BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZESProprietário e fundador--Mello d'Azevedo(VOLUME LIII)CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO IIPORRUY DE PINAESCRIPTORIO147--Rua dos Retrozeiros--147LISBOA1906CHRONICADO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPED. AFFONSO II.TERCEIRO REY DE PORTUGAL,COMPOSTAPOR RUY DE PINA,Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL,Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.OFFERECIDAÁ MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREID. JOAÕ V.NOSSO SENHORPOR MIGUEL LOPES FERREYRALISBOA OCCIDENTAL.Na Officina FERREYRIANA.M.DCC.XXVII.Com todas as licenças necessarias.SENHORPonho na Real presença de V. Magestade a Chronica do Senhor Rei D. Affonso II que ainda que breve no volume, é larga na qualidade dos successos. Nella verá V. Magestade que os seus gloriosos Predeccessores não cessaram em tempo algum do augmento dos seus Estados, e da Religião Christã pois a este fim vestiam as armas, e tomavam a lança com perigo das suas Reaes vidas, como o experimentou este mesmo principe, vendo-se quasi suffocado na campanha. Aceite V. Magestade este tributo do meu obsequio, que prostrado a seus Reaes pés lhe deseja todas aquellas felicidades, que só podem vir da mão de Deos que guarde a Real Pessoa de V. Magestade por muitos annos, como seus vassallos lhe dezejamos.Miguel Lopes Ferreira.AO EXCELLENTISSIMO SENHORFERNÃO TELLES DA SILVAMarquez de Alegrete dos Concelhos de Estado, e Guerra del-Rei Nosso Senhor, Gentil homem de sua Camara, Védor de sua fazenda, seu Embaixador extraordinario na Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador José, Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico, e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.Terceira vez busco a V. Excellencia como protector, e amparo commum dos que servem a Patria. A benignidade natural de V. Excellencia tem a culpa desta repetição. Offereço a V. Excellencia esta Chronica del-Rei D. Affonso II chamado vulgarmente oGordo, para que V. Excellencia se digne de a pôr na Real presença de Sua Magestade. Espero que lembrado V. Excellencia de já me haver feito duas vezes este mesmo beneficio, mo queira continuar agora, porque é certo que suprirá a grandeza da Pessoa de V. Excellencia o que eu não mereço. A Excellentissima Pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.Criado de V. ExcellenciaMiguel Lopes Ferreira.PROLOGO AO LEITORNão te admires vendo uma Chronica tão pequena de um Rei tão grande. Em oito capitulos a deo por acabada o seu Chronista, ou o reformador da sua Chronica antiga. Mas aqui é que se ha de estimar o livro pelo pezo, e não pelo volume. Verás nesta Chronica o que podem as paixões: verás o zelo da Religião obrigando a um Principe a entrar na campanha quando a sua demasiada corpulencia que lhe deo o nomede Gordo, justamente o desobrigava de tão violento exercicio; mas o augmento da Fé o fazia esquecer des impedimentos da natureza. Verás como no seu tempo vieram miraculosamente para a Cidade de Coimbra as Reliquias dos cinco Religiosos de São Francisco, que pela Fé deram o sangue em Marrocos, e verás como o mesmo Rei pessoalmente os foi receber. Lê, e não te mostres ingrato ao meu cuidado que não cessa de procurar modos de satisfazer á tua curiosidade, como brevemente o verás.Vale.LICENÇAS DO SANTO OFFICIOApprovação do Reverendissimo Padre Mestre D. Antonio Caetano de Souza, Clerigo Regular da Divina Providencia, Qualificador do Santo Officio, e Academico do Numero da Academia Real da Historia PortuguezaEMINENTISSIMO SENHOREsta Chronica del-Rei D. Affonso II que V. Eminencia me manda ver, que anda em nome de Ruy de Pina Chronista mór em tempo de El Rei D. Manoel, e agora manda imprimir Miguel Lopes Ferreira, depois de passados dous seculos, não contem cousa alguma contra a nossa Santa Fé, ou bons costumes. Não só esta Chronica, mas todas as que temos antigas desde El-Rei D. Affonso I e o Conde D. Henrique seu pai, até El-Rei D. Duarte, conformea observação que tem feito os Eruditos da nossa Historia, todas foram escritas por Fernão Lopes primeiro Chronista mór do Reino, que depois milhorou em estillo o dito Ruy de Pina, e publicou em seu nome, com que agora se imprimiram, com a licença de V. Eminencia, a que não tenho duvida se lhe conceda. Lisboa Occidental na Caza de N. Senhora da Divina Providencia, 8 de Março de 1726.D. Antonio Caetano de Souza C. R.Approvação do Reverendissimo Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, Religioso da Provincia de Santo Antonio dos Capuchos, Lente Jubilado na Sagrada Theologia, e Qualificador do Santo Officio, &c.EMINENTISSIMO SENHORLi por ordem de V. Eminencia esta Chronica del-Rei D. Affonso o II. Della consta só a discordia, que houve entre o dito Rei, e suas irmãs, mas ainda assim (depois de obrigado) estudou como se havia de concordar, como concordou, com ellas, sinal de ser Rei sabio, e virtuoso; Sabio como diz Santo Ambrosio: «Lib. 2. de Abraham c. 6. ante medium col. 1013. B. Sapienti pacis, & concórdiae est studium, imprudenti amica jurgia»; e virtuoso como dá a entender S. João Chrysostomo «Homil. 45. ante a medi[~u] col. 373, D. Ubi concordia, ibi bonorum confluxus, ibi pax, ibi charitas, ibi spiritualis laetitia nullum bellum, nulla rixa, nus quam inimicitior, & contentio». Esta concordia, paz, caridade, alegria espiritual, &c vemos por experiencia neste nosso Reino agora de prezente, mas como não ha de ser assim, se temos por Rei o Invitissimo, e Augustissimo Monarcha o Senhor D. Joãoo V, que Deos guarde por muitos annos, de quem com muita propriedade se póde dizer o que lá disse Cicero (senão em tudo, em parte) «Orat. 42. pro Rege Dejotaro in princip. num. I. tom 2. Rex concors, pacificus, fortis, justus, severus, gravis, magnanimus largus, beneficus, liberalis, &c.» Não tem a Chronica cousa contra a Fé, ou bons costumes, e assim julgo que se póde imprimir. Santo Antonio dos Capuchos, 21 de Março de 1726.Fr. Vicente das Chagas.Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica del-Rei D. Affonso II e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Março de 1726.Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. Silva. Cabedo.DO ORDINARIOApprovação do Reverendissimo Padre Mestre D. José Barbosa Clerigo Regular da Divima Providencia, Examinador das Tres Ordens Militares, Chronista da Serenissima Caza de Bragança, e Academico do Numero da Academia Real da Historia PortuguezaILLUSTRISSIMO E REVERENDISSIMO SENHORPor mandado de V. Illustrissima vi a Chronica del-Rei D. Affonso II que escreveo Ruy de Pina, e nella não achei por onde se não lhe deva dar a licença para se imprimir. V. Illustrissima ordenará o que for servido. Nesta Caza de N. Senhora da Divina Providencia, 18 de Agosto de 1726.D. José Barbosa C. R.Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 27 de Setembro de 1726.D. J. A. L.DO PAÇOApprovação do Reverendo Beneficiado Diogo Barbosa Machado Presbytero do Habito de S. Pedro, e Academico do Numero da Academia Real da Historia PortuguezaSENHORObedecendo ao Real preceito de V. Magestade, li a Chronica do Serenissimo Rei D. Affonso II do nome, e terceiro Rei de Portugal, composta por Ruy de Pina Chronista mór deste Reino, e Guarda mór da Torre do Tombo, um dos mais deligentes Escritores, que venerou a sua idade. Nella, como em pequeno mappa recopilou este Author parte das heroicas acções, que exercitou aquelle Principe,cujo coração foi sempre animado pelos espiritos marciaes, que com a Coroa herdara de seus augustissimos Predecessores, illustrando a sua Real purpura não com o barbaro sangue Mauritano, derramado na famosa conquista de Alcacere, como inferior á sua grandeza, mas com aquelle que sagradamente prodigos verteram em obsequio da Religião sobre as aras do Martyrio cinco heroicos Soldados nas adustas campanhas de Marrocos, que sendo benevolamente hospedados em Coimbra, e Alemquer pela generosa piedade da Rainha Dona Urraca, e da Ifanta Dona Sancha, uma Esposa, e outra Irmã deste Monarcha, quizeram satisfazer aquella piedosa hospitalidade com a posse das suas sagradas cinzas conduzidas ao Real Convento de Santa Cruz de Coimbra pelo ferveroso zelo do Ifante D. Pedro. Certamente agora recebe nova gloria, e maior esplendor o nome não só daquelle Principe, mas ainda do seu Chronista, pois se faz publica, e patente aos olhos do mundo uma Historia, que ha mais de dous Seculos estava occulta nos Archivos, e nas Bibliothecas, e ainda que era conhecida por alguns eruditos, não tinha a fortuna de lograr o beneficio da luz publica eternizada nos caracteres da Impressão mais perduraveis, que aquelles, que a vaidade dos homens abrio nos marmores, e esculpio nos bronzes. Desta tão grande, e tão heroica felicidade o unico, e Soberano Author é V. Magestade, pois com a altissima providencia, com que criou a Academia da Historia Portugueza intruduzio nova vida no corpo historico desta Monarchia, que jazia sepultado nas injuriosas cinzas do esquecimento. Erigio um Capitolio litterario para nelle se coroarem os Varões benemeritos da immortalidade. Abrio uma douta Officina para se lavrarem as Estatuas aos Heroes Portuguezes. Correo as cortinas ao veneravel Santuario das antiguidadesEcclisiasticas desta Coroa. Descobrio os thesouros da erudição Historica atégora fechados á perspicacia de muitos engenhos. Declarou formidavel guerra ao Imperio da ignorancia, e fez communicavel a todo o genero de pessoas o comercio das Letras. Toda esta gloria estava mysteriosamente reservada para o feliz reinado de V. Magestade, pois não lhe bastando para complemento da sua Real grandeza o suave dominio, que tem nos corações de seus vassallos, o quiz tambem dilatar aos entendimentos, como parte mais nobre, e superior de todo o homem. Animados com os generosos alentos, com que V. Magestade inspira, e protege as Sciencias, são innumeraveis os Escritores, que com judiciosa critica, e vastissima erudição tem publicado os partos de seus fecundos engenhos, não sendo inferior a estes a zeloza diligencia com que Miguel Lopes Ferreira se empenhou em obsequio deste Reino a mandar imprimir as Chronicas dos Reaes Predecessores de V. Magestade das quaes é esta a Terceira, sendo egualmente digno da attenção de V. Magestade o seu zelo com que pretende eternizar as glorias desta Monarchia, como benemerito da licença este livro pelo nome de seu author. V. Magestade ordenará o que for servido. Lisboa Occidental 20 de Março de 1727.Diogo Barbosa Machado.Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e depois de impressa torne á meza para se conferir, e taxar, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 5 de Junho de 1727.Marques P. Pereira. Galvão. Oliveira. Teixeira BonichoCoronica do muito alto, e esclarecido Principe D. Affonso II, terceiroRei de PortugalCAPITULO IComo o Ifante Dom Affonso foi alevantado por Rei e como foi cazado, e com quem, e que filhos legitimos houveEl-ReiDom Sancho de louvada memoria deste nome o primeiro, e dos Reis de Portugal o segundo, faleceo em Coimbra na era de N. Senhor de mil e duzentos e doze; (1212) o Principe Dom Affonso como primogenito, e herdeiro foi logo alevantado, e obedecido por Rei, em idade de vinte e cinco annos, havendo já quatro annos que era cazado com a Rainha Dona Orraca filha legitima del-Rei Dom Affonso deste nome e noveno de Castella, e neste tempo sendo Ifante, depois que sua idade o premitio, e em Reinando El-Rei Dom Sancho seu padre, foi com elle em muitas cousas notaveis, e grandes feitos darmas, que naquelles tempos concorreram, em que porseu corpo, e braço assi o fez sempre como bom, e esforçado Cavalleiro, que bem pareceo ser filho, e neto do pai de que descendia, e para claramente se ver que a Real Caza de Portugal dantigamente foi liada, e conjunta em sangue com todas as Cazas de todos os Reis, e Principes Christãos, é de saber, que El-Rei Dom Affonso noveno de Castella, sogro deste Rei Dom Affonso de Portugal foi cazado com a Rainha Dona Lianor filha del-Rei Dom Anrique Dinglaterra, e della houve dous filhos, e cinco filhas; todos legitimos, a saber, dous filhos o Ifante Dom Fernando primeiro, e herdeiro, que em idade de dezaseis annos sem ser cazado faleceo em vida de seu pai antes um pouco da batalha das Naves de Tolosa, e o Ifante Dom Anrique, que apoz elle depois de sua morte o soccedeo, e sem leixar herdeiro, que o soccedesse faleceo mui moço, como atraz na Coronica del-Rei D. Sancho é declarado, e das cinco filhas que houve uma foi a Ifanta Dona Constança primeira Senhora do Moesteiro das Holgas de Burgos, que El-Rei seu padre novamente fundou, onde ella falleceo sem cazar, e as outras quatro filhas foram Rainhas, a saber, a Rainha Dona Branca, filha maior, que cazou com El-Rei Luis de França, filho del-Rei Felippe, o que disseram Augusto, e houveram herdeiro de França El-Rei São Luis, e outros filhos, e a segunda Rainha, foi Dona Lianor, que foi cazada com El-Rei Dom James, deste nome o primeiro Rei de Aragão, de que houve filho o Ifante D. Affonso, que faleceo moço, e não Reinou, e a terceira filha foi a Rainha Dona Biringela mulher del-Rei Dom Affonso de Lião de que houve filhos El-Rei Dom Fernando Rei de Castella, e de Lião, que dizem o Santo, e o que ganhou dos Mouros Cordova, e Sevilha, e muita parte Dandaluzia, e o Ifante Dom Affonso de Molina, como na Coronicadel-Rei Dom Sancho brevemente se disse, e na Coronica de Castella mais largamente se contem.E a quarta filha foi a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso de Portugal de que houveram dous filhos, e uma filha a saber, o Ifante D. Sancho o que disseram o Capello, que a poz elle logo Reinou, e o Ifante Dom Affonso que foi Conde de Bolonha em França, que apoz Dom Sancho por não ter legitimo herdeiro tambem Reinou em Portugal, e o Ifante Dom Fernando, que se disse Ifante de Serpa, e segundo se brevemente acha, este cazou em Castella com Sancha Fernandes, filha de Dom Fernando, de que houve uma filha chamada Dona Lianor, que foi depois cazada com El-Rei de Dacia, e lá faleceo sem filhos, e houve mais o dito Rei Dom Affonso da Rainha Dona Orraca sua molher a Ifanta Dona Lianor, que cazou com o filho herdeiro del-Rei de Dinamarca, que depois da morte de seu padre herdou o Reino, mas quando, e como, e por quem estes Ifantes Dom Fernando, e Dona Lianor cazaram, não se acha escrito, somente parece que segundo o pouco tempo que El-Rei Dom Affonso seu padre viveo, que elles cazaram depois de sua morte, e por aderencias das Cazas Reaes de França, e Dinglaterra, com que por sangue eram mui conjuntos.E não dou muita fé, nem authoridade ao que destas Rainhas Dona Orraca de Portugal, e Dona Branca de França vulgarmente se diz, e alguns escreveram, que os Embaixadores del-Rei de França, e del-Rei de Portugal, que juntamente vieram a Castella a requerer cazamentos destas Rainhas filhas del-Rei Dom Affonso, que os de França quizeram antes a Dona Branca, posto que era mais moça, e de menos estima, e leixaram a Portugal Dona Orraca por ser nome feo, para França, por que isto tem duas grandescontradições, a primeira que a Rainha Dona Branca não era a mais moça, mas a mais velha, e nas contendas, que depois houve antre os Reis de França, e Castella, sobre socessão de Castella, que vinha de filhas, e não de filhos, se prova isto muito craro, porque El-Rei São Luis de França pertendia ter direito em Castella, por ser filho da Rainha Dona Branca, filha maior del-Rei Dom Affonso noveno, e queria excludir a El-Rei D. Affonso deste nome o decimo de Castella, filho del-Rei Dom Fernando, neto da Rainha Dona Biringela, por ser filha menor del-Rei D. Affonso noveno, e se a Rainha Dona Orraca fora filha maior, este direito pertencia a El-Rei Dom Sancho Capelo, e a El-Rei D. Affonso Conde de Bolonha, Reis de Portugal, e filhos da dita Rainha Dona Orraca, o que não foi, e a segunda contradição é que este nome Dona Orraca era nome a Rainhas mui costumado, e de muita estima, e tal de que se muitas honraram, e leixando outras muitas, estas que me aqui occorrem apontarei, a mãi do Emperador Despanha D. Affonso deste nome o outavo de Castella, e molher do Conde Dom Reymão de Tolosa havia nome Dona Orraca, que foi a Rainha Despanha, e a Rainha de Lião, molher del-Rei Dom Fernando, e filha del-Rei Dom Affonso Anriques, tambem havia nome Dona Orraca, que foi Princeza mui singular, e a molher de Dom Reymão Conde de Barcelona, e Rei de Aragão, que era da Caza, e Reino de França, que no mesmo Reino havia nome Dona Prona, e mudou o nome, escolhendo outro por milhor, se chamou Dona Orraca, e desta veo D. Affonso deste nome o segundo Rei Daragão, e a Rainha Dona Doce molher del-Rei D. Sancho de Portugal, de que em sua Coronica se disse.CAPITULO IIDas