Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu que os cadaveres tinham nodoas arrouxadas nasfaces e na testa, affirmou peremptoriamente, com modo decisivo:
—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam elles a feder, que nem mil demonios! Não se ha de poder estar com o nariz ao pé!...
As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas e, cuspinhando para o lado, disseram «cachicha». Os homens, que tinham desenterrado os mortos, preparavam-se para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, com o fim de os transportarem a casa, quando a Caetana, uma velha beata, lhes observou n’uma voz de um ligeiro timbre choroso:
—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim, que ainda estão muito borrados. Deixae, que eu lhes lavo a cara...
E para o conseguir foi buscarmanadas de agua, que verteu sobre os rostos dos cadaveres. Depois limpando-os caridosamente com o seu velho avental de riscas concluiu:
—Agora podeis ir.Bãomais bonitos.
Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar saudoso ás canecas vasias, levaram os corpos para casa da Engracia. Ahi é que foram decentemente lavados e amortalhados para os depositarem na varanda, onde veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua benta sobre as mortalhas e recommendal-os para a eternidade, com as suas resas distraídas!...
Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e o do Chico logo ao pé da porta... O sol entrava francamente, incidindo sobre os rostos dos defuntos, tornando-osda pallidez indecisa da cera, com o tom roxo das ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão rigida e concentrada, propria das mortes afflictivas, o que se lhes conhecia nas rugas da testa, no apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com energia! As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito, amparando um crucifixo, por effeito da humidade do terreno debaixo do qual estiveram horas, haviam adquirido uma molesa aristocratica—uma coloração branca de mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita e com o cabello cortado rente, tinha, para as mulheres da sua freguezia que lhe cercavam o esquife, uma apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a ultima vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo, e, tinham bem presente diante dos olhos, a sua figura magra e insignificante, no primeiro logar da bancada, com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando este o incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe uma cortezia ao retirar-se, o que todos julgavam de uma polidez e de uma distincção invejaveis. A mortalha do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico, a qual, sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante a confraria das almas! Porém notavam que não differiam muito; porque ambas eram de forte panno violeta muito engommado, com cercaduras relusentes de galões metallicos, que scintillavam sob a viva luz do sol. As pessoas que contemplavam estes cadaveres serenamente deitados, ainda recordaram muitas vezes, relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que tinham morrido, e a beata Caetana, como julgamento,concluiu d’este modo a narrativa que acabava de ouvir pela sexta vez ao Joaquim da Moita:
—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle perigo! Este Bernardo sempre foi um pascacio. Para deixara umque nem é filho d’elle!...
E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio, que andava sempre de feira em feira, sem parança em casa, vivendo no meio de jogadores e de troquilhas borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta da igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome d’elle lá estava, entre o de outros. Havia quem affirmasse, que já havia ordem na villa para o prenderem, comoreflatario. Certas mulheres que se queriam inculcar como ao corrente do que se passava, affirmavam que fôra o senhor padre Beiral, quem lhe arranjáraaquella farda. E a este proposito recordaram as queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia, que lhe roubara de uma vez todas as uvas douradas que elle tinha na sua latada, e as melhores peras do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam indignados contra o rapaz, como tornando-o em parte responsavel d’esta morte do Bernardo, applaudiam a resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral depôr uma farda ás costas ao meliante!...
N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os defuntos. Era uma consideração pelo nome de Bernardo que erairmão remido! Adiante de todas vinha a doSantissimo Sacramento, de opas vermelhas e a cruz de prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida desfilava a deNossa Senhora do Carmo, de opas brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a Virgem, com a sua ridente face menineira, tendo pendente de uma das mãos um rosario, e da outra uns bentinhos! Por fim seguia-se a confraria dasAlmas, com a sua bandeira dolorosa na frente! Era ali representado o quadro terrificante do purgatorio:—um rei de corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes, apoiavaa sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado, coberto de uma rica capa de ouro, o qual estava mais no fundo das chammas, soffrendo, talvez sem bastante resignação, que o monarcha chegasse primeiro á bemaventurança! Ao lado d’este augusto personagem, uma peccadora, com as longas madeixas de Magdalena, dando a mão a um homem lubricamente calvo e de bigode e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de uma iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes condemnados, e ainda outrossem distincção, erguiam olhos supplicantes e estendiam as mãos abertas a um anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas e os soffrimentos de cada um, para lhes outorgar a remissão promettida!...
Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se quatro irmãos para tomarem conta do cadaver de Bernardo Repolho, e outros quatro da confraria das Almas que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus hombros valentes os dois esquifes, partiram pelo caminho adiante, para a igreja, condusindo os defuntos. Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se, na larga amplidão ao triste dobre dos sinos que echoavam de quebrada em quebrada, com a sua nota plangente e de uma harmonia rebelde!
