QUINTA CONFERENCIA

QUINTA CONFERENCIA12 de julho de 1891Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o de 1500.Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras inteiramente desconhecidas.Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira, durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios. Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido dissipar os terrores da zona{138}torrida, corrido a costa d'Africa para o sul, dobrado—primeiro povo—a linha equinocial, e attingido e reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas, dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de posse na costa{139}Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados modernos, á seguir-lhes o exemplo.A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios, antes com vantagens para o thesouro.Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon, munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente de marinheiros{140}intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça. Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de Santo Agostinho.{141}Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte, porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul. Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas, entranhando-se nas do oceano,{142}e repellindo-as com força, subiam e desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas, quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste, não cessavam, por seu{143}lado, os portuguezes de continuar em descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto. As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho, o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique, Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real, em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral, commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo e ao O.{144}para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança, descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude. Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão, considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no futuro para ahi se dirigissem.Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as{145}denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de indios.Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os Aztecas do Mexico!Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta{146}tambem arrojado navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas? Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas, não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus. Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores do{147}movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes, Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que lhes{148}compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se, apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de justiça, porém; por opposição á violencias, á{149}arbitrios e despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados, pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis occurrencias.Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente, e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle, porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que{150}haviam os reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S. Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter altivo e o espirito heroico de Colombo.Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra, antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha da{151}architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés; levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do seu affecto.Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em seus dominios das Indias Occidentaes.Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam ser ilhas proximas os logares até então{152}reconhecidos. Prometteu Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro, continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento, lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a{153}intervenção protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas cada uma, tripoladas por 150 homens.Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha; prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.{154}Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava, inspirava e electrisava?Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a 70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de Martinica, ou, como{155}pensam alguns chronistas, na proxima de Santa Lucia.Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem de receber viveres.—Acredital-o-heis?—Prohibiu-lhe Ovando que se approximasse de S. Domingos!—Era assim expellido brutalmente das terras de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e almirante!—Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse, pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de seus{156}pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica foi-lhe denegada a licença!Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes secundarios, que agora dominavam!Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a tormenta que approximava.Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S. Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla exhalou a vida{157}no seio das vagas em que foram as embarcações submergidas.Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a localidade mais apropriada para a fundação{158}de uma colonia européa, e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia, posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais perigosos parceis.{159}Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que servisse á projectos futuros.Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio. Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo, porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto do interior{160}precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se afundavam á olhos vistos.{161}Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria{162}navio, em que podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á S. Domingos.É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á parte,{163}mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade! Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas, que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados! Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o solo, procurando minas de ouro.{164}Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas, obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular, arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a robustez dos corpos.Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só{165}com a extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores, e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas! Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças, foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila, fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia, e sem que os gentios{166}oppuzessem a menor resistencia quando surprehendidos em sua aldêa!Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém, quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma raça de homens innocentes e pacificos!Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504, cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia, de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando{167}de Aragão, que, além do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a Valhadolid.Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795, cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam, transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde então repousam.Minhas senhoras e senhores.Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos esforços.Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e de Colombo, e em{168}todas as linguas européas. Bibliothecas importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos, factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se, desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se levantaram contra sua reputação depois de sua morte.Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia e insoffrida temeridade.Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America, asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.