Dalgumas couzas mais, que ho Ifante fez contra vontade, e serviço DelRei seu padre.
Como ho Ifante andava posto em desobediencia, e com pouquo acatamento delRei, nom olhava has couzas de seu serviço, e da justiça com aquelle resguardo, que devia, pelo quaal ElRei era posto em grande cuidado, e muita pena, porque ho Ifante pera mais danamento de sua boondade soltamente trazia, e acolhia em sua casa muitos maalfeitores obrigados grandemente por seus crimes aa justiça, com que hos do Ifante tomavam grande ouzadia de fazerem ho maal que queriam, porque nom receavam pena, nem castigo dos maales que fizessem, nem ElRei podia delles tomar ha emenda, que mereciam, e antre estes era hum Estevão Gonçalves Leitaõ, vassallo do Ifante, e outro seu irmãao, e com outro em sua companhia, partiram de caza do Ifante seendo elle aallem do Douro, e foram teer oo caminho ha Estevaõ Fernandes Cavalleiro, e vassallo delRei, e ha Gonçalo Fernandes, vassallo de Fernaõ Sanches, e seem cauza ha ambos hos mataram, e acolheraõ-se aa caza do Ifante, que hos nom quiz entregar ha ElRei, que com grande instancia lhos mandou pedir pera delles fazer justiça. Outro si, hum Paio de Meira, e Johaõ Coelho vassallos do Ifante, hum de huma parte, e outro de outra, sem algum temor delRei, e de suas justiças, fizeram de Cavalleiros, e de outras muitas gentes, hum grande ajuntamento, e ambos ouveraõ peleja em que morreram muitos, antre hos quaaes foi Lopo Gomes Dabreu, que era hum dos melhores Cavalleiros, que avia em sua linhagem.
Pelo quaal insulto, ElRei por seu meirinho hos mandou desterrar fóra do Regno, e elles foraõse logo pera Castella, mas dahi a pouquos dias se tornaram pera caza do Ifante, em que acharaõ boom acolhemento, e muita mercee. Outro si, hum Xeres Portel vivendo com o Ifante, com outro foi roubar ho Moesteiro do Marmellar de quanto tinha, e elles, e hos seus por força se lançaram aas molheres cazadas, e virgens, que acharam pela teerra, e quizeram matar ho Comendador do dicto Lugar se nom se escondera, e cheios de roubos, e de maleficios se foram pera casa do Ifante que hos emparou, e favoreceo. E assi depois Affonso Novaes, e Mem Martins Barreto, vassallos do Ifante, e seus moradores partiram de sua caza, e com homens de cavallo, e de pee armados, foram sem cauza matar D. Giraldo Bispo Devora, que era do Concelho delRei, e vivia com elle, e tambeem muitos homiziados, e maal feitores, que por seus homizidios, e fugidas de cadeas, e delitos andavam fóra do Regno, vinhaõse soltamente pera caza do Ifante de quem recebiam emparo, e merecee, hos quaaes em grande numero ali asinou, e hos cazos porque eram obrigados aa justiça, cuja mais particular declaraçam nom hee aqui necessaria.
E posto que ElRei por muitas vezes, e por muitos com cauzas evidentes enviasse rogar, e mandasse estreitamente aho Ifante, que lançasse de sua casa hos taaes homens maalfeitores, e que dali em diante nom acolhesse outros semelhantes, elle ho nom queria fazer, antes insistia, e faria tudo contra vontade delRei, pela notificaçam, que ElRei fez aho Papa Johaõ XXII das desobediencias, e pouquo acatamento de que ho Ifante aacerqua delle uzava. E assi do que neste Regno falsamente se dizia, que ElRei asaquando defeitos do dicto Ifante lhe suplicara pela legitimaçam do dicto Affonso Sanches pera Regnar, e Sua Santidade em reposta desto enviou ha ElRei D. Diniz pera si, e assi a todolos Estados de seus Regnos, suas Bullas patentes, em que cõ palavras de padre boom, e piedozo se doe, e maravilha da discordia antre o pai, e ho filho, e assi afirma, e daa testemunho da verdade, que aquellas difamaçoens, elle como Vigairo indinho de Christo, que do Ceo decendeo por dar testemunho da verdade, afirmava seerem falsas, e que em seu tempo taaes requerimentos, e suplicaçoens nunqua lhe foram feitos, nem has provizoens de taal couza nom se concedaram, nem passaram em seu tempo, nem dos Papas Clemente V e Benito XI seus Predecessores, cujos registros pera moor justificaçam desto mandara com deligencia buscar, e porèm que ha todos por muitas, e booas cauzas, que apontou, encomendava que por serviço de Deos, e por boom asecego do Regno procurassem antre todos paaz, e amizade, e concordia, como era rezaõ, ha quaal Bulla ElRei por sua limpeza mandou mostrar aho Ifante, e assi publicar em sua caza, e por todolos Lugares principaaes do Regno, ha que hos poovos respondiam conformes aa verdade, de que se tiraram estormentos pera limpeza delRei, e do Regno.
Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe aconteceo com ElRei no caminho.
E estas Bullas autentiquas, que ho Papa enviou por certeza que has sospeitas do Ifante contra ElRei, e contra Affonso Sanches, nom eram verdadeiras, nom asocegaram ha vontade do Ifante pera deixar de ter odio, e desamor aho dicto Affonso Sanches, porque quando ho defamava, e queria matar, e desterrar, beem sabia que has cauzas, que contra elle punha, todas eram fingidas; nem abrandou de sua dureza pera com hos rogos do Papa seer obediente ha ElRei seu padre, como por Prégadores, e grandes homens em pubriquo, e em secreto lhe era dicto, antes continuava no que tinha começado, pelo quaal deixando ha Ifante sua molher em Coimbra, e com ella ho Conde D. Pedro seu irmaão, partio da i, e levando cõsiguo hos maalfeitores, e degradados, e outra gente armada, foi caminho de Leiria com fama de ir ha Lixboa em romaria a S. Vicente, mas ha verdadeira tençam de sua ida, era pera tomar, e teer Lixboa contra ElRei seu padre, e ElRei estando em Santarem, e seendo certifiquado da maneira em que ho Ifante ia, ouve taal atrevimento por grande seu desprezo, ca parecia nom aver algum temor, nem vergonha delle, nem de sua justiça, especiaalmente pelo Ifante vir com tantos omiziados tam junto delle, e como quer que ho seu primeiro movimento foi acodir logo ha esso com mais trigança, e moor aspereza, porém ouve por beem enviar-lhe primeiro dizer por Pero Esteves, e Gomes Anes seus vassallos, que lhe rogava lançasse fóra de sua companhia hos maalfeitores que levava, porque com elles mais parecia ir fazer almogavaria em teerra de imigos, que comprir com devaçaõ sua romaria em sua teerra propria.
Aho que ho Ifante nom quiz satisfazer, e neste cazo estes mesageiros levaraõ provizoens porque em nome delRei ouveraõ hos dictos maalfeitores por degradados fóra do Regno, ho que com favor do Ifante nunqua quizeraõ fazer, e ha cazo ElRei por este cazo em muita sanha, moveo logo contra Lixboa, e ha Rainha Dona Isabel sua molher com elle, e indo jaa ho Ifante diante, em chegando ElRei aho Lumiar, que he huma legoa de Lixboa, soube que ho Ifante seendo avizado da ira delRei, com seu medo se partira pera ha Villa de Cintra, e ElRei dice contra hos seus. «Pareceme que ho Ifante meu filho, sabeendo quanto me anojava por elle trazer estes omiziados afastado oito legoas, que agora por me mais desprazer, e menos acatar se foi com elles, e hos tem comsigo nom mais de quatro, e porque são maales, que pera Deos, e pera ho mundo jaa se nom podem sofrer hee beem, que pera mais nom creccerem, vamos logo sobrestes homens, que saõ cauza desto, e trabalhemos polos aver».
