Chapter 8

De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se daria, fez côrtes geraesEstesaccidentes tão apressados pozeram o Infante D. Pedro em muito cuidado; porque eram taes, que de necessidade ou teria guerra, ou por fraco perderia toda sua honra e estima; porque por isto foi certificado que ao povo de Castella em ajuntamento de côrtes prouve por industria dos Infantes que para restituição da Rainha se fizesse guerra a estes reinos, e para isso se fizessem apurações e lançassem pedidos, que se logo lançaram.E porém o Infante disse aos embaixadores que os casos de seu requerimento eram de calidade, a que se não podia dar direita resposta sem accordo de todo o reino, e portanto lhes rogava que tivessem assi até se fazerem côrtes, onde elles tornariam a ser ouvidos e respondidos, como a todos bem parecesse.Os embaixadores foram d'isto mui contentes; porqueviram levemente oeffeitodo principal fundamento e desejo que traziam, que era por semearem temor divulgar-se sua embaixada por todo o reino.Assignou o Regente as côrtes na cidade d'Evora, onde por suas cartas mandou que os procuradores do povo se juntassem no Janeiro do anno que começava, de mil e quatro centos e quarenta e dois. Notificando-lhe logo a sustancia e causa de sua vinda; e porque lhe parecia que a guerra se não poderia escusar, e não fossem com algum improviso dano salteados por negligencia, determinou que os Infantes a que tambem escreveu, fossem logo ás frontarias de suas comarcas, e provessem todalas fortalezas da raia e as fizessem velar, armar, bastecer e repairar, como para tal necessidade cumpria se sobreviesse, e assim mandassem arredar os gados e provisões dos estremos. E defender os mercadores que não entrassem em Castella; e assi se cumpriu e se poz em todo o reino tanto resguardo, como se a guerra fôra claramente rota, e aos Infantes e grandes e pessoas principaes do conselho que não podiam vir a ser presentes, enviou a sustancia de toda a embaixada, e a cada um ácerca do que responderia pediu seu conselho e parecer em escripto, como sempre costumou.Partiu-se o Regente para Evora, e assi os embaixadores, e ao dia que tinha posto foram juntos os procuradores, onde o Infante por si lhes propoz com largo recontamento a necessidade que o movera aos chamar, e assi lhes apresentou a embaixada presente, resumindo as outras passadas da mesma sustancia, cuja conclusão era que El-Rei de Castella requeria que por bem e paz d'este reino, El-Rei e seus irmãos fossem entregues á Rainha, com inteira governança do reino, se não com força e por guerra de Castella se faria, rogando-lhe que sobre todo consirassem, ecomo bons portuguezes e leaes vassallos d'El-Rei lhe dissessem o que devia dizer e fazer; havendo sempre respeito ao que mais fosse serviço de Deus e honra d'El-Rei e bem de seus reinos. Apontando a necessidade que havia de dinheiro, para que sua ajuda cumpria.E leixando alguns rumores e alvoroços que em continente logo houve, e muitos dos que sem aquella consiração e resguardo que deviam bradavam por guerra e a requeriam, finalmente os procuradores recolhidos em seu consistorio e praticando com muita madureza o caso, tornaram ao Regente seu parecer, que sustancialmente foi todo remetido a seu juizo, por todo confiarem de sua lealdade, siso, e esforço, e para as necessidades que occorriam outorgaram tres pedidos.E conformando-se o Regente com o parecer dos procuradores e assi com as respostas que em escripto houve dos ausentes, deu em nome de El-Rei resposta aos embaixadores, escusando-se por muitas causas a não dever cumprir, nem haver por bem o que requeriam, e que assi era dos do reino aconselhado, e que se por isso El-Rei de Castella quizesse mover guerra contra estes reinos, que lhe pesaria muito por ser entre christãos tão conjunctos em sangue e amigos. Porém quando tão sem razão a movesse, e como imigo quizesse n'elles entrar, fosse certo que a contenda não duraria muito; porque no campo o havia de receber e não o esperar de trás das paredes. E que esperava em Deus pois era justo, que na victoria o faria tão herdeiro, como fizera a El-Rei D. João, de cujos lombos sahira.Com esta resposta despediu os embaixadores de Castella, que com todas suas ameaças passadas não publicaram a guerra como mostravam.FIM DO I VOLUME

De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se daria, fez côrtes geraesEstesaccidentes tão apressados pozeram o Infante D. Pedro em muito cuidado; porque eram taes, que de necessidade ou teria guerra, ou por fraco perderia toda sua honra e estima; porque por isto foi certificado que ao povo de Castella em ajuntamento de côrtes prouve por industria dos Infantes que para restituição da Rainha se fizesse guerra a estes reinos, e para isso se fizessem apurações e lançassem pedidos, que se logo lançaram.E porém o Infante disse aos embaixadores que os casos de seu requerimento eram de calidade, a que se não podia dar direita resposta sem accordo de todo o reino, e portanto lhes rogava que tivessem assi até se fazerem côrtes, onde elles tornariam a ser ouvidos e respondidos, como a todos bem parecesse.Os embaixadores foram d'isto mui contentes; porqueviram levemente oeffeitodo principal fundamento e desejo que traziam, que era por semearem temor divulgar-se sua embaixada por todo o reino.Assignou o Regente as côrtes na cidade d'Evora, onde por suas cartas mandou que os procuradores do povo se juntassem no Janeiro do anno que começava, de mil e quatro centos e quarenta e dois. Notificando-lhe logo a sustancia e causa de sua vinda; e porque lhe parecia que a guerra se não poderia escusar, e não fossem com algum improviso dano salteados por negligencia, determinou que os Infantes a que tambem escreveu, fossem logo ás frontarias de suas comarcas, e provessem todalas fortalezas da raia e as fizessem velar, armar, bastecer e repairar, como para tal necessidade cumpria se sobreviesse, e assim mandassem arredar os gados e provisões dos estremos. E defender os mercadores que não entrassem em Castella; e assi se cumpriu e se poz em todo o reino tanto resguardo, como se a guerra fôra claramente rota, e aos Infantes e grandes e pessoas principaes do conselho que não podiam vir a ser presentes, enviou a sustancia de toda a embaixada, e a cada um ácerca do que responderia pediu seu conselho e parecer em escripto, como sempre costumou.Partiu-se o Regente para Evora, e assi os embaixadores, e ao dia que tinha posto foram juntos os procuradores, onde o Infante por si lhes propoz com largo recontamento a necessidade que o movera aos chamar, e assi lhes apresentou a embaixada presente, resumindo as outras passadas da mesma sustancia, cuja conclusão era que El-Rei de Castella requeria que por bem e paz d'este reino, El-Rei e seus irmãos fossem entregues á Rainha, com inteira governança do reino, se não com força e por guerra de Castella se faria, rogando-lhe que sobre todo consirassem, ecomo bons portuguezes e leaes vassallos d'El-Rei lhe dissessem o que devia dizer e fazer; havendo sempre respeito ao que mais fosse serviço de Deus e honra d'El-Rei e bem de seus reinos. Apontando a necessidade que havia de dinheiro, para que sua ajuda cumpria.E leixando alguns rumores e alvoroços que em continente logo houve, e muitos dos que sem aquella consiração e resguardo que deviam bradavam por guerra e a requeriam, finalmente os procuradores recolhidos em seu consistorio e praticando com muita madureza o caso, tornaram ao Regente seu parecer, que sustancialmente foi todo remetido a seu juizo, por todo confiarem de sua lealdade, siso, e esforço, e para as necessidades que occorriam outorgaram tres pedidos.E conformando-se o Regente com o parecer dos procuradores e assi com as respostas que em escripto houve dos ausentes, deu em nome de El-Rei resposta aos embaixadores, escusando-se por muitas causas a não dever cumprir, nem haver por bem o que requeriam, e que assi era dos do reino aconselhado, e que se por isso El-Rei de Castella quizesse mover guerra contra estes reinos, que lhe pesaria muito por ser entre christãos tão conjunctos em sangue e amigos. Porém quando tão sem razão a movesse, e como imigo quizesse n'elles entrar, fosse certo que a contenda não duraria muito; porque no campo o havia de receber e não o esperar de trás das paredes. E que esperava em Deus pois era justo, que na victoria o faria tão herdeiro, como fizera a El-Rei D. João, de cujos lombos sahira.Com esta resposta despediu os embaixadores de Castella, que com todas suas ameaças passadas não publicaram a guerra como mostravam.FIM DO I VOLUME

De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se daria, fez côrtes geraes


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