CAPITULO XLIII

Mandou a Rainha velar e afortalezar Alanquer, onde tinha El-ReiA Rainha estava em Alanquer, onde tinha El-Rei e seus filhos, como já disse. E por lhe ser dito que depois do accordo de Lisboa, o Infante D. Pedro se percebia em Coimbra de gentes e armas, e que a fama e rumor era, ainda que falso fosse, para a vir cercar e a levar d'alli e El-Rei ás côrtes de Lisboa; tendo sobr'isso conselho, e não tomando o que mais devia, mandou velar, afortalezar e repairar a villa de muros, gentes, armas e mantimentos, e se poz em som de defeza, se tal caso sobreviesse. Com que ácerca do povo não aproveitou, mas damnou muito suas cousas; porque acrecentou e confirmou a muitos a suspeita que se d'ella havia, em esperar para seu socorro e ajuda gentes de fóra do reino.CAPITULO XLIIIDissensão que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o Infante D. AnriqueSentindoa Rainha que o Infante D. Anrique, com quanto se mostrára sempre a seu serviço, seguia acerca do Regimento a parte do Infante D. Pedro. Por causar entre elles suspeita e differença em sua conformidade. Ou por ventura e maiscerto, por lh'o fazerem assi crêr. Escreveu secretamente de sua mão ao Infante D. Anrique que se não fiasse do Infante D. Pedro. Porque elle para haver com menos impedimento o Regimento que procurava, e mais soltamente usar d'elle, como era sua vontade, sabendo que não havia no reino de quem esperasse contradição, salvo d'elle, soubesse certo que o queria prender, de que sua vida não estaria muito segura. E ante que a carta d'este aviso fosse dada ao Infante D. Anrique, que estava em Soure, o Infante D. Pedro, que era em Montemór-o-Velho, por meios secretos que trazia, foi d'ella primeiro sabedor. E para preservar a vontade do irmão, que com tamanha falsidade contra elle em alguma maneira se não damnasse, partiu a gram pressa e mui aforrado, e lhe foi fallar, não lhe revelando cousa alguma da carta que lhe havia de vir; mas acceitando geralmente seu coração, com a firmeza de seu amor e amizade, para os movimentos e desaccordos que se lhe aparelhavam. Pedindo-lhe, que se contra elle viessem a suas orelhas algumas cousas, que a isto contrariassem, que as não recebesse em seu juizo, e d'elle cresse que o amava como a si mesmo.O Infante D. Anrique não se saltou muito com aquella vinda; porque lhe parecia que os tempos e as mudanças d'elles o causavam e requeriam. E porém com palavras que em siso e prudencia, e confiança não desacordaram das do Infante seu irmão, lhe respondeu e o despediu.A dois dias que o Infante D. Pedro se partiu, chegou Martim de Tavora ao Infante D. Anrique com a carta da Rainha que disse. E como a viu, maravilhado da sustancia d'ella, se foi logo a Coimbra só, onde já era o Infante D. Pedro. Ao qual mostrando-lhe a carta disse:«Vêde senhor irmão o que me escreve a Rainha;mas porque vejaes bem o temor que tenho de vós, venho assi percebido e seguro a vossa casa.»E o Infante D. Pedro rindo-se, e com mostrança de grande amor, o abraçou e lhe disse:«Senhor irmão, não me espanto taes tempos e taes vontades criarem fruita tão nova. E porque sabia já que vos haviam de convidar com ella, sem vo-lo dizer vos fui falar. Cá não eram a outro fim as cautellas da segurança que vos de mim fui dar; porque ainda que sobre tanta razão e firmeza pareciam então escusadas. Sabei que o receio d'este damnamento as não escusou. E porém a prisão que vós aqui recebereis será a honra e amor que de mi sempre recebestes, e me vós mui bem mereceis.CAPITULO XLIVEmbaixada dos Infantes á RainhaAlliestiveram os Infantes alguns dias, e com elles o conde de Barcellos seu irmão. E para com mais repouso e menos torvação proverem as cousas do reino, se foram ao logar da Pereira, onde accordaram que o conde de Barcellos fosse á Rainha requerer-lhe com razões assás justas e necessarias, que fosse ás côrtes de Lisboa que haviam de ser o derradeiro dia de Novembro. E que se para sua ida e dos seus quizesse alguma segurança, ainda que não fosse necessaria, lh'a dariam na fórma que apontasse.Partiu o conde de Barcellos para Alanquer, e por seu aviso, no dia que chegou foi ahi com elle seu filho o conde d'Arrayollos, que estando comendo seajuntaram em sua casa por modo de visitação as pessoas principaes que hi eram. O conde lhes estranhou logo com palavras honestas e razões muiefficazes, os alvoroços que na villa faziam de vellas e roldas, e tomamento d'armas aos vassallos, que pareciam começos de guerra, e como cousa feita por errado conselho a fez amansar, e tornar todo a estado pacifico. Foi logo o conde fallar á Rainha, e lhe disse:«Senhora, os Senhores Infantes meus irmãos e eu, acordamos de eu vir a vós para sustancialmente saberdes que para concordia e bom assento dos grandes movimentos e negocios, que ora são n'estes reinos, assi do Regimento d'elles, como da cisma dos Papas e livramento do Infante D. Fernando, é mui necessario fazer-se côrtes geraes ante do saimento, ás quaes é bem que El-Rei nosso Senhor e vós vades. E elles e eu assi vo-lo pedimos que o queiraes fazer.«A mim prazera, respondeu a Rainha ir ás côrtes como requereis, se ante d'ellas as cidades e villas do reino revogarem a enleição do Regimento que tem feita ao Infante D. Pedro, e elle a renunciar. E mais por quanto alguns fidalgos e outras pessoas por juramento são obrigados, assi a mim como a elle, de sosterem a parte que seguirmos, é bem que tudo isto se revogue, para uns e outros poderem livremente dizer e conselhar o que lhes parecer serviço de Deus e d'El-Eei meu filho Senhor, e bem de seus reinos. E se isto primeiro assi se não faz, eu por alguma maneira não irei ás côrtes.»Com esta resposta assignada pela Rainha se partiu o conde para Coimbra, onde achou sómente o Infante D. Pedro. O qual depois de a vêr, disse:«A inclinação que os povos sem mim e meu requerimento acordaram, elles pois tem o poder se o assihouverem por bem a revoguem. E para isso é mais razão e mór necessidade que a Rainha vá ás côrtes, onde por ella e por aquelles que seguem sua vontade se poderá acerca d'isso requerer o que lhes parecer direito e justiça, e eu o não contradirei. Cá em caso que quizesse, hi haverá taes pessoas para sostimento de tamanha justiça e honestidade, que minha resistencia aproveitaria pouco. E quanto ao juramento de que aponta que releve os que seguem minha parte, seja certa que com verdade nunca se achará um só, que para tal obrigação me seja obrigado, e se alguns o são, não é por semelhante força, nem contra suas vontades, mas sómente por criação ou bemfeitoria que de mim tem recebido.»O conde de Barcellos se foi logo a Guimarães, onde fez ajuntar D. Sancho, e o Arcebispo de Braga, e Vasco Fernandes, e Martim Vaz da Cunha, e Pero Gomez d'Abreu, e Lionel de Lima, e Alvaro Pirez de Tavora, e Luiz Alvarez de Souza, que segundo geral opinião seguiam todos a parte da Rainha, e com elles concertou que escusassem sua ida ás côrtes, posto que elle fosse, e que em qualquer forma que a qualquer parte ficasse o Regimento, sempre seria com segurança de suas honras, e esperança de mais seu acrecentamento.CAPITULO XLVRecado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para Lisboa ás côrtesO Infante D. Pedro partiu de Coimbra para Lisboa, e com elle álem dos de sua casa, João Gomez da Silva, e D. Fernando de Menezes,e Alvaro Gonçalves de Tayde, e D. Fadrique de Castro, e Fernão Coutinho, irmão do marechal, e Gonçalo Vaz Coutinho, meirinho mór, e Pero de Lemos, e João de Tayde, senhor de Pena Cova, e a gente do Bispo de Coimbra, que faziam numero de mil e oitocentos homens de cavallo, e dois mil e seiscentos de pé, da qual cousa a Rainha foi avisada, e sendo certificada que o Infante havia de Torres Vedras ir a Alanquer para comsigo segundo diziam levar logo El-Rei ás côrtes, e receosa de assi ser, pelo desviar de tal proposito enviou a elle Anrique Pereira, que o topou em Alfazeirão, pedindo-lhe «que na maneira em que ia escusasse sua ida onde El-Rei e ella e seus filhos estavam, assi porque pareceria desacatamento, estando elles tão sós, como por a villa não ser capaz de seu aposentamento, e menos bastante para os manter. E que se sua ida assi era necessaria, que se não podia escusar, que quizesse ir muito aforrado.»Como o Infante isto ouviu disse:«Anrique Pereira, vossa vinda sobre tal caso fôra bem escusada, e verdadeiramente assi me salteam estes accidentes, que não sei que vos responda, sómente dizei á Senhora Rainha, que me doem muito estas sospeitas, e porém saiba que dos que se mais mostram a seu serviço, se deve mais guardar, pois tão erradamente a aconselham, e mais contra mim que desejo mais de a servir que a nojar. E que não fallo no que cumpre ao estado e serviço d'El-Rei meu Senhor; porque em desejar de o lealmente servir e amar, não darei avantagem a nenhum do mundo.E com este recado se tornou Anrique Pereira á Rainha.Seguiu o Infante sua viagem até o Lumiar, onde a petitorio dos da cidade de Lisboa, que ante de sua entrada quizeram fallar primeiro com elle, sobre-estevealguns dias. Aos quaes com palavras de grande aguardecimento e mercês, tendo respondido, despediu a gente que com elle viera, leixando sómente os seus continos e alguns que para as côrtes vinham ordenados.Lisboa porque seus accordos eram mui difficeis, e para os particulares não havia perfeita auctoridade, deputou doze cidadãos, a que por consentimento de todos o conselho e deliberação de todalas cousas de peso, que entãooccorriamfoi comettido. Os quaes juntos sustancialmente accordaram que o Infante fosse logo declarado por Regedor in solido, sem outra ajuda nem companhia, até El-Rei ser em idade de per si o poder reger. E este accordo foi publicado a todo o povo no refeitorio de S. Domingos, onde logo com vozes e signaes de todos foi sem contradição approvado e consentido.E os cidadãos enviaram logo ao Infante Pero de Serpa, e Martim Çapata, e Ruy Gomez da Grã, e João Carreiro a notificar-lhe o accordo passado, e pedir-lhe que ao outro dia quizesse entrar e ser seu hospede, com fundamento, que primeiro havia de prometter e jurar que logo só sem outra companhia nem ajuda começasse uzar do Regimento inteiramente. O Infante depois de lhes aguardecer sua ida e tenção, lhes disse:«Amigos, sabei que n'este caso acordastes mais o que quizestes, que o que devieis; porque eu n'elle para o que a mim cumpre tambem não posso fazer se não o que devo, que é d'este cargo não me antremeter assi absolutamente, sem meus irmãos e sobrinhos, e sem os procuradores dos tres Estados que para isso são chamados. Porque do contrairo, a uns será desacatamento, e a outros causaria escandalo. Pelo qual me parece que a trigança para isso não é agoranecessaria; mas que deveis sobre-ser até as côrtes que serão logo. E o que n'ellas se accordar e determinar, isso será o que se então deve fazer e cumprir».