The Project Gutenberg eBook ofClepsydra

The Project Gutenberg eBook ofClepsydraThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: ClepsydraAuthor: Camilo Almeida PessanhaRelease date: August 16, 2007 [eBook #22330]Most recently updated: January 2, 2021Language: PortugueseOriginal publication: Lisboa: Edições Lusitania, Tip. da T. da Espera, 26, 1920Credits: Produced by Tiago Tejo*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CLEPSYDRA ***

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: ClepsydraAuthor: Camilo Almeida PessanhaRelease date: August 16, 2007 [eBook #22330]Most recently updated: January 2, 2021Language: PortugueseOriginal publication: Lisboa: Edições Lusitania, Tip. da T. da Espera, 26, 1920Credits: Produced by Tiago Tejo

Title: Clepsydra

Author: Camilo Almeida Pessanha

Author: Camilo Almeida Pessanha

Release date: August 16, 2007 [eBook #22330]Most recently updated: January 2, 2021

Language: Portuguese

Original publication: Lisboa: Edições Lusitania, Tip. da T. da Espera, 26, 1920

Credits: Produced by Tiago Tejo

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Produced by Tiago Tejo

Clepsydra

Todos os direitos reservados

Composto e impresso: Tip. da T. da Espera, 26

Eu vi a luz em um paiz perdido.A minha alma é languida e inerme.Oh! Quem podesse deslisar sem ruido!No chão sumir-se, como faz um verme…

Tatuagens complicadas do meu peito:—Trophéos, emblemas, dois leões aládos…Mais, entre corações engrinaldados,Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu brazão… Tem de oiro n'um quartelVermelho, um lys; tem no outro uma donzella,Em campo azul, de prata o corpo, aquellaQue é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…Divisa: um ai,—que insiste noite e diaLembrando ruinas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,E aguias de negro, desfraldando as azas,Que realça de oiro um colar de besantes!

Cancei-me de tentar o teu segrêdo:No teu olhar sem côr,—frio escalpello,—O meu olhar quebrei, a debate-lo,Como a onda na crista d'um rochêdo.

Segrêdo d'essa alma e meu degrêdoE minha obcessão! Para bebe-loFui teu labio oscular, n'um pesadêlo,Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu osculo ardente, allucinado,Esfriou sobre o marmore correctoD'esse entreaberto labio gelado…

D'esse labio de marmore, discreto,Severo como um tumulo fechado,Serêno como um pélago quieto.

Vae declamando um comico defunto,Uma platêa ri, perdidamente,Do bom jarreta… E ha um odôr no ambienteA crypta e a pó,—do anachronico assumpto.

Muda o registo, eis uma barcarola:Lirios, lirios, aguas do rio, a lua…Ante o Seu corpo o sonho meu fluctuaSobre um paúl,—extática corolla.

Muda outra vez: gorgeios, estribilhosD'um clarim de oiro—o cheiro de junquilhos,Vivido e agro!—tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetasQuebrou-se agora orvalhada e velada.Primavera. Manhã. Que effluvio de violetas!

Desce em folhedos tenros a collina:—Em glaucos, frouxos tons adormecidos,Que saram, frescos, meus olhos ardidos,Nos quaes a chamma do furor declina…

Oh vem, de branco,—do immo da folhagem!Os ramos, leve, a tua mão aparte.Oh vem! Meus olhos querem desposar-teReflectir-te virgem a serena imagem.

De silva doida uma haste esquívaQuão delicada te osculou num dedoCom um aljôfar côr de rosa viva!…

Ligeira a saia… Doce brisa impelle-a…Oh vem! De branco! Do immo do arvoredo…Alma de sylpho, carne de camelia…

Esvelta surge! Vem das aguas, nua,Timonando uma concha alvinitente!Os rins flexiveis e o seio fremente…Morre-me a bocca por beijar a tua.

Sem vil pudôr! Do que ha que ter vergonha?Eis-me formoso, môço e casto, forte.Tão branco o peito!—para o expôr á Morte…Mas que ora—a infame!—não se te anteponha.

A hydra torpe!… Que a estrangulo… Esmago-aDe encontro á rocha onde a cabeça te ha-de,Com os cabellos escorrendo agua,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,Sob o fervor da minha virgindadeE o meu pulso de jovem gladiador.