{169}Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto, porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se noticias{170}escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?—Não, nada delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando ellas fossem reaes, não eram conhecidas.O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram, porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de descobridor? Quantas{171}vezes se apropria o genio inventor de trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo mundo. Antes delle tudo se ignorava.Que importa que procurasse a Asia, e tomasse a America pela Asia? Não era a America inteiramente ignorada? Quem adivinhava então que entre a Europa e a Asia existia um continente tão importante e dilatado?Que importa ainda que, encontrados na America povos tão distinctos, e alguns tão adeantados em civilisação como os do Mexico e os do Perú, se possa dizer que tinham havido communicações entre elles e os de outras partes do mundo? Com a Asia porventura? De lá teriam vindo, é presumivel, pelo Norte, aonde quasi se ligam Asia e America. Não só os monumentos como os traços physionomicos dos Mexicanos, Peruanos e outras tribus{172}coincidem. Como, porém, se deram essas migrações de povos, quando se realizaram, eis questões sujeitas ainda á conjecturas mais ou menos naturaes, não á juizo exacto e certo.Da Europa, porém, antes de Colombo, jámais fôra aberta navegação: não se conhecia, nem se adivinhava a existencia da America. Quando muito o saberiam os asiaticos, e estes não o communicaram nem aos gregos, nem aos phenicios, nem aos romanos, nem aos egypcios. Seriam os chins, ou os japonezes, que occupavam terras oppostas e que nem uma relação ou contacto travavam com os asiaticos do Oeste, persas, judeus ou arabes?Si ninguem sabia que havia America, em que desmerece seu descobridor por encontral-a em caminho para a Asia? Não ia elle no proposito firme de procurar terras ignotas para os europeus?Não resultou do seu achado—appellidae assim o feito—que importa!—não resultou gloria para o seu nome, e o que é mais, a maior vantagem moral, social, politica, physica, intellectual para a Europa e para o mundo!{173}Na historia universal não raia pagina mais proficua e nem mais gloriosa.Os passos de Colombo e dos hespanhoes seguiram depois na America portuguezes, inglezes, francezes e holandezes. Devassando egualmente os mares atlanticos, tomaram todos parte no continente descoberto: todos colheram louros, todos conquistaram terras, que povoaram com suas raças, mas não lhes cabe a gloria que compete exclusivamente ao primeiro descobridor e á nação que lhe servia.E quanto não ganhou a Europa, fundando cidades e Estados na America, creando futuras nações independentes e civilisadas que guardam suas tradições e suas linguas? Que como filhos a estimam bem que vivam vida propria e livre?Tentou-se ainda diminuir a gloria de Colombo com o facto de que elle morrera persuadido de que descobrira as Indias Occidentaes e não a America, isto é, um mundo novo.Não morreu egualmente na mesma convicção Americo Vespucio, o piloto que, pela primeira vez,{174}em 1499, e depois empregado em armadas portuguezas, percorreu as costas da America central e as do Brazil, e falleceu em 1512? O desenhador habilissimo de cartas geographicas, o feliz mortal emfim, cujo nome coroou o novo mundo?Como Colombo e quantos navegadores visitaram as terras americanas até quasi 1520, a Europa inteira persuadia-se que a Asia para alli estendia e prolongava suas costas maritimas do occidente, e não havia um continente entre a Asia e a Europa.Toda a Europa denominava até 1520 a parte da America descoberta de Indias Occidentaes e pois seus indigenas de Indios. O proprio continente brazilico passou por muito tempo depois de seu achado quer por Pinzon quer por Cabral, depois de explorações já effectuadas pelos portuguezes, hespanhoes e francezes como uma enorme ilha assim descripta e pintada nos mappas que se publicavam na Europa.Para saber-se que era um mundo novo, mesmo depois que já hespanhoes, portuguezes, inglezes, francezes e hollandezes, para alli navegavam, alli{175}traficavam e alli formavam presidios e colonias, foi preciso que um audaz aventureiro hespanhol, Vasco Nunez de Balboa, subindo, em 1513, ás altas montanhas do isthmo de Panamá, daquelles cimos levantados descobrisse o Oceano tranquillo ao Oeste, e das terras d'além e dos proprios mares tomasse posse em nome de Hespanha. Foi preciso que em 1519 o cavalheiro Cortez tivesse domado o imperio do Mexico; que em 1520 Magalhães,—portuguez no feito, mas não na lealdade—buscando egualmente as Indias emprehendesse e praticasse, seguindo o isthmo, que ainda hoje conserva seu nome, a primeira viagem em derredor do globo; que finalmente o arrojado e sanguinario Pizarro encontrasse em 1527 o imperio dos Incas na costa do Oceano Pacifico.Só de então por deante é que se alteraram os mappas geographicos, destacando-se da Asia o mundo novo, e particularisando-se como continente proprio. E o primeiromappa-mundique se desenhou assim, com a separação da Asia e America, data de 1530; foi publicado em Baulez, e{176}attribue-se á Pomponio Mela, que applicou ao novo mundo o titulo de America, deixando de denominal-o como até alli de Indias Occidentaes por que era geralmente conhecido. Appellidou-o de America, sem duvida, porque as melhores cartas geographicas da época tinham a assignatura de Americo.Nem a Americo se deve attribuir a responsabilidade de tão negra injustiça; chamava-a elle de Indias Occidentaes, como todos os seus contemporaneos, e assim rubricava as cartas que espalhava com sua assignatura.Esta assignatura de Americo, nas cartas geographicas, causa foi de se lhe dar seu nome, e não outro ao continente descoberto por Colombo.Segundo a opinião de alguns geographos, foi um Martinho Waldizemuler que em um tratado de cosmographia publicado em Saint Dié, annos antes, lembrara a conveniencia de chamar-se de America as Indias Occidentaes, porque os melhores mappas e roteiros haviam sido por elle desenhados e impressos.{177}Confirmaram o titulo as edições, que desde então se repetiram, daquellemappa-mundide 1530, e que se derramaram profusamente, firmado o erro, que o tempo consagrou, e que nunca mais se conseguiu corrigir, apezar de haverem empregado bastantes esforços muitos afamados e eruditos sabios da Europa.Não obsta ainda que antes que Colombo visse a terra firme e nella pisasse, o houvesse effectuado o audaz Caboto, em 1497.Não eram partes da America as ilhas de Haity, Cuba, S. Salvador, Porto Rico, Jamaica, Guadelupe, de que já Colombo se apossara, e onde fundara fortes e até povoações hespanholas? Podemos pela fórma seguinte estabelecer as datas dos descobrimentos da America: em 1492 Colombo; em 1497 Caboto; em 1499 Ojeda; em 1500 Pinzon, e logo após no mesmo anno Cabral e Corte-Real. Cabe a gloria de preferencia a Colombo, cabe-lhe exclusivamente a gloria do descobrimento da America. Seu nome ligou-se para sempre ao novo mundo, e nenhuma pretensão, por{178}mais ousada, conseguirá roubar-lhe os louros, que lhe foram dispensados com toda a justiça. Todos os mais navegadores seguiram apenas seus passos, bem que se distinguissem com façanhas dignas de memoria.—Minhas senhoras e senhores!Tenho concluido a missão que me foi confiada de conversar comvosco a respeito de Colombo e do descobrimento da America, no momento em que grandes festas se preparam em Hespanha, Chicago e Genova no intuito de commemorar-se o quarto centenario do dia glorioso—12 de outubro de 1492, em que o novo continente raiou para Europa e lhe revelou sua opulencia e suas grandezas. Não tratei de narrar episodios, que a legenda ajuntou á historia, pensando ornal-a, quando a escurecia e falsificava. Mais de cem livros, mais de quarenta escriptores examinei e estudei para poder extrahir de suas narrativas o que só fosse exacto, e se houvesse realizado. Joeirei, comparei, contrastei os ditos e asseverações de todos, desprezei os que se não comprovam,{179}e expuz-vos com franqueza e lealdade o que se póde e se deve appellidar verdade historica.Faltavam-me qualidades, sei-o bem, para satisfazer plenamente vossa curiosidade, attrahir vossa attenção, captar vossa benevolencia; todavia a concurrencia numerosa e ininterrupta, que teem provocado estas conferencias, os applausos que immerecidamente me haveis prodigalisado, provam-me que, dados os devidos descontos ás habilitações do orador, tendes apreciado suas intenções, e portanto grangeado, para todo sempre, seu profundo reconhecimento.{180}