«Senhor, disseram elles, essas justificações de que vossa honestidade se acautella, bem era que cessem assi; mas ellas para este caso já são feitas; porque das cidades e villas, que n'elle hão de dar voz, aqui temos por suas cartas seus consentimentos. E para o cumprimento de vossos irmãos, aqui tendes vosso irmão o Infante D. João que o requere assi e ha por bem. E com os outros já fallastes, que o não contradizem. E por tanto Senhor, vos pedimos que não alongueis o que vos tão justa e devidamente offerecemos. Nem deis causa que de vossa escusa se sigam alvoroços e desconcertos de povo, que serão depois impossiveis, ou mui trabalhosos de concertar.»CAPITULO XLVIEntrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as côrtes acceitou o RegimentoE como quer que da vontade do Infante fosse todavia leixar tudo para determinação das côrtes. Porém vendo-se constrangido dos cidadãos, teve conselho com esses principaes que trazia, dos quaes todos foi aconselhado, que ao outro dia entrasse na cidade e fizesse o que ella lhes requeria, pois o contrairo pelas cousas que eram já n'isso passadas, não contradizia a honestidade nem razão. Pelo qual o Infante consentiu no entrar ao outro dia. E defendeu a solemne procissão e outros grandes estrondos e cerimonias com que ordenavam de o receber.Mas que seu recebimento fosse sómente ao costumado que lhe sohiam fazer sem outra ennovação.Ao outro dia entrou o Infante, sendo no caminho recebido do Infante D. João e de todolos fidalgos e pessoas de conta da cidade com gram prazer e alegria. E assi foi levado ás casas do Mestre d'Aviz, que estão junto com a Sé, onde pousou.E ao outro dia, dia de Todolos Santos, foi ouvir missa á Sé, onde lhe foi requerido que o juramento que a cidade tinha acordado, elle o fizesse, como logo fez, nas mãos de D. Alvaro d'Abreu, Bispo d'Evora, onde publicamente jurou e prometeu com as mãos postas sobre os Evangelhos e Cruz, de bem e lealmente reger e defender estes reinos em nome d'El-Rei D. Affonso seu Senhor, até ser em disposição de os per si poder reger e defender, e que então lh'os entregaria livremente e sem contradição nem cautella, e o serviria sempre com amor e lealdade, como bom e leal vassallo.Tardou o ajuntamento das côrtes até os dez dias de Dezembro, onde os Infantes com todolos procuradores sendo juntos nos Paços d'Alcaçova, o Infante D. João se levantou em pé e disse que algumas cousas que a todos ali queria propoer por serviço de Deus e d'El-Rei, e bem do reino, por não estar por então em disposição de per si as poder dizer, encomendou ao doutor Diogo Affonso Mangancha que por elle as dissesse, pedindo-lhes que logo o ouvissem.O doutor que era presente, cessando todo o rumor, propoz uma arenga grande e bem dita, cuja sustancia foi aprovar em nome do Infante D. João, que fôra bem feito enleger o Infante D. Pedro por só Regedor, contradizendo o accordo e determinação das côrtes de Torres Novas, em que o Infante não fôra, e de si mostrou com claras razões, aprovadas por Direito Divinoe Humano, e autorizadas por claros exemplos, que mulher não devia ter Regimento. Nem que dois em companhia não deviam reger; mas um só, e para ser um só devia ser o Infante D. Pedro, e que a Rainha servissem e acatassem todos como era razão e o requeria ser mulher e madre de taes dois reis, sangue e virtudes que tinha.Foi por todos geralmente consentido na proposição do doutor, e aprovaram sem contradição o Infante D. Pedro haver só de reger, de que se fez um accordo que testemunharam quatro notairos que a todo eram presentes, Lopo Affonso e Ruy Galvão, e Martim Gil, e Gonçallo Botelho, officiaes da camara e fazenda de El-Rei. O qual accordo foi logo por todos alli assignado, salvo pelo conde d'Arrayollos, que se escusou de o assignar, nem chamou depois ao Infante Regente, mas seu nome; como quer que obedecesse a seus mandados inteiramente, e melhor que alguns que o enlegeram e assignaram.Foi isso mesmo acordado que o Infante fizesse como fez, juramento na fórma do passado, de reger bem o reino e o entregar livremente a El-Rei, como fosse em edade e disposição de o por si reger e deffender. E certo o Infante D. Pedro o fez assi sempre bem, e como devia, que para ser louvado sobre todolos Principes de seu tempo, não lhe falleceu se não ser Rei; porque em Regedor não dava assi as cousas á inteira execução que se requeria. E tudo por temperança e assessego do reino, e por evitar escandalos, odios, invejas a que não pôde fugir, cá em fim o encalçaram com a morte, e com quebra de seu estado, como adiante se dirá.CAPITULO XLVIINotificação do acordo passado á Rainha, que o não consentiuO Infante D. Pedro por si só, e des-hi os outros infantes, condes e fidalgos e procuradores das cidades e villas que foram presentes, por suas cartas notificaram logo á Rainha que estava em Alanquer, todo o passado, com razões e fundamentos de serviço de Deus e d'El-Rei, e grande descanço d'ella. Pedindo-lhe todos com muito acatamento que o houvesse assi por bem e quizesse trazer El-Rei á cidade para lhe ser feita a reverença que lhe todos deviam e desejavam fazer. E para em sua presença se tratarem algumas cousas, que a seu estado e serviço, e bem de seus reinos convinham.Com este recado o Infante enviou á Rainha Alvaro Gonçalvez de Tayde, governador de sua casa, homem prudente e bem razoado, e de que muito fiava.A Rainha recebeu a messagem com signaes de grande tristeza, e por conselho dos que com ella eram, sustancialmente respondeuque se os Senhores Infantes, condes e povo, revogassem a enleição do Regimento, que era feito ao Infante, e o dessem a ella como eram obrigados, seria contente levar El-Rei á cidade. E d'outra maneira que o não faria. E ao dar da resposta tomou d'isto estromentos por seu resguardo.Tornou-se Alvaro Gonçalez aos Infantes com esta resposta, e vendo-a contraira a sua determinação, acordaram de enviar a ella com a mesma sustancia Affonso Nogueira, que depois foi Arcebispo de Lisboa, e o ministro de S. Francisco, confessor d'El-Rei, como pessoasesprituaes, e de boas conciencias, os quaes como quer que para a commoverem a consentir no passado lhe dissessem causas e razões para Deus e para o mundo assaz evidentes, ella forçada por ventura de sua fraca humanidade, ou dos errados conselheiros, que em contrairo tinha ouvido, acusou compalavrasmui honestas a si mesma, e a dureza de sua conciencia por o não poder fazer. E em fim nem consentiu em o Regimento lhe ser tirado, nem de levar El-Rei, nem dar lugar que fosse por outrem levado a Lisboa, com quanto lhe fossem feitas grandes seguranças de logo El-Rei lhe ser tornado, como na cidade estivesse alguns dias.CAPITULO XLVIIIIda do Infante D. Anrique á Rainha para leixar vir El-Rei ás côrtes, e lh'o tornaremComeste recado foram os Infantes mui descontentes, e o povo mui alvoraçado, e leixadas muitas praticas e tenções que se moveram, finalmente foi acordado que o Infante D. Anrique por derradeiro e principal cumprimento fosse sobre o mesmo caso a ella, como foi.E apartados ambos, o Infante lhe fez uma falla, em que obrou tanto sua virtuosa tenção e bom proposito com que ia, que demoveu a Rainha ao que desejava. D'onde foi de crêr, segundo era virtuosa e amiga de Deus, que se conselheiros apassionados a não torvaram, ella e sua vida e estado conseguiram outro fim de mais sua honra e descanso.Ao outro dia partiu d'Alanquer o Infante D. Anrique com El-Rei e com a Rainha e Principe, paraSanto Antonio, camara do Arcebispado de Lisboa, e o Infante D. Pedro, sabendo que a Rainha não resistiria ao Infante D. Anrique, e viria ao que elle quizesse e levava ordenado lhe requerer, se foi de Lisboa a Alverca, d'onde sahiu ao caminho, e com grande acatamento beijou as mãos a El-Rei e á Rainha, como quer que ella se quizera d'isso muito escusar, e assi chegáram a Santo Antonio bespora de Natal, onde foi acordado que El-Rei e a Rainha tivessem a festa. A qual passada, os Infantes todos tres foram por El-Rei e por o Principe seu irmão. Dando primeiro á Rainha segurança por seus assignados, de logo lhe tornarem El-Rei a seu poder, criação e governaça.CAPITULO XLIXEntrada d'El-Rei em Lisboa para as côrtesVeiuEl-Rei por agua até Lisboa e foi recebido á Porta d'Oura, e d'alli levado á Sé e aos Paços d'Alcaçova. Indo El-Rei e seu irmão e os Infantes sómente a cavallo, e os condes e outros senhores foram todos ante elles, e esse recebimento foi com tantas cerimonias d'acatamento, obediencia e alegrias assi celebrado, que em qualquer parte do mundo onde mui altamente recebimentos se costumassem fazer, este fôra mui muito louvado, e o Infante D. Pedro foi só o que poz El-Rei a cavallo e o deceu. O que não sómente fez aquelle dia, com assignado acatamento e leal obediencia e grande reverencia, mas sempre depois o continuou e acrecentou, em dez annos que por elle regeu seus Reinos. Cá por si o serviu e fez aos outros servir com tamanho cumprimento de seuestado e serviço que se não póde dizer que outro algum Principe fosse melhor criado no mundo, nem ensinado.Mandou logo o Infante D. Pedro a Ruy Gonçalves de Castel-Branco, védor que fôra d'El-Rei D. Duarte, que fizesse nos paços correger em grande perfeição a salla em que El-Rei havia d'estar nas côrtes. E concordado o dia, que foi aos dez dias de Dezembro de quatro centos e XXXIX, e assentado El-Rei em sua cadeira, e acompanhado de senhores e officiaes, como para auto tão real convinha e se acostumava, o doutor Diogo Affonso Mangancha propoz a arenga em nome d'El-Rei ao povo, cuja principal sustancia foi: «aprovar e confirmar a enleição por elles feita de o Infante D. Pedro para por elle reger, e agardecer-lhes e prometer-lhes mercês, honras e liberdades pela assi fazerem, e assi encommendar ao Infante que o fizesse assi bem e direitamente, como d'elle confiava, e mandar a todos que lh'obedecessem, como á sua propria pessôa».E em acabando o doutor, o Infante D. Pedro com os giolhos em terra beijou a mão a El-Rei, e sua Senhoria lhe entregou logo um páo em que estava atado o sello secreto, em signal e nome de poderio. E como se deu fim a estas cousas, foi logo El-Rei tornado á Rainha sua madre, segando pelos Infantes lhe fôra prometido.O Infante D. Pedro na casa das côrtes fez logo ajuntar os do povo e alguns do conselho, e sendo entre elles em pé, lhes disse com muita gravidade:—«que pelo grande cargo do Regimento que lhe fôra encommendado, era necessario elle fazer de si outro homem».