No instante em que o funebre acompanhamento subia pela encosta da igreja, o Antonio Fogueira entrava na freguezia! Havia mais de oito dias que andava por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’estavez trazia uma egua nova, muito fugideira, que lhe vendera o Rio Tinto.
O toque funerario dos sinos e o acompanhamento que elle viu logo de longe, surprehendeu-o, fazendo-o parar, e teve um baque no coração! O primeiro esclarecimento ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, vergada sob o peso de um grande molho de herva e que, antes de ser interrogada, lhe disse encostando-se com o feixe a um muro para descançar:
—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de muita fartura de missa, por aquella alma!—observou-lhe depois de um «ah!» de estafada a velha Vicencia.
—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira.
—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois de expellir o seu cançaço asmatico! Andas sempre lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te pela vestia... Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça!
O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, deixando cair as redeas no pescoço da egua! Vicencia concluiu:
—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como te digo. Caiu-lhe honte em cima da cabeça, a elle e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham, quando lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas feiras, em jogatina, talvez que o pobre home não fosse lá, com esse tempo!
E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo reprehensivo:
—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas,que andas n’uma vida de home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissãojaral, que vem ahi os missionarios, grande maroto!
O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe com uma indignação latente:
—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o diria, seu grande diabo!...
Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira! Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão:
—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife) andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedore o senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.
Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos responsaveis:
—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem comprehender, voltado mentalmente para si mesmo!
E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um muro musgoso, concluiu:
—É uma de mil diabos! Que grande bucha!
Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho:
—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!
E aproximando-se acrescentou:
—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem!
—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção.
—Tamem. Pois tu não sabes nada?
—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquellediabo que me metteu cá umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios!
O do Rego continuou esclarecendo:
—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, por não a deixaremir abraçar o seu home!... Ora tu bem sabes que a gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe, que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no corpo da gente é peior que maleitas. Safa!
O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações. Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe Engracia! E com um ar scismatico, de homemabatido, puchava pela longa barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz!
O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou:
—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como vens da villa has de trazer. Agora foi a feira dos nove. Vens de lá? Trazes uma burra chibante!
O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro disse: «estive... comprei...». Depois perguntou-lhe:
—Mas diz que me querem prender?!
—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na porta da igreja; mas é p’ra gente ir a Vianna, por causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou cartas de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em Vianna; porquebotoucom elles no deputado! Eu vou e mais elle, domingo, por ahi abaixo, áspeção. Vem co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás disse que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, que se tua mãe não vender um campo p’ra te livrar, tens de andar com a muchila ás costas.
E concluiu n’um tom de voz convidativo:
—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que o quer senão p’ra ti?! Diz-lhe que venda e vamos todos lá aessaVianna!
Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando ao do Rego, que queria entrar pelo lado da matta, para se não encontrar com o enterro que ia no caminho. Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, mas entrou desconfiada, reparando em tudo, olhando de travez para os objectos!... O Antonio forçou-a acaminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!» E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a com força!...
Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, encarando excentricamente com um velho carvalho nodoso. O Fogueira, como a egua era nova e como o momento não era proprio para lhe tirar as teimas, desceu cordatamente, pensando em a levar á redea. Para isso principiou a puchal-a, com brandura, de um modo carinhoso, condescendente, fallando-lhe com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar resfolgando estrondosamente pelas ventas dilatadas, olhando esgazeada e com uma tremura nervosa nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam sombras amedrontadoras, pensou em redobrar de carinhos e attenções, desejou familiarisal-a com a velha arvore nodosa que a espantára!... Para isso amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais convidativa, puchando-a moderadamente pelas redeas, para a aproximar do objecto suspeito... Porém ella, entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um momento, principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente a cabeça, a espetar com mais desconfiança as orelhas, a curvetear... e terminou por atirar duas valentes e corajosas parelhas de couces á cancella, partindo-a.
O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme colera e veiu-lhe rapidamente a idéa de tirar a sua comprida navalha e abrir a barriga da egua, como em outraoccasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão aconselhou-o a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... O momento não era opportuno—reconhecia-o elle perfeitamente!... Ouvia d’ali mesmo sua mãe, gritar com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento doloroso. Toda a sua idéa era metter, sem ser presentido, a egua na côrte do gado, e depois, quando em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente e de supito!... «A final de contas—considerava—isto tem de ser e tem!» Por isso, para não augmentar mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara do seu espirito, a desordem que o cercava por todos os lados, optou por amansar a egua em vez de a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas, passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e prodiga de afagos, com a brandura insuspeita da mão de um amigo! Conseguiu d’este modo acalmal-a, mostrar-lhe de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas, ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um forte cheiro de humidade e de bolor. Conseguiu o que desejava; mas a egua atravessou o caminho da matta, sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e levantando a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou a mettel-a na côrte do gado, prendendo-a calculadamente a distancia dos toiros, que permaneceram a olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como bogalhos e relusentes como vidro!
Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia quejá estava calada, ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente, em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos! Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um santo como elle era! Uma desgraça assim!»
Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes, consolavam-n’o, lembrando-lhe que adesgraçaacontecera por vontade de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modobrusco e mal creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa:
—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!...
E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente, e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!», restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido, sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume, continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego:
—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse moço ha de vir com fome.
E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu, expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais secca, mais sincera:
—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...
Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como tudo setinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva, mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor. Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo». Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O pago foi o que se viu, ficar esborrachado.
O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca. Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado pela palavra quente da tia Genoveva,e, como já lhe haviam posto o bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo, disse reprehensivamente, para a viuva:
—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não fosse pascacio!
Depois concluiu voltada para o Antonio:
—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô home, um bô serás; mas teimoso até ali! Deus o tenha no céu, que todo o mal foi d’elle; mas verdade, verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como um casmurro. Agora que está na outra vida, Deus o tenha em bô logar. Um Padre Nosso por sua alma é que devemos resar... Do que Bernardo precisa é de muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, melhor. «Padre Nosso que estaes no céu, santificado seja o vosso nome, etc...»
Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as palpebras meio cerradas. N’este momento ouviu-se o dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o signal de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía ser dado á sepultura! Uma das amigas de Engracia observou:
—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem sabe onde as tem armadas!... Ainda honte, ía em cima do carro, muito socegado, e já hoje dorme na greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra que assim os vaes levando a um e um!
Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se novamente de bruços sobre a caixa do pão, conservando-se muito tempo sem se mexer... N’aquella posição adormeceu de fatigado pela jornada!
Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma nenhuma, era que o seu Antonio fosse para a tropa.
—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem mal, hão de cegar!...
Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?! Engracia bem o sabia: O Antonio não era umcebola, não era nenhummaricasque se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de homem perdido e sem religião, que o seu filho levavapelas feiras... N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o com a farda, com atal fardaque o senhor padre Beiral lhe havia de arranjar...
«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e, acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses campos para pagar a umsustituto. E por causa d’isto, tambem pensava em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho; mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo» a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a doação premeditada e onde,ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que se via envolvido.
Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito e de consolação ao mesmo tempo:
—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um prompto!
Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão dearreguilaro olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante, com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O RioTinto encontrou meio de lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador! Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!...
O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:
—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna para a montar!
O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso, comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio de carreira. Portanto, apesar de lhe dizeremque era brava, o Fogueira quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas... Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso velhaco, alludindoá maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro:
—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado.
O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:
—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o rapaz com as suas aquellas.
Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho buscara guiae partiu para Vianna, áspeção. A Marianna Ripa foi com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira fallarda bravezada egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante, que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar, observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar!
O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto, continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por dentro...
Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz:
—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias.
E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes. O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da carne da Marianna!...Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada:
—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada.
Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda, abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo Fogueira e continuaram o caminho.
A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado, apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado. Logo depois, um homem novo, cara de militar dareserva, tendo uma ponta de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da soga:
—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.
Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, puchando com mais força.
Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a estrada antiga.
Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, porque se julgavam mais livres do que os outros,que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o chão, era triste e carregado, como deve ser o doscasseurs de pierrede Courbet.
Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumasera tibio e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram as que passavam por namoros do senhor Alberto—oapontador, aquelle que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da intervenção da Clementina, sua creada e amante dequarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:
—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir. Arre,báganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!
E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, comoos collegasque estavam na villa.
Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada!Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservadaas moças, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou noBracarense, timidamente, sobre a epigraphe deInspirações do Lima!... N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescossalgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.
—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!
Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucadae deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim delhe fallar, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente parelha de couces!
A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas pela rapidez com que elle se passara, estavamsómente interessadas no galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo espalhado ao vento!...
Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:
—Aquillo foi o dianho da mosca!...
Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada por uma idéa infernal!...
Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio levava uma bravura excepcional!...
A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na agua e fezcachap, levantando enorme poeira de espuma na amplitude do ar!
Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou surprehendido:
—Oh! com mil diabos, que lá sespapou!
E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, gritando:
—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força!
O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha aberta na mão:
—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a baixo, com esta!
Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou:
—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?
—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo.
O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe igualmente:
—Você é dono da burra que ahi caíu?
E à affirmativa do troquilha esclareceram:
—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo.
Um dos trabalhadores acrescentou:
—Aquillo era maluca, por força!
O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha.
—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não tivessespapado, punha-lhe as tripas ao sol.
Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha:
—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!...
Um terceiro acrescentou:
—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem; mas isso parece-me mentira.
Um rapaz esclareceu:
—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu. Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra!
O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:
—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.
E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse:
—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca!
A rapariga defendeu o primo:
—Ora! Talvez elle não soubesse!...
—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!
Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na mesma estalagem. Por causa do negocio daburra, invectivaram-se reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a mesa, disse com altivez:
—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei.Bêlá como fallas p’rá outrabês. Põe n’esse raio de cara doiscarbõesaccesos, para saberes o que compras!...
E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa demonte, arranjada ao fundo da taberna, atraz de umtabique, por dois braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens, para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um modo natural e simples, principiando a jogar entre si otrinta e um. Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído! Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado, foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomandon’aquilloum interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros, attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta, um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz imperiosa e rouca:
—São quatrosovranosde monte!
Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau, acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e, carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um modo vago:
—Eram precisas ahi quatro croaças emcovre...
Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com inflexões nervosas:
—Tio Domingos... Estas croaças emcovre!...
Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.
O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe usurariamente interessado:
—Então elles hoje... ein Marquinhos?!
Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente, encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:
—Sim, senhor,vão fazer... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o outro que eu não sei como dianho se chama...
—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?!
—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa, tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso nãose volta, emquanto lhe não levaremcovre!
O taberneiro disse:
—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já.
E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir:
—Aqui pr’ás bemditas almas!...
Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os jogadores teriam de deitar os baratos!
Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho, collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero que traçara mentalmente...Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os olhos com as fumaças e disse:
—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...
Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente. Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa, alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul, o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas, pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, oou-ouprolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando, continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com arrogancia, «jógo.»
Era quasi manhã, quandoistoacabou. O Fogueiraapontoudurante toda a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outrospontos, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram cinco horas da manhã, estavamá lisa,achando-se o dinheiro no cinto do Fogueira que ostinha alimpado a todos!
Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle, por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim, quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova,encontrando-se pela primeira vez, no seu dinheiro, depois de uma noite inteira de jogo, durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte moedas, disseram com certo desafogo:
—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...
E levantaram a banca sendo já dia alto.
O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante, principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente. Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido perguntou com modo achincalhador:
—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo aodemenistrador. O que algunssão é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para lembrança d’esta noite.
Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!
No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava, affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém, esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde principiou a examinar detidamentea melhoregua, para a comprar! Era um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas na anca azevichada e fel-aestremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés até aos cascos, para ver se estavapuchada. Observou-a na dentadura, levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha experimentado, para que o não enganassemoutra vez!...
O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando estrondosamente a sua pitada demeio grosso. O amante da Marianna Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:
—Ó senhor padre! Ella é maluca?
O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente timbrada:
—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah! Ah! Ah!...
Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamentena anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar reviravoltas...
—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres!
O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção simulada:
—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz idéa!
—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de panninho que desdobrára completamente ao ar!
Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as duvidas. Se o Fogueira queria ver,corria-aelle mesmo, padre João Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos, disse-lhe:
—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna.
O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas, passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse:
—Isto é fino meus homes!...
E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas, que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira:
—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente, nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade.
As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhecom intelligencia as redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar bem desempedida acarreira... Depois, quando esse momento chegou, partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores, que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira confessou accenando com a cabeça:
—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!
Outro feirante disse:
—E rica mão de redea!
O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas, que o Fogueira pagou logo.
Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se lhe estava enchendode idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle lhe disse que tinha vontade de ter umaaquellacom o Fogueira, tomou abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia!
Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bemsua prima... Era uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa d’este negocio!...
—Já tubêsque a conheço muito bem, e que até ella tamem pódeentrar na cousa—concluiu com pronuncia intelligente...
Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo:
—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi qualquer dia e ficas a chupar no dedo!...
Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão. Istode amigos, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha visto o que acontecera comoutras... Homens... trazem ás vezes muitos trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem oladrãoandava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade, na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não fosse seu primo, que jurou diante do senhordemenistrador, primeiro, e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia «que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar sem receio; porque ninguem a tinha vistoem todo esse dia, que passára escondida no palheiro do padre... á espera.
A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro como seu amigo, já lhe fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera, nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia, por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que, embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho, estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa. Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha. Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa, cantarolando obemdito, asmodas do Coração de Mariaensinadas pelos ultimos missionarios, e oAfasta janota, arreda... moda dos cegos que tinham estado na ultima romaria doSoccorro. Ai que raiva se lhe apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim, quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada. Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma torteira de barro e saíu para chamarsenhor padre Joãoo seu—rico senhor padre João!—que andava na horta, a regar...
Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo! N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga! Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se espoliada n’um beneficio que lhe pertencia!Em vez de ser a ella que o malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!... Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!...