QUINTA CONFERENCIA12 de julho de 1891Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o de 1500.Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras inteiramente desconhecidas.Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira, durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios. Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido dissipar os terrores da zona{138}torrida, corrido a costa d'Africa para o sul, dobrado—primeiro povo—a linha equinocial, e attingido e reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas, dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de posse na costa{139}Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados modernos, á seguir-lhes o exemplo.A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios, antes com vantagens para o thesouro.Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon, munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente de marinheiros{140}intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça. Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de Santo Agostinho.{141}Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte, porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul. Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas, entranhando-se nas do oceano,{142}e repellindo-as com força, subiam e desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas, quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste, não cessavam, por seu{143}lado, os portuguezes de continuar em descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto. As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho, o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique, Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real, em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral, commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo e ao O.{144}para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança, descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude. Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão, considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no futuro para ahi se dirigissem.Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as{145}denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de indios.Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os Aztecas do Mexico!Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta{146}tambem arrojado navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas? Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas, não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus. Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores do{147}movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes, Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que lhes{148}compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se, apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de justiça, porém; por opposição á violencias, á{149}arbitrios e despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados, pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis occurrencias.Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente, e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle, porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que{150}haviam os reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S. Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter altivo e o espirito heroico de Colombo.Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra, antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha da{151}architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés; levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do seu affecto.Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em seus dominios das Indias Occidentaes.Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam ser ilhas proximas os logares até então{152}reconhecidos. Prometteu Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro, continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento, lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a{153}intervenção protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas cada uma, tripoladas por 150 homens.Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha; prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.{154}Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava, inspirava e electrisava?Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a 70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de Martinica, ou, como{155}pensam alguns chronistas, na proxima de Santa Lucia.Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem de receber viveres.—Acredital-o-heis?—Prohibiu-lhe Ovando que se approximasse de S. Domingos!—Era assim expellido brutalmente das terras de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e almirante!—Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse, pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de seus{156}pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica foi-lhe denegada a licença!Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes secundarios, que agora dominavam!Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a tormenta que approximava.Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S. Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla exhalou a vida{157}no seio das vagas em que foram as embarcações submergidas.Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a localidade mais apropriada para a fundação{158}de uma colonia européa, e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia, posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais perigosos parceis.{159}Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que servisse á projectos futuros.Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio. Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo, porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto do interior{160}precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se afundavam á olhos vistos.{161}Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria{162}navio, em que podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á S. Domingos.É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á parte,{163}mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade! Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas, que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados! Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o solo, procurando minas de ouro.{164}Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas, obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular, arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a robustez dos corpos.Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só{165}com a extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores, e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas! Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças, foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila, fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia, e sem que os gentios{166}oppuzessem a menor resistencia quando surprehendidos em sua aldêa!Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém, quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma raça de homens innocentes e pacificos!Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504, cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia, de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando{167}de Aragão, que, além do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a Valhadolid.Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795, cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam, transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde então repousam.Minhas senhoras e senhores.Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos esforços.Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e de Colombo, e em{168}todas as linguas européas. Bibliothecas importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos, factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se, desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se levantaram contra sua reputação depois de sua morte.Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia e insoffrida temeridade.Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America, asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.