desavenças que houve antre El-Rei D. Affonso, e as Ifantes suas irmãs, e da guerra que sobre esso se moveoNoprimeiro anno do Reinado deste Rei Dom Affonso de Portugal, era o prazo da batalha das Naves de Toloza, que El-Rei Dom Affonso seu sogro tinha posto com Mirabolim de Marrocos, filho de outro Mirabolim, que fora vencedor na outra batalha Delharcos, para que o Papa concedeo geral Cruzada, que o Ifante D. Fernando primogenito herdeiro do dito Rei D. Affonso em pessoa foi pedir, e trouxe de Roma, e logo faleceo, como já disse, e por ganharem os perdões, e remissões de peccados grandes outros Senhores, e outras muitas e nobres gentes de toda Christandade vieram a esta batalha em pessoas á qual não se acha, que fosse em pessoa este Rei Dom Affonso de Portugal, mas que enviou gentes suas, e a cauza delle não ir em pessoa, diz, que foi porque neste proprio anno começou de Reinar em Portugal, e assi por boliços, e desassocegos que dantre elle, e suas irmãs se moveram, como ao diante se dirá. E este Rei Dom Affonso de Castella ao tempo desta batalha era de cincoenta e seis annos, e no anno seguinte tendo Cortes em Burgos, se diz que mandou a ellas chamar a este Rei de Portugal seu genro, ás quaes elle não quiz ir, e elle anojado desso, determinou fazer-lhe guerra, e tomar-lhe os Reinos se podesse, e que com este fundamento indo para Prazença adoeceo no termo de Revaldo em uma Aldea, que se diz Martim Manhos, e ahi faleceo, e foi dahi levado, e sepultado no Moesteirodas Holgas de Burgos, que elle novamente fundou, e outros dizem que vinha para se ver no extremo de Portugal com seu genro para o aconselhar em suas couzas, e debates em que andava, com suas irmãs, e que todavia faleceo no dito lugar, porque tambem este Rei Dom Affonso de Portugal logo como Reinou não lhe faleceram grandes necessidades, e afrontas de excommunhões do Papa, e de guerras, e desavenças que houve com suas irmãs a Rainha Dona Tareja, molher que fora del-Rei Dom Affonso de Lião, e da Ifante Dona Sancha, de que a cauza brevemente foi esta.El-Rei Dom Sancho, como em sua Coronica disse, leixou em seu testamento á Rainha Dona Tareja, sua filha, que fora cazada com o dito Rei Dom Affonso de Lião, a Villa de Monte mór o Velho, e Esgueira, e mais dez mil maravedis douro, e certa prata, e que se ella morresse, que houvesse estes Lugares a Ifante Dona Branca sua irmã della, e leixou á Ifante Dona Sancha a Villa Dalanquer, e dez mil maravedis douro, e tambem prata, e que se ella falecesse, que houvesse a Villa a Ifante Biringela sua irmã, das quaes Villas, e cousas ellas houveram a posse, e as tinham; mas El-Rei Dom Affonso seu irmão em caso que fosse contra seu juramento, e menagem, não quiz estar inteiramente pelo testamento del-Rei seu padre, antes como Reinou logo pedio as ditas Villas, e Fortalezas a suas irmãs, dizendo: «Que El Rei seu padre lhas não podia dar, que era em mui grande diminuição do Reino, e que era sobresso concedido privilegio do Papa Alexandre Terceiro, por o qual as cousas do Reino senão podiam dar a alguma pessoa nem emlhear, e que assás lhe leixara a ellas nos maravedis douro, e prata de seu testamento com outras cousas, que tinham de suas fazendas.E sobre este requerimento El-Rei, e a Rainha, e asIfantes suas irmãs por lhe darem reposta, pediram dias de liberação, dentro dos quais ellas se recolheram logo com a Ifante Dona Branca sua irmã ao Castello de Monte mór, e o basteceram, e fortalezaram, e deshi se emviaram logo aggravar ao Papa Innocencio III que ficára por executor do testamento del-Rei seu pai, e por esso lhe leixou o dito Rei D. Sancho seu pai cem marcos douro, e assi o fizeram ellas mais saber ao dito Rei de Lião com que a dita Rainha Dona Tareja fora cazada, e era apartada delle pela Egreja, de que houveram logo ajuda, e soccorro, a que por seu mandado veo logo o Ifante Dom Pedro seu irmão dellas filho del-Rei Dom Sancho o que depois passou a Marrocos, e trouxe aos ossos dos Martyres, e assi veio ao dito soccorro, e ajuda o Ifante Dom Fernando filho da dita Rainha Dona Tareja, e del-Rei Dom Affonso de Lião, e assi veo em sua companhia Dom Pedro Fernandes de Castro o Castellão, aquelle que em companhia dos Mouros foi prezo em Portugal, e logo solto, e depois passou, e morreo em Marrocos, e com alle veo muita gente, que foi nos estremos de Portugal, donde enviaram ás ditas Villas, e Fortalezas de Monte mór, e Alanquer aquella que comprio para defenção dos Castellos, e para resistencia del-Rei Dom Affonso de Portugal, o qual por sentir muito o insulto tamanho dos estranhos, e tão grande desobediencia dos seus naturaes, veo logo á dita Villa de Monte mór, e por algumas vezes requereo a suas irmãs, e principalmente a Dona Tareja, cuja era, que houvesse por bem de desistir de seu alevantamento, e quizesse que o Castello se entregasse a algum homem de que ambos se confiassem para o ter em boa guarda, e fieldade, e que de sua fazenda delle lhe faria dar todas dispezas, e mantimentos para esso necessarios, e que este arrecadasse inteiramente para ella todas asrendas, e direitos da Villa, mas que as menagens fossem feitas a elle, o que ella nunca quiz fazer, antes se diz que consentio, que os de dentro em desprezo, e por injuria del-Rei seu irmão calando o nome do Reino, e del-Rei de Portugal a que deveram acatar, e obededer, envocaram, e chamaram o nome de Lião, que repetiam muitas vezes, e que outro tanto mandou fazer a Ifante Dona Sancha no Castello Dalanquer, e por tanto El-Rei temendo perder os ditos Castellos os mandou cercar, e combater, e com a gente do cerco, que sobreveo