Pelo quaal ElRei mandou logo fazer prestes sua gente, que muito ante manhaã armados partiram, e foram contra ho lugar onde estava ho Ifante, e dice, que ElRei ordenou esto seer feito mui cedo, e secretamente, porque ha Rainha ho nom soubesse, e da sua ida nom avizasse ho Ifante. Mas ha Rainha maravilhada por sentir no Lugar tanta revolta, e veer tanta trigança, e rumores daparelhos darmas, e cavallos, como soube que era contra ho Ifante seu filho, foi posta em muita angustia por taal, que nom sabia que remedio pozesse, e porém se diz, que tantos homens mandou aho Ifante, e pera tantos Lugares, e com taal pressa que ante delRei chegar ha Cintra elle era jaa avizado de sua ida. E em tanto ha Rainha se socorria ha Deos, ha que em Missas, e orações com muitas lagrimas pedia guardasse ho Ifante da ira delRei seu padre, e por beem de todos hos pozesse em paaz, e amor.
E como ElRei chegou ha Cintra onde era ho Ifante, elle como vio seu pendão, e suas gentes, armouse logo, e mandou armar hos seus, e pozeraõse contra ElRei em dous lugares com mostrança daspera peleja, ha quaal nom ouve, porque ho Ifante, e hos seus por quaalquer cauza, que fosse partiraõ dali, e nom esperaraõ ha ElRei. E esta se acha, que foi a primeira vez, que ho Ifante se armou contra ElRei seu padre pera com elle pelejar em cazo, que nom pelejasse. ElRei tomou por satisfaçaõ, partirse ho Ifante, e pera ho seguir nom deu lugar ha grande sanha, que contra elle tinha. ElRei partiose tambem de Cintra, e em chegando aa Aldea de Bemfiqua, soube que ho Ifante estava da i huma legoa em huma Aldea, que dizem Alvogas, de que ElRei foi muito mais anojado, porque lhe pareceo que ha soberba do Ifante, e seu desprezo contra elle, ia cada vez em maior crecimento, pelo quaal ElRei determinou de ir sobre ho Ifante ho quaal porque desta determinação foi logo avizado, tambem com hos seus maalfeitores, e com outras gentes com maao concelho esforçado, asentou logo em sua vontade esperar ElRei, e dar-lhe batalha, como se fora a hum imigo estranho.
ElRei como soube ha maneira em que ho Ifante estava lhe mandou dizer: «Que pois ho diabo cujas carreiras elle seguia, ho punha em taal determinaçaõ contra elle, que era seu pai, e seu senhor, que esso nom era salvo pera lhe dar ho castigo, que por seus grandes erros merecia, e que por esso esperasse, e nom fogisse». Pelo quaal ho Ifante vendo, que por forças, e por rezaõ tinha contra ElRei, seu partido mais fraco, nom esperou El-Rei, e se tornou pera Coimbra, e ElRei ha Bemfica, e da i ha Santarem, e nom seem muitas lamentaçoens, e grandes maravilhas por ver seu filho tam seem razaõ contra si, seem nunqua querer amançar.
Como ho Ifante levou ha molher, e hos filhos ha Castella, e hos Lugares, que tomou ha ElRei seu padre.
Como ho Ifante foi em Coimbra, logo levou sua molher, e filhos a Alcanizes, que hee em Castella, ho quaal tinha hum Fernam Martins Dafoncequa, e ali ha deixou acompanhada dalguns Escudeiros, e se tornou pera Coimbra, onde por suas cartas cheias de piedades, e palavras, promessas, e necessidades, que apontou logo fez chamamento de todos seus vassallos, e servidores dizendo, que o socorressem, porque ElRei queria vir sobrelle, e destroilo, ou matalo, sem causa. E ElRei que estava em Santarem quando soube ha mudança, que seu filho fizera da molher, e dos filhos pera Castella, e percebia seem cauza tantas gentes, era por esso cada vez mais anojado, porque como prudente sabia, que nom podia delle tomar vingança, que pera todos nom fosse mui periguoza, e porém pareceolhe que hos taaes ajuntamentos nom eram se nom pera ho Ifante vir sobre elle incitado de algum espirito diabolico ho tentar pera batalha, maravilhado de ho Ifante jaa nom cançar de seus odios, e perseguiçoens.
Ha esto proveo, e atalhou com cartas geraaes, que logo enviou ha todalas Cidades, e Villas do Regno encomendandolhes, que se nom enganassem das palavras coradas, que ho Ifante mandava semear, com que hos enganasse, e desviasse de seu serviço, porque hos afagos, e promessas, que em suas cartas aas gentes fazia nom era pera com elles conquistar, nem guerrear se nom ha elle seu padre, e com esto mandou ElRei geraalmente pubriquar por tredores todos aquelles, que pera taal ajuntamento mais acodisseem aho Ifante, nem com elle andassem, ainda que fossem proprios seus vassallos, contra hos quaaes assi asperamente procederia, como contra aquelles, que cometessem treiçaõ contra ha Reaal pessoa de seu Rei e Senhor, e que da i por diante mandava ha todos seus Alcaides, e justiças, e ha todolos outros seus naturaaes que ha todos estes que desobedecessem seu mandado, matassem sem receo dalguma pena, que por esso ouvessem, e assi mandou, e defendeo que nom acolhessem ho Ifante, nem os seus nas Villas, e Castellos, nem lhes dessem mantimentos, nem outra couza alguma, antes assi ho esquivassem, e fizessem contra elles, como contra imigos delRei, e de seus Regnos, e desto se passaram muitas provizões, e cartas que foraõ enviadas, e pubriquadas por todo ho Regno.
Mas ho Ifante nos Lugares onde se achava nom consentia daremse taaes cartas, nem serem feitas suas pubriquaçoens, nem obedecer ha couza que ElRei mandasse. E andando has couzas neste danamento, ElRei apartou de si ha Rainha, e ha mandou Alanquer, com fundamento de fazer seus negocios secretamente seem ho saber ha Rainha sua molher, de quem prezomia, que ho Ifante era logo avizado, e logo foi certifiquado, que hos da Villa de Leiria, deram nella entrada aho Ifante, e que tinha jaa ho Castello, e irado ElRei por este feito moveo, logo contra Leiria com tenção de queimar, e destroir todos aquelles, que foram em consentimento da entrada do Ifante, porque ha pena destes fosse ahos outros exemplo, e quando chegou ha Alcobaça jaa i achou muitos moradores de Leiria, que com medo de sua ira ali se acoutavaõ, como ha Caza sagrada, que lhes podia valer, hos quaaes posposto todo acatamento Daltares, e das sepulturas dos Rex seus avoos, ha que se abraçavam, mandou ElRei logo tirar, e estando pera irozamente delles mandar fazer crua justiça lhe chegou recado, que ho Ifante por força entrara ho alcacer de Santarem, ha que ElRei com grande pressa logo acodio e ho Ifante receozo delRei, e de sua ira, e poder que trazia, deixou ha Santarem, e se foi ha Torres Novas, onde se diz, que foi ho enterramento de Affonso Vaas Pemintel, que era seu Cavalleiro, ha que queria grande beem.
E tanto que ElRei chegou ha Santarem, logo mandou ha Lourence Anes Redondo, que jaa estava no alcacer de Leiria, que logo dece passe, e matasse todos aquelles que deraõ entrada da Villa aho Ifante, em comprimento do quaal, decepou, e queimou nove homens dos melhores, e mais principaaes da Villa. ElRei mandou tornar aho Moesteiro Dalcobaça hos prezos, que da i levara pera justiçar, que depois de sua ira seer temperada, ouve por beem que lhes valesse ha Egreja, e mais Alcobaça, em que tinha singular devação. Ho Ifante nom menos perseguido, que desobediente, e contumaas partio de Torres Novas, e chegou ha Thomar, onde pera si, nem pera hos seus, e suas bestas nom achou algum genero de mantimentos, nem forragem, porque atee hos moinhos, e acenhas achou de suas ferramentas, e engenhos, de todo desconcertados, por taal que nom podessem moer mantimentos pera ho Ifante, e com esto elle se foi aho Castello da Villa, e seem ho poder tomar tomou por força todolos mantimentos, que nella achou, e da i se foi pera Coimbra.