{169}Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto, porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se noticias{170}escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?—Não, nada delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando ellas fossem reaes, não eram conhecidas.O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram, porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de descobridor? Quantas{171}vezes se apropria o genio inventor de trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo mundo. Antes delle tudo se ignorava.Que importa que procurasse a Asia, e tomasse a America pela Asia? Não era a America inteiramente ignorada? Quem adivinhava então que entre a Europa e a Asia existia um continente tão importante e dilatado?Que importa ainda que, encontrados na America povos tão distinctos, e alguns tão adeantados em civilisação como os do Mexico e os do Perú, se possa dizer que tinham havido communicações entre elles e os de outras partes do mundo? Com a Asia porventura? De lá teriam vindo, é presumivel, pelo Norte, aonde quasi se ligam Asia e America. Não só os monumentos como os traços physionomicos dos Mexicanos, Peruanos e outras tribus{172}coincidem. Como, porém, se deram essas migrações de povos, quando se realizaram, eis questões sujeitas ainda á conjecturas mais ou menos naturaes, não á juizo exacto e certo.Da Europa, porém, antes de Colombo, jámais fôra aberta navegação: não se conhecia, nem se adivinhava a existencia da America. Quando muito o saberiam os asiaticos, e estes não o communicaram nem aos gregos, nem aos phenicios, nem aos romanos, nem aos egypcios. Seriam os chins, ou os japonezes, que occupavam terras oppostas e que nem uma relação ou contacto travavam com os asiaticos do Oeste, persas, judeus ou arabes?Si ninguem sabia que havia America, em que desmerece seu descobridor por encontral-a em caminho para a Asia? Não ia elle no proposito firme de procurar terras ignotas para os europeus?Não resultou do seu achado—appellidae assim o feito—que importa!—não resultou gloria para o seu nome, e o que é mais, a maior vantagem moral, social, politica, physica, intellectual para a Europa e para o mundo!{173}Na historia universal não raia pagina mais proficua e nem mais gloriosa.Os passos de Colombo e dos hespanhoes seguiram depois na America portuguezes, inglezes, francezes e holandezes. Devassando egualmente os mares atlanticos, tomaram todos parte no continente descoberto: todos colheram louros, todos conquistaram terras, que povoaram com suas raças, mas não lhes cabe a gloria que compete exclusivamente ao primeiro descobridor e á nação que lhe servia.E quanto não ganhou a Europa, fundando cidades e Estados na America, creando futuras nações independentes e civilisadas que guardam suas tradições e suas linguas? Que como filhos a estimam bem que vivam vida propria e livre?Tentou-se ainda diminuir a gloria de Colombo com o facto de que elle morrera persuadido de que descobrira as Indias Occidentaes e não a America, isto é, um mundo novo.Não morreu egualmente na mesma convicção Americo Vespucio, o piloto que, pela primeira vez,{174}em 1499, e depois empregado em armadas portuguezas, percorreu as costas da America central e as do Brazil, e falleceu em 1512? O desenhador habilissimo de cartas geographicas, o feliz mortal emfim, cujo nome coroou o novo mundo?Como Colombo e quantos navegadores visitaram as terras americanas até quasi 1520, a Europa inteira persuadia-se que a Asia para alli estendia e prolongava suas costas maritimas do occidente, e não havia um continente entre a Asia e a Europa.Toda a Europa denominava até 1520 a parte da America descoberta de Indias Occidentaes e pois seus indigenas de Indios. O proprio continente brazilico passou por muito tempo depois de seu achado quer por Pinzon quer por Cabral, depois de explorações já effectuadas pelos portuguezes, hespanhoes e francezes como uma enorme ilha assim descripta e pintada nos mappas que se publicavam na Europa.Para saber-se que era um mundo novo, mesmo depois que já hespanhoes, portuguezes, inglezes, francezes e hollandezes, para alli navegavam, alli{175}traficavam e alli formavam presidios e colonias, foi preciso que um audaz aventureiro hespanhol, Vasco Nunez de Balboa, subindo, em 1513, ás altas montanhas do isthmo de Panamá, daquelles cimos levantados descobrisse o Oceano tranquillo ao Oeste, e das terras d'além e dos proprios mares tomasse posse em nome de Hespanha. Foi preciso que em 1519 o cavalheiro Cortez tivesse domado o imperio do Mexico; que em 1520 Magalhães,—portuguez no feito, mas não na lealdade—buscando egualmente as Indias emprehendesse e praticasse, seguindo o isthmo, que ainda hoje conserva seu nome, a primeira viagem em derredor do globo; que finalmente o arrojado e sanguinario Pizarro encontrasse em 1527 o imperio dos Incas na costa do Oceano Pacifico.Só de então por deante é que se alteraram os mappas geographicos, destacando-se da Asia o mundo novo, e particularisando-se como continente proprio. E o primeiromappa-mundique se desenhou assim, com a separação da Asia e America, data de 1530; foi publicado em Baulez, e{176}attribue-se á Pomponio Mela, que applicou ao novo mundo o titulo de America, deixando de denominal-o como até alli de Indias Occidentaes por que era geralmente conhecido. Appellidou-o de America, sem duvida, porque as melhores cartas geographicas da época tinham a assignatura de Americo.Nem a Americo se deve attribuir a responsabilidade de tão negra injustiça; chamava-a elle de Indias Occidentaes, como todos os seus contemporaneos, e assim rubricava as cartas que espalhava com sua assignatura.Esta assignatura de Americo, nas cartas geographicas, causa foi de se lhe dar seu nome, e não outro ao continente descoberto por Colombo.Segundo a opinião de alguns geographos, foi um Martinho Waldizemuler que em um tratado de cosmographia publicado em Saint Dié, annos antes, lembrara a conveniencia de chamar-se de America as Indias Occidentaes, porque os melhores mappas e roteiros haviam sido por elle desenhados e impressos.{177}Confirmaram o titulo as edições, que desde então se repetiram, daquellemappa-mundide 1530, e que se derramaram profusamente, firmado o erro, que o tempo consagrou, e que nunca mais se conseguiu corrigir, apezar de haverem empregado bastantes esforços muitos afamados e eruditos sabios da Europa.Não obsta ainda que antes que Colombo visse a terra firme e nella pisasse, o houvesse effectuado o audaz Caboto, em 1497.Não eram partes da America as ilhas de Haity, Cuba, S. Salvador, Porto Rico, Jamaica, Guadelupe, de que já Colombo se apossara, e onde fundara fortes e até povoações hespanholas? Podemos pela fórma seguinte estabelecer as datas dos descobrimentos da America: em 1492 Colombo; em 1497 Caboto; em 1499 Ojeda; em 1500 Pinzon, e logo após no mesmo anno Cabral e Corte-Real. Cabe a gloria de preferencia a Colombo, cabe-lhe exclusivamente a gloria do descobrimento da America. Seu nome ligou-se para sempre ao novo mundo, e nenhuma pretensão, por{178}mais ousada, conseguirá roubar-lhe os louros, que lhe foram dispensados com toda a justiça. Todos os mais navegadores seguiram apenas seus passos, bem que se distinguissem com façanhas dignas de memoria.—Minhas senhoras e senhores!Tenho concluido a missão que me foi confiada de conversar comvosco a respeito de Colombo e do descobrimento da America, no momento em que grandes festas se preparam em Hespanha, Chicago e Genova no intuito de commemorar-se o quarto centenario do dia glorioso—12 de outubro de 1492, em que o novo continente raiou para Europa e lhe revelou sua opulencia e suas grandezas. Não tratei de narrar episodios, que a legenda ajuntou á historia, pensando ornal-a, quando a escurecia e falsificava. Mais de cem livros, mais de quarenta escriptores examinei e estudei para poder extrahir de suas narrativas o que só fosse exacto, e se houvesse realizado. Joeirei, comparei, contrastei os ditos e asseverações de todos, desprezei os que se não comprovam,{179}e expuz-vos com franqueza e lealdade o que se póde e se deve appellidar verdade historica.Faltavam-me qualidades, sei-o bem, para satisfazer plenamente vossa curiosidade, attrahir vossa attenção, captar vossa benevolencia; todavia a concurrencia numerosa e ininterrupta, que teem provocado estas conferencias, os applausos que immerecidamente me haveis prodigalisado, provam-me que, dados os devidos descontos ás habilitações do orador, tendes apreciado suas intenções, e portanto grangeado, para todo sempre, seu profundo reconhecimento.{180}