se seguiram nelles, e em seus termos pela condição da guerra muitas mortes, e danos de uma parte, e da outra, pelo qual os Ifantes, e Senhores, que com a gente do Reino de Lião, que disse entráram em Portugal tomáram Valença do Minho, e Melgaço, Algozo, e Freixo, e outros Lugares chãos que roubaram, e queimaram, em que fizeram muto mal.CAPITULO IIIComo foi pelo Papa procedido contra El-Rei D. Affonso por causa da contenda que havia com suas irmãs, e como finalmente foram concordadosEsobre esso para mais tormento del-Rei Dom Affonso de Portugal vieram de Roma por juizes Delegados do Papa a requerimento das Ifantes o Arcebispo de Santiago, e o Bispo de Çamora, que por El-Rei de Portugal ir contra o testamento del-Rei seu padre, e por não desistir do cerco, que tinha posto aos Castellos de Monte mór, e Alanquer, excommungou sua pessoa, e pozeram entredicto geral em todo o Reino, exceituaram sómente as ditasIfantes, e seus sequazes, e servidores, sobre o qual El-Rei Dom Affonso com rezões, e cousas que achou, e lhe aconselharam de sua justiça se enviou destes procedimentos querelar, e aggravar ao Papa, e pedir emenda del-Rei de Lião, e dos que tinham as Villas, e Castellos de seus reinos forçados, e nelles feitos muitos danos, alegando sobre esso a pouca justiça que suas irmãs tinham nas Villas, e Castellos de seu Reino, com que se levantáram, e dando outras rezões, porque entendia ser relevado da culpa que lhe dava dizendo por sua escuza, que o não obrigava o juramento, e menagens, que fizera de comprir o testamento del-Rei Dom Sancho seu padre, porque o fizera forçado, e por não ser deserdado do Reino, e mais que a esse tempo seu pai não estava em todo seu sizo, e entender verdadeiro, pois tanto contra justiça fizera tamanho enlheamento das cousas do Reino, que não podia fazer.E o Papa por seu respeito cometeu este negocio aos Abbades Despina, e Vicarria, que fez Juizes Commissairos, os quais vieram a Coimbra onde sobre segurança já praticada, e antre todos concordada, foram tambem juntos El-Rei Dom Affonso, e suas irmãs em pessoas a que os Juizes deram solene juramento porque prometeram estarem todos á obediencia, e detreminação de todo o que elles em nome do Papa ácerca de seus negocios detreminassem, e mandassem, e por este juramento, e promessa que se fez El-Rei, e os seus foram da excommunhão ausolutos, e alevantado o antredicto do Reino. Os Commissairos pozeram antre elles treguas, e seguridade, que todos prometeram guardar, até o Papa finalmente detreminar suas contendas, e debates, e algumas condições das tregoas principaes, eram que os de uma parte, e da outra podessem livremente andar, e tratar por as terraschans uns dos outros, mas que nas Villas, e Castellos cercados não entrassem sem licença dos Senhores dellas, e que tudo podessem, uns e outros comprar, e vender salvo armas, e cavallos, e que ellas Ifantes em algum seu Lugar de Portugal não podessem mandar lavrar moeda douro, prata, nem dalgum metal, que quatro Cavalleiros principais da parte del-Rei jurassem que se El-Rei não guardasse as tregoas que cada um delles com cinco Cavalleiros mais servissem as Ifantes contra El-Rei e cada uma das Ifantes désse outros tantos por si, que com esta condição servissem a El-Rei contra ellas, e mais que El-Rei désse cem homens cazados, e honrados de Coimbra, e que todos lhe fizessem, e pagassem foro, e outros cento semelhantes de Santarem, que jurassem todos fazer sempre comprir esta tregoa, e que não a comprindo El-Rei, que servissem ás Ifantes contra El-Rei, e que ellas por sua parte déssem outros taes, a saber: cento Dalanquer, e cento de Monte mór, para que se ellas não comprissem a tregoa, que servissem a El-Rei contra ellas, e que neste tempo uns, e outros, não cercassem Villas, nem Castellos, nem se fizesse algum mal, sopena de excomunhão, e antredicto, em que elles, e todos los ajudadores, e favorecedores ipso facto encorressem, e com mandado estreito aos Prelados do Reino, que a cada um assi como lhes tocasse as sentenças dos ditos alegados fizessem inteiramente comprir, e executar até o Papa finalmente as aprovar, ou emendar como fosse justiça.Esta tregoa, se fez em Coimbra na era de nosso Senhor de mil e duzentos e quatorze annos, (1214) dous annos depois que El-Rei começou a Reinar, e logo ahi se fulminou e principiou processo em que a Rainha, e a Ifante cada uma per si segundo os danos que del-Rei seu irmão tinham recebidos, e pelas injurias, e males,que no cerco padeceram, pediam contra elle restituição, e assi segurança perpetua de suas Villas, e Castellos, e gram soma de maravedis, que naquelle tempo era moeda douro assi geral, e praticada como neste agora são na Europa os cruzados, e ducados, porque sessenta delles faziam um marco douro, como já em outras partes tenho dito, e ás petições das ditas Senhoras, veo El-Rei por seu procurador com exceições, e contrariedades, e compensações sobre que de uma parte, e da outra foi dito, e assás alegado, e sobre seus alegados foi o feito concruzo, e os Juizes remeteram a publicação da final sentença para Melgaço, Castello de Portugal no extremo de Galiza, a que mandaram que El-Rei, e as Ifantes fossem por si, ou por seus procuradores, onde no Maio seguinte a publicaram, e foi El-Rei condenado por a dita sentença em grande soma de dinheiro, e doutras emendas, e depois que passou o termo para a paga, assinado, pozeram em El-Rei sentença Dexcommunhão, e assi antredito em todo o Reino, de que logo apelou, e depois de muitos debates, e delongas, que em Roma, e Espanha sobre este caso passaram, que não fazem a