Da quaal se apoderou, e tomou ho Castello ho derradeiro dia de Dezembro de mil trezentos e vinte hum annos, (1321) e logo da i tomou ho Castello de Monte moor ho Velho, donde mandou dizer aho Conde D. Pedro seu irmaão, que andava em Castella desterrado, que se viesse aa Cidade do Porto, porque elle hia pera laa, e no caminho tomou ho Ifante ho Castello da Feira, que hee em teerra de Sancta Maria, de que era Alcaide por ElRei Gonçalo Rodrigues de Macedo e da i foi tomar ho Castello de Guaia, do quaal e assi do outro de Monte moor que jaa fora tomado, era Alcaide por ElRei Gonçalo Pires Ribeiro, e da i se foi aho Porto, e ho tomou, e ali chegou o Conde D. Pedro, que sempre andou em sua companhia, e da i se foi aa Villa de Guimaraens esforçado de hum Martim Anes de Briteiros, que fez crer aho Ifante que por inteligencias, que tinha dentro na Villa, lhe faria entregar, mas ho Ifante chegou ha ella, achou defensor dentro Mem Rodrigues de Vasconcelos, que era nobre homem, e boom Cavalleiro, e com elle boons Escudeiros, e outra gente da Villa, e com quanto foi pelo Ifante grandemente requerido com dadivas, e mercees, e ameaçado com morte, e outras penas pera que lhe entregassem ha Villa, e ho Castello, elle ho nom quiz fazer, dizendo que em quanto ElRei seu padre fosse vivo, ha quem tinha feito menagem, nom entregaria ha Villa, nem o Castello, se nom ha elle, e que atee sobresso morrer ho defenderia.
Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado, ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia.
Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera segurança desso se fizeram.
E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia, e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.
Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D. Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice, que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua caza, e de seu favor.
E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D. Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal, e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia, e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S. Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.
De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D. Diniz, sobre has dezavenças com seu pai.
Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue.
Servo dos servos de Deos
«Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca, e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam, e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer, cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos, que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno, porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso, porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua propria saude.
Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos? Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam, pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer.
E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer.
Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom.
Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz.
E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre, noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem, ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor, daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos ante Deos».
Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada, mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante direi.
Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D. Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram.
ElRei D. Fernando de Castella, genro delRei D. Diniz faleceu de morte supitanea em Jaem emprazado de dous seus vassallos, que segundo se diz mandara injustamente matar, como atraaz brevemente toquei, e por sua morte fiquou seu sucessor, e erdeiro ho Ifante D. Affonso seu filho primogenito em idade de hum anno, e vinte e seis dias, ho quaal fiquou logo em poder da Rainha. Dona Constança sua madre, filha delRei D. Diniz, e tambem em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, e porque ha dicta Rainha Dona Constança da i ha pouquos annos logo faleceu, ho dicto Rei D. Affonso fiquou pricipaalmente em poder da dicta Rainha Dona Maria sua avoo, e sobre estas titurias deste Rei, ouve antre hos Ifantes, e grandes Senhores de Castella, grandes competencias, e muitas differenças, e discordias, de que se seguio muito maal, e estrago nos Regnos de Castella, e em fim se tomou por concruzam, que com ha dicta Rainha Dona Maria fossem juntamente tutores, como foram, ho Ifante D. Pedro, filho da dicta Rainha Dona Maria, e ho Ifante D. Johaõ tio delRei, filho que fora delRei D. Affonso Decimo, ho quaal Ifante D. Johaõ, que em outro tempo esteve em Portugal, e se chamava Rei de Liam durando sua titoria, e depois da morte da Rainha Dona Constança, Dona Maria confiando da muita verdade, e grande poder delRei D. Diniz, e assi na razam, que tinha daconcelhar, e ajudar ha ElRei D. Affonso seu neto, concertou em Guinaldo Lugar de Castella vistas com elle, aas quaaes contra vontade dos grandes de Castella trouxe ho dicto Rei D. Affonso seendo mui moço, e ali pratiquaram sobre hos desvairos de Castella, em fim dos quaaes ha Rainha lhe pedio, que se lembrasse delRei seu neto, e de seus Regnos, e que lhos ajudasse ha conservar, e defender polas grandes necessidades, que desso tinham.
Aho que ElRei respondeo: «Que lhe agradecia muito taal confiança, e quando suas forças, poder, e sabeer pera esso lhe comprissem, que nunqua com tudo lhe faleceria, como pelas obras poderia ver.» E com esto concordado ha Rainha, e ElRei D. Diniz se tornaram pera Portugal, e sobre esto passado logo da i ha pouquos dias hos dictos Ifantes D. Pedro, e D. Johaõ tutores, e juntamente com grande poder entraraõ na Veiga de Grada, pera fazerem guerra ahos Mouros, onde seendo elles perseguidos ambos dafronta, e desmaio, e seem seer feridos morreram em huma soo hora, ha saber ho Ifante D. Pedro, e logo ho Ifante D. Johaõ, como atraaz brevemente jaa dice, e na Coronica de Castella mais compridamente se contem da quaal morte dos Ifantes como ElRei D. Diniz foi sabedor, mostrou receber por esso sentimento, porque eram boons Princepes, e com elle muito conjuntos em sangue, e logo enviou seus Embaixadores ha ElRei, e aa Rainha de Castella, ha notifiquarlhe, que da morte dos Ifantes, lhe pezava muito porque eram boons Cavalleiros, e aviam com elle tam grande divido, e que pois era chegado ho tempo em que lhe compria sua ajuda, e favor, que lhe tinha ofrecido, lhes pedia que lhe fizessem sabeer ho que delle lhes compria, e que fossem certos, que elle em pessoa, e com ajuda, e poder de seus Regnos, contra todos hos iria ajudar, e ElRei, e ha Rainha lhe responderaõ, que taal lembrança com taal vontade, e ofrecimento lhe gradeciaõ singularmente, que eraõ sinaaes com que ho cazo parecia, que lhes tinha grande amor, e que quando lhes comprisse ho enviariam requerer. E pera mais favor das couzas delRei D. Fernando, ElRei D. Diniz notifiquou aho Papa ho estado perigozo em que has couzas de Castella pela morte dos Ifantes estavam, pedindo ha Sua Santidade, que ho favorecesse certifiquandolhe com esso ha vontade com que estava pera em tudo ho ajudar, e defender, e ho Papa lhe respondeo, dandolhe muitas graças, e louvores por sua boondade, e manificencia por querer com tam boom dezejo encarregarse da defenssaõ, e emparo dos Regnos de seu neto.
Como ho Ifante D. Affonso se aparelhou pera pelejar com ho Ifante D. Felipe, que contrariava ho asecego de Castella, e como ho Ifante D. Felipe se foi.
Por morte destes Ifantes, e tutores, que dice ElRei D. Affonso, fiquou inda em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, pelo quaal D. Johaõ, que diceram o Torto, filho do Ifante D. Johaõ, que morreo na Veiga de Grada, e assi D. Johaõ Manuel, filho do Ifante D. Manuel, e ho Ifante D. Felipe tio delRei, filho da Rainha Dona Maria, todos tres tambem contenderaõ pera seer tutores delRei com ha Rainha, sobre que outro si ouve grandes discordias, debates, e partiçoens de que por seus desvairos, ha que se nom achava rezoado meio, que elles quizessem se seguiram outros muitos maalles, e danos ha Castella, porque cada hum sojugava, e mandava ausolutamente ha parte do Regno, que podia antre hos quaaes era ho Ifante D. Felipe, que seem outorga delRei, e do Regno, e por sua soo vontade, e cobiça procurava sojugar, e mandar sua parte do Regno, assi como fizera aa Cidade de Badalhouse, que tinha cerquada, com que sua teerra estragava de todo.