—Pelo qual lhe fez alguns avisados amoestamentos, em signal de sua grande bondade e muita prudencia, para os que bem e direitamente vivessemesperassem d'elle em nome d'El-Rei seu Senhor, bem e mercê, e assi pena e castigo aos que o contrairo fizessem, encommendando-lhes outrosi que o amassem e lhe obedecessem, e quizessem ajuda-lo e deffende-lo com seus corpos e fazendas, assi como elle faria a elles mesmos quando lhes cumprisse. E principalmente que confiassem d'elle que todo o que fizesse seria afim de bem e justiça, em caso que lhes parecesse o contrairo. Ás quaes cousas lhe foi por um deputado respondido, conforme a sua tenção e petitorio, e o Infante descobrindo sua cabeça lh'o agardeceu.O conde de Barcellos mostrava d'este feito não ser contente, e desejoso de haver para si alguma parte do Regimento, e por enfraquecer ao Infante seu poder fez e ordenou certos capitulos em fórma de Regimento, que o Infante havia de ter em sua governança. Pelos quaes todolos feitos principaes tirava de seu juizo e os remetia ás côrtes, que cada anno apontava que se fizessem. O qual Regimento mostrado aos procuradores dos povos, houveram por escusado ennovar-se mais do que tinham acordado, e El-Rei aprovado. De que o conde mostrou ser assáz descontente, e começou logo de requerer a restituição da posse do Arcebispado ao Arcebispo D. Pedro seu cunhado; e porque não podia ser sem prazer e consentimento dos cidadãos, que d'elle tinham apellado para Roma, o Infante D. Pedro por contentar e assessegar vontades contrairas, e tirar inconvenientes e torvaçõas a seu regimento, e assi tambem o Infante D. João, entenderam e trabalharam n'isto muito com diligencias, que pareciam verdadeiras e não fingidas. E em fim a cidade por Pero de Serpa seu cidadão, se escusou de o consentir com muitas razões, em que pareceu que não fallecia serviço de Deus, honestidade e muita justiça. Afirmando,que todavia haviam de seguir sua appellação, durando a qual seria o Arcebispo suspenso, e trabalhariam porque fosse privado, e por esta dureza que os infantes acharam nos cidadãos, pela mais não agravar, houveram por bem leixar por então este requerimento, esperando que depois se faria melhor, como fez. De que o conde de Barcellos não sómente contra os cidadãos, mas contra o Infante principalmente, mostrou grande sentimento, parecendo-lhe que por sua conjuntura e prazer a cidade tinha aquelle esforço de resistir.A estas côrtes entre as outras graças e liberdades que o Infante D. Pedro em nome d'El Rei outorgou ao povo, foi que não houvesse aposentadoria em Lisboa, fazendo estados e casas, em que se El-Rei e sua côrte podessem alojar; e depois se deu assi a Evora e Santarem.CAPITULO LDe como se apontou e aprovou não ser bem El-Rei se criar em poder da RainhaEstandojá as côrtes e despachos d'ellas em conclusão para os procuradores se poderem ir, um João Gonçalvez, procurador da cidade do Porto, com outro seu parceiro se foram á camara de Lisboa, sendo os officiaes d'ella em vereação. E cuidando os da cidade que iam despedir-se d'elles, como era de cortesia e custume, João Gonçalves disse:«Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vós e todolos outros nossos irmãos e parceiros, que em nome do reino a estas cortes viemos, as daes já por acabadas. E certo muitas cousas, mercês a Deus, seconcludiram n'ellas; porque El-Rei nosso Senhor é mui servido, e nós contentes. Porém a principal ficou por requerer e fazer. Sem a qual, todo o que se fez a nosso parecer é nada ou aproveita muito pouco».Os cidadãos enleados de sua proposição, sabendo que era homem d'autoridade, cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os rostos e as vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:«Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que por se escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se não escusam, El-Rei não deve ficar em poder da Rainha como está, e alguns apontarei e os outros mais vós por vossa discrição e saber os entendei. Primeiramente a criação d'El-Rei por ser em poder de mulher, é a elle mui danosa, e sempre por isso ficará fraco e feminado. Que para qualquer homem privado é aleijão sobre todos, quanto mais para Rei. E se as comparações não fossem odiosas, e isto não fosse tão claro, por exemplos bem vo-lo poderia provar. Outrosi de sua creação, por tal maneira está mui evidente o perigo do Infante D. PedroRegente, e tambem nosso; porque segundo a Senhora Rainha, isto que acordamos sente por sua deshonra e grande quebra de seu estado, como em suas cartas e protestações parece claro, não é duvidar que criaria El-Rei em odio contra o Regente e contra nós, de que ao diante poderia por isso commeter uma grande crueldade, em que não haveria remedio. Porque como naturalmente aquellas cousas que os moços recebem na tenra edade se lhe emprantam no coração e em sua memoria para sempre, esta principalmente se lhe emprantaria muito mais, por lhe ser dita tão a meude, e com tantas lagrimas. Outro dano é a que se deve atalhar o crecimento de despezas desordenadas, a que as rendas do reino não bastáram. Cá umas são necessariasao Regente para manter seu estado e do reino, e outras cumprem de necessidade a El-Rei e a seu irmão, e outras á Rainha e suas filhas. Com outros inconvenientes que agora são escusados apontarem-se».Aos cidadãos pareceu bem o motivo de João Gonçalves, e fizeram logo avisar os outros procuradores, que logo á tarde foram hi juntos, onde depois de havidas algumas praticas e altercações sobre o caso, accordaram que El-Rei e seu irmão deviam todavia ficar em poder do Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram, pedindo-lhe que o quizesse assi consultar com os Infantes seus irmãos, com os quaes ordenasse que se cumprisse.O Regente depois de ouvir dois cidadãos que a elle sobr'isso foram, lhes respondeu:«Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e não me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolação e contentamento como é razão e está concordado, como tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria moço é, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não queira e o defenda, é certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella requere e é razão; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo «Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e não me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolação e contentamento como é razão e está concordado, como tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria moço é, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não queira e o defenda, é certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella requere e é razão; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo não posso escusar, especialmente refreando El-Rei e seu irmão em cousas aque sua mocidade os inclinará, em que por ventura mereceram mais emmenda e reprensão que louvor.»Os cidadãos lhe replicaram:«Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande saber, sem errar vos póde dizer que d'outra maneira o entendeis, do que o fallaes. E por tanto isto que vos propozemos é assi em nós todos tão determinado para se cumprir, como o mais que fizemos. Cá se o passado foi proveitoso, n'isto ha proveito e necessidade; porque não é razão, nem queira Deus que um tão alto Principe como é El-Rei nosso Senhor, e que em tão pequenos dias nos dá de si tantas esperanças de bem entendido e virtuoso, seja assi creado em tanto aleijão, como é a criação em poder de mulheres. Antes pois em vós para isso ha tantas razões, é razão que o crieis e façaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao monte e á caça, e lhe mostreis por vós o exercicio das armas, e por exemplos e doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias, manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convém, assi para os tempos publicos, como secretos, e com isto elle é de tão são e perfeito entender, que conhecerá que o servis bem e lealmente. E por isso vos amará e fará aquelle acrecentamento e mercê, que lhe prazendo a Deus merecereis.»O Regente acalçado n'este caso da necessidade e razão de que se não sabia escusar, disse: «que se fallasse aos Infantes seus irmãos, e o que elles accordassem por melhor, elle o seguiria.» Aos quaes por os procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ás outras pessoas d'estima que eram na côrte. E por todos finalmente foi accordado: «que pospostas todalas cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poderdo Regente». O que em pessoa lhe foi logo assi notificado. O qual disse:«Certo não por resistir a vosso conselho e determinação, a que folgarei sempre de obedecer. Mas a mim parece que n'este caso o melhor será que a Senhora Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguirá que sua Senhoria criará El-Rei meu Senhor seu filho, e eu vê-lo-hei e servirei nas cousas que apontaes, quando fôr necessario. E prazendo a Deus, eu o farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella, que sua Senhoria terá razão de conhecer de mim a verdade de que sempre duvidou, e perderá com isso alguns queixumes e escandalos que sem causa lhe fizeram ter contra mim.»E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle á Rainha, que ainda era em Santo Antonio, á qual pelo Infante D. Pedro e por os outros Infantes foram mui verdadeiramente ditas todalas cousas e razões que no caso havia para o haver de seguir. Mas ella finalmente não quiz, salvo que lhe ficasse a governança da fazenda juntamente com a criação de seus filhos, referindo-se ao accordo das primeiras côrtes. E que se das rendas para serviço d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi não poder ser, e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que accordáram, a ella não prouve. E os Infantes vendo sua determinação, se despediram d'ella para ainda consultarem se se acharia algum bom meio com que ella ficasse contente.CAPITULO LIComo a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irmãoPartidosos Infantes, a Rainha a esses principaes que com ella eram notificou logo os apontamentos de sua vinda. E assi a conclusão com que ficara, e quiz d'elles saber o que lhes parecia, dizendo:«Não pode ser mór angustia da que meu coração tem n'este caso. Cá de uma parte o sentimento e nojo que tenho do Infante D. Pedro me faz desejar não haver cousa no mundo para o poder vêr, e d'outra segundo o que sinto, isto é já quasi privarem-me de meus filhos. Cuja natural piedade e grande amor que lhes tenho, me constrange não os leixar. Especialmente me obriga muito parecer-me que segurarei com a graça de Deus suas pessoas, de que teria mór esperança, e com menos receios, que de andarem sem mim em poder do Infante D. Pedro. O qual segundo já descobre sua grande cubica para reinar, quem duvidaria que para o fazer mais livremente, não lhes encurtara mais cedo as vidas. E n'elle ha muitas dessimulações e hipocresias com que tudo saberá mui bem encobrir. Assi que n'estes dois tamanhos extremos não sei qual meio tome, ou ter meus filhos e andar com elles por sua segurança, e ir com o Infante á melhor parte sem outro encarrego, ou leixa-los de todo á disposição de Deus que os guarde, e da fortuna boa ou má que lhes pode vir. O primeiro d'estes bem sinto que é um bom desejo da alma, a que porventura consirando tudo sem paixão eu devia ser mais conforme. O segundo é apetito do corpo e da honra, em que sinto tamanhas forças, que me inclinam a elle de todo, e n'esta tamanha diferença e torvação a que meu juizo não abasta, quero saber de vós o que vos parece.».Os quaes responderam, dizendo:«Senhora, esta derradeira é a melhor determinação que podeis ter, e o vosso coração para quão real é, não deve soffrer andar sobjeita em poder de um homem vosso imigo, e que segundo o desamor que vos tem, vos fará cada dia mil nojos e abatimentos, e a nós outros que vos servimos, como desesperados d'elle em todo bem e mercê, será razão que nós vamos ás judarias ou fóra do reino, pois havemos ser d'elle pior tratados que judeus. O que não deveis haver por pequena dôr e vituperio vosso, e com isto bem sabeis que ha n'elle praticas e cautellas, para com todo mostrar ao povo que o faz muito pelo contrairo; porque elle não ha mais mester que favor de villãos que o tem por idolo. Pelo qual nosso conselho é, o com que despedistes os Infantes, não aceitardes a criação de vossos filhos sem governardes toda a fazenda, e que pois haveis de ser agravada, que o sejaes de todo, principalmente pois sabeis que a emmenda d'isto se apressa, e não pode já tardar muito. E pelo que ora vossos irmãos vos escrevem de Castella, e assi de Portugal o Priol do Crato e o Marechal, e os outros fidalgos que defendem vossa querella, o podeis mais claramente vêr e afirmar, e para segurança de vossos filhos, sob reverença de vosso juizo, é muito pelo contrairo. Cá para o Infante D. Pedro cumprir seu máo proposito, se o tem de acabar vossos filhos, sabei que vossa presença é mais azo, e a melhor encuberta que para isso pode ter. E por ventura o farámais levemente, e com menos temor em vosso poder que no seu. E nas enculcas e espias que já agora traz comvosco, de que sabe aqui não sómente o que fallaes, mas o que cuidaes, podereis conjecturar se para tal caso achará ministros. Assi que leixai-lhe todo o Regimento, e os filhos juntamente até que Deus queira».N'este conselho contrariou com razões mui vivas Pero Lourenço d'Almeida, Almotacé Mór do reino, que era presente, desfazendo á Rainha e aos outros conselheiros com fundamentos mui claros as esperanças que tinham de seus irmãos em Castella, e assim dos fidalgos de Portugal. Pedindo-lhe que quizesse acceitar o meio que os Infantes lhe tinham apontado, que segundo a disposição do tempo houve por bom. Mas como a vontade da Rainha, e assi a dos outros estavam para o contrairo determinadas, não aprovaram o conselho de Pero Lourenço, reputando-lhe não a siso mas a fraqueza por se não sahir de sua casa e boa fazenda que tinha em Lisboa. Pelo qual a Rainha determinou partir-se e leixar seus filhos, e levar sómente as filhas comsigo.Isto se passou em Santo Antonio a um sabbado, e logo ao domingo a Rainha mandou chamar secretamente alguns seus de Lisboa, que vieram hi dormir. E passada a meia noite ouviu missa, e fez alevantar os filhos da cama, e tomou El-Rei nos braços, e com muitas lagrimas lhe disse:«Filho e Senhor, praza a Deus por sua piedade que vos guarde e vos dê vida, e a mim não leixe viva e desamparada de vós, como o sou d'El-Rei meu Senhor vosso padre.»E com isto se despediu com tamanho pranto seu e de todos, como se os leixaram soterrados para os nunca mais vêr.El-Rei salteou-se com tamanha novidade, e posto que para isso não teve edade de que se esperasse tamanho accordo, não lhe falleceu natural prudencia e discrição com que n'aquella hora, com grande repouso e segurança, e por palavras doces e avisadas, soube confortar a Rainha sua madre, que se partiu para Cintra, de que o aviso foi logo a Lisboa, e o Infante D. Anrique como o soube se partiu a gram pressa pela alcançar no caminho, e já não pôde senão no logar d'onde a não pôde mover de seu proposito, e o Infante D. Pedro e o Infante D. João foram logo a Santo Antonio e trouxeram El-Rei e o Principe seu irmão a Lisboa, onde a cada um deram casa com seus officiaes apartados, porque até alli se serviam ambos juntamente, e n'estes movimentos foi tanta a prudencia e resguardo d'El-Rei, que sendo de tão pequena edade, e tendo tanto amor e affeição á Rainha sua madre, como era razão, nunca por se vêr d'ella apartado foi ninguem que n'elle contra o Infante podesse conhecer algum signal de má vontade. Nem que reprendesse ou louvasse os feitos de um nem do outro, nem com seu escandalo.CAPITULO LIIComo Lisboa commetteu de querer fazer uma estatua ao Infante D. Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe respondeuOs procuradores do reino com isto acabado se foram, e os cidadãos de Lisboa por memoria da mercê e liberdade que lhes o Infante em nome d'El-Rei fizera, quando lhes tirou as aposentadorias,como já disse, lhe quizeram com seu consentimento ordenar uma estatua de pedra sobre a porta dos Estáos, que o Infante novamente mandou fazer, e perguntando-lhe em que fórma a haveria por melhor que estivesse, o Infante com o rostro carregado de tristeza e pensamento, o desviou e defendeu, dizendo-lhes, como por verdadeira prophecia de sua fim:«Se a minha imagem alli estivesse esculpida, ainda virão dias que em galardão d'essa mercê que vos fiz e d'outras muitas que com a graça de Deus espero de vos fazer, vossos filhos a derribariam, e com as pedras lhe quebrariam os olhos. E por tanto Deus por isso me dê bom galardão, cá de vós em fim não espero outro se não este que digo, e por ventura outro pior.»Das quaes palavras foram então os cidadãos tão maravilhados, como foram depois certificados que dizia verdade, quando assi o viram cumprir. E seguiu-se mais depois, para se presumir que o Infante alguma revelação tinha de sua morte, que em Coimbra indo elle quando regia, e o Infante D. Anrique para a porta de S. Bento, que sae á ponte onde estão as armas da cidade, que são uma mulher posta sobre um calez, com uma corôa na cabeça, e a uma teta um leão, e a outra uma serpe, o Infante D. Anrique olhando-as, disse pelo contentar:«Bem se póde Senhor Irmão comparar a vós esta figura, pois tambem de uma parte daes mantimento ao leão, que é Castella, e da outra a Portugal, que é a serpe do nosso timbre.»«Verdade é, disse o Infante D. Pedro; mas vêde-a melhor, e consirae que está sobre calez, que significa sangue, em que mais claro parece, que de meus trabalhos, serviços e beneficios, esse ha de ser meu galardão.»E certo, com quanto este Principe era mui catholico, devoto e justo, e em que havia muitas outras virtudes, assi se seguiu como ao diante se dirá.CAPITULO LIII

