Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida, e assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma
E dos moradores da cidade de Pisa em que entrou foi altamente recebida, e foi a tempo que o Imperador esperando já por ella estava em Italia na cidade de Sena; d'onde logo enviou a ella o duque de Saxim e dois condes e quatro barões, e algumas outras senhoras d'Allemanha, e tambem Eneas Silvio, que então era bispo da dita cidade de Sena, e depois foi Cardeal, e tambem Papa chamado Pio segundo, com que de Pisa veiu com grande honra até a dita cidade de Sena, em que entrou a primeira quinta feira da quaresma. D'onde sahiu logo fóra o duque Alberto, irmão do Imperador, e depois El-Rei d'Ungria, moço acompanhado de rica e mui nobre gente, e o Imperador a esperou á porta da cidade da parte de dentro, acompanhado de dois Cardeaes, todos a pé, e a Imperatriz se deceu, e lhe quizera beijar a mão, e elle não quiz.
E depois de suas falas e arengas publicas, que por oradores alli se fizeram, se foram ás pousadas, onde por memoria d'esta primeira vista no proprio logar em que se primeiro viram está uma coluna de marmore mui alta com o escudo Real de Portugal, que o dito doutor João Fernandez da Silveira, embaixador, que era presente, mandou fazer.
E depois de se alli em Sena fazerem muitas festas e prazeres por alguns dias, o Imperador e Imperatriz partiram para Roma, onde tinha o Sumo Pontificado o Papa Nicoláo quinto, que depois de o Imperador fazer certos juramentos e solenidades, a que os Imperadores de Roma são obrigados, os mandou receber com o Collegio dos Cardeaes, e com toda a côrte romana, que é a mór honra que se póde fazer. Entraram a nove dias de Março do anno seguinte de mil e quatrocentos e cincoenta e dois. E da porta da cidade onde os veiu receber uma solemne procissão, foram logo decer á Igreja de S. Pedro, onde o Papa nos degráos da porta principal os veio receber, e depois de lhe beijarem o pé, e fazerem o divido acatamento, o Papa com grande alegria e muita honra os levou dentro ao altar de S. Pedro, onde depois de fazerem oração se tornou com elles ás portas, d'onde por aquelle dia se despediram para as pousadas.
E aos quinze dias houve missa papal em S. Pedro muito solene, a que o Imperador e Imperatriz estiveram, e alli o Papa lhes fez as benções que a Santa Egreja aos novos casamentos ordena; porque sem isso houveram por bem que o matrimonio entre elles se não consumasse nem consumou, salvo em Napoles depois da quaresma toda passada; porque assi o tomaram por devoção.
E aos vintoito dias do dito mez no fim da outra missa do Papa, elle com grandes solemnidades e maravilhosas cerimonias, por suas mãos em S. Pedro os ungio e coroou, e hi com grandes triunfos foram sem o Papa levados a S. João de Latrão, e ao passar da ponte de Santangello, indo de caminho fez o Imperador cavalleiros o duque Alberto seu irmão, e El-Rei d'Ungria seu sobrinho, que vinham com elle. E assi outras muitas pessoas de grande valor. E ao outro dia tornou a fazer outros em S. Pedro ao pé da veronica, em que foi o dito embaixador João Fernandez, que depois foi o primeiro barão d'Alvito como já disse. Acabadas as quaes cousas o Imperador e a Imperatriz ante de se irem para o imperio, a XXVII dias de Março partiram para Napoles vêr El-Rei D. Affonso, que em bespora de Pascoa lhe fez tão ricos e suntuosos recebimentos e festas, que com razão por sua grandeza, nobreza, e manificencia apagaram a memoria de todolos excellentes, que até seu tempo se fizeram, e d'alli tornaram outra vez junto com Roma, e de hi fizeram seu caminho para Allemanha, e d'este Imperador e Imperetriz nasceu Maximiliano, que depois da morte de seu pae foi Rei dos romãos.
Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles
A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. João, e em menino logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se chamou Princesa até o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e cinco, em que o Principe D. João nasceo, e depois se chamou Infante, e falleceu honestamente sem casar nem obrigação de religião dentro no mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu irmão, segundo alguma opinião, teve com elle alguns requerimentos a que El-Rei, segundo sua vontade não satisfez. Pelo qual o Infante, ou descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, que por não ter filho herdeiro legitimo, tinha esperança que o dotaria por filho para sua sobcessão, determinou ir-se escondidamente d'estes reinos sem licença d'El-Rei, sendo já casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigança e dissimulação aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos Innocentes, que é a terceira Oitava do Natal, e com elle sómente Nuno da Cunha seu camareiro mór, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moços da camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.
Não foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes, avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, pôs o rostro em Moura com mostrança d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado, partiu logo para Mourão e d'hi porque não achou certo recado, partio pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso até que chegou a Crasto Marim onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.
E ante que da mudança do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse, chegaram a ella por mandado d'El-Rei, João de Mello alcaide mór de Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capitão de Ceuta notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram deligencia e trigança mandasse guardar o estreito, para que se o Infante passasse como se presumia, em toda maneira até o avisar o detivesse.
Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas, e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando, estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram uma gallé e uma caravela ambas juntas, e a galé era de um Peroso, cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella vinha o Infante após quem o cosairo vinha, já avisado de quem era, e para o deter e não o leixar passar, se por ventura desviara a prôa de Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com João de Sousa sómente entrou na caravella e lhe beijou as mãos, e o Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a apousentar, e o conde fez quanto pôde pelo agasalhar e servir em todo cumprimento e perfeição, e lhe entregou a vara da governança e capitania da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mão e esforço por bem empregada, não lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso, depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de concertar o assessego do Infante na gallé do cosairo, avisado bem de tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D. Anrique e toda sua côrte crendo que vinha alli o Infante, foram postos em grande alvoroço, e os vieram receber á ribeira, e depois de o conde lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razões evidentes, e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por escusado satisfazer á tenção do Infante, que era estar como fronteiro em Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e após elles outros muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe dar fé, e o moverem logo para sua tornada.
E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por força uma caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na cidade morriam muito de pestenença, houve por bem faze-lo, sendo já diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. João seus filhos, que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns dias.
E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava anojado por uma sua filha já mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D. Pedro seu irmão, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos então falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o dó, e o conde para o fazer lhe metteu por condição que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera, de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e fidalgos, e passaram logo á ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da costa do mar até Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos que lh'o pediam muitas mercês e esmolas.
E de Callez se foi a Crasto Marim, onde chegou quarta feira sete dias de Fevereiro do anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, onde estava o Infante D. Anrique, que no rostro e alegres mostranças com que logo recebeu o Infante seu sobrinho e filho, e nas festas e avondanças com que o tratou e os que com elle vinham, pareceu mui claro o grande e verdadeiro amor que lhe tinha, e alli esteve o Infante D. Fernando oito dias, nos quaes mandou fazer de vestir asi e a todolos senhores e fidalgos que com elle vinham, de muitos pannos de sêda e de lã que em Callez para isso mandou comprar.