E estando ElRei D. Diniz em Santarem, ElRei D. Affonso seu neto lhe enviou pedir que por quanto elle estava em Valhadolid donde ainda nom podia sahir, nem remediar por si ho maal, e danos, que ho Ifante D. Felipe fazia, que lhe rogava mui afiquadamente, que se lembrasse da ajuda, e defença que muitas vezes lhe prometera, e que em comprimento della mandasse dizer aho Ifante D. Felipe, que ceçasse, e se apartasse daquella teerra, e dos maalles que nella fazia. E quando por respeito delRei D. Diniz ho nom quizesse fazer, que entam ho fizesse por aquella Cidade, e por seus vizinhos, como em similhante cazo elle faria por outros seus naturaaes, que taal padecessem.
Aho quaal ElRei D. Diniz respondeo, que mui degrado ho faria como elle por obra logo veria, pelo quaal escreveo com trigança aho Ifante D. Affonso seu filho, ha que quiz dar este cargo por moor autoridade, que elle mandasse, como mandou dizer aho Ifante D. Felipe, que por muitas cauzas, que lhe apontou, nom fizesse dano, nem maal ahos da Cidade de Badalhouse, e se alevantasse de sobre ella, e que se o fizesse, que lho gradecceria muito, e quando nom quizesse que elle em pessoa lho defenderia, e porque ho Ifante D. Felipe respondeo aho Ifante, mais duro que temperado, ElRei D. Diniz, que desta reposta foi avizado ouve della, e do Ifante D. Felipe grande desprazer, e mãdou logo ha todos seus vassalos, que com suas gentes, e armas se fossem pera ho Ifante seu filho, aho quaal se ajuntou grãde poder, cõ ho quaal moveo pera Badalhouse, e ho Ifante D. Felipe sabendo de sua ida, e do poder que levava, alevantouse forçado, e foi pera Sevilha, e ho Ifante D. Affonso chegou ha Elvas onde vio algumas duvidas, que antre hos da Villa, e Badalhouse sobre seus termos, e tomadias avia, e depois de hos concordar, se tornou pera Santarem onde era ElRei, e da i se foi pera Coimbra onde tinha sua molher, e asento de sua caza.
Como ho Ifante D. Affonso requereo ha ElRei D. Diniz seu padre, que fizesse Cortes aas quaaes depais nom quiz vir.
Avendo jaa hum anno, e sete mezes, que ha concordia antre ElRei, e ho Ifante era feita por algumas cauzas, e razoens, que alegou da minguoa de Justiça, e outros defeitos, que dizia aver no Regno, lhe pedio, que pera remedio de tudo fizesse, e quizesse fazer Cortes, has quaaes ElRei por nom aver dellas tanta necessidade quizera escuzar, em fim por satisfazer aho Ifante, e assi pera notifiquar ahos fidalgos, e poovos hos aggravos, e nojos, que do Ifante depois de suas avenças recebera, prouve-lhe fazelas em Lixboa pera onde chamou seus poovos, como em taal cazo hee costume, onde tambem foi ho Ifante, e ho dia em que se ouve de fazer ha fala pubriqua, e proposiçaõ costumada, ElRei mãdou dizer aho Ifante, que viesse aas Cortes pera nellas estar como ha elle em taal auto convinha, e ho Ifante se escuzou fazelo, e de tantas delongas, e sem razoens uzou aacerqua desso, que ElRei ouve por beem cometelas seem elle, e porque ElRei vio que ho Ifante em todo se desviava do que lhe tinha jurado, e prometido porque ho Conde D. Pedro seu filho, era pessoa de grãde credito aacerqua do Ifante, e tinha grande caza lhe dice: «Que se lembrasse da menagem, e juramento, que em Pombal fizera, e que hos nom quebrasse, nem fosse por algum respeito contra seu serviço». E esto lhe dise por alguns alevantamentos, que no Ifante jaa sentia. E ho Conde lhe respondeo: «Senhor, eu sei beem ho que sobresso devo fazer, e de mi se dee seguro, que nunqua vos venha nojo, nem desprazer, nem desserviço, porque bem conheço, que nom aa pessoa neste mundo ha que tam obrigado seja como ha voos». E sobresta segurança dice, que com sua licença se queria ir ha Santarem com ho Ifante, e que na jornada ho nom desserveria, e que logo se tornaria pera elle, e assi ho fez.
Como ho Ifante sobre huma vinda, que contra vontade delRei quisera fazer ha Lixboa, foram perto de pelejar, e porque ho leixaram de fazer.
Passadas estas couzas, e has Cortes acabadas estando ainda ElRei D. Diniz em Lixboa foi certifiquado, que ho Ifante seu filho de Santarem onde estava queria i vir, e porque soube que nom vinha com sam propozito lhe mandou rogar, e encomendar por sua bençam, sobpena de maldiçam de Deos, e da sua, que por aquella vez escuzasse sua ida, e ho nom quizesse nesso anojar, pois sabia que taal ida ha elle nom relevava, e podia cauzar muito maal, e ho Ifante lhe enviou dizer, que nom sabia razaõ porque lhe pezasse sendo seu filho, que viesse ha Lixboa, onde elle estava pera ho ver, e servir, e que por esso nom avia de leixar dir. E desta determinaçam que ho Ifante tomou, pezou muito ha ElRei, e foi por esso contra elle acezo em grande sanha, e sabeendo que ho Ifante toda via proseguia seu caminho, e que era jaa no Lumiar, saio contra elle com suas gentes armadas, e em saindo, lhe mandou dizer, que logo se tornasse por beem, e quando nom que ho faria tornar por maal, e com seu pezar. E ho Ifante ho nom quiz fazer, antes abalou, e se poz junto com ElRei procurando todavia contra sua vontade entrar em Lixboa, e hos delRei concertandose por seu mandado pera lhe defender ha entrada, foram de huma parte, e da outra postas, e ordenadas suas azes pera batalha, e nellas alevantadas humas mesmas bandeiras das Quinas contrairas, e pera esso jaa toquadas trombetas, e anafins, que traziam em se começando alguma rotura antre hos homens baixos, alguns dambalas partes se diz, que morreram de pedras, e dardos, que se arremessavaõ.
E com esta triste nova, que aa Rainha chegou, ella por escuzar com sua sancta pessoa outra maior rotura antre ho pai, e o filho, com grande pezar cavalgou em huma mula, e passando por meio das azes seem alguma pessoa ir diante, nem ha levar pela redea, nem tam pouquo esperar pela companhia, que ha ella por sua Reaal pessoa se devia, e seem medo dos muitos perigos ha que se oferecia, chegou logo aho Ifante seu filho, ha que estranhou ho cazo muito de taal vinda pois era contra vontade delRei seu padre, acuzando-o pela quebra da menagem que dera, e dos grandes juramentos que em Pombal ha Deos fizera, rogandolhe que se tornasse, e nom anojasse ha ElRei em tantas couzas, e aho menos ho fizesse por seu amor della que por elle, e por seu rogo tinha feitos hos juramentos, e prometimentos, que sabia, hos quaaes porposta ha conciencia, e honestidade hos via por elle de todo quebrados, e sobresto tornou logo ha ElRei cuja ira poz em taal temperança com que outra vez tratou avença antre elles.
Donde se diz, que ho Ifante jaa sobre concordia com soo seis de cavallo veo falar ha ElRei, e pedirlhe perdam, dizendo, que lhe obedeceria em todo, como ha ElRei seu padre, e seu Senhor, e que ElRei lhe respondera, que ha elle nom agradecia sua taal obediencia, mas aaquelles seus boons, e naturaaes vassallos que com elle estavam, dizendolhe que se partisse se quizesse, e seria beem aconcelhado fazello, e que onde quer que fosse se mais lhe dezobedecesse laa ho iria tomar pela garganta. E com esto ho mandou ir ha Santarem, e ElRei se tornou ha Lixboa.