Mandou a Rainha velar e afortalezar Alanquer, onde tinha El-ReiA Rainha estava em Alanquer, onde tinha El-Rei e seus filhos, como já disse. E por lhe ser dito que depois do accordo de Lisboa, o Infante D. Pedro se percebia em Coimbra de gentes e armas, e que a fama e rumor era, ainda que falso fosse, para a vir cercar e a levar d'alli e El-Rei ás côrtes de Lisboa; tendo sobr'isso conselho, e não tomando o que mais devia, mandou velar, afortalezar e repairar a villa de muros, gentes, armas e mantimentos, e se poz em som de defeza, se tal caso sobreviesse. Com que ácerca do povo não aproveitou, mas damnou muito suas cousas; porque acrecentou e confirmou a muitos a suspeita que se d'ella havia, em esperar para seu socorro e ajuda gentes de fóra do reino.CAPITULO XLIIIDissensão que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o Infante D. AnriqueSentindoa Rainha que o Infante D. Anrique, com quanto se mostrára sempre a seu serviço, seguia acerca do Regimento a parte do Infante D. Pedro. Por causar entre elles suspeita e differença em sua conformidade. Ou por ventura e maiscerto, por lh'o fazerem assi crêr. Escreveu secretamente de sua mão ao Infante D. Anrique que se não fiasse do Infante D. Pedro. Porque elle para haver com menos impedimento o Regimento que procurava, e mais soltamente usar d'elle, como era sua vontade, sabendo que não havia no reino de quem esperasse contradição, salvo d'elle, soubesse certo que o queria prender, de que sua vida não estaria muito segura. E ante que a carta d'este aviso fosse dada ao Infante D. Anrique, que estava em Soure, o Infante D. Pedro, que era em Montemór-o-Velho, por meios secretos que trazia, foi d'ella primeiro sabedor. E para preservar a vontade do irmão, que com tamanha falsidade contra elle em alguma maneira se não damnasse, partiu a gram pressa e mui aforrado, e lhe foi fallar, não lhe revelando cousa alguma da carta que lhe havia de vir; mas acceitando geralmente seu coração, com a firmeza de seu amor e amizade, para os movimentos e desaccordos que se lhe aparelhavam. Pedindo-lhe, que se contra elle viessem a suas orelhas algumas cousas, que a isto contrariassem, que as não recebesse em seu juizo, e d'elle cresse que o amava como a si mesmo.O Infante D. Anrique não se saltou muito com aquella vinda; porque lhe parecia que os tempos e as mudanças d'elles o causavam e requeriam. E porém com palavras que em siso e prudencia, e confiança não desacordaram das do Infante seu irmão, lhe respondeu e o despediu.A dois dias que o Infante D. Pedro se partiu, chegou Martim de Tavora ao Infante D. Anrique com a carta da Rainha que disse. E como a viu, maravilhado da sustancia d'ella, se foi logo a Coimbra só, onde já era o Infante D. Pedro. Ao qual mostrando-lhe a carta disse:«Vêde senhor irmão o que me escreve a Rainha;mas porque vejaes bem o temor que tenho de vós, venho assi percebido e seguro a vossa casa.»E o Infante D. Pedro rindo-se, e com mostrança de grande amor, o abraçou e lhe disse:«Senhor irmão, não me espanto taes tempos e taes vontades criarem fruita tão nova. E porque sabia já que vos haviam de convidar com ella, sem vo-lo dizer vos fui falar. Cá não eram a outro fim as cautellas da segurança que vos de mim fui dar; porque ainda que sobre tanta razão e firmeza pareciam então escusadas. Sabei que o receio d'este damnamento as não escusou. E porém a prisão que vós aqui recebereis será a honra e amor que de mi sempre recebestes, e me vós mui bem mereceis.CAPITULO XLIVEmbaixada dos Infantes á RainhaAlliestiveram os Infantes alguns dias, e com elles o conde de Barcellos seu irmão. E para com mais repouso e menos torvação proverem as cousas do reino, se foram ao logar da Pereira, onde accordaram que o conde de Barcellos fosse á Rainha requerer-lhe com razões assás justas e necessarias, que fosse ás côrtes de Lisboa que haviam de ser o derradeiro dia de Novembro. E que se para sua ida e dos seus quizesse alguma segurança, ainda que não fosse necessaria, lh'a dariam na fórma que apontasse.Partiu o conde de Barcellos para Alanquer, e por seu aviso, no dia que chegou foi ahi com elle seu filho o conde d'Arrayollos, que estando comendo seajuntaram em sua casa por modo de visitação as pessoas principaes que hi eram. O conde lhes estranhou logo com palavras honestas e razões muiefficazes, os alvoroços que na villa faziam de vellas e roldas, e tomamento d'armas aos vassallos, que pareciam começos de guerra, e como cousa feita por errado conselho a fez amansar, e tornar todo a estado pacifico. Foi logo o conde fallar á Rainha, e lhe disse:«Senhora, os Senhores Infantes meus irmãos e eu, acordamos de eu vir a vós para sustancialmente saberdes que para concordia e bom assento dos grandes movimentos e negocios, que ora são n'estes reinos, assi do Regimento d'elles, como da cisma dos Papas e livramento do Infante D. Fernando, é mui necessario fazer-se côrtes geraes ante do saimento, ás quaes é bem que El-Rei nosso Senhor e vós vades. E elles e eu assi vo-lo pedimos que o queiraes fazer.«A mim prazera, respondeu a Rainha ir ás côrtes como requereis, se ante d'ellas as cidades e villas do reino revogarem a enleição do Regimento que tem feita ao Infante D. Pedro, e elle a renunciar. E mais por quanto alguns fidalgos e outras pessoas por juramento são obrigados, assi a mim como a elle, de sosterem a parte que seguirmos, é bem que tudo isto se revogue, para uns e outros poderem livremente dizer e conselhar o que lhes parecer serviço de Deus e d'El-Eei meu filho Senhor, e bem de seus reinos. E se isto primeiro assi se não faz, eu por alguma maneira não irei ás côrtes.»Com esta resposta assignada pela Rainha se partiu o conde para Coimbra, onde achou sómente o Infante D. Pedro. O qual depois de a vêr, disse:«A inclinação que os povos sem mim e meu requerimento acordaram, elles pois tem o poder se o assihouverem por bem a revoguem. E para isso é mais razão e mór necessidade que a Rainha vá ás côrtes, onde por ella e por aquelles que seguem sua vontade se poderá acerca d'isso requerer o que lhes parecer direito e justiça, e eu o não contradirei. Cá em caso que quizesse, hi haverá taes pessoas para sostimento de tamanha justiça e honestidade, que minha resistencia aproveitaria pouco. E quanto ao juramento de que aponta que releve os que seguem minha parte, seja certa que com verdade nunca se achará um só, que para tal obrigação me seja obrigado, e se alguns o são, não é por semelhante força, nem contra suas vontades, mas sómente por criação ou bemfeitoria que de mim tem recebido.»O conde de Barcellos se foi logo a Guimarães, onde fez ajuntar D. Sancho, e o Arcebispo de Braga, e Vasco Fernandes, e Martim Vaz da Cunha, e Pero Gomez d'Abreu, e Lionel de Lima, e Alvaro Pirez de Tavora, e Luiz Alvarez de Souza, que segundo geral opinião seguiam todos a parte da Rainha, e com elles concertou que escusassem sua ida ás côrtes, posto que elle fosse, e que em qualquer forma que a qualquer parte ficasse o Regimento, sempre seria com segurança de suas honras, e esperança de mais seu acrecentamento.CAPITULO XLVRecado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para Lisboa ás côrtesO Infante D. Pedro partiu de Coimbra para Lisboa, e com elle álem dos de sua casa, João Gomez da Silva, e D. Fernando de Menezes,e Alvaro Gonçalves de Tayde, e D. Fadrique de Castro, e Fernão Coutinho, irmão do marechal, e Gonçalo Vaz Coutinho, meirinho mór, e Pero de Lemos, e João de Tayde, senhor de Pena Cova, e a gente do Bispo de Coimbra, que faziam numero de mil e oitocentos homens de cavallo, e dois mil e seiscentos de pé, da qual cousa a Rainha foi avisada, e sendo certificada que o Infante havia de Torres Vedras ir a Alanquer para comsigo segundo diziam levar logo El-Rei ás côrtes, e receosa de assi ser, pelo desviar de tal proposito enviou a elle Anrique Pereira, que o topou em Alfazeirão, pedindo-lhe «que na maneira em que ia escusasse sua ida onde El-Rei e ella e seus filhos estavam, assi porque pareceria desacatamento, estando elles tão sós, como por a villa não ser capaz de seu aposentamento, e menos bastante para os manter. E que se sua ida assi era necessaria, que se não podia escusar, que quizesse ir muito aforrado.»Como o Infante isto ouviu disse:«Anrique Pereira, vossa vinda sobre tal caso fôra bem escusada, e verdadeiramente assi me salteam estes accidentes, que não sei que vos responda, sómente dizei á Senhora Rainha, que me doem muito estas sospeitas, e porém saiba que dos que se mais mostram a seu serviço, se deve mais guardar, pois tão erradamente a aconselham, e mais contra mim que desejo mais de a servir que a nojar. E que não fallo no que cumpre ao estado e serviço d'El-Rei meu Senhor; porque em desejar de o lealmente servir e amar, não darei avantagem a nenhum do mundo.E com este recado se tornou Anrique Pereira á Rainha.Seguiu o Infante sua viagem até o Lumiar, onde a petitorio dos da cidade de Lisboa, que ante de sua entrada quizeram fallar primeiro com elle, sobre-estevealguns dias. Aos quaes com palavras de grande aguardecimento e mercês, tendo respondido, despediu a gente que com elle viera, leixando sómente os seus continos e alguns que para as côrtes vinham ordenados.Lisboa porque seus accordos eram mui difficeis, e para os particulares não havia perfeita auctoridade, deputou doze cidadãos, a que por consentimento de todos o conselho e deliberação de todalas cousas de peso, que entãooccorriamfoi comettido. Os quaes juntos sustancialmente accordaram que o Infante fosse logo declarado por Regedor in solido, sem outra ajuda nem companhia, até El-Rei ser em idade de per si o poder reger. E este accordo foi publicado a todo o povo no refeitorio de S. Domingos, onde logo com vozes e signaes de todos foi sem contradição approvado e consentido.E os cidadãos enviaram logo ao Infante Pero de Serpa, e Martim Çapata, e Ruy Gomez da Grã, e João Carreiro a notificar-lhe o accordo passado, e pedir-lhe que ao outro dia quizesse entrar e ser seu hospede, com fundamento, que primeiro havia de prometter e jurar que logo só sem outra companhia nem ajuda começasse uzar do Regimento inteiramente. O Infante depois de lhes aguardecer sua ida e tenção, lhes disse:«Amigos, sabei que n'este caso acordastes mais o que quizestes, que o que devieis; porque eu n'elle para o que a mim cumpre tambem não posso fazer se não o que devo, que é d'este cargo não me antremeter assi absolutamente, sem meus irmãos e sobrinhos, e sem os procuradores dos tres Estados que para isso são chamados. Porque do contrairo, a uns será desacatamento, e a outros causaria escandalo. Pelo qual me parece que a trigança para isso não é agoranecessaria; mas que deveis sobre-ser até as côrtes que serão logo. E o que n'ellas se accordar e determinar, isso será o que se então deve fazer e cumprir».