realidade da Estoria, finalmente El-Rei, e as irmãs se concordaram por maneira, que as Villas de Monte mór, e Alanquer ficaram com ellas segundo a disposição do testamento del-Rei Dom Sancho seu pai, e as Villas e Castellos, e terras de Portugal, que El-Rei de Lião tinha tomadas foram entregues, e restituidas a El-Rei Dom Affonso. No qual meio tempo que durou esta divisão, e discordia uns e os outros fizeram grandes, e danosas entradas, e muitos roubos nos Reinos, uns dos outros, em que houve pelejas particulares sem alguma façanha de notar, cuja longa, e expressa declaração não ponho ora; porque para a sustancia da Estoria não é muito necessaria.CAPITULO IVDo fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros, ser cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa principalmenteNosprimeiros cinco annos que El-Rei Dom Affonso Reinou não se acha, que socedessem outras cousas, salvo as desavenças, e desacordos em que andou com suas irmãs, e irmãos e assi a guerra com El-Rei de Lião, e com suas genetes como já disse, e passados os ditos cinco annos, e andando a era de nosso Senhor em mil e duzentos e dezasete annos os Christãos, que estavam na conquista dultra már por defenção, e recobramento da Terra Santa, tinham muitas necessidades de concorrer ás cruas guerras, e cercos apertados, que dos Infieis padeciam, para o que os Summos Pontifice convocavam, e requeriam todolos fieis Christãos de todalas nações, e vindo por mar a este soccorro muitas gentes Dalemães, e Framengos, e outras de contra o Norte fizeram todos uma frota de cento e cincoenta naos de que eram Capitães principaes Iliquino, Conde Dolanda, e Georgeo, Conde de Frisa, com que iam outros Senhores, e grandes homens, e sendo em mar, em través de Portugal para demandarem o estreito de Cibraltar deu na frota tão grande, e tão contraria tromenta, que algumas naos dellas se perderam, e outras correram ao Cabo de S. Vicente até a Villa de Farão, a qual com toda a Comarca, e Reino do Algarve ainda eram Mouros, e porque o vento contrairo, e assi a terra de imigos, em que estavam, não lhes traçavam bem para sua segurança, elles para dos danos, e perdas recebidas se poderem milhor repairarfizeram volta, com fundamento de se virem ao porto de Lisboa.Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromenta mais aspera, e de maior perigo que a primeira, em que já tambem perderam algumas naos com toda a gente que nellas vinha, e a outra frota depois que a tromenta cessou, e sobreveo bom vento de viagem, entrou toda via, e veo surgir ante a Cidade de Lisboa, e os Capitães della assás tristes, e anojados, pelas grandes perdas de gentes, e doutras cousas, que no mar tinham perdidas, e sahindo logo Capitães com pouca gente em terra, o Bispo, que então era de Lisboa chamado Dom Matheus, sabendo que eram Christãos os recebeo, e tratou com muita honra, e bom acolhimento, segundo a bondade de uns, e as necessidades dos outros requeria, de que o Bispo logo soube o proposito com que vinham, que era por soccorro, e ajuda da Caza Santa. E dahi a poucos dias este Bispo de Lisboa porque era Prelado de mui bom espirito, e grande coração, depois de ter juntos com seus rogos, e boa humanidade os principaes destes Estrangeiros lhe disse.«Honrados, e devotos Senhores, Deos sabe que a mim peza muito de todolos nojos infortunios, que passastes, e o remedio por agora não é outrosalvo paciencia do passado, e esforço, e bom coração para o que mais vier, vós vedes bem, quanto vos é contrairo o tempo para seguirdes vossa proposta viagem, e desto por vossos Pilotos, e mariantes podeis ser milhor certificados, póde ser, e eu assi o creo, que Deos o premite assi para alguma cousa de seu louvor, e serviço, e tambem de nossas honras, e proveito, e esto digo porque aqui junto ha um Castello em poder de Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra toda que é de Christãos recebe muito dano; se vos prouverpois este feito, não é estranho doutros, que emprendestes, e a que his ajudarnos nelle, assi como vejo que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de Deos principalmente, o ganharemos dos infieis, e pois a obra, e o serviço é de Deos, elle por sua grandeza, e piedade vos dará delle bom galardão, e nestas cousas sómente que tocam a vossa honra, e salvação, aconselhai-vos com sizo, e com a devoção, e não com a vontade carnal, porque assás de vergonhosa cousa será publicardes pelas bocas bom dezejo para o servir, e as obras, que são tão possiveis serem disso contrairas, e pois o lugar, e tempo se offerecem agora tão despostos rogo-vos que elles não vos passem com ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis que ella é fundamento de todolos peccados, e sepultura dos homens vivos, e corrução de todolos costumes, e propositos virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que trazeis mostraes serdes devotos, e servidores da Cruz, assi tambem é rezão que sejais imigos dos imigos della, e vossas mãos fortes deem agora verdadeiro testemunho da bondade, e fé de vossos corações, e esta tomada de Alcacere, para que vos convido, e requeiro, será com a graça de Deos assás possivel, se vós com vossas pessoas, e frota quizerdes ajudar a nós, que com outra gente do Reino vos seremos em todo fieis, e bons companheiros.»Estas palavras, e outras muitas a estas conformes disse o Bispo aos Estrangeiros, alguns dos quais depois de haverem antre si seu acordo, e conselho tiveram oppinião contraira, e se partiram, e outros, que foram os mais consentiram na proposição, e requerimento do Bispo, e lhes aprouve ser na ida