Como has gentes delRei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem e do que se fez.
Passados alguns dias depois deste alvoroço, ElRei se foi de Lixboa pera Santarem, e entrando no termo da Villa foi avizado no caminho, que hos moradores della por mandado do Ifante que i era, estavam pera ho nom acolher na Villa, mas ElRei com quanto avia entam grandes chuvas nom leixou por esso de continuar seu caminho, e foi pouzar ha humas cazas, que foram de Rodrigo Affonso Redondo, e hos seus se agazalharam em mui estreito lugar que hos do Ifante lhe leixaram, e sobre comer por razoens, que hos do Ifante ouveram com hos del-Rei, se alevantou hum grande, e perigoso aroido ha que ElRei, e ho Ifante acodiram em pessoas cada hum ha seu bando apartado, e porém depois de alguns mortos, e feridos dambalas partes foi procurada, e posta tregoa sobre ha tarde antre ElRei, e ho Ifante, e hos seus, e porque hos Cavalleiros, e nobres homens que se acharaõ nestas roturas, e pelejas, vendo ho grãde dano, que delles seem cauza se seguia, pediram ha ElRei por mercee, que por muitas cauzas, e razões mui urgentes, que lhe alegaram lhes desse licença pera entenderem finalmente em sua concordia com ho Ifante.
Aho que ElRei respondeo mui aspero: nom querendo que sobre tantas paazes, e tantas concordias firmadas, e menagens taõ seem cauza quebradas se fizessem mais outras com tanta quebra, e desprezo, mas que queria castigar ho Ifante como merecia, e como faria ha hum seu imigo mortaal. E porém tanto aprofiaram aquelles Senhores com ElRei, e assi terçaram Affonso Sanches, e ho Conde D. Pedro seus filhos, que ElRei aprouve estar ha todo boom remedio, e aseceguo que antre elles se desse, pelo quaal se diz, que hos Cavalleiros, e Escudeiros que ElRei consigo ali tinha, eram por todos quorenta, e hos do Ifante trezentos e vinte, e huns destes se ajuntaraõ aho Moesteiro de S. Domingos das Donas, e hos outros em Sancta Maria de Marvilla, e estes escolheram vinte e coatro pessoas, homens de beem, e de conciencia, e de booa inclinaçam, ha saber, doze por parte delRei, e doze por parte do Ifante, que logo foram nomeados, hos quaaes determinassem, e compuzessem todolos debates, e contendas, que entam avia antre ElRei e ho Ifante, e que sua determinaçam, e composiçaõ fosse inteiramente guardada, e comprida, e fosse por maneira feita, que della nom se seguissem mais desvairos, segundo se logo apontaram, e nomearam outras pessoas, que tudo dentro de sessenta dias tornassem logo ha concordar em toda sua prosperidade, e qualquer dos delRei, e do Ifante que contrairo fosse, que pelo mesmo feito caisse em cazo de treiçam, e nom se de livrar se nom poendo seu corpo ha quatro Cavalleiros, que lho quizessem combater, e nom ho fazendo, que ficasse encartado, e quaalquer do povo ho podesse matar seem pena.
E ali pedio ho Ifante ha ElRei, por grande mercee, que tirasse ha Affonso Sanches seu filho, ha teerra, e has quantias dos maravedis, que delle tinha, e assi ho officio de seu Mordomo, e ha Mem Rodrigues de Vasconcellos ho Meirinhado moor. Ha que ElRei respondeo: «Que lhe parecia couza muito contra razaõ, e seem justiça dar ha estes pena sem culpa, e fazerlhes maal tendolhe beem mercee merecida, e que fazendolho nom sabia, que conta daria desso ha Deos, e aho mundo, aho que por sua Reaal dinidade era obriguado», e porém por comprir, e asegurar ha vontade do Ifante seu filho prouvelhe outorgar todo o que quiz, e lhe pedio.
E desta vez se partio Affonso Sanches pera Albuquerque cujo era, e fiquou vassallo delRei de Castella. E assi foram de huma parte, e da outra perdoados nesta concordia todos aquelles que serviram, e seguiram quaalquer partido, e assi que se fizesse entrega das couzas, que nas pelejas foram tomadas. E concordaram mais, que se ho Ifante D. Pedro filho do dicto Ifante D. Affonso, que jaa era nacido viesse em taal idade, que sahindo do mandado de seu padre quizesse vir contra ElRei D. Diniz seu avoo, que ho Ifante seu padre sempre fosse contra elle com ElRei seu padre, e seem elle. E assi concordaram, que fosse dado mais certa contia de dinheiro aho dicto Ifante D. Affonso, e que nunqua mais lhe podesse pedir, nem ElRei dar, e que pera segurança de todo se pozessem de cada parte dous Castellos, dos quaaes ho Ifante polla sua poz ho Castello de Gaya, e ho Castello da Feira, e ElRei ho Castello de Celorico da Beira, e ho de Faria.
E foram assinados quatro Juizes logo nomeados pera determinaçaõ, seem revogaçaõ de todalas duvidas e debates que antre ElRei, e ho Ifante ouvesse, hos quaaes nom podessem estar, nem estivessem nos Lugares onde taaes Juizes se ouvessem de fazer, e que ha parte desobediente, e danifiquada hos Castellos da outra revel fossem logo entregues, e que ha parte desobediente pagasse mais duzentas livras de pena has quaaes repartissem hos Juizes, e Fidalgos do Regno antre si, e que hos Fidalgos, e nobres do Regno sob pena de treiçaõ hos fizessem pagar inteiramente ha quaalquer, que esta concordia quebrantasse, e com ha dicta pena logo elles se viessem, e servissem ha ElRei, ou aho Ifante quaalquer destes, que aas determinaçoens dos Juizes fosse obediente, e estas concordias, e convenças foram feitas em Santarem ha vinte e sinquo de Fevereiro do anno de mil trezentos e vinte e quatro (1324), hum anno antes da morte delRei, que se tornou ha Lixboa, e ho Ifante ha Coimbra.
Da morte delRei D. Diniz.
Depois destas concordias acabadas, ElRei D. Diniz se foi ha Lisboa como dice, e da i ha hum anno se partio da dicta Cidade, e se tornou pera Santarem, e indo aacerqua do Lugar, que se diz Villa nova adoeceo de infirmidade, que consigo traaz todalas dores, e accidentes mortaaes de que se sentio mais maal tratado, e ho Ifante seu filho, que era em Leiria avizado desso por ha Rainha D. Isabel sua mãi, que era com ElRei ho veo logo vizitar, e concordaraõ de ho levarem ha Santarem em andas, e em colos de homens, e ha i jouve doente por algum tempo seem algum melhoramento, na quaal ha Rainha sempre foi prezente, e nas couzas de sua cura, e remedios era mais diligente, e humildoza que quaalquer outra simpres molher, que em semilhantes necessidades nom teem quem has escuze, e vendo ella que has afiquadas dores, e paixoens da doença delRei eram continuas, e pareciam mortaaes, duvidando da vida delRei estando em sua Camara, e prezente alguns, que i eram, dice ha todos nesta maneira.