QUINTA CONFERENCIA12 de julho de 1891Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o de 1500.Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras inteiramente desconhecidas.Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira, durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios. Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido dissipar os terrores da zona{138}torrida, corrido a costa d'Africa para o sul, dobrado—primeiro povo—a linha equinocial, e attingido e reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas, dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de posse na costa{139}Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados modernos, á seguir-lhes o exemplo.A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios, antes com vantagens para o thesouro.Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon, munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente de marinheiros{140}intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça. Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de Santo Agostinho.{141}Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte, porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul. Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas, entranhando-se nas do oceano,{142}e repellindo-as com força, subiam e desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas, quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste, não cessavam, por seu{143}lado, os portuguezes de continuar em descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto. As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho, o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique, Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real, em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral, commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo e ao O.{144}para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança, descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude. Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão, considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no futuro para ahi se dirigissem.Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as{145}denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de indios.Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os Aztecas do Mexico!Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta{146}tambem arrojado navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas? Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas, não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus. Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores do{147}movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes, Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que lhes{148}compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se, apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de justiça, porém; por opposição á violencias, á{149}arbitrios e despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados, pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis occurrencias.Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente, e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle, porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que{150}haviam os reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S. Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter altivo e o espirito heroico de Colombo.Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra, antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha da{151}architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés; levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do seu affecto.Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em seus dominios das Indias Occidentaes.Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam ser ilhas proximas os logares até então{152}reconhecidos. Prometteu Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro, continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento, lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a{153}intervenção protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas cada uma, tripoladas por 150 homens.Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha; prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.{154}Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava, inspirava e electrisava?Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a 70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de Martinica, ou, como{155}pensam alguns chronistas, na proxima de Santa Lucia.Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem de receber viveres.—Acredital-o-heis?—Prohibiu-lhe Ovando que se approximasse de S. Domingos!—Era assim expellido brutalmente das terras de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e almirante!—Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse, pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de seus{156}pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica foi-lhe denegada a licença!Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes secundarios, que agora dominavam!Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a tormenta que approximava.Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S. Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla exhalou a vida{157}no seio das vagas em que foram as embarcações submergidas.Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a localidade mais apropriada para a fundação{158}de uma colonia européa, e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia, posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais perigosos parceis.{159}Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que servisse á projectos futuros.Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio. Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo, porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto do interior{160}precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se afundavam á olhos vistos.{161}Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria{162}navio, em que podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á S. Domingos.É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á parte,{163}mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade! Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas, que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados! Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o solo, procurando minas de ouro.{164}Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas, obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular, arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a robustez dos corpos.Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só{165}com a extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores, e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas! Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças, foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila, fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia, e sem que os gentios{166}oppuzessem a menor resistencia quando surprehendidos em sua aldêa!Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém, quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma raça de homens innocentes e pacificos!Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504, cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia, de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando{167}de Aragão, que, além do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a Valhadolid.Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795, cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam, transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde então repousam.Minhas senhoras e senhores.Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos esforços.Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e de Colombo, e em{168}todas as linguas européas. Bibliothecas importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos, factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se, desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se levantaram contra sua reputação depois de sua morte.Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia e insoffrida temeridade.Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America, asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.