O REI ABSOLUTO

O REI ABSOLUTO

Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas grossas, os braços grossos, o pescoço firme, o olho penetrante, travesso, audacioso. As suas pestanas finas, grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; as sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se irriçadas, nos momentos de colera infantil, como o dorso de uma hyena.

Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder intimo dos seus musculos; quando principiava a distinguir-se dos outros, a considerar-se pessoa, e que reconhecia, como uma energica qualidade que se impõe, a sua vontade potente e a sua força capaz de executar, o pequeno Emilio quebrou uma jarra de flores, atirando-lhe acintosamente com uma pera, que não queria comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima,castigou-o. Elle que era um rapaz de brio, principiou uma berraria de mil diabos, gritando com perrice, com frenesi, deitado de barriga, batendo no chão com os pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe para o rasgar! Convencionaram calculadamente, a mãe e as creadas, não fazer caso d’elle, deixal-o chorar quanto quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se, contundir-se. Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço que fazia, para assim lhe darem uma lição moral, para o ensinarem a conhecer que as maldades castigam por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, qual lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o ainda mais, e mordia ainda mais nas mãos, batia de cada vez mais na cara, de cada vez dava na cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! Quando a mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, do vão da janella onde costurava, com voz moderada e firme: «deixa que tu has-de-te calar», elle, berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não hei, não e não», continuando intencionalmente o seu choro.

Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, como as vibrações de uma rebeca desafinada; mas depois, com o tempo, como a mãe previra, veio o cançasso, o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, e decaíu gradualmente n’uma voz mais branda, mais enfraquecida, monotona como o som da ultima badalada de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada. Houve até um momento em que chegou a calar-se; porque no chão, adiante da sua cara, umafarmiga-operariaandava lidando na remoção de uma pedra que encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, perdido das suas companheiras, que formavam um longo fio negro, junto da parede, adiantava-se para elle, afastava-se para traz, para a esquerda, para a direita, procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, alguem que o ajudasse. Por fim vieram mais duas, e então principiou uma lucta obscura, mas profiada e imponente, em que tres formigas removiam, com um nobre esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada do que todas ellas juntas.

Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços, com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho:

—Mas sempre te calaste...

Ao que elle respondeu promptamente:

—Mas vou gritar mais.

E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.

Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes, atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e de um verde mais suave.

O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa, meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva, fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo, com os beiços alongados:

—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel!

E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu superior.

Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima, secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira, arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!...

Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos, forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as a tomarem a direcção que desejava.

O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as vaccas...

N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as poças de agua, os pombosque passavam no ar com o seu vôo rapido, as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de espuma. Mas queria possuirtudo, mandar emtudode um modo absoluto, incondicional!

—Se morresse todaessagente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente.

Essa genteeram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que no momento elle ambicionava!...

E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado, as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandezado mundo que via da varanda!

Por fim, absorvidona sua idéa de poderio, de auctoridade, desceu da cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se abria na sala.

Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo n’outra de um velho generaldo primeiro imperio, que faiscava coleras marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez, na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encaroude novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se firme, auctoritario e dominador!

Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com uma expressão mais suave, quando contemplou a cadeira de braços, ondeseu papá, depois de jantar, costumava ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o visto n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto paternal apresentava uma curvatura desleixada, tendo a cabeça caída para o seio, resonando com gravidade e com estrondo. Este quadro simples e familiar impressionara-o sempre, deixando-lhe o desejo de ler o jornal, recostado na cadeira com abandono, como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho na sala, ninguem o poderia impedir... Fechou a porta do corredor com todas as cautelas de um malvado, de um pequeno facinora consciente, para d’esta maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, de fingir que sabia ler o jornal recostado na cadeira paterna!

N’aquelle momento ouviu tossir amamãque estava no quarto proximo e por isso suspendeu, por instantes, a realisação do seu audacioso plano. E, como passado pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, Emilio dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se com esforço, lançando primeiro a perna esquerda, depois a perna direita, ficando primeiro de bruços e chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos joelhos e segurado fortemente com as mãos. Quando chegou a cima e se recostou, a sua respiração era largae profunda, signal de que estava cançado do grande esforço que fizera!

Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um ar orgulhoso e via se que estava bem penetrado da sua importancia fortuita! Fingiu admiravelmente que lia o jornal, movendo levemente os beiços como fazia seu pae, revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça movimentos lateraes apropriados. A final, para completar o quadro, deixou cair com desleixo o papel, entrando resolutamente no periodo do somno digestivo, fingindo com propriedade, um resonar altivo e cheio de insolencia!

Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo as impaciencias naturaes o demorar-se muito, levantou-se em pé na cadeira e desceu para o chão, por um processo inverso ao que empregára para subir. A um lado, sobre uma pequena mesa, estava a bengala e o chapéu do papá. Dirigiu-se intrepidamente a estes objectos respeitados, para os possuir. Poz o chapéu na cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim defumado e desejou passear ao longo da sala com porte altivo, com importancia natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe até aos hombros e, quando pretendeu dar passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou e caíu de bruços.

Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera e retomou um aspecto imponente e auctoritario. Principiou a andar no comprimento da sala com o corpo direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente levantado para agarrar no castão da bengala, o que, decerta maneira, lhe dava a parecença de um menino dependurado.

Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por ter caído de bruços, quiz exercer a sua auctoridade incontestada, o poderio absoluto de que se achava possuido, sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se de tombar as cadeiras, quebrar os vidros,atirar abaixo aquelles homes. E os seus grandes olhos energicos fixaram-se com arreganho, com altivez sobranceira nas estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre a pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio napoleonico, com todo o seu conjuncto marcial—a espada triumphante, os bigodes magestosos, as rugas severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente os olhos e a reflectir durante momentos. Porém, Christovão Colombo, com o seu rosto suave de uma bravura serena e consciente, não o intimidou, e por isso, Emilio, o fixou com mais confiança, com menos susto. E como o descobridor da America tinha na mão esquerda um globo, na qual apontava resolutamente com um ligeiro sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o pequeno,para se metter com elle, fez-lhe este pedido exigente:

—Dás-me essa cousa?

Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. Emilio repetiu imperiosamente:

—Dás ou não dás? Olha que tu...

E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala.

Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, e o pequeno julgando-o um signal desprezador do seupoder, pareceu-lhe provocante. Por isso o olhou com mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual phrase de seu pae:

—Então vae lá para dentro.

Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas, nem evasivas, conservou-se n’uma attitude ameaçadora, com a bengala paternal no ar, agarrada pelo castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor da bola:

—Não vaes? Arrumo-te.

Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia passiva de um ser inanimado. O pequeno Emilio vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel, atirando-lhe á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no chão quebrando-se com estrondo em mil pedaços!... A cabeça, os braços, a bola, separaram-se! O pequeno facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com um sentimento de vingança satisfeita!

Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo este barulho, correu á sala para averiguar o que teria sido. Vendo a estatueta quebrada e seu filho encostado á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou instinctivamente:

—Ah! grande maroto que ahi vem o papá.

Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança:

—Ora!... eutamemsou papá.

FIM


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