«Porque eu tenho grande esperança em Jesu Christo meu Senhor, e nom menos confiança na Glorioza Virgem sua Madre, e assi singular devaçam na Ordem, e Abito de Sancta Clara, assi como sempre ha tiveram aquelles de que descendo, sempre puz em minha vontade, que falecendo primeiro ElRei meu Senhor, e marido, eu acabar ha vida no dicto Abito, e por esso ho tenho feito, e aa muitos dias que comigo ho trago, e em minha arqua, por taal que se por ventura acontecesse delRei meu Senhor, primeiro que eu falecer, ho que Deos nom queira, eu vestisse logo ho dicto Abito por lembrança de minha tristeza, e por sinal de tamanha mudança destado, que eu mais nom devo teer, nem por fazer no dicto Abito profissam, nem obedecer ha alguma Ordem que nom hee minha tençam fazello. Especiaalmente porque eu por minha idade, e grandes infirmidades nom poderia soportar hos grandes encargos, e trabalhos da Relegiam, mas posto que eu esse Abito vista, e traga, por esso nom leixarei minha Caza, nem has Donas, e Donzelas, que comigo vivem, mas prazendo ha Deos, espero trazer estas, e tomar outras como filhas, e irmaãs, e cazallas, e aviallas com ho que eu poder de meus beens, e fazenda, porque como dice, eu proponho nom fazer profissaõ nesta Ordem, nem em outra alguma, nem tenho em alguma feito voto pubriquo solene, nem secreto, e esto digo porque em cazo, que no meu corpo vista ho dicto Abito, que minha alma fique livre pera de minha fazenda seem algum outro cargo, nem obrigaçam de Relegiam poder despoer livremente todo ho que por beem tiver, e assi ho tenho dicto, e decrarado muitas vezes aho Ifante D. Affonso meu filho, e ha Frei Johaõ meu Confessor».
E com esto sendo ha doença delRei cada vez mais perigoza, e mortaal, teendo mui craro conhecimento, que hos dias de sua vida se acabavam, elle como Princepe virtuozo, prudente, e mui catolico, proveo seu testamento, que tinha feito com grande devaçam, e muito temor de Deos, e ho confirmou, no quaal mandou, que ho seu corpo se enterrasse no seu Moesteiro de S. Diniz Dodivellas da Ordem de Cistel, on de S. Bernardo, que elle de novo fundou, e dotou, no quaal entam avia oitenta Freiras de Cogula com voto de ençarramento, que nom teem has dos outros Moesteiros desta Ordem, e em que jaa tinha feita sua sepultura, e de sua fazenda, apartou no dicto testamento pera soos descargos de sua alma, trezentas e sinquoenta livras, que taxadas pelo preço dagora ha razam da valia da prata, e ouro, que daquelle tempo tinham ho valor, e preço, que agora teem hos ducados, e cruzados douro, como muitas vezes jaa dice, e esta soma mandou que logo se tirasse da torre do tezouro de Lixboa, que agora hee do Tombo em que tinha grandes tezouros, e se entregassem ha seus testamenteiros, de que ho principaal foi ha Rainha Dona Isabel sua molher, e ha estes mandou, que tivessem este dinheiro de sua maão no tezouro da See da dicta Cidade, de que cada hum tivesse sua chave pera nom aver embargo, nem estorvo quando delle quizessem despender, e comprir hos legados, e couzas, que ordenava, e leixou ha sua Capella toda aho dicto Moesteiro Dodivellas.
E toda outra sua fazenda, e baixellas douro, e prata, joias, e colares, pedrarias, e panos aho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e destes cento e corenta mil cruzados ordenou muitas, e grandes esmolas repartidas por todolos Moesteiros, e Espritaaes, e Cazas piedozas do Regno, e assi certa soma pera cazamentos de moças orfaãs, e pera criaçam de meninos engeitados, e tambem dellas ordenou, que hum Cavalleiro de booa vida, e vergonhosa estivesse em Jerusalem, e servisse por elle na guerra contra hos infieis dous annos, e pera esto ordenou tres mil livras, que eraõ mil e duzentos cruzados, e quando se nom achasse taal Cavalleiro, ou nom ouvesse desposiçam pera ir ha Ultra-maar, que este dinheiro se convertesse em vistir pobres, e envergonhados, e outro si ordenou, que outro boom homem de booa vida, fosse estar em Roma duas quarentenas, e que por elle andasse todalas Estaçoens em que ganham has Idulgencias plenarias, e ha este ordenou mil livras, e depois desto confeçando seus peccados com grande contriçaõ, e arrependimento delles, recebendo ho Corpo de N. Senhor, e todolos outros Sacramentos como Rei mui Catolico, e fiel Christaão acabou vida dando sua alma ha Deos em Santarem, ha sete dias de Janeiro do anno de mil trezentos e vinte sinquo, em idade de sessenta, e quatro annos, dos quaaes Regnou quorenta e seis.
E ha Rainha que era prezente se apartou logo em huma Camara, e das maãos de humas Freiras seculares, que consigo trazia recebeo logo, e vestio ho Abito de Sancta Clara, que trazia feito, como jaa dice, e sendo nelle vestida ante de se fazer do corpo delRei alguma mudança, ella prezente muitas que ha ouviam, dice estas palavras: «Pois Deos por seu grande poder, e profundo Juizo ouve por beem, que ha morte delRei meu Senhor, e marido antepassasse ha minha, e seem a sua vida eu fiquo, e sam tanto como morta, e de razam eu jaa morri com elle, e por esso eu quis logo mudar hos vestidos, e trajos que vedes, que sam este Abito pardo cingido com esta corda, e este veeo branquo, que ponho sobre minha cabeça porque ha vida, que seem elle viver seja com doo, e tristeza pera sempre, e esto nom faço por seer Freira, nem teer feito algum voto, e obrigaçam de Religiam como teenho dicto, mas por minha humildade, porque nelle sirva a Deos, nas couzas em que ha sua graça me ajudar».
E com esto acabado ho corpo delRei fiquou concertado, como devia, e com muitas tochas acezas, e acompanhado da mesma Rainha, e do Ifante D. Affonso seu filho, e do Conde D. Pedro, e D. Johaõ Affonso, e doutros Prelados, e riquos, e nobres homens do Regno, que ali eram juntos, e assi de muitos Clerigos, e Religiozos que com elle iaõ rezando, e encomendando sua alma ha Deos, foi levado aho dicto seu Moesteiro de S. Diniz Dodivellas, onde nom seem grandes prantos, e lamentaçoens foi metido em sua ordenada sepultura, e depois de seu enterramento, fiquou i ha Rainha por algum tempo comprindo seus legados, e fazendo outras muitas esmolas, devaçoens, e oraçoens, por beneficio, e descargos de sua alma. E da vida que depois esta Rainha, e como acabou, e quantos milagres fez Deos por seus rogos, e merecimentos, e onde jaas, direi na Coronica delRei D. Affonso seu filho, em cujo tempo, e Regnado ella depois faleceo, que foi onze annos depois da morte delRei D. Diniz, como se diraa.
Das obras, e couzas notaveis, que ElRei D. Diniz fez em sua vida.
Has obras, e feiçoens, e couzas notaveis que este mui excellente Rei D. Diniz fez em toda sua vida aalem das que nesta Coronica tenho escritas, em cazo que por desvairados tempos has fizesse, e mandasse fazer, porque de certidam dos annos, e tempos em que semelhantes obras se fizeram, esta Estoria que delle escrevo, nem hos que ha lerem nom teem alguma final necessidade, e assi juntas se comprendem, e entendem melhor, por tanto has reservei pera este derradeiro capitolo, e has mais principaaes saõ estas, primeiramente elle fez muitas Lex, e Ordenaçoens em seu tempo, e deu boons foraaes ha muitos Lugares de seus Regnos, fez ho Estudo de Coimbra, que foi o primeiro de Portugal, e fez ho primeiro Mestre de San-Tiaguo izento de Castella, e ordenou primeiramente ha Ordem de Christo, e fez nella o primeiro Mestre, como jaa dice. Este Rei em seu tempo fez quasi de novo todalas Villas, e Castellos de riba Dodiana, ha saber: Serpa, Moura, Olivença, Campo maior, Ouguella, cujos alcaceres, e Castellos fez de fundamento com muitas despezas, e assi fez na dicta Comarqua dantre Tejo, e Odiana hos Castellos de Monforte, e Darronches, Portalegre, e Marvam, Alegrete, Castello Davide, Borba, Villa Viçoza, Arraiolos, Evora monte, Veiros, e ho Alandroal, Monçaraas, e Noudar, e acrescentou ho Castello de Jurumenha, e fez ho Redondo, e ho Assumar, e fez ha Torre, e Alcacer de Beja, e na Comarqua da Beira, e riba de Coa, fez de novo estes Castellos, ha saber, Avoo, que agora hee do Bispo de Coimbra, ho Sabugal, Alfaiates, Castel Rodriguo, Villar maior, Castel boom, Almeida, Castel melhor, Castel mendo, Sam Felizes dos Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte de riba de Coa, que tambeem lhe foi dado por estar em maa despoziçam da teerra, e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessaria, fez mais Pinhel, e seu Castello, e nas Comarquas dantre Douro, e Minho, e Tralos montes fez estas Villas, e Fortalezas, ha saber, cerquou Guimaraães da cerqua, que agora teem, e Braga, e Miranda de Douro, e seu Castello, e Monçam, e Crasto Laboreiro, e povoou de novo, e fez hos Castellos de Vinhaes, e Villa frol, Alfandega, Mirandella, Freixo Despada Cinta, Villa nova de Cerveira, e fez de novo, e do primeiro fundamento Villa Real, que fazem numero de corenta, e coatro Villas, Castellos, e Fortalezas do Regno, de que algumas fez novamente, e outras reformou, e fez de novo hos Castellos, e assi fez outras muitas povoaçoens, assi como Muja, Salvateerra, Atalaia, Ceiceira, Montargil, e outras semilhantes, e fez ha rua nova de Lixboa, e assi ho Moesteiro de Sam Diniz Dodivellas em que jaas, ho quaal logo ha pouquos annos, que Regnou mandou começar, e em sua vida se acabou em dés annos, e foi logo dado aas molhores Monjas, pera que foi ordenado, porque ho Moesteiro de Sancta Clara de Coimbra fez, e dotou ha Rainha Dona Isabel sua molher, e nelle jaas, como aho diante direi.
Affonso III (El Rei D.) de Portugal, em que dia, e anno falleceo.Fez doação das Villas de Portalegre, e Marvão, e dos Castellos daVide, e Arronches a seu filho o Infante D. Affonso.
Affonso (D.) chamado o Casto filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, não cazou mas morreo Religiozo Franciscano.
Affonso (D.) Rei de Castella, Avô del-Rei D. Diniz de Portugal, fez doação a sua filha a Rainha Dona Beatriz, mãe do dito Rei D. Diniz, das Villas de Niebla, Serpa, Moura e Mourão.
Affonso (Principe D.) Filho herdeiro del-Rei D. Diniz em que anno, elugar naceo.Tendo sete annos, lhe nomeou seu pae officiaes para a sua caza.Em que parte se recebeo com a Infante Dona Beatriz.Discordias, que teve injustas com seu pai.Parte para Castella contra vontade de seu pai.Intenta matar a seu irmão Affonso Sanches, e quanto machinou paraeste fim.Continua em machinar novas falsidades contra seu irmão.He avizado pelo Papa João XXII, a que dezista do odio contra seuirmão, e não cessa de o perseguir.Intenta batalhar com seu pai, mas deziste deste intento.Toma os Castellos de Coimbra, Montemor e Feira, e a Cidade do Porto.Faz levantar o sitio que tinha posto a Badajoz o Infante D. Felippe.
Affonso (Infante D.) Filho del-Rei D. Affonso III de Portugal, cazoucom Dona Violante, filha do Infante D. Manoel, filho del-Rei D.Fernando II de Castella, e da Infante Dona Constança.Que filhos teve deste matrimonio.Deu-lhe seu pai as Villas de Portalegre, e Marvão, e os Castellos daVide e Arronches.Differenças que teve com seu irmão El-Rei D. Diniz.Fez guerra a seu irmão, e mata a D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya,e a D. Diogo Lopes de Campos.Cede das contendas, que tinha com seu irmão por intervenção de suacunhada Santa Izabel.Em que anno falleceo, e onde está enterrado.
Affonso (Infante D.) Filho do Infante D. Affonso, e Dona Constança filha de D. Jaymes primeiro Rei de Aragão, e neto del-Rei D. Affonso III de Portugal, foi senhor de Leiria, e falleceu sem filhos.
Affonso Pires de Gusmão, acompanhado de muitos Capitaens entra emPortugal onde obra algumas hostilidades, e priziona novecentos homens.
Affonso Sanches (D.) Chamado de Albuquerque, foi filho natural del-ReiD. Diniz.Seu filho D. João Affonso de Albuquerque cazou com Dona Izabel,filha de D. Tello, e Dona Maria neta del-Rei D. Affonso III dePortugal.He notavelmente aborrecido por seu irmão o Principe D. Affonso.
Arronches. O seu Castello, foi doado por El-Rei D. Affonsso III dePortugal a seu filho o Infante D. Affonso.He cercado por El-Rei D. Diniz.
Beatriz (Dona), mãe del-Rei D. Diniz, foi senhora das Villas deNiebla, Serpa, Moura, e Mourão por doação que dellas lhe fez seu paiD. Affonso Rei de Castella.
Benedicto XI. Manda Nuncio para pacificar a El-Rei D. Fernando deCastella com El-Rei D. Jayme de Aragão, e o Infante D. Affonso deLacerda.Insinua a El-Rei D. Diniz, que seja medianeiro nestas pazes.
Branca (Dona). Filha de Pedro Annes de Portel, cazou com D. Pedro filho natural del-Rei D. Diniz.
Carlos, Irmão de S. Luiz Rei de França, recebe a investidura dosReinos de Secilia, e Napoles do Papa Urbano IV, e vence na batalha deBenavente a Manfreu Rei de ambas as Secilias, na qual morreo.Cerca a Cidade de Messina, e levanta o sitio.Queixa-se ao Papa Martinho IV, da violencia com que o queriadespojar de Secilia El-Rei D. Pedro de Aragão.Dezafia a este Rei para Bordeos.Morre em Messina.
Celestino V. Confirma o privilegio concedido por seu AntecessorNiculao IV, de que se elegesse Mestre da Ordem de San-Thiago emPortugal independente do de Castella.
Clemente V. Como foi eleito, e das promessas, que fez a ElRei Felippe de França chamado o Fermozo.
Constança (Rainha Dona), Filha de Manfreu Rei de ambas Secilias, mulher delRei D. Pedro de Aragão, e mãe da Infante Dona Isabel, que cazou com El-Rei D. Diniz de Portugal.
Constança (Dona), Filha de D. Jaymes Decimo Rei de Aragão, e a RainhaDona Violante, cazou com o Infante de Castella D. Manoel, Avô daInfante Dona Constança, mulher que foi delRei D. Pedro I de Portugal.
Constança (Dona). Filha delRei D. Diniz de Portugal, e a Rainha SantaIsabel, cazou com D. Fernando III de Castella.
Constança (Dona). Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi cazada com Nuno Gonsalves de Lara de quem não teve geração.