{169}Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto, porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se noticias{170}escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?—Não, nada delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando ellas fossem reaes, não eram conhecidas.O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram, porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de descobridor? Quantas{171}vezes se apropria o genio inventor de trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo mundo. Antes delle tudo se ignorava.Que importa que procurasse a Asia, e tomasse a America pela Asia? Não era a America inteiramente ignorada? Quem adivinhava então que entre a Europa e a Asia existia um continente tão importante e dilatado?Que importa ainda que, encontrados na America povos tão distinctos, e alguns tão adeantados em civilisação como os do Mexico e os do Perú, se possa dizer que tinham havido communicações entre elles e os de outras partes do mundo? Com a Asia porventura? De lá teriam vindo, é presumivel, pelo Norte, aonde quasi se ligam Asia e America. Não só os monumentos como os traços physionomicos dos Mexicanos, Peruanos e outras tribus{172}coincidem. Como, porém, se deram essas migrações de povos, quando se realizaram, eis questões sujeitas ainda á conjecturas mais ou menos naturaes, não á juizo exacto e certo.Da Europa, porém, antes de Colombo, jámais fôra aberta navegação: não se conhecia, nem se adivinhava a existencia da America. Quando muito o saberiam os asiaticos, e estes não o communicaram nem aos gregos, nem aos phenicios, nem aos romanos, nem aos egypcios. Seriam os chins, ou os japonezes, que occupavam terras oppostas e que nem uma relação ou contacto travavam com os asiaticos do Oeste, persas, judeus ou arabes?Si ninguem sabia que havia America, em que desmerece seu descobridor por encontral-a em caminho para a Asia? Não ia elle no proposito firme de procurar terras ignotas para os europeus?Não resultou do seu achado—appellidae assim o feito—que importa!—não resultou gloria para o seu nome, e o que é mais, a maior vantagem moral, social, politica, physica, intellectual para a Europa e para o mundo!{173}Na historia universal não raia pagina mais proficua e nem mais gloriosa.Os passos de Colombo e dos hespanhoes seguiram depois na America portuguezes, inglezes, francezes e holandezes. Devassando egualmente os mares atlanticos, tomaram todos parte no continente descoberto: todos colheram louros, todos conquistaram terras, que povoaram com suas raças, mas não lhes cabe a gloria que compete exclusivamente ao primeiro descobridor e á nação que lhe servia.E quanto não ganhou a Europa, fundando cidades e Estados na America, creando futuras nações independentes e civilisadas que guardam suas tradições e suas linguas? Que como filhos a estimam bem que vivam vida propria e livre?Tentou-se ainda diminuir a gloria de Colombo com o facto de que elle morrera persuadido de que descobrira as Indias Occidentaes e não a America, isto é, um mundo novo.Não morreu egualmente na mesma convicção Americo Vespucio, o piloto que, pela primeira vez,{174}em 1499, e depois empregado em armadas portuguezas, percorreu as costas da America central e as do Brazil, e falleceu em 1512? O desenhador habilissimo de cartas geographicas, o feliz mortal emfim, cujo nome coroou o novo mundo?Como Colombo e quantos navegadores visitaram as terras americanas até quasi 1520, a Europa inteira persuadia-se que a Asia para alli estendia e prolongava suas costas maritimas do occidente, e não havia um continente entre a Asia e a Europa.Toda a Europa denominava até 1520 a parte da America descoberta de Indias Occidentaes e pois seus indigenas de Indios. O proprio continente brazilico passou por muito tempo depois de seu achado quer por Pinzon quer por Cabral, depois de explorações já effectuadas pelos portuguezes, hespanhoes e francezes como uma enorme ilha assim descripta e pintada nos mappas que se publicavam na Europa.Para saber-se que era um mundo novo, mesmo depois que já hespanhoes, portuguezes, inglezes, francezes e hollandezes, para alli navegavam, alli{175}traficavam e alli formavam presidios e colonias, foi preciso que um audaz aventureiro hespanhol, Vasco Nunez de Balboa, subindo, em 1513, ás altas montanhas do isthmo de Panamá, daquelles cimos levantados descobrisse o Oceano tranquillo ao Oeste, e das terras d'além e dos proprios mares tomasse posse em nome de Hespanha. Foi preciso que em 1519 o cavalheiro Cortez tivesse domado o imperio do Mexico; que em 1520 Magalhães,—portuguez no feito, mas não na lealdade—buscando egualmente as Indias emprehendesse e praticasse, seguindo o isthmo, que ainda hoje conserva seu nome, a primeira viagem em derredor do globo; que finalmente o arrojado e sanguinario Pizarro encontrasse em 1527 o imperio dos Incas na costa do Oceano Pacifico.Só de então por deante é que se alteraram os mappas geographicos, destacando-se da Asia o mundo novo, e particularisando-se como continente proprio. E o primeiromappa-mundique se desenhou assim, com a separação da Asia e America, data de 1530; foi publicado em Baulez, e{176}attribue-se á Pomponio Mela, que applicou ao novo mundo o titulo de America, deixando de denominal-o como até alli de Indias Occidentaes por que era geralmente conhecido. Appellidou-o de America, sem duvida, porque as melhores cartas geographicas da época tinham a assignatura de Americo.Nem a Americo se deve attribuir a responsabilidade de tão negra injustiça; chamava-a elle de Indias Occidentaes, como todos os seus contemporaneos, e assim rubricava as cartas que espalhava com sua assignatura.Esta assignatura de Americo, nas cartas geographicas, causa foi de se lhe dar seu nome, e não outro ao continente descoberto por Colombo.Segundo a opinião de alguns geographos, foi um Martinho Waldizemuler que em um tratado de cosmographia publicado em Saint Dié, annos antes, lembrara a conveniencia de chamar-se de America as Indias Occidentaes, porque os melhores mappas e roteiros haviam sido por elle desenhados e impressos.{177}Confirmaram o titulo as edições, que desde então se repetiram, daquellemappa-mundide 1530, e que se derramaram profusamente, firmado o erro, que o tempo consagrou, e que nunca mais se conseguiu corrigir, apezar de haverem empregado bastantes esforços muitos afamados e eruditos sabios da Europa.Não obsta ainda que antes que Colombo visse a terra firme e nella pisasse, o houvesse effectuado o audaz Caboto, em 1497.Não eram partes da America as ilhas de Haity, Cuba, S. Salvador, Porto Rico, Jamaica, Guadelupe, de que já Colombo se apossara, e onde fundara fortes e até povoações hespanholas? Podemos pela fórma seguinte estabelecer as datas dos descobrimentos da America: em 1492 Colombo; em 1497 Caboto; em 1499 Ojeda; em 1500 Pinzon, e logo após no mesmo anno Cabral e Corte-Real. Cabe a gloria de preferencia a Colombo, cabe-lhe exclusivamente a gloria do descobrimento da America. Seu nome ligou-se para sempre ao novo mundo, e nenhuma pretensão, por{178}mais ousada, conseguirá roubar-lhe os louros, que lhe foram dispensados com toda a justiça. Todos os mais navegadores seguiram apenas seus passos, bem que se distinguissem com façanhas dignas de memoria.—Minhas senhoras e senhores!Tenho concluido a missão que me foi confiada de conversar comvosco a respeito de Colombo e do descobrimento da America, no momento em que grandes festas se preparam em Hespanha, Chicago e Genova no intuito de commemorar-se o quarto centenario do dia glorioso—12 de outubro de 1492, em que o novo continente raiou para Europa e lhe revelou sua opulencia e suas grandezas. Não tratei de narrar episodios, que a legenda ajuntou á historia, pensando ornal-a, quando a escurecia e falsificava. Mais de cem livros, mais de quarenta escriptores examinei e estudei para poder extrahir de suas narrativas o que só fosse exacto, e se houvesse realizado. Joeirei, comparei, contrastei os ditos e asseverações de todos, desprezei os que se não comprovam,{179}e expuz-vos com franqueza e lealdade o que se póde e se deve appellidar verdade historica.Faltavam-me qualidades, sei-o bem, para satisfazer plenamente vossa curiosidade, attrahir vossa attenção, captar vossa benevolencia; todavia a concurrencia numerosa e ininterrupta, que teem provocado estas conferencias, os applausos que immerecidamente me haveis prodigalisado, provam-me que, dados os devidos descontos ás habilitações do orador, tendes apreciado suas intenções, e portanto grangeado, para todo sempre, seu profundo reconhecimento.{180}

Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o de 1500.

Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras inteiramente desconhecidas.

Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira, durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios. Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido dissipar os terrores da zona{138}torrida, corrido a costa d'Africa para o sul, dobrado—primeiro povo—a linha equinocial, e attingido e reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas, dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.

Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?

Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de posse na costa{139}Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados modernos, á seguir-lhes o exemplo.

A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios, antes com vantagens para o thesouro.

Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon, munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente de marinheiros{140}intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça. Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de Santo Agostinho.{141}

Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte, porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul. Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas, entranhando-se nas do oceano,{142}e repellindo-as com força, subiam e desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas, quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.

Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste, não cessavam, por seu{143}lado, os portuguezes de continuar em descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto. As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho, o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique, Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real, em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.

Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral, commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo e ao O.{144}para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança, descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude. Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.

Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão, considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no futuro para ahi se dirigissem.

Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as{145}denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de indios.

Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os Aztecas do Mexico!

Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta{146}tambem arrojado navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas? Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas, não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?

Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus. Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores do{147}movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes, Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.

Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.

Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que lhes{148}compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se, apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.

Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!

Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de justiça, porém; por opposição á violencias, á{149}arbitrios e despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.

Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados, pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis occurrencias.

Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente, e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle, porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que{150}haviam os reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.

É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S. Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter altivo e o espirito heroico de Colombo.

Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra, antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha da{151}architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés; levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do seu affecto.

Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em seus dominios das Indias Occidentaes.

Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam ser ilhas proximas os logares até então{152}reconhecidos. Prometteu Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro, continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?

Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento, lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a{153}intervenção protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas cada uma, tripoladas por 150 homens.

Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha; prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.{154}

Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava, inspirava e electrisava?

Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a 70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de Martinica, ou, como{155}pensam alguns chronistas, na proxima de Santa Lucia.

Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.

Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem de receber viveres.—Acredital-o-heis?—Prohibiu-lhe Ovando que se approximasse de S. Domingos!—Era assim expellido brutalmente das terras de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e almirante!—Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse, pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de seus{156}pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica foi-lhe denegada a licença!

Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes secundarios, que agora dominavam!

Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a tormenta que approximava.

Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S. Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla exhalou a vida{157}no seio das vagas em que foram as embarcações submergidas.

Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a localidade mais apropriada para a fundação{158}de uma colonia européa, e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.

Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia, posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais perigosos parceis.{159}

Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que servisse á projectos futuros.

Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio. Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo, porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto do interior{160}precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se afundavam á olhos vistos.{161}

Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria{162}navio, em que podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á S. Domingos.

É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á parte,{163}mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade! Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas, que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!

Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados! Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.

Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o solo, procurando minas de ouro.{164}

Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas, obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular, arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a robustez dos corpos.

Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só{165}com a extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores, e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas! Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças, foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila, fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia, e sem que os gentios{166}oppuzessem a menor resistencia quando surprehendidos em sua aldêa!

Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém, quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma raça de homens innocentes e pacificos!

Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504, cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia, de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando{167}de Aragão, que, além do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a Valhadolid.

Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795, cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam, transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde então repousam.

Minhas senhoras e senhores.

Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos esforços.

Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e de Colombo, e em{168}todas as linguas européas. Bibliothecas importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos, factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se, desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.

Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se levantaram contra sua reputação depois de sua morte.

Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia e insoffrida temeridade.

Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America, asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.{169}

Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?

Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto, porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se noticias{170}escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?—Não, nada delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando ellas fossem reaes, não eram conhecidas.

O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram, porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de descobridor? Quantas{171}vezes se apropria o genio inventor de trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo mundo. Antes delle tudo se ignorava.

Que importa que procurasse a Asia, e tomasse a America pela Asia? Não era a America inteiramente ignorada? Quem adivinhava então que entre a Europa e a Asia existia um continente tão importante e dilatado?

Que importa ainda que, encontrados na America povos tão distinctos, e alguns tão adeantados em civilisação como os do Mexico e os do Perú, se possa dizer que tinham havido communicações entre elles e os de outras partes do mundo? Com a Asia porventura? De lá teriam vindo, é presumivel, pelo Norte, aonde quasi se ligam Asia e America. Não só os monumentos como os traços physionomicos dos Mexicanos, Peruanos e outras tribus{172}coincidem. Como, porém, se deram essas migrações de povos, quando se realizaram, eis questões sujeitas ainda á conjecturas mais ou menos naturaes, não á juizo exacto e certo.

Da Europa, porém, antes de Colombo, jámais fôra aberta navegação: não se conhecia, nem se adivinhava a existencia da America. Quando muito o saberiam os asiaticos, e estes não o communicaram nem aos gregos, nem aos phenicios, nem aos romanos, nem aos egypcios. Seriam os chins, ou os japonezes, que occupavam terras oppostas e que nem uma relação ou contacto travavam com os asiaticos do Oeste, persas, judeus ou arabes?

Si ninguem sabia que havia America, em que desmerece seu descobridor por encontral-a em caminho para a Asia? Não ia elle no proposito firme de procurar terras ignotas para os europeus?

Não resultou do seu achado—appellidae assim o feito—que importa!—não resultou gloria para o seu nome, e o que é mais, a maior vantagem moral, social, politica, physica, intellectual para a Europa e para o mundo!{173}

Na historia universal não raia pagina mais proficua e nem mais gloriosa.

Os passos de Colombo e dos hespanhoes seguiram depois na America portuguezes, inglezes, francezes e holandezes. Devassando egualmente os mares atlanticos, tomaram todos parte no continente descoberto: todos colheram louros, todos conquistaram terras, que povoaram com suas raças, mas não lhes cabe a gloria que compete exclusivamente ao primeiro descobridor e á nação que lhe servia.

E quanto não ganhou a Europa, fundando cidades e Estados na America, creando futuras nações independentes e civilisadas que guardam suas tradições e suas linguas? Que como filhos a estimam bem que vivam vida propria e livre?

Tentou-se ainda diminuir a gloria de Colombo com o facto de que elle morrera persuadido de que descobrira as Indias Occidentaes e não a America, isto é, um mundo novo.