Depois da lucta e depois da conquistaFiquei só! Fôra um acto anthipatico!Deserta a Ilha, e no lençol aquaticoTudo verde, verde,—a perder de vista.

Porque vos fostes, minhas caravellas,Carregadas de todo o meu thesoiro?—Longas teias de luar de lhama de oiro,Legendas a diamantes das estrellas!

Quem vos desfez, formas inconsistentes,Por cujo amor escalei a muralha,—Leão armado, uma espada nos dentes?

Felizes vós, ó mortos da batalha!Sonhaes, de costas, nos olhos abertosReflectindo as estrellas, boquiabertos…

Quem polluiu, quem rasgou os meus lençoes de linho,Onde esperei morrer,—meus tão castos lençoes?Do meu jardim exiguo os altos girasoesQuem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiêsco!)A mesa de eu cear,—tabua tôsca de pinho?E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?—Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

Ó minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova,Olha a noite, olha o vento. Em ruina a casa nova…Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.Alma da minha mãe… Não andes mais á neve,De noite a mendigar ás portas dos casaes.

Ó meu coração torna para trazD'onde vaes a correr, desatinado?Meus olhos incendidos que o peccadoQueimou… Voltae horas de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos,A cinza arrefeceu sobre o brazido.Noites da serra, o casebre transido…—Scismae meus olhos como dois velhinhos…

Extìnctas primaveras evocae-as:—Já vae florir o pomar das maceiras,Hemos de enfeitar os chapeus de maias—

Socegae, esfriae, olhos febrís.—E hemos de ir cantar nas derradeirasLadainhas… Doces vozes senís…—

Floriram por engano as rosas bravasNo inverno: veio o vento desfolhal-as…Em que scismas, meu bem? Porque me callasAs vozes com que ha pouco me enganavas?

Castellos doidos! Tão cedo cahistes!…Onde vamos, alheio o pensamento,De mãos dadas? Teus olhos, que um momentoPrescrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cahe nupcial a neve,Surda, em triumpho, petalas, de leveJuncando o chão, na acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um veo!¿Quem as esparze—quanta flôr—, do ceo,Sobre nós dois, sobre os nossos cabellos?

E eis quanto resta do idyllio acabado,—Primavera que durou um momento…Como vão longe as manhãs do convento!—Do alegre conventinho abandonado…

Tudo acabou… Anemonas, hydrangeas.Silindras,—flôres tão nossas amigas!No claustro agora víçam as ortigas,Rojam-se cobras pelas velhas lageas.

Sobre a inscripção do teu nome delìdo!—Que os meus olhos mal podem solletrar,Cançados… E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar!Ennobreceu-o a quietação do olvido.Ó doce, ingenua, inscripção tumular.

Singra o navio. Sob a agua claraVê-se o fundo do mar, de areia fina…—Impeccavel figura peregrina,A distancia sem fim que nos sepára!

Seixinhos da mais alva porcelana,Conchinhas tenuemente côr de rosa,Na fria transparencia luminosaRepousam, fundos, sob a agua plana.

E a vista sonda, reconstrue, compára.Tantos naufragios, perdições, destróços!—Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira…Dentinhos que o vaivem desengastára…Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Foi um dia de inuteis agonias.Dia de sol, inundado de sol!…Fulgiam nuas as espadas frias…Dia de sol, inundado de sol!…

Foi um dia de falsas alegrias.Dáhlia a esfolhar-se,—o seu molle sorriso…Voltavam os ranchos das romarias.Dáhlia a esfolhar-se,—o seu molle sorriso…

Dia impressivel mais que os outros dias.Tão lúcído… Tão pallido… Tão lúcido!…Diffuso de theoremas, de theorias…

O dia futil mais que os outros dias!Minuete de discretas ironias…Tão lúcido… Tão pallido… Tão lúcído!…

Passou o outono já, já torna o frio…—Outono do seu riso maguado.Algido inverno! Obliquo o sol, gelado…—O sol, e as aguas limpidas do rio.

Aguas claras do rio! Aguas do rio,Fugindo sob o meu olhar cançado,Para onde me levaes meu vão cuidado?Aonde vaes, meu coração vazío?

Ficae, cabellos d'ella, fluctuando,E, debaixo das aguas fugidias,Os seus olhos abertos e scismando…

Onde ides a correr, melancolias?—E, refractadas, longamente ondeando,As suas mãos translucidas e frias…

Quando voltei encontrei os meus passosAinda frescos sobre a humida areia,A fugitiva hora, reevoqueia,—Tão redíviva! nos meus olhos baços…

Olhos turvos de lagrimas contidas.—Mesquinhos passos, porque doidejastesAssim transviados, e depois tornastesAo ponto das primeiras despedidas?

Onde fostes sem tino, ao vento vario,Em redor, como as aves n'um aviario,Até que a azita fôfa lhe falleça…

Toda essa extensa pista—para quê?Se ha-de vir apagar-vos a maré,Como as do novo rasto que começa…

Imagens que passaes pela retinaDos meus olhos, porque não vos fixaes?Que passaes como a agua crystallinaPor uma fonte para nunca mais!…

Ou para o lago escuro onde terminaVosso curso, silente de juncaes,E o vago mêdo angustioso domina,—Porque ides sem mim, não me levaes?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?—O espelho inutil, meus olhos pagãos!Aridez de successivos desertos…

Fica sequer, sombra das minhas mãos,Flexão casual de meus dedos incertos,—Estranha sombra em movimentos vãos.

Quando se erguerão as setteiras,Outra vez, do castello em ruina,E haverá gritos e bandeirasNa fria aragem matutina?

Se ouvírá tocar a rebateSobre a planicie abandonada?E sahiremos ao combateDe cota e elmo e a longa espada?

Quando iremos, tristes e sérios,Nas prolixas e vãs contendas,Soltando juras, improperios,Pelas divisas e legendas?

E voltaremos, os antigosE purissimos lidadores,(Quantos trabalhos e perigos!)Quasi mortos e vencedores?

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E quando, ó Dôce Infanta Real,Nos sorrirás do belveder?—Magra figura de vitral,Por quem nós fomos combater…

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,Se alguma dôr me fere, em busca de um abrigo;E apesar d'isso, crê! nunca pensei num larOnde fosses feliz, e eu feliz comtigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.E nunca te escrevi nenhuns versos romanticos.Nem depois de acordar te procurei no leitoComo a esposa sensual doCantico dos canticos.

Se é amar-te não sei. Não seí se te idealisoA tua côr sadia, o teu sorriso terno,Mas sinto-me sorrir de ver esse sorrisoQue me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo comtigo a tarde e sempre sem receioDa luz crepuscular, que enerva, que provoca.Eu não demoro o olhar na curva do teu seioNem me lembrei jámais de te beijar na bôca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…Eu não sei que mudança a minha alma presente…Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,Que adoecia talvez de te saber doente.

Rufando apressado,E bamboleado.Bonet posto ao lado,

Garboso, o tamborAvança em redorDo campo de amor…

Com força, soldado!A passo dobrado!Bem bamboleado!

Amores te bafejem.Que as moças te beijem.Que os moços te invejem.

Mas ai, ó soldado!Ó triste alienado!Por mais exaltado

Que o toque reclame,Ninguem que te chame…Ninguem que te ame…

Ao meu coração um peso de ferroEu hei-de prender na volta do mar.Ao meu coração um peso de ferro…Lançal-o ao mar.

Quem vae embarcar, que vae degredado…As penas do amor não queira levar…Marujos, erguei o cofre pesado,Lançae-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.O meu coração é o cofre sellado.A sete chaves: tem dentro uma carta…—A ultima, de antes do teu noivado.

A sete chaves,—a carta encantada!E um lenço bordado… Esse hei-de-o levar,Que é para o molhar na agua salgadaNo dia em que emfim deixar de chorar…

Ha no ambiente um murmurio de queixume,De desejos de amor, d'ais comprimidos…Uma ternura esparsa de balidos,Sente-se esmorecer como um perfume.

As madre-silvas murcham nos silvadosE o arôma que exhalam pelo espaço,Tem delíquios de gôso e de cansaçoNervosos, femininos, delìcados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,Inaprehensiveis, minimas, serênas…—Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas.O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia…Os teus olhos tão meigos de tristeza…—É este enlanguescer da natureza,Este vago sofrer do fim do dia.

Se andava no jardim,Que cheiro de jasmím!Tão branca do luar!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Eis tenho-a junto a mim.Vencida, é minha, emfim,Após tanto a sonhar…

Porque entristeço assim?…Não era ella, mas sim(O que eu quiz abraçar),

A hora do jardim…O aroma de jasmim…A onda do luar…

Depois das bodas de oiro,Da hora promettida,Não seí que mau agoiroMe ennoiteceu a vida…

Temo de regressar…E mata-me a saudade…—Mas de me recordarNão sei que dôr me invade.

Nem quero prosseguir,Trilhar novos caminhos,Meus pobres pés, dorir,Já roxos dos espinhos.

Nem ficar… e morrer…Perder-te, imagem vaga…Cessar… Não mais te vêr…Como uma luz se apaga…

O meu coração desce,Um balão apagado…—Melhor fôra que ardesse,Nas trevas, incendiado.

Na bruma fastidienta,Como um caixão á cova…—Porque antes não rebentaDe dôr violenta e nova?!

Que apêgo ainda o sustem?Atomo miserando…—Se o esmagasse o tremD'um comboio arquejando!…

O inane, vil despojoDa alma egoista e fraca!Trouxesse-o o mar de rojoLevasse-o na ressaca.

Chorae arcadasDo víôloncello!Convulsionadas,Pontes aladasDe pesadelo…

De que esvoaçam,Brancos, os arcos…Por baixo passam,Se despedaçam,No rio, os barcos.

Fundas, soluçamCaudaes de chôro…Que ruinas, (ouçam)!Se se debruçam,Que sorvedouro!…

Trémulos astros…Soidões lacustres…—Lemes e mastros…E os alabastrosDos balaustres!

Urnas quebradas!Blocos de gelo…—Chorae arcadas,Despedaçadas,Do viôloncello.

Só, incessante, um som de flauta chora,Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,—Perdida voz que de entre as maís se exila,—Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões scintillaE os labios, branca, do carmim desflora…Só, incessante, um som de flauta chora,Viuva, gracil, na escuridão tranquilla.

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,Cauta, detem. Só modulada trilaA flauta flebil… Quem ha-de remil-a?Quem sabe a dôr que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora…

De sob o cómoro quadrangularDa terra fresca que me ha-de inhumar,

E depois de já muito ter chovido,Quando a herva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olharHa-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,Como o de um pobre cão agradecido.

Voz debil que passas,Que humilima gemesNão sei que desgraças…

Dir-se-hia que pedes.Dir-se-hia que tremes,Unida ás paredes,

Se vens, ás escuras,Confiar-me ao ouvidoNão sei que amarguras…

Suspiras ou fallas?Porque é o gemido,O sopro que exhalas?

Dir-se-hia que rezas.Murmuras baixinhoNão sei que tristezas…

—Ser teu companheiro?Não sei o caminho.Eu sou estrangeiro.

—Passados amores?—Animas-te, dizesNão sei que terrores…

Fraquinha, deliras.—Projectos felizes?—Suspiras. Expiras.

Na cadeia os bandidos presos!O seu ar de contemplativos!Que é das feras de olhos acesos?!Pobres dos seus olhos captivos.

Passeiam mudos entre as grades,Parecem peixes n'um aquario.—Campo florido das SaudadesPorque rebentas tumultuario?

Serenos… Serenos… Serenos…Trouxe-os algemados a escolta.—Extranha taça de venenosMeu coração sempre em revolta.

Coração, quietinho… quietinho…Porque te insurges e blasfemas?Pschiu… Não batas… De vagarinho…Olha os soldados, as algemas!

Ó cores virtuaes que jazeis subterraneas,—Fulgurações azues, vermelhos de hemoptyse,Represados clarões, chromaticas vesanias—,No limbo onde esperaes a luz que vos baptise,

As palpebras cerrae, anciosas não veleis.

Abôrtos que pendeis as frontes côr de cidra,Tão graves de scismar, nos bocaes dos museus,E escutando o correr da agua na clepsydra,Vagamente sorris, resignados e atheus,

Cessae de cogitar, o abysmo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,Que toda a noite erraes, doces almas penando,E as azas laceraes na aresta dos telhados,E no vento expiraes em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.


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