«Senhor, disseram elles, essas justificações de que vossa honestidade se acautella, bem era que cessem assi; mas ellas para este caso já são feitas; porque das cidades e villas, que n'elle hão de dar voz, aqui temos por suas cartas seus consentimentos. E para o cumprimento de vossos irmãos, aqui tendes vosso irmão o Infante D. João que o requere assi e ha por bem. E com os outros já fallastes, que o não contradizem. E por tanto Senhor, vos pedimos que não alongueis o que vos tão justa e devidamente offerecemos. Nem deis causa que de vossa escusa se sigam alvoroços e desconcertos de povo, que serão depois impossiveis, ou mui trabalhosos de concertar.»CAPITULO XLVIEntrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as côrtes acceitou o RegimentoE como quer que da vontade do Infante fosse todavia leixar tudo para determinação das côrtes. Porém vendo-se constrangido dos cidadãos, teve conselho com esses principaes que trazia, dos quaes todos foi aconselhado, que ao outro dia entrasse na cidade e fizesse o que ella lhes requeria, pois o contrairo pelas cousas que eram já n'isso passadas, não contradizia a honestidade nem razão. Pelo qual o Infante consentiu no entrar ao outro dia. E defendeu a solemne procissão e outros grandes estrondos e cerimonias com que ordenavam de o receber.Mas que seu recebimento fosse sómente ao costumado que lhe sohiam fazer sem outra ennovação.Ao outro dia entrou o Infante, sendo no caminho recebido do Infante D. João e de todolos fidalgos e pessoas de conta da cidade com gram prazer e alegria. E assi foi levado ás casas do Mestre d'Aviz, que estão junto com a Sé, onde pousou.E ao outro dia, dia de Todolos Santos, foi ouvir missa á Sé, onde lhe foi requerido que o juramento que a cidade tinha acordado, elle o fizesse, como logo fez, nas mãos de D. Alvaro d'Abreu, Bispo d'Evora, onde publicamente jurou e prometeu com as mãos postas sobre os Evangelhos e Cruz, de bem e lealmente reger e defender estes reinos em nome d'El-Rei D. Affonso seu Senhor, até ser em disposição de os per si poder reger e defender, e que então lh'os entregaria livremente e sem contradição nem cautella, e o serviria sempre com amor e lealdade, como bom e leal vassallo.Tardou o ajuntamento das côrtes até os dez dias de Dezembro, onde os Infantes com todolos procuradores sendo juntos nos Paços d'Alcaçova, o Infante D. João se levantou em pé e disse que algumas cousas que a todos ali queria propoer por serviço de Deus e d'El-Rei, e bem do reino, por não estar por então em disposição de per si as poder dizer, encomendou ao doutor Diogo Affonso Mangancha que por elle as dissesse, pedindo-lhes que logo o ouvissem.O doutor que era presente, cessando todo o rumor, propoz uma arenga grande e bem dita, cuja sustancia foi aprovar em nome do Infante D. João, que fôra bem feito enleger o Infante D. Pedro por só Regedor, contradizendo o accordo e determinação das côrtes de Torres Novas, em que o Infante não fôra, e de si mostrou com claras razões, aprovadas por Direito Divinoe Humano, e autorizadas por claros exemplos, que mulher não devia ter Regimento. Nem que dois em companhia não deviam reger; mas um só, e para ser um só devia ser o Infante D. Pedro, e que a Rainha servissem e acatassem todos como era razão e o requeria ser mulher e madre de taes dois reis, sangue e virtudes que tinha.Foi por todos geralmente consentido na proposição do doutor, e aprovaram sem contradição o Infante D. Pedro haver só de reger, de que se fez um accordo que testemunharam quatro notairos que a todo eram presentes, Lopo Affonso e Ruy Galvão, e Martim Gil, e Gonçallo Botelho, officiaes da camara e fazenda de El-Rei. O qual accordo foi logo por todos alli assignado, salvo pelo conde d'Arrayollos, que se escusou de o assignar, nem chamou depois ao Infante Regente, mas seu nome; como quer que obedecesse a seus mandados inteiramente, e melhor que alguns que o enlegeram e assignaram.Foi isso mesmo acordado que o Infante fizesse como fez, juramento na fórma do passado, de reger bem o reino e o entregar livremente a El-Rei, como fosse em edade e disposição de o por si reger e deffender. E certo o Infante D. Pedro o fez assi sempre bem, e como devia, que para ser louvado sobre todolos Principes de seu tempo, não lhe falleceu se não ser Rei; porque em Regedor não dava assi as cousas á inteira execução que se requeria. E tudo por temperança e assessego do reino, e por evitar escandalos, odios, invejas a que não pôde fugir, cá em fim o encalçaram com a morte, e com quebra de seu estado, como adiante se dirá.CAPITULO XLVIINotificação do acordo passado á Rainha, que o não consentiuO Infante D. Pedro por si só, e des-hi os outros infantes, condes e fidalgos e procuradores das cidades e villas que foram presentes, por suas cartas notificaram logo á Rainha que estava em Alanquer, todo o passado, com razões e fundamentos de serviço de Deus e d'El-Rei, e grande descanço d'ella. Pedindo-lhe todos com muito acatamento que o houvesse assi por bem e quizesse trazer El-Rei á cidade para lhe ser feita a reverença que lhe todos deviam e desejavam fazer. E para em sua presença se tratarem algumas cousas, que a seu estado e serviço, e bem de seus reinos convinham.Com este recado o Infante enviou á Rainha Alvaro Gonçalvez de Tayde, governador de sua casa, homem prudente e bem razoado, e de que muito fiava.A Rainha recebeu a messagem com signaes de grande tristeza, e por conselho dos que com ella eram, sustancialmente respondeuque se os Senhores Infantes, condes e povo, revogassem a enleição do Regimento, que era feito ao Infante, e o dessem a ella como eram obrigados, seria contente levar El-Rei á cidade. E d'outra maneira que o não faria. E ao dar da resposta tomou d'isto estromentos por seu resguardo.Tornou-se Alvaro Gonçalez aos Infantes com esta resposta, e vendo-a contraira a sua determinação, acordaram de enviar a ella com a mesma sustancia Affonso Nogueira, que depois foi Arcebispo de Lisboa, e o ministro de S. Francisco, confessor d'El-Rei, como pessoasesprituaes, e de boas conciencias, os quaes como quer que para a commoverem a consentir no passado lhe dissessem causas e razões para Deus e para o mundo assaz evidentes, ella forçada por ventura de sua fraca humanidade, ou dos errados conselheiros, que em contrairo tinha ouvido, acusou compalavrasmui honestas a si mesma, e a dureza de sua conciencia por o não poder fazer. E em fim nem consentiu em o Regimento lhe ser tirado, nem de levar El-Rei, nem dar lugar que fosse por outrem levado a Lisboa, com quanto lhe fossem feitas grandes seguranças de logo El-Rei lhe ser tornado, como na cidade estivesse alguns dias.CAPITULO XLVIIIIda do Infante D. Anrique á Rainha para leixar vir El-Rei ás côrtes, e lh'o tornaremComeste recado foram os Infantes mui descontentes, e o povo mui alvoraçado, e leixadas muitas praticas e tenções que se moveram, finalmente foi acordado que o Infante D. Anrique por derradeiro e principal cumprimento fosse sobre o mesmo caso a ella, como foi.E apartados ambos, o Infante lhe fez uma falla, em que obrou tanto sua virtuosa tenção e bom proposito com que ia, que demoveu a Rainha ao que desejava. D'onde foi de crêr, segundo era virtuosa e amiga de Deus, que se conselheiros apassionados a não torvaram, ella e sua vida e estado conseguiram outro fim de mais sua honra e descanso.Ao outro dia partiu d'Alanquer o Infante D. Anrique com El-Rei e com a Rainha e Principe, paraSanto Antonio, camara do Arcebispado de Lisboa, e o Infante D. Pedro, sabendo que a Rainha não resistiria ao Infante D. Anrique, e viria ao que elle quizesse e levava ordenado lhe requerer, se foi de Lisboa a Alverca, d'onde sahiu ao caminho, e com grande acatamento beijou as mãos a El-Rei e á Rainha, como quer que ella se quizera d'isso muito escusar, e assi chegáram a Santo Antonio bespora de Natal, onde foi acordado que El-Rei e a Rainha tivessem a festa. A qual passada, os Infantes todos tres foram por El-Rei e por o Principe seu irmão. Dando primeiro á Rainha segurança por seus assignados, de logo lhe tornarem El-Rei a seu poder, criação e governaça.CAPITULO XLIXEntrada d'El-Rei em Lisboa para as côrtesVeiuEl-Rei por agua até Lisboa e foi recebido á Porta d'Oura, e d'alli levado á Sé e aos Paços d'Alcaçova. Indo El-Rei e seu irmão e os Infantes sómente a cavallo, e os condes e outros senhores foram todos ante elles, e esse recebimento foi com tantas cerimonias d'acatamento, obediencia e alegrias assi celebrado, que em qualquer parte do mundo onde mui altamente recebimentos se costumassem fazer, este fôra mui muito louvado, e o Infante D. Pedro foi só o que poz El-Rei a cavallo e o deceu. O que não sómente fez aquelle dia, com assignado acatamento e leal obediencia e grande reverencia, mas sempre depois o continuou e acrecentou, em dez annos que por elle regeu seus Reinos. Cá por si o serviu e fez aos outros servir com tamanho cumprimento de seuestado e serviço que se não póde dizer que outro algum Principe fosse melhor criado no mundo, nem ensinado.Mandou logo o Infante D. Pedro a Ruy Gonçalves de Castel-Branco, védor que fôra d'El-Rei D. Duarte, que fizesse nos paços correger em grande perfeição a salla em que El-Rei havia d'estar nas côrtes. E concordado o dia, que foi aos dez dias de Dezembro de quatro centos e XXXIX, e assentado El-Rei em sua cadeira, e acompanhado de senhores e officiaes, como para auto tão real convinha e se acostumava, o doutor Diogo Affonso Mangancha propoz a arenga em nome d'El-Rei ao povo, cuja principal sustancia foi: «aprovar e confirmar a enleição por elles feita de o Infante D. Pedro para por elle reger, e agardecer-lhes e prometer-lhes mercês, honras e liberdades pela assi fazerem, e assi encommendar ao Infante que o fizesse assi bem e direitamente, como d'elle confiava, e mandar a todos que lh'obedecessem, como á sua propria pessôa».E em acabando o doutor, o Infante D. Pedro com os giolhos em terra beijou a mão a El-Rei, e sua Senhoria lhe entregou logo um páo em que estava atado o sello secreto, em signal e nome de poderio. E como se deu fim a estas cousas, foi logo El-Rei tornado á Rainha sua madre, segando pelos Infantes lhe fôra prometido.O Infante D. Pedro na casa das côrtes fez logo ajuntar os do povo e alguns do conselho, e sendo entre elles em pé, lhes disse com muita gravidade:—«que pelo grande cargo do Regimento que lhe fôra encommendado, era necessario elle fazer de si outro homem».