Não morreu egualmente na mesma convicção Americo Vespucio, o piloto que, pela primeira vez,{174}em 1499, e depois empregado em armadas portuguezas, percorreu as costas da America central e as do Brazil, e falleceu em 1512? O desenhador habilissimo de cartas geographicas, o feliz mortal emfim, cujo nome coroou o novo mundo?

Como Colombo e quantos navegadores visitaram as terras americanas até quasi 1520, a Europa inteira persuadia-se que a Asia para alli estendia e prolongava suas costas maritimas do occidente, e não havia um continente entre a Asia e a Europa.

Toda a Europa denominava até 1520 a parte da America descoberta de Indias Occidentaes e pois seus indigenas de Indios. O proprio continente brazilico passou por muito tempo depois de seu achado quer por Pinzon quer por Cabral, depois de explorações já effectuadas pelos portuguezes, hespanhoes e francezes como uma enorme ilha assim descripta e pintada nos mappas que se publicavam na Europa.

Para saber-se que era um mundo novo, mesmo depois que já hespanhoes, portuguezes, inglezes, francezes e hollandezes, para alli navegavam, alli{175}traficavam e alli formavam presidios e colonias, foi preciso que um audaz aventureiro hespanhol, Vasco Nunez de Balboa, subindo, em 1513, ás altas montanhas do isthmo de Panamá, daquelles cimos levantados descobrisse o Oceano tranquillo ao Oeste, e das terras d'além e dos proprios mares tomasse posse em nome de Hespanha. Foi preciso que em 1519 o cavalheiro Cortez tivesse domado o imperio do Mexico; que em 1520 Magalhães,—portuguez no feito, mas não na lealdade—buscando egualmente as Indias emprehendesse e praticasse, seguindo o isthmo, que ainda hoje conserva seu nome, a primeira viagem em derredor do globo; que finalmente o arrojado e sanguinario Pizarro encontrasse em 1527 o imperio dos Incas na costa do Oceano Pacifico.

Só de então por deante é que se alteraram os mappas geographicos, destacando-se da Asia o mundo novo, e particularisando-se como continente proprio. E o primeiromappa-mundique se desenhou assim, com a separação da Asia e America, data de 1530; foi publicado em Baulez, e{176}attribue-se á Pomponio Mela, que applicou ao novo mundo o titulo de America, deixando de denominal-o como até alli de Indias Occidentaes por que era geralmente conhecido. Appellidou-o de America, sem duvida, porque as melhores cartas geographicas da época tinham a assignatura de Americo.

Nem a Americo se deve attribuir a responsabilidade de tão negra injustiça; chamava-a elle de Indias Occidentaes, como todos os seus contemporaneos, e assim rubricava as cartas que espalhava com sua assignatura.

Esta assignatura de Americo, nas cartas geographicas, causa foi de se lhe dar seu nome, e não outro ao continente descoberto por Colombo.

Segundo a opinião de alguns geographos, foi um Martinho Waldizemuler que em um tratado de cosmographia publicado em Saint Dié, annos antes, lembrara a conveniencia de chamar-se de America as Indias Occidentaes, porque os melhores mappas e roteiros haviam sido por elle desenhados e impressos.{177}

Confirmaram o titulo as edições, que desde então se repetiram, daquellemappa-mundide 1530, e que se derramaram profusamente, firmado o erro, que o tempo consagrou, e que nunca mais se conseguiu corrigir, apezar de haverem empregado bastantes esforços muitos afamados e eruditos sabios da Europa.

Não obsta ainda que antes que Colombo visse a terra firme e nella pisasse, o houvesse effectuado o audaz Caboto, em 1497.

Não eram partes da America as ilhas de Haity, Cuba, S. Salvador, Porto Rico, Jamaica, Guadelupe, de que já Colombo se apossara, e onde fundara fortes e até povoações hespanholas? Podemos pela fórma seguinte estabelecer as datas dos descobrimentos da America: em 1492 Colombo; em 1497 Caboto; em 1499 Ojeda; em 1500 Pinzon, e logo após no mesmo anno Cabral e Corte-Real. Cabe a gloria de preferencia a Colombo, cabe-lhe exclusivamente a gloria do descobrimento da America. Seu nome ligou-se para sempre ao novo mundo, e nenhuma pretensão, por{178}mais ousada, conseguirá roubar-lhe os louros, que lhe foram dispensados com toda a justiça. Todos os mais navegadores seguiram apenas seus passos, bem que se distinguissem com façanhas dignas de memoria.

—Minhas senhoras e senhores!

Tenho concluido a missão que me foi confiada de conversar comvosco a respeito de Colombo e do descobrimento da America, no momento em que grandes festas se preparam em Hespanha, Chicago e Genova no intuito de commemorar-se o quarto centenario do dia glorioso—12 de outubro de 1492, em que o novo continente raiou para Europa e lhe revelou sua opulencia e suas grandezas. Não tratei de narrar episodios, que a legenda ajuntou á historia, pensando ornal-a, quando a escurecia e falsificava. Mais de cem livros, mais de quarenta escriptores examinei e estudei para poder extrahir de suas narrativas o que só fosse exacto, e se houvesse realizado. Joeirei, comparei, contrastei os ditos e asseverações de todos, desprezei os que se não comprovam,{179}e expuz-vos com franqueza e lealdade o que se póde e se deve appellidar verdade historica.

Faltavam-me qualidades, sei-o bem, para satisfazer plenamente vossa curiosidade, attrahir vossa attenção, captar vossa benevolencia; todavia a concurrencia numerosa e ininterrupta, que teem provocado estas conferencias, os applausos que immerecidamente me haveis prodigalisado, provam-me que, dados os devidos descontos ás habilitações do orador, tendes apreciado suas intenções, e portanto grangeado, para todo sempre, seu profundo reconhecimento.{180}


Back to IndexNext