E depois de se despedir do Infante seu tio se foi a Mertola, e d'hi a Beja onde El-Rei o esperava, que foi aos XVII dias de Fevereiro, que era a primeira sexta feira da quaresma.
Sahiu El-Rei tres legoas ao receber, em cuja vista elle e toda a côrte receberam muita alegria. E assi foram fallando até á villa, d'onde por mandado d'El-Rei sahiu muita gente a receber o Infante com muitas festas e prazeres.
E d'hi a poucos dias El-Rei por satisfazer ao descontentamento do Infante de que mais sua partida pareceu que procedera, lhe fez doação das villas de Beja e Serpa e Moura.
Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou
E no Maio d'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, o Gram Turco chamado Mafamede tomou por cerco a nobre cidade de Constantinopola em Grecia, cabeça do imperio no Oriente, e a cidade de Pera com muitos outros reinos e provincias de christãos de Europa e Asia, sendo Papa na Santa Egreja de Roma Nicolau sexto, que de muito velho e anojado do caso a que quizera prover, logo falleceu e sobcedeu em seu lugar o Papa Calisto terceiro, de nação valenceano, em virtudes, saber, e esforço homem mui singular, e com a dôr da perdição d'aquellas cidades e terras, e aceso em um santo ardor de as cobrar, convocou e encitou para isso por seus breves e messegeiros todolos Reis e Principes christãos. Entre os quaes foi El-Rei D. Affonso, que como era Principe mui catholico e de grande coração, e em que o real sangue para mais honra servia, sendo ainda a Rainha viva, acceitou a empreza com promessa de servir a Deus n'aquella guerra com doze mil homens por um anno á sua custa, para execução do qual, em fazimento de navios e compras d'armas, e em outras cousas a tal e tão longa viagem necessarias, fez grandissimas despezas, não sem grandes lamentações do reino, e em fim El-Rei por então desistiu d'aquella ida, assi porque lhe falleceu para isso muito dinheiro, como porque o Papa Calisto falleceu, que deu causa aos outros Principes christãos tambem desistirem. E assi juntamente porque foi certificado que El-Rei de Fez sabendo de sua partida fóra de seus reinos se aparelhava vir como veio sobre Ceuta; mas porque então achou a cidade com mais força e maior segurança do que fez fundamento, alevantou o cerco com proposito de logo tornar sobr'ella com mais artilharias, engenhos, e poder.
E tendo El-Rei muita frota e gente prestes, para a empregar como dizia, occorreram-lhe tres emprezas juntamente, a primeira era a necessidade que tinha de prover e remedear aos males e roubos que n'este tempo os francezes faziam no mar aos naturaes d'estes reinos, de que se os mercadores a El-Rei muito querelavam. A segunda cumprir sua promessa ácerca da guerra dos turcos, que já tinha publicada, e para que tinha feito muitos percebimentos. A terceira a ida d'Africa, com fundamento de tomar aos mouros algum lugar, com que de cercos e affrontas affrouxassem Ceuta, e sobre todas tres teve conselho.
E a primeira de tamanha frota andar pelo mar á ventura, houveram que era cousa duvidosa e não certa, e ainda com despeza e perigo. E a segunda de seguir a empreza do turco não menos por escusada, pois El-Rei ficava n'ella só, em que pela desegual comparação de poder que d'elle ao contrairo turco havia, sem duvida se perderia.
E porém o marquez de Valença e alguns que o seguiram aconselhavam El-Rei que esta sobre todas era razão que seguissem, pois o promettera e se esperava por isso em toda a christandade, tendo ainda por mór e mais forte contradicção, que devia ir por terra e não por mar, em cujo voto foi de todos confundido, e alguns tiveram que a tenção do marquez em dar e soster conselho de tantas contrariedades, não fôra se não por arredar El-Rei da affeição da Rainha, de que se muito receava por causa da morte do Infante D. Pedro seu padre, em que elle fôra o principal movedor. E finalmente a terceira de passar em Africa se houve por melhor, especialmente que presuppunha que El-Rei de Fez magoado de chagas novas, que com sua passagem tomando algum lugar receberia, viria sobre El-Rei que lhe daria batalha, e com ajuda de Deus o venceria, e porém as cousas sobcederam logo no reino de maneira, que este desejo e determinação se não pôde assi cumprir.
De como a Rainha pariu o Principe D. João e d'outras cousas a que El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha D. Joanna com El-Rei D. Anrique de Castella
E no mez d'Agosto do anno de mil e quatrocentos cincoenta e quatro, estando a Rainha em Almeirim emprenhou do Principe D. João, e segundo El Rei D. Affonso affirmou, á hora de seu concebimento a Rainha trazia em um annel uma rica esmeralda, que por sua virtude especifica de guardar castidade lhe quebrou no dedo, e ella lastimando-se da pedra, El-Rei a confortou com esperança de cobrar por ella um filho, e assi foi.
E no anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco annos El-Rei se foi a Lisboa, onde a Rainha acabou com elle, assi por intercessão do Papa e d'outros Reis e Principes que sobr'isso tinham a El-Rei aficadamente requerido, como principalmente por seu amor d'ella, que com devidas exequias e cerimonias se désse ao Infante D. Pedro a sepultura que na capela d'El-Rei D. João seu padre lhe fôra apropriada, e que seus ossos fossem a ella trasladados com aquella honra e solemnidade que sem a desaventura de sua morte merecia. Para o qual da egreja d'Alverca onde seu corpo foi logo soterrado e d'onde seus ossos foram por Lopo d'Almeida levados ao Castello de Abrantes, foi ordenado que d'ali ao tempo da trasladação fossem solemnemente levados a Lisboa, e d'hi á Batalha, como adiante direi.
E aos tres dias de Maio d'este dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, em Lisboa pario a Rainha o Principe D. João, que aos oito dias logo seguintes na Sé da dita cidade foi bautizado pelo Bispo de Ceuta D. João, que depois foi Bispo da Guarda, e foi levado á pia nos braços do Infante D. Fernando, irmão d'El-Rei, e acompanhado do Infante D. Anrique, e das Infantes e senhores e senhoras do reino; foram padrinhos o duque de Bragança, e D. Vasco de Tayde, prior do Crato, e madrinha D. Briatiz de Vilhena, mulher de Diogo Soarez.
E d'ahi a um mez foi por todolos tres Estados do Reino solemnemente jurado por Principe ligitimo herdeiro, e D. Joana sua irmã até então se chamou Princesa, e d'hi em diante Infante.
E as festas e prazeres que no nascimento do Principe, seu bautismo e juramento em Lisboa principalmente, e assi em todo o reino se fizeram, foram grandes e com muitas deversidades d'alegrias, que duraram por muitos dias, e em grande perfeição.
E n'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, El-Rei D. Anrique o quarto de Castella, se quitou da filha d'El-Rei D. João de Navarra seu tio que tinha por mulher, e se concertou com El-Rei D. Affonso de Portugal, que lhe deu por mulher a Infante D. Joana sua irmã, que sem dote e com os sós corregimentos de sua pessoa, casa e camara, que foram muito reaes e de gram cumprimento, a recebeu por mulher em idade de XVII annos, e foi muito honradamente levada ao extremo d'estes reinos, e d'hi levada a Castella por a condessa D. Guiomar, e por o conde da Atouguia D. Martinho seu filho, que a entregaram a El-Rei, e além das festas que em Lisboa se fizeram mui grandes, houve tambem outras e honradas justas na Landeira; porque a Rainha entrou por Elvas.
Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D. Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha
E além do grande amor e affeição que entre elle e a Rainha havia, ainda pelo nascimento do Principe se dobrou muito mais, com que a Rainha já mais confiada requereu e pediu a El-Rei, que os ossos do Infante seu Padre como lhe tinha prometido não andassem provando tantas e tão vis sepulturas, e quizesse que fossem trazidos a Lisboa, e d'ali os levassem ao mosteiro da Batalha; porque alli faria por mais sua honra e mór seu estado.
E como quer que isto fosse pelo duque de Bragança e por seu filho o marquez muito contrariado, El-Rei posposto tudo o concedeo. Não querendo porém que o senhor D. Pedro Irmão da Rainha, que depois da morte de seu padre andava em Castella desterrado, viesse a suas exequias e saimento, nem a este reino; porque o tinha por seu alvará assi prometido ao dito duque. E tinha dado ao Infante D. Anrique o Mestrado d'Avis, que tinha D. Pedro filho do Infante D. Pedro. Mas o Papa nunca lh'o quiz conceder, dizendo que se não podia confiscar nem elle o perder como as outras cousas seculares. Pelo qual os ossos do Infante com assaz honra foram logo trazidos ao mosteiro da Trindade de Lisboa, e d'hi ao mosteiro de Santo Eloy, onde foram em grande triumfo e muita veneração postos em tumba e estrado á vista de todos.
E concertado o dia em que os haviam de levar á Batalha, El-Rei e a Rainha se foram diante para os esperar no mosteiro da Batalha, a que foram chamados e vieram todolos senhores e senhoras principaes do reino, salvo o Infante D. Fernando, e o marquez de Valença, que tomaram outra opinião contraira ao prazer e contentamento da Rainha.
E o cargo principal da treladação e acompanhamento da dita ossada ficou ao Infante D. Anrique, o qual vestido não de dó preto, mas d'aluz escuro, e assi muitos senhores que eram com elle fez com muita pompa e grande cerimonia tirar a dita ossada do dito mosteiro de Santo Eloy, e com solemne procissão de Bispos e cabido, e muitas ordens e clerezia, que para isso foi junta, e com grande numero de tochas acesas a levarem á Sé. E d'hi pela rua Nova, acompanhada do Infante e de muita gente com que chegaram á Porta da Mouraria, e de hi se tornaram, e foi com ella o Infante D. Anrique com muitos senhores, que com grande honra e com muitas orações, que de continuo iam pela alma do Infante rezando, a levaram ao dito mosteiro da Batalha, d'onde El-Rei e a Rainha com solemne procissão acompanhada de muitos prelados, abades e clerizia e de muita e nobre gente sahiu a recebe-la.
E as senhoras e mulheres que alli foram, levaram algum sinal de dó que não foi de veos pretos, mas tintos como allionado escuro. Fez-se o dito saimento com essa, e com toda outra perfeição e solemnidade que se podia e devia fazer a um tal Principe natural, sem alguma magoa fallecido. Acabado o qual, entrando já o inverno, El-Rei e a Rainha se foram para a cidade d'Evora, onde a Rainha adoeceo logo de fruxo de sangue, de que nos paços de S. Francisco onde pousava, a dois de Dezembro do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco logo falleceu, cuja morte foi d'El-Rei muito chorada e sentida, e assi de todos, em especial dos criados e servidores do Infante seu padre.
A causa de sua morte segundo foi accidental e arrebatada, por maginação dos mais foi attribuida a peçonha que dos imigos de seu padre por sua segurança disseram que lhe fôra ordenada, e como quer que para isso houve muitas conjecturas e presunções, porém da certa verdade Deus é o sabedor.
Foi seu corpo levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz soterrado per si em uma capella do cruzeiro. E d'hi a um mez que foi no Janeiro seguinte de mil e quatrocentos cincoenta e seis, El-Rei lhe fez o mais honrado e solemne saimento que até então por Rainha d'estes reinos se fizera. A que vieram ao dito mosteiro todolos senhores e senhoras, e Prelado, abades e priores de todo o reino, e toda outra gente de sorte sem excepção.
N'este anno logo depois da morte da Rainha, El-Rei enviou pela ossada da Rainha D. Lianor sua madre, que jazia em Toledo onde falleceu como atrás fica, a qual com grande honra, e com muita e nobre gente foi trazida a Elvas, onde El-Rei com todolos grandes e Prelados de seu reino a foi receber, e a levou ao mosteiro da Batalha, em que com a devida solemnidade e cerimonia, que em tal auto e a tão alta Rainha se requeria, foi lançada com El-Rei D. Duarte seu marido.
Como El-Rei outra vez acceitou a crusada contra os turcos quando fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou em Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere
E no anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos, veiu a estes reinos por delegado do Papa Calisto, um Bispo de Silves português, homem de bom saber e grande autoridade, que a El-Rei trouxe a Cruzada contra os turcos, com grandes e piedosas graças e perdões da Sé Apostolica, assi como sobre o caso foram outros a outros reinos e provincias de christãos.
E El-Rei porque de sua real condição era para honrosos feitos mui inclinado, consirando a obrigação em que estava pela offerta e aparelho que para isso já fizera que não cumprira, vendo-se em melhor disposição e com menos pejos, por razão d'estar sem mulher, e que para segurança de sua direita sobcessão tinha filhos ligitimos, elle com grande alegria e muita devoção, e com todalas pessoas principaes do reino acceitou a dita Cruzada. Na qual se offereceu servir com os ditos doze mil homens por um anno á sua custa, como d'antes prometera, para que tinha d'ajuda muitas armas que comprara, e navios que mandara fazer, e assi outras muitas cousas para tal perseguimento mui necessarias e proveitosas.
E fazendo fundamento, e crendo que todolos outros Reis e Principes christãos com suas pessoas, gentes e forças ajudariam como elle n'este santo proposito, mandou logo Martim Mendez Berredo, fidalgo de sua casa, e a elle mui acceito, a El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, para d'elle saber e se enformar muitas cousas que por seu aviso lhe cumpriam, e assi lhe requerer e trazer mandados e provisões suas, com que em seus reinos e terras, e principalmento em Secilia e na Pulha lhe desse por seu dinheiro bitualhas e mantimentos, onde El-Rei era aconselhado que com mais seu proveito e menos trabalho se podia fornecer, mas o dito Berredo não achou em Napoles nem Italia, aquelle percebimento nem desejo que para tal empresa cumpria, nem como El-Rei cuidava, de que logo avisou El-Rei.
N'este tempo e no fervor d'esta Cruzada, andava ainda desterrado em Castella o senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, que com muita paciencia de grandes necessidades e desaventuras, que em seu desterro soportava, e com uma louvada temperança, que em suas fallas e obras para El-Rei e para o reino sempre teve, obrigou e comoveu El-Rei para o retornar em seus reinos e lhe fazer aquella honra e mercê que elle por muitas causas merecia, especialmente porque o duque de Bragança, como viu a morte da Rainha, não o contradisse com tanta instancia nem com tanto receio, como em sua vida d'ella fazia; porque tinha uma promessa d'El Rei, que o dito D. Pedro em vida do duque sem seu prazer não viesse a estes reinos, da qual desistio. E El-Rei por isso lhe alevantou o desterro, e o convidou para a Cruzada, com fundamento de o levar comsigo, a que elle obedeceu, e veio a estes reinos bem acompanhado, e logo para a mesma Cruzada invencionado com muita gentilleza foi d'El-Rei e da côrte com muita honra e gasalhado recebido, e El-Rei lhe leixou o mestrado d'Avis, de que ante de seu desterro e por morte do Infante D. Fernando fôra provido, e deu-lhe mais seu honrado assentamento, com que sempre serviu mui leal e honradamente, até que de Ceuta se foi para Barcelona como se dirá.
E com o grande desejo e louvado alvoroço que El-Rei tinha para esta santa viagem, mandou novamente lavrar d'ouro fino sobido em toda perfeição, a moeda dos cruzados, em cujo peso e não preço mandou sobre todolos ducados da christandade acrescentar dois grãos, por tal que por terras tão alongadas e nações tão diversas como as porque esperava de passar corressem e se tomassem sem alguma duvida; porque em seu tempo e d'El-Rei D. Duarte seu padre, de ouro não se lavrou outra moeda, salvo escudos d'ouro baixo, que em reinos estranhos se tomavam com grande quebra e muito pejo.
E tendo El-Rei com seu animo não menos catholico que esforçado, com innumeraveis despesas, feitas e aparelhadas todalas cousas e provimentos que cumpriam, o notificou assi á mór parte de todolos Reis e Principes e provincias de christãos. E finalmente nunca d'algum por verdadeira obra, nem sómente fingida mostrança, pôde entender que em seu piedoso trabalho e perigo tão conhecido, o teria por parceiro nem ajudador, antes claramente foi conhecido que se El-Rei por abatimento de todos tal movimento fizera, que por vingança da injuria e quebra que n'isso recebiam lhe ordenaram coisas com tal cautella, com que por força desistira da empresa, com muita despesa e pouca sua honra.
Pelo qual tudo bem visto e examinado em seu conselho que teve, ajuntando tambem outras muitas contrariedades e inconvenienentes que no reino e fóra d'elle em muitas cousas e de grande perigo podiam recrescer, foi El-Rei finalmente e sem contradição aconselhado que na empresa da Cruzada se não entremetesse, e que repousasse, regendo em paz e justiça seus reinos e vassallos, até que a visse tomar e proseguir a outros Principes, e que então obraria n'isso como o tempo e a razão o aconselhassem, ou se quizesse por exercicio de sua devoção, e por elle parecer verdadeiro ramo dos excellentes e reaes troncos de que procedia, podia passar em Africa, e tomar aos infieis algum lugar em que Deus fosse servido, e sua fé mais acrescentada, pois era guerra da mesma calidade, e que a elle com mais honra e mór segurança d'Espanha mais pertencia. E este acceitou El-Rei por meio mais de sua inclinação e contentamento, e no conselho que logo sobr'isso teve foi acordado que fosse á cidade de Tangere, sobre que acordou de levar vinte cinco mil homens de combate, afóra a outra gente do mar e serviço, para que fez seus percebimentos, e ordenava passar logo n'este anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete. Ao que deu total impedimento sobrevir crua pestenença á cidade de Lisboa, onde da embarcação principal se fazia fundamento. Pelo qual El-Rei foi conselhado que sobrestevesse e leixasse por então a guerra dos mouros pela não tomar com a ira de Deus e contra sua vontade.
E sobre esta determinação, que para seu desejo foi de mortal tristeza se passou á comarca d'entre Tejo e Odiana, e estando em Estremoz, por certidão que houve dos danos e roubos que dos franceses os seus vassalos no mar recebiam, acordava de mandar em guarda da costa o almirante Ruy de Mello com vinte náos grossas e outros navios, e com muita gente, em especial a mais limpa de sua côrte. E estando já tudo ordenado e provido, e a frota com as vergas altas para partir, vieram a El-Rei cartas do conde d'Odemira, que era capitão de Ceuta, como por avisos certos que tinha, El Rei de Fez vinha sobr'ella para a cercar, pedindo-lhe provisão e ajuda e soccorro quando cumprisse. Da qual cousa sendo tambem avisado o Infante D. Fernando, veiu logo a El-Rei pedir-lhe licença para ir ao socorro, e assi o fez o marquez de Villa Viçosa, de que El-Rei se escusou; porque lhe descobriu que sua determinada vontade era passar em pessoa, e trabalhar por tomar algum bom lugar, com desejo de vir em sua defesa e cobramento El-Rei de Fez, para lhe dar batalha e acabar com elle estes rebates, e elles assi o aprovaram.
E para socorro de Ceuta enviaram diante alguns senhores, com fundamento d'El-Rei ir após elles, mas não foi, porque El-Rei de Fez como deu vista a Ceuta logo se volveu. Porque esta determinação d'El-Rei ir sobre Tangere foi ao conde D. Sancho revelada, El-Rei por seu conselho a mudou, e converteu em Alcacer Ceguer com fundamento e razões que a bem de conquista e a necessidades do reino cumpriam, a que por sua evidencia que apontou, se deu inteira auctoridade. Pelo qual El-Rei acordou, que por razão da má disposição de Lisboa que ainda não cessava, sua embarcação fosse em Setuvel, e o marquez de Valença fizesse a outra no Porto, e o Infante D. Anrique a do Algarve.
E tudo se aparelhou e fez prestes com muita brevidade e trigança, para que foram ajuda e aviamento os percebimentos passados.
El-Rei, d'Estremoz se foi a Evora, e hi leixou seus filhos, e com elles D. Briatiz, e Diogo Soarez d'Albergaria seu marido, que por sua fidalguia, bondades, e grande saber foi dado ao Principe por aio, e até sua morte sempre o foi.
Veiu-se El-Rei a Setuvel para logo embarcar, em que sobreveiu alguma torvação pela grande doença de febre em que achou o Infante D. Fernando seu irmão, de que Deus em breve o livrou, tendo elle já mandado que por não ficar o levassem, e assi doente em um leito o metessem no mar.
E um sabado, derradeiro dia de Setembro, do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e cincoenta e sete, depois d'El-Rei ouvir sua missa solemne e prégação mui devota, foi em procissão armado, e não de todas armas, até os bateis, acompanhado de sua guarda e de muita e mui luzida gente, e n'elles bem remados e ricamente toldados se foi á sua náo, que se chamava Santo Antonio, e com elle o Infante D. Fernando, e o senhor D. Pedro, que alli veiu com gentes e concertos que muito louvaram, e o marquez de Villa Viçosa com D. Fernando, e D. João, seus filhos, e D. Alvaro de Castro, e Pero Vaz de Mello, e outros muitos senhores e fidalgos, com que El-Rei do dito porto partio com noventa vellas.
E á terça-feira seguinte, tres dias d'Outubro, pela manhã, dobraram o cabo de S. Vicente, e chegaram á villa de Sagres, onde o já esperava o Infante D. Anrique, que a El-Rei e a todos os que sairam em terra fez falla em grande perfeição e abastança; era já hi o conde d'Odemira, que viera de Ceuta com quatro fustas e um barinel, e á quarta-feira foi El-Rei a Lagos, e á quinta-feira sahiu em terra e pousou no castello, onde esteve oito dias esperando as frotas do Porto e do Mondego e d'outros lugares, que alli todos chegaram.
El-Rei á terça-feira, que eram dez dias d'Outubro, se recolheu á sua náo porque todos se recolhessem, e á quarta-feira tornou logo a sair armado, com sua guarda diante, e todo o mais com maravilhoso e rico estado e grande gentileza, foi ouvir missa, e com elle todolos senhores que eram na frota. Acabada a qual El-Rei posto em meio de todos, com graciosa e alegre contenença, e com palavras cheias de devoção e grandeza, esforço e perfeita eloquencia, e com cautelas e fundamentos de bom e prudente guerreiro declarou sua ida sobre a villa d'Alcacere, louvando e agardecendo a todos com muita humanidade a diligencia e amor com que o tão honradamente vinham servir, offerecendo-se a lh'o conhecer com as honras e mercês, e acrescentamento que a cada um coubesse e merecesse. E em fim de sua falla, o Infante D. Fernando como pessoa mais principal lhe respondeu por todos, assaz bem e como cumpria. E em fim de suas palavras, com os giolhos no chão lhe beijou as mãos, e assi todos os principaes que hi eram, e á quinta feira XVII dias d'Outubro El-Rei partiu de Lagos com toda sua frota, em que por todas haveria duzentas e vinte vellas, e ao sabado porque o vento não terçou para tomar o porto d'Alcacere, foi El-Rei surgir pela manhã sobre a barra de Tangere, onde esteve aquelle dia e ao domingo, por recolher a outra frota que não chegava.
E n'estes dias andando El-Rei pelo mar, viu e contemplou bem a cidade, sobre que desejou que sua ida se mudasse, e acerca d'isso teve conselho bem aperfiado; porque a grandeza de seu coração não requeria menos empresa, e em fim se concordaram no primeiro proposito com que logo partiu, e á segunda-feira ao meio dia chegou a Alcacere, e com elle os navios mais pequenos que se podiam ter ás correntes do estreito.
Mandou El-Rei aparelhar e perceber, para logo tomar terra, e porque ambos os navios em que iam os Infantes não poderam ancorar com elle, e com forçadas correntes foram d'elle surgir duas legoas, e assi bem outras quarenta vellas, El-Rei os mandou a grã pressa chamar, e quando vieram já o acharam armado entre muitos bateis armados postos em sua ordenança para tomar terra, esperando pelo Infante D. Anrique que já tardava, e como o viu fez com muita viveza vogar rijamente os bateis á praia, que com muito esforço e acordo a tomaram todos juntamente, em que se não soube bem determinar quaes foram primeiros nem segundos.
Eram na praia até quinhentos mouros de cavallo d'aquella comarca, e muitos mais de pé, de que na resistencia que cometeram para defender a desembarcação morreram logo alguns, e elles tambem dos christãos feriam outros, e mataram ao sair, um Ruy Barreto, comendador da Ordem de Christus. Mas com tal pressa foram os mouros apertados, que uns para a villa, e outros para as serras d'onde vieram, todos se acolheram, e no encalço d'elles seguiu João Fernandez da Arca, fidalgo de bom esforço, e nas cousas do paço de seu tempo gracioso e mui ensinado. E tanto se chegou ao muro por vingar a morte que logo recebeo, que de uma pedra de cima do muro foi logo ao pé d'elle morto, de que por sua bondade e criação em toda a côrte houve grande sentimento.
E sobre a tarde depois de se repartirem os combates, e n'elles se assentarem as bombardas e ordenarem as mantas, e bancos, e escadas, que com muita presteza se tiraram da frota, El-Rei posto em um cavalo sezeliano, armado e acobertado com sua espada nua na mão, mandou cometer a villa com alguma mostrança de combate, para vêr sómente a maneira de fortaleza e defeza em que se os mouros punham, que n'elles foi assaz boa e com grande recado e esforço; porque com tiros de fogo e bestas que tinham, e pedras que não falleciam, faziam muito dano. Mas os christãos emprenderam tão de verdade, e com tanta força o combate, que El-Rei nem os Infantes os poderam recolher nem afastar d'elle, em que logo derribaram um grande lanço da barreira, e os cavalleiros e gente do Infante D. Anrique, com muito esforço e ardideza romperam e entraram por as portas da mesma barreira, e foram com muita ousadia cometer com engenhos as portas da villa, que por sua grande fortaleza não poderam quebrar; porque eram mui fortes, e forradas de mui grossas pastas de ferro. E sendo já de noite vendo o Infante D. Anrique o desejo e a determinação dos seus, socorreo alli com sua bandeira despregada, e com palavras de Principe tão prudente e ardido como elle era, os avivou muito mais para o combate, que á sua vista e com sua ajuda o fizeram sem alguma covardice. E El-Rei e o Infante D. Fernando seu irmão sentindo na gente do arraial o mesmo fervor e orgulho, que de victoria lhes davam mui grande esperança, mandaram ás trombetas fazer sinal de combate, que por todas partes se deu tão rijamente, e com tanta competencia de honra, que o que menos trabalhava, parecia que toda a empresa tomava sobre si, a que ajudava muito e não favorecia pouco a presença d'El-Rei, que a todalas afrontas acudia, e com palavras de tanto acordo e esforço, de que todos eram maravilhados e mui contentes.
O Infante D. Anrique que n'aquelle officio era velho artificial, mandou á meia noite poer fogo a uma bombarda grossa, que no seu combate era assentada, com que aos mouros começou de fazer não menos dano que espanto, pelo qual desesperados já d'achar remedio de salvação em suas armas, nem defesa, a vieram buscar e procurar na piedade do Infante. O qual lhe respondeu que por quanto El-Rei seu Senhor era alli vindo por serviço de Deos sómente, e não por cobiça de seus resgates nem fazendas, que ao dito Senhor aprazia que elles se saissem com suas mulheres e filhos, e cousas, e leixassem a villa com todolos christãos captivos que n'ella estivessem, os quaes vendo tão determinada resposta, vencidos já de condições tão piedosas, lhe pediram que por aquella noite mandasse sobreser no combate, do que ao Infante não prouve, antes o mandou mais avivar, e pediram após isso uma hora de sobresimento para haverem seu acordo, e o Infante muito menos lh'a deu, antes os desenganou que se fossem entrados por força, que todos sem resguardo nem privilegio de idade, com ferro haviam d'acabar suas vidas. Os quaes meios e concertos o Infante mandou logo notificar a El-Rei, e ao Infante D. Fernando, que de todalas partes esforçaram o combate, que era esforçado e não enfraquecia, pelo qual os mouros se remedearam, e deram nas primeiras seguranças e condições do Infante D. Anrique, e para aprovação de seu rendimento enviaram logo suas seguras arrefens, que foram levadas á tenda d'El-Rei com que o combate logo cessou. E ao outro dia quarta-feira pela manhã, os mouros sairam todos com suas mulheres, filhos, e fazendas sem algum receber nojo, dano, nem alguma outra semrazão, de que os mouros vendo tanta e tão segura verdade nos christãos, tomaram em seu mal muito conforto. Porque o Infante D. Fernando teve na saida d'elles cargo de sua segurança, e como acabaram de sair, que foi depois de meio dia, entrou El-Rei na villa a pé em procissão com os Infantes e senhores e outra nobre gente, e se foi á misquita, que foi logo tornada em egreja de Santa Maria da Misericordia, onde já estava posto um altar em que El-Rei fez oração, e elle e todos com muita devoção por tão segura victoria deram graças e louvores a Deos, porque segundo o lugar era de torres e muros mui forte, e tão provido de gente, bem pareceu tomando-se tão levemente como se tomou, que com a mão e graça de Deos se tomara, mais que com força nem poder dos homens.
Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde socorrer, e desafiou El-Rei de Fez
Esteve El-Rei em Alcacere até o domingo, em que de muitos e mui principaes homens foi requerido sobre a capitania da villa, mas El-Rei a deu e empregou bem em D. Duarte de Menezes, com que ainda não satisfez ás grandes promessas que em cousas d'aquella calidade lhe tinha por seus assinados prometidas, e El-Rei quando lhe deu a dita capitania e governança, publicamente assi lh'o disse com palavras de muita sua honra e louvor.
E depois d'El-Rei prover a villa dos mantimentos, armas, e gente que pareceu necessaria, e armar muitos cavalleiros que o bem mereceram, á segunda feira por mar se foi a Ceuta, onde ainda não fôra. Ao qual senhorio acrescentou d'hi em diante em seu titulo, o d'Alcacere em Africa, dizendo,D. Affonso por graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve, Senhor de Ceuta e d'Alcacere em Africa.
E certamente quando El-Rei viu e contemplou na realeza de Ceuta, e em sua grandeza, maravilhoso e forte assento, que seu avô com outra semelhante passagem ganhara, e se lembrou d'Alcacere, e de seu sobrenome Ceguer, ficou triste e pensoso; porque a parecer dos que as viram, tão pequena cousa não encheu a grandeza e bondade de seu coração, e suspirava por outra maior.
El-Rei de Fez como soube que a villa era cercada, partiu com muita pressa e grande poder pela socorrer, e quando soube que já era tomada, com muita ira e tristeza sua e dos seus se veiu logo á cidade de Tangere, para d'alli ajuntar suas gentes e a vir cercar, e trabalhar pela recobrar, da qual cousa D. Duarte foi logo certificado por um mouro d'autoridade, que na face d'Alcacere em uma escaramuça que houveram fôra com outros tomado e captivo, o qual logo mandou a El-Rei que ainda era em Ceuta, e sobre a certa informação que do mouro houve teve conselho, em que depois de ser acordado sem diferença, que Alcacere sobre o provimento d'armas e mantimentos que tinha lhe devia ser dado outro maior, quanto ao mais, que tocava á ida d'El-Rei para o reino, ou esperar alli o fim do cerco ou lhe socorrer houve votos diferentes. Porque uns diziam que dado o dito provimento se devia vir a seus reinos e não esperar lá mais, outros tiveram que em tal tempo estando El-Rei de Fez tão acerca, e partindo-se pareceria fraqueza, e que com seu medo o fazia, e que para isso por tirar suspeitas e fazer um grande cometimento, que á sua honra e estado cumpria, que o devia mandar desafiar em campo, e que se acceitasse o desafio, que ainda estava poderoso para lhe dar batalha e esperar victoria, e quando de tal reto se escusasse, que então sem pejo poderia para seus reinos partir sem algum prasmo nem reprensão dos seus nem estranhos, que o já remocavam.
E a este parecer se inclinou mais El-Rei, que com as palavras e razões que bem cabiam, formou para o dito Rei de Fez um desafio, que lhe enviou por Martim de Tavora, e Lopo d'Almeida, que embarcados em um navio aparelhado d'armas, e Reis d'armas e trombetas, e de suas pessoas em grã cumprimento foram sobre Tangere. Mas El-Rei de Fez avisado do recado com que iam, mandou que lhe tirassem ás bombardas, e não os quiz ouvir, e tornaram-se Lopo de Almeida a Ceuta, e Martim de Tavora a Alcacere, onde tambem com desejo de honra se lançaram muitos fidalgos, que sem duvida no cerco que defenderam a mereceram e ganharam, tão bem e melhor que na tomada da villa.
E aos XIII dias de Novembro El-Rei de Fez com trinta mil de cavallo, e gente de pé sem conto veiu sobre a dita villa, que já d'antes com oito Alcaides seus era cercada, e logo com bombardas grossas e muitos tiros outros de fogo, e com muitos besteiros de Grada que trazia, combateu a villa muitas vezes e com muita força, mas nas infindas mortes e feridas, e outros danos que sempre dos christãos receberam, bem conheceram logo que não tinham d'elles a victoria tão leve e tão certa como esperavam.
E sendo El-Rei certificado do cerco da villa e da estreiteza em que os mouros a punham, logo aos sete dias do cerco veiu d'avante d'ella, com vontade de a socorrer, ou ao menos de a bastecer. Porque quando a tomou, sómente lhe ficou mantimento para a gente ordenada para tres mezes, o que houvera de ser causa de a villa e gente ao diante de necessidade se perder, se Deus por sua piedade o não remedeara.
E porém, El-Rei pela muita gente contraira dos mouros que achou, que por mar e por terra impedio sem remedio seu socorro e bastecimento, depois de enviar a D. Duarte e aos cercados muitos confortos e dar grande esperança da sua breve tornada, se partiu para Farão no Algarve, onde desembarcou, e d'hi se foi a Evora para dar ordem a tornar a socorrer a dita villa, para que depois de tudo bem consirado e provido, achou que para isso todalas cousas falleciam.
Das cousas que passaram n'este cerco, até que de todo se alevantou
E n'estes tempos foi a villa d'Alcacere pelos mouros com bombardas e trons e outras armas, e com uma irosa porfia muitas vezes combatida e afrontada, e com a graça de Deus não faziam dentro o dano de que elles tomavam de fóra muita vã gloria, e porém a verdadeira pena elles a recebiam com muitas mortes e feridas, que dos christãos de noite e de dia sempre padeciam.
E porque viram que com os mui apressados e furiosos tiros que faziam, os muros da villa não caiam como maginavam, ordenaram trazer uma bombarda grossa, das que no tempo do palanque ficaram aos christãos em Tangere, em que já tinham a sua só confiança, a qual lançava pedra de quatro quintaes de peso, e logo foi armada e ensarada e fez alguns tiros, de que os mouros vendo ficar as paredes mui sãs, e os christãos sobr'ellas com muito prazer e alegria, ficaram mui tristes e desesperados, e por isso vendo que sua empresa não sobdecia como esperavam, elles a risco das graves penas que por sua fugida lhes eram postas, de dia e de noite não leixavam de fugir, de que D. Duarte por elches e mouros que se na villa lançavam, era logo avisado.
E no tempo da maior afronta chegou á vista d'Alcacere Luiz Alvarez de Sousa, vedor da fazenda do Porto, que El-Rei mandou aos cercados com esperanças e confortos, que enviava do mar com escriptos em virotões. E D. Duarte fez um aviso a El-Rei, e por mór cautella escripto em francês, notificando-lhe a extrema necessidade em que estavam, e sómente por mingoa de mantimentos e polvora, e pedindo remedio com as palavras que em tal affronta cabiam. O qual escripto enviado a Luis Alvarez com outro virotão, cahiu no arraial dos mouros, entre quem não falleceu quem lh'o logo leu e interpretou inteiramente, de que elles ficaram mui alegres, e tendo sobr'isso seu conselho, acordaram ser bem d'El-Rei de Fez, por seu Marim requerer a D. Duarte que se desse e lhe entregasse a villa, para que lhe mandou uma carta, e dentro della a outra que tomaram, e dizia n'estas maneira:
«Porque eu já sei tua puridade, mais por modo de compaixão que de necessidade que tenha, conhecendo de ti que és bom christão e esforçado cavalleiro, filho do outro bom velho de Ceuta, defenda-te Deus e te mostre o caminho da verdade por melhor e mais direito, se te quizeres poer em nossas mãos com algum honesto trato farás cousa a ti proveitosa, e a esses que hi tens mais que a nós; porque a ti e a elles guardaremos de mal, e vos faremos o que o vosso Rei fez aos nossos mouros, que estavam n'essas casas em que tu agora estás. Conselhe-te Deus de conselho são, e se tu isto não quizeres, sabe que Deus é grande e justiçoso, e quererá dar ás mãos de seus servos as casas em que nasceram, e as herdades que seus padres e avós fizeram e prantaram, e manda logo a resposta com toda tua vontade».
D. Duarte recebeu a carta que era do Marim, e a fez lêr para si só secretamente, e perguntado dos fidalgos pela sustancia d'ella lhes encobrio a verdade, e disse que lhe cometiam trato de paz como mouros fracos que eram, e que estavam já de todo perdidos, para segurarem a terra de mais dano, com fundamento de se quererem alevantar, mas que lhe responderia, como respondeo de si mesmo ao Marim n'esta maneira:
«Tu sabe que El-Rei meu Senhor não leixou a mim e a estes seus fidalgos e a outra nobre gente n'esta sua villa para t'a entregarmos como cuidas, mas para a defendermos como defenderemos a ti e ao teu rei, e com elle a todolos Reis mouros do mundo quando sobre nós viessem, e crê que nossa determinada vontade pela defender é sofrer não sómente o trabalho que nos dás, que por tua covardice é assaz pequeno, mas outros muitos maiores, até sobr'isso morrermos. E para conheceres se estas palavras saem da boca ou do coração, chega-te melhor aos combates do que fazes e ve-lo-has, e porque me dizem que o teu Rei manda fazer escadas para subir aos muros e nos combater e entrar, dize-lhe que eu o escusarei d'esse trabalho; porque se n'elle e em ti ha coração para isso, eu entre torre e torre lhe mandarei poer muitas que El-Rei meu Senhor aqui trouxe para tomar a villa, e manda subir aos teus por ellas, e verás que força põem em nós o serviço do nosso Rei e o enxalçamento de nossa fé, e a estima de nossas honras, e d'esta graça se a de nós quizeres receber não queremos de vós outros outra paga, se não que não sejaes tão covardes e tão fracos como até qui mostrastes, cá não é honra nem gloria vencer-vos».
Esta resposta foi lida na tenda d'El-Rei, perante elle e seus merins e alcaides, de que ficaram mui maravilhados, atribuindo tudo á soberba, como fôra a do cerco outro de Tangere, que apontaram. Mas Xarate, alcaide de Tangere que hi era, disse:
«Sabei vós que esses em que fallaes que d'essa vez vieram a Tangere, se dentro de taes paredes se acharam, e de mantimentos tiveram razoado soportamento, podera ser segundo o que vi, que mais caro nos custaram. E porém na continua alegria d'estes christãos sentireis bem sua fortaleza, e que n'aquelle escripto confessassem ao seu Rei suas mingoas e trabalhos, são maneiras que os cercados sempre tem para obrigarem com mais piedade e mór trigança a seu socorro, mas não é de crêr que tomando-se hontem a villa, e estando aqui o seu Rei com muitos navios, que a não leixassem açalmada para muito mais tempo do que nós podemos aqui estar».
E porém o Marim tornou a replicar a D. Duarte, que ao messegeiro mandou tirar ás bestas e não lhe quiz vêr a carta; porque receou tendo tão pouca esperança de socorro, parecerem a alguns bem suas palavras e cometimentos, e enfraquentarem-se por isso na defesa da villa e esforçarem-se para o dar d'ella.
Aos mouros porque o tempo era de grandes frios, morriam e atereciam os cavalos, e assi os camelos e bestas de sua carriagem, e tambem elles padeciam asperezas incomportaveis. E com isto eram tão cansados e tristes, como os christãos pelo contrairo; porque no testemunho e prova de seus alegres rostos e esforçados corações, em especial na segurança e valentia de seu capitão, tomavam todos esperança de sua honra, resistencia e desejada defesa.
Os mouros porque as cousas em nada sobcediam a seu proposito, eram postos em grande cuidado, fazendo entre si grandes lamentações pela triste e deshonrada memoria que d'elles ficaria, não acabando feito de tão pequena estima para a presunção e confiança com que vieram, e sendo já minguados de polvora e muito mais da esperança que tinham de lhe já aproveitar, determinaram dar por todalas partes e a uma só hora um grande combate á villa, e assi o fizeram. Mas o capitão D. Duarte, porque logo nos aparelhos e alvoroço dos mouros que viu, sentiu bem o que queriam fazer, assi se percebeu e os recebeu, que d'alli por diante assi pelo grande estrago e mortindade que n'elles fez, como porque a gente sem o poderem resistir lhe fugia, e principalmente porque a polvora lhe falleceu e seus tiros e artilharias não jugaram mais, não houve mais rebates nem cometimentos porque ficaram de todo cortados.
E até então se lançaram na villa por todas, oitocentas e dez pedras grossas, XXXII de bombarda grande, e as outras das outras meãs, de que foram muitos christãos feridos, e alguns poucos mortos. E porque o mantimento fallecia já muito, e não sabiam da detença que os mouros no cerco fariam, depois de pedir socorro ao capitão de Ceuta, que lh'o não deu e podera dar, praticou D. Duarte com esses fidalgos que seria bem matarem os cavallos; porque não lhe comeriam trigo nem cevada, que tanto haviam mester, e mais salgados lhes poderiam em sua extrema necessidade muito socorrer, e mais que não dessem de comer á gente mais de uma só vez no dia, e ainda esta com temperança que cada um com os seus tivesse, com outras prudentes cautelas e provimentos que concordaram e tudo pareceo bem, salvo o matar dos cavallos, a que acordaram que sómente por mantimento se desse palha, e que porém antes de os meterem n'esta provisão, determinaram dar primeiro com elles uma escaramuça e rebate aos mouros; porque elles tinham já por muito certo que eram mortos e com fome comidos.
Deu D. Duarte cargo da capitania d'elles, que eram pouco mais de XXX, a D. Anrique seu filho maior. E em dia de Santo Estevão primeiro dia das Oitavas de Natal sahiu D. Duarte fóra a pé, com certos homens todos fidalgos, com mostrança de recolher o almazem que na praia jazia; porque tivessem os mouros razão sahir do arraial, como sairam para lh'o defender, e com isto os offenderam. E como D. Duarte viu tempo, fez o signal que com D. Anrique seu filho tinha concertado, e elle com todolos cavalos enjaezados, e os cavalleiros bem armados e vestidos de livrés e gentileza, sahiu da barreira em que jazia em cillada, e com o nome de Santiago, deram rijamente nos mouros, que feriram com tanta força e ardideza, que certo o testemunho d'aquelle só dia, além d'outros muitos, deu clara prova de que capitães aquelle novo capitão por avoengas decendia, e que capitão se n'elle criava.
Foi a peleja d'este dia sobre todalas outras do cerco de mais dura e melhor pelejada; porque os que n'ella eram foram todos como disse fidalgos escolhidos, os quaes o capitão já não podia recolher, em que os mouros receberam muito dano e maior desmaio, vendo vivos os cavallos que cuidavam ser mortos, estimando-os por dez tantos com formosura e penso dobrado, o que deu muita causa aos mouros desesperarem da victoria do cerco, e proposeram de o mais não manter.
N'esta peleja usou Martim de Tavora de uma clara e verdadeira fidalguia; porque vendo n'ella entre os mouros Gonçallo Vaz Coutinho seu imigo capital, e sem alguma esperança de vida, só lhe foi socorrer, e com muito esforço e mais bondade, e com grande risco de sua pessoa como a um irmão o livrou e tirou de poder dos mouros, e d'hi em diante ficaram em sua imizade mortal.
N'estes danos e males que os mouros contra sua primeira maginação cada dia recebiam, e com esperança de os receber ao diante maiores, não os podendo soffrer, nem esperando de os poder mais contrariar, se queixaram e levantaram a um seu Cade, que entre elles é sacerdote maior, havido dos seus Reis e Marins em grande veneração como Papa, o qual com a grande congregação de cacizes falou a El-Rei e a seus Marins e alcaides, apontando com palavras prudentes as maldições e vituperios que os mouros e casa de Fez principalmente por tamanha fraqueza recebiam, e que porém ou determinasse não leixar de combater a villa de noite e de dia até que a tomasse e todos morressem, ou por não terem mais mortes e padecimentos se alevantasse do cerco d'ella.
E depois d'El-Rei e o Marim terem seu conselho, acordaram por muitas razões boas que apontaram, que o cerco por então se alevantasse, com voto de o tornar a poer dobrado para o verão que logo vinha, como fizeram e se dirá.
E ao derradeiro dia de Dezembro começou a gente de se levantar e partir, e a dois de Janeiro do anno que logo vinha de mil e quatrocentos cincoenta e nove annos, El-Rei de Fez com todo seu arraial partiu de todo do cerco, que durou cincoenta e tres dias, no qual dos mouros segundo a certidão maior morreriam até mil e duzentos, e dos christãos muito poucos. E da causa porque El-Rei de Fez se partira, e assi da determinação que levava, logo D. Duarte por alguns mouros e elches que do arraial na villa se lançaram, foi de todo avisado. Do que elle e todolos christãos não ficaram menos ledos e descarregados, do que ficaram honrados e louvados por toda a christandade. Da qual cousa D. Duarte avisou logo El-Rei, que do descerco era já por castelhanos d'Andaluzia avisado; porque com esperança das alviçaras que d'elle por isso recebiam, uns após outros não leixavam de correr este pario de cobiça. E porém o messegeiro de D. Duarte as recebeu dobradas, com honra, proveito e acrescentamento.
E por isso mandou em todo o reino fazer geraes procissões, em que se deram muitas graças a Deus, e assi ordenou esmolas a todolos mosteiros e casas piedosas. E respondeu a D. Duarte; e assi a todolos principaes fidalgos e cavalleiros que mantiveram o cerco, dando-lhe por estes cincoenta e tres dias que durou o cerco, tantos agardecimentos com esperança de mercês, como se foram outros tantos annos de mui assinados serviços. E mandou logo de dinheiro e mantimentos prover a villa. E que os fronteiros que n'ella fôra da ordenança estavam, se tornassem ao reino. E ante de se virem fizeram muitas entradas, e trouxeram á villa grandes cavalgadas e muitos mantimentos das aldêas dos mouros.