—Pelo qual lhe fez alguns avisados amoestamentos, em signal de sua grande bondade e muita prudencia, para os que bem e direitamente vivessemesperassem d'elle em nome d'El-Rei seu Senhor, bem e mercê, e assi pena e castigo aos que o contrairo fizessem, encommendando-lhes outrosi que o amassem e lhe obedecessem, e quizessem ajuda-lo e deffende-lo com seus corpos e fazendas, assi como elle faria a elles mesmos quando lhes cumprisse. E principalmente que confiassem d'elle que todo o que fizesse seria afim de bem e justiça, em caso que lhes parecesse o contrairo. Ás quaes cousas lhe foi por um deputado respondido, conforme a sua tenção e petitorio, e o Infante descobrindo sua cabeça lh'o agardeceu.O conde de Barcellos mostrava d'este feito não ser contente, e desejoso de haver para si alguma parte do Regimento, e por enfraquecer ao Infante seu poder fez e ordenou certos capitulos em fórma de Regimento, que o Infante havia de ter em sua governança. Pelos quaes todolos feitos principaes tirava de seu juizo e os remetia ás côrtes, que cada anno apontava que se fizessem. O qual Regimento mostrado aos procuradores dos povos, houveram por escusado ennovar-se mais do que tinham acordado, e El-Rei aprovado. De que o conde mostrou ser assáz descontente, e começou logo de requerer a restituição da posse do Arcebispado ao Arcebispo D. Pedro seu cunhado; e porque não podia ser sem prazer e consentimento dos cidadãos, que d'elle tinham apellado para Roma, o Infante D. Pedro por contentar e assessegar vontades contrairas, e tirar inconvenientes e torvaçõas a seu regimento, e assi tambem o Infante D. João, entenderam e trabalharam n'isto muito com diligencias, que pareciam verdadeiras e não fingidas. E em fim a cidade por Pero de Serpa seu cidadão, se escusou de o consentir com muitas razões, em que pareceu que não fallecia serviço de Deus, honestidade e muita justiça. Afirmando,que todavia haviam de seguir sua appellação, durando a qual seria o Arcebispo suspenso, e trabalhariam porque fosse privado, e por esta dureza que os infantes acharam nos cidadãos, pela mais não agravar, houveram por bem leixar por então este requerimento, esperando que depois se faria melhor, como fez. De que o conde de Barcellos não sómente contra os cidadãos, mas contra o Infante principalmente, mostrou grande sentimento, parecendo-lhe que por sua conjuntura e prazer a cidade tinha aquelle esforço de resistir.A estas côrtes entre as outras graças e liberdades que o Infante D. Pedro em nome d'El Rei outorgou ao povo, foi que não houvesse aposentadoria em Lisboa, fazendo estados e casas, em que se El-Rei e sua côrte podessem alojar; e depois se deu assi a Evora e Santarem.CAPITULO LDe como se apontou e aprovou não ser bem El-Rei se criar em poder da RainhaEstandojá as côrtes e despachos d'ellas em conclusão para os procuradores se poderem ir, um João Gonçalvez, procurador da cidade do Porto, com outro seu parceiro se foram á camara de Lisboa, sendo os officiaes d'ella em vereação. E cuidando os da cidade que iam despedir-se d'elles, como era de cortesia e custume, João Gonçalves disse:«Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vós e todolos outros nossos irmãos e parceiros, que em nome do reino a estas cortes viemos, as daes já por acabadas. E certo muitas cousas, mercês a Deus, seconcludiram n'ellas; porque El-Rei nosso Senhor é mui servido, e nós contentes. Porém a principal ficou por requerer e fazer. Sem a qual, todo o que se fez a nosso parecer é nada ou aproveita muito pouco».Os cidadãos enleados de sua proposição, sabendo que era homem d'autoridade, cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os rostos e as vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:«Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que por se escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se não escusam, El-Rei não deve ficar em poder da Rainha como está, e alguns apontarei e os outros mais vós por vossa discrição e saber os entendei. Primeiramente a criação d'El-Rei por ser em poder de mulher, é a elle mui danosa, e sempre por isso ficará fraco e feminado. Que para qualquer homem privado é aleijão sobre todos, quanto mais para Rei. E se as comparações não fossem odiosas, e isto não fosse tão claro, por exemplos bem vo-lo poderia provar. Outrosi de sua creação, por tal maneira está mui evidente o perigo do Infante D. PedroRegente, e tambem nosso; porque segundo a Senhora Rainha, isto que acordamos sente por sua deshonra e grande quebra de seu estado, como em suas cartas e protestações parece claro, não é duvidar que criaria El-Rei em odio contra o Regente e contra nós, de que ao diante poderia por isso commeter uma grande crueldade, em que não haveria remedio. Porque como naturalmente aquellas cousas que os moços recebem na tenra edade se lhe emprantam no coração e em sua memoria para sempre, esta principalmente se lhe emprantaria muito mais, por lhe ser dita tão a meude, e com tantas lagrimas. Outro dano é a que se deve atalhar o crecimento de despezas desordenadas, a que as rendas do reino não bastáram. Cá umas são necessariasao Regente para manter seu estado e do reino, e outras cumprem de necessidade a El-Rei e a seu irmão, e outras á Rainha e suas filhas. Com outros inconvenientes que agora são escusados apontarem-se».Aos cidadãos pareceu bem o motivo de João Gonçalves, e fizeram logo avisar os outros procuradores, que logo á tarde foram hi juntos, onde depois de havidas algumas praticas e altercações sobre o caso, accordaram que El-Rei e seu irmão deviam todavia ficar em poder do Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram, pedindo-lhe que o quizesse assi consultar com os Infantes seus irmãos, com os quaes ordenasse que se cumprisse.O Regente depois de ouvir dois cidadãos que a elle sobr'isso foram, lhes respondeu:«Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e não me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolação e contentamento como é razão e está concordado, como tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria moço é, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não queira e o defenda, é certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella requere e é razão; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo «Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e não me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolação e contentamento como é razão e está concordado, como tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria moço é, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não queira e o defenda, é certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella requere e é razão; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo não posso escusar, especialmente refreando El-Rei e seu irmão em cousas aque sua mocidade os inclinará, em que por ventura mereceram mais emmenda e reprensão que louvor.»Os cidadãos lhe replicaram:«Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande saber, sem errar vos póde dizer que d'outra maneira o entendeis, do que o fallaes. E por tanto isto que vos propozemos é assi em nós todos tão determinado para se cumprir, como o mais que fizemos. Cá se o passado foi proveitoso, n'isto ha proveito e necessidade; porque não é razão, nem queira Deus que um tão alto Principe como é El-Rei nosso Senhor, e que em tão pequenos dias nos dá de si tantas esperanças de bem entendido e virtuoso, seja assi creado em tanto aleijão, como é a criação em poder de mulheres. Antes pois em vós para isso ha tantas razões, é razão que o crieis e façaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao monte e á caça, e lhe mostreis por vós o exercicio das armas, e por exemplos e doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias, manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convém, assi para os tempos publicos, como secretos, e com isto elle é de tão são e perfeito entender, que conhecerá que o servis bem e lealmente. E por isso vos amará e fará aquelle acrecentamento e mercê, que lhe prazendo a Deus merecereis.»O Regente acalçado n'este caso da necessidade e razão de que se não sabia escusar, disse: «que se fallasse aos Infantes seus irmãos, e o que elles accordassem por melhor, elle o seguiria.» Aos quaes por os procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ás outras pessoas d'estima que eram na côrte. E por todos finalmente foi accordado: «que pospostas todalas cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poderdo Regente». O que em pessoa lhe foi logo assi notificado. O qual disse:«Certo não por resistir a vosso conselho e determinação, a que folgarei sempre de obedecer. Mas a mim parece que n'este caso o melhor será que a Senhora Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguirá que sua Senhoria criará El-Rei meu Senhor seu