sobre Alcacere.CAPITULO VComo Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e tambem EstrangeirosAquellesEstrangeiros que foram dacordo com os Portuguezes de irem sobre Alcacere se recolheram logo ás suas naos, e sendo aparelhados do que lhes compria no mez de Setembro, se foram, e seguiram a barra de Setuvel, que neste tempo era Lugar pequeno, e não era cercado, em que pescadores sómente viviam, e da gente de Portugal se acha que foram estes Capitães principaes, a saber este Dom Mateus, Bispo de Lisboa, e Dom Pedro Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom Mestre Gonçalo, Prior do Esprital, e Martim Barregam, Commendador de Palmella, e estes levaram comsigo da terra, Comarca de Lisboa, e de Evora, e de seus termos vinte mil homens, de que os mais eram de pé, e alguns de Cavallo, e não se acha que El-Rei Dom Affonso, que então Reinava em Portugal, fosse neste exercito em pessoa no qual tempo parece que elle deveria ser doente, ou empedido por alguma outra urgente causa, porque não pôde ser neste feito, e haveria por bem, e mandaria que se fizesse prestes, como se fez, ca não é de crer, tamanho feito sem seu mandado, e authoridade se cometesse, e o que se neste caso achou, é que os Estrangeiros em navios, que poderam ir, foram de Setuvel pelo rio acima até junto Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os Mouros, que da sua ida eram já bem avizados, com armas lhe foram resistir, em que houve algum acometimento de peleja, de que um Mouro se diz que ficoumorto, e os outros se recolheram ao Castello, e os Estrangeiros surgindo com seus navios mais ávante poseram defronte da Villa suas pranchas, e sem resistencia sairam em terra, e logo elles, e os Portuguezes que já tambem eram chegados, juntos com devida deligencia e resguardo cercaram o Castello de maneira que alguma pessoa não podia sair, nem entrar sem conhecido perigo; mas os Mouros posto que com tanta estreiteza se vissem cercados não mostravam ter por esso desmaio, nem temor, vendo que o Castello em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e a cava mui forte, e bem provido, e acalcado de muitas gentes, e armas, e mantimentos para grandes tempos, e por milhor seneficança aos de fora de seu esforço, e confiança, poseram muitas bandeiras por cima do muro de que em sinal de desprezo diziam feas palavras, e davam suas costumadas gritas.E os Christãos leixaram boa guarda sobre sua frota, que com gentes, e armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros fizeram logo combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava com que o muro era em torno valado não poderam bem chegar aos muros, e cortaram tantas arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que sendo igual a cava com a terra de fóra podessem mais sem trabalho chegar aos muros, mas os Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se viam, lançaram de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, que a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo de combater, e apoz esto ordenaram os Christãos um engenho para com pedras destroirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos de fóra lhe dava muito pouco, pelo qual tornáram a lançar tanta lenha na cava, com que foi chea, e tal guarda se poz, que não foi dos Mourosqueimada como elles logo tentaram, por cima da qual os Christãos chegados ao muro deram um combate a que os Mouros com seu grande esforço, e muitas armas resistiram de tal maneira, que afastaram os Christãos dos muros, em que de uma parte, e da outra houve assás mortos e feridos.CAPITULO VIDos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da primeira batalha que deram, em que foram victoriososOsChristãos, que tinham cercado Alcacere, e os Mouros que nelle eram cercados tinham antre si diversos pensamentos, ca uns consultavam engenhos para brevemente tomar, e os outros artificios para se delles pefender, e tambem não leixavam de buscar, e consultar conselhos, e remedios para com soccorro serem descercados, sobre que tinham feitos seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na Espanha, a saber El-Rei de Sevilha, El-Rei de Cordova, El-Rei de Jaem, e El-Rei de Badalhouse, os quaes para este soccorro, e descerco foram pôr seu arraial ao lugar que chamam Sitymos, que é uma legoa Dalcacere, de cuja vinda sendo os Christãos logo sabedores foram postos em temeroso pensamento. E não era sem causa, segundo verdadeira certidão que houveram, ca traziam comsigo por terra quinze mil de Cavallo, e oitenta mil de pé, e pelo mar dezGalés bem remadas, e aparelhadas.Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o poder, não quiz em tanto perigo e necessidade desempararos Christãos, que por sua fé emprenderam, sostinham esta demanda, porque por uma sua permissão piadosa arribaram a este porto, tambem na paragem de Setuvel trinta e seis naos de uma Cidade que dizem Trageito, com gentes Christãs, nobres, e de bom esforço, que iam áquella Conquista dultramar, que disse, os quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S. Martinho, porque a jurdição daquella terra donde vinham era do Bispo daquella Cidade; da frota era Capitão mór Dom Anrique de Nehusa, o qual leixando suas naos com aquella segurança e resguardo de gente que compria, elle com a outra em bateis, e navios piquenos se foi ao arraial de Alcacere, onde dos Christãos foram com muita alegria de grandes louvores recebidos, e todos logo acordaram de valar o arraial em torno com valos altos e fortes para resistencia dos Reis Mouros, que vinham, e aqui se diz, que alguns Estrangeiros da primeira frota aconselhavam e requeriam aos outros da sua companhia, que se partissem em paz, e não esperassem o perigo da batalha, escuzando sua covardice torpe, com dizerem, que quando de suas terras partiram, seu voto e proposito não foi pelejar se não com aquelles infieis que tinham tomada a terra de Jerusalem, e o Santo Sepulchro, e que alguns Portuguezes, em que não havia verdadeira Fé, nem bondade de coração concordavam com elles, dando por voto covarde, que era bem de descercar o Lugar, e leixalo sem contenda, e posto que destes houvesse alguns com suas mostranças de tão vituperada fraqueza, havia porém outros muitos cuja santa, e virtuosa contraridade esforçou, com que determinaram não descercar o Castello, e confiando em Deos esperar a ventura que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu alardo, e de gente de pé bem armada, e bem disposta para peléjar, se diz que acharam comsigo muita, mas gente deCavallo se affirma que escassamente refizeram trezentos.E os Reis Mouros para comprimento do proposito com que vieram, acordaram que com a maior força que nelles houvesse viessem logo ferir no arraial dos Christãos, e que tambem as suas Galés, que tinham já tomada uma nao de Portugal com duzentos homens e jazia na entrada do porto de Setuvel, juntamente pozessem fogo á frota dos Christãos, que jazia sobre amarra, mas os Christãos receosos deste dano, e avizados já para esto, pozeram tal guarda e defenção na frota, que os Mouros o não cometeram, e foi sempre delles segura, e uma segunda feira como foi manhã sairam do arraial dos Mouros cinco de Cavallo corredores, e como chegaram, e viram o assento do arraial dos Christãos logo volveram ao seu, e sobre esto abalou todo junto o seu Exercito em que havia tantas gentes, que toda a terra cobriam, trazendo comsigo tão grande estrondo de alaridos, e gritas, e com tantos sons de trombetas, e outros desvairados instrumentos, que a qualquer coração por abastado de esforço que fora não leixára de tocar de grande medo, e muito espanto, pelo qual os Christãos havendo-o assi por milhor, sairam a elles de suas estancias, postos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardideza uns aos outros logo se cometeram, e feriram, em que da uma parte, e da outra houve cruel, e bem ferida peleja com mortes, e feridas de muitos, e daquella vez se diz que os Mouros levaram a vantagem da batalha, com a qual se recolheram em seu arraial.
CHRONICADO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPED. AFFONSO II.TERCEIRO REY DE PORTUGAL,COMPOSTAPOR RUY DE PINA,Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL,Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.OFFERECIDAÁ MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREID. JOAÕ V.NOSSO SENHORPOR MIGUEL LOPES FERREYRALISBOA OCCIDENTAL.Na Officina FERREYRIANA.M.DCC.XXVII.Com todas as licenças necessarias.
CHRONICADO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPED. AFFONSO II.TERCEIRO REY DE PORTUGAL,COMPOSTAPOR RUY DE PINA,Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL,Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.OFFERECIDAÁ MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREID. JOAÕ V.NOSSO SENHORPOR MIGUEL LOPES FERREYRALISBOA OCCIDENTAL.Na Officina FERREYRIANA.M.DCC.XXVII.Com todas as licenças necessarias.
Miguel Lopes Ferreira.
Marquez de Alegrete dos Concelhos de Estado, e Guerra del-Rei Nosso Senhor, Gentil homem de sua Camara, Védor de sua fazenda, seu Embaixador extraordinario na Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador José, Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico, e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.
Criado de V. ExcellenciaMiguel Lopes Ferreira.
Miguel Lopes Ferreira.
Vale.
Approvação do Reverendissimo Padre Mestre D. Antonio Caetano de Souza, Clerigo Regular da Divina Providencia, Qualificador do Santo Officio, e Academico do Numero da Academia Real da Historia Portugueza
EMINENTISSIMO SENHOR
D. Antonio Caetano de Souza C. R.
Approvação do Reverendissimo Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, Religioso da Provincia de Santo Antonio dos Capuchos, Lente Jubilado na Sagrada Theologia, e Qualificador do Santo Officio, &c.
EMINENTISSIMO SENHOR
Fr. Vicente das Chagas.
Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. Silva. Cabedo.
DO ORDINARIO
Approvação do Reverendissimo Padre Mestre D. José Barbosa Clerigo Regular da Divima Providencia, Examinador das Tres Ordens Militares, Chronista da Serenissima Caza de Bragança, e Academico do Numero da Academia Real da Historia Portugueza
ILLUSTRISSIMO E REVERENDISSIMO SENHOR
D. José Barbosa C. R.
D. J. A. L.
Approvação do Reverendo Beneficiado Diogo Barbosa Machado Presbytero do Habito de S. Pedro, e Academico do Numero da Academia Real da Historia Portugueza
SENHOR
Diogo Barbosa Machado.
Marques P. Pereira. Galvão. Oliveira. Teixeira Bonicho
Como o Ifante Dom Affonso foi alevantado por Rei e como foi cazado, e com quem, e que filhos legitimos houve
Das desavenças que houve antre El-Rei D. Affonso, e as Ifantes suas irmãs, e da guerra que sobre esso se moveo
Como foi pelo Papa procedido contra El-Rei D. Affonso por causa da contenda que havia com suas irmãs, e como finalmente foram concordados
Do fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros, ser cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa principalmente
Como Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e tambem Estrangeiros
Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da primeira batalha que deram, em que foram victoriosos