Diniz (El-Rei D.) Em que tempo foi aclamado Rei e que idade tinha.Virtudes, e acções heroicas, que praticou.Hospedou magnificamente no seu Reino a pessoas muito grandes deCastella.Prendeo a João Nunes de Lara, senhor de Biscáya, e o soltoufazendo-lhe grandes mercês.Caza com a Infante Dona Isabel, filha delRei D. Pedro IV de Aragão,e que idade tinha quando se recebeo.Celebrão-se estes despozorios em Trancozo.Filhos legitimos, e naturaes que teve.Diferenças, que teve com seu irmão o Infante D. Affonso.Avista-se com ElRei D. Sancho de Castella, e ajusta com elle oscazamentos de seus filhos D. Affonso, e D. Constança.Ordena a seu irmão D. Affonso, que se não faça hostilidade algumacontra D. Sancho de Castella, e lhe não obedece.Manda cercar Arronches, Mourão e Portalegre, onde estava seu irmão.Por intervenção de sua espoza Santa Isabel se pacifica com seuirmão, e este lhe entrega as Villas e Castellos, que tinha em seupoder.Manda Embaixadores a ElRei de Castella D. Sancho porque lhe largueos Lugares, que lhe tem uzurpado.Por morte de D. Sancho manda novos Embaixadores a seu filho D.Fernando, e do que lhe disserão os Embaixadores, e de como seconcertarão estes Principes.Prepara se com exercito para vingar a inconstancia das promessasdelRei de Castella.Recebe por seu vassallo a D. Sancho de Ledesma, filho dos InfantesD. Pedro, e Dona Margarida, e lhe affirma copioza renda.Entra por Castella com exercito, onde faz muitas hostilidades.Toma o Castello de Medicina.He solicitado por El-Rei de Castella a que celebre com elle pazes, eassim o executa.Avista-se em Alcanizes com El Rei de Castella para ajustar as pazes,e os cazamentos mutuos de seus filhos, e de que modo se celebroueste acto.Parte de Alcanizes donde traz em sua companhia a Dona Beatriz, filhadelRei D. Fernando de Castella, para molher de seu filho D.Affonso.Das pessoas que nomeou para officiaes da Caza que fez ao Principeseu filho.Escreve-lhe o Papa Benedicto XI para que seja medianeiro entre asdiscordias delRei de Castella, e o de Aragão.Parte a Castella acompanhado da Rainha Santa Isabel, e muitosCavalleiros a compor as discordias, que havia entre os Reis deCastella e Aragão.Passa a Granada com Santa Isabel, onde é recebido magnificamente porElRei D. Jaymes e a Rainha Dona Maria.He arbitro em Tarraçona entre as contendas que havia entre D.Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão sobre o Reino deMurcia, e como os compoz.Voltando de Tarraçona é recebido por El-Rei de Castella e a RainhaDona Maria, onde deu preciosas joias a D. Affonso de Lacerda.Firma pazes com os Reis de Castella e Aragão.Não aceita dés mil dobras de ouro a ElRei D. Jaymes de Aragão quelhe tinha emprestado.Dá muitas e preciosas joias á Rainha Dona Branca, mulher delRei deAragão, e aos Senhores daquella Côrte.A meza de prata em que comia mandou dar a um Fidalgo que poresquecimento não tinha sido premiado como os outros.Que idade tinha, e em que anno fez esta jornada a Castella.Manda Martim Gonsalves de Souza seu Alferes mór com setecentoscavallos a ElRei D. Fernando para ajuda da guerra contra os mourose lhe empresta dezasseis mil, e seis marcos de prata para o mesmofim.Funda em Coimbra os primeiros estudos, que houve em Portugal, e comoalcançou do Papa João XXII privilegios para elles.Izenta os Cavalleiros de San-Thiago da obediencia do Mestre deCastella, e institue Mestre em Portugal por Bulla de Niculao IV.Ajusta com D. Fernando de Castella os bens dos Templarios dos seusReinos não fossem dados pelo Papa a outra Ordem.Representa por seus Embaixadores ao Papa João XXII não serconveniente, que as rendas dos Templarios se dessem aos doHospital de S. João.Institue a Ordem Militar de Jesus Christo a quem assina as rendasque erão dos Templarios.Assina para gasto de seu filho D. Affonso quando cazou com a InfanteDona Beatriz, alem de muitas Villas que lhe deu, outenta millivras de prata.Sentimento que teve com a morte de seu neto o Infante D. Diniz.Relatão-se as discordias que teve com o Principe seu filho.Manda o processo que este Princepe tinha machinado para matar seuirmão D. Affonso Sanches, e acha ser falso.Pratica que fez na prezença dos seus vassalos quando descubrio serfalso tudo quanto tinha machinado o Princepe seu filho contra D.Affonso Sanches seu irmão.He buscado por seu filho para lhe dar batalha.Manda a Lourenço Annes Redondo, que mate a todos os que deramentrada em Santarem ao Princepe seu filho, e assim se executa.Por intervenção da Rainha Santa Isabel, se concerta com seu filhe D.Affonso.Avista-se em Guinaldo com a Rainha Dona Maria, e o que aqui passou.Significa aos Reis de Castella o sentimento que teve com a morte dosInfantes D. Pedro e D. João.Pede-lhe seu neto El-Rei D. Affonso de Castella os danos que fazianaquelle Reino seu tio o Infante D. Felippe, e o obriga a levantaro sitio de Badajoz.Celebra Côrtes em Lisboa, onde não assiste o Princepe D. Affonso seufilho.Sem embargo de que não queria que entrasse em Lisboa seu filho, esteo executa com gente armada de que se seguirão muitas mortes.Em Santarem depois de uma grande contenda, se compõem com oPrincepe.Legados que dispoz, antes de morrer.Em que lugar, dia e anno morreo.Foi levado a enterrar ao Mosteiro de S. Diniz de Odivellas que ellefundara.Das açoens heroicas que obrou, e das Villas, e Cidades que fundou, ereedificou.
Diogo Garcia, Chanceller mór do sello da puridade delRei D. Diniz, e Mordomo mór da Rainha Dona Constança sua mulher assiste em Tarraçona com o mesmo Princepe para compor as discordias, que havia entre D. Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão.
Filippe (El-Rei de França) chamado o Fermozo, como concorreu para serPontifice Clemente V a quem pedio que queimasse o corpo de BonifacioVIII.Á sua instancia, extinguiu o Papa a Ordem dos Templarios.Morre desgraçadamente, e que filhos deixou.
Felippe, (Ifante D.) Tio delRei de Castella, cerca a Badajoz, e é obrigado a levantar o sitio pelo Princepe D. Affonso, filho delRei D. Diniz.
Fernando, (El-Rei D.) Terceiro de Castella, cazou com Dona Constançafilha delRei D. Diniz, e Santa Isabel.Com que circunstancias, e conveniencias foi contratado este casamento.He requerido por El-Rei D. Diniz, que largue os Lugares, que lhe tinhauzurpado, e da pratica que lhe fizerão João Annes Redondo, e MemRodrigues Rebotim Embaixadores de Portugal.Recebe-se por palavras de prezente com a Infante Dona Constança, e dapratica que fez aos circunstantes.Sahe a receber a El-Rei D. Diniz com o Infante D. João na Villa deCoelhar.Pede soccorro a D. Diniz para continuar a guerra contra os Mouros, elhe manda setecentos cavallos, e lhe empresta para a mesma emprezadezasseis mil, e seiscentos marcos de prata.Dá-lhe em caução deste emprestimo as Cidades de Badalhouse, Alconchel,e Brugilhos.Cerca Algezira, e levanta o sitio.Onde morreo, e de que idade.
Gibraltar foi tomado aos Mouros por João Nunes de Lara.
Gil Martins, (D. Fr.) He eleito primeiro Mestre da Ordem militar de JesuChristo, instituida por ElRei D. Diniz.
Guimarães, o seu Castello é defendido por Mem Rodrigues de Vasconcellos, contra a invasão do Infante D. Affonso.
Henrique (Infante D.) Filho delRei D. João I de Portugal, foi perpetuo administrador da Ordem de Christo.
Honorio II. Deu regra aos Templarios.
Isabel, (Rainha Santa) Filha de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, sendopretendida de muitos Princepes para espoza, é preferido entre todosElRei D. Diniz de Portugal.Acompanhada do Bispo de Valença, e outros Cavalleiros, parte paraPortugal, e como della se despedio seu pai.Sahe a recebella em Castella seu primo com irmão, o Infante D. Sancho,e das palavras, que lhe disse.Chega a Bragança, onde é cortejado pelo Infante D. Affonso irmãodelRei D. Diniz, e outros Cavalleiros.Virtudes que praticou em toda a sua vida, e milagres que fez.Por sua intervenção, e deligencia, se ajustarão as discordias del-ReiD. Diniz com o Princepe seu filho.Segunda vez pacifica ao mesmo Princepe com seu pai.Por morte de seu Espozo se veste no habito de Santa Clara.Edifica o Convento desta Santa em Coimbra, e o dotou da sua fazenda, enelle está sepultada.