filho, e eu vê-lo-hei e servirei nas cousas que apontaes, quando fôr necessario. E prazendo a Deus, eu o farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella, que sua Senhoria terá razão de conhecer de mim a verdade de que sempre duvidou, e perderá com isso alguns queixumes e escandalos que sem causa lhe fizeram ter contra mim.»E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle á Rainha, que ainda era em Santo Antonio, á qual pelo Infante D. Pedro e por os outros Infantes foram mui verdadeiramente ditas todalas cousas e razões que no caso havia para o haver de seguir. Mas ella finalmente não quiz, salvo que lhe ficasse a governança da fazenda juntamente com a criação de seus filhos, referindo-se ao accordo das primeiras côrtes. E que se das rendas para serviço d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi não poder ser, e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que accordáram, a ella não prouve. E os Infantes vendo sua determinação, se despediram d'ella para ainda consultarem se se acharia algum bom meio com que ella ficasse contente.CAPITULO LIComo a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irmãoPartidosos Infantes, a Rainha a esses principaes que com ella eram notificou logo os apontamentos de sua vinda. E assi a conclusão com que ficara, e quiz d'elles saber o que lhes parecia, dizendo:«Não pode ser mór angustia da que meu coração tem n'este caso. Cá de uma parte o sentimento e nojo que tenho do Infante D. Pedro me faz desejar não haver cousa no mundo para o poder vêr, e d'outra segundo o que sinto, isto é já quasi privarem-me de meus filhos. Cuja natural piedade e grande amor que lhes tenho, me constrange não os leixar. Especialmente me obriga muito parecer-me que segurarei com a graça de Deus suas pessoas, de que teria mór esperança, e com menos receios, que de andarem sem mim em poder do Infante D. Pedro. O qual segundo já descobre sua grande cubica para reinar, quem duvidaria que para o fazer mais livremente, não lhes encurtara mais cedo as vidas. E n'elle ha muitas dessimulações e hipocresias com que tudo saberá mui bem encobrir. Assi que n'estes dois tamanhos extremos não sei qual meio tome, ou ter meus filhos e andar com elles por sua segurança, e ir com o Infante á melhor parte sem outro encarrego, ou leixa-los de todo á disposição de Deus que os guarde, e da fortuna boa ou má que lhes pode vir. O primeiro d'estes bem sinto que é um bom desejo da alma, a que porventura consirando tudo sem paixão eu devia ser mais conforme. O segundo é apetito do corpo e da honra, em que sinto tamanhas forças, que me inclinam a elle de todo, e n'esta tamanha diferença e torvação a que meu juizo não abasta, quero saber de vós o que vos parece.».Os quaes responderam, dizendo:«Senhora, esta derradeira é a melhor determinação que podeis ter, e o vosso coração para quão real é, não deve soffrer andar sobjeita em poder de um homem vosso imigo, e que segundo o desamor que vos tem, vos fará cada dia mil nojos e abatimentos, e a nós outros que vos servimos, como desesperados d'elle em todo bem e mercê, será razão que nós vamos ás judarias ou fóra do reino, pois havemos ser d'elle pior tratados que judeus. O que não deveis haver por pequena dôr e vituperio vosso, e com isto bem sabeis que ha n'elle praticas e cautellas, para com todo mostrar ao povo que o faz muito pelo contrairo; porque elle não ha mais mester que favor de villãos que o tem por idolo. Pelo qual nosso conselho é, o com que despedistes os Infantes, não aceitardes a criação de vossos filhos sem governardes toda a fazenda, e que pois haveis de ser agravada, que o sejaes de todo, principalmente pois sabeis que a emmenda d'isto se apressa, e não pode já tardar muito. E pelo que ora vossos irmãos vos escrevem de Castella, e assi de Portugal o Priol do Crato e o Marechal, e os outros fidalgos que defendem vossa querella, o podeis mais claramente vêr e afirmar, e para segurança de vossos filhos, sob reverença de vosso juizo, é muito pelo contrairo. Cá para o Infante D. Pedro cumprir seu máo proposito, se o tem de acabar vossos filhos, sabei que vossa presença é mais azo, e a melhor encuberta que para isso pode ter. E por ventura o farámais levemente, e com menos temor em vosso poder que no seu. E nas enculcas e espias que já agora traz comvosco, de que sabe aqui não sómente o que fallaes, mas o que cuidaes, podereis conjecturar se para tal caso achará ministros. Assi que leixai-lhe todo o Regimento, e os filhos juntamente até que Deus queira».N'este conselho contrariou com razões mui vivas Pero Lourenço d'Almeida, Almotacé Mór do reino, que era presente, desfazendo á Rainha e aos outros conselheiros com fundamentos mui claros as esperanças que tinham de seus irmãos em Castella, e assim dos fidalgos de Portugal. Pedindo-lhe que quizesse acceitar o meio que os Infantes lhe tinham apontado, que segundo a disposição do tempo houve por bom. Mas como a vontade da Rainha, e assi a dos outros estavam para o contrairo determinadas, não aprovaram o conselho de Pero Lourenço, reputando-lhe não a siso mas a fraqueza por se não sahir de sua casa e boa fazenda que tinha em Lisboa. Pelo qual a Rainha determinou partir-se e leixar seus filhos, e levar sómente as filhas comsigo.Isto se passou em Santo Antonio a um sabbado, e logo ao domingo a Rainha mandou chamar secretamente alguns seus de Lisboa, que vieram hi dormir. E passada a meia noite ouviu missa, e fez alevantar os filhos da cama, e tomou El-Rei nos braços, e com muitas lagrimas lhe disse:«Filho e Senhor, praza a Deus por sua piedade que vos guarde e vos dê vida, e a mim não leixe viva e desamparada de vós, como o sou d'El-Rei meu Senhor vosso padre.»E com isto se despediu com tamanho pranto seu e de todos, como se os leixaram soterrados para os nunca mais vêr.El-Rei salteou-se com tamanha novidade, e posto que para isso não teve edade de que se esperasse tamanho accordo, não lhe falleceu natural prudencia e discrição com que n'aquella hora, com grande repouso e segurança, e por palavras doces e avisadas, soube confortar a Rainha sua madre, que se partiu para Cintra, de que o aviso foi logo a Lisboa, e o Infante D. Anrique como o soube se partiu a gram pressa pela alcançar no caminho, e já não pôde senão no logar d'onde a não pôde mover de seu proposito, e o Infante D. Pedro e o Infante D. João foram logo a Santo Antonio e trouxeram El-Rei e o Principe seu irmão a Lisboa, onde a cada um deram casa com seus officiaes apartados, porque até alli se serviam ambos juntamente, e n'estes movimentos foi tanta a prudencia e resguardo d'El-Rei, que sendo de tão pequena edade, e tendo tanto amor e affeição á Rainha sua madre, como era razão, nunca por se vêr d'ella apartado foi ninguem que n'elle contra o Infante podesse conhecer algum signal de má vontade. Nem que reprendesse ou louvasse os feitos de um nem do outro, nem com seu escandalo.CAPITULO LIIComo Lisboa commetteu de querer fazer uma estatua ao Infante D. Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe respondeuOs procuradores do reino com isto acabado se foram, e os cidadãos de Lisboa por memoria da mercê e liberdade que lhes o Infante em nome d'El-Rei fizera, quando lhes tirou as aposentadorias,como já disse, lhe quizeram com seu consentimento ordenar uma estatua de pedra sobre a porta dos Estáos, que o Infante novamente mandou fazer, e perguntando-lhe em que fórma a haveria por melhor que estivesse, o Infante com o rostro carregado de tristeza e pensamento, o desviou e defendeu, dizendo-lhes, como por verdadeira prophecia de sua fim:«Se a minha imagem alli estivesse esculpida, ainda virão dias que em galardão d'essa mercê que vos fiz e d'outras muitas que com a graça de Deus espero de vos fazer, vossos filhos a derribariam, e com as pedras lhe quebrariam os olhos. E por tanto Deus por isso me dê bom galardão, cá de vós em fim não espero outro se não este que digo, e por ventura outro pior.»Das quaes palavras foram então os cidadãos tão maravilhados, como foram depois certificados que dizia verdade, quando assi o viram cumprir. E seguiu-se mais depois, para se presumir que o Infante alguma revelação tinha de sua morte, que em Coimbra indo elle quando regia, e o Infante D. Anrique para a porta de S. Bento, que sae á ponte onde estão as armas da cidade, que são uma mulher posta sobre um calez, com uma corôa na cabeça, e a uma teta um leão, e a outra uma serpe, o Infante D. Anrique olhando-as, disse pelo contentar:«Bem se póde Senhor Irmão comparar a vós esta figura, pois tambem de uma parte daes mantimento ao leão, que é Castella, e da outra a Portugal, que é a serpe do nosso timbre.»«Verdade é, disse o Infante D. Pedro; mas vêde-a melhor, e consirae que está sobre calez, que significa sangue, em que mais claro parece, que de meus trabalhos, serviços e beneficios, esse ha de ser meu galardão.»E certo, com quanto este Principe era mui catholico, devoto e justo, e em que havia muitas outras virtudes, assi se seguiu como ao diante se dirá.CAPITULO LIII

Mandou a Rainha velar e afortalezar Alanquer, onde tinha El-Rei

Dissensão que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique

Embaixada dos Infantes á Rainha

Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para Lisboa ás côrtes

Entrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as côrtes acceitou o Regimento

Notificação do acordo passado á Rainha, que o não consentiu

Ida do Infante D. Anrique á Rainha para leixar vir El-Rei ás côrtes, e lh'o tornarem

Entrada d'El-Rei em Lisboa para as côrtes

De como se apontou e aprovou não ser bem El-Rei se criar em poder da Rainha

Como a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irmão

Como Lisboa commetteu de querer fazer uma estatua ao Infante D. Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe respondeu


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