Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o foram buscar.
Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente, e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação, vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado, e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com muito prazer a salvamento.
Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa.
Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era, arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D. Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos, foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N. Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle santo Corpo, mas não lhe foram dadas.
Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór, e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho, lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S. Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).
Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre ello disse.
Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D. Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D. Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora commeces, e o faças.»
Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade, e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia; esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no feito da guerra, que havia de começar.
Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.
Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção, e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N. Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.
Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com os Mouros peleijasse.
Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja, pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de gente, que para sua defensão lhe fazia mister.
O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178) e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho, contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço. Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha, pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar, que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas, e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N. Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer, nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos, não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em que lugar ha de ir, e estar».
Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve.
Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda, com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia, foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous mil, e os mais com a carruagem como dito é.
Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas, foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes, e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D. Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e com o pendão em terra.
Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros, feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue, segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros, tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos foram delle mui contentes.
Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella.
Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam, corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa, fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo cumpria.
Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros, tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra, que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer. E todos acordaram que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs elle o milhor que podessem direito a Beja.
Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem se não o Ifante D. Sancho.
Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes, especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle, havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão acerca viam já o pó da gente dos Christãos.
Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.
Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N. Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor, mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas Roupinho.
Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas Roupinho Alcaide do Castello.
Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja, de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos, até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro, que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente, e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.
* * * * *
«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos, que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»
E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços, e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio, era de mil cento e oitenta annos (1180).
Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e tomou delles nove Galés.
Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa, e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo, houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho. Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a qual como era rezão foi recebido.
Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus.
Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior, escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante, e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados, com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá.
Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D. Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer, se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era de mil e cento e oitenta annos (1180).
Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho, em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso, que veio a soccorrer seu filho.
Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha, e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.
O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando, tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e combater o palanque.
Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates, desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho, ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós. Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer, então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos, a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.
Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata, e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos, entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor. Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.
Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.
Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito, juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso, de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte e tres annos.
De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente escritas.
Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D. Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D. Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu tempo.
Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação, sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.
E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas, que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer, Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui fortes, e grandes.
Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em que se finou, e onde foi sepultado.
Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra, Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja, que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer deve ser havido.
Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N. Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé.
Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.
Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christãos, e abrazou muitosSantuarios.
Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco com grande perda.
Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha del-Rei D. Affonso Anriques.
Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tarejacom o Conde D. Anrique.É vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques.
Affonso Anriques (D.) Quando naceo.É entregue a Egas Monis para ser seu Aio.É apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijãocom que naceu.Acompanhou a seu pai defunto até o lugar onde o sepultáram.Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D.Reymão por lhe tomar Lião, mas logo se reconciliáram.Peleja com seu Padrasto, e é vencido.Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com ellea sua Mãi.Alcança a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castellachamado Emperador.É cercado em Guimarães por D. Affonso de Castella.De como levantou o cerco.Conquista Leiria, e Torres novas.Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros.Sentio muito a morte de Egas Monis.Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeças deRei.É despersuadido pelos Soldados a não commetter a batalha do campo deOurique, mas elle os anima para o conflito.Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo dabatalha.Antes da batalha é levantado Rei.Dá-se a batalha, e sae vitorioso.Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas.É informado do lugar onde está o Corpo de S. Vicente Martyr.Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não acha.Toma Leiria aos Mouros.Faz doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches sómento no espiritual.Caza com Dona Mofalda.Intenta tomar Santarem.Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os Mouros de Santarem.Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem.Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa.Escala esta Villa, e se fez Senhor della.De que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta Villa.Ordena cercar Lisboa.Exhorta aos estrangeiros que chegáram na Armada para a conquista deLisboa.Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita.Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo.Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi?Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, eSerpa.Dos filhos que teve.Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, quevinha com procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mofaldafilha do mesmo Rei.Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros.Conquista Badalhouse.Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lião, e sahindo apelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas deBadalhouse.Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdadeconcede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando.Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quandose celebrou este acto.Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar.Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo.Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado porAlmiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata.Acções illustres, que obrou.Annos, que viveo.Dia, e anno da sua morte, e onde está sepultado.
Alanquer é conquistado por D. Affonso Anriques.
Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D.Affonso Anriques.Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos.
Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques.
Almada, diversos nomes que teve.
Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho, e é desbaratado.
Arronches é tomado por São Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra.
Auzery Alcaide mór de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a ditaVilla.
Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome.
Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques.No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por estacausa é prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recuperaoutra vez Badalhouse.
Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D.Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mãi domesmo Rei.A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamadoEmperador.A do Campo de Ourique.A de junto de Palmella.A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho.A de Beja alcançada pelo mesmo Infante.A de Santarem onde é destruido Almiramolim Emperador de Marrocos.
Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno.É cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, elevantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho.
Bernardo (S.) Estando em França soube por illustração Divina o voto que fizera á sua Religião D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem.
Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques.
Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que ajudou conquistar Lisboa. Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes.
Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda.
Daciano Martyrizou a S. Vicente.
D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na batalha de Ourique.
Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques.Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a umlugar, onde achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão comque nacera, e assim sucedeo.Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fezlevantar o cerco de Guimarães.Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pelamenagem que lhe tinha feito em Guimarães.É livremente despedido pelo dito Rei.É recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou deCastella.Da sua morte, e onde está enterrado.
Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques.
Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou com o Conde D. Reymão de S. Gil de Proença.
Evora é conquistada por D. Affonso Anriques.
Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-ReiD. Affonso Anriques.
Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D.Anrique.Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugalpor elle contra El Rei D. Affonso Anriques.É prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques.
Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urraca filha de D. AffonsoAnriques.Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes.Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques.
Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Mós.Alcança uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés.Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto.
Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros.
Gonçalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique.Achou-se na conquista de Santarem.Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde deBarcelona D. Reymondo.Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando aseiscentos homens de cavallo.
Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente quando chegou a Lisboa.
Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S.Vicente de Fóra por D. Affonso Anriques, e não permanece.
Guimarães é cercada por El-Rei de Castella D. Affonso.Levanta o sitio por persuasão de D. Egas Moniz.
Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra é eleito Bispo de Lamego.
Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal no logar donde está a Igreja Parochial dos Martyres.
Ismar (El-Rei) com quatro Reis é vencido na batalha de Ourique sendo o numero dos inimigos muito superior ao dos Christãos. Toma Leiria.
Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. AffonsoAnriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.
João (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-ReiD. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellonaassistindo este com procuração do filho.Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.
Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques.É tomada por El-Rei Ismar.
Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques.Em que dia, e anno foi ganhada.Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros.
Lourenço Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique.Achou-se na conquista de Santarem.Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens.
Martim Moniz filho de Egas Moniz Capitão de uma Az na batalha do Campo de Ourique peleja valerosamente. Morre na batalha.
Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na batalha de Ourique.É mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros deSantarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Reipara poder ser conquistada.Acha-se na conquista de Santarem sendo já Guarda mór del-Rei.Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho.
Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona.
Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr S. Vicente.
Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. AffonsoAnriques.
Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento.
Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaesCavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa.
Mosteiro de S. Vicente de Fóra. Nelle, antes de ser fundado, pôs o seu arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa. Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei.
Moura é conquistada por D. Affonso Anriques.
Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques.
Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonioquando foi conquistado por D. Affonso Anriques.É prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-ReiIsmar.
Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em uma batalha aos Mouros de Badajós.
Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na conquista de Santarem.
Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e cincoenta cavallos.
Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista deSantarem.Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D.Reymondo.Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.
Porto de Mós é cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. FuasRoupinho.
Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D.Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja.Porque tomou este nome?
Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foia receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que secompunha de duzentos e cincoenta cavallos.
Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procuração de seu filho a Dona Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este cazamento.
Roberto (D.) Daião da Sé de Lisboa faz que o Prior da Igreja de SantaJusta lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na Sé.
Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Fernão Mendes.
Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foijurado em Coimbra.É mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroçocom que recebeo esta ordem, e o que executou.Alcança uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha.Alcança outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja.É cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos comquatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccorridopor El-Rei seu pai é desbaratado com todo o exercito.
Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriquesdeterminou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir.É escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques.Porque tem este nome.É cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. AffonsoAnriques.
Serpa é conquistada por D. Affonso Anriques.
Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D.Affonso Anriques quiz tomar Santarem.
Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal comoCondado.Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava,e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmão de Vermuy Paes.É prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. AffonsoAnriques.
Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D.Felippe Conde de Frandes.Como foi conduzida para aquelle Condado.
Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches.Faz-lhe doação D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches sómente noEspiritual.Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, elhe põe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres.Faz oração com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista deSantarem.
Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos.
Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques?O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos.
Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques.
Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade.
Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza com o Conde D. Reymão de Tolofa.
Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei deLião.
Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã de D. Diogo o bom Senhor de Biscaya cazou com El-Rei de Lião D. Fernando.
Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.
Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D.Anrique.Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja.
Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado.O seu Corpo é trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foibuscar D. Affonso Anriques, e o não achou.Como foi achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa.
Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa.