CHRONICAS DE VIAGEM

CHRONICAS DE VIAGEMXIAventuras de um aeronauta portuguezEstá aqui a banhos, na Ericeira, um estimabilissimo rapaz, de fino trato social, excellente cavaqueador, sympathico, gentil e de mais a mais... lendario.Não ha duvida nenhuma: lendario!Na Europa, na Africa, na America tem uma lenda, a lenda de um homem que vôa, um filho do ar, que ás vezes, ao descer para a terra, como que recebe da terra mostras de justo resentimento pelo muito que parece desdenhal-a.Ainda ultimamente, em S. Luiz, nos Estados-Unidos, esteve, ao descer do ar, para ser victima de uma grande catastrophe, que o telegrapho noticiou, e que causou dolorosa impressão em toda Lisboa.{98}Refiro-me a Antonio Infante, aeronauta portuguez... unico!Foi em 1883 que elle fez em Lisboa, na explanada do antigo Colyseu, a sua primeira ascensão, com o Beudet, lembram-se?Toda a gente ficou admirada de que um rapaz bem nascido, que apenas conhecia a região do Chiado, se affoutasse a ir devassar os mysterios da região do éther, porque nós os portuguezes, como sempre nos tem acontecido em tudo, lançamos ao ar o primeiro balão, ensinamos os outros a serem aeronautas e nunca mais o quizemos ser.Parece que no ar, como na terra, tudo está em dar o primeiro passo... perdão, o primeiro vôo.Antonio Infante fez em Lisboa segunda ascensão, e depois, como o socio do Beudet se desligasse da empreza, Antonio Infante continuou a sociedade e foi-se para Hespanha com o antigo socio do Beudet.Em Madrid realisou uma ascensão tendo por companheiro um homem conhecido, Ducascal, actualmente deputado e, passando a Italia, subiu em Napoles com o director do Observatorio á altura do seis mil e quinhentos metros, por tal signal que o sabio do Observatorio, tendo lá em cima a vertigem do infinito, encolheu-se no fundo da barquinha, e mandou ao diabo a sciencia e as observações.{99}Eu faria o mesmo, se tivesse perpetrado uma tal aventura.Mas em Napoles esteve Antonio Infante para representar involuntariamente n'uma tragedia aerea, porque elle não conhece outras.Procurou-o um desconhecido e propoz-lhe que, a troco d'uma certa quantia, o levasse no balão. O aeronauta acceitou, e, no dia aprasado, estava já o balão quasi cheio de gaz, quando a policia appareceu e prendeu o desconhecido.Seria um salteador—os salteadores são tão vulgares em Napoles!—que recorresse a esse meio de escapula?Nada d'isso.Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com o homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se, teria que livrar-se da suspeita de um crime.Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou, durante muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um espectaculo, contentou-se com vêr em Constantinopla{100}os espectaculos dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma representação dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no andar superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas espreitavam avidamente...Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o sultão o recebeu de boa sombra.Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro, um homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os outros supersticiosamente:—Ua!(Elle!)Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão para o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:—Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.Chamavam-lheSerani kai-tir, ochristão que vôa, e ao balão,Quesana kai-tir, com quem diz,barraca aerea.Considerando-o feiticeiro, procuravam-n'o para tudo,—até para compôr desavenças domesticas, tempestades de ciumes, amúos de namorados.{101}Os marroquinos alimentavam a superstição de que ninguem seria capaz de matal-o com bala de chumbo.—É como ohomem do cavallo branco, diziam elles. Só com bala de prata...Ohomem do cavallo brancoera o general Prim, que pelos seus actos de bravura ficára tido no norte de Africa como invulneravel ás balas de chumbo.Foi ás quatro horas da manhã que Antonio Infante fez uma ascensão para o sultão de Marrocos vêr, e a guarda do sultão seguiu o aeróstato, em marcha forçada, até que desceu, para sua magestade se desenganar de que o aeronauta subia tambem no balão.Da Africa septemtrional traz Antonio Infante muitas recordações agradaveis. Ahi vae uma, que elle conta com orgulho patriotico. Nas portas da Arzilla conservam-se ainda as armas reaes portuguezas, e, sempre que umciceroneexplica em Arzilla a historia de algumas ruinas, diz aos viajantes:—Isto é do tempo do portuguez...De Marrocos passou a Gibraltar, onde o governador da praça lhe prohibiu que realisasse qualquer ascensão, mas subiu em La Linea, que fica apenas separada de Gibraltar por uma pequena lingua de terra. O balão caiu no mar, em aguas hespanholas, e os carabineiros apprehenderam-lh'o como tomadia.{102}Mez e meio gastou Infante para rehavel-o. A final foi a legação portugueza de Madrid que resolveu o negocio.Nas Canarias caiu tambem no mar, a uma milha de Teneriffe. Duas horas esteve dentro d'agua á espera que um barco de pescadores o fosse buscar. E em Las Palmas, ao subir, feriu-se de tal modo, que perdeu os sentidos dentro da barquinha.Foi principalmente na America que a odyssea aerea de Antonio Infante principiou a ter mais vivo interesse.Em Montevideo, ao descer, deslocou o pé direito, e na Havana caiu na bahia, que os tubarões frequentam.Seria ignominioso para um filho do ar morrer na, guela de um filho do mar, ainda que esse filho do mar fosse um monstro tão respeitavel como o tubarão. Emquanto esperava por socorro, esta ideia atormentava-o. Nadou sempre, porque o tubarão, para atacar, precisa voltar-se e, nadando, não lhe daria tempo para isso. Além de que, ia vestido de preto, porque o tubarão não ataca o preto. Mas, por cautella, Antonio Infante ia nadando sempre. Finalmente, chegou um escaler de guerra que o levou, e o filho do ar zombou dos tubarões.No Panamá partiu a perna direita, para que a{103}perna não tivesse que rir-se do pé, o qual já tinha sido deslocado em Montevideu.Em New-York Antonio Infante foi escripturado pelo celebre empresario Barnum, que já gastou este anno em annuncios cicoenta mil dollars. Barnum dava-lhe 500$000 réis por semana, pagando-lhe oshoteise as viagens. Queria-o apenas como reclame, para fazer uma ascensão á porta do seu gigande circo de lona, que comporta vinte e cinco mil espectadores, e que Barnum vae armando e desarmando de terra em terra, acompanhado de uma grande comitiva de vendedores, que lhe pagam para que os deixe seguil-o. Ospikpocketsdão cem e duzentos dollars a Barnum para que lhes permitta venderem bilhetes á porta do circo, tal é a ganancia que elles pódem auferir das suas escamoteações.Em S. Luiz trabalhou tambem comoreclameá porta do theatro onde se representava a colossal magicaOs ultimos dias de Pompeia, que mettia quinhentos comparsas e duzentos musicos. A erupção do Vezuvio era um prodigio de pyrotechnia, realisado pelo celebre fogueteiro Pain, que esteve em Lisboa por occasião da visita do principe de Galles.Uma vez, em Virginia, onde se debatiam eleitoralmente dois candidatos, um republicano, outro democrata, o republicano contratou com Infante uma ascensão para attrair gente ao local do comicio.{104}O candidato faria o seu discurso e, ao dar meio dia, Infante deveria subir. Reconhecendo que estava no paiz da pontualidade, ao meio dia em ponto, Infante subiu. Mas, ao descer, o candidato só quiz pagar metade da quantia ajustada.—Porque? perguntou o aeronauta.—Porque quando o snr. subiu, estava eu em meio do meu discurso, e o povo, logo que viu o balão cheio, já não quiz ouvir o resto, que era o melhor...Foi ainda nos Estados-Unidos, em S. Luiz, que Antonio Infante esteve para ser victima da grande catastrophe, que o telegrapho noticiára.O balão, ao subir, bateu de encontro a um dos postes da luz electrica, rasgou-se no ar, e abriu-se de alto a baixo no momento em que descia rapidamente.Póde imaginar-se o que seria esse vertiginoso despenhar-se de um homem no espaço, atravez da escuridão da noite, indo dentro de um balão que phantasticamente se illuminava de fogos de artificio!Um enorme prego, cravado no fundo da barquinha, segurava exteriormente uma peça de fogo, e, quando a barquinha chofrou com grande estampido no solo, como se fôra uma pedra, foi esse prego que feriu de um modo calamitoso o infeliz aeronauta.O serviço das ambulancias medicas está organisado maravilhosamente nos Estados-Unidos. Ha communicação{105}telephonica entre todos os postos de policia, de modo que a ambulancia, com o respectivo medico, acode de prompto para fazer-se o primeiro curativo, e os carros d'este serviço, que se annunciam por um forte timbre sempre em vibração, tomam a deanteira a todos os outros vehiculos.Ligeiramente pensado no proprio logar do sinistro, Antonio Infante foi conduzido ao hospital, onde o medico assistente, examinando a gravidade dos ferimentos, o avisou de que a sua vida corria imminente perigo e de que não tinha tempo a perder para o caso de, na sua qualidade de estrangeiro, querer fazer qualquer recommendação.—Em Portugal, diz Antonio Infante, eu teria sido um homem morto. Nem a minha familia consentiria que eu fosse para um hospital, nem o medico haveria decerto empregado as ultimas violencias da sciencia comoin anima vili. Foi isso o que me salvou...Ora além da dilaceração dos tecidos, Infante havia deslocado o pé direito—sempre o pé direito, que parece ser ainda mais esquerdo do que o outro!—e fôra atacado de uma pneumonia.Quatro mezes esteve no catre do hospital, sendo visitado por todos os professores e por todos os estudantes de medicina que pasmavam da cura. O medico{106}assistente fez grandesreclames, á americana, e durante o mez, que a convalescença durou, uma verdadeira procissão de curiosos correu ao hospital a visitar o aeronauta resuscitado.Salvo finalmente, Infante deu-se pressa em vir tranquillisar os cuidados da sua familia, e embarcou em New-York por Bordeos para Lisboa.Agora está na Ericeira, um pouco nostalgico das regiões ethereas, como um passaro na gaiola.Nas ultimas noites de luar, vi-o sempre sentado n'algum banco do Jogo da Bola a olhar saudoso para o ceu azul, como se estivesse dizendo mentalmente:—Aquillo, lá em cima, é meu... e de Deus.{107}CHRONICAS DE VIAGEMXIIO VaratojoNo dia 23 de setembro, ás cinco horas da manhã em ponto, estava eu no Jogo da Bola, da Ericeira, á espera dos meus companheiros de viagem.A lua cheia principiava a empallidecer no ceu, e o sol dormia ainda o ultimo somno na sua camara celeste.Naturalmente o criado de quarto havia-o chamado já mais de uma vez, se é que o sol não usa despertador á cabeceira da cama, a fim de poder exercer, com a pontualidade que lhe é habitual, as suas funcções de astro rei.Mas n'esse dia parece que o loiro principe sol estava tão tonto de somno como aquelle sujeito da anecdota, que acordando ao estrondo do despertador,{108}o atirou pela janella fóra muito zangado, tornando a ir deitar-se.Eu proprio, para que tudo fosse excepcional n'aquella madrugada, fiz de guarda-nocturno e andei a bater á porta de um e outro.—Que eram horas. Que já ochar-à-bancsestava á nossa espera na Praça.E todos elles, uns e outros:—Já lá vou. Estou a lavar a cara. Estou a vestir o casaco.Pois o sol tambem n'aquella manhã levou muito tempo a lavar a cara e a vestir o casaco.Reuniu-se atroupe,—dez ou doze amigos—, subia ochar-à-bancsa passo a Calçada Real, e ainda o sol não se tinha dignado apparecer.Em dez minutos apenas, foram-se encastellando grossas nuvens, carregadas de electricidade, ao longe, sobre as montanhas de Cintra, e trovões distantes ribombavam surdamente.—Mau! Temos um dia estragado!O calor começava a ser asphyxiante.—Que fossem acreditar em poetas! Pois não disséra Castilho que as manhãs de setembro eram frescas?!Sahi em defeza do querido mestre Castilho.—Que aquella manhã de setembro tinha, por causa da trovoada, um feitio excepcional. Mas que eu{109}me compromettia a dar-lhes no dia seguinte, caso não houvesse trovoada, uma fresca manhã de Castilho.Então, o sol, com cara de ter passado mal a noite, o que era uma justificação, espreitou atravez de uma nuvem menos espessa.Ochar-à-bancs, tendo sahido da estrada de Mafra, principiava a descer para o Gradil, torneando a Tapada, onde, passado o Celebredo, pacatos veados appareciam aqui e alli pastando tranquillamente.Os caçadores ralavam-se de pena:—Não poder a gente matal-os! Aqui na tapada a caça brava é abundantissima. No primeiro dia de caçada, os veados quasi vem comer á mão. No segundo dia, já um pouco assustados, mostram-se hesitantes. Só no terceiro dia, comprehendendo a cousa, é que tratam de se alapardar.—Lá está outro!Estavam, sim, muitos, á boa vida, porque, como se sabe, na Tapada de Mafra só caça a familia real, e essa vae alli poucas vezes.Apenas o marquez de Oldoini obtivera ha annos auctorização para poder caçar na Tapada.Não se sita outra excepção.Durante longo tempo ochar-à-bancsfoi torneando a Tapada, que é vastissima, e quando o Gradil nos appareceu lá em baixo, com as suas chaminés fumegantes{110}e os seus predios caiados, já estavamos anciosos de avistal-o.Então as vinhas atacadas de phylloxera principiaram a mostrar-se-nos com grandes nodoas amarellas, indicando uma devastação terrivel na primeira cultura de Portugal.Quanto mais avançavamos na região de Torres Vedras, mais a devastação alastrava. Videiras doentes, dessoradas, pendiam languidamente com meia duzia de cachos. E ás vezes, no meio de largas manchas amarellas, um pequeno jardim de vinhas, não contaminadas ainda, verdejava sádiamente.Acontece que, em certos sitios, de um lado da estrada as vinhas estão indemnes, e do outro lado inteiramente perdidas.No Gradil, como fosse domingo, havia um grupo de homens á porta da taverna. Iam ou vinham da missa, isso é indifferente, mas tinham bebido já. Alguns limpavam ainda a bocca com o dorso da mão.Estrada fóra, avistamos a povoação do Livramento, depois o Turcifal.—Aquella casa é de fulano. Aquella outra é de sicrano.As nuvens negras tinham-se dissipado, o sol, completamente restabelecido, resplandecia, e um calor surdo, abafadiço, cahia obliquamente.{111}Todos mais ou menos iamos fallando do almoço, como da Terra Promettida.Ora, n'aquelle dia, a Terra Promettida era para nós a casa de Antonio Batalha Reis, a sua quinta do Carvalhal.Batalha Reis, sendo um grande amador de culinaria, faz petiscos excellentes, unicos.Já durante uns dias que estivera na Ericeira nos havia offerecido um delicioso bacalhau preparado por elle. Mas, n'aquelle dia, sabiamol-o na cosinha, de barrete branco, caprichoso em offerecer-nos um almoço principesco.Ao cabo de tres horas e meia de jornada, chegamos ao Carvalhal. Meia hora depois, o almoço estava na mesa, e cada um dos convivas tinha deante de si um prato de sopa de cebola, composição de Batalha Reis. Era a chave de prata que ia abrir esse bello soneto gastronomico. Batalha Reis disse-nos que a chave de ouro a reservava para o jantar,—ás cinco horas da tarde. Mas um coelho guisado, que nos deu ao almoço, valia ouro. Estava divino.Quando nos levantamos da mesa, todo eu era pressa de partir para o Varatojo, por causa... por causa de um livro: ora ahi está o grande segredo![1]Mas{112}como tivessemos levado uma machina photographica, fez-se primeiro um grupo, uma scena de duellistas, que crusavam floretes, sabres e lanças.A machina reproduziu instantaneamente toda esta batalha incruenta, que sahiu bem boa.Depois, finalmente, partimos para o Varatojo, e Antonio Batalha Reis, que tinha sido um dos duellistas, poz o barrete branco e foi para a cosinha do Carvalhal fazer o jantar.Atravessamos, de caminho, a villa de Torres Vedras, que se engrandece ainda de uns restos da sua antiga prosperidade vinicula. Boas casas, grandes adegas, homens rolando pelas ruas cascos de pipa. Uma praça com coreto: o rocio elegante. Um magnifico chafariz gothico, denominado dosCanos. Uma egreja com uma bella porta de lavores. Sobre o outeiro, as ruinas do famoso castello. O Passeio da Varzea com o seu sombrio arvoredo de choupos e faias.Mas nós passamos por tudo isso a correr, rodando para o Varatojo.Finalmente, á esquerda, na encosta, surgiu um grupo de casas e logo ao pé o telhado do convento e a matta.Apoiamo-nos no principio da encosta, porque não havia caminho para trem.E, subindo, chegamos ao largo do convento, de{113}humilde apparencia, enterrado ao fundo de alguns lanços de escada.Uma cruz de pedra e um velho cypreste dão ao sitio essa phisionomia de tristeza que caracterisa os eremiterios pobres.Descemos os poucos degraus que dão ingresso para o convento, e entramos no atrio.Á esquerda uma capella com o Senhor dos Passos. Em frente, o postigo da roda, em cujo bordo havia tres escudellas vasias com colheres de páu; sobre o postigo esta legenda:De paupertate nostra frangamus Jesu esurienti panem.Á direita uma porta em ogiva com esta simples palavra no topo:Silencio.Pedimos licença para entrar, e foi-nos concedida. Recebeu-nos o sacristão em habito de franciscano. Mostrou-nos a egreja, em cujo altar-mór ha a notar a obra de talha, o retabulo, os quadros, os azulejos. No corpo da egreja torna-se digno de menção o altar de marmore, excellentemente trabalhado, de uma capella lateral. É obra recente, executada por um conventual.Como houvessemos mandado entregar uma carta de apresentação, veio acompanhar-nos um padre franciscano, de habito com capuz, cordão, rosario e sandalias.Boa physionomia, alegre e rosada. Fallava sem{114}biôcos. Quando nos tornou a mostrar o altar de marmore, disse para mim:—Isto é obra feita no convento. Cá trabalha-se.Foi depois mostrar-nos o presepio, e chamou a nossa attenção para a figura que representava um cégo tocador de gaita de folles, com borracha de vinho a tiracollo, fazendo-nos notar a circumstancia de que o moço do cégo estava bebendo subrepticiamente o vinho da borracha.Levou-nos depois á casa dos retratos, onde, eu precisava vêr um, e á casa do capitulo, onde copiei a inscripção de uma sepultura.Offereceu-nos na casa dos retratos vinho doce, e bolos. Quizemos deixar uma esmola para o convento: recusou-a. Perguntamos-lhe se vendiam bentinhos, porque os desejavamos adquirir como recordação. Sorriu-se.—Que os bentinhos que tinham, eram os que pessoas de fóra davam aos frades.Na cêrca offereceu-nos flores, e conduziu-nos até á entrada da matta.De caminho respondia com boa sombra ás perguntas que lhe faziamos.Disse-nos que havia uma escóla para o sexo masculino, annexa ao convento, mas com entrada independente.{115}Disse-nos mais que, actualmente, eram uns vinte os frades, e que o resto do pessoal orçava por quinze homens. Que no convento não entravam mulheres, mas que na povoação havia um recolhimento de irmãs hospitaleiras de S. José com escóla para meninas. Accrescentou que viviam pobremente, mas que do seu pouco repartiam com os pobres.Mostrou-nos a sachristia, em cujos azulejos, que revestem as paredes, se lêem disticos metreficados em castelhano. Por exemplo:Mi coraçon como ceraSe derrite en dulce ardorCon tu fuego, ay Dios d'AmorSi hasta aqui de marmol era.Estes disticos devem ser composição de Frei Antonio das Chagas, que versejou gongoricamente em lingua hespanhola, e que no seculo XVII reformou o instituto do Varatojo, depois de ter vivido uma vida mundana de militar aventuroso.N'aquella simples quadra, que de industria preferimos, está todo o drama da conversão de Frei Antonio das Chagas.Na egreja, no claustro e cêrca encontramos alguns camponezes, uns imberbes, outros velhos, orando{116}como em extasi ou lendo livros mysticos. Um d'esses livros; cujo titulo podemos lêr, denominava-se—Devoção das Chagas de Christo.E ao cabo de uma visita de hora e meia sahimos do convento do Varatojo com a estranha impressão com que o poderiamos fazer ha duzentos annos.Parecia que o tempo se havia immobilisado no passado!...{117}[1]O livro, que já entrou no prelo, intitula-seVida mundana d'um frade virtuoso.CHRONICAS DE VIAGEMXIIIO regressoCom as chuvas dos primeiros dias da semana, começaram as praias a despovoar-se um pouco tumultuariamente.Ás portas da cidade, segundo me informa um visinho meu que é guarda barreira, chegavam a toda a hora carros e carretas com pessoas e malas.Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado guarda fiscal, tem a sua praia.Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes; estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos dias de festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do Porto, e contentam-se com ir de vez em{118}quando, no caminho de ferro, vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical. Effectivamente, cada familia tem a sua praia.Uma vez, certa damavieille roche, recebendo á sua mesa dois primos e um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles haviam perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do companheiro. Á sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em attenções com o desconhecido, fez estalar o quinau.—V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a bondade de nos dizer de que casa era!O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:—Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do apuro, que era a grande questão.A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma, seja qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.{119}Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes um pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se que só ficam em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do Paço.Tudo o mais abala.Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso dos banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da galeria das praias.Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam atoilettee o espirito de cada um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista veste atoiletteque quer, e exhibe com certa semceremonia as suas predilecções, as suas manias, as suas excentricidades de caracter.Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou aobaccarat. Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para saber quando oreideve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas fragas por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem lhe suppunha, que o peixe venha picar na isca.Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos{120}o conheciamos no Chiado, joga na praia ocroquettodo o dia e dança a Valsa toda a noite no club.Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos animaes, manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes, doido pelos coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,—nem mesmo os credores.De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais imaginoso é por certo o caçador.Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de capella, é elle ohabituéque tem corda para mais tempo, o caso é dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr por um oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila para nos impingir a sua illyada venatoria.Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes, um riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da sua espingarda, das suas caçadas maravilhosas.Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho. O caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de leve o empurre para os intermundios de Diana.{121}—Eu tinha um cão, principia elle.Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque nada ha tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta, não se demora muito no prologo.—Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!Aqui é que principia o maravilhoso do conto.—Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e á sua familia. Pobre Epaminondas!Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma explosão de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e, fingindo pensar no seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante, convulso.—Mas que diabo de mania, pergunta do lado um dos ouvintes, foi essa que você teve de chamar Epaminondas ao seu cão?O caçador, querendo dominar a sua commoção:—O que?! Que diabo de mania foi essa?! É facil de explicar. O cão era superiormente intelligente; era, no seu genero, um heroe, uma celebridade, direi mesmo uma gloria. De modo que eu quiz dar-lhe um{122}nome glorioso, que elle bem merecia. E não fiz nada de mais. Meu pobre... meu rico Epaminondas! Senti mais a sua morte do que a de meu avô, que eu nunca conheci, por ter vivido sempre no Brazil. Os senhores vão dar-me rasão, vocês vão concordar comigo em lhes eu contando o que aquelle cão era!A fim de recobrar toda a sua tranquilidade, o caçador faz um intervallo, accende o charuto que tinha deixado apagar, e continúa:—Vocês sabem que meu pae, tendo recolhido a Portugal, viveu sempre comigo...Neste momento entra no estanco, se o cenaculo é um estanco, um garoto a comprar dez réis de cigarros fortes.O caçador interrompe-se, mostrando-se contrariado de que um intruso venha esfriar o interesse que a sua narração estava produzindo no auditorio.O rapaz recebe os cigarros, e demora-se accendendo um.Sempre suspenso, o orador espera que o garoto sahia.Finalmente, continúa:—Casei, e meu pae ficou vivendo sempre comigo. Tambem era o que valia, para fazer companhia a minha mulher, porque eu, volta e meia, dizia-lhe adeus e ia para a caça com o Epaminondas.{123}—Santa Justa, fracos, diz um freguez conhecido entrando no estanco.O orador torna a interromper-se. Apertos de mão; as perguntas banaes do estylo. O freguez de Santa Justa demora-se cerca de cinco minutos.Quando elle sahe com os cigarros da sua devoção, o caçador, tomando uma attitude erecta:—Mas onde é que eu fiquei?Do lado ha sempre um apontador espirituoso:—Sahia você para a caça com Epaminondas quando o homem entrou.—É verdade! Volta e meia, eu dizia adeus a meu pae e a minha mulher e ia para a caça com o Epaminondas. Pelo caminho, parecia que iamos conversando, porque o diabo do cão fallava.—Fallava?!—É um modo de dizer, tão bem se entendia tudo o que elle pensava!—Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso dapateada tacita!—Vocês não acreditam—prosegue o caçador fingindo-se um pouco indignado—mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de tudo quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos entendendo como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava eu. E o Epaminondas{124}respondia: «Boa caçada; o dia está magnifico para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto hoje não dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o caso eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em que era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não tardavam a apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena distancia de casa.N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.—Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo Soares?Que não: que não é conhecido.O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:—Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa com a perdiz.—Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa levar esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que esta é para meu pae. Nada de tolices, Epaminondas!O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.Chegava a casa mais depressa do que eu o estou{125}dizendo, e ás vezes a primeira pessoa que encontrava não era meu pae mas minha mulher.Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do cão, queria tirar-lhe a perdiz.E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa, dizia-lhe:—Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a senhora.—O que?! Pois o cão dizia isso?!—Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de tal modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a perdiz. Depois o Epaminondas voltava logo.—E dizia alguma cousa?—Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»—Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se fazer comprehender tão explicitamente?{126}—Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!—Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia, como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...—Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que morava a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu o que o criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe por alli fóra, e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como umrapidoque passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão acreditando.Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.—Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado de que não tragam espingarda na bagagem!Lisboa, 8 de outubro de 1888.{127}

Está aqui a banhos, na Ericeira, um estimabilissimo rapaz, de fino trato social, excellente cavaqueador, sympathico, gentil e de mais a mais... lendario.

Não ha duvida nenhuma: lendario!

Na Europa, na Africa, na America tem uma lenda, a lenda de um homem que vôa, um filho do ar, que ás vezes, ao descer para a terra, como que recebe da terra mostras de justo resentimento pelo muito que parece desdenhal-a.

Ainda ultimamente, em S. Luiz, nos Estados-Unidos, esteve, ao descer do ar, para ser victima de uma grande catastrophe, que o telegrapho noticiou, e que causou dolorosa impressão em toda Lisboa.{98}

Refiro-me a Antonio Infante, aeronauta portuguez... unico!

Foi em 1883 que elle fez em Lisboa, na explanada do antigo Colyseu, a sua primeira ascensão, com o Beudet, lembram-se?

Toda a gente ficou admirada de que um rapaz bem nascido, que apenas conhecia a região do Chiado, se affoutasse a ir devassar os mysterios da região do éther, porque nós os portuguezes, como sempre nos tem acontecido em tudo, lançamos ao ar o primeiro balão, ensinamos os outros a serem aeronautas e nunca mais o quizemos ser.

Parece que no ar, como na terra, tudo está em dar o primeiro passo... perdão, o primeiro vôo.

Antonio Infante fez em Lisboa segunda ascensão, e depois, como o socio do Beudet se desligasse da empreza, Antonio Infante continuou a sociedade e foi-se para Hespanha com o antigo socio do Beudet.

Em Madrid realisou uma ascensão tendo por companheiro um homem conhecido, Ducascal, actualmente deputado e, passando a Italia, subiu em Napoles com o director do Observatorio á altura do seis mil e quinhentos metros, por tal signal que o sabio do Observatorio, tendo lá em cima a vertigem do infinito, encolheu-se no fundo da barquinha, e mandou ao diabo a sciencia e as observações.{99}

Eu faria o mesmo, se tivesse perpetrado uma tal aventura.

Mas em Napoles esteve Antonio Infante para representar involuntariamente n'uma tragedia aerea, porque elle não conhece outras.

Procurou-o um desconhecido e propoz-lhe que, a troco d'uma certa quantia, o levasse no balão. O aeronauta acceitou, e, no dia aprasado, estava já o balão quasi cheio de gaz, quando a policia appareceu e prendeu o desconhecido.

Seria um salteador—os salteadores são tão vulgares em Napoles!—que recorresse a esse meio de escapula?

Nada d'isso.

Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...

Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com o homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se, teria que livrar-se da suspeita de um crime.

Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou, durante muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um espectaculo, contentou-se com vêr em Constantinopla{100}os espectaculos dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma representação dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no andar superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas espreitavam avidamente...

Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...

Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o sultão o recebeu de boa sombra.

Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro, um homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os outros supersticiosamente:

—Ua!(Elle!)

Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão para o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:

—Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.

Chamavam-lheSerani kai-tir, ochristão que vôa, e ao balão,Quesana kai-tir, com quem diz,barraca aerea.

Considerando-o feiticeiro, procuravam-n'o para tudo,—até para compôr desavenças domesticas, tempestades de ciumes, amúos de namorados.{101}

Os marroquinos alimentavam a superstição de que ninguem seria capaz de matal-o com bala de chumbo.

—É como ohomem do cavallo branco, diziam elles. Só com bala de prata...

Ohomem do cavallo brancoera o general Prim, que pelos seus actos de bravura ficára tido no norte de Africa como invulneravel ás balas de chumbo.

Foi ás quatro horas da manhã que Antonio Infante fez uma ascensão para o sultão de Marrocos vêr, e a guarda do sultão seguiu o aeróstato, em marcha forçada, até que desceu, para sua magestade se desenganar de que o aeronauta subia tambem no balão.

Da Africa septemtrional traz Antonio Infante muitas recordações agradaveis. Ahi vae uma, que elle conta com orgulho patriotico. Nas portas da Arzilla conservam-se ainda as armas reaes portuguezas, e, sempre que umciceroneexplica em Arzilla a historia de algumas ruinas, diz aos viajantes:

—Isto é do tempo do portuguez...

De Marrocos passou a Gibraltar, onde o governador da praça lhe prohibiu que realisasse qualquer ascensão, mas subiu em La Linea, que fica apenas separada de Gibraltar por uma pequena lingua de terra. O balão caiu no mar, em aguas hespanholas, e os carabineiros apprehenderam-lh'o como tomadia.{102}

Mez e meio gastou Infante para rehavel-o. A final foi a legação portugueza de Madrid que resolveu o negocio.

Nas Canarias caiu tambem no mar, a uma milha de Teneriffe. Duas horas esteve dentro d'agua á espera que um barco de pescadores o fosse buscar. E em Las Palmas, ao subir, feriu-se de tal modo, que perdeu os sentidos dentro da barquinha.

Foi principalmente na America que a odyssea aerea de Antonio Infante principiou a ter mais vivo interesse.

Em Montevideo, ao descer, deslocou o pé direito, e na Havana caiu na bahia, que os tubarões frequentam.

Seria ignominioso para um filho do ar morrer na, guela de um filho do mar, ainda que esse filho do mar fosse um monstro tão respeitavel como o tubarão. Emquanto esperava por socorro, esta ideia atormentava-o. Nadou sempre, porque o tubarão, para atacar, precisa voltar-se e, nadando, não lhe daria tempo para isso. Além de que, ia vestido de preto, porque o tubarão não ataca o preto. Mas, por cautella, Antonio Infante ia nadando sempre. Finalmente, chegou um escaler de guerra que o levou, e o filho do ar zombou dos tubarões.

No Panamá partiu a perna direita, para que a{103}perna não tivesse que rir-se do pé, o qual já tinha sido deslocado em Montevideu.

Em New-York Antonio Infante foi escripturado pelo celebre empresario Barnum, que já gastou este anno em annuncios cicoenta mil dollars. Barnum dava-lhe 500$000 réis por semana, pagando-lhe oshoteise as viagens. Queria-o apenas como reclame, para fazer uma ascensão á porta do seu gigande circo de lona, que comporta vinte e cinco mil espectadores, e que Barnum vae armando e desarmando de terra em terra, acompanhado de uma grande comitiva de vendedores, que lhe pagam para que os deixe seguil-o. Ospikpocketsdão cem e duzentos dollars a Barnum para que lhes permitta venderem bilhetes á porta do circo, tal é a ganancia que elles pódem auferir das suas escamoteações.

Em S. Luiz trabalhou tambem comoreclameá porta do theatro onde se representava a colossal magicaOs ultimos dias de Pompeia, que mettia quinhentos comparsas e duzentos musicos. A erupção do Vezuvio era um prodigio de pyrotechnia, realisado pelo celebre fogueteiro Pain, que esteve em Lisboa por occasião da visita do principe de Galles.

Uma vez, em Virginia, onde se debatiam eleitoralmente dois candidatos, um republicano, outro democrata, o republicano contratou com Infante uma ascensão para attrair gente ao local do comicio.{104}

O candidato faria o seu discurso e, ao dar meio dia, Infante deveria subir. Reconhecendo que estava no paiz da pontualidade, ao meio dia em ponto, Infante subiu. Mas, ao descer, o candidato só quiz pagar metade da quantia ajustada.

—Porque? perguntou o aeronauta.

—Porque quando o snr. subiu, estava eu em meio do meu discurso, e o povo, logo que viu o balão cheio, já não quiz ouvir o resto, que era o melhor...

Foi ainda nos Estados-Unidos, em S. Luiz, que Antonio Infante esteve para ser victima da grande catastrophe, que o telegrapho noticiára.

O balão, ao subir, bateu de encontro a um dos postes da luz electrica, rasgou-se no ar, e abriu-se de alto a baixo no momento em que descia rapidamente.

Póde imaginar-se o que seria esse vertiginoso despenhar-se de um homem no espaço, atravez da escuridão da noite, indo dentro de um balão que phantasticamente se illuminava de fogos de artificio!

Um enorme prego, cravado no fundo da barquinha, segurava exteriormente uma peça de fogo, e, quando a barquinha chofrou com grande estampido no solo, como se fôra uma pedra, foi esse prego que feriu de um modo calamitoso o infeliz aeronauta.

O serviço das ambulancias medicas está organisado maravilhosamente nos Estados-Unidos. Ha communicação{105}telephonica entre todos os postos de policia, de modo que a ambulancia, com o respectivo medico, acode de prompto para fazer-se o primeiro curativo, e os carros d'este serviço, que se annunciam por um forte timbre sempre em vibração, tomam a deanteira a todos os outros vehiculos.

Ligeiramente pensado no proprio logar do sinistro, Antonio Infante foi conduzido ao hospital, onde o medico assistente, examinando a gravidade dos ferimentos, o avisou de que a sua vida corria imminente perigo e de que não tinha tempo a perder para o caso de, na sua qualidade de estrangeiro, querer fazer qualquer recommendação.

—Em Portugal, diz Antonio Infante, eu teria sido um homem morto. Nem a minha familia consentiria que eu fosse para um hospital, nem o medico haveria decerto empregado as ultimas violencias da sciencia comoin anima vili. Foi isso o que me salvou...

Ora além da dilaceração dos tecidos, Infante havia deslocado o pé direito—sempre o pé direito, que parece ser ainda mais esquerdo do que o outro!—e fôra atacado de uma pneumonia.

Quatro mezes esteve no catre do hospital, sendo visitado por todos os professores e por todos os estudantes de medicina que pasmavam da cura. O medico{106}assistente fez grandesreclames, á americana, e durante o mez, que a convalescença durou, uma verdadeira procissão de curiosos correu ao hospital a visitar o aeronauta resuscitado.

Salvo finalmente, Infante deu-se pressa em vir tranquillisar os cuidados da sua familia, e embarcou em New-York por Bordeos para Lisboa.

Agora está na Ericeira, um pouco nostalgico das regiões ethereas, como um passaro na gaiola.

Nas ultimas noites de luar, vi-o sempre sentado n'algum banco do Jogo da Bola a olhar saudoso para o ceu azul, como se estivesse dizendo mentalmente:

—Aquillo, lá em cima, é meu... e de Deus.{107}

No dia 23 de setembro, ás cinco horas da manhã em ponto, estava eu no Jogo da Bola, da Ericeira, á espera dos meus companheiros de viagem.

A lua cheia principiava a empallidecer no ceu, e o sol dormia ainda o ultimo somno na sua camara celeste.

Naturalmente o criado de quarto havia-o chamado já mais de uma vez, se é que o sol não usa despertador á cabeceira da cama, a fim de poder exercer, com a pontualidade que lhe é habitual, as suas funcções de astro rei.

Mas n'esse dia parece que o loiro principe sol estava tão tonto de somno como aquelle sujeito da anecdota, que acordando ao estrondo do despertador,{108}o atirou pela janella fóra muito zangado, tornando a ir deitar-se.

Eu proprio, para que tudo fosse excepcional n'aquella madrugada, fiz de guarda-nocturno e andei a bater á porta de um e outro.

—Que eram horas. Que já ochar-à-bancsestava á nossa espera na Praça.

E todos elles, uns e outros:

—Já lá vou. Estou a lavar a cara. Estou a vestir o casaco.

Pois o sol tambem n'aquella manhã levou muito tempo a lavar a cara e a vestir o casaco.

Reuniu-se atroupe,—dez ou doze amigos—, subia ochar-à-bancsa passo a Calçada Real, e ainda o sol não se tinha dignado apparecer.

Em dez minutos apenas, foram-se encastellando grossas nuvens, carregadas de electricidade, ao longe, sobre as montanhas de Cintra, e trovões distantes ribombavam surdamente.

—Mau! Temos um dia estragado!

O calor começava a ser asphyxiante.

—Que fossem acreditar em poetas! Pois não disséra Castilho que as manhãs de setembro eram frescas?!

Sahi em defeza do querido mestre Castilho.

—Que aquella manhã de setembro tinha, por causa da trovoada, um feitio excepcional. Mas que eu{109}me compromettia a dar-lhes no dia seguinte, caso não houvesse trovoada, uma fresca manhã de Castilho.

Então, o sol, com cara de ter passado mal a noite, o que era uma justificação, espreitou atravez de uma nuvem menos espessa.

Ochar-à-bancs, tendo sahido da estrada de Mafra, principiava a descer para o Gradil, torneando a Tapada, onde, passado o Celebredo, pacatos veados appareciam aqui e alli pastando tranquillamente.

Os caçadores ralavam-se de pena:

—Não poder a gente matal-os! Aqui na tapada a caça brava é abundantissima. No primeiro dia de caçada, os veados quasi vem comer á mão. No segundo dia, já um pouco assustados, mostram-se hesitantes. Só no terceiro dia, comprehendendo a cousa, é que tratam de se alapardar.

—Lá está outro!

Estavam, sim, muitos, á boa vida, porque, como se sabe, na Tapada de Mafra só caça a familia real, e essa vae alli poucas vezes.

Apenas o marquez de Oldoini obtivera ha annos auctorização para poder caçar na Tapada.

Não se sita outra excepção.

Durante longo tempo ochar-à-bancsfoi torneando a Tapada, que é vastissima, e quando o Gradil nos appareceu lá em baixo, com as suas chaminés fumegantes{110}e os seus predios caiados, já estavamos anciosos de avistal-o.

Então as vinhas atacadas de phylloxera principiaram a mostrar-se-nos com grandes nodoas amarellas, indicando uma devastação terrivel na primeira cultura de Portugal.

Quanto mais avançavamos na região de Torres Vedras, mais a devastação alastrava. Videiras doentes, dessoradas, pendiam languidamente com meia duzia de cachos. E ás vezes, no meio de largas manchas amarellas, um pequeno jardim de vinhas, não contaminadas ainda, verdejava sádiamente.

Acontece que, em certos sitios, de um lado da estrada as vinhas estão indemnes, e do outro lado inteiramente perdidas.

No Gradil, como fosse domingo, havia um grupo de homens á porta da taverna. Iam ou vinham da missa, isso é indifferente, mas tinham bebido já. Alguns limpavam ainda a bocca com o dorso da mão.

Estrada fóra, avistamos a povoação do Livramento, depois o Turcifal.

—Aquella casa é de fulano. Aquella outra é de sicrano.

As nuvens negras tinham-se dissipado, o sol, completamente restabelecido, resplandecia, e um calor surdo, abafadiço, cahia obliquamente.{111}

Todos mais ou menos iamos fallando do almoço, como da Terra Promettida.

Ora, n'aquelle dia, a Terra Promettida era para nós a casa de Antonio Batalha Reis, a sua quinta do Carvalhal.

Batalha Reis, sendo um grande amador de culinaria, faz petiscos excellentes, unicos.

Já durante uns dias que estivera na Ericeira nos havia offerecido um delicioso bacalhau preparado por elle. Mas, n'aquelle dia, sabiamol-o na cosinha, de barrete branco, caprichoso em offerecer-nos um almoço principesco.

Ao cabo de tres horas e meia de jornada, chegamos ao Carvalhal. Meia hora depois, o almoço estava na mesa, e cada um dos convivas tinha deante de si um prato de sopa de cebola, composição de Batalha Reis. Era a chave de prata que ia abrir esse bello soneto gastronomico. Batalha Reis disse-nos que a chave de ouro a reservava para o jantar,—ás cinco horas da tarde. Mas um coelho guisado, que nos deu ao almoço, valia ouro. Estava divino.

Quando nos levantamos da mesa, todo eu era pressa de partir para o Varatojo, por causa... por causa de um livro: ora ahi está o grande segredo![1]Mas{112}como tivessemos levado uma machina photographica, fez-se primeiro um grupo, uma scena de duellistas, que crusavam floretes, sabres e lanças.

A machina reproduziu instantaneamente toda esta batalha incruenta, que sahiu bem boa.

Depois, finalmente, partimos para o Varatojo, e Antonio Batalha Reis, que tinha sido um dos duellistas, poz o barrete branco e foi para a cosinha do Carvalhal fazer o jantar.

Atravessamos, de caminho, a villa de Torres Vedras, que se engrandece ainda de uns restos da sua antiga prosperidade vinicula. Boas casas, grandes adegas, homens rolando pelas ruas cascos de pipa. Uma praça com coreto: o rocio elegante. Um magnifico chafariz gothico, denominado dosCanos. Uma egreja com uma bella porta de lavores. Sobre o outeiro, as ruinas do famoso castello. O Passeio da Varzea com o seu sombrio arvoredo de choupos e faias.

Mas nós passamos por tudo isso a correr, rodando para o Varatojo.

Finalmente, á esquerda, na encosta, surgiu um grupo de casas e logo ao pé o telhado do convento e a matta.

Apoiamo-nos no principio da encosta, porque não havia caminho para trem.

E, subindo, chegamos ao largo do convento, de{113}humilde apparencia, enterrado ao fundo de alguns lanços de escada.

Uma cruz de pedra e um velho cypreste dão ao sitio essa phisionomia de tristeza que caracterisa os eremiterios pobres.

Descemos os poucos degraus que dão ingresso para o convento, e entramos no atrio.

Á esquerda uma capella com o Senhor dos Passos. Em frente, o postigo da roda, em cujo bordo havia tres escudellas vasias com colheres de páu; sobre o postigo esta legenda:De paupertate nostra frangamus Jesu esurienti panem.Á direita uma porta em ogiva com esta simples palavra no topo:Silencio.

Pedimos licença para entrar, e foi-nos concedida. Recebeu-nos o sacristão em habito de franciscano. Mostrou-nos a egreja, em cujo altar-mór ha a notar a obra de talha, o retabulo, os quadros, os azulejos. No corpo da egreja torna-se digno de menção o altar de marmore, excellentemente trabalhado, de uma capella lateral. É obra recente, executada por um conventual.

Como houvessemos mandado entregar uma carta de apresentação, veio acompanhar-nos um padre franciscano, de habito com capuz, cordão, rosario e sandalias.

Boa physionomia, alegre e rosada. Fallava sem{114}biôcos. Quando nos tornou a mostrar o altar de marmore, disse para mim:

—Isto é obra feita no convento. Cá trabalha-se.

Foi depois mostrar-nos o presepio, e chamou a nossa attenção para a figura que representava um cégo tocador de gaita de folles, com borracha de vinho a tiracollo, fazendo-nos notar a circumstancia de que o moço do cégo estava bebendo subrepticiamente o vinho da borracha.

Levou-nos depois á casa dos retratos, onde, eu precisava vêr um, e á casa do capitulo, onde copiei a inscripção de uma sepultura.

Offereceu-nos na casa dos retratos vinho doce, e bolos. Quizemos deixar uma esmola para o convento: recusou-a. Perguntamos-lhe se vendiam bentinhos, porque os desejavamos adquirir como recordação. Sorriu-se.

—Que os bentinhos que tinham, eram os que pessoas de fóra davam aos frades.

Na cêrca offereceu-nos flores, e conduziu-nos até á entrada da matta.

De caminho respondia com boa sombra ás perguntas que lhe faziamos.

Disse-nos que havia uma escóla para o sexo masculino, annexa ao convento, mas com entrada independente.{115}

Disse-nos mais que, actualmente, eram uns vinte os frades, e que o resto do pessoal orçava por quinze homens. Que no convento não entravam mulheres, mas que na povoação havia um recolhimento de irmãs hospitaleiras de S. José com escóla para meninas. Accrescentou que viviam pobremente, mas que do seu pouco repartiam com os pobres.

Mostrou-nos a sachristia, em cujos azulejos, que revestem as paredes, se lêem disticos metreficados em castelhano. Por exemplo:

Mi coraçon como ceraSe derrite en dulce ardorCon tu fuego, ay Dios d'AmorSi hasta aqui de marmol era.

Estes disticos devem ser composição de Frei Antonio das Chagas, que versejou gongoricamente em lingua hespanhola, e que no seculo XVII reformou o instituto do Varatojo, depois de ter vivido uma vida mundana de militar aventuroso.

N'aquella simples quadra, que de industria preferimos, está todo o drama da conversão de Frei Antonio das Chagas.

Na egreja, no claustro e cêrca encontramos alguns camponezes, uns imberbes, outros velhos, orando{116}como em extasi ou lendo livros mysticos. Um d'esses livros; cujo titulo podemos lêr, denominava-se—Devoção das Chagas de Christo.

E ao cabo de uma visita de hora e meia sahimos do convento do Varatojo com a estranha impressão com que o poderiamos fazer ha duzentos annos.

Parecia que o tempo se havia immobilisado no passado!...{117}

[1]O livro, que já entrou no prelo, intitula-seVida mundana d'um frade virtuoso.

Com as chuvas dos primeiros dias da semana, começaram as praias a despovoar-se um pouco tumultuariamente.

Ás portas da cidade, segundo me informa um visinho meu que é guarda barreira, chegavam a toda a hora carros e carretas com pessoas e malas.

Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado guarda fiscal, tem a sua praia.

Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes; estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos dias de festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do Porto, e contentam-se com ir de vez em{118}quando, no caminho de ferro, vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.

Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical. Effectivamente, cada familia tem a sua praia.

Uma vez, certa damavieille roche, recebendo á sua mesa dois primos e um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles haviam perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do companheiro. Á sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em attenções com o desconhecido, fez estalar o quinau.

—V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a bondade de nos dizer de que casa era!

O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:

—Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.

Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do apuro, que era a grande questão.

A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma, seja qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.{119}

Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes um pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se que só ficam em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do Paço.

Tudo o mais abala.

Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso dos banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da galeria das praias.

Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam atoilettee o espirito de cada um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista veste atoiletteque quer, e exhibe com certa semceremonia as suas predilecções, as suas manias, as suas excentricidades de caracter.

Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou aobaccarat. Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para saber quando oreideve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.

Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas fragas por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem lhe suppunha, que o peixe venha picar na isca.

Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos{120}o conheciamos no Chiado, joga na praia ocroquettodo o dia e dança a Valsa toda a noite no club.

Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos animaes, manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes, doido pelos coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.

Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,—nem mesmo os credores.

De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais imaginoso é por certo o caçador.

Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.

E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de capella, é elle ohabituéque tem corda para mais tempo, o caso é dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr por um oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila para nos impingir a sua illyada venatoria.

Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes, um riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da sua espingarda, das suas caçadas maravilhosas.

Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho. O caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de leve o empurre para os intermundios de Diana.{121}

—Eu tinha um cão, principia elle.

Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque nada ha tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.

Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta, não se demora muito no prologo.

—Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!

Aqui é que principia o maravilhoso do conto.

—Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e á sua familia. Pobre Epaminondas!

Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma explosão de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e, fingindo pensar no seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante, convulso.

—Mas que diabo de mania, pergunta do lado um dos ouvintes, foi essa que você teve de chamar Epaminondas ao seu cão?

O caçador, querendo dominar a sua commoção:

—O que?! Que diabo de mania foi essa?! É facil de explicar. O cão era superiormente intelligente; era, no seu genero, um heroe, uma celebridade, direi mesmo uma gloria. De modo que eu quiz dar-lhe um{122}nome glorioso, que elle bem merecia. E não fiz nada de mais. Meu pobre... meu rico Epaminondas! Senti mais a sua morte do que a de meu avô, que eu nunca conheci, por ter vivido sempre no Brazil. Os senhores vão dar-me rasão, vocês vão concordar comigo em lhes eu contando o que aquelle cão era!

A fim de recobrar toda a sua tranquilidade, o caçador faz um intervallo, accende o charuto que tinha deixado apagar, e continúa:

—Vocês sabem que meu pae, tendo recolhido a Portugal, viveu sempre comigo...

Neste momento entra no estanco, se o cenaculo é um estanco, um garoto a comprar dez réis de cigarros fortes.

O caçador interrompe-se, mostrando-se contrariado de que um intruso venha esfriar o interesse que a sua narração estava produzindo no auditorio.

O rapaz recebe os cigarros, e demora-se accendendo um.

Sempre suspenso, o orador espera que o garoto sahia.

Finalmente, continúa:

—Casei, e meu pae ficou vivendo sempre comigo. Tambem era o que valia, para fazer companhia a minha mulher, porque eu, volta e meia, dizia-lhe adeus e ia para a caça com o Epaminondas.{123}

—Santa Justa, fracos, diz um freguez conhecido entrando no estanco.

O orador torna a interromper-se. Apertos de mão; as perguntas banaes do estylo. O freguez de Santa Justa demora-se cerca de cinco minutos.

Quando elle sahe com os cigarros da sua devoção, o caçador, tomando uma attitude erecta:

—Mas onde é que eu fiquei?

Do lado ha sempre um apontador espirituoso:

—Sahia você para a caça com Epaminondas quando o homem entrou.

—É verdade! Volta e meia, eu dizia adeus a meu pae e a minha mulher e ia para a caça com o Epaminondas. Pelo caminho, parecia que iamos conversando, porque o diabo do cão fallava.

—Fallava?!

—É um modo de dizer, tão bem se entendia tudo o que elle pensava!

—Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso dapateada tacita!

—Vocês não acreditam—prosegue o caçador fingindo-se um pouco indignado—mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de tudo quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos entendendo como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava eu. E o Epaminondas{124}respondia: «Boa caçada; o dia está magnifico para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto hoje não dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o caso eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em que era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não tardavam a apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena distancia de casa.

N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.

—Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo Soares?

Que não: que não é conhecido.

O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:

—Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa com a perdiz.

—Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa levar esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que esta é para meu pae. Nada de tolices, Epaminondas!

O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.

Chegava a casa mais depressa do que eu o estou{125}dizendo, e ás vezes a primeira pessoa que encontrava não era meu pae mas minha mulher.

Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do cão, queria tirar-lhe a perdiz.

E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa, dizia-lhe:

—Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a senhora.

—O que?! Pois o cão dizia isso?!

—Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de tal modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a perdiz. Depois o Epaminondas voltava logo.

—E dizia alguma cousa?

—Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»

—Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se fazer comprehender tão explicitamente?{126}

—Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!

—Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia, como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...

—Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que morava a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu o que o criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe por alli fóra, e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!

Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como umrapidoque passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão acreditando.

Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!

O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.

—Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado de que não tragam espingarda na bagagem!

Lisboa, 8 de outubro de 1888.{127}


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