 80 toneladas, chamada aPinta, custou rateio aos moradores, lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor, que{55}recebeu o titulo deNina. Estas duas ultimas não tinham convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os mareantes.Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos rigorosos nos recalcitrantes.A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos{56}navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se naSanta Maria, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação. Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.{57}CabeçalhoTERCEIRA CONFERENCIA14 de junho de 1891Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.{58}Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo{59}presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:—In Nomine Domini Nostri Jesus Christi—Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.—de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.—afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana—parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.—Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como{60}Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.Ao correr o terceiro dia de viagem o leme daPintadesconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos{61}açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do{62}seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!Adiante caminhava sempre aPintapor mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os{63}opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em seu jornal haver conjecturado.{64}Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia delles logo depois se mostravam.O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a das costas de Africa.De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel repasto.{65}Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas, que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta, mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o. Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio das aguas!Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa daPintapara as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria{66}um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico deGloria in excelsis, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano, pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do castello da prôa,{67}meditabundo e abatido, como que desanimado, sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da profunda convicção, que unica o alimentava.Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas{68}paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo daPintaestrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares{69}desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais,{70}estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.
DEDICATORIAAoINSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROofferece a propriedade das conferencias effectuadas ácerca deChristovam Colombo e do Descobrimento da America,como homenagem de consideração, e testemunha de apreço, que lhe tributa seu socio honorario.J. M. Pereira da Silva.{VI}{VII}O INSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROresolveu em sessão publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende celebrar no dia 12 de outubro de 1892.{VIII}{IX}CabeçalhoADVERTENCIAAo approximar-se o 4º centenario do descobrimento da America por Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser celebrado em Madrid, Chicago e Genova, tão fausto e glorioso acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instrucção, fundada no Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as conferencias{X}populares á que anteriormente havia presidido, e encarregando ao Sr. Conselheiro João Manuel Pereira da Silva a missão de tratar d'aquelle assumpto.Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto interessava á historia do descobrimento da America e á biographia de Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia. O decano da imprensa brazileira, oJornal do Commerciodo Rio de Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou integralmente em suas interessantes columnas.Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.Não as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos: entendeu que si valor haviam tido, não o deviam perder, modificadas que fossem na fórma ou na essencia. Convinha mais que corressem{XI}como foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados os incidentes da occasião, que só interessavam ao orador e ao auditorio.O estylo e a linguagem do orador devem a fórma ao improviso da palavra e das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorrecções e lapsos, porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias, quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto á uma acurada meditação.Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciará com justiça.{XII}{1}CabeçalhoCHRISTOVAM COLOMBOEO DESCOBRIMENTO DA AMERICAPRIMEIRA CONFERENCIA17 de maio de 1891Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta á meu espirito uma idéa triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e durante{2}muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias, animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas palavras, áquelles pedindo a perseverança no trabalho, a estes aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D. Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo ainda bater-lhe o coração de saudades por ella, e faz votos ardentes pela sua felicidade e futuro.Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de respeitosa saudação, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa conferencia de hoje, appellando, como em outras occasiões, para a vossa benevolencia.Sorriu-me esta idéa com a leitura dos annuncios publicados em periodicos de varias nações. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos Americanos, porque nos não recordaremos de epoca tão memoravel!{3}Para que se comprehenda, porém, a historia do descobrimento da America, necessario nos é começar pelo estudo da situação social, politica, economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.Sahia da edade média, penetrava na da renascença, e passava por extraordinarias evoluções. Cahia a feudalidade, isto é, o dominio despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que, independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que começavam a governar nações maiores e mais unidas: apparecia já tambem á tona d'agua, reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então existira esmagada e submettida.Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instrucção que estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes{4}da egreja christã que succedera ao antigo culto do polytheismo pagão.Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou externas: Italia era presa de estrangeiros; França lutava com Inglaterra, unida á Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christãos independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em paroxismos diante das invasões e victorias dos Turcos asiaticos, que o assaltavam de continuo.Nenhuma nação possuia então marinha militar propriamente dita e apenas exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões bellicas em terra e só em terra.Havia, porém, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separação e{5}tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas côrtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. João, Mestre de Aviz, filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater, carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas em qualquer empreza de vulto.Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para o mar suas energias e affoitezas. Não tivera ao principio marinha, e para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das armadas do Norte, que se dirigiam ás Cruzadas. Do governo de D. Diniz em diante aprendera, porém, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. Não o convidava elle com seus murmurios á lançar-se-lhe nos braços?Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, já pelos{6}talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do animo. D. Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiencia em viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leão, e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmãos que tanto se haviam ennobrecido.De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande facção, atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem daquellas regiões, como o haviam sido{7}de Portugal. Dito e feito. Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista verificada.Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios, seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no espirito,—adeantar—estender os conhecimentos cosmographicos e geographicos—descobrir terras de que já haviam fallado os antigos Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais—devassar os segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria—dilatar e propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas mercadorias e escambos.{8}Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos, Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão Cypango.{9}Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e{10}sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos de que careciam.É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico{11}proximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas.Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem{12}ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas epocas do anno.{13}Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros, pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte, mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D. Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando!{14}Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?{15}O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra, salvo mouro ou arabe, e por terra.Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se então autorizados para distribuirem reinos e corôas.Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuizos populares se{16}desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se descobrira que ella era habitavel?Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella epoca.Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do imperio{17}grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia Menor, do mar Negro e de{18}Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras{19}nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta epoca, não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de outras nações, divergem, contradizem-se, por fórma que ao certo se não alcança a realidade.Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e tratou de empregar-se logo na marinha{20}portugueza, casando-se com a filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Corôa com a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mappas importantes a respeito de navegações maritimas.Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos Açores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se passavam, engenhou logo empreza que lhe désse renome.Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua actividade, para o fim de adquiril-a.Nessa epoca era abraçada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.Copernico, já como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas.{21}Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios só, o principio da redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro todo e qualquer peso.Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na ponta sul da Africa.Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não{22}ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias, atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D. Henrique trilhavam{23}arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo.Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos.Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundissima convicção.Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam{24}alli defronte de Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana.Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza.Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já era 1486 seguiu viagem para Genova.{25}CabeçalhoSEGUNDA CONFERENCIA31 de maio de 1891Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico, seguindo rumo de Oeste.Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova. Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas;{26}e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados.Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,—de estrellas luzentes, por Rogerio Bacon,—do cahos impenetravel nas proximidades da linha segundo Albi,—de basiliscos descriptos por Averrhoes,—de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado{27}grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima.Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam{28}exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual, seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido varios fidalgos e familias{29}italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma.Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em Genova elle nascera e de lá sahira.Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente{30}que elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do patriotismo?Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35 annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada delle á Lisboa,{31}em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que{32}dobrassem o Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança: do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que{33}procuraria auxilio de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira afinal que se aceitassem seus serviços?Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos; que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que, conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos cosmographicos.Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do{34}descobrimento das Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de proveitosas conquistas ultramarinas.Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear os Arabes e Mouros de Granada.Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle momento.Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos tres reinos christãos sómente:{35}Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com os Mouros da Africa septentrional.Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro, astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava independente tanto em Castella como no Aragão.Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos. Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do sólo.{36}Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar, queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a{37}Egreja impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus, até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi constantemente dispensada.Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada, no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava, e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das recommendações{38}do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou, então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas. Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o concilio formulasse opinião á respeito.{39}Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que adquiriram e que lhes abria as portas de todos os{40}altos empregos da politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma espherica, e que, dividido{41}em terras e aguas de mares e rios, e circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria—clamavam os sabios do concilio de Salamanca.—A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados, a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio, S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta pela atmosphera ou céos. Admittida a{42}theoria de que era redonda, dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira sciencia.Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:«—A doutrina de antipodas—dizia o lumiar da Egreja—é incompativel com os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario. Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens derivam de um só pai.»Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo Lactancio, que assim se exprimia:«—Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em opposição aos nossos?{43}Pessoas que andam com os tacões para o ar e a cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas, as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns, inventam outros.»Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma, com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições, prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente na{44}egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles, Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D. Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á descobrimentos de terras, nunca se entregara{45}á estudos geographicos; combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação, na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha contava era essencialmente costeira.Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da Africa.Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra a doutrina da redondeza da terra.Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.A redondeza da terra admittida,—perguntavam elles a Colombo,—como depois de descer de um{46}lado podia-se subir voltando por esse ou pelo outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional, estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as suspendeu, protestando cansaço.No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada, atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco{47}conquistando-lhe territorios, castellos, praças e cidades, que incorporavam logo em seus Estados.Voltou Colombo para Cordova, e esperou a decisão dos monarcas. Acompanhava-os á guerra, coadjuvava-os com seu braço e com seu valor; esforçava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e não perdia occasião de patentear á rainha seus enthusiasmos religiosos e seus sentimentos catholicos, no intuito de assim affeiçoar-lhe a sympathia e ganhar-lhe a protecção.Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em presença da opinião e consulta do concilio de Salamanca, não se acceitavam seus projectos.Acabrunhado deixou a Côrte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa familia, formaram com{48}elle e Colombo a sociedade em que se discutiram os projectos e theorias do geographo.Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes proveitos, riquezas e gloria á Hespanha. Resolveram que se tentassem ainda esforços com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens eminentes, rogando-lhes a intervenção.Bem succedidas foram as endereçadas ao Duque de Medina Celi e ao arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que Isabel mandasse de novo chamar Colombo á sua Côrte.Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa Fé, cidade improvisada na Veiga de Granada, junto á capital dos Abencerrages, e destinada á combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de Colombo, porque Fernando{49}considerava sua idéa de utopia: a guerra foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu Granada em poder de Castella: assistiu Colombo á scena da entrega das chaves do Alhambra e da cidade, da expulsão e desterro para a Africa dos reis Mouros e de quantos subditos seus se não prestaram a ser baptisados christãos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo victoriosa e ufana.Nada de decisão todavia á respeito dos projectos de Colombo, e já se entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para conseguir seus designios.{50}Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha? Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo á Europa o caminho das Indias.Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle, Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de Castella, sem que o Aragão participasse.{51}Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas, prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha significava então fidalguia da primeira plana.Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas{52}convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem. Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas, zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos designios, que lhe assoberbavam o animo.Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e despovoado, porque os moradores transferiram-se{53}para o de Muguer, mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei, e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João Perez viesse{54}acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se devia temer e assustar diante da viagem projectada.Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior, que Colombo denominouSanta Maria, de pouco mais de 100 toneladas de carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra, de 80 toneladas, chamada aPinta, custou rateio aos moradores, lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor, que{55}recebeu o titulo deNina. Estas duas ultimas não tinham convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os mareantes.Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos rigorosos nos recalcitrantes.A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos{56}navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se naSanta Maria, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação. Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.{57}CabeçalhoTERCEIRA CONFERENCIA14 de junho de 1891Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.{58}Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo{59}presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:—In Nomine Domini Nostri Jesus Christi—Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.—de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.—afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana—parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.—Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como{60}Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.Ao correr o terceiro dia de viagem o leme daPintadesconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos{61}açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do{62}seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!Adiante caminhava sempre aPintapor mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os{63}opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em seu jornal haver conjecturado.{64}Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia delles logo depois se mostravam.O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a das costas de Africa.De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel repasto.{65}Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas, que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta, mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o. Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio das aguas!Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa daPintapara as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria{66}um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico deGloria in excelsis, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano, pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do castello da prôa,{67}meditabundo e abatido, como que desanimado, sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da profunda convicção, que unica o alimentava.Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas{68}paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo daPintaestrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares{69}desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais,{70}estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.
DEDICATORIAAoINSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROofferece a propriedade das conferencias effectuadas ácerca deChristovam Colombo e do Descobrimento da America,como homenagem de consideração, e testemunha de apreço, que lhe tributa seu socio honorario.J. M. Pereira da Silva.{VI}{VII}O INSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROresolveu em sessão publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende celebrar no dia 12 de outubro de 1892.{VIII}{IX}CabeçalhoADVERTENCIAAo approximar-se o 4º centenario do descobrimento da America por Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser celebrado em Madrid, Chicago e Genova, tão fausto e glorioso acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instrucção, fundada no Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as conferencias{X}populares á que anteriormente havia presidido, e encarregando ao Sr. Conselheiro João Manuel Pereira da Silva a missão de tratar d'aquelle assumpto.Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto interessava á historia do descobrimento da America e á biographia de Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia. O decano da imprensa brazileira, oJornal do Commerciodo Rio de Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou integralmente em suas interessantes columnas.Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.Não as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos: entendeu que si valor haviam tido, não o deviam perder, modificadas que fossem na fórma ou na essencia. Convinha mais que corressem{XI}como foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados os incidentes da occasião, que só interessavam ao orador e ao auditorio.O estylo e a linguagem do orador devem a fórma ao improviso da palavra e das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorrecções e lapsos, porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias, quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto á uma acurada meditação.Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciará com justiça.{XII}{1}CabeçalhoCHRISTOVAM COLOMBOEO DESCOBRIMENTO DA AMERICAPRIMEIRA CONFERENCIA17 de maio de 1891Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta á meu espirito uma idéa triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e durante{2}muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias, animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas palavras, áquelles pedindo a perseverança no trabalho, a estes aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D. Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo ainda bater-lhe o coração de saudades por ella, e faz votos ardentes pela sua felicidade e futuro.Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de respeitosa saudação, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa conferencia de hoje, appellando, como em outras occasiões, para a vossa benevolencia.Sorriu-me esta idéa com a leitura dos annuncios publicados em periodicos de varias nações. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos Americanos, porque nos não recordaremos de epoca tão memoravel!{3}Para que se comprehenda, porém, a historia do descobrimento da America, necessario nos é começar pelo estudo da situação social, politica, economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.Sahia da edade média, penetrava na da renascença, e passava por extraordinarias evoluções. Cahia a feudalidade, isto é, o dominio despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que, independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que começavam a governar nações maiores e mais unidas: apparecia já tambem á tona d'agua, reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então existira esmagada e submettida.Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instrucção que estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes{4}da egreja christã que succedera ao antigo culto do polytheismo pagão.Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou externas: Italia era presa de estrangeiros; França lutava com Inglaterra, unida á Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christãos independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em paroxismos diante das invasões e victorias dos Turcos asiaticos, que o assaltavam de continuo.Nenhuma nação possuia então marinha militar propriamente dita e apenas exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões bellicas em terra e só em terra.Havia, porém, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separação e{5}tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas côrtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. João, Mestre de Aviz, filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater, carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas em qualquer empreza de vulto.Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para o mar suas energias e affoitezas. Não tivera ao principio marinha, e para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das armadas do Norte, que se dirigiam ás Cruzadas. Do governo de D. Diniz em diante aprendera, porém, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. Não o convidava elle com seus murmurios á lançar-se-lhe nos braços?Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, já pelos{6}talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do animo. D. Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiencia em viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leão, e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmãos que tanto se haviam ennobrecido.De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande facção, atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem daquellas regiões, como o haviam sido{7}de Portugal. Dito e feito. Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista verificada.Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios, seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no espirito,—adeantar—estender os conhecimentos cosmographicos e geographicos—descobrir terras de que já haviam fallado os antigos Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais—devassar os segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria—dilatar e propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas mercadorias e escambos.{8}Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos, Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão Cypango.{9}Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e{10}sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos de que careciam.É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico{11}proximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas.Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem{12}ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas epocas do anno.{13}Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros, pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte, mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D. Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando!{14}Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?{15}O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra, salvo mouro ou arabe, e por terra.Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se então autorizados para distribuirem reinos e corôas.Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuizos populares se{16}desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se descobrira que ella era habitavel?Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella epoca.Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do imperio{17}grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia Menor, do mar Negro e de{18}Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras{19}nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta epoca, não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de outras nações, divergem, contradizem-se, por fórma que ao certo se não alcança a realidade.Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e tratou de empregar-se logo na marinha{20}portugueza, casando-se com a filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Corôa com a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mappas importantes a respeito de navegações maritimas.Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos Açores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se passavam, engenhou logo empreza que lhe désse renome.Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua actividade, para o fim de adquiril-a.Nessa epoca era abraçada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.Copernico, já como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas.{21}Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios só, o principio da redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro todo e qualquer peso.Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na ponta sul da Africa.Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não{22}ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias, atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D. Henrique trilhavam{23}arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo.Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos.Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundissima convicção.Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam{24}alli defronte de Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana.Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza.Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já era 1486 seguiu viagem para Genova.{25}CabeçalhoSEGUNDA CONFERENCIA31 de maio de 1891Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico, seguindo rumo de Oeste.Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova. Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas;{26}e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados.Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,—de estrellas luzentes, por Rogerio Bacon,—do cahos impenetravel nas proximidades da linha segundo Albi,—de basiliscos descriptos por Averrhoes,—de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado{27}grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima.Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam{28}exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual, seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido varios fidalgos e familias{29}italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma.Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em Genova elle nascera e de lá sahira.Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente{30}que elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do patriotismo?Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35 annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada delle á Lisboa,{31}em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que{32}dobrassem o Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança: do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que{33}procuraria auxilio de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira afinal que se aceitassem seus serviços?Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos; que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que, conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos cosmographicos.Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do{34}descobrimento das Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de proveitosas conquistas ultramarinas.Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear os Arabes e Mouros de Granada.Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle momento.Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos tres reinos christãos sómente:{35}Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com os Mouros da Africa septentrional.Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro, astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava independente tanto em Castella como no Aragão.Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos. Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do sólo.{36}Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar, queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a{37}Egreja impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus, até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi constantemente dispensada.Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada, no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava, e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das recommendações{38}do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou, então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas. Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o concilio formulasse opinião á respeito.{39}Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que adquiriram e que lhes abria as portas de todos os{40}altos empregos da politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma espherica, e que, dividido{41}em terras e aguas de mares e rios, e circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria—clamavam os sabios do concilio de Salamanca.—A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados, a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio, S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta pela atmosphera ou céos. Admittida a{42}theoria de que era redonda, dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira sciencia.Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:«—A doutrina de antipodas—dizia o lumiar da Egreja—é incompativel com os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario. Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens derivam de um só pai.»Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo Lactancio, que assim se exprimia:«—Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em opposição aos nossos?{43}Pessoas que andam com os tacões para o ar e a cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas, as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns, inventam outros.»Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma, com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições, prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente na{44}egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles, Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D. Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á descobrimentos de terras, nunca se entregara{45}á estudos geographicos; combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação, na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha contava era essencialmente costeira.Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da Africa.Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra a doutrina da redondeza da terra.Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.A redondeza da terra admittida,—perguntavam elles a Colombo,—como depois de descer de um{46}lado podia-se subir voltando por esse ou pelo outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional, estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as suspendeu, protestando cansaço.No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada, atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco{47}conquistando-lhe territorios, castellos, praças e cidades, que incorporavam logo em seus Estados.Voltou Colombo para Cordova, e esperou a decisão dos monarcas. Acompanhava-os á guerra, coadjuvava-os com seu braço e com seu valor; esforçava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e não perdia occasião de patentear á rainha seus enthusiasmos religiosos e seus sentimentos catholicos, no intuito de assim affeiçoar-lhe a sympathia e ganhar-lhe a protecção.Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em presença da opinião e consulta do concilio de Salamanca, não se acceitavam seus projectos.Acabrunhado deixou a Côrte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa familia, formaram com{48}elle e Colombo a sociedade em que se discutiram os projectos e theorias do geographo.Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes proveitos, riquezas e gloria á Hespanha. Resolveram que se tentassem ainda esforços com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens eminentes, rogando-lhes a intervenção.Bem succedidas foram as endereçadas ao Duque de Medina Celi e ao arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que Isabel mandasse de novo chamar Colombo á sua Côrte.Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa Fé, cidade improvisada na Veiga de Granada, junto á capital dos Abencerrages, e destinada á combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de Colombo, porque Fernando{49}considerava sua idéa de utopia: a guerra foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu Granada em poder de Castella: assistiu Colombo á scena da entrega das chaves do Alhambra e da cidade, da expulsão e desterro para a Africa dos reis Mouros e de quantos subditos seus se não prestaram a ser baptisados christãos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo victoriosa e ufana.Nada de decisão todavia á respeito dos projectos de Colombo, e já se entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para conseguir seus designios.{50}Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha? Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo á Europa o caminho das Indias.Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle, Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de Castella, sem que o Aragão participasse.{51}Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas, prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha significava então fidalguia da primeira plana.Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas{52}convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem. Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas, zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos designios, que lhe assoberbavam o animo.Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e despovoado, porque os moradores transferiram-se{53}para o de Muguer, mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei, e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João Perez viesse{54}acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se devia temer e assustar diante da viagem projectada.Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior, que Colombo denominouSanta Maria, de pouco mais de 100 toneladas de carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra, de 80 toneladas, chamada aPinta, custou rateio aos moradores, lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor, que{55}recebeu o titulo deNina. Estas duas ultimas não tinham convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os mareantes.Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos rigorosos nos recalcitrantes.A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos{56}navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se naSanta Maria, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação. Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.{57}CabeçalhoTERCEIRA CONFERENCIA14 de junho de 1891Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.{58}Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo{59}presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:—In Nomine Domini Nostri Jesus Christi—Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.—de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.—afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana—parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.—Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como{60}Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.Ao correr o terceiro dia de viagem o leme daPintadesconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos{61}açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do{62}seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!Adiante caminhava sempre aPintapor mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os{63}opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em seu jornal haver conjecturado.{64}Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia delles logo depois se mostravam.O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a das costas de Africa.De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel repasto.{65}Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas, que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta, mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o. Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio das aguas!Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa daPintapara as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria{66}um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico deGloria in excelsis, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano, pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do castello da prôa,{67}meditabundo e abatido, como que desanimado, sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da profunda convicção, que unica o alimentava.Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas{68}paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo daPintaestrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares{69}desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais,{70}estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.
AoINSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROofferece a propriedade das conferencias effectuadas ácerca deChristovam Colombo e do Descobrimento da America,como homenagem de consideração, e testemunha de apreço, que lhe tributa seu socio honorario.
J. M. Pereira da Silva.
{VI}{VII}O INSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROresolveu em sessão publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende celebrar no dia 12 de outubro de 1892.{VIII}{IX}
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O INSTITUTOHISTORICO EGEOGRAPHICOBRAZILEIROresolveu em sessão publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende celebrar no dia 12 de outubro de 1892.{VIII}
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Cabeçalho
Ao approximar-se o 4º centenario do descobrimento da America por Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser celebrado em Madrid, Chicago e Genova, tão fausto e glorioso acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instrucção, fundada no Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as conferencias{X}populares á que anteriormente havia presidido, e encarregando ao Sr. Conselheiro João Manuel Pereira da Silva a missão de tratar d'aquelle assumpto.
Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto interessava á historia do descobrimento da America e á biographia de Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia. O decano da imprensa brazileira, oJornal do Commerciodo Rio de Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou integralmente em suas interessantes columnas.
Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.
Não as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos: entendeu que si valor haviam tido, não o deviam perder, modificadas que fossem na fórma ou na essencia. Convinha mais que corressem{XI}como foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados os incidentes da occasião, que só interessavam ao orador e ao auditorio.
O estylo e a linguagem do orador devem a fórma ao improviso da palavra e das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorrecções e lapsos, porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias, quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto á uma acurada meditação.
Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciará com justiça.{XII}
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Cabeçalho
Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta á meu espirito uma idéa triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e durante{2}muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias, animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas palavras, áquelles pedindo a perseverança no trabalho, a estes aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D. Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo ainda bater-lhe o coração de saudades por ella, e faz votos ardentes pela sua felicidade e futuro.
Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de respeitosa saudação, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa conferencia de hoje, appellando, como em outras occasiões, para a vossa benevolencia.
Sorriu-me esta idéa com a leitura dos annuncios publicados em periodicos de varias nações. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos Americanos, porque nos não recordaremos de epoca tão memoravel!{3}
Para que se comprehenda, porém, a historia do descobrimento da America, necessario nos é começar pelo estudo da situação social, politica, economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.
Sahia da edade média, penetrava na da renascença, e passava por extraordinarias evoluções. Cahia a feudalidade, isto é, o dominio despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que, independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que começavam a governar nações maiores e mais unidas: apparecia já tambem á tona d'agua, reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então existira esmagada e submettida.
Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instrucção que estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes{4}da egreja christã que succedera ao antigo culto do polytheismo pagão.
Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou externas: Italia era presa de estrangeiros; França lutava com Inglaterra, unida á Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christãos independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em paroxismos diante das invasões e victorias dos Turcos asiaticos, que o assaltavam de continuo.
Nenhuma nação possuia então marinha militar propriamente dita e apenas exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões bellicas em terra e só em terra.
Havia, porém, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separação e{5}tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas côrtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. João, Mestre de Aviz, filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater, carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas em qualquer empreza de vulto.
Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para o mar suas energias e affoitezas. Não tivera ao principio marinha, e para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das armadas do Norte, que se dirigiam ás Cruzadas. Do governo de D. Diniz em diante aprendera, porém, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. Não o convidava elle com seus murmurios á lançar-se-lhe nos braços?
Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, já pelos{6}talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do animo. D. Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiencia em viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leão, e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmãos que tanto se haviam ennobrecido.
De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande facção, atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem daquellas regiões, como o haviam sido{7}de Portugal. Dito e feito. Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista verificada.
Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios, seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no espirito,—adeantar—estender os conhecimentos cosmographicos e geographicos—descobrir terras de que já haviam fallado os antigos Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais—devassar os segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria—dilatar e propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas mercadorias e escambos.{8}
Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos, Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão Cypango.{9}
Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e{10}sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos de que careciam.
É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.
Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico{11}proximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?
Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas.
Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.
Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem{12}ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas epocas do anno.{13}
Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros, pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte, mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D. Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando!{14}
Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.
Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?{15}
O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra, salvo mouro ou arabe, e por terra.
Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se então autorizados para distribuirem reinos e corôas.
Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuizos populares se{16}desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se descobrira que ella era habitavel?
Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella epoca.
Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do imperio{17}grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.
A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia Menor, do mar Negro e de{18}Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.
D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.
Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras{19}nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.
Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.
Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta epoca, não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de outras nações, divergem, contradizem-se, por fórma que ao certo se não alcança a realidade.
Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e tratou de empregar-se logo na marinha{20}portugueza, casando-se com a filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Corôa com a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mappas importantes a respeito de navegações maritimas.
Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos Açores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.
Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se passavam, engenhou logo empreza que lhe désse renome.
Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua actividade, para o fim de adquiril-a.
Nessa epoca era abraçada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.
Copernico, já como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas.{21}
Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.
Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios só, o principio da redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro todo e qualquer peso.
Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.
Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na ponta sul da Africa.
Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não{22}ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?
As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.
Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias, atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.
Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D. Henrique trilhavam{23}arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo.
Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos.
Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundissima convicção.
Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.
Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam{24}alli defronte de Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?
Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana.
Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza.
Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já era 1486 seguiu viagem para Genova.{25}
Cabeçalho
Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico, seguindo rumo de Oeste.
Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova. Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas;{26}e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados.
Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,—de estrellas luzentes, por Rogerio Bacon,—do cahos impenetravel nas proximidades da linha segundo Albi,—de basiliscos descriptos por Averrhoes,—de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?
Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado{27}grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima.
Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.
Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam{28}exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.
Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual, seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido varios fidalgos e familias{29}italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma.
Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em Genova elle nascera e de lá sahira.
Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.
Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente{30}que elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.
Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do patriotismo?
Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35 annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.
Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?
O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada delle á Lisboa,{31}em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.
Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que{32}dobrassem o Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.
Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.
Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança: do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que{33}procuraria auxilio de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira afinal que se aceitassem seus serviços?
Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos; que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que, conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos cosmographicos.
Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do{34}descobrimento das Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de proveitosas conquistas ultramarinas.
Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear os Arabes e Mouros de Granada.
Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle momento.
Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos tres reinos christãos sómente:{35}Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com os Mouros da Africa septentrional.
Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro, astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava independente tanto em Castella como no Aragão.
Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos. Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do sólo.{36}
Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar, queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a{37}Egreja impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus, até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi constantemente dispensada.
Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada, no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava, e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.
Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.
O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das recommendações{38}do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou, então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.
Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas. Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o concilio formulasse opinião á respeito.{39}
Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.
Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que adquiriram e que lhes abria as portas de todos os{40}altos empregos da politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.
Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!
Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma espherica, e que, dividido{41}em terras e aguas de mares e rios, e circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.
Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria—clamavam os sabios do concilio de Salamanca.—A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados, a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio, S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta pela atmosphera ou céos. Admittida a{42}theoria de que era redonda, dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira sciencia.
Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:
«—A doutrina de antipodas—dizia o lumiar da Egreja—é incompativel com os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario. Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens derivam de um só pai.»
Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo Lactancio, que assim se exprimia:
«—Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em opposição aos nossos?{43}Pessoas que andam com os tacões para o ar e a cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas, as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns, inventam outros.»
Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma, com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições, prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente na{44}egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles, Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.
Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D. Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á descobrimentos de terras, nunca se entregara{45}á estudos geographicos; combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação, na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha contava era essencialmente costeira.
Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da Africa.
Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra a doutrina da redondeza da terra.
Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.
A redondeza da terra admittida,—perguntavam elles a Colombo,—como depois de descer de um{46}lado podia-se subir voltando por esse ou pelo outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional, estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?
A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as suspendeu, protestando cansaço.
No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada, atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco{47}conquistando-lhe territorios, castellos, praças e cidades, que incorporavam logo em seus Estados.
Voltou Colombo para Cordova, e esperou a decisão dos monarcas. Acompanhava-os á guerra, coadjuvava-os com seu braço e com seu valor; esforçava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e não perdia occasião de patentear á rainha seus enthusiasmos religiosos e seus sentimentos catholicos, no intuito de assim affeiçoar-lhe a sympathia e ganhar-lhe a protecção.
Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em presença da opinião e consulta do concilio de Salamanca, não se acceitavam seus projectos.
Acabrunhado deixou a Côrte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.
Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa familia, formaram com{48}elle e Colombo a sociedade em que se discutiram os projectos e theorias do geographo.
Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes proveitos, riquezas e gloria á Hespanha. Resolveram que se tentassem ainda esforços com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens eminentes, rogando-lhes a intervenção.
Bem succedidas foram as endereçadas ao Duque de Medina Celi e ao arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que Isabel mandasse de novo chamar Colombo á sua Côrte.
Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa Fé, cidade improvisada na Veiga de Granada, junto á capital dos Abencerrages, e destinada á combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.
A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de Colombo, porque Fernando{49}considerava sua idéa de utopia: a guerra foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu Granada em poder de Castella: assistiu Colombo á scena da entrega das chaves do Alhambra e da cidade, da expulsão e desterro para a Africa dos reis Mouros e de quantos subditos seus se não prestaram a ser baptisados christãos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo victoriosa e ufana.
Nada de decisão todavia á respeito dos projectos de Colombo, e já se entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.
Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para conseguir seus designios.{50}
Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha? Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo á Europa o caminho das Indias.
Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.
É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle, Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de Castella, sem que o Aragão participasse.{51}
Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas, prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha significava então fidalguia da primeira plana.
Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas{52}convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem. Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.
Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas, zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos designios, que lhe assoberbavam o animo.
Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e despovoado, porque os moradores transferiram-se{53}para o de Muguer, mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.
Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.
Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei, e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João Perez viesse{54}acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se devia temer e assustar diante da viagem projectada.
Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior, que Colombo denominouSanta Maria, de pouco mais de 100 toneladas de carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra, de 80 toneladas, chamada aPinta, custou rateio aos moradores, lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor, que{55}recebeu o titulo deNina. Estas duas ultimas não tinham convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os mareantes.
Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.
Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos rigorosos nos recalcitrantes.
A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos{56}navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.
Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se naSanta Maria, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação. Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.{57}
Cabeçalho
Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.{58}
Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?
Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?
Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo{59}presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:
—In Nomine Domini Nostri Jesus Christi—Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.—de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.—afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana—parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.—
Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como{60}Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.
Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.
Ao correr o terceiro dia de viagem o leme daPintadesconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos{61}açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.
Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.
Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do{62}seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.
Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!
Adiante caminhava sempre aPintapor mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os{63}opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!
Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!
E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em seu jornal haver conjecturado.{64}
Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.
Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia delles logo depois se mostravam.
O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a das costas de Africa.
De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel repasto.{65}
Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas, que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta, mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o. Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio das aguas!
Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa daPintapara as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria{66}um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico deGloria in excelsis, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!
Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano, pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!
Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do castello da prôa,{67}meditabundo e abatido, como que desanimado, sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da profunda convicção, que unica o alimentava.
Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?
Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas{68}paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.
Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo daPintaestrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?
A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!
Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares{69}desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.